"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

As línguas com poucos acentos, as que não têm e a evolução ao longo dos séculos

Sabe-se que a língua inglesa permite acentos apenas em palavras provenientes de língua estrangeira que ela mantém, como "café", "fiancée",
"resumé", dentre outras. O que facilita a sua ortografia.

Em termos de origem, tanto o inglês (língua germânica) quanto o português (língua latina) pertencem ao mesmo ramo: o das línguas indo-européias, e essas línguas eram "similares" até antes de 500 a.C..

A partir daí ocorreram mudanças entre elas, sendo que uma dessas mudanças diz respeito ao modelo de acentuação no nível das palavras, ou seja, foi havendo variações na língua até que ela se tornasse o que é atualmente (no nosso português isso também aconteceu e acontece até hoje, inclusive. Somos fortemente influenciados pelos estrangeirismos, por novas palavras (gírias), agora temos o novo acordo ortográfico,...).

Num trecho retirado da Wikipédia, do artigo de línguas germânicas:

"As maiores mudanças que produziram a diferenciação do proto-germânico em relação ao proto-indo-europeu se completaram por volta de 500 a.C. Fonologicamente consiste em: desmembramento em várias vogais; mudanças no modelo de acentuação no nível das palavras e reduções e perdas em sílabas não tônicas. O primeiro desmembramento do som afetou todas as oclusivas sonoras e surdas do proto-indo-europeu.

A outra grande mudança fonológica é denominada segundo desmembramento do som e teve lugar posteriormente, consistindo na variação que sofreram várias consoantes indo-européias nas línguas germânicas.
Por exemplo, a consoante d se converteu em t (latim duo, inglês two), k ou c passou a h (latim collis, inglês hill), um t em th (latim tonitus, inglês thunder), um p em f (piscis/fish), e um g em k ou c (ager/acre). Esta característica foi descrita em detalhe no século XIX pelo filólogo alemão Jacob Grimm (mais conhecido por ser o autor, junto com seu irmão Wilhelm, dos famosos contos dos irmãos Grimm)."


Margarida Castro

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


CIDADÃO DE CORPO INTEIRO

 
Foi com todo o orgulho que a adolescência consente que eu esperei a chegada da funcionária e dos autarcas da Junta de Freguesia para efectuar o meu recenseamento. Cedo aprendi que nos cabe a dignidade de zelarmos pelas nossas vidas e, naturalmente, nunca entendi porque eram vedadas as possibilidades dos cidadãos responsáveis pretenderem tomar em mãos os destinos das coisas públicas, devendo os restantes dizerem de sua justiça qual deles o melhor. Por isso me alegrei com as perspectivas democráticas da manifestação dos cravos com que o povo recebeu os militares que deram cheque xeque-mate ao Estado Novo e, alguns meses mais tarde, mal me apercebi do desprezo com que a extrema-esquerda olhava essas questões, logo me apeei dessas composições de militância política, passei a formular os meus pensamentos e as minhas opções a partir de outros quadrantes. Com efeito, embora jamais tenha abraçado uma linha política definida, sempre me vi como um democrata e em conformidade tenho procurado agir e, por via do estudo e reflexão, reforçar e consolidar, sob esse ângulo, os meus pontos de vista. À data do primeiro recenseamento depois de Abril, estando eu em idade apropriada, foi com um sentimento de honra que fui a primeira pessoa a sentar-se nos degraus de entrada do edifício da Junta e é com garbo que hoje posso ostentar o número vinte e oito no meu cartão de eleitor, sabendo que antes de mim, nos cadernos, apenas constam os nomes das pessoas e respectivos familiares que, à época, asseguravam o funcionamento daquele organismo.
O mesmo fulgor no peito repetiu-se quando estreei meus olhos a verem o meu voto entrar pela ranhura da urna. Exactamente quando isso aconteceu não o saberei afirmar só pelo uso da memória; teria que recorrer à observação dos registos históricos da matéria. Mas sei que interiormente sorria de contentamento enquanto esperava a minha vez e nem o voto em branco diminuiu o júbilo e a interpretação da importância do acto e recordo-me que, no regresso a casa, senti-me tratado pelos meus botões como um homem. Nem quando recebera o meu primeiro salário eu tivera uma ideia igual. É evidente que logo esbocei um sorriso e encolhi os ombros que outros atributos não faltariam para que me pudesse considerar um homem, mas imediatamente apreendi aquela data como um marco simbólico da minha entrada nos assuntos do mundo adulto. Até ao momento, nunca descortinei as razões para alterar a fronteira. Finalmente eu era chamado a materializar a minha quota de propriedade do estado e também eu podia indicar quem gostaria de ver a gerir os negócios. Isso era ser homem e, relativamente ao meu pai, senti um enorme privilégio.
Não era a primeira vez que eu participava em votações públicas. A começar pelas experiências das reuniões gerais de alunos que, ao tempo dos governos provisórios, paralisavam os então ainda liceus –num dos quais eu estudava- e escolas comerciais e industriais, onde votara greves e protestos e reivindicações de braço no ar, ou expressara apoios por voto secreto para as direcções das associações de estudantes e os representantes discentes aos conselhos directivos, mas também nas algazarras das reuniões de moradores, invariavelmente de forma directa e tantas vezes entre apelos e apupos de última hora, também nessas magnas assembleias eu exercera os meus direitos de gaiato com quinze anos. E em todas essas ocasiões tivera já o ensejo de aderir ao lado dos vencidos.
Fosse como fosse, aquela tinha sido para mim a minha primeira votação séria e na altura pensei assim, a única em que aquilo que estava em causa era a valer.
Olhando para trás, agora revejo em outra ocasião a primazia, quanto ao grau de importância, entre as votações em que participei, curiosamente assinalando também a minha preferência pela ala derrotada da disputa.
Tratou-se de uma assembleia geral para a eleição dos corpos dirigentes de uma colectividade da vila, por sinal, a mais antiga e prestigiada.
Desde o fim de setenta e quatro que as direcções eram cozinhadas em reuniões partidárias e que as listas afectas a um partido ganhavam, compreensivelmente, devido ao maior número de sócios simpatizantes daquela corrente, de resto eleita em toda a autarquia por fortes maiorias absolutas. Mas o problema era que nesses três quatro anos subsequentes, a sociedade mais se parecia com uma coutada partidária e no que dizia respeito às missões para com os associados, até entre os acólitos era notório que muita coisa estava a ser deixada por fazer. Não havia memória de algum sócio impedido de avaliar o trabalho dos órgãos directivos e, como não podia deixar de ser, apareceram os rostos para o descontentamento. Os bailes tinham acabado, havia retratos de Marx e Lenine nas paredes, o grupo de teatro e a comissão cultural tinham que produzir realizações politicamente correctas e, como se sempre tivesse sido assim, as instalações abriam-se para todo o tipo de associações que as solidariedades com o mundo socialista vieram a dar corpo. Era demais e comentava-se que um sócio prestigiado tinha visto recusada a cedência de uma sala para uma reunião de empresários locais. A resposta veio de um grupo de velhos nomes da casa, a quem um movimento de abaixo-assinado veio propor para encabeçarem uma alternativa que devolvesse a instituição ao recreio e instrução de todos os associados. Os nomes da lista eram de peso e pela primeira vez foi apresentado um programa escrito que as boas vontades promoveram junto das residências dos confrades e, pelas reacções que iam obtendo, tudo parecia indicar estar próximo o fim daquele curto período que seria melhor esquecer. Eu e outros jovens que frequentávamos a sede por, em parte, ali termos sido criados, deixámo-nos iludir pelo desejo e começamos a festejar a vitória antes de tempo.
A ilusão apenas durou até ao momento em que entrei no pavilhão gimno-desportivo para participarmos naquela assembleia geral. A raiva que senti foi tanta que, reconhecidamente batido, ao levantar-me para votar nos meus candidatos, quase que as lágrimas me saltaram pelos olhos.
Nas primeiras filas, num dos lados da formação de cadeiras alinhadas de frente para uma mesa com a bandeira da colectividade, os idosos do Lar da Santa Casa da Misericórdia, também ela dirigida pela mesma cor de sectarismo político, tinham acabado de fazer pender o número de votos para o lado da direcção que ali estava para renovar o mandato.

Alhos Vedros, 17 de Maio de 1998

domingo, 26 de fevereiro de 2012

QUALQUER COISA NO AR NOS DIZ … QUE É HORA (!)   DE SOLUCIONAR UM PROBLEMA QUE NUNCA DEVERIA TER EXISTIDO.

Para quem desconheça e se aproxime, é um choque. Para quem já conhece e por ali circule, é a indignação e a revolta por a situação se perpetuar.
O Parque das Salinas é um lugar visualmente agradável principalmente para quem nele entra vindo da igreja. Árvores e relvados, campos polidesportivos, bancos e lagos, … mas, continuando a andar aproximamo-nos das zonas húmidas e caldeiras que integram o parque. Aí, começamos a ser surpreendidos por um cheiro fétido e nauseabundo que nos agride e nos faz procurar a causa. Deparamo-nos então com um imenso esgoto a céu aberto que vai variando de caudal segundo o mapa das marés.
A cerca de duzentos metros há uma creche, mais perto jovens e crianças praticam desporto, gente de várias idades passa caminhando, correndo, passeando, conversando e, …  isto não pode ser!
O ar que ali se respira quase dispensa a análise bacteriológica.
Um local que deveria ser espaço de convívio, lazer e divertimento, promovendo algum contacto com a natureza, a vida saudável e ao ar livre, acaba por constituir um atentado à saúde pública.
Já ouvimos várias explicações mas o que é um facto é que a resolução do problema vai sendo protelada. Ajam, portanto (!) e acabem com aquele perigo e aquela vergonha.
É o exercício da cidadania que fundamenta a democracia.
Respeitem-na e não a atraiçoem. 
Mais do que as palavras, o conjunto fotográfico que se segue é elucidativo, cremos.

Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.



 










sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Largo da Graça


José Afonso

O Zeca Afonso não é da minha geração, nem é parte indispensável da minha cultura musical. O que não quer dizer que não tenha várias canções indispensáveis.

Mas, além de tudo, encontro nas minhas liberdades fundamentais uma dívida para os que como ele deram a vida pela liberdade, pelo fim da guerra colonial, contra a pobreza e a injustiça social, por uma maior dignidade da vida humana.

É boa a criação do símbolo que nos permite recordar que alguém teimou em ter-nos amarrados, mão-de-obra para uso privado e não nos queria a voar. Eram, mais ou menos, assim os fascistas do Estado Novo. Mas há muitos mais…

Creio igualmente que muitos há levantando o punho com ele, mas embora nem suspeitem, são parecidos com os outros.

Como conheço mais o ícone José Afonso do que a pessoa não vou duvidar da sua generosidade na partilha. Sei que naquele tempo, se confundiam facilmente intenções totalitárias com liberdade. De maneira alguma me atrevo a dizer que tenha sido o caso, bem pelo contrário. Mas não é que ainda hoje acontece com muito boa gente...

Luís Santos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!


Se conhecimento pode trazer problemas, não é sendo ignorantes que poderemos solucioná-los, disse Isaac Asimov.
E eu assino por baixo!

António Tapadinhas

d´Arte - Conversas na Galeria LXXVII


Pink, Pink Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 100x100cm

É esta a minha segunda obra monocromática.
A primeira, por influência dum amigo, foi sobre a cor azul, uma das cores primárias.
Nesta, a escolhida foi cor-de-rosa, uma cor secundária, quente, culturalmente conotada com o elemento feminino desde a antiguidade.
Actualmente, está relacionada com o sonho, o amor e a paz.
Acredito que as cores têm uma enorme influência psicológica sobre todos os seres. Sendo assim, esta é a minha contribuição para que este ano seja especial. Para quem não acredita, digo como o poeta:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Método Pilates

O Método Pilates é um treino físico focado no trabalho com o soalho pélvico, transverso abdominal e multifidus da coluna vertebral (músculos internos e de suporte à nossa postura), onde todo o movimento acontece com recurso consciente da respiração lateral toraxica. 
A prática avançada destes exercícios é muito exigente, mas até lá chegar, cada aluno segue o seu ritmo e necessidades particulares do corpo, possibilitado por uma desconstrução e adaptação contínua dos exercícios e variações dos exercícios pelo instrutor.
Assim, esta é uma modalidade muito segura do ponto de vista da saúde, tendo sido cada vez mais procurada por pessoas de todas as idades para melhorar sua condição física e postura, assim como por desportistas de competição e bailarinos, para melhorar suas performances com menor incidência de lesões.
Integrado dentro das modalidades "mind and body", os alunos conseguem um corpo harmoniosamente delineado, forte e flexível, uma barriga lisa, mais calma mental e um elevado nível de consciência corporal.
Método Pilates tem sido referenciado por muitos dos seus praticantes como um método de bem-estar.

Aulas Ministradas por Yara Cléo, instrutora certificada pela ALM Pilates em Pilates nível 1 e avançado, Pequeno Equipamento, Treino Personalizado e Adaptação a populações com necessidades especiais (seniores, grávidas e recuperação de lesões).


Yara Cléo-Bueno

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


O VISGO E A REDE

À
memória de
Francisco José Gonçalves


Mais de dez anos passaram sobre um conto em que lhes referi a minha antiga qualidade de armador de pássaros. (*) Então limitei-me a descodificar aquela expressão e escrevi que não era o momento de lhes falar das minhas aventuras. Tratava-se de apresentar um certo indivíduo e o a propósito daquela referência foi para que o querido leitor entendesse a autoridade de um testemunho pessoal a respeito do mesmo. A história continuou, foi concluída e eu nunca mais pensei no assunto. Pois é chegada a hora e eu quero agora contar-lhes um episódio que sucedeu no decurso da minha carreira de predador.
Bem, talvez seja de bom tom esclarecer que hoje em dia muito dificilmente voltaria a repetir tais acções, pelo menos ao nível dos motivos. É certo que, com apenas uma excepção, o objectivo era a captura de asas para gaiolas. Em nada molestávamos uma pena que fosse e, no cativeiro, tudo fazíamos para que as criaturas estivessem bem alimentadas e nas melhores condições possíveis. No quintal do Chico, construímos um viveiro cujas dimensões permitiam aos mais irrequietos desentorpecerem e cuidávamos para que a densidade populacional fosse habitualmente pouco elevada. Mas só a ideia de furtarmos as avezinhas à liberdade que Deus lhes deu, nesta fase do meu crescimento, só isso me causa náuseas e seria suficiente para me levar a ficar quedo. Poderia ainda acrescentar outras razões para a recusa actual, no entanto devemos compreender que tudo começou pela meninice, por via da transmissão cultural e, além disto, aquele género de preocupações não faziam parte dos discursos dessas idades.
Com efeito, a coisa começou, para mim, por volta dos doze treze anos de idade. Eu armava em conjunto com o Luís Carlos e o Francisco José, aliás os responsáveis pela minha entrada na arte. Para eles, o início datava dos tempos da escola primária e quando eu me juntei, como aprendiz, é fácil de ver, já os meus sócios se tomavam como veteranos. Procedíamos à recolha para o nosso contentamento e para ofertarmos aos amigos, mas também tínhamos instintos empresariais e a maioria dos exemplares eram vendidos a particulares, apesar de, em uma mão cheia de ocasiões, termos tentado mercá-los com uma loja do ramo que havia no Barreiro. Imaginem gaiolas embrulhadas, com os pássaros a darem acordes e a esgravatarem, entre nós, no comboio, connosco a falarmos alto para tentarmos ocultar a matéria que transportávamos. Isto é um aparte, mas a verdade é que formávamos uma sociedade. Dividíamos equitativamente as despesas e no final de cada época que mais ou menos coincidia com o dealbar da invernia, repartíamos os lucros que sobravam depois de todos os custos estarem cobertos. Naturalmente, a mão-de-obra também era justamente repartida entre todos.
Era um vício, como diza o Chico, acordar cedo para que a aurora nos encontrasse prontos a esperar os incautos, camuflados em arbustos ou valas e canaviais, nem um agulha bulindo, para que estivéssemos atentos às chegadas e nos pudéssemos aperceber das aproximações que nos interessavam. E não era só a capacidade de engenho que viciava, era também a tranquilidade e as despreocupações associadas ao estar ali expostos à frescura da terra e da manhã, a que se associavam as disputas entre os candidatos e as chamas que enchiam a lezíria de trinados e piares vários.
Quem nunca armou não sabe do que estou a falar e nem deve perceber o sentido dos termos usados. Eu esclareço. Há diversos métodos para a captação ornitológica e cada um deles terá as suas variedades formais. Fundamentalmente existem três grandes tipos. A apanha feita através de ratoeiras, uma outra com o uso de uma rede e finalmente aquela que implica a utilização de visgo. Da primeira que se destina a matar os animais para fins de tacho, não vou falar. Até pelo simples facto de nunca a termos praticado. Quanto à última, consiste em envisgar cabelos de piaçaba e prendê-los a uma ramagem que depende da espécie visada; só para dar um exemplo, para os tentilhões é aconselhável uma pernada de oliveira. Empina-se o galho em sítio que sabemos ser batido pelos cantores alados e com o auxílio de chamarizes e se também de negaças, não fica mal, é procurar que os livres se entretenham com os cativos e esperar que poisem na armadilha de cola e depois ser rápido e ágil a deitar a mão sobre o esforço das asas bamboleantes e pernitas bêbedas que remetem a fuga para um varejar pelo chão. Há quem use este processo em complementaridade do que falta e era isso que nós fazíamos. A armação com a rede é mais complexa e trabalhosa. Consiste em camuflar uma rede de malha minúscula que se reparte em duas secções, convenientemente enroladas e dispostas de modo a formar um quase vértice triangular. As extremidades estão estacadas, assim como tudo o resto que não sejam gaiolas e ervas e arbustos alapantes, e as duas pontas de base estão ligadas a dois paus, unidos entre si por uma corda que depois de se unificar da bifurcação em v, se estende até à mão daquele que executa o puxo com que as muletas se erguem para permitirem, caindo em direcção oposta que as redes se abram e caiam, uma sobre a outra, envolvendo e aprisionando o que esteja por baixo. A fim de a passarada escolher aquele local de descanso e repasto, usa-se uma negaça e chamas. As segundas são aves reconhecidamente boas intérpretes que ali depositamos em gaiolas –se estiverem envolvidas em lenço branco ainda cantam melhor- devidamente escondidas com vegetação, preferencialmente, componente da dieta alimentar dos alvos. Têm como função chamarem quem anda voando. A primeira é um pássaro que deve ser treinado para estar sobre um poleiro e em que se coloca um colete de fio que se prende a um pequeno patim que é possível movimentar com o auxílio de um cordel, levando o funcionário a simular que esvoaça rente ao chão. Logicamente, com isso se visa atrair e enganar os outros. Em qualquer das duas últimas metodologias que acabei de abordar, é necessário saber fazer as frentes, operação que resulta em manter ou em levar os bandos no caminho do isco sem que aqueles olhinhos topem a presença humana.
O segredo consiste em ter paciência para que, quando em grupo, todos os viandantes estejam no interior do triângulo fatal e mal isso seja conseguido, puxar o mais forte e rapidamente possível e correr para a rede, não vá algum conseguir escapulir-se por uma qualquer nesga que o acaso tenha deixado em aberto. Depois é só agarrá-los e enfiá-los nas cadeias.
Aquilo que seria a nossa medalha de ouro, isto é, o nosso melhor puxo, acabou por ser um fiasco.
Nós já tínhamos ouvido falar em bandos disto e daquilo, a nossa inocência levava-nos a acreditar em mais de cem pintassilgos. Acontecia é que jamais víramos tão fartos ajuntamentos. Mas uma dada manhã, conseguimos contar vinte e poucos prontinhos para a facturação. Tudo tinha sido feito a preceito. Eu fizera uma frente exemplar e o Chico um trabalho com a negaça digno de um mestre. As gargantas engoliam as salivas quando, depois de, gestualmente, termos confirmado entre nós o número e a posição certa, o Luís Carlos se preparou para esticar repentinamente a corda. Zás, estava tudo apanhado.
“-Hoje vamos almoçar fora.” –Gritou o Chico enquanto corria a rir para a rede. O entusiasmo era de tal ordem que, a dois passos, ele se atirou para aquilo como se de uma piscina estivéssemos a falar. A consequência foi que ficou enleado nos fios e malhas rotas e o que eu e o Luís vimos foi um corrupio de asas e penas no ar, precipitando-se na fuga que o acaso lhes abrira. Nem as chamas ficaram para contar a história e a negaça não deixou as algemas no local.

Amieira, 15 de Maio de 1998

(*) Sorumenho, Sebastião
O VARREDOR
In "HISTÓRIAS DA MARGEM SUL"
Nota Introdutória do Autor
Dactilografado, Alhos Vedros, 1987

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Alguns conceitos importantes do Hinduísmo


Hinduísmo é o desenvolvimento até aos nossos dias de uma tradição religiosa, sistema magnífico de crenças e tradições, que advém da interpretação de textos sagrados da Índia.

Chama-se de Brahmanismo às práticas rituais religiosas mais antigas feitas na Índia por sacerdotes brahmanes. Há que cumprir os ritos para atingir a dimensãos dos deuses.

Dharma, aquilo de que depende a ordem do mundo. A prática correta dos rituais é fundamental para manter a ordem no mundo, tal como é a sua forma original.

Brahman, a unidade primordial e o fim último. “Tu estás em tudo e em todo o lado”.  As “Upanishads” falam duma realidade primordial que não tem separação. O ser Uno, sem dualidade, o que a tudo integra, onde não há divisão entre os homens e os deuses. A palavra chave das “Upanishads”: “tu és aquilo que para além do qual nada mais há”. O uno primordial é anterior aos deuses.

Não confundir com Trimurti – Brahma, Vishnu, Shiva – tríade em que se expressa a divindade:
- Brahma, o criador, o que está antes de tudo;
- Visnhu, aquele que mantém, conserva;
- Shiva, representa a destruição, o regresso à unidade primordial.

Atman, o respirar que liga qualquer um à unidade primordial.

Entre as 4 grandes idades do mundo, atravessamos o período de maior decadência, o período em que, metaforicamente, a “vaca sagrada” está assente apenas numa pata.

Samsara, roda da vida que gira sem parar. Enquanto a existência estiver condicionada, o ciclo de renascimento/morte perdurará.

Karma, designa a cada momento a ação condicionada pelas ações do passado e com consequências posteriores. É condicionado e condicionante. A sabedoria permite cessar a ignorância, ou seja, a produção kármica. Toda a experiência de dualidade, “eu sou um, tu és outro” produz o ciclo kármico.

Cinco fatores que fazem o ser entrar no ciclo do samsara: ignorância, orgulho do eu, aversão à dor, perturbação/aflição e medo da morte/apego à vida.

Mumuksha, o desejo de libertação. “Tat tvam asi”, a chave da libertação.
O Yoga é o contínuo exercício que permite pôr fim ao karma. À cessação dos movimentos mentais – evitar o pensamento, o deixar sair para fora de nós. A procura de um êxtase, de consciência unificada. O Yoga deve levar-nos ao ponto zero da manifestação, a um processo de involução. Ser senhor dos próprios pensamentos, de pensar só quando é necessário.

Jivanmukta, aquele que se liberta da vida, que transcende os próprios deuses.

Carlos Rodrigues

domingo, 19 de fevereiro de 2012



                           

                                    ENTÃO MAS AFINAL … (IV)
                                    (...)





Eu, outro dia, olhei os olhos de um cão e sentei-me numa pedra.
                                                                                                 
Como todos sabeis, olhar os olhos de um cão tomando uma pedra como assento, são algumas das inúmeras formas possíveis de se caminhar.

E fui feliz ali, assim.                             
Como o cão penso ter-me sentido cão.
Terei sido, portanto, cão naquele momento.
Como a pedra senti-me pedra tendo sido, também, pedra então.
Árvore já me senti várias vezes, é recorrente em mim.






E, é claro que me senti bem com isso senão nem sequer estava a contar.
Posso, devo, pois concluir que sentir-se cão, pedra ou árvore é uma das muitas formas de se ser gente.
Então mas afinal …
Sim. Havia um tempo sem desconfiança e sem juízo.
Perguntava-se - em plano aberto, sem disfarces ou canais codificados - para aprender e descobrir e crescer com isso. Não para julgar ou classificar. Talvez por isso, ria-se mais e o riso, era cristalino e sem rugas. 
Sim, havia um tempo de clara e luminosa ingenuidade, de total ausência de perversidade e onde a maldade, de facto, não compensava.
Era no tempo em que … bem,
(…) O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei. (…)

Então mas afinal, …
A busca continua incansavelmente numa história que se crê interminável.


Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Alma Portuguesa

Ivan de La Rocque, Uberaba MG, enviou para Diálogos Lusófonos ( dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br ): 
 
Portugal construiu cerca de 800 fortalezas e fortins fora da sua casa mãe, criando o Mundo Luso, seu Protetorado.
Vejam estas fotos e desistam de considerar Portugal apenas um cantinho à beira da Europa. Nunca o foi !
A ALMA PORTUGUESA É TÃO GRANDE QUE NÃO CABE NA EUROPA ! Transborda e abraça todo o planeta.

Clicar aqui:
http://www.youtube.com/watch_popup?v=Rrx0W_5KmQo&vq=hd720

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O adoecimento das (nas) relações interpessoais*

Fernanda Leite Bião**


   Em meio à vasta rede de relações que os sujeitos experimentam, em que vivenciam suas histórias de vida, a socialização é o caminho para a construção da convivência interpessoal.
Marca imperativa, dentre os primeiros lampejos de vida, ainda mesmo quando crianças, a socialização com os primeiros pares (pais e cuidadores) é de grande importância para o desenvolvimento físico e psíquico. Primeiros passos para o conhecimento do outro e de si mesmo. Primeiros passos para as primeiras manifestações das escolhas e, quem sabe, o ensaio para o respeito das diferenças e dos diferentes.
   Assim, é no seio familiar em que as primeiras experiências significativas e primárias de socialização são vivenciadas e, com tais experiências, a possibilidade dos primeiros contornos de personalidade e de reconhecimento do Eu se tornam possíveis. Sentimentos e emoções, autoconhecimento e os primeiros nós existenciais também podem ser encontrados nesse momento.
   Aos nós existenciais chamo aquelas situações traumáticas e/ou repetitivas em que os sujeitos são inseridos e que, embora sirva de ensejo para se desenvolver algum tipo de aprendizado no campo do sentimento, atua também como um fenômeno paralisante em relação ao Outro, uma dificuldade para o estabelecimento de relações atuais e vindouras, o que impossibilita o ser vivente de enfrentar os desafios e as oportunidades de crescimentos de novas relações interpessoais.
   Em outras palavras, o medo e a desconfiança se tornam companhia constante, em detrimento da possibilidade de crescimento que mudanças em relações aos Outros pode trazer. É o velho que esbarra no novo a todo o momento. E quanto incômodo pode ser sentido e traduzido por meio de um corpo falante, de uma mente pensante e sentimentos transformados em armaduras protetoras de si mesmo e do outro. Daí nascem os questionamentos, dentre os quais se destaca esta indagação: como vai sua vida de relações?
Ando por vários lugares a escutar murmúrios e o queixume da dor nascida dos conflitos. Dor que corta para além de lugares palpáveis. Corações que choram sem cessar. Sentimentos sem nomes, emoções silenciosas e barulhentas. A necessidade de compreender a dor que lateja. A que veio a dor? O que ela quer me contar?
   Vejo o quanto se relacionar é um padecimento e a enfermidade atual é gostar. Padecem almas que não escutam a si mesmas, em meio a uma sinfonia interior, lastreada pelo grito que teima em sair. Quem as ouve? Quem se ouve? Quem ouve quem?
   Deseja-se o sonho do amor impossível, aquele que calou a alma e a modelou, docilizando os sentimentos alheios, a responder a uma necessidade que talvez seja somente uma fantasia, uma crença sobre a forma mais bonita de ser amado e de ser correspondido nas próprias necessidades.
   As necessidades sempre existirão, motivo por que se deve perguntar se a própria necessidade não violenta a possibilidade de receber o Outro, ou seja, de estar aberto para o que o mundo circundante tem a lhe oferecer. Se eu não quero, tenho de aprender a dizer a palavra mágica – “não” –, ser livre e sustentar a escolha de não querer. E, por falar em liberdade, parafraseando Sartre, estamos condenados a ser livres. Concordo com esse brilhante filósofo e reitero suas palavras, afirmando que estamos também condenados a nos relacionar. Que tal começar a pensar nisso?
_____________________
*Crônica escrita em 4 de fevereiro de 2012.
**Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Mestranda em Educação Tecnológica pelo Centro de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XXXVII

Tenho de dar uma explicação sobre esta entrada e o porquê de esta ser a XXXVII e não a LXXVII.
Quando estava a preparar o quadro e o texto para esta semana, resolvi mostrar de imediato as obras monocromáticas, para não ficarem dispersas. Procurei então a XXXVII, que tinha nos meus ficheiros como Blue, Blue, para quem quisesse ler o texto e ver ou rever a obra. Qual não foi o meu espanto quando vi que d´Arte XXXVII não existia, pois passava do número XXXVI para o XXXVIII. Não sei o que se passou mas, para tudo ficar certo, esta semana vai ser o Azul a dominar o espectro luminoso.


Azul, Azul Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 100x100cm

Um meu amigo tem feito algumas referências aos meus azuis, considerando alguns que o tocam especialmente, de “Azul Tapadinhas”.
Há pintores que são conhecidos por saberem realçar determinadas cores nas suas pinturas. Lembremos Van Gogh e os seus vibrantes amarelos, Cézanne e os seus espantosos verdes e, porque vem a propósito, a história de um azul especial.
Yves Klein, nascido em Nice, França, realizou mais de cinco dezenas de quadros monocromáticos em azul. Gostou tanto de uma das tonalidades, que a registou em 19 de Maio de 1960, no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, com a designação IKB (International Klein Blue).
Espero que esta obra se imponha pelo seu azul. Não tem outras cores que o tornem mais suave ou mais profundo, mais alegre ou mais triste…
Acho que as cores são como as pessoas porque dependem muito do que as rodeia. Todos nós nascemos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros... As diferenças começam antes do nascimento, e prolongam-se durante toda a nossa vida. Nós e as cores somos sensíveis ao ambiente que nos cerca.
Esta atmosfera é a essência mágica com que se cria um monstro, o génio ou uma obra-prima.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dois Poemas



TRÂNSITO

Transito amores
frios (a estrela primeira
         na última visão da noite)

desproporcionados aos olhos
ensaiados de venturas
- o cantochão no absurdo
  abrigo das dores passageiras –

desafinadas aos amores
atravessados: paredes
desconstruídas em escritos
aprisionados      (transito
frios amores inacabados).


BRUTA

A pedra
brutamente cortada
brutamente transportada
brutamente transformada
brutamente assentada
brutamente cinzelada
brutamente esculpida
brutalmente polida
                   na pedra bruta
                   remanesce.

(Pedro Du Bois, inéditos)
http://pedrodubois.blogspot.com

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


QUANDO O PROIBIDO ERA O DEVIDO

 
“-Conversas de homens.”, era como os graúdos, nas tabernas e cafés, etiquetavam as linguarices que, no seu entender, requeriam que os miúdos arredassem desta ou daquela convivialidade. Bastava que os motivos fossem os comentários sobre algum adultério, geralmente definido em vernáculo, sem que se atendesse às razões de conveniência ou até um ou outro caso de quebras de honestidade no que de mais simples possam ter as relações do dia-a-dia. Aos ouvidos das crianças estavam interditos certos assuntos, não fosse a sua inocência sofrer rombos no casco ou, o que seria pior, comprometer a palavra de alguém. Quanto a este último aspecto, dava-se o caso de existirem temas de que os mais novinhos nem chegavam a suspeitar, por tão só serem abordados nas suas costas e quando andavam por longe e se por acaso uma qualquer fresta deixasse passar a mais ligeira brisa, logo os mais noviços eram severamente repreendidos por se terem metido onde não eram chamados e, sob os mais variados prenúncios de desgraças e diversas ameaças, quase sempre intimados a calarem-se e esquecerem o sucedido.
Certa noite, dando conta de uma discussão em piano entre os meus pais, apercebi-me que o meu ganha-pão fizera algo proibido e que, segundo os reparos da minha mãe, poderia pôr em risco o conforto de toda a família. O susto induziu-me a querer saber mais, mas se o homem me explicou que aquilo não me dizia respeito pelo que me deveria omitir sequer das lembranças, em a madre encontrei um muro feito da crua promessa de me dar um par de estalos se voltasse a referir-me àquilo, fosse onde fosse e com quem quer que fosse. E ponto final, pois de contrário logo ali me seriam adiantadas as primeiras prestações. Só muito depois do último inquilino ter podido abandonar o exílio nas garras da polícia política, eu vim a saber que o paizinho oferecera dinheiro para que um jovem conterrâneo, implicado no assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, perpetrado pela LUAR, pudesse aproveitar a saída precária para assistir às exéquias do progenitor e desse o mergulho numa fuga para a Bélgica.
Maior foi a surpresa em torno da prisão do meu avô João que, por sinal, até era um admirador do trabalho do consulado do Professor Oliveira Salazar.
“-Não, não, menino.” –De imediato o barbeiro me corrigiu a perplexidade que instantaneamente atribuíra o castigo a uma conduta menos digna por parte do velho e que, a meus olhos, era de todo impossível. E, tesoura na mão e pente na outra, na realidade ele não fez qualquer compasso de espera. “-O seu avozinho foi preso político. Já há muitos anos.” –Executando um gesto largo. “-Era o seu paizinho um moço. Então o menino não sabe?” –Corriam as primeiras translações em liberdade e ainda eram frescas as tardes em que quase toda a gente falava de política.
Mestre Eliseu é uma daqueles homens que sempre trabalhou só, prenhe de diacronia para cogitares que são interrompidos pelos saltitares de converseta em converseta com um ou outro cliente, ou nos círculos matinais que na sua loja bebem o desportivo. Não se coíbe de falar mal dos outros e de rogar pragas àqueles de cuja cara não gosta. Tirando uma marotice em que, já viúvo, se metera com mulher alheia e de que eu sabia por portas e travessas que aqui não vêem ao caso, tirando isso pode-se dizer que nunca fez mal a alguém. Mas também nunca foi pessoa de ajudar outrem. Para ele, cada um trata de si e, em conformidade, sempre viveu de casa para a barbearia, para que aos seus não faltasse o alimento e o agasalho. Aos Domingos ia, uma vez por outra, ver futebol e quando vinha o calor gostava de nadar no rio. Saía em excursões que de resto era o que conseguia ver no cinema e no palco da principal colectividade da terra.
Eu não sabia dizer se ele estava a dar mais uma das suas injecçõezinhas de fel, mas há muito que sabia ter ele sido, por muitos e bons anos, o último barbeiro do avô João, a casa de quem, todos os dias, antes de abrir a porta, se deslocava para fazer a barba e, quando se impunha, aparar o cabelo. Certamente sabia do que estava a falar e os detalhes com que me narrou o episódio, deixavam antever que muito do material vinha directo de desabafos do próprio intérprete. Na verdade, o que de imediato expôs até era lisonjeiro para o mau ancestral. No entanto, quem não deve ter tido quaisquer considerações do género foi o barbeiro, mortinho que estava por contar.
Assim soube que no dia em que a Alemanha assinou a rendição, a alegria popular explodiu de tal maneira que, coisa nunca antes vista, mais de uma centena de pessoas se juntaram em frente da “Vélhinha”, onde anteriormente tinham escutado notícias pelos altifalantes com que, ao Domingo, os directores possibilitavam que o rádio da colectividade falasse para o exterior. Por entre vivas aos aliados e à liberdade e gritos pela democracia, depois de discursos e mais propostas e contra-propostas, já com bandeiras nacionais e panos negros, decidiu a massa dirigir-se a pé até ao Barreiro, onde, diziam, deveria juntar-se a outra manifestação que saíra para a rua a partir das fábricas da CUF e do Caminho de Ferro. Quem não gostou da ousadia foram os homens afectos ao regime e –diz-se que um industrial, à época, o chefe dos legionários e que se orgulhava de ter sido um dos Viriatos na guerra civil de Espanha- algum deles alertou as autoridades que, em acto contínuo, deram a resposta. Já se gritavam morras ao Salazar quando a mole se preparava para abandonar a vila onde, sem aviso prévio e sem olhar a quem, a guarda a cavalo caiu de sabres e coronhas sobre as pessoas, ferindo umas e prendendo outras, originando precipitações pela lama ensanguentada e voltas atrás na rota de passagens à clandestinidade. Aquele dia de juízo fez com que houvesse quem apenas à noite tenha abandonado as morraceiras para regressar a casa e nas semanas seguintes esteve a localidade ocupada pelos militares e submetida a recolher obrigatório.
Obviamente que o meu avô nada teve a ver com aquilo. Ele nem saiu de casa e muito menos instigou ao mínimo bulir de uma palha. Mas como nunca escondera as suas preferências pelos ingleses e os aliados e desde a reviravolta no curso dos conflitos que, por vezes, deixava que muitas pessoas fossem à sua cozinha escutar a BBC, quando se tratou de encontrar um possível cabecilha para o desacato, diz mestre Eliseu que um certo ranhoso tratou de se vingar por o Hitler ter perdido a contenda. O mal entendido foi rápida e facilmente esclarecido e o senhor João pôde regressar à sua vida de sempre. Mas nunca se conformou pela humilhação que sofreu por ver a sua casa revolvida, com criadas e penas a voar. E a solução foi atirar a pedra para o fundo do poço que nem o meu pai se atreveu, alguma vez, a abrir.
Eram os silêncios de outros segredos impostos.
No entanto, sempre me permaneceu na memória a figura do Carlitos, o filho da Dona Cristina, amiga de minha mãe que, dados os azares, vivia a expensas de seu pai; jamais olvidei os olhos sem brilho do Carlitos que todas as tardes, sempre à mesma hora, nos batia à porta munido de um jarro onde levava batidos de fruta que em minha casa se faziam para que ele os levasse ao seu pai que, no leito, estava desenganado dos pulmões. Nos dois ou três meses que durou o padecimento, sempre a minha mãe se lamentou por aquele anjinho, mas igualmente manteve de fora a razão da doença. Quando o nome daquele homem foi dado a uma rua, precisamente aquela em que nascera, entendi que tinha sido a PIDE que o devolvera à família para que aí desse o último suspiro.

Alhos Vedros, 14 de Maio de 1998

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012





 ENTÃO MAS AFINAL … (III)









                               (...)

A mecânica continua e ser misteriosa.
Perde e reganha magia.                                      A música oscila, varia.

Perdem-se instrumentos, calam-se outros que entravam na composição do som e o temperavam mas surpreendentemente outros surgem de onde menos e quando nada se esperava e reverbera o som noutras tonalidades que dilatam a alma.


E escutamos de novo e sempre, e tentamos perceber
 - porque sentimos e só depois sabemos -
que a mecânica da vida se altera, muda, e que, todos nós fomos, somos, seremos,
arquitectos e construtores nessa mudança.

 



Chega um poeta e solta o seu verso cantado
“Que caminho tão longo, que viagem tão comprida, que deserto tão grande, sem fronteira nem medida. Águas do pensamento vinde regar o sustento da minha vida …” (1)

É claro, gostaríamos ter a arte de sempre cruzar os caminhos interpretando uma declaração de amor. Amor por tudo, por todas as coisas, por todos os seres vivos e inanimados. Amor universal, completo e pleno.
Mas apesar de sentirmos – na convicção e instinto – ser essa a única atitude orientada no sentido do que todos buscamos, nem sempre é possível, pois não? Não porque o não queiramos, antes porque o não podemos, porque o não sabemos.

E não se pode soçobrar. Não se pode dizer agora não, agora “passo”, agora …espera?!

Não se pode?

Não! No universo das ideias/emoções a vida é sempre a andar. Sem intervalos nem esperas, sem ausências.

As ideias/emoções cavalgam-nos, ultrapassam-nos e arrastam-nos para o abismo ou a redenção. 

                       (...)

(1) - Excerto de um poema de José Mário Branco do álbum “Ser Solidário”

Fotos: Edgar Cantante, Texto: João C.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Largo da Graça



Espaço Público

As ruas, os edifícios, os jardins, são da responsabilidade de quem? Porque não estão melhor cuidados? Que podemos fazer para que esses espaços sejam tratados efetivamente como a nossa casa comum?

Temos um país muito bonito, de grande diversidade e beleza paisagística. Cores de tonalidades mil como no arco-íris. Mas no que toca ao planeamento da generalidade das nossas vilas e cidades, é uma desinspiração e das grandes. Falta de espaços naturais, zonas verdes, os edifícios na generalidade são feios, os equipamentos de desporto e lazer são escassos, e poderíamos continuar por aí fora que a lista sobre o fraco desempenho das políticas públicas muito se alongaria.

Será da pouca formação dos nossos líderes políticos, em particular, ao nível do poder autárquico? Será da incapacidade dos nossos engenheiros e arquitectos? Será devido ao clientelismo partidário? Será porque na construção civil se colocou o lucro individual muito à frente do bem comum? Enfim, será fruto da nossa fraca consciência colectiva? Porque será?

Dá-me ideia que planear uma vila, uma cidade, um país, de certa forma é como fazer uma pintura. O resultado final depende da capacidade e do bom gosto do artista ou, se a obra for colectiva, dos artistas. E o que pensamos para o nosso país, de maneira idêntica o fazemos para todo o espaço lusófono e para o mundo.

Naturalmente que a emancipação social passa por um cada vez maior incremento de uma democracia participativa em detrimento desta democracia representativa. Por uma opinião pública que se quer o mais esclarecida possível, capaz de ajudar a esclarecer as opiniões dos gestores políticos, em direcção a uma cada vez maior e efectiva qualidade de vida.

Mas o que é ser esclarecido? E o que é uma efectiva qualidade de vida? Quais são os princípios que a devem nortear? Aqui é que está o busílis da questão, não é verdade?
E depois, “quantas vezes falar pouco é fazer muito”, ouvi eu dizer numa altura em que o Dalai Lama se ia passeando pelas ruas de Lisboa.

Nunca a participação social foi tão ampla. Desde a Revolução Francesa, com a implantação do liberalismo, que a democratização das sociedades se vem consolidando cada vez mais.

Hoje são conhecidos todo um conjunto de movimentos sociais, transversais a toda a sociedade, de raça, sexo, género, ambientais, pacifistas, sindicais, religiosos, e sei lá que mais. Portanto, a participação social não está de todo mal de saúde, mas mais se recomenda.

Em suma:

- Será ainda demasiadamente representativa a nossa democracia? Decerto.

- E deverá ser menos? Cremos que sim, mas os atuais níveis de participação social deixam muito a desejar. Temos de aprender a exigir maior responsabilidade ética aos nossos representantes políticos.

- Será necessário reformar o sistema político? Claro, é evidente que o bloco liberal, por si só, é muito limitado.

- E deveremos apostar mais em democracias plurais e radicais, em socialismos de mercado, ou em anarquismos pacifistas?… Que dê para todos, e bem, é o que se deseja.

- Mas como? Teremos artistas que dê para tanto? Sem dúvida. Mas é preciso calma, entreajuda e esperança na Vida. Precisamos aprender a conversar, em vez de discutir.

Apressemo-nos devagar.

Luís Santos