"A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio."
(Agostinho da Silva)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“Libertos De Fundamentalistas Trevas Mentais”


Tateio a noite obscura das mentes
Parto em busca da alguma luzinha
Apalpo o lusco-fusco da madrugada cerebral
Procuro qualquer porta para a liberdade

Retiremos juntos as amarras que nos prendem
Desprendamo-nos dos totens da tradição fatalista
Soltemos as almas individuais de faces retrógadas
Deixemos que cada qual voe solto na imaginação

Alimento o ego nas águas límpidas de olhos ocultos
Rasgo manifestos esquisitos para não magoar a vista
Desvio-me da censura dos exageros demagógicos
Arranco a parte fisica da vaidade aos inquisidores do nada

Coloquemos as mãos umas nas outras em corrente
Irmane-mo-nos à volta do pensamento diverso
Comunguemos do mesmo espírito que a tudo movimenta
Ligue-mo-nos ao fluído que emana da inteligência comum

Atravesso de barca para o lado do não dizendo sim
Vou carregado de línguas cheias de vontade de ecoar
Na manga escondo um truque visível a quem sabe sentir
Levo a verdade em cada palavra à escrita dos símbolos

Tratemos a esperança como se ela nos corra no sangue
Pintemos a virtude de ser em todas as bandeiras ondulantes
Surfemos suavemente seja por caminhos sinuosos ou não
Acalmemos os semblantes nossos e de outrém à nossa chegada...

Pois, só a paz nos guiará o coração para as batalhas da harmonia fratenal...



Escrito em Luanda, Angola, a 12 de Fevereiro de 2011, por manuel (duarte) de sousa, em virtude ou por ocasião da prisão da Poeta e Jornalista Colombiana Angye Gaona e por todos vós outros, sejais Poetas/isas, sejais Prosadores/as, Criadores/as ou Escultores/as e Pintores/as de outras Artes e Ofícios afins, ou sejais vós tão somente, mestres, aprendizes, apreciadores, leitores, observadores, avaliadores, críticos ou consumidores de Artes e Cultura, tão simplesmente (pois, sem uns, decerto, nao haveriam os outros e vice-versa!)...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Paulo Francis - depoimento pessoal

Fiquei sabendo da existência de Paulo Francis há mais de quarenta anos, quando botei as mãos em um exemplar d’O Pasquim. Para quem não sabe, foi um semanário carioca responsável por boa parte da resposta da sociedade à asfixiante realidade pós AI-5. Foi uma surpresa e tanto para um garoto que não agüentava mais aquela coisa de "Este é um país que vai pra frente, ô,ô,ô,ô..." que não combinava com um sentimento de medo difuso tão espesso que poderia ser cortado em fatias.

O jornal tinha como mentores intelectuais pessoas do quilate do próprio Francis: Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ziraldo, Henfil (o pai dos Fradins), Fausto Wolff, Arthur José Poerner, Luís Carlos Maciel, Jaguar, JAAB, Flávio Rangel, Fortuna, Sérgio Cabral (pai do atual governador do RJ), Sérgio Augusto, entre outros. Devo ter esquecido algum dos muitos monstros sagrados daquela era longínqua, cujo lema deveria ser “intelectual não vai à praia, intelectual bebe”. O Pasquim promoveu uma revolução na imprensa brasileira, como o Correio da Manhã havia feito antes.

Esta turma terminou o serviço de fazer com que eu aprendesse a ler e a escrever; há quem discorde do resultado. Tudo bem, faz parte do processo.

Em um tempo que para os mais jovens deve parecer anterior ao Cretáceo, quando não existia telefonia celular nem Infernet, os jornais impressos eram os meios de comunicação utilizados. E O Pasquim era plural, tinha de tudo no jornal, era uma das antenas da parcela do Brasil que pensava e que não assumia uma atitude conformista diante da barbárie em vigor.

Cada parágrafo escrito por Francis, em jornais ou livros, rendia várias consultas à Britannica (lembrem-se, o Google é coisa recente): em poucas frases, ia de Trotsky a Freud, de Gore Vidal a Richard Wagner, de Roberto Campos ("Bob Fields") a Charlie Chaplin. Também chutava muito, e poucas vezes foi peitado, por ignorância ou medo da parte de seus inúmeros desafetos. E quem dele gostava relevava os "chutes". Uma vez colocou o almirante japonês Yamamoto, morto em 1943, na pré-estréia do filme Tora! Tora! Tora!, ocorrida em 1970. A expressão "yamamoto" passou a ser sinônimo de barriga (informação furada) no hebdomadário. Pouco importava se concordavámos ou não com a opinião publicada: o legal era que Francis nos obrigava, ao menos os que liam, a correr atrás das referências que cintilavam em seus textos. Em suma, nos botava para ler, ler e ler. “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo” consta como sendo frase de sua autoria.

Lúcido, válido e inserido no contexto, não recorreu à hipocrisia recorrente no Bananal, quando da guinada que deu, do trotskismo ao liberalismo algo conservador. Assumiu e pronto. “Never explain, never apologize”. Na passagem das trincheiras do protesto inconformista para a grande imprensa, se tornou referência – mais uma vez. Sem deixar de ser polêmico, amado e odiado, jamais ignorado. Sua obra fez a cabeça de muita gente, o que não é pouca coisa.

Há ausências que preenchem uma lacuna. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, AKA Paulo Francis, não é uma delas. O Francês faz falta.

Paulo Arruda

sábado, 26 de fevereiro de 2011

João Villaret

João Villaret foi um grande ator e um inigualável declamador, que enchia salas de espetáculos declamando poesia e falando de poetas, sem nunca olhar para um papel.

Morreu no dia 21 de Janeiro, há 50 anos.

Alguém se lembrou de criar um site dedicado a ele. Conta ainda com pouca coisa, mas que merece ser visitado e, claro, ouvido. Sugiro,para começar, alguns curtinhos. Mas, claro, ouvi-los todos é fantástico.

http://jvillaret.com.sapo.pt/ (para ouvir clique neste endereço).

- Adivinha
- Balada da neve
- Fado falado
- Liberdade
- O menino de sua mãe
-Gato que brincas na rua

E o incontornável...
- Cântico negro

Consta que após a leitura deste poema, no Teatro de S. Luís, recebeu uma ovação ininterrupta de perto de 30 minutos, que constitui ainda hoje um record nacional em qualquer tipo de espectáculo.

Enviado por Ernestina Sesinando
(autor desconhecido)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vozes

Sendo apenas
a voz
no discurso
incompleto

engloba verbos
substantivados: às vozes
cabem sons
exemplificados

(não atos
concretados)

a voz sobre
a aversão aos fatos.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria


Regresso da Faina Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 80x100cm

Esta tela foi feita a partir duma fotografia tirada por um grande amigo que numa certa altura da sua vida, viajava pelo mundo, como auditor dum banco português. A calma, a paz que se traduz nas cores suaves do entardecer, fascinaram-me desde que a vi. Julgo ter transmitido com fidelidade esses sentimentos, para o quadro.
Passámos muitos anos a ir à pesca, sempre que tínhamos oportunidade. Raro o fim-de-semana que, no Inverno ou no Verão, a nossa equipa não se deslocava para os diversos pesqueiros, de acordo com os estudos científicos (leia-se, palpites) efectuados, para determinar qual o local mais certo para apanhar peixe.
Para não perder o treino, ele procurava nas suas deslocações fazer aquilo que mais gostava: pescar.
Já nessa altura, nos seus relatórios, ele pescava alguns tubarões. Pelos vistos, não os suficientes, atendendo à actual situação dos bancos…

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Invasão Muçulmana da Península Ibérica e a convivência de cristãos, judeus e muçulmanos

por Margarida Castro

"pelo diálogo inter-religioso: o desafio do nosso tempo"


A comemoração dos 1300 anos da chegada do general árabe Al-Tariq à Península Ibérica, é um acontecimento de importância histórica de enormes proporções culturais. Convem relembrar um pouco da história dessa época e que explica a cultura do dialogo inter religioso que prevalece.

Djabal al-Tariq (também conhecido como Tarif abu Zara) deveria ser muito mais conhecido do que é. Isto porque, este general Árabe foi um dos maiores conquistadores de toda a Idade Média. Seu nome não chega a rivalizar com o de um Carlos Mango, ou com o de um Justiniano, mas seus feitos retrataram bem o poderio militar Islâmico no primeiro quarto do século VIII.

Mas o que fez este general de tão importante? Bem, para nos situarmos na História deste homem, devemos nos lembrar que no final do governo de Abd al-Malik (685 – 705), os Berberes foram finalmente submetidos e convertidos ao Islã. Assim sendo, no início do governo de Al-Walid (705 – 715), serviram de braços para Musa ibn Nuçair, governador da Ifríqiya (região do norte da África, a oeste do Egito), em sua expansão rumo ao Maghreb (região onde hoje se situa o Marrocos). Entre 705 e 708, o governador realizou com sucesso esta expansão e, através dela, atingiu o oceano Atlântico.

Com a invasão Muçulmana de 711, e a derrota de Roderico ( Rodrigo)-rei Visigodo- em Guadalete, a única resistência gótica séria, foi feita em Mérida. Com a sua queda todo o noroeste foi submetido. Tropas Berberes ( povos oriundos do Norte de África) foram colocadas no centro de Portugal e Galiza., mas com a revolta dos Berberes e a grande fome na região (740 - 750), estas foram evacuadas.

Braga foi abandonada, mas a população rural aí permaneceu ou foi depois restaurada. Quando ‘Abd ´ar-Rahmän I criou a dinastia Umayyad em Córdova (756), houve alguma resistência no oeste, e talvez tenha colocado algumas tropas Berberes em Mérida e Coimbra. Lisboa foi independente por alguns anos ( cerca de 805).

Por essa época, a conquista do norte da África estava consolidada pelos Árabes e o governador de Ceuta, Juliano ( o conde Julião dos cronistas), que outrora fora fiel ao monarca Visigodo havia cedido seu apoio aos Árabes (apesar de ser Cristão). Mas por quê? O rei Witza, da Hispania, tinha morrido e não foi permitido ao seu filho, Áquila, assumir o trono; os nobres Visigóticos elegeram Rodrigo, para o trono. Segundo Juliano disse aos Árabes, ele odiava Rodrigo, pois este havia desonrado sua filha ( lenda não provada ) , por isso, queria vê-lo derrotado e humilhado.

Os Árabes, que já vinham atacando, por meio de navios, as costas da Espanha há muito tempo, viram nessa inimizade sua chance para invadir e anexar a região que eles conheciam como al-Andalus. Em Junho de 711, Musa ibn Nuçair, o governador do norte da África, enviou à Hispania um exército composto por cem cavaleiros, quatrocentos guerreiros e sete mil Berberes. Os navios para o ataque foram fornecidos por Juliano, governador Visigótico de Ceuta.

Rapidamente, os Muçulmanos tomaram a cidade de Algeciras e os rochedos da costa (hoje conhecidos como Rochedo de Gibraltar). Depois disso, marcharam para Córdoba. O rei da Espanha, Roderico, estava ocupado combatendo os Vascónios, no norte, e demorou certo tempo para conseguir mobilizar seus exércitos para combater os invasores. Enquanto as tropas reais não chegavam, Djabal al-Tariq assolava o sul da península.

Enfim, em 19 de Julho de 711, o Rei Roderico finalmente alcançou a região onde os Árabes estavam e a batalha iniciou-se. Esta iria durar sete dias, ou seja, até o dia 26 e ser decidida pela inteligência do general Árabe.

Numericamente superiores e providos da motivação de defenderem seus domínios, os Visigodos estavam a ponto de derrotar os Árabes. Foi quando o General Al Tariq convidou dois irmãos do Rei Witza (o Rei que havia morrido), e fez com eles um pacto: se estes desertassem com suas tropas, seriam poupados e recompensados.

Sendo assim, no dia 26, dia do combate derradeiro, as duas principais frentes da cavalaria Visigótica debandaram e os flancos do exército Hispano ficaram desguarnecidos. Avisados de antemão que isso iria ocorrer, os Muçulmanos atacaram pelos flancos e trucidaram a infantaria Visigótica. Foi um massacre no qual tombou, inclusive, Roderico.

Ficando sem rei, a Hispania não conseguiu reagrupar-se para a defesa e, sendo assim, em dois meses, Tariq havia conquistado totalmente o sul da Hispania e preparava-se para marchar em direcção ao centro.

Musa, na África, ao saber dos sucessos de seu general, reuniu um exército e desembarcou na costa leste da Hispania, formando agora duas frentes de invasão Muçulmana que atacavam a península.

Os nobres Visigóticos que não tinham sido subornados pelos Mouros (nome pelo qual os Europeus, chamavam os Islâmicos), começaram a ser exterminados e, ao procurarem auxílio nas cidades, não eram bem recebidos, pois os Judeus (que dominavam o comércio e, sendo assim, a vida urbana) estavam cansados das perseguições Cristãs impostas a eles pelos Visigodos e preferiam a liberdade de culto (mediante o pagamento de impostos) oferecida pelos conquistadores.

Dessa forma, os partidários de Rodrigo, agora sob o comando de Pelágio, foram isolar-se nas montanhas do extremo norte da Hispania, onde, devido ao posicionamento estratégico, esperavam resistir ao extermínio da mesma maneira que os Bascos vinham fazendo contra eles. Formou-se assim, o primeiro dos Reinos Hispânicos pós-conquista Árabe: o Reino de Astúrias.
Entre 711 e 714, os dois generais Árabes conquistaram toda a Hispania, excepto o Reino das Astúrias, que devido à sua localização de difícil acesso, pode resistir e se tornar, mais tarde, no século IX, o berço da Reconquista da Hispania, reconquista esta que teve o apoio, militar e financeiro, de Carlos Magno (pelo menos em sua fase embrionária).

Quanto ao Genetal Tariq, foi mais um dos conquistadores esquecidos de nossa História, só não foi totalmente esquecida porque, em homenagem a ele, foi erigida uma cidade (na parte Europeia do estreito), e esta cidade foi baptizada com seu nome, cujas corruptelas futuras tornaram Gibraltar (djabal al-tariq), o mesmo nome com o qual foram rebaptizadas as Colunas de Hércules, pois, se no passado o Semi-Deus havia afastado os perigosos Berberes da Europa por meio da separação dos dois continentes, agora, um general (que nada tinha de Semi-Deus conseguia quebrar a vontade dele e impor a sua, em outras palavras, o Islão ganhava terreno dentro da Cristandade.

Pouco depois, o governador árabe da África, Mouça-ibn-Nokair, sabedor do êxito de Tarik, desembarcou na Espanha, acompanhado de seu exército. E em menos de dois anos efetuou a conquista de quase toda a Península Ibérica. Em 713, na cidade de Toledo, proclamou o califa de Damasco, Omar II (717-720), soberano de todos os territórios conquistados.

No primeiro momento, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em harmonia. Os muçulmanos encontraram nos israelitas auxílio para a administração e para o comércio, e assim as comunidades judaicas foram fortalecidas. O ambiente de tolerância que se instaurou possibilitou um florescimento cultural, científico e econômico. O hebraico ressurgiu como língua literária e academias rabínicas foram fundadas nas cidades de Córdoba e Lucena.

Fontes:
- www.brasilsefarad.com/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=97&Itemid=60
- portugalhistoria.blogspot.com/

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FACES

TRISTEZA...


Para o
Luís Paulo de Carvalho Lopes,
irmão estrangeiro em terra distante.

Não é por não falar
em felicidade
Que eu não goste
de felicidade

Não é que eu não goste
da felicidade
É que não falo
de felicidade

E é por falar
infelicidade
Que eu não gosto de falar
em felicidade.



Titãs


SUCURI

-Xente! Sucuri é bicho ruim. Não gosta de ver não. –Sorridente, mostrando as gengivas desdentadas que assim impossibilitavam o contraste entre o esmalte e a tez cafeinada dos caboclos. E depois de pousar a mão na cabeça, continuou com um gesto largo de orador. –‘Cê sabe?! Sucuri enfeitiça a xente, não dá p’rá vê não. Qando a xente tá sozinho, ela atrai à péssôa párá’água. –Expressão ganhando seriedade ao sabor do desenrolar da conversa. –Éééé! Sucuri atrai às péssôa… Cê fica enfeitiçado e vai, vai sem saber porrquê e entra ná água. E então ela se enrola e mata a xente. Sucuri não é bom de ver não.


Pantanal, 29 de Julho de 1995

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

RICARDO CARVALHO CALERO

A FALA DA GALIZA, O PORTUGUÊS DE PORTUGAL, O PORTUGUÊS DO BRASIL E O PORTUGUÊS DOS DISTINTOS TERRITÓRIOS LUSÓFONOS, FORMAM UM ÚNICO DIASSISTEMA LINGUÍSTICO CONHECIDO ENTRE NÓS COMO GALEGO E INTERNACIONALMENTE COMO PORTUGUÊS.

(citação aposta no pedestal da estátua erigida em Santiago de Compostela em 30 de Janeiro de 2011)

RICARDO CARVALHO CALERO (Ferrol, 1910 — Compostela, 1990) foi um filólogo e escritor galego do século XX, o primeiro Catedrático de Língua e Literatura Galegas, considerado o grande pensador do reintegracionismo linguístico, é uma das figuras mais proeminentes do universo intelectual galego do século XX.(VER MAIS AQUI)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fio condutor

A imensidão do tempo
Manobra angustiante
Caminhando solitário.

Do negrume profundo,
A emoção renasce
E a vida torna-se
Lúcida a quem nela habita.

Os combates pensantes
Arrasam estéreis terrenos.
De cabeça no envio
Mensageira de tormentos.

Diogo Correia
28/01/2011

“Namorando o Amanhã"! Conversa em torno de Agostinho da Silva, na Casa Amarela

Clicar em cima da imagem para aceder à crónica do jornal "O Rio"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Corpo Total 34

nome e utopia, vibro o tempo de verga de um instante
não bate ainda o coração, apenas uma brisa activa
obscurece o filigrana para ti

entre aranhas desobedece o fogo à mão discreta, um par
quase rumina a moça linda cantando o sol que fica
entre o mar e as pernas

na tua cripta procuro ainda a folha intacta do ar cativo
adormeci no teu colo de aranha, nome e verga clara
o coração cai no colo

José Gil
clicar em cima para ampliar

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria XXV


A minha casa é um caleidoscópio Acrílico sobre tela 60x60cm

Esta obra, logo que a completei foi reservada pela minha filha Dulce para a sua colecção particular.
Foi concebida logo a seguir a um período de grande produtividade, devido a uma série de exposições muito próximas umas das outras a que me tinha comprometido.
Em cada exposição, faço questão de apresentar algumas peças feitas para o local e pessoas que o frequentam, o que me causou algum stress e resultou no compromisso comigo próprio de não deixar repetir a situação. Afinal, pintar é uma actividade que serve a beleza, e a beleza é um dos elementos necessários para tornar o mundo melhor. Também para mim...
Abro um parêntesis para uma explicação simplificada do significado de alguns termos que utilizarei na descrição da tela e que talvez sirvam para melhorar a sua compreensão. Desculpem-me os que já sabem estas coisas: são só meia dúzia de linhas...
Há três cores primárias: o azul, o magenta (vermelho) e o amarelo. São as que não se podem obter com a mistura de outras cores.
Combinando duas cores primárias, obtém-se uma cor secundária. Azul mais amarelo = verde, azul mais vermelho = violeta, amarelo mais vermelho = laranja.
Estas, por seu turno, são complementares da cor que não entra na sua composição. Assim, o laranja é complementar do azul, o verde é complementar do vermelho e o violeta complementar do amarelo. Conforme a lei do contraste, qualquer cor atinge a sua intensidade máxima quando está ao lado da sua complementar. Mas duas complementares misturadas, aniquilam-se: ficam cinzentas. Nas cores, como na vida, o céu e o inferno são vizinhos.
Nesta tela reduzi a paleta à expressão mais simples: vermelho, azul e amarelo, as cores primárias, mais branco e preto. Com estas cores, como já vimos, podem-se obter todas as outras. Nela é evidente a utilização da lei dos contrastes, para potenciar a intensidade das cores: ao lado dum azul lá está o laranja a espreitar, e o dinâmico vermelho não deixa o verde distanciar-se para longe...
Lembram-se que estava stressado e que queria limpar a cabeça de coisas complicadas, de problemas? Foi o exorcismo desses fantasmas que sempre habitam as casas, as ruas e vielas das cidades antigas, pintadas obsessivamente, que eu consegui com a pintura quase automática dos pequenos sinais que iam ficando gravados na minha mente e que eu plasmei na tela...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A PROPÓSITO DO DIA DOS NAMORADOS

Por
Abdul Cadre

Na Idade Média, acreditava-se que o dia 14 de Fevereiro era o primeiro dia do ano do acasalamento dos pássaros.

Mais por estímulo do marketing e da publicidade do que por tradição autêntica e arreigada, comemorou-se mais um Dia dos Namorados a que também chamamos agora, por influência saxónica, Dia de São Valentim, malgrado o santo estar retirado do calendário católico desde 1969, em consequência de uma série de confusões advindas da dúvida quanto à existência ou não da personagem, ou mesmo se não terão sido dois os Valentins casamenteiros e mártires.

À revelia de qualquer registo fidedigno, diz a lenda – querem as lendas – que foi por ordem do imperador Cláudio II que um certo padre Valentim terá sido preso, acabando por ser executado em 14 de Fevereiro do ano 270 da nossa era. Isto porquê? Porque o imperador, visando o esforço de guerra, tinha proibido os casamentos, na convicção de que os jovens sem quaisquer laços familiares seriam soldados bem mais destemidos do que os casados. Ora, o padre Valentim fez ouvidos de mercador e continuou, embora em segredo, a casar todos os jovens que lhe batiam à porta, lembrando-se talvez do que escreveu Paulo na sua Primeira Epístola aos Coríntios (7:9) de que «vale mais casar do que abrasar-se».

Fosse este o protagonista ou um outro Valentim, diz a lenda que foi outra coisa que se passou: Cláudio II quis que Valentim, sacerdote cristão, renegasse a religião que professava e adoptasse o paganismo romano. Tendo recusado, foi remetido para a prisão, onde se apaixona pela filha do carcereiro. Esta era cega e Valentim restitui-lhe a visão. Reconhecida, a jovem passa a visitar e a acarinhar regularmente o seu apaixonado. Valentim, no dia em que foi conduzido ao cadafalso, deixou um bilhete escrito para a sua namorada que terminava com a assinatura «do teu namorado». Não consta se terá ou não desenhado um coração, como se vê por aí.

Antigamente, em Portugal, o Dia dos Namorados não estava ligado a Valentim, comemorava-se a 12 de Junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, que outros dizem de Pádua, que é na tradição popular portuguesa o santo casamenteiro por excelência.

Importa ainda que se diga que o Dia dos Namorados radica em tradições anteriores ao cristianismo, relacionadas com os cultos da fertilidade, derivando mais imediatamente da cristianização e apropriação pelo Papa Gelásio I, em 496, das festividades pagãs da Roma Antiga em honra de Juno e Pã, chamadas Lupercália, sendo que esta designação tem a ver com Fauno Luperco (Luperco quer dizer aquele que protege o lobo), um outro nome pelo qual Pã era conhecido.

Juno, como se sabe, era venerada em Roma como a rainha dos céus e esposa de Júpiter, protectora das mulheres, do casamento e da fertilidade, enquanto Pã, o deus caprino, estava associado à natureza, à masculinidade, aos rebanhos e aos pastores.

As Lupercalia, que se comemoraram por mais de oito séculos, precediam a Primavera, iniciavam-se na segunda quinzena de Fevereiro (XV Kalendas Martias) e duravam cerca de um mês. Nelas, os jovens participavam numa lotaria em que cada rapaz retirava à sorte, de uma caixa, o nome da rapariga que o acompanharia nos folguedos. Embora bem mais inocentes e juvenis que as célebres festas de vinho e sexo dedicadas a Baco – as chamadas Bacanais –, as Lupercalia tinham algumas semelhanças com os cultos da fertilidade, conhecidos como fogueiros de Beltane, isto é, os fogos do Deus Celta Bellenos, que anunciavam o Verão em cada primeiro de Maio.

Por fim, há que lembrar que, de início, os rituais em louvor de Baco eram cerimónias altamente secretas onde só eram admitidas mulheres, que reuniam durante três dias em cada ano. Mais tarde, foram admitidos homens e as reuniões passaram a ser de cinco dias por mês. Depois, tudo descambou naquilo que ficou mal-afamado no mundo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

FACES

HUNTING


Paola é filha de comerciantes e também ela vive de um pequeno comércio de artigos para turista, em Taormina, para onde se deslocou após o assassinato do seu marido, em Catânia, onde viviam e ela nasceu, cresceu e estudou. Casou-se pelo mandamento do coração e com a esperança de felicidade para o resto dos seus dias e quando recebeu a notícia da sua viuvez, entregou-se a uma perplexidade que a remeteu à clausura por todo o tempo que mediou entre uma calvície das árvores e a canícula da anuidade seguinte. Foi então que a mãe a convenceu a dar novo rumo à sua existência e a possibilidade de uma tia lhe passar um pequeno negócio naquela vila que a imigração grega havia fundado, foi bem aceite como o ponto de saída para a demanda de novas escalas, naquilo que entendia como um castigo para as suas deambulações apagadas das emoções do amor.
E a sua vida desaguou na melancolia de uma pequena loja, aqui e ali com um livro, vulgarmente com as conversetas do vai vem de clientes e fornecedores. O mais se fez de televisão e revistas, em casa, depois de jantares rápidos, uma vez por outra de entrementes com um ou outro espectáculo nas ruínas do teatro grego. À volta da regularidade de um trimestre, descia à cidade natal para rever os progenitores. Sem dar por isso, esqueceu anteriores amizades.
Logo no primeiro Verão decidiu fazer férias em Malta e hospedou-se num hotel em Sliema, num quarto com varanda escancarada sobre a plataforma argilosa que perfaz os contornos do cru abrasão com que, ali, a ilha recebe a espuma mediterrânica.
Andava perto dos trinta anos de idade e tinha saúde. Sentiu desejos e no jantar desse dia elegeu um outro hóspede solitário para seu parceiro de noite.
Nos anos seguintes repetiu-se e na primeira vez que trocou aquele arquipélago por outro destino, era já detentora de uma considerável colecção de masculinidades várias, onde intimamente gostava de destacar o que sentia como o prémio da iniciação de um adolescente. Nesse estio, em Samos, sofreu uma má experiência. Dois apolos que apanhara numa esplanada e que levara para um recato de rochas na praia, mais não foram capazes do que duas rápidas ejaculações consecutivas, seguidas do imediato subir das braguilhas e um par de galopes de foguete, como se ela fosse uma simples meretriz a quem se furtavam de remunerar. Depois desse desaire que lhe estragou todo o restante veraneio, virou-se para o ocidente e, em épocas sucessivas, acabou por atravessar um bom número de praias do sul de Espanha. Talvez por isso tenha sentido curiosidade por Tenerife e, vendo pelos prospectos turísticos, reservou uma semana em Puerto de la Cruz.
No regresso, deu por boa a hora em que tomara tal opção. Ali, sob as estrelas da marginal ajardinada onde se exprimem artistas e vendedores de bugigangas, cruzou-se de olhares com Pablo que, nessa noite e pela primeira vez em vinte anos de casamento, conheceu outra mulher que não a mãe do seu filho.
Foi ela que o extasiou com tudo o que um homem pode esperar e ter do feminino, mas era ele, até então, o único exemplar de um honesto pai de família para lá da qual a castidade tinha voto.

Há quantos anos ela não estava assim, sentada, só e sinceramente despreocupada, na circunstância, a uma das mesas do bar da piscina do hotel?
Casara com Pablo e a quinta dele e sem hesitações se entregara à labuta de fazerem as terras crescerem e os cabedais amealharem, alguns anos depois com a tutoria conjunta do Pablito que, naquele ano, ficara em casa dos avós maternos para que os pais tivessem oportunidade de se apaziguarem numa união que, depois de uma rodagem de silêncios, ultimamente, resvalara para a gritaria e as ofensas que já pouco distavam do uso físico.
Naquele declínio solar em que o marido saiu do quarto por estar farto de lhe aturar a falta de vontade para se distrair, limitou-se a ficar estendida na cama e a descer, horas depois, para jantar onde então se encontrava, já na companhia de um vinho digestivo.
Sorriu e concordou, em acto contínuo, ao escutar o pedido de um homem de meia idade, bronzeado e com cabelos castanhos puxados para trás, desportivamente vestido mas elegante que, de olhos azuis brilhando, lhe perguntou se podia ter a graça de falar com uma verdadeira obra de artista. Quando a convidou para irem dançar, ela pediu apenas para ir buscar a sua bolsinha ao quarto e ainda na rua, ele deu-lhe a mão e logo de imediato a puxou a si pela cintura e a beijou na fronte.
Na alta madrugada em que ele teve a gentileza de partilhar o táxi que a devolveu a casa, Sara sentiu a estranha sensação de ser mulher e agradeceu a Deus o facto de poder adormecer sozinha e nada indiciar que alguém ali tivesse estado na sua ausência.




No avião, no trajecto que os deixaria no aeroporto de Sevilha, Pablo olhou a mulher com o carinho de outros tempos. Ela sorriu e deu-lhe a mão. Encostaram as faces sobre o ombro dele.


Maska, Agosto de 1998

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

INTERLIGAÇÃO DE UNIVERSOS (12)

………………. Fala-me do bem, do mal e da existência.

- Que é o bem, senão a ausência do mal. Mas o mal é uma concepção mental, limitada do vosso cérebro. Sendo o vosso cérebro uma ferramenta condicionada do vosso veiculo físico, não será fiável na sua análise, desde que o observado esteja para além desse condicionamento. Assim, o mal, poderá não o ser, mas um caminho, entre outros, na direcção do Bem. Então o mal poderá ser uma Ilusão, levando também a considerarmos o observador incluído nessa Ilusão. Logo, tudo é Ilusão. Então onde se encontra o Real?
-Só o Todo, que a tudo inclui, poderá separar as águas. O reconhecimento dos limites dos veículos físico e mental, permitirá o surgimento em cada um dum espaço maior entre cada pensamento emitido. Esse espaço, a que podemos chamar silêncio, é o inicio da entrada num campo ilimitado, para além do visível e sentido, uma Realidade maior, que existe e que transcende o âmbito humano. Existindo É. E só é possível entrar no mesmo abdicando totalmente daquilo que se é em aparência, nome, profissão, pensamentos, emoções, desejos. O vazio total. A entrada no Bem, no Real. Aí o observador estará integrado na Totalidade, sabendo que tudo caminha num só sentido, o Bem. É a entrada num patamar evolutivo da consciência, denominado EXISTÊNCIA.

António Alfacinha

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Filosofia e Saudade

17. Agostinho da Silva (1906-1994)

Ao reflectirmos na ideia de Saudade em Agostinho da Silva, vimos como se entrelaçam no autor toda uma teia de pensamentos que abordam, por um lado, o desenvolvimento da história da humanidade e da civilização ocidental e, por outro, a História de Portugal.

Uma história do Ocidente que se pensa a partir da “Idade do Ouro”, período áureo da História da Humanidade que terá terminado, grosso modo, com a saída do Homem do Paraíso Divino com a queda que trás o pecado original, conforme enunciado nos evangelhos. A partir daí tem vindo o Homem em avanços e recuos, à procura da porta de saída que lhe traga de volta a magnificência desse perdido Reino Divino.

Depois dessa queda, só com o fim do Império Romano se verifica uma intenção de plena sacralização das sociedades ocidentais. Depois de instituído o Cristianismo como a religião do Império será, todavia, depois da derrocada da sua parte ocidental que Ele florescerá, sobretudo, por todo o período medieval.

O Renascimento interromperá na Europa este período de, aproximadamente, dez séculos em que o Cristianismo se foi impondo. Tanto pelas artes e política, como pelas ciência e religião, as novas ideias vão trazer uma nova organização social, política e económica, quer pela consumação dos ideais liberais iluministas, quer pela legitimação do capitalismo pelo protestantismo. A sul, pela mão de Maquiavel, a norte guiados por Lutero.

Portugal resiste. Prova disso mesmo é o Projecto de evangelização cristã do mundo que ganha tradução com a Expansão Ultramarina. Mas se com D. João II, o Projecto treme, com o Marquês de Pombal as novas ideias triunfantes por toda a Europa irrompem decididamente pelo país que não tem mais forças para lhes resistir.

O Projecto defende-se, todavia, nos ideais de missionários, literatos, poetas e cientistas. O padre António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, entre muitos outros, tentam reencontrar o nosso próprio caminho. Os dois primeiros desenvolvendo o ideal do Quinto Império, Agostinho da Silva encontrando-lhe paralelo no Culto Popular do Espírito Santo, instituído em Portugal no Reinado de D. Dinis, trazido para Portugal pela sua esposa, a Rainha Santa Isabel, de Aragão.

Agostinho da Silva traduz na ideia do Culto Popular do Espírito Santo a genuinidade do Projecto Lusófono, já mais que unicamente Lusíada. A Idade do Espírito Santo, tal como defende o ideal Joaquimita, será a sua utopia de referência.

“E porquê o Culto Popular do Espírito Santo”, perguntou certa vez O Professor? “Porque até agora não encontrei ideia melhor para pensar a existência portuguesa no mundo”, concluiu.

Luis Santos


Notinha: Hoje, 13/2/2011, o Professor faria 105 anos. Parabéns.


Bibliografia

. BORGES, Paulo (2008) A Pedra, a Estátua e a Montanha. Lisboa: Portugália Editora.

. idem, (2008) O Jogo do Mundo. Lisboa: Portugália Editora.

. ESCUDEIRO, António (org.) (2006) Agostinho da Silva, ele próprio. Corroios: Ed. Zéfiro.

. FONSECA, Branquinho da (org.) (1984) As Grandes Viagens Portuguesas. Sintra: Ed. Manuscristo.

.SANTOS, Luis (org.) (2005) As Últimas Cartas do Agostinho. Alhos Vedros: Ed. Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros.

. SILVA, Agostinho (2002) Estudos sobre Cultura Clássica. Lisboa: Âncora Editora.

. idem, (2000)Textos Pedagógicos I e II. Lisboa: Âncora Editores.

. idem, (1996) Reflexão. Lisboa: Guimarães Editores.

. ESCUDEIRO, António (org.) (2006) Agostinho da Silva, ele próprio. Corroios: Ed. Zéfiro.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Confissões de uma alma apaixonada

Fernanda Leite Bião*

Existe um frio que independe da estação predominante.
É um frio que brota das profundezas do ser
E se instala exatamente na região abdominal.
Faz incômodo. Algo que cintila entre os arredores do coração
E se expressa nas mãos que exprimem um toque gélido.
Um clamor, um suspiro se exprime, agora, entre as batidas
Ora aceleradas, ora tranquilas,
Dentro do meu interior, que indica a situação de mim.
Quisera eu entender todas as cantigas que toco,
Quando a alma de minha alma se aproxima.
Quisera eu entender todos os movimentos
Entre o olhar, o gesto e o tocar que minha alma procura sintonizar.
Ternura e movimentos bruscos.
Afasto aquilo que quero juntar, por medo de perder.
Pássaro de penas coloridas,
Que se esvazia no ar e muda rapidamente de horizonte e cores.
Sonho do reencontrar.
Tristeza no olhar.
Acho-me.
Enfim!

* Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Life is Life`s

A vida tem destas coisas,
Uns começam pelo fim,
Outros pelo fim começam,
Alguns nem chegam a começar,
já para não falar,
dos que nunca começam,
e dos que nunca têm fim.

Corre Pé

Carta de um humano

Touradas???

Os homens e mulheres não são entidades estáticas, mas sim seres que têm em si a capacidade de fazer melhor, portanto de serem perfectíveis. Assim, se considerarmos que são susceptíveis de se aperfeiçoarem, isso implica que têm a capacidade de abandonarem modelos que deixaram de representar os valores entendidos como correctos à luz de um dado patamar ético e, consequentemente, estabelecerem novos paradigmas que lhes permitam orientar as vivências de modo mais consentâneo. Assim, movimento, interacção e evanescência surgem como molas propulsoras da Vida em permanente devir.

Ao longo dos tempos, as culturas deixaram sempre aflorar, aqui e ali, os altos valores dos saberes que se constituem ainda hoje como farol para uma prática fraterna entre todos os seres sencientes, onde naturalmente se incluem os humanos, e onde todos, necessariamente, têm um lugar e um papel a desempenhar. A Natureza só é feliz quando todos os seus elementos vivem em equilíbrio dinâmico consoante o patamar de consciência de cada um! E esta consciência – por exemplo, a capacidade de reflectir e meditar sobre as ocorrências e actos praticados – se mais apurada, mais subtil e profunda, tanto mais responsável deverá ser.

A questão que aqui se coloca é, pois, bastante simples. Se aceitarmos que os actos praticados, ditos e pensados têm consequências, que papel queremos desempenhar nesta dinâmica inter-relacional e, por maioria de razão, que herança deixaremos às gerações vindouras? No caso dos seres “animais”, desejaremos conscientemente continuar a retirar prazer a expensas do seu sofrimento, numa espécie de orgia selvagem que não olha a meios para atingir os fins, mesmo que isso implique dor e tormentos continuados? É essa a representação de Homem que queremos continuar a sustentar e/ou permitir?

Porque os valores mudam, as culturas necessariamente reflectem estas mesmas mudanças! Afirmarmos que algo faz parte de um alegado “património” e que portanto se deve eternizar, mesmo que isso comporte o perpetuar de valores já inaceitáveis, é não só recusar o óbvio como também tentar afirmar um imobilismo pantanoso na vã pretensão de aprisionar o grande rio da vida. É também recusar crescer interiormente, é voltar as costas ao horizonte desenhado pela solidariedade e pela fraternidade que devemos a nós próprios e a todos os outros seres que, juntamente connosco, compõem esta grande Sinfonia da Natureza! Aquilo que alguns apelidam de “animais”, esses meros objectos, simples “coisas” de quem se alega ter o direito de dispor a seu belo prazer na prossecução de interesses egoistamente medíocres, é já hoje uma abordagem que a maioria não sustenta, que já não entende como aceitável!

A grande comunidade de Portugueses a que chamo Portugal, perdoem se me engano, tem ao longo do tempo dado evidentes sinais ao mundo de possuir um fundo afectuoso e uma intenção de pouco pactuar com interesses mesquinhos, mostrando desde sempre ser mais inclinada para o sorriso hospitaleiro do que para o exercício do uso do gume da espada! Não será afinal esse o “fundo” Português que subjaz à manta genética que nos surge aos sentidos? Como “rosto da Europa”, como farol que mostrou novas terras ao mundo e por tantas outras razões que não cabe aqui mencionar, é hora de reafirmarmos mais uma vez a nossa força de mudança alicerçada por essa “alma” temperada pela força da esteva e pelo sussurro do mar no seu eterno movimento cíclico e que sempre nos convida a mais uma viagem.

As “touradas” são a degradante imagem que certos defuntos protelados querem perpetuar, a vergonha da nossa cara enquanto homens e mulheres cidadãos dos «mundos a haver»! Não deveremos mais permitir que a imagem desta terra luxitanea, deste porto sagrado do graal, se deixe manchar pela incúria e passividade, pelo comodismo e pela recusa de vivenciar um modelo holístico, abarcante e fraterno! Há tempo para pensar, há tempo para agir! Hoje, na velocidade estonteante deste mundo tido como complexo, a sabedoria mostra a verdade do que é simples mas não simplório. Avancemos para pensar, pare-se para verdadeiramente agir! Na simples decisão de uma recusa firme, que jamais possa dar continuidade ao vil proceder, está a força calma do sorriso que simplesmente diz não.

Portugal é pequeno para os curtos de vista, para os de coração empedernido, nunca para aqueles que o vivem como terra prática de sonho e utopia, onde a planura alentejana e as serranias para lá do Marão, o quente Algarve, o doce Minho e as saudosas Beiras, as cálidas terras estremenhas tão perto desse Riba+Tejo, são evidências de diversidade a que subjaz a unidade desse “ser” Português do/no Mundo!

Touradas??? Decididamente, não!!!

António E. R. Faria

P.S.: Esta carta foi-nos enviada por Paulo Borges com pedido de divulgação.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XXIV


Cacilheiro Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 75x100cm


Esta tela foi feita especialmente para uma exposição que fazia parte de um programa de humanização dos hospitais, nas relações com os seus utentes. Pretendia o seu director com a realização de diversas exposições nos locais mais frequentados, levar um pouco de alegria àqueles que aparentemente não teriam muitos motivos para se sentirem felizes.
O hospital foi o Garcia de Orta em Almada, cidade que fica em frente a Lisboa, na margem esquerda do Tejo. As telas que apresentei mostravam Almada, ou Lisboa vista de um ângulo pouco habitual: as imagens foram todas captadas de barcos da carreira Barreiro – Lisboa, ou Cacilhas – Lisboa. Estes barcos são chamados cacilheiros... É a bordo de um destes barcos que está o casal, completamente alheio à beleza do casario de Lisboa...
Esta obra ficou a fazer parte do espólio do Hospital... Nunca mais a vi, não sei em que gabinete ou corredor estará...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

'O Bardo na Brêtema'

CULTURA

Por Rudesindo Soutelo (*)

“Quando se pronuncia a palavra «cultura», é grande a probabilidade de alguém empunhar um revólver, pronto a disparar!” diz Gilles Lipovetsky na introdução de A cultura-mundo (1). O nazismo eliminava os intelectuais e artistas por degenerados, o estalinismo por burgueses. As ditaduras de todo o espectro político coincidem em culpabilizar a cultura, e as democracias não ocultam a fadiga de lidar com uma cultura que pensa, reflete e critica o poder.

No século XVIII, Schiller escrevia como cidadão do mundo; a Ode à Alegria – mercê de ser utilizada por Beethoven no final da Nona Sinfonia– é desde 1985 o Hino da Europa. A cultura de Schiller, como a dos filósofos gregos e a das origens do cristianismo, era a universalidade do género humano; um ideal ético, partilhado por Beethoven, que recusava considerar os outros povos como inferiores. Situar o amor à humanidade acima do amor à origem sempre foi percebido como um perigo, uma alta traição às pátrias.

Lipovestky diz também que a cultura era um sistema completo e coerente de explicação do mundo (2). Mas aquela utopia de ser ‘cidadãos do mundo’ e de “exaltar os valores da liberdade e da tolerância, do progresso e da democracia” foi dando passo ao mundo sem fronteiras do capitalismo cultural, o hipercapitalismo de consumo, onde a cultura se impõe como uma indústria, um complexo mediático-mercantil que proclama o “tudo é cultura” e elimina as fronteiras simbólicas da alta e baixa cultura, da ciência e superstição, empobrecendo a vida social e intelectual, e glorificando a barbarização da cultura (3).

Consultada a palavra ‘cultura’ em dois prestigiosos dicionários da internet (4), percebemos a origem agrária deste termo pois as primeiras definições referem-se ao cultivo da terra, lavoura e técnicas para obter produtos vegetais para consumo. Apenas em sexto lugar é que aparece a definição de cultura como conhecimento, saber, educação, estudo, valores sociais e aplicação do espírito. Cultura é, pois, um artifício, uma intervenção do intelecto humano na natureza, desenvolvendo formas de pensamento e conceitos filosóficos. Cultura é uma determinada organização e conceção humana da natureza e só em sentido metafórico é que podemos falar de cultura, de música ou de arte na natureza. Claude Lévi-Strauss, em La Pensée sauvage, diz-nos que na sua forma pura, ‘selvagem’ ou mítica, a cultura é uma ordenação totalizadora do mundo (5).

Então o que é que concita as iras do poder quando se menciona a palavra «cultura»? Já, na antiga Grécia, Platão expressou, na República, um temor que parece continuar vigente: “nunca se abalam os géneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade” (6). A cultura dá argumentos aos indivíduos para questionar o poder mas nenhum ‘poderoso’ aceita de bom grado submeter a sua autoridade. O que irrita os “cretinos com poder” (7) –expressão de Diego Armario que assim intitula o seu recente livro– é o prestígio da alta cultura, erudita e nobre, a ‘cultura culta’ do humanismo clássico, a cultura do mérito, da inteligência, a cultura que cria, inova e tem iniciativa (8).

Não se pode pensar no ser humano carecendo de uma vontade de superação, de se ultrapassar, de transcender –o que Nietzsche denominou “vontade de poder” (9). Mas essa identidade não se recebe nem se compra; a cultura, o conhecimento, segundo Robert Stake, não se descobre, constrói-se (10).

Apenas depois de conhecer a cultura é que ela pode ser apreciada (11).

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(*) Compositor e Mestre em Educação Artística. Artigo publicado simultaneamente no jornal Aurora do Lima (Viana do Castelo).

VER AQUI FICHEIRO PDF REVISTO

Notas:

1 Lipovetsky, G., & Serroy, J. (2010). A cultura-mundo (Resposta a uma sociedade desorientada). (V. Silva, Trad.) Lisboa: Edições 70, p. 11.

2 Ibid., p. 12.

3 Ibid., p. 32.

4 http://www.priberam.pt e http://www.infopedia.pt

5 Leví-Strauss, C. (1970). O pensamento selvagem. São Paulo, Brasil: Companhia Editôra Nacional, Editôra da Universidade de São Paulo. p. 299.

6 Platão. (2008). A República (11ª ed.). (M. H. Pereira, Trad.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 169 [424c].

7 Armario, D. (2010). Cretinos com poder. (M. B. Cruz, Trad.) Lisboa: Babel - Arcádia.

8 Lipovetsky, G., & Serroy, J. op. cit., p. 209.

9 Nietzsche, F. (2004). A vontade de poder (Vol. 1). Porto: Res.

10 Stake, R. E. (Outono de 1994). Composition and Performance. Bulletin of the Council for Research in Music Education, 122, pp. 31 - 44.

11 Lipovetsky, G., & Serroy, J. op. cit., p. 224.

(c) 2010 by Rudesindo Soutelo
Ver mais em: http://www.soutelo.eu/uploads/Soutelo-Cultura.pdf

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

FACES

IMPRESSÕES


Hoje estamos aqui para celebrar a eucaristia, para fazermos um voto pelo padre Casimiro Gusmão e também para Sant’Ana que, como vocês sabem, se festeja neste dia de vinte e seis de Julho e ainda para orarmos ao Senhor que está entre nós

O SENHOR ESTÁ ENTRE NÓS!

O Senhor que nos ajuda a vivermos e a melhorarmos estas nossas vidas fantásticas, neste pedaço de deserto flutuante, em que os pombos disputam alimentos invisíveis às cabras e galinhas pululantes por onde haja um aglomerado de habitações, no qual os furacões do experimentalismo cultural deixaram restos destelhados de edifícios esburacados e risíveis, alguns

AS FARP ESTÃO VIGILANTES NA LUTA DO POVO PELA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO NOVO

cujos testemunhos são ruínas, por ora, ainda brancas, embora, sob o calor tropical, os arames farpados vão enferrujando depressa; ou então as papoilas anacrónicas como a foice e o martelo do Hotel Aeroflot, em Santa Maria do Sal. Outros, dramaticamente eloquentes das tragédias de tantas descolonizações ou da não menos problemática relação dependente dos produtores de matérias-primas, incapazes de influenciarem o ritmo da procura nos mercados, fantasmas de uma economia do sal, de todo incompatível com as tábuas falhadas e acotoadas do cais de embarque.
“-Oh pááá, isso era coisa de muito movimento. Todos os quinze dias vinham aí uns navios a caminho do Congo ou de Luanda e carregavam umas vinte toneladas de sal daqui p’ra fora.”
Um guarda fiscal, por esses tempos, tinha muito trabalho, era uma coisa de grande responsabilidade.
Mas em Espargos sente-se energia florescente em pequenos comércios anódinos mas em pleno esforço de afirmação e enriquecimento e o mar e a mesma transparência de sempre, a orla verde, brilhante que circunda toda a ilha e permanentemente a presenteia com um alvo buliço, aqui e ali mesclado pelo breu acastanhado.
Quando atravessamos a planície de lavas arenitificadas, uma e outra vez visualmente interrompida por algumas corcundas cor de cinza castanho avermelhada, e além, paradoxalmente, jovens cones apontados a um céu não raramente ornamentado com nuvens, maioritariamente dispersantes, negaceiras em abençoarem os dois ou três oásis neste minúsculo prolongamento emerso das imediações saharianas, ao longo do asfalto que rasga as dunas rasteiras e a perder de vista, ou dos caminhos abertos por pneus e gado saído do nada, impera o som do vento e quando descemos o túnel do aproveitamento salineiro de uma caldeira vulcânica, esquecemos por completo o testemunho físico da existência solar.

QUE O SENHOR ESTEJA CONNOSCO.

Ele está entre nós, meu Deus todo-poderoso que me protege dos raios e faz das minhas cabras e do meu burro uns animais espertos para comerem do que há por aí, entre pedras e pedrinhas e pedregulhos espalhados de permeio com os lixos de plásticos e latas que vão sendo arrastados pelos remoinhos mais enfurecidos das deslocações de ar e nos dê saúde para vivermos com Fé e esperança nesta terra abençoada por Si.
Mas este país tem futuro, não é verdade senhor Jacinto?


Santa Maria do Sal, 26 de Julho de 1992

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vidas Lusófonas

O rigor histórico não está condenado à prosa de notário,
é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será.

Carlos Loures desafia
o zoólogo e ecologista

GERMANO SACARRÃO
http://www.vidaslusofonas.pt/germano_s.htm

que responde:
- Todos os meus problemas
tive-os, por ouvir bem demais...

Depois instala-se em
VIDAS LUSÓFONAS
http://www.vidaslusofonas.pt
onde já moram 136.

Naquela casa
tudo está a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 22,7 milhões de visitas .

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Filosofia e Saudade

16. Eduardo Lourenço - "Tempo e Poesia"

A experiência do instante como alguma coisa que escapa ao tempo, que pertence ao eterno, ou melhor, algo que transcende tempo e eternidade - só o instante é real. Tempo e eternidade, passado e futuro esbatem-se no instante. O instante não tem história, nem projecto. O instante é inacessível a nós próprios, não se pode agarrar - agarrar é perdê-lo.

A saudade é esta ânsia de agarrar o inapreensível, o eminentemente fugaz. Inacessível e próxima. Enganam-se os que pretendem fazer da saudade algo de exclusivamente português. Existe sim, uma predisposição sensível para a apreensão da saudade.

Não podemos estar exilados de uma ideia de Paraíso, nós somos o Paraíso, portanto, não podemos sair de lá. Quanto mais procuro, mais me afasto. Não é na procura para fora, mas na procura para dentro que me devo buscar. A saudade é a reversão da própria busca.

Temos aqui uma Saudade tal como é definida por Pascoaes, mas fora de um espírito estritamente nacional. Só a experiência poética nos permite aceder a esta saudade ( e não a ciência, religião, filosofia...). A vitória real é a experiência poética. Na mais idealista das filosofias nós continuamos ainda prisioneiros do mundo. Só a forma poética é a libertação do mundo. Poesia é igual a Criação, anterior à experiência artística, ou à apreciação estética.

A experiência do tempo reduzido a um ponto só. Nós somos a grande imensidão.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A escravidão no Brasil

Desenho de Johann M. Rugendas : Nègres à fond de cale d’un bateau d’desclaves. Fonte: wikipedia livre

Pela humanidade execrada, existente desde os primórdios das civilizações, com características inerentes à cultura e motivação dos povos que a exerceram, a escravidão foi um sistema socioeconômico coercivo que utilizava a competência física ou intelectual do homem cativo em guerras e assaltos, pelo seu dono ou senhor, para adquirir algum tipo de bem, seja financeiro ou de prestação de serviços.

Com a descoberta do Novo Mundo e a tentativa de fazê-lo economicamente viável, para os povos que tinham terras conquistadas e pouca gente para ocupá-las (portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, ingleses) o emprego da escravidão foi a solução primitivamente encontrada.

Assim começou a escravidão na América. O tráfico de escravos inicialmente com o monopólio português, logo foi superado pelos concorrentes. Até que os ingleses não o julgaram mais necessário, quando a economia inglesa tomou outros rumos mais eficientes e supostamente humanitários. Era a maquina tomando a vez do trabalho escravo, mas sempre precisando de gente para manipulá-la ou gerenciá-la. Com ela veio outro tipo de escravidão, a que a sociedade industrial desenvolveu.

Era basicamente através das Feitorias instaladas nas costas da África (Arguim e São Jorge da Mina), no escambo com os sobas, que os portugueses adquiriam escravos. Pervertidamente estimulados pelas ofertas portuguesas (proteção armada, panos, armas, açúcar, cachaça, enfeites,...), os reis africanos trocavam prisioneiros de guerras tribais ou das caçadas (às vezes ajudados pelos portugueses), pelos bens que aumentavam seu prestigio, vaidade e poder.

No Brasil, como a escravidão ameríndia não deu resultados (dificuldades na captura dos índios, alto índice de mortalidade, dificuldade de aculturação de uma sociedade indígena estruturada, proteção da Igreja) a solução portuguesa foi buscar na África material humano para o trabalho. Fisicamente mais resistentes, os africanos suportaram, apesar das muitas perdas de vida, as longas e insalubres travessias, os bárbaros castigos, as duríssimas condições de vida. Socialmente desterrados e desestruturados, pelo Vaticano ignorados como seres sem alma, e sem direito à liberdade, foi mais fácil para os colonos luso-brasileiros utilizá-los. A escravidão africana, no Brasil, propiciou a produtividade (mineração, plantação de cana de açúcar, algodão, tabaco, café, manuseio de gado) e desenvolvimento (mão de obra rural e urbana, serviços gerais), e foi elemento fundamental na formação genética e cultural do povo brasileiro.

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 24 de janeiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

FOGO

O gelo derrete e torna visível a pele porosa, para a respiração e combustão de dentro.
Dentro de cada um e em todos há um fogo perpétuo que ora se alteia em labaredas, ora amansa até ser só um suave calor no peito. Por vezes quase se extingue e a gente encolhe-se, protegendo a ténue chama no recôncavo da alma. A vida consome-se, consome-nos, nessa combustão perene.
Nascem sombras, desafios, desilusões, gargalhadas, dúvidas (e a gente pergunta), desilusões, lágrimas, luz, … sonhos. Sonhos que nascem, crescem e se desmoronam. Alguns concretizam-se e outros surgem, vão e vêm, e continua a procura em redor (o redor alarga-se, vai-se alargando) e sempre, alimento para o fogo que arde.
Nascem rugas no corpo e a alma caleja. E todos, todos, se juntam à volta do fogo.

É da roda do fogo que a todos se convoca.
Tribos de montanha, gente do mar, povos da planície. Solitários, “nómadas distantes”, raianos de fronteiras por descobrir, génios, enfermos. Poetas, músicos, cantores, artistas. Mestiços e todas as raças. Loucos, desiludidos, profetas. Mortos que se carregam, crianças por nascer e… (se faltar alguém, que se acrescente se faz favor.) Gente. Gente que sonha e sofre e ama. Gente que chora e ri e afaga e guerreia e protesta e fica acordada em madrugadas de insónia e dorme o sono dos justos no esgotamento do cansaço. Gente que desespera mas que se reergue procurando outros e novos caminhos. Gente que escala montanhas que se suja na lama mas rebola nas encostas do lado de lá onde se lava e continua. Gente que sente e pensa, não se conforma e acredita. Gente viva, gente de bem.

Convocam-se esperando que venham e cheguem. Sozinhos ou em grupo a qualquer hora e de todas as direcções. Tragam alimento para o fogo mas quem não tiver aqueça-se na mesma. Venham, venham todos compor hinos e cantar. Acabar com a fome cantemos. Acabar com a guerra cantemos. Viver em amor cantemos (se alguém precisar de se descalçar, descalce-se). Cantemos, cantemos todos em volta da enorme fogueira colectiva e plural. Cantemos a madrugada, a madrugada plena como erva molhada de orvalho acabadinha de florir ou como uma árvore que se inclina a sorrir.

O fogo crepita na noite e continua rumo à manhã de todas as noites do mundo.

m j

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XXIII


Biblioteca Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre tela 50x60cm

A obra que apresento, foi criada a partir de um esboço que fiz para ilustrar uma crónica de jornal. O esboço pareceu-me demasiado abstracto para poder ser considerado uma ilustração e resolvi fazer um desenho puro e duro que foi publicado com a crónica.
Depois da publicação da crónica e do desenho, fiquei com um esboço a tinta da china de que eu gostava tanto que considerei a hipótese de o explorar noutras dimensões e com a adição de cor.
Por este motivo, esta obra foi de execução aparentemente fácil. Todo o trabalho de luz e sombras estava definido no esboço. Os elementos concretos de que me ia servir para introduzir o observador na biblioteca estavam lá: os arcos da estrutura do edifício, as portas, os corredores, as escadas com os seus corrimãos, as prateleiras com os livros... Torná-la confortável era a missão que a cor teria de cumprir. Nunca ficou claro no meu espírito se devia ou não povoar a biblioteca de leitores...
Cobri toda a tela com yellow ochre e burnt umber, definindo logo as zonas mais luminosas e as mais sombrias. Naples yellow e titanium white foram as duas cores que deram mais luz a zonas pouco iluminadas ou que precisavam de contrastes mais fortes para dar vida ao conjunto. Com o burnt sienna dei o tom avermelhado quente para tornar a biblioteca confortável. A cor azul (cerulean blue hue) serve também para dar contraste ao tons quase monocromáticos utilizados, mas sobretudo para abrir janelas, por onde a luz do sol entra e se vê o céu. Indispensável numa biblioteca.

BIBLIOTECA, O PAÍS DAS MARAVILHAS
Sinto saudades, absurdas saudades, dos momentos angustiantes que antecediam a minha entrada na biblioteca.
Actualmente, entra-se e pronto.
Dantes, não era certo o direito de admissão, mesmo cumprindo todas as regras. A porteira, com os bigodes iguais aos dos actuais porteiros das discotecas, tinha o direito divino de inventar uma regra para só deixar entrar quem lhe apetecesse. Mas atenção: nunca houve tiros para forçar a porta. A nossa imaginação só chegava ao lançamento duma garrafinha de mau-cheiro, por alturas do Carnaval.
A cerimónia de recepção, era tão complicada, como o ritual de acasalamento dos papagaios. Depois de depositar o BI nas garras da seresma, ela olhava para mim, cheirava-me, via a sola dos meus sapatos, examinava as minhas mãos e unhas com o ar de um sargento de artilharia, a revistar soldados.
Nesses infindáveis momentos, nem conseguia respirar o prazer de ter pulmões. Fazia o meu sorriso mais cativante mas só com muito custo conseguia evitar que raios paralisantes saíssem dos meus olhos, directos ao coração da megera.
Um último olhar para examinar os cabelos e levantava um braço, que tinha na ponta a mão, mas donde eu via sair um martelo que me atingia a cabeça. Algumas vezes, que maravilha, tinha uma senha azul e um dedo que me apontava o cimo das escadas.
Já sabia todos os truques para aumentar as hipóteses de subir ao paraíso: para eliminar cheiros suspeitos, tinha nos bolsos bolas de naftalina, misturadas com os bugalhos e abafadores, molhava os cabelos para baixar os remoinhos, calçava botas cuidadosamente ensebadas para não rangerem, com solas de borracha para não fazer barulho.
Apesar de tudo não era certa a entrada. O Zé Mocho ficou uma vez à porta porque tinha o risco do lado errado da cabeça.
Era preciso subir o primeiro lanço de escadas com muita calma: correr, era proibido!
Chegava a uma porta envidraçada. Esperava, sem sinais exteriores de impaciência. Bater, nunca! Quando a cabeça da senhora, com o nariz pousado numa montanha de papéis, se levantava para olhar o verme que se atrevia a incomodá-la, eu levantava, lentamente, a mão para lhe mostrar a senha.
A senhora recebia o passe e ciciava: “Sssegue-me, sssem barulho.”
Em bicos de pés, num ballet estranho, tic, tic, tic, chego a uma mesa comprida cheia de pessoas mergulhadas nas ondas de perfumes de tintas e bolores, drogas alucinógenas, cujo perigo ainda não tinha sido detectado pelos guardiões do regime. Sento-me numa cadeira vaga. Preencho a ficha com o pedido do livro a que tenho direito: a senha azul limitava o acesso a obras indicadas para meninos até aos catorze anos e para meninas até aos dezoito anos. Nunca percebi porquê. Passados uns eternos instantes, a bibliotecária deixa o livro requisitado na minha frente.
A partir desse momento esqueço a humidade desta sala bafienta, mal iluminada, ou os cadáveres sentados em cadeiras, a voltarem folhas de papel cheias de carunchos esfomeados, crac, crac, crac…
Lá fora podia subir ao sol, beijar as nuvens, falar com os pardais, afagar ou chutar uma bola… Tudo passava para segundo plano.
Com a ajuda do meu amigo, il Signor Emílio Salgari, vou derrotar todos os piratas, vou descer ao fundo dos oceanos com Monsieur Júlio Verne, com Mister Mark Twain vou ganhar amigos para sempre, ou vingar-me de todas as traições com Monsieur Alexandre Dumas.
Foi numa destas salas que Einstein formulou a teoria da relatividade. Assim também eu: lá dentro o tempo voa!
É sempre com um sobressalto que oiço ao meu ouvido:
- “Faltam dezzz minutossss”.
Agora, que tinha descoberto a palavra mágica para entrar na caverna do tesouro…
Nas bibliotecas actuais sinto a falta do barulho do caruncho, acho estranho estar a ver o sol a entrar pelas grandes janelas, enquanto, conduzido por Mary Shelley, entro num castelo sombrio, com perigosos vampiros sedentos de sangue, à espera da chegada da noite para beberem tudo.
Acho excessiva a familiaridade, com que posso ir buscar à prateleira, sem uma requisição em papel selado, Saramago
- Com que então, um Nobel, pá?
digo, dando-lhe uma palmada na lombada, ou Camões
- Tás bom, ó zarolho?
para não falar do disparate que é, deixarem qualquer pessoa sair pela porta fora com o Lobo Antunes na mão. Coitado, nem nas prateleiras o deixam sossegado.
Melhor, melhor mesmo é o sorriso simpático com que sou recebido na biblioteca. Mas, mesmo assim, não sei…É demasiado fácil. Acho que falta a incerteza, a angústia de poder, ou não, entrar. Ninguém me pede uma senha!
Serei masoquista?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O corpo já sem alma

Estranha coisa essa de se fechar o corpo quando se esgota a alma…
Fecham os olhos, a boca, as mãos…
Fecha a glote… a traqueia…
… e o coração…
Fecha a vida para a vida ainda que permaneça.
Sobrevida daquela que foi, na qual não se crê ainda…

O pulso lento e o ar entrando devagarinho.
Pulmões murchos no desejo do vazio.
E a voz de fora que aponta a força que tens…
… a maldição da força que te cola onde queres não estar…
… lugar que queres largar…

Que vida é essa onde te fechas para tudo?
Onde estás agora nesse dentro escuro?
O sangue gotejando nas veias
O corpo sucumbido ao peso dos cadeados…
A alma esgotada no silencio de tudo,
a pele rasgada pelo trilhar de sonhos,
o mundo parado… gelado…

A alma no corpo ainda….
… e o corpo já sem alma.

Cléo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

FACES

ÁFRICAS
Para o
Guilherme e o grito do Mindelo
pela vida e a dignidade

HASSAN


Vim a saber, posteriormente, ao longo de uma conversa de várias horas entre Marrakesh e Agadir, Hassan é filho de pastores e camponeses berberes, obrigados, por um terratenente oriundo de Casablanca, a recuarem do planalto fértil subsequente a Meknes para as terras semi-desérticas mais próximas à primeira daquelas cidades.
Ainda cresceu, já com aquele andar de lentidão e carnes balofando, passadas de chinela no trote de quem tem de correr atrás das cabras e do Cheou, o nome atribuído por seu pai ao dromedário familiar, à frente do qual ambos se dirigiam orgulhosos para o souk, a fim de procederem à troca dos víveres excedentes ao auto-consumo. Ali, na casa rectangular de adobe cor-de-rosa e no jardim imediato ao poço, sob a protecção de um morro rochoso apontado às nuvens rolantes, aprendeu o necessário e o fundamental à sobrevivência de um homem.
E a feliz casualidade do facto de ter aprendido a ler e a escrever a língua árabe com um mullay de uma aldeia próxima, salvou-o de uma vida incerta quando, aos doze anos, se viu obrigado a viver sob a protecção de um tio materno, pequeno comerciante estabelecido na capital da província.
O seu pai fora um homem corajoso que soube transmitir-lhe esse legado e que após a morte do filho mais velho, por via da desgraça, fora forçado a abandonar o amanho das terras e procurar outros meios para melhorar os réditos e a alimentação do que, apesar de todas as vicissitudes, no íntimo, desejava viesse a ser um novo clã. Apesar de não ter conseguido impedir a morte de outro rapaz e de se ter ficado por um trio feminino e apenas um macho, não descurou a demanda da maior riqueza possível para que todos desfrutassem de uma vida farta e segura. Mas acabou preso, por esfaquear o primogénito daquele que lhe arrematara toda aquela superfície salpicada de piteiras e palmeiras e outra vegetação de arbustos e árvores de clima quente. A mãe e as irmãs que jamais tiveram notícias do prisioneiro, aceitaram o amparo de uma cunhada e ele levou consigo uma revolta silenciosa e uma obstinação férrea de vir a ser alguém, aquilo que, no seu entendimento, se definia por ter uma individualidade, criar e educar a descendência, partilhar tal missão com a mulher e viver de um trabalho sério e limpo, bem remunerado e prestigiante.
“-Podermos descansar no mês de férias junto ao mar e viver numa casa com todas as condições e quarto para mim e a mulher, um para os rapazes e outro para as raparigas. Se assim puder proporcionar-lhes a aprendizagem de uma boa profissão acho que ficaria satisfeito.” –Disse-me ele num francês fluente, fruto de um curso de aperfeiçoamento, a concluir, assim o esperava, no Inverno seguinte, numa escola de línguas na cidade de Ingrid e Bogart.
Foi esse o objectivo secreto que o levou a trocar as tarefas na loja do tio pelo emprego de ajudante e moço de recados num hotel, por volta dos seus catorze anos de idade. Decidira então aprender numa escola pública e concluíra os preliminares necessários à entrada num curso de hotelaria.
Quando o conheci tinha vinte anos e há três que trabalhava como ajudante em autocarros de excursões turísticas. Era uma ocupação decente e com as gorjetas acabava por ser bem remunerado. Hassan estava confiante e contava vir a ser guia turístico, diplomado e competente, etapa que esperava cumprir com êxito graças ao pecúlio amealhado e que ainda lhe proporcionaria uma entrada confortável na carreira almejada.

Conheci-o como consequência de ter seguido a sugestão de duas professoras residentes na margem sul e pessoas das minhas relações que, por mera casualidade, encontrei a banhos em Agadir, onde, apesar de inesperadas instabilidades do tempo atmosférico, em algumas matinas, pela força da névoa, capazes de impedir os rituais balneares, os baixos preços dos alojamentos relativamente luxuosos concorrem vantajosamente com outros lugares igualmente debruçados sobre a ressaca.
Aconselharam-me um circuito turístico que, ponderadas as limitações do tempo e das opções pelos lugares a visitar, possibilitar-me-ia, na opinião delas, um primeiro correr a face pelos marroquinos e o reino de Marrocos.
“-Depois até ficam mais à vontade para alugarem um carro e darem uma volta por vossa conta e risco.” –Disse uma delas, referindo-se à minha mulher.
Ajustados os trâmites devidos com o guia de uma agência de viagens que trabalhava com a estância hoteleira em que estávamos hospedados, dois dias depois, iríamos percorrer um périplo de mais ou menos dois mil quilómetros que ligaria uma sequência de umas quantas cidades, ditas, imperiais.
O Hassan era o ajudante do condutor, um autêntico assistente de bordo que, para além de contar os excursionistas e carregar e arrumar o malame, ainda mantinha o veículo impecavelmente limpo, ali dormindo, no estreito corredor, sobre colchão improvisado, justamente para zelar pela segurança de tudo o que ali permanecesse à sua guarda.
Reparei nele pela atenção com que desempenhava as suas funções e até mesmo a importância com que, aparentemente, se auto-presenteava, dormitando um pouco ao longo dos percursos morosos e extensivamente trepidantes. Calado e olhos testemunhando a obstinação de quem procura cumprir rápida e eficazmente uma acção, não escondia certa circunspecção, diga-se em sua defesa, razoavelmente discreta.
A curiosidade avolumou-se logo após a primeira e, praticamente que eu tenha registado, uma das poucas intervenções que teve nos diálogos com os turistas portugueses que ali viajavam em bancos perto do seu, entre os quais me encontrava.
Duas moças, uma senhora e uma jovem dos seus vinte e tantos anos, discutiam qualquer coisa, estando uma das mais novas a ser questionada pela sua recusa em perder tempo a discutir os preços dos vendedores.
“-Que desperdício.” –Argumentava, soletrante mas segura de si. “-Delapidando o meu rico tempinho para ver a Medina com um mínimo de atenção e pelos meus próprios olhos.”
O ajudante sorriu e, espontaneamente, falou. Percebeu-se e ele depois veio a confirmá-lo, por via das muitas jornadas que já levava com tais gentes, conseguia entender um pouquinho de português.
“-Freedom.” –Disse, repentina e inesperadamente, mostrando o contraste entre a branca dentição e a sua tez carregadamente moura. “-Elle a besoin de liberté.”

Agadir, 17 de Agosto de 1991