O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


quarta-feira, 28 de abril de 2010

Miguel Real, na ESE de Setúbal

Clique na imagem para ampliar. Depois se colocar o ponteiro do rato em cima do cartaz pode aumentar o tamanho da letra do texto.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
III

-Vocês desculpem, mas como devem perceber eu não pude deixar de escutar a vossa conversa que me deixou cheio de interesse, tenho que dizer e é de tal maneira assim que eu não resisto a intrometer-me para dizer que acho bastante pertinente o ponto de vista do seu amigo quando ele fala da ousadia do poeta em querer criar uma obra. Devo confessar que nunca tinha visto o Pessoa dessa perspectiva mas, com toda a sinceridade, acho-a muito engraçada e sinto-me um tanto ou quanto tentado a concordar plenamente com ela.
-Bem, daquilo que eu conheço da obra e das poucas referências biográficas de que tenho conhecimento é isso que eu acho que tudo leva a crer. Modéstia à parte, é essa a minha convicção, embora saiba que não se pode dizer que seja um estudo muito aturado do problema. Eu nem mesmo sou perito na matéria. É o meu ponto de vista, tão simples como isso.
-Sem dúvida alguma. Se conjugarmos a vida que ele levou com a dimensão e a profundidade do trabalho que elaborou, ai é muito plausível concluir que inclusivamente ele acabou por escolher a vida celibatária, digamos assim…
-Solitária, será melhor dizer. Celibatária também pode querer dizer castidade e pessoalmente não saberei dizer se se pode falar disso em termos de facto.
-Seja. A vida solitária que ele acabou por escolher seria a única que seria compatível e portanto a única que seria possível para quem realmente pretendesse elaborar uma obra como aquela que ele, de facto, elaborou. Por outras palavras ou dito de outra maneira se considerarmos que ele efectivamente teve a intenção de produzir, de escrever uma obra literária, então percebe-se a opção por permanecer solteiro e, se virmos bem, isso até está de acordo com um outro facto que nenhum de vocês referiu e, se me permitem, foi a sua eterna condição de viver apenas com e de trabalhos precários, digamos assim, o que, manifestamente para mim, se tratou de uma escolha, pois o homem, se quisesse ou se tivesse querido que é melhor assim, com certeza que ele teria a inteligência suficiente para desempenhar uma profissão e conseguir com isso um sustento normal e regular. Como creio que devem saber, a verdade é que o Pessoa sempre viveu de tarefas precárias…
-Até é sabido que muitas vezes chegou ao ponto de ter que pedir dinheiro emprestado aos amigos tanto para comer como para pagar a renda da casa.
-Bem, tenho que admitir que no que se refere a isso que diz da relação entre a preferência pela vida solitária e a intenção de criar uma obra, há certas parcelas de textos, creio mesmo que em poemas, em que ele explicitamente fala na pequenez de uma vida vulgar de uma família normal e da incompatibilidade que isso representa com a intencionalidade de cumprir as potencialidades mais elevadas do ser. Até mesmo se considerarmos as biografias de outros artistas, por exemplo pintores, mas também até ao nível dos cientistas, creio que tu saberás isso até melhor que eu, mas se nós virmos a vida de muitos artistas ou de cientistas, aquilo que verificamos muitas vezes é que eles acabavam por não serem compatíveis com essa tal vida familiar normal. O Picasso, por exemplo, não admitia que o interrompessem quando estava a pintar e que se comportava como o centro do universo em que tudo tinha que se submeter à lógica dos ditames da sua veia criadora. O Einstein… Divorciou-se e deixou dois filhos ao encargo da mãe que fora sua colega de curso e era tão boa física quanto ele.
-Nesse aspecto uma honrosa excepção foi o Darwin que soube compatibilizar o seu trabalho com o equilíbrio de uma família numerosa e feliz se bem que as circunstâncias de que partiu fossem francamente favoráveis. Ele era filho da burguesia culta da época vitoriana, isso é um bom ponto de partida, mas não deixa de ser por isso uma honrosa excepção a esse individualismo –nem sei se lhe pode chamar assim- esse individualismo de que falas.
-E foi isso de que o Pessoa também se apercebeu e por isso o ter optado por essa tal vida solitária, essa vida de solteiro. Mas tenho que admitir que sim, isso seria uma boa pista para podermos entender que ele, pelo menos a partir de um certo momento, ganhou consciência e formulou a intenção de criar uma obra literária, se não nos moldes, no mínimo em que falou disso.
-E foi essa a sua grande ousadia.





-Sim, terá sido como dizes. Com efeito até houve aquele episódio da Ofélia.
-Que deve dizer-se em abono da verdade, até nem sabemos se não terá sido mais uma das suas invenções.
-Achas?
-É bem possível. Sabes que no Fernando, esses pormenores da vida quotidiana podem muito bem terem-se misturado com a ficção. Afinal lá está a história do poeta fingidor que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
-Mas ao que parece terá existido mesmo alguém. Ofélia até pode ter sido um nome inventado, mas tudo indica que terá existido mesmo alguma mulher, uma Ofélia, se quisermos.
-O que eu ia a dizer é que esse episódio da Ofélia revela que ele poderia ter escolhido uma vida de casamento e o que é certo é que não o fez. Não me custa muito a acreditar que ele possa ter reflectido sobre isso e friamente ter chegado à conclusão de que não tinha quaisqueres condições para seguir um caminho desses.
-A começar pelo facto de não ter uns míseros cinco tostões para mandar cantar um cego, que era o que realmente poderia retratar a sua situação.
-Mas lá está aquilo que disse de ele se ter contentado com uma existência feita com base em trabalhos precários. O homem vivia de escrever cartas comerciais e fazer traduções de correspondência com empresas estrangeiras. Com toda a certeza que se tivesse ambicionado mais o teria conseguido. Ele era um homem inteligente e atenção que era uma pessoa com estudos superiores, não era propriamente dito um pobre diabo sem a menor competência para fazer qualquer coisa mais rentável. Optou por esse estilo de vida porque de certeza terá percebido que, apesar de tudo, essa seria uma maneira, se calhar dentro das que estariam ao seu alcance, a melhor que encontrou pata ter tempo e espaço mental para pensar e escrever a obra que produziu. Acontece que não estou muito bem a ver um homem preocupado em ganhar o sustento para os filhos e em criar uma família e ao mesmo tempo ter toda a disponibilidade para produzir tudo aquilo que ele deixou escrito. Tenham em consideração que ele até nem durou assim tantos anos como isso. Mesmo para os padrões da média de idades da época, eu acho que se pode dizer que ele morreu novo. Caramba, tinha quarenta e seis anos quando se foi, não é assim?
-Isso é verdade e ele tinha perfeita consciência que mal ganhava para se sustentar, quanto mais para ainda ter outras pessoas a seu encargo. É bom lembrar que para os bons costumes de então, as mulheres de uma certa classe permaneciam em casa, não trabalhavam e isto para sequer considerarmos outras despesas, como eram os casos das criadas que certas famílias costumavam ter.
-Pois é tudo isso que faz parte dessa ousadia que é o que mais me impressiona. Vendo bem, o homem pura e simplesmente decidiu levar uma vida de poeta. Ele não decidiu ser apenas poeta, ele foi mais longe, decidiu viver como tal e, para que essa vida fizesse sentido, como não podia ser de outra maneira, ele decidiu que da mesma deveria resultar uma obra completa e que necessariamente tivesse vulto, pelo menos algum vulto, na história da literatura. Vê lá se não te parece que há alguma razão naquilo que digo.
-És capaz de ter razão, sim senhor. Pessoalmente começo a estar de acordo contigo. E não é por acaso que tem vindo a ser considerado uma pena muitíssimo singular, até no domínio da literatura mundial. Quer dizer, especialmente a esse nível da literatura mundial.
-A começar logo por aí, pela coerência global da obra. Mas isso, sobretudo pela questão da heteronímia.
-Eu não tenho a mais leve ideia do que possa ser a literatura mundial que certamente ignoro na sua vastíssima maioria, mas tanto quanto sei, se não for o único será um dos muitíssimos poucos poetas que inventaram heterónimos…
-Eu não conheço nenhum outro caso que a esse nível se lhe possa comparar.
-E provavelmente ainda menos algum outro terá juntado a isso a vontade de criar com eles uma unidade que perfizesse e que no caso dele perfaz, de facto, uma obra literária…
(CONTINUA)

Nossa Língua Portuguesa...!

Introdução à conferência “A Língua Portuguesa como
factor de integração e formação da Nação Lusíada ”,
proferida na XXII Convenção Internacional de ELOS, 1999.


É sumamente prazeroso discorrer sobre uma língua falada por cerca de duzentos milhões de pessoas em todo o mundo. Língua nascida no velho Lácio e cultivada, trabalhada, burilada e defendida ― ao longo dos séculos ― por luminares da cultura lusíada como Camões, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Padre Antônio Vieira, Machado de Assis, Olavo Bilac, Castro Alves, Fernando Pessoa e o Nobel José Saramago, entre tantíssimos outros.

Assim, atendendo ao honroso convite do (então) Presidente de Elos Internacional Máximo Donoso, preparei um singelo texto sobre NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA, como falada nos dias actuais. Mas, como no global world, assim como neste nosso happening, “time is money”, redigi apenas um short speech.

A propósito, pouco antes deste morning meeting ― logo após o breakfast ― fui abordado por um repórter, logo ali entre o hall e o living. Veio pedir meu script para inseri-lo em seu house organ. Na realidade, trata-se de interessante newsletter, cujo mailing list é tremendamente “in”, incluindo shopping centers, head offices, commercial boards e business points.
Respondi-lhe que tudo estava no press release, distribuído por e-mail, e disponível no site da internet. Como ele comanda um talk show, insistiu em obter uma interview ou, ao menos, uns flashes.
Disse-lhe “OK”, eu o atenderia junto ao staff da mass media, no coffee-break ou durante a happy hour. Chamei então o boy e pedi-lhe que avisasse o public relations e o barman de que usaríamos a sala Vip, ao lado do night club, perto do play ground. O ambiente deveria ser light, com appetizers, sandwiches, soft drinks e scotch ― tudo self service ― aproveitando tanto o layout como o merchandising do show room, com música de DJ , jazz band e um big crooner.
Quanto ao meu paper, como não tem copyright, pode ser reproduzido ― sem royalties ― por fax, por xerox ou pela media...

“At last but not at least”, admito que este starting point, este beginning, pode soar algo forçado e snob, merecendo até figurar no Guiness Book por seu record de English words. Retrata, porém, com soft jockes, no american style, nossa permissividade diante da contínua e avassaladora invasão de termos alheios às nossas raízes, estranhos à nossa tradição e avessos à nossa cultura latino-lusíada. Não se trata de xenofobia cega: não como negar a existência de vocábulos estrangeiros ― principalmente em áreas técnicas ― absolutamente indispensáveis e intraduzíveis.

Ao uso destes, somente, deveríamos nos restringir.

Não seria o caso de se adoptar o mesmo princípio do intercâmbio comercial, em que leis específicas protegem o produto nacional contra a importação de similar estrangeiro?

Haveria, assim, a convivência harmónica e salutar entre os termos alienígenas e os vernaculares. Que diremos, pois, em conclusão:
― Adeus aos estrangeirismos supérfluos?
ou
― Bye bye à Língua Portuguesa castiça?

João Baptista de Oliveira
Consultor Empresarial e Educacional, Advogado, Jornalista e Escritor
Governador 1997-99 do D2 de Elos Internacional
www.jboliveira.com.br
26/4/2010
in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

Nota do editor: Editamos este textinho de fina ironia também porque "I got a feeling"... que anda por aí alguém de muita responsabilidade com um sentido de modernidade muito duvidoso.

domingo, 25 de abril de 2010

Apresentação da revista ENTRE e do livro Uma Visão Armilar do Mundo



Car@s Amig@s

Convido-vos para a apresentação do número 1 da revista ENTRE, por Frei Bento Domingues e Miguel Real, em conjunto com a apresentação do meu livro Uma Visão Armilar do Mundo, por Paulo Teixeira Pinto. É no Iade Chiado Center, na Rua do Alecrim, 70, no dia 27 de Abril, pelas 18.30.

A revista Cultura ENTRE Culturas é uma revista internacional e intercultural que publica ensaio, poesia e fotografia. Integra neste número inéditos de Vilém Flusser, François Jullien, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, Raimon Pannikar e Agostinho da Silva. Publica fotografia de Beat Presser, Ilda Castro, Francisco Soares e Adama. E muito mais.

Apareçam e divulguem. Assinar a revista é ajudar a viabilizar um projecto de qualidade, destinado a estabelecer pontes, diálogos e mediações entre todas as culturas planetárias, como contributo para uma Cultura de paz, compreensão e fraternidade, extensiva à natureza, ao homem e a todos os seres sencientes.

Saudações fraternas

Paulo Borges

arevistaentre.blogspot.com
revistaentre2010@gmail.com

sábado, 24 de abril de 2010

Fórmula Feliz


Ao partir deixou o pombo uma carta na janela do meu quarto. Anunciada a manhã, cresce o burburinho das pessoas na rua onde vivo e a carta essa, intacta na janela ansiosa pelo meu acordar.

Já calçado em meus chinelos perfeitos o dia renasce com quatro bolachas, um copo de leite e um lavar de dentes asseado, como se a casa onde vivo ditasse com ironia as regras e deveres de um lar. Deambulando pelo escritório o meu corpo envolve-se no aconchego dos livros, pois é a parte da casa onde se escondem as extensas ideias das suas quatro assoalhadas.
De certo modo há coisas que um homem faz sem pensar ou não pensando que as está a fazer inconsciente. Nisto montado em meus chinelos perfeitos que me fizeram o favor de caminhar de volta ao quarto, dou de caras com um envelope na janela, reflectindo a luz solar que marcava quase meio-dia. Com o pasmo sobre a minha face, pensei que o carteiro ao não lhe abrirem a porta do prédio, por esquecimento ou coisa que o valha, tivesse a gentileza de colocá-la sobre o parapeito da janela. Com minhas mãos abri o envelope que quanto mais incógnito ele era mais o meu coração dava coices ansiando pular a cerca.

(criança + amor) . 2 + adulto - (raiz quadrada +/- Forma) = Liberdade Adulta

Atónito, baixei os braços focando um ponto no espaço pensativo. Dentro de meu crânio só havia lugar para duas questões, quem tinha escrito tal coisa e o que quereria ela dizer; bom fosse quem fosse não poderia deixar assim o assunto, tinha de aparecer ou dizer qualquer coisa mais. Depois de ter continuado a pensar e olhar uma vez mais o dito cujo pus-me, com ironia, a tentar resolver o enigma, pois não passava disso mesmo, um enigma. Eu próprio parecia uma filarmónica, tocando em seus instrumentos a música com que a razão decifrava o código.
Passado uns dias de ter recebido a carta e sentado na poltrona de leitura, fez-me sentido olhar para uma moldura em cima da mesinha que a sustentava, essa moldura continha a fotografia do menino que eu era e que o tempo fazia o favor de apagar. E com três anos apenas o sorriso que brotava ao flash da máquina, fazia com que o menino ganhasse uma suprema dimensão celestial.
A fórmula continuava pousada sobre as minhas coxas, como um pássaro que raciocina alimento. E ao ver que criança é a primeira palavra que diz na equação juntando-se ao amor, sozinhos (dado estarem limitados por parêntesis), começo a compreender o quebra-cabeças.

Ora, criança e amor vezes dois, porque o amor da criança é redobrado, mais adulto, pois uma criança cresce fazendo-se como tal, menos a raiz aproximada da forma que neste caso é defesa que um adulto adquire perante os problemas da vida. Ou seja, é um escudo para saber lidar com o mundo, acabando assim formatado a um dado meio.
Esta “forma”, segundo estou a perceber, tem influência na nossa paz de espírito, pois rouba muito daquela alegria que tinha o meu sorriso aos três anos de idade. Mas como já não sou nenhuma criança é preciso um pouco de consciência adulta para saber lidar com o meio que nos rodeia, daí ela se encontrar com uma raiz quadrada precedida de um sinal de “mais ou menos” isolando-se assim do resto da equação.
Para estar bem comigo mesmo, tenho que me libertar de vez em quando dessa “forma adulta” dando asas para a minha criança interior voar como uma ave.
Com isto concluo que brincar, chorar, rir e sonhar não é só para as crianças, os adultos têm tanto direito como elas, só que têm é talvez ………Não sei. É necessário ter sempre presente o menino que paira em nós e assim ser, com q.b de norma, uma criança madura.
É desta forma que o universo se abre sobre mim, conseguindo sonhar perante as suas leis e assim alcançar aquilo que mais sagrado há na vida, ao qual chamo Liberdade.

O suor ia-me saindo pelos poros pensando sentado naquela poltrona, o escritório esse resplandecia na luz do sol que lhe penetrava. E todos os livros que me rodeavam resumiam-se aquela carta, e em seguida pensei em quem a teria mandado. Seja quem tiver que tenha sido - vizinhos, carteiro ou putos na brincadeira, ou se calhar até podia ser Deus num gesto de perfeita harmonia com o homem, já que é famosa a sua existência.
No relógio de parede a badalada das seis batia com uma pontualidade inglesa. E eu, levantando-me do sofá ergui o corpo ao alto, espreguicei-me e parei de pensar, o que me levou a ir para o quarto dormir, descansar ou qualquer coisa do género.
Pela janela do quarto o ar entrava primaveril e o céu aspirava a pôr-do-sol, tal fenómeno fez com que apoiasse os braços no parapeito e respirasse com um sabor quase infinito a fragrância que a natureza trás com ela. Olhei novamente para o céu naquela esplendorosa tarde e um bando de pombos cruzava a minha cabeça apreciando as acrobacias de seu voo. - OOHH que giro. É raro aparecerem por aqui pombos! Bom, vou-me deitar.

Um pombo pousava calmamente na janela e dentro do quarto o voo do homem já ia alto. A mancha de céu azul dava agora lugar às estrelas, e quando a lua apareceu o pombo dormiu em descanso, sonhando com o homem que já andava para lá do que era eterno.

Diogo Correia
22/04/2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Português de Castela

São infelizmente poucos os portugueses que conhecem que a raia leste de Portugal não é exatamente uma fronteira linguística, que a fronteira política deixou em Espanha territórios bem portugueses onde a nossa fala vive em estado de depauperação.

Estou-me referindo aos concelhos espanhois de Olivença e Tálega (a Olivença portuguesa) ocupados por Espanha em 1801, e que a pesar de ser mandato do tratado de Viena de 1815, o seu retorno à pátria, seguem ocupados e o português neles perseguido. Os territórios de Valência de Alcântara, Ferreira de Alcântara e Cedilho que cantou Pessoa, - e que bem se lembrou deles Afonso V ao assinar Portugal um tratado secreto com Filipe de Anjou, (neto de Luis XIV da França), intervindo Portugal a troca desses territórios, na longa guerra de sucessão em apoio do Bourbon, frente ao aspirante austríaco-; porém, obtida a vitória polo Bourbon (Filipe V da Espanha) este negou-se a cumprir o tratado –não tornando esses territórios bem portugueses a Portugal-, comportando-se assim dum jeito muito espanhol. Estão logo os territórios do vale do Xalma- concelhos espanhois de Valverde do Freixo, Sam Martim de Trevejo, e Eljas. Mais ao norte estão os concelhos de Almedilha e Calabor. Todos esses territórios são contíguos de Portugal e afastados geograficamente das falas galegas do português, ainda que a pressão do castelhano e a sua imposição, dá a estas falas uma farda muito galaica.

Um grupo de professores galegos membros do coletivo glu glu, realizaram um interessante filme sobre esta realidade, que pode ser adquirido na Loja on-line imperdível, e que estou seguro vai ser todo um descobrimento para o público português em geral, e para entender de jeito muito mais claro que as falas galegas são parte da sua própria língua.

O documental é acompanhado com outro DVD com dados, inclui uma entrevista -de muito interesse- com um professor da universidade de Vigo – Henrique Costas-, que seguindo as teses espanholas, defende que as falas galegas não são português e por tanto algumas das falas portuguesas da raia leste e pela mesma razão -são galegas- é dizer espanholas (e não portuguesas)

A obra é uma pequena joia que vai servir para os portugueses recuperarmos algum aspecto da complexidade da nossa formação nacional, pois a fronteira do tratado de Alcanhizes não é exatamente uma fronteira linguística.

Só mais uma cousa, se o português destes territórios vive uma dura situação, onde pior está, é no mais recente território roubado de Portugal –Olivença-, onde se empregaram a fundo os espanhois com -jugo e vara- para apagar a nossa língua.

Alexandre Banhos Campo
in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"AQUA" (Menino que rega os sonhos da sua inocência...)
De onde vem este cântico?
Que me embala o sono, suavemente
Será a voz de Deus ou o sussurro da fonte?
Mistério em movimento, linguagem do Céu

Estou só, em abandono penitente
Ausente por amor à raça
Perene no susto, suspenso no canto
Antepassados a surgirem no nevoeiro

Ergo o padrão do silêncio
Em pedra fria e musgosa
As ervas crescem na solidão

O mistério vagueia algures pelo Céu
Distingo-lhe a sombra possante
De onde vem este cântico?

in, A contemplar a Prímula (inédito)
João Raposo Nunes

terça-feira, 20 de abril de 2010

Uma visão armilar do mundo


"É o símbolo holístico da Esfera Armilar que - numa era celebrada como multicultural, mas ainda tão falha de uma visão real da interdependência ou do entre-ser universal de todos os seres, povos, nações, saberes e culturas - invoco como paradigma plenamente actual e contemporâneo de um destino por cumprir, de um potencial em aberto, de um chamamento urgente, vindo do mais fundo sem fundo de cada um de nós e do qual depende hoje a própria sobrevivência humana, a biodiversidade e o equilíbrio do planeta: ver e experimentar o mundo divinamente, ou seja, integralmente, sem cisões, exclusões ou parcialidades" (Prefácio)

Curso livre sobre o meu livro "Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva" (Lisboa, Verbo, 2010), na Associação Agostinho da Silva, 21, 28 de Abril, 5, 12 e 19 de Maio, das 18-20h.
Rua do Jasmim, 11 - 2º (ao Príncipe Real, Lisboa)

Paulo Borges

Inscrições: agostinhodasilva@mail.pt / 967 044 286 / 918113021
HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
II


A timidez da sombra da arcada paralela à piscina, trepada de heras a partir dos canteiros em redor de um dos pilares.

-Mas voltando atrás, àquilo que eu estava a dizer. Eu acho que não interessa o que o possa ter levado a escrever coisa que seguramente terá partido de um impulso interior aliás, como geralmente sucede nestas situações.
Aquilo que eu defendo é que a partir de uma determinada altura que pessoalmente não saberei precisar, pelo menos aqui e agora, apesar de me parecer que não deve andar muito longe desse mesmo ano de mil novecentos e catorze, de alguma maneira ele deve ter percebido que haviam algumas inquietações que eram as que mais lhe ocupavam o espírito e até seriam, com certeza, aquelas que mais o interessariam, mas ele deve ter percebido isso e então terá decidido que uma boa maneira de tratar essas preocupações seria dar voz a várias pessoas que interpretassem diversas perspectivas, mesmo que em conflito entre elas e foi isso que abriu a porta para os vários heterónimos, especialmente os três mais importantes ou, se quiseres, os mais famosos. Até deve ser notado que ele entendia o indivíduo como uma multiplicidade de eus…
-Sim, ele escreveu isso. E até defendia que sendo o dever do indivíduo cumprir-se, isso implicaria o dar voz a essas diversas manifestações do ser.
-Pois, mas no “Livro do Desassossego”, o Bernardo Soares volta a colocá-las.
Neste sentido, esses tais primeiros textos de que falaste seriam, no contexto da tal obra pensada, como eu sugeri, esses primeiros textos seriam uma espécie de trabalho preambular, se é que é possível falar assim neste caso concreto.
-E como é que conjugarias aí um indivíduo como o Rafael Baldaia que escrevia cartas astrológicas e revelava uma visão… Nem sei como definir, esotérica será o termo? Ora bem, como é que conjugarias isso com um sujeito como o Rafael Baldaia?
-Cartas astrológicas e não só.
-Pois, há até aquele texto da serpente, não é? Aparentemente um texto enigmático.
-Pois, como é que eu conjugaria isso… É como tu disseste, uma espécie de texto esotérico, quase diria iniciático; não é nesse sentido que fazes a pergunta?
-É.



-Pois bem, eu conjugo isso precisamente a partir desse pressuposto que ele tinha de o Ser ser múltiplo e de achar que era dever de cada um o dar cumprimento, quer dizer, dar expressão, deixar que isso acontecesse, deixar que cada diferente manifestação do Ser tivesse visibilidade, se expressasse. Ele concebia o indivíduo precisamente nessa variedade, na complexidade dessa variedade. Ele não concebia a pessoa como sujeito de um percurso unilinear. Esses, para ele, se quisermos usar uma expressão dos nossos dias, mas já antiga, esses seriam a gentinha. A realização de cada um seria o dar vulto a essa multiplicidade contida dentro de si. Nesta medida e tirando as consequências desse seu ponto de vista, ele tomou para si o imperativo de deixar que esses diversos eus que continha dentro de si se materializassem através do que pretendia escrever. Eu não sei se se poderia aqui falar até de diferentes personalidades mas acho que não. Mas o que interessa é que ele pôs em prática aquilo que pensava, isto é, procurou e conseguiu dar voz a esses diversos seres que tinham vida dentro de si.
Então eu diria que o Rafael Baldaia se tratou de um outro eco do problema central de que falei. Mesmo perante a própria abordagem astrológica, não podemos esquecer que ele tinha uma vertente esotérica que me parece não ser desprezável mas que ele deixou que se expressasse nos seus textos justamente por ter o propósito de dar voz a diversas perspectivas, a diversos pontos de vista que, na sua maneira de ver, pelo entendimento que ele fazia das coisas, seriam diferentes maneiras de tratar os problemas que julgava valerem a pena de serem considerados. Não sei se me estou a fazer entender.
-Mas ainda não conseguiste convencer-me. Pelo menos até ao momento.
-Mas pelo menos concordas que há essa tal confluência das diferentes perspectivas do problema central do sentido do ser. Quer dizer, pelo menos admites que isso acontece.
-Posso concordar com isso. Não vejo qualquer impeditivo para tanto. Mas ainda assim, há o problema da portugalidade, se quisermos até do nacionalismo…
-No qual aquela inquietação metafísica se encaixa, pois os portugueses seriam precisamente um povo que estaria destinado a cumprir o destino do homem, perdoe-se-me a redundância. Ora se ele achava que o ser se devia cumprir na sua multiplicidade e se ele tinha consciência de o conseguir fazer, ele ser educado na cultura e na língua portuguesa –mesmo dando de barato que ele era, na realidade, bilingue- conseguia-o naturalmente por isso mesmo. Daí à generalização não seria preciso muito e a verdade é que ele via os portugueses como aqueles que poderiam levar o Homem a cumprir-se.
-A questão do quinto império.
-Sim.
-Mas é uma boa resposta, tenho que admitir.
-É, claro que é. E já reparaste num pormenor que embora nada tenha a ver com a escrita, propriamente dita, funcionou como uma peça que faltava para podermos sustentar esta minha ideia de um propósito consciente de criar uma obra?
-A que te referes?
-Repara que o homem dedicou o melhor das suas energias a escrever os seus trabalhos. É quase como se ele tivesse vivido só para isso. É precisamente nesse aspecto que eu falei na ousadia dele em pretender criar uma obra e diga-se com toda a justiça que o conseguiu fazer, mesmo apesar de ter morrido razoavelmente novo.

(continua)

domingo, 18 de abril de 2010

Cavaco e a Nuvem




Cavaco, o Campeão Nacional do Bolo-Rei, depois de ter sido enxovalhado por Václav Klaus, enceta o Êxodo da República Checa fugindo da "Nuvem", em excursão "épica" pela Europa, recheada de deliciosos episódios folclóricos tão à maneira Lusa, pelas lojas de conveniência das áreas de serviço por onde vai passando a comitiva.

Não estou desiludido com Cavaco, pois não votei nele, obviamente - tão somente indignado com a falta de postura do mais alto representante da Nação de que faço parte, o qual tem o dever perante o seu Povo de exigir respeito pelo seu País, ainda mais no que toca a um parceiro da mesma (triste...) União.

E o meu problema com Klaus nada tem a ver com o seu eurocepticismo - seguramente mais eurocéptico sou eu, sem qualquer dúvida de que a UE não passa de um dos maiores embustes da História, um plano para "federalizar" toda a Europa e constituir um Império governado pelos bancos e pelas famílias poderosas dos países ricos, oferecendo aos países periféricos um
pseudo-estatuto de protectorados e exigindo em troca a destruição das suas economias de mais ou menos subsistência, mas transformando-as em zonas-tampão de "amortecimento" de qualquer ameaça externa; isto tudo com a conivência das cliques dirigentes dos países "anexados", constituídas por gente pouco recomendável; neste campo, nós portugueses não temos nada a aprender, somos os melhores exemplos desta estirpe - tem antes a ver com a "Nuvem" que nos tem perseguido ao longo da História, permitindo que todos nos olhem de forma sobranceira, paternalista, jocosa, a "Nuvem" que insistentemente nos instila um complexo de inferioridade, controlando-nos a vontade e a dignidade, conduzindo-nos inexoravelmente à escolha de um Chefe de Estado, nosso representante no Mundo, à nossa escala intelectual e moral porque a nossa visão a mais não permite.

Mas mesmo assim, por muito pecadores e coniventes com a situação que tenham sido (e foram-no, sem qualquer dúvida...) os anteriores Presidentes da República do pós 25 de Abril, não estou a imaginar Soares nem Sampaio ouvindo o que Cavaco ouviu, sem darem troco, sem responderem à letra, sem exigirem respeito, no mínimo, formal...

Cavaco confirma aquilo que lhe disse Soares no debate para as presidenciais: que ele era um homem sem perfil para Presidente, pois não sabia abrir a boca para nada, fosse em que lugar fosse. Eu, pelo menos desta vez, concordo com Soares, mas acrescentando uma excepção: a menos que haja Bolo-Rei...

Raul Costa
Alhos Vedros, 18 de Abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Limpeza de Primavera


Paula Soveral

A Primavera é a época ideal para limpezas e desintoxicações.

Quando se fala em limpeza de Primavera, vem-nos logo à ideia fazer limpezas grandes na casa, dar volta aos armários e livrarmo-nos do excesso acumulado durante o Inverno. Damos sacos de roupa para as igrejas ou outras instituições, deitamos fora coisas em mau estado e sem utilidade, reciclamos, partilhamos roupas e utensílios com quem mais necessita, arrumamos as roupas de Inverno e pomos mais à mão as roupas de Verão, e até as mantas e édredons vêem os seus dias de “serviço e conforto” contados para serem lavados, arejados e arrumados até à próxima estação fria. Ficamos com a casa e com os armários mais livres e limpos, cheirando bem, cheirando a Primavera!

Também sabemos que a Primavera é a estação ideal para proceder a desintoxicações e libertar o corpo dos excessos do Inverno que puxa a alimentos mais quentes, gordurosos, aos doces e compotas, etc… Normalmente o Fígado fica sobrecarregado e chegando a estação que lhe corresponde, há uma tendência natural para rejeitar alimentos gordos e nos apetecer frutos frescos, sumos naturais, saladas (já que a alface é um legume próprio da Primavera) e, no geral, refeições mais ligeiras.

Do mesmo modo, devemos aproveitar esta estação para proceder a uma limpeza global. Não nos limitemos à limpeza material da casa e armários, à limpeza corporal eliminando resíduos tóxicos do organismo e aproveitemos a onda primaveril para reflectir em nós. Para nos centrar, meditar e olhar para dentro.

Façamos um tempo de paragem e observemos: (1) como está o nosso físico (que é sempre um reflexo do nosso estado psicológico), (2) como está o emocional e (3) como está o mental? Sem pressas, com muita gentileza e sem culpabilizações, observemos apenas como estão os nossos padrões emocionais e mentais. Ao que é que estamos apegados? Ao que é que resistimos? Do que temos medo? O que nos está a ser exigido do exterior e nos incomoda? Porque nos incomoda? Porque a mudança nos assusta?

Analisando os diversos padrões pelos quais nos movemos, deparamos muitas vezes com crenças rígidas e obsoletas que em nada nos beneficiam. A inflexibilidade traz doença. Sendo a Primavera uma estação de energia ascendente que apela à mudança, à flexibilidade, ao novo, tenhamos a coragem de nos renovar, nos libertar dos padrões “enquistados” e fazer uma limpeza energética e psicológica que em muito nos irá beneficiar. Atrevermo-nos a ser novos e renascidos, seguindo o apelo da Primavera e da Páscoa, pode ser uma aventura enriquecedora e deliciosamente fascinante. Tenhamos a coragem de abrir as janelas da nossa mente para deixar sair as teias de aranha e entrar o ar fresco primaveril que tem o poder de nos renovar. Deixemos lamentações e medos de lado e optemos por frases apelativas e positivas. Digamos a nós próprios todos os dias que nos amamos, que somos gratos por tudo quanto existe e deixemos que a energia de um coração vibrante tome conta de nós!

Lisboa, 15/abril/2010

Paula Soveral
tlm: 93.6423440
www.paulasoveral.net

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Conselho Editorial deixa umas flores de boas vindas com as cores da nossa Primavera para a escritora/poetisa brasileira, mineira, Fernanda Bião.

Desassossego

Fernanda Leite Bião


Tem algo que me incomoda! Eu mexo pra lá e pra cá, me agasalho, estico o corpo, fecho os olhos.
E, depois da realização de todos estes rituais, descubro que precisava fazer a conexão entre os meus olhos e o meu coração.
Lágrimas descem e percorrem meu rosto. Sinto o movimento quente e frio.
Meus olhos não têm a mesma claridade.
E meu coração descompassa e a cada suspiro procura voltar ao seu equilíbrio normal.
Uma alma nunca é uma alma só, mas precisa seguir seu trajeto solitário.
Os caminhos são diversos, as estações do ano mudam, as estações da vida se transformam.
Tenho medo de acordar e descobrir que ainda não tenho identidade.
E que a ânsia de descobrir o que sou me desviou do caminho que me levaria à minha própria descoberta.
Palavras são sinais de vida, palavras são sinais.
Deixo aqui minhas palavras, deixo aqui os meus sinais.
As lágrimas ainda teimam em cair, o coração mais aliviado agradece a oportunidade de ser escutado.
HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL




por

Jasmin D'Água







Para a

Anabela de Sousa Diogo,

pelas conversas de que mergulhei

nesta aventura de querer escrever uma obra literária.







I






A transparência do azul de uma piscina tremente, pela refracção de rasgos amarelados, serpenteando, no fundo. Pairando, o zumbido da quietude.

-Sabes o que é que mais me impressiona nele?
(…)
-A ousadia.
-A ousadia?
-Exactamente. A ousadia.
-Como assim? A ousadia em que sentido?
-No sentido em que ele quis fazer uma obra e fê-lo.
-E achas isso uma ousadia?
-Acho, na medida em que ele teve a intuição de uma determinada problemática, teve consciência de que a poderia tratar de alguma maneira, quer dizer, com certeza que percebeu ou sentiu que poderia dizer alguma coisa a esse respeito, sentiu que tinha um ponto de vista próprio e concebeu uma maneira de abordar e expressar uma tal temática que implicou que ele fosse capaz de construir uma série de trabalhos literários, não tão simples de fazer como tudo isso e ainda mais incertos quanto ao seu desfecho e que no conjunto se teriam que materializar numa verdadeira obra literária, por sinal, significativamente vasta e cheia de complexidade.
Ora temos de convir que isso é uma ousadia de todo o tamanho. Não achas o mesmo?
-É, nesse sentido é uma grande ousadia. Seja como for, estás mesmo convencido que houve esse propósito explícito de produzir, quer dizer, criar uma obra?
-Sim, estou convencido disso.
-Expressei-me mal. O que eu queria dizer era um propósito intencional. Parece-te que houve mesmo esse objectivo intencionalmente definido de criar uma obra?
-Sim. Acho que foi isso mesmo que aconteceu. Considerando todo o trabalho dele que, devo dizer, não tenho a veleidade de pretender que conheço na íntegra, mas considerando o todo que eu conheço do trabalho dele, volto a dizer que estou mesmo convencido de que foi isso que aconteceu.
-Isso não será uma interpretação muito ousada? Compreendes que, para ser assim, toda a produção que ele elaborou e que abrange áreas tão pouco relacionadas como a astrologia… Sabes que ele próprio chegou a criar horóscopos e a escrever sobre isso.
-Sim.
-Ou as questões metafísicas de um sentido para a história de Portugal. Para ser como dizes, esses diversos níveis teriam de alguma forma de estarem de acordo uns com os outros. A menos que obra tivesse sido, logo de início, imaginada como uma soma, digamos assim, de trabalhos independentes entre si, mas aí dificilmente conseguiríamos ver algum sentido nas tuas palavras.
-Mas é precisamente isso que aconteceu ou, pelo menos, é precisamente disso que eu estou convencido.
-O quê?
-De alguma maneira, esses diferentes níveis, como dizes, estão de acordo uns com os outros. É possível encontrar o que os liga e percebe-se que é precisamente isso que nos permite agrupar toda a sua criação numa obra literária.
-Sou toda ouvidos.









-Bem, eu não digo que desde os primeiros textos que ele tenha escrito que logo aí ele tenha pensado, lhe tenha ocorrido a ideia de criar uma obra literária para falar de um assunto determinado. Não é isso que eu quis dizer.
-E não foi isso que eu pensei, é claro.
-Não interessa o que o possa ter levado a escrever as primeiras coisas.
-Pois, mas não vejo muito bem como é que os primeiros poemas, os primeiros textos, por exemplo os anteriores a mil novecentos e dez que ele publicou em revistas, não vejo como é que isso se poderia enquadrar na pretensão de construir uma obra que presumo tenha a ver com a construção dos heterónimos.
-No entanto, olha que em alguns casos já lá está o germe daquilo que viria a ser o fundamental, o cerne, o ponto central, digamos assim, das preocupações filosóficas que a poética dele encerra, a questão do ser, da dimensão do ser, o destino do ser de se cumprir para além do imediato da simples vida material, olha lá bem que isso já transparece na “Hora Absurda.”
-Sim, isso é verdade, recordo-me desse poema que é anterior à explosão da heteronímia.
-Estás a referir-te àquela célebre tarde em que ele escreveu de rajada “O Guardador de Rebanhos” e qualquer coisa como umas três dezenas de outros poemas…
-Foi o que ele escreveu, se a memória não me atraiçoa, numa carta. Mas não sei dizer a quem a escreveu. Aconteceu em mil novecentos e catorze, o ano da primeira grande guerra mundial. Foi aí que ele criou o Alberto Caeiro.
-Escreveu em pé, sobre uma cómoda… Sabes que eu às vezes penso que isso foi invenção dele?
-O quê? O ter escrito todos esses poemas do modo como descreveu que o fez?
-Sim, às vezes acho que isso se tratou de mera invenção dele. Penso até que isso é uma das peças do puzzle que me leva a pensar no tal desiderato conscientemente assumido de criar uma obra literária com princípio, meio e fim, com cabeça tronco e membros, salvo seja a expressão.
-O poeta é um fingidor, não é?
-Tal e qual, como ele escreveu e tendo o propósito de fazer uma obra teve igualmente o cuidado de lhe dar o enquadramento de pontos de começo. Acho que isso faz todo o sentido, não te parece? Seja como for, num artigo a que ele deu o título de “Notas Íntimas” e que publicou com vinte anos de idade, ele escreveu que para contribuir para a melhoria de Portugal, sentia nele uma infinidade de projectos, acho que falava de mil que, para serem realizados por um só homem exigiriam uma força de vontade que ele próprio admitia não ter.
(…)


(continua)

domingo, 11 de abril de 2010

Carta ao Director do "Público" sobre a mentira acerca da Marcha pelos Animais de 10 de Abril

Exmº Sr. Director

Tinha 14 anos em 25 de Abril de 1974 e saí à rua com o mesmo entusiasmo de milhões de portugueses para saudar a restauração das liberdades fundamentais dos cidadãos, entre as quais a liberdade de imprensa. Depois disso desiludi-me com a política convencional, a meu ver demasiado estreita, e dediquei-me sobretudo à docência universitária. Há cerca de um ano faço parte da Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais e foi nessa qualidade que apoiei a Marcha pelos Animais, em 10 de Abril, e que fui entrevistado pelo vosso jornal. Lendo a afirmação do jornalista de que "centenas" de pessoas estiveram presentes, não posso reprimir a minha indignação: como podem "centenas" de pessoas, em filas de cerca de dez, encher completamente o percurso do Saldanha ao Marquês de Pombal, dar a volta a esta Praça e entrar ainda na Rua Braancamp, como muitas fotos e videos documentam? Como pode alguém reduzir a "centenas" as 3000 pessoas que, no mínimo, estiveram presentes?

A minha indignação é tanto maior quando vejo o "Público", cuja qualidade prezo, fazer coro com outros jornais de qualidade muito inferior e ficar atrás dos canais televisivos, que deturparam ligeiramente menos a realidade, falando de "mil" pessoas...

Compreende-se que os órgãos de comunicação social não estejam interessados nos animais, que felizmente não lêem jornais nem vêem televisão, como se compreende que o poder e as forças políticas não se interessem por quem não vota e é apenas vítima passiva e silenciosa de todo o tipo de maus-tratos e abusos. Não se compreende é que os media tenham o despudor de insultar com tamanha mentira o crescente número de cidadãos que se erguem para dar voz a quem não a tem e que colocam a defesa dos direitos dos animais como condição para uma sociedade humana melhor e mais evoluída. Assim o comprova, além dos milhares de pessoas que saíram à rua no dia 10 de Abril, a recente entrega de uma petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura, de que sou primeiro subscritor, e que obteve 8200 assinaturas em menos de dois meses.

Sinceramente, Sr. Director, não foi para isto que a liberdade de imprensa foi restaurada em Portugal! Tenho hoje 50 anos e sinto o meu entusiasmo adolescente traído por ver a liberdade de imprensa convertida em liberdade de manipular a opinião pública. Não esperava era ver o "Público" ir tão despudoradamente neste rumo...

Paulo Borges
(Professor na Universidade de Lisboa)

sábado, 10 de abril de 2010

O Terrorista

O homem tinha-o no coração.
Era o seu primeiro e principal troféu.

- Ganhaste-o em competição?
- Sim, na maior das competições.

- Então foi duro!
- Muito duro, confirmou o homem do troféu.

- Há muito tempo?
- Antes de mim.

-Como assim? Homem do mais importante dos troféus?
- Ganhei-o pela memória. Conquistei-o, pela determinação e pela paciência.

- Estavas certo que irias ganhar?
- Sim! Não podia perder; não me era lícito perder.

- Grande desafio!
- O maior e mais sagrado de todos os desafios.

- Então tem-lo guardado em sítio seguro?
- Não, não há sítios seguros.

- E é grande?
- Não tem tamanho.

- E é pesado?
- Mais pesado que o ouro.

- Então vale uma fortuna!
- Tão grande que não tem quem a avalie.

- Mas pode deteriorar-se, ou desvalorizar-se!
- Pode, mas também pode enriquecer-se à medida que o tempo passa; sabes; os meus avós começaram há muitos séculos, a guiar o meu troféu na direcção da minha tenda. Guardando rebanhos, tecendo mágicos tapetes, tocando camelos, peregrinado cerimoniosamente.

- Nestes tempos duros, bom homem, como vais partilhar um tão importante troféu?
- Deixando sinais. Claros como a luz do sol, fortes como o aço das adagas, beneméritos como a natureza e maternais como as lobas.

- Gostava de ver o teu troféu, o teu tesouro.
- Vem. Esta é agora a minha tenda, tão visitada por bombas. Vou mostrar-te o mais querido troféu, ganho na mais longa e extraordinária de todas as competições!

- Mas é um menino?
- É. Vou levantá-lo bem alto. Ele não sabe ainda que é um terrorista.

Leonel Coelho

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Perspectiva

As duas fotografias intituladas de "Perspectiva" foram tiradas no Convento de Cristo em Tomar, em Janeiro de 2010.
O "auto-retrato" também foi tirado no mesmo lugar. Um daqueles momentos de brincadeira onde quero ser ao mesmo tempo fotógrafa e modelo...

Alexandra Viegas

Perspectiva I

Perspectiva II

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CARTA ABERTA A JACKSON BROWN

Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Eu sei, Jackson Brown. Eu sei que te acomodas nessa crença moderna, tão antiga quanto o medo da morte, chamada de reencarnação, e que estás embrenhado nas mais excessivas teses new age para consolidares o teu desejo de acreditar, fazeres acreditar e dares consolação às fragilidades do peito.

Num tempo como é este que atravessamos, onde se descrê de tudo o que não é rentável, nem prático, nem descartável; num tempo em que a morte é uma derrota que se esconde e uma dor que ninguém chora, é bom que acredites no difícil, no improvável, no incerto, no não pragmático. É bom que desenhes a arco-íris a tua imortalidade, esconjures o teu medo e tanjas o teu sonho como se fora harpa, mas tem cuidado, não esqueças que acreditar não é saber.

Não te assustes, Jackson Brown, eu não vou diminuir a tua esperança nem poluir o teu sonho. Ao fim e ao cabo, eu também aceito a hipótese reencarnacionista, embora com um jeito outro, um jeito muito pessoal. Tu não sabes e por isso te digo: sou um homem de fé e, por esta razão, pouco dado a crenças. Escrevi um dia que a crença é a alienação do entendimento, serve aos homens desprovidos de fé para chamar às obstinações vontade, aos desejos convicção, ao medo atávico fé e às superstições entendimento.

Julgo que não se perde nada, antes pelo contrário, em submeter as crenças à lógica das unhas: se arranham limam-se, quando crescem aparam-se. Envernizá-las não é bom, impedir-lhes a respiração seca-as, desvitaliza-as; deixá-las crescer demasiado torna-as quebradiças e é anti-higiénico.

Tudo à nossa volta se abre como um livro, pedindo aos nossos olhos o favor duma leitura atenta. Em cada manhã, sem que nada façamos para o merecer, há um novo dia, debaixo sempre do mesmo sol milenar. E um novo tu debaixo do mesmo eu. E isto é reencarnação. De sete em sete anos nada te sobra em carne de quanto tiveste antes, mas continuas tu, perante ti e perante os que te reconhecem. E isto é reencarnação, a reencarnação da memória, que é o elo de ligação entre o ontem e o hoje. Mas a memória é uma coisa tão frágil que se faz da imponderabilidade de recordar e de esquecer. É por isso que temo – por ti e por mim – que o Jackson a quem o tempo enruga a face e a ampulheta conta os dias num fluxo de areia há-de passar um dia o rio que a todos lava a memória, e aí, não mais Jackson, só a recordação a esvair-se pouco a pouco no coração de alguns. Nostalgia para os que te amaram, satisfação e remorso para os que te odiaram, esquecimento saudável para todos.

A todos nós, personagens dum enredo imenso, onde muito presumimos e pouco entendemos, cabe nascer e morrer sem qualquer «encore», que isto é a vida. Dir-me-ás: «está bem, mas isso é o corpo, o animal, o bicho da terra, não a alma».

Que alma, amigo? Se a gente enquanto carne não tem alma, a alma é que nos tem e empurra?

Não é a rosa que tem a roseira, esta é que dá rosas, primeiro em botão, depois em resplendor, que logo murcha. O perfume exalado? Vai no vento. Vai no vento. A eternidade da rosa faz-se de haver roseiras.

Enquanto nos identificarmos com o efémero, com o precário, com o provisório, com o mortal, nada temos nem nada merecemos. Nem a alma. Dado que nos identificamos pela dor e pela morte, somos a identidade que nos ensinaram a ter. Por isso, meu amigo, se quiseres ser co-autor do enredo deste lado da vida, esquece o nome que te deram, símbolo da tua mortalidade e da sujeição ao papel que te coube no palco das precariedades; ganha o direito a um novo nome, verdadeiro e definitivo. Grava-o numa pedra branca e realiza a alma. Nessa altura, talvez não possa tratar-te como te venho tratando, mas creio que estarás legitimado para falar de reencarnação com o desprendimento e a distância de quem venceu o tempo e já não precisa de esgrimir qualquer crença para esconjurar o medo.

Eu sei e tu sabes que a alma nos quer com amor ardente, mas a gente anda por aí perdida, querendo coisas excessivas e desnecessárias que nos roubam o tempo e nos deixam exaustos. É por isso que não correspondem ao amor profundo que a alma nos tem.

É por isso que morremos, e reencarnar é ainda morrer, por paradoxal que pareça.

Abdul Cadre
in, http://khalad.blogs.sapo.pt
NOVOS CURSOS NA ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA (VER AQUI)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Avant-garde" no Estudo Geral


ao Leonel Limão

“The adjective form is used in English, to refer to people or works that are experimental or innovative, particularly with respect to art, culture, and politics.” (Wikipedia)

“Um dos mistérios do nosso tempo é o que chamamos de arte moderna. Uma das maiores fascinações, a ideia de vanguarda”.
(…)
“Certa vez, tive uma conversa fascinante sobre a canção Tropicália, num castelo medieval em Sesimbra, com Roberto Pinho e um senhor português que era tido como alquimista. O ponto de ligação entre eles era o Professor Agostinho da Silva (…) De modo que, em Sesimbra, comecei a ver a Tropicália – e a pensar o tropicalismo – também à luz do sebastianismo, ou melhor, da minha versão do sebastianismo, que consistia em adivinhações do que fosse o sebastianismo deles. Eu, no entanto, sempre fui muito cético”
Caetano Veloso

(in, RISÉRIO, António – avant-garde na bahia. São Paulo: Instituto lina bo e p.m. bardi, 1995)


“Avant-garde”
Como qualquer grupo de jovens
Um bando de jovens à procura de brincadeiras,
Deram-lhes uma vida e eles queriam viver,
Prometeram-lhes liberdade e eles tornaram-se livres

O ceptro do centro da mesa era o Amor
De dentro do meio do lodo brotava uma flor
Sempre a música acompanha os jovens
Numa festa permanente brindava-se à amizade

Voavam os pensamentos à procura de luz
Dançavam os corpos até entrarem em transe
Transavam os olhos em busca de beijos
Solidários em grupo carpiam as mágoas

Semearam as letras em bancos de jardim
Espalharam profissões deitados na relva
Passavam de mão em mão o Cachimbo da Paz
E em Paz cresceram e fizeram o mundo

Muito cantavam e as músicas nasceram
Mais os poemas que depois se escreveram
Tantas as mãos que guitarras tocavam
Brindavam os copos com o lume da casa

E depois partiram para rumos distantes
E o que era um lugar em grupo fechado
Foi sendo por todo o sítio anunciado.

Luis Santos

THE UNKNOWN GOD


Gigante Caído Acrílico sobre Tela 30x40cm
Autor António Tapadinhas
Os atenienses, apesar dos seus doze deuses principais, com receio de ferirem susceptibilidades, criaram um templo dedicado ao deus desconhecido. Se não serviu para mais nada, a sua existência ficou justificada com a obra-prima, “A um deus desconhecido”, de John Steinbeck.
Nesta novela telúrica, panteísta, Joseph Wayne, para cumprir o desejo do pai, vai viver para uma terra de vales imensos e de majestosas árvores. Depois da sua morte, Joseph acredita que a alma do pai se recolheu no imponente carvalho, junto da casa. A partir desse momento, a sua vida fica ligada umbilicalmente, de uma forma mística, ao destino da árvore. Como quase sempre acontece, é por uma boa razão, em nome de Deus, para o salvar do fogo do inferno, que seu irmão assassina o velho carvalho, cortando-lhe as raízes. O sentimento de tragédia, presente nas páginas da novela, começa a adensar-se com a seca que invade a terra e atinge o seu paroxismo quando Joseph se suicida. Com “o sangue a gorgolejar das artérias abertas”, ele diz: “Eu sou a terra e sou a chuva. A erva brotará de mim dentro em pouco.”
No passeio pelos sapais do Tejo, do qual falei anteriormente, logo a seguir ao Moinho da Charroqueira, encontrei um sinal das intensas chuvadas e fortes ventos: um pinheiro-manso (Pinus pinea) caído, suportado, de um lado, pelas suas raízes, e do outro, como que amparado por braços amigos, com as ramagens na terra. Lembrei-me de imediato da árvore assassinada em nome de Deus.
“E a tempestade recrudesceu e, com um enorme cachoar de águas, cobriu de sombra o mundo.”
Eu sou mais optimista.
Foi assim, cheio de cor, que vi o velho gigante…

Texto de António Tapadinhas

O Pergaminho do Poeta

Numa modesta casa
Escreve o poeta seus versos,
Na lareira aquece a brasa
De seus poemas sinceros.

Com a mão escreve o destino
Pelas linhas do coração,
Pelo peito abre caminho
Fazendo vibrar a razão.

Tudo o que passa não fica.
Sente o homem que agora pensa
Neste presente em que medita.

E à sua roda que tensa,
Uma paixão à volta gira
Neste inspirar que é uma doença.

Diogo Correia
6/4/10

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PRIMAVERA


Óleo sobre Platex 15x15cm
Autor António Tapadinhas

Esta é a imagem sonora de Antonio Vivaldi que podem ouvir aqui.
Descreve a chegada da Primavera como uma festa da natureza. Nos solos dos violinistas, está reproduzido o canto dos pássaros e o murmúrio dos riachos afagados pela brisa suave e fresca. Podemos imaginar a dança das ninfas e dos pastores, sob o brilho do sol primaveril, depois do rugido dos trovões e da luz lívida dos relâmpagos iluminando o manto negro das nuvens características do Inverno.
Esqueçam os produtos que esta música já vendeu, nos spots publicitários – se puderem…
A imagem visual da Primavera, de António Tapadinhas, tem as flores mais singelas – umas papoilas saltitantes…

Texto de António Tapadinhas

Primavera


(foto enviada por Eduardo Espírito Santo - autor desconhecido)