O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (9)



Campo de Trigo com Corvos, Vincent van Gogh, 1980

Óleo sobre Tela, 50,5x103cm


HOMENS-PÁSSARO

A Dona Pureza, ao que tudo indicava, devia ter tido um AVC.

Eu mal a ouvia mas consegui perceber que era ela.

Naquela altura, a Dona Pureza era uma pessoa qualquer.

Era uma mulher e tinha uma cara de que agora me lembro, mas que só mais tarde conheci no meu quarto quando ambas já tínhamos saído dos cuidados intensivos.

A Dona Pureza tinha tido um AVC e não dizia coisa com coisa.


Ninguém a ia visitar. E era feia.


Como ninguém a ia visitar e era feia, a Dona Pureza na altura não tinha nome. Nem doença definida.

Mais tarde, quando já tínhamos saído dos cuidados intensivos e estávamos as duas no mesmo quarto, veio um filho visitá-la. Então, perdeu ele o nome. Passou a ser o feio e ela passou a chamar-se Dona Pureza.

Ele era um homem baixo, gordo, feio e bruto. Mas calado.

Na verdade, ninguém o conhecia. Ele ia lá muito pouco. Ao que tudo indicava, andava sempre por fora.

A Dona Pureza deixou então de inspirar cuidados de maior e, apesar de ser feia e de não ter ainda doença definida, foi transferida para o quarto 36, cama 2.

Eu fiquei no mesmo quarto, cama 3.

Presumo que também fosse feia e sem doença definida.


Eu de mim não sei falar.

Mas lembro-me de me olhar ao espelho depois de uns dias naquele quarto de hospital…


- Ó menina, eram tantos homens-pássaro. A menina não os viu? Entraram pela janela…

A Dona Pureza tinha tido um AVC e não dizia coisa com coisa.

Até que uma noite eu também não consegui dormir.

E na janela do quarto 36 as luzes dos carros que passavam desenharam homens-pássaro. E se a minha doença por definir não fosse bastante diferente da doença por definir da Dona Pureza, nessa noite eles tinham entrado pela janela.


- Ó menina, quero o penico. Estou tão aflitinha…

- Ó mulher, para que quer o penico se eu já lhe pus uma fralda?

A Dona Pureza tinha tido um AVC e não dizia coisa com coisa.

Até que um dia eu olhei para a cama dela e reparei que na cama dela faltava a campainha.

A Dona Pureza era feia. E naquele hospital os feios não tinham voz e usavam fralda.


Fez-se silêncio. Não era um silêncio mau. Era só o silêncio de vir o médico.

- Dona Pureza, já descobrimos o que a senhora tem. A senhora apanhou uns bicharocos e agora vai ter de fazer um tratamento, mas vai ficar boa.

- Uns bichos? Eu apanhei uns bichos?

- Ó menina, a médica diz que eu apanhei uns bichos… mas o meu marido já morreu há mais de vinte anos e eu nunca tive outro homem.

A Dona Pureza não tinha tido um AVC e sabia bem o que dizia.

Não podia ter bichos. Isso era coisa que se apanhava dos homens.

No dia seguinte, ainda madrugada, a Dona Pureza sentou-se num banco à porta do quarto 36. Esperava o seu filho e, ao que tudo indicava, não fazia tenções de voltar ao hospital. Mais tarde, o rapaz veio buscá-la. Chamava-se António e era escritor.


Hoje lembrei-me disto porque me disseram que o António tinha ganho um prémio. Não foi um prémio literário. Ao que tudo indica, o António salvou uma médica quando esta se ia atirando para baixo de um combóio, enquanto procurava apanhar uns homens-pássaro que por ali passavam.


A médica não morreu, mas parece que não diz coisa com coisa.

Ao que tudo indica, terá tido um AVC.


Maria Teresa Bondoso

sábado, 29 de dezembro de 2012




Projectos

Um sossego na noite translúcida como uma balada dentro das trevas.
As águas da maré baloiçam o cais.
Se de partidas, se de chegadas logo se verá.
Um homem pensa e ao pensar irresolve-se em silêncio.
Silêncio, e algo no ar – inspirado para a mente – pesam no momento.
Largas horas paradas no registo do efémero, olhares limitados ao passo seguinte, adiada a caminhada mais longa para o desconhecido.
Arredores, palmilhando os arredores num mundo tão vasto.

M e d i t e r r â n e o.

A laranjeira, Eleanora, companheira de Godofredo, a oliveira, vasos à porta.
Livraria.
Cais das Merendas.
Interior errático, agitação, ideias fragmentadas.

É hora de ligar os fragmentos, limar arestas, consumar projectos.

Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

Jardim das Laranjeiras





Num futuro plano de ordenamento de Alhos Vedros seria muito interessante que os jardins de laranjeiras, e de outros frutos e flores, sobretudo mediterrâneos, dada a maior facilidade de adaptação, se pudessem multiplicar por vários largos e ruas. Tudo ficaria muito mais bonito para os olhos e para a alma. Esperemos que a edilidade e os cidadãos metam os olhos nisto.


Foto e texto de Lucas Rosa


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Poemas Inéditos de Pedro Du Bois





REAÇÕES

Reajo em tempo
reajo ao relâmpago
reafirmo a crença em dias melhores
melhoro o espaço no espacejamento
da mensagem. Recupero o tempo
despedido em acenos. Na crueza
do tema descortino palavras
de tentativas. Revolto mares
sobre acostamentos e os inundo
em saudades. Religo a máquina
inocentada para manter intacta
a cena. Fica a imagem no reagir
ao relâmpago, ao refulgir
na crença o tempo reafirmado.







SOBRE ÁGUAS

Na água
fervente
ausente
resseco a terra
onde me instalo:

destruo no caminho
as margens e sobre
a linha
restante
resto
na água
gelada
da tormenta.

Na água restante
afogo pensamentos.



(Pedro Du Bois, inéditos)


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

SEM TÍTULO
 


CELESTE BEIRÃO


Serigrafia 30x40

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Por vezes temos ideias que nos parecem boas e que à primeira vista nos dão uma explicação confiável para um determinado problema mas, depois de atentarmos um pouco mais a fundo, acabamos por lhes encontrar a falta de sentido e, com isso, por vermos que afinal nada valiam e que mais não nos permitiram que a continuidade da elaboração de um erro. É engraçado ver isso que é o mesmo que perceber que também aquelas são como as cerejas e que atrás de umas outras vêm que se encadeiam ou não o que, em não poucas situações, nos permite a partir de um ponto chegar a outro, mais ou menos distante que não tem necessariamente que ver com o primeiro. É a deriva do pensamento, quando o deixamos solto e que provavelmente faz para algumas almas, entre as quais a minha incluo, o gozo que encontram na divagação em si. Viver é um acto tão maravilhoso. Para mim bastam-me as pequenas coisas que se nos deparam para sentir o extraordinário de cada dia. Ver o rodopio de uma borboleta entre um tufo de antenas coloridas onde as tonalidades se anulam mal se dá o passo imperceptível para que a desguarda da busca do pólen tenha lugar, é tão encantador quanto o intenso prazer que se sente por nos vermos perder de olhos no mar, nas mesclas que com ele se transmutam quando a luz decide brincar entre as nuvens e o ondulado da superfície. Por isso tenho para mim que seria o suficiente para, mesmo numa ilha deserta, ser feliz. Fosse como fosse, sempre teria o delírio de fogo de um ocaso para me ocupar e o fluir vadio da cogitação para me inebriar e me manter mentalmente sã. Eu acho que normalmente as pessoas confundem a satisfação e o prazer com a felicidade sem que consigam dar conta que esta é necessariamente interior e que por isso não só não tem que depender daquelas, como seria um desconcerto completo se, em termos ideais, pretendêssemos que a partir destas poderíamos aquela definir. Sentimo-nos satisfeitos por isto ou aquilo, sentimos prazer com uma ou outra coisa, mas não temos como encontrar um denominador comum a todas, pois o que causa satisfação a um pode não o fazer a outro e o que para alguém é fonte de prazer pode muito bem repugnar a outrem pelo que, tentar fazer derivar daí uma noção de felicidade seria uma atomização tal que, em tão ilimitada subjectividade, semelhante ideia tornar-se-ia completamente impossível. A felicidade é um estado de alma pelo que só pode ser interior e assim reconhecível em qualquer ser humano e nada mais é que a harmonia que sentimos com aquilo que nos envolve que até pode ser um deserto de toda e qualquer coisa e aí apenas se tratando de mera comunhão connosco e deixamos de nos sentir felizes sempre que, de alguma maneira, esse equilíbrio se quebra ou se perde. Ele há quem diga que se sente feliz por ter isto ou aquilo, por ser assim ou assado, mas lá está o erro, estamos sempre a falar de algo exterior a esse sentimento e que de modo algum se pode confundir com ele e, depois, a ser dessa forma, como poderíamos explicar que haja tanta gente rica que, podendo ter praticamente tudo o que está ao alcance das bolsas e tendo condições para serem o que quiserem, apesar de tudo isso, se sentem infelizes? Daí que hajam tantos e tantos dias em que o relâmpago que se me dá no peito por ver algum dos meus filhos crescer mais um pouco, por exemplo, seja o bastante para que todo o cansaço e desalento de uma jornada passe do peso e do cravar de uma pedra bicuda e áspera à leveza da carícia de uma pluma. Tal como o ir pensando me ajuda a suportar toda a fadiga de longas horas de trabalho físico. Pois desde o último dia que escrevi neste caderno que tenho andado a pensar naquilo que registei a respeito das amáveis visitas que os pides nos têm feito. É claro que não gosto mesmo nada de os ver cirandar por aqui e a raiva em face do sucedido permanece. Pudera, como aceitar que alguém seja incomodado por tratar condignamente o seu semelhante? Aonde chega a indecência? Já não há limites para a mesma? É que no caso chegámos ao desplante de nem termos que estar a tecer considerações de ordem política ou social quanto a questões de liberdade e afins. O absurdo, o mais abjecto, quanto a mim, é que nesta atenção que aquelas bestas nos têm dedicado, nem é nada disso que está em causa, tão só o facto de pagarmos salários que excedem os das práticas correntes, para além de conferirmos regalias que levam os nossos trabalhadores a sentirem-se numa espécie de sonho de que mais tarde ou mais cedo terão que acordar. Ora isto é o cúmulo da desumanidade de um regime que sabe muito bem que em boa parte se mantém precisamente por essa aposta na ignorância do povo e na sua incapacidade para melhorar a condição para o que a escola é o melhor mecanismo. Contudo, por mais espantosa que seja uma tal situação, temos que reconhecer que isso é assim segundo os nossos próprios pontos de vista, mas se formos racionais, se formos capazes de pensar com frieza e conseguirmos manter uma certa distância, compreenderemos então que, de acordo com a perspectiva dos algozes, eles têm na verdade boas razões para estarem preocupados com as nossas atitudes e em nos tomarem e classificarem por subversivos. Afinal é o que estamos a fazer, a subverter os alicerces em que se ergue o mundo em que vivemos, especialmente da parte que envolve este pedacinho de paraíso.

FRESCOS


A noite, as árvores e a varanda dos mil olhos, a noite e o Cosmos, acto vivo e não apenas uma fórmula bioquímica da vida.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL..., (8)



Adão e Eva Expulsos do Paraíso, Marc Chagall
Óleo sobre Tela, 190x284cm

NATAL

Nem sei bem porquê…

Hoje aconteceu-me procurar o Natal.

Comecei pelas memórias.

Primeiro pensei por onde havia eu de começar a lembrar-me.

Mas as memórias chegavam mais depressa do que a minha escolha.

Desisti.

...

Depois ocorreu-me que a memória está dentro da cabeça.



Fui ao médico.

- Doutor, preciso que me faça uma cirurgia ao cérebro.

O médico disse-me que não podia. Não era cirurgião.

Voltei ao hospital e roubei um bisturi.

Estudei.

Procurei a zona do cérebro sem nada.

Uma era do falar… passei por ela calada.

Outra era do sentir… passei por ela indiferente.

Outra era do olhar… fechei os olhos e fui.

Outra era do pensar… fiz-me tonta e prossegui.

Cheguei ao lado de lá.

Voltei.

Novamente no princípio, achei o que procurava.

Era o começo das memórias e tinha um pedacinho minúsculo de nada. Chamava-se princípio de ontem.



Medi, risquei e cortei.

Consegui entrar. Sozinha.



Era escuro. Era pequeno. Era vazio.

Uma lágrima do nada.



Mais um pouco e encontrei-o.

Estava vestido de vermelho, tinha umas grandes barbas brancas e corria de um lado para o outro. Ora estava em minha casa, com os meus primos pequenos, ora ia de trenó no lado de baixo do céu, no centro Comercial…

Depois era a televisão, um anúncio de Natal na paragem do elétrico a beber uma bebida da qual nunca soube o nome.

Dele sei. Era o Pai Natal.



Continuei.

Caminhei e, a seguir, vi um grupo de meninos. Não sabiam escrever. Uma mulher já zangada escrevia para todos.

- Não, isso não. Tem de ser uma coisa mais barata.

Os miúdos, a esperar sem poderem escolher.

E eu não quis lá ficar.



A seguir, cheguei a casa.

Era o meu pai. Escondido. Eu a ver. Ele a pensar que eu não via.

Sorri. Tinha apenas sete anos.

Gostei. Ia ficar.



De repente, já não estava. Um arrepio…

Era o Pedro. Morto. Num dia de Natal.

Fiquei, esquecida, a chorar. A perguntar. Nem resposta…

Fiquei.



Fiquei-me.



Foi a memória procurar por mim. Encontrou-me ali e levou-me, arrastada e teimosa.

Cheguei fora.

Estava lá um menino.

Limpei as lágrimas.

Limpei o meu nada. Prossegui.

Era Natal.

Esqueci e celebrei. Renasci.

Menina e certa. Cheia e nua.

Completa.



Hoje aconteceu-me procurar o Natal.

E nasci.

Natal, o parto de mim.



Maria Teresa Bondoso

domingo, 23 de dezembro de 2012

Boas Festas


Há alturas em que nos sentimos capazes de enfrentar o Mundo e deixar aí marcadas as nossas pegadas.
E nós enfrentamos.


Mas, é a proximidade da Família e dos Amigos que nos fazem sentir em casa nesse enfrentamento.


Desejamos a toda a Família, aos Amigos e a toda a gente de bem um Feliz Natal e um 2013 com muita energia para percorrer os caminhos que precisam ser percorridos.


Foto de Edgar Cantante, Pinturas de Luís Delgado, texto de Manuel João Croca

 Alhos Vedros, 22 de Dezembro de 2012 


sábado, 22 de dezembro de 2012

NATAL DA MINHA TERRA


É mais um poema de Natal que pode ser visto e ouvido neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Natal_da_Minha_Terra/index.htm

Saudações Natalícias
Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre o fim do mundo



Deus.
Uma possibilidade como outra qualquer – parte das partes: o bem e o mal.


Ao alcance de ninguém
inefável o sentido da vida
inegável o seu valor.


Deus tem a capacidade de colocar fora de si qualquer coisa que lhe impeça a harmonia integral, a vibração precisa. Tudo o que, deste modo, fica fora de Si, que é expulso de Si, chamamos de universo. Mas, sendo que o universo é uma criação de Deus, logo é também, de certa forma, uma parte de Si; simultaneamente, intrínseca e extrínseca, imanente e transcendente.

O universo é, pois, a parte “imperfeita” de Deus. Ele que é perfeito e imperfeito. Bem e mal. Tudo e nada. Desta forma, tudo o que no universo restabeleça a vibração energética, a sua perfeita luz irradiante, volta à harmonia integral, ou seja, “ao centro” do corpo de Deus; quanto mais afastado desse Centro menor a luz que se produz, imperfeita vibração.

Dado que tempo e eternidade são coetâneos, mais cedo ou mais tarde, havemos de voltar. E será bom que voltemos depressa, tanto quanto possível. Paraíso ou Nirvana. Involuir evoluindo. Estado primordial. Também por isso estamos sempre a voltar ao que já somos, anunciado Futuro do eterno momento.


Carlos Rodrigues


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

VELHOS ARMAZÉNS DE CORTIÇA
SÉRIE - A VILA 


LUÍS DELGADO

"Nada se perde porque a memória confere identidade."
                                                    M.J.Croca

Óleo sobre tela 46x61

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Meu Amigo da Praia da Luz



Já lá vão 10 anos de conversas, cozinhados, cumplicidades e muitas, muitas gargalhadas… temos o ‘nosso’ bar onde, diz-se, costuma ir o Almodóvar  quando tenta passar incógnito por aquelas bandas e gostamos de jantar em esplanadas com vista mar!
Nunca casou, o Meu Amigo – ‘É uma pessoa sensata!’, dizem alguns, ‘Um desperdício!’, dizem algumas!
Mas  há coisa de 2 anos recebeu uma Herança! Ficámos todos abismados… primeiro era só um empréstimo, para o verão que estava a chegar! Quem vive na Praia da Luz , mesmo de frente para aquele mar sem fim, está sujeito a receber empréstimos destes! Sobretudo no Verão! Lembro-me de ter avisado o Meu Amigo sobre o que representava um empréstimo daqueles para um homem livre como ele :’Cuidado com o que vais fazer, olha que vais passar as férias de Verão a trabalhar… e no duro!’. Mas o meu amigo, generoso como só ele sabe ser, não deu ouvidos a ninguém (ai! e ainda bem) e lá resolveu aceitar o empréstimo! Findo o Verão, o empréstimo transformou-se em Herança! E Oh!, que Herança: a Maria, o Tiago e o Gonçalo! Os pais deixaram de ter possibilidades de os criar e o Meu Amigo da Praia da Luz, que nunca casou, nem teve filhos, tornou-se o ‘pai’ mais carinhoso e dedicado de 3 pré-adolescentes  que todos nós, que somos seus amigos, vamos ajudando a crescer! 



Fotos de Pedro Domingues
Texto de Amélia Oliveira



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FRESCOS


Há uma mancha cor-de-laranja no céu.
Algo se esconde atrás das nuvens.

                                Alhos Vedros, Junho de 1983

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Da mesma forma que há aquelas ocasiões em que mais valia estarmos calados, há outras em que, apesar de termos falado com acerto, muito gostaríamos de não ter razão. Foi o que se passou em torno da euforia que se seguiu à vitória dos Aliados na guerra e que toda a gente viu como a antecâmara da queda ou, pelo menos, da abertura deste regime repressor que nos sufoca e, mesmo com todas as melhorias que, de facto, introduziu no país, mantém a maioria dos portugueses em níveis de pobreza inaceitáveis e em precárias condições de vida e ainda de futuro incerto. Recordo-me das conversas que então iam no sentido da esperança e de eu ter sido a única pessoa que nunca deixou de colocar reticências a todo esse optimismo o que não estou certa de ter feito por via de uma lúcida análise das circunstâncias, antes decorrendo do pessimismo natural perante as possibilidades de mudança. Infelizmente tinha razão e ao contrário de evoluir no sentido da democratização e de uma maior justiça social, o salazarismo não só se fechou um pouco mais sobre si, como teve o descaramento de aumentar a repressão política e de tal maneira que deixou a oposição praticamente sem qualquer margem de manobra. As eleições presidenciais foram uma autêntica farsa cujo desenlace se resumiu à possibilidade que a polícia aí viu para melhor identificar os mais activos entre aqueles que se lhe opõem e assim poder mais facilmente colocá-los atrás das grades e a verdade é que, de então para cá, os homens da situação parecem cada vez mais confiantes e, ao contrário do que seria de esperar de acordo com os sinais que as alterações externas pareciam dar, tomam-se, em definitivo, dos ares de quem, no lugar, está de pedra e cal. Na razão inversa, as correntes oposicionistas que se digladiaram em torno da candidatura do General Norton de Matos, limitam-se ou tudo indica que estão limitadas, a acções de tertúlia que se podem servir para que certos egos apresentem algo de uma chama de vontade e préstimo, não causam nem são capazes de causar a menor beliscadura na fortaleza deste Estado Novo que, a meu ver, mais não está que condenado a vir a cheirar a bafio se é que tal não é desde já verificável. Para tanto muito contribui a lógica das alianças internacionais que, na sequência da rivalidade e da confrontação que entretanto estalou entre os Estados Unidos da América e a União Soviética do recém-falecido Estaline, veio a recuperar o actual poder com a integração de Portugal no tratado militar de defesa dos países do ocidente europeu. Apesar da derrota do nazismo e do fascismo, Salazar e Franco são agora vistos pelos americanos como fortes e sólidas barreiras à progressão do perigo vermelho que já se estendeu a todo o Leste da Europa e se instalou na China que é só o país mais populoso do mundo. Seja como for, o que entre nós se observa é que ninguém tem conseguido levantar cabelo e até se ouve dizer que os comunistas, pelos revezes que sofreram, aparentam ter a sua organização completamente desmantelada. Por sua vez, o ditador de Santa Comba voltou a dar provas de ser um político astuto e matreiro que novamente soube mexer os cordelinhos e proceder às mudanças necessárias para que tudo permanecesse na mesma e ele continuasse sentado na cadeira do poder de que manifestamente tanto gosta. Foi isso que conseguiu com um escrutínio eleitoral cujo propósito não foi além de tapar as bocas ao mundo e a alteração que introduziu no nome da polícia política que, de repente, se viu no papel elevada à condição de polícia internacional e com isso perdeu, para o exterior, a aura de uma corporação meramente repressora para ganhar o estatuto mais respeitável de algo no domínio dos serviços secretos. Foi o que deu a transformação de uma letra da sigla, o V de vigilância para o I de internacional que deu origem à PIDE, como é vulgarmente chamada no jargão de todos aqueles que lhe temem o longo braço e punho de ferro e que tanto nos incomoda sem que outras razões hajam para lá do facto de vivermos como vivemos e de não só tratarmos os trabalhadores com todo o respeito que, no fundo, nos merecem o que se traduz quer nos salários que lhes pagamos e que lhes possibilitam uma vida decente, quer nas condições que lhes proporcionamos em termos de saúde, em que a Viviana tem posto em prática uma medicina preventiva e conseguiu pôr de pé um serviço de cuidados médicos que a todos assiste gratuitamente, mas igualmente ao nível da cultura, tanto pelos cursos de instrução para adultos que temos proporcionado na nossa escola, como pelas realizações culturais e recreativas que têm decorrido no centro cultural que construímos à entrada do povoado e onde, da música ao teatro, passando pela biblioteca e os jogos de convívio, esta gente encontra ao dispor os meios que individualmente jamais conseguiria reunir para mais e melhor se instruírem e depois pelo que propiciamos aos filhos de que o mais emblemático exemplo é a possibilidade de irem à escola com todos os materiais dados por nós. Bem, ele já houve uma ou outra situação em que o senhor Abel teve que recorrer a alguns de nós para dar guarida a foragidos por motivos políticos e também é verdade que, o próprio o confessou, há por aí colectas que se destinam a recolher fundos para as famílias dos presos políticos. Se a primeira daquelas ocorrências deve continuar a permanecer no segredo daqueles que as interpretaram, caso contrário não tenho dúvidas que os envolvidos já teriam sido incomodados, pouco me admirará que a outra seja do conhecimento daqueles esbirros que, pese embora a aparente deferência com que nos tratam por senhores doutores e engenheiros, muito prazer sentiriam em nos chegar a roupa ao pêlo. No entanto, tenho para mim que o que os traz tão preocupados connosco tem essencialmente a ver com a nossa atitude progressista de garantirmos condições de igualdade de oportunidades aos filhos dos mais pobres o que, para eles, se trata de mera subversão no que, em minha opinião, é o mais firme indício de que os homens da situação se sentem donos e senhores desta terra. Mas o mundo mudou e desta vez estou de acordo com os amigos que vêem na independência da Índia, mesmo com toda a agitação que a envolveu, o primeiro prenúncio do fim dos grandes impérios coloniais. E não é só a esse nível político que a mudança é visível pois, embora lentamente, lá se vai recuperando das maleitas da guerra no que a Europa Ocidental parece estar na dianteira. O que para nós tem tido consequências positivas. Depois de um período que as dificuldades pareceram quase que inultrapassáveis e em que as nossas produções pareciam condenadas a manterem os níveis da procura interna do país que não deu mostras de ultrapassar os seus parcos limites, os últimos anos têm sido de crescimento e com isso temos conseguido aumentar as nossas exportações de azeite e cerais, especialmente o arroz de que já temos uma fábrica de descasque e empacotamento. Ora isso repercute-se na qualidade da nossa vida quotidiana e agora praticamente todos possuem modernos fogões a gás nas suas cozinhas e, com os novos esquentadores, as águas do banho deixaram de ter que ser aquecidas previamente nas panelas. Parece que não, mas são horas de vida que se ganham para o descanso e momentos exactamente como este.
Mas a comunidade teve uma outra baixa de que ainda não falei. O Félix e a Éster abandonaram-nos para irem viver para o novo estado de Israel que querem contribuir para erguer e solidificar. Disseram que a experiência que aqui tiveram pode muito bem habilitá-los a melhor ajudarem nesse processo. Quanto a mim, acho muito bonito que assim pensem, fiquei muito orgulhosa quando os ouvi dizê-lo. E também foi bonita a atitude que tiveram na despedida, quando quiseram levar a chave de casa com eles, não porque estejam a pensar em voltar mas simplesmente porque não se querem esquecer de onde partiram e a onde igualmente pertencem. Tenho pena de não termos notícias deles desde então e só posso esperar que ambos estejam bem.
A Lua, com um halo arroxeado na orla das nuvens que de vez em quando a encobrem, está tão intrigantemente bela.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (7)


The Ladder of Escape, Joan Miró, 1940
Gouache, aguarela e tinta sobre papel, 40.0 x 47.6 cm


OS DESENHOS DO FILIPE
Filipe fazia uns desenhos que apenas mostrava ao drogado.

O drogado era-o apenas de nome. Numa aldeia pequena, um homem de cabelo comprido e olhar brilhante nunca seria de confiança. Ele tinha aparecido por ali e, como tinha aquele aspeto, passou a ser o drogado. Mais tarde..., quando se percebeu que o homem nem sequer cigarros fumava, só bebia água e era vegetariano, já era tarde. Ficou na mesma o drogado. O que, convenhamos, não o perturbava minimamente. Ao fim e ao cabo quem define um homem é ele próprio. Os outros…

O Filipe tinha uma espécie de ritual, que cumpria de forma meticulosa: acordava por volta das 6 horas, colocava o peluche na cabeceira do lado direito, ajeitava-o, acariciava com ternura o cabelo da sua companheira, sentava-se na cadeira verde e desenhava, recorrendo apenas a uma caneta preta. Acabava o desenho impreterivelmente pelas 6. 30h. e, sem fazer qualquer tipo de apreciação da obra realizada, colocava o desenho numa capa preta e grossa.

Seguiam-se, a partir dali, as coisas habituais. O seu dia era normal e, pela noite, voltava a casa. Pelo caminho, encontrava o drogado e mostrava-lhe o desenho. Não falavam. Acontecia apenas um ligeiro gesto.

No dia seguinte, por volta das 6 horas, tudo se repetia novamente.

Filipe trabalhava numa seguradora, tinha um emprego estável, uma mulher que amava de forma já tranquila e dois filhos adoráveis e bons alunos. Um rapaz com treze anos e uma menina com nove. Era assim a sua existência. Tranquila e feliz. Nada de extraordinário.

Com excepção da primeira meia hora do seu dia.
Era uma mulher triste. Triste por tudo. Triste por nada. Devido a esta condição, privava-se da maior parte das coisas por medo de se deparar com algo que lhe soltasse o choro. Era muito raro sair de casa, mas, caso tivesse mesmo de o fazer, Carolina escolhia muito bem os caminhos e as horas e corria silenciosamente o tempo de cá para lá e logo de lá para cá, sem paragens, sem conversas.

Evitava as esquinas e procurava andar sempre a direito.

Pelas dezasseis horas, um homem louco, de pernas para o ar, lia um jornal.

Uma criança fugia pela janela.

Era um homem bonito, mas perdido. Ia à missa roubar carteiras e passava nas lojas para comprar raspadinhas. Se lhe saísse dinheiro, deitava-o fora. No outro dia voltava à missa.

O padre dizia mal dele.

Cristo dava a outra face.

Filipe encontrou o drogado por volta das cinco da tarde e mostrou-lhe o desenho do dia. No desenho, uma parede branca com uma janela azul. Aberta. Um pé encostado à parede, suponho que de um homem com umas meias de mulher. Um jornal rasgado.

Uma árvore, uma criança a chorar.

O drogado olhou o desenho com atenção, sorriu, acenou ligeiramente em sinal de concordância e Filipe seguiu o seu caminho até casa. A sua mulher esperava-o. Os miúdos tinham ido para a casa dos avós.

Nessa noite a mulher foi especialmente carinhosa e, na manhã seguinte, Filipe acordou abraçado a ela como no primeiro dia.

Às 6 horas.

Colocou o peluche na cabeceira do lado direito, ajeitou-o, acariciou com ternura o cabelo da sua companheira e sentou-se na cadeira verde.

Pegou na caneta preta e desenhou.

Pelas 6.30h., sem fazer qualquer tipo de apreciação da obra realizada, colocou o desenho numa capa preta e grossa.

Nesse dia, pela tardinha, o drogado olhou o desenho. Mas, desta vez, o ligeiro aceno em sinal de concordância foi substituído por um discreto arrepio. Calado e triste, o drogado rasgou o desenho e este desfez-se em pedaços.

Mais tarde, Carolina, entre o tempo de ir e voltar, encontrou uma pequena parte do desenho. Ainda se conseguia perceber, naquele pedacinho rasgado, uma cara de alguém a sorrir. Pareceu-lhe familiar e ficou curiosa. Um ligeiro rubor, talvez de entusiasmo, coloriu-lhe discretamente a expressão.

Apanhou todos os pedaços do desenho e, apressada e silenciosamente, voltou para casa. Abriu a gaveta, tirou o rolo da fita cola e colou todos os pedaços de papel. Lentamente, o seu próprio rosto foi surgindo dos riscos negros que se organizavam na folha de papel.

Olhou com mais atenção e viu-o no desenho do Filipe.

Sorriu.

Abriu a janela.

Em frente da sua casa era a igreja.

Carolina vestiu o seu vestido vermelho, colocou os sapatos de salto alto e soltou o cabelo.

Um homem saía da igreja com uma carteira na mão. Foi a última que roubou.

Cristo deu-lhe a outra face.

O padre foi transferido de paróquia por bater numa criança.

Filipe deixou de desenhar.

Um dia, sem sobressaltos, voltou a acordar pelas seis horas em ponto e desenhou uma mulher muito bela e um homem de cabelo comprido e olhos brilhantes. O drogado voltou a acenar em jeito de concordância. Sorriu.

Seguiram-se, a partir dali, as coisas habituais. O seu dia foi normal e, pela tardinha, voltou a casa. A sua mulher esperava-o, sorridente.

Era um homem feliz.

Maria Teresa Bondoso
14 de dezembro de 2012

sábado, 15 de dezembro de 2012

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário,  é possível conviver com as figuras do passado. Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 

Hélio Pólvora 
avista o cangaceiro

 a cavalgar do sertão para    



Nesta casa, onde já moram 154tudo está  a acontecer, cada vida / cada conto. Por isso já recebeu mais de 26,3 milhões de visitas.

Desejamos aos nossos queridos Internautas
um FELIZ NATAL e um excelente ANO NOVO

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Poemas que se encontram



O sonho e a espada

Igualmente solidário
Gira o mundo refrescante,
Não há medo que perdure
Neste pensar solitário.

Magnífico segredo
Nas calhas da morte, saudade
Vida que corre à bolina
Em maré-cheia de tenra idade

Viva nostálgico o cucuruto,
Levando à memória terra inteira,
Guerreiro mental de utopias
Traçando de sonhos sua fronteira.


Diogo Correia





CASCAIS  1

Ao meu grande amor gigante

a recta brilhante e azul em plena curva
no ponto das pernas em que toco e foges
um luar sem vento chove. vou já pela
estrada de madrugada flutuam todos os
pilares – vagueamos nos subúrbios da vila
cinzentos como o céu – chove – todo o dia
as palavras devem ser escritas ao entardecer
para não ferir o louco dos loucos dos lagares
um esqueleto de azeite como uma epopeia
de revoluções em papeis dispersos. tudo muda
nos teus mamilos com o movimento circular
fechado da canela, erva doce hortelã e corpo
nas camas desfeitas é madrugada nesta estrada voltas
sempre com o pucarinho sagrado das cerejas
a época é politica e não podemos fugir outra vez





quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

SEM TÍTULO
 
 

CELESTE BEIRÃO

Acrílico sobre tela 100x80

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Versículos



Mantra

As palavras são
a  vibração da vibração.
Verbo(s).



Luís Santos


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Tenho tantas saudades do meu querido pai. Eu sei que temos que aceitar a morte que está inscrita na própria vida que, desde o primeiro momento, bem vistas as coisas, acaba por ser uma contagem decrescente precisamente na direcção desse último suspiro que tudo acaba e é, afinal, o único desenlace que temos por certo. Ainda não sei ou, pelo menos, ainda não sou capaz de entender o alcance e a verosimilhança das palavras que, certo dia, escutei à mãezinha, segundo as quais, uma pessoa, com o decorrer dos anos e o avolumar da idade, acaba por se habituar à ideia de que terá que morrer alhures e que, por isso mesmo, aqueles medos que nos acompanham na meninice a respeito desse acto se vão diluindo e eclipsando até que se aceita serenamente que venha a acontecer e se sente preparada para o efeito. Por mais injusto que isso possa parecer, por mais estranho que isso se nos afigure, é isso precisamente uma das manifestações desta prodigiosa condição de estar vivo e, como tal, não tendo a ela como fugir, pretender que fosse diferente equivaleria a negar a própria vida e, isso sim, seria um perfeito absurdo. Mas há aqueles que nos deixam um vazio tão grande e profundo que, por mais que queiramos em contrário, se reflecte mesmo nos mais pequenos pormenores e, em conformidade, mais persistente e permanentemente perduram na memória dos que ficam. É o que sucede com o paizinho de quem praticamente todos os dias me lembro e não só nos momentos em que dou conta dos cadilhos que, de acordo com um poeta, os filhos nos acarretam. Eu nunca fui uma pessoa muito corajosa e muito menos uma daquelas crianças destemidas a que tudo se atiram sem hesitações, confiantes de serem capazes de escutar o que ainda não experimentaram ou de resolver um qualquer problema para o qual mais não possuam que as bases mais ou menos adequadas para o conseguir. Já rapariga crescida, pelo liceu fora, recordo algumas amigas que nunca se atrapalharam com o que tinham para fazer, algo que me desconcertava e, na intimidade do travesseiro, por vezes me entristecia pelas dúvidas que me incutia quanto às minhas próprias capacidades de desempenho. O meu querido pai tinha toda a paciência do mundo para mim, sempre com o carinho de um sorriso nos lábios e o brilho da ternura e de uma calma infinita nos olhos, pronto a fechar as páginas de uma leitura ou a suspender a tarefa para ouvir e partilhar as minhas preocupações e incertezas ou, tão só, para se alegrar com as minhas alegrias. Como em menina, adorava conversar comigo e mais do que me ensinar aquilo que eu deveria saber, era da sua preferência levar-me de modo a que fosse eu a chegar aos dados e às conclusões e quando se tratava de ultrapassar um qualquer obstáculo, era engraçado como ele encontrava inevitavelmente um exemplo em que, pelo meu próprio comportamento anterior, era manifesto que também naquela ocasião eu seria capaz de me desenvencilhar de mais um desafio, por muito difícil que ele se me apresentasse. Recordo-me tão bem da doçura com que ele aplaudia os meus êxitos e de como isso me deixava inchada de prazer e, nesse imediato, cheia de auto-confiança. Contudo, não acho que alguma vez tenha sido uma pessoa corajosa e destemida, muito embora, com toda a sinceridade, possa dizer que estou a milhas de ser exactamente o contrário. Acontece que apesar de toda a auto-confiança e autonomia que os meus queridos pais tentaram e, em boa verdade, conseguiram transmitir-me, jamais deixei de ser incapaz de, perante fosse o que fosse, considerar a possibilidade de errar ou de um qualquer resultado a descontento. Uma vez adulta, cheguei à conclusão que até é uma atitude filosoficamente acertada pois, no fundo, tal como a morte está implícita na vida, o erro é uma possibilidade que decorre muito naturalmente de querermos dizer, pensar ou fazer o que quer que seja. É bom de ver que há o anódino; pouco importará se errarmos na escolha de um livro para simplesmente alimentarmos o nosso prazer de leitura, ou se nos enganarmos no nome de um autor no contexto de uma conversa informal entre amigos. Mas há igualmente o mais decisivo e aí não me parece que alguém possa sustentar que de nada vale preocuparmo-nos com o facto de estarmos sujeitos à falha por tal, no final de contas, consistir numa espécie de fatalidade. Pois foi essa a minha angústia quando tive consciência de estar grávida, sabendo, de antemão que tanto eu como o Manuel queríamos ter aquele filho. Uma coisa é saber que temos um modelo, para mim, claramente, o dos meus progenitores; termos, portanto, ideias básicas que nos balizam e orientam quanto às atitudes mais certas e apropriadas, assim como determinados princípios que nos permitem distinguir o que está certo do que está errado e, nessa dimensão, nos guiam os passos. Outra coisa é a prática de tudo isso e, inclusive em repetição, nunca podemos tomar por adquirido que seremos capazes seja lá daquilo que for e ainda mais quando estamos a falar de criar e educar filhos. Ainda bem que se veio a verificar estarmos todos de acordo nos parâmetros fundamentais do que deve ser a educação das crianças. Obviamente há particularidades e, no domínio das portas a dentro, cada um trata os seus à sua própria maneira. Sem querer estar a julgar alguém, arrepia-me um pouco a forma espartana como o Quico trata os filhos a que nem a rapariga escapa à disciplina de terem que desempenhar tarefas pesadas e cumprir todos os outros deveres sem recompensa, sequer o mais leve dos elogios, parcos de haveres infantis, segundo a tese da preferência por viver com pouco, no limite, com o menos possível, do mesmo modo que me incomoda o autoritarismo com que, amiúde o Acácio e a mulher impõem respeito e regras ao seu casalinho. Eu e o Manuel temos conversado bastante sobre isso e nunca deixámos de chegar à conclusão que não são os mimos que podem estragar os miúdos; esses, se na dose certa e nos momentos convenientes, tão só levam à feliz consequência de os mais novos se sentirem queridos e amados que é o melhor tónico para se encherem de confiança e gostarem da vida, com ela se sentindo felizes. É daí ou deve ser daí que se forma a autoridade dos pais que, não vindo a ser estiolada por maus exemplos que façam jus ao provérbio do faz como eu digo mas não como eu faço é, digamos, a condição fundamental para que haja a transmissão e assimilação de valores que formam um bom carácter. Seja como for, há uma série de aspectos em que todos concordamos e foi por isso que, tendo começado por estabelecer a regalia da licença laboral para a mãe ao longo do primeiro ano de vida dos rebentos e depois chegado à conclusão que seria necessário o serviço de creche que organizámos e agora se estende igualmente aos filhos dos trabalhadores que temos ao nosso encargo, tanto nos campos como nas restantes produções, quando chegou a altura do Adão entrar para a escola primária, mais uma vez debatemos o assunto e, ponderados os prós e os contras, decidimos aproveitar o facto de a Graziela para tanto estar habilitada e concebemos um plano de estudos passível de, por um lado, equivaler ao que consta do curriculum do ensino oficial, com isso possibilitando aos nossos o cumprimento dos exames que são requisitos incontornáveis para a obtenção dos diplomas e, por outro lado, oferecer-lhes a possibilidade de aprenderem tudo o que é necessário fora da pressão e dos maus tratos a que podem estar sujeitos nas escolas do estado. Por detrás do casarão, este ano inaugurámos o edifício em que instalámos um moderno estabelecimento escolar, com boas salas e em número a pensar no futuro, devidamente apetrechadas com todo o material necessário a uma aprendizagem de qualidade e onde já temos a decorrer todas as classes que compõem esta fase, para o que nos vimos forçados a contratar uma outra professora, uma rapariguinha tímida mas competente que, na sua voz de quem está sempre a pedir desculpa por alguma coisa, já nos fez saber que também ela aqui pretende ficar e, com o futuro marido, aderir a este nosso projecto da cooperativa. Mas como todos concordam que a educação e a formação são factores essenciais para criarmos pessoas livres e responsáveis, capazes de um dia virem a saber tratar de si e a não serem um fardo para os outros, achámos por bem proporcionar aos petizes algo mais que a mera aprendizagem das letras e dos números ou da história e geografia e das ciências naturais que, por métodos inovadores que a Raquel pôs em prática, a ganilha aprende ao natural e com recurso a experiências e trabalhos práticos simples e perfeitamente ajustados à sua idade. Como temos entre nós quem seja capaz de o fazer, acrescentámos então àquelas obrigações as aulas de ginástica, duas horas por semana, às terças e quintas, ao fim da manhã e a aprendizagem da música, todas as quartas-feiras no final do turno da tarde e aos sábados, pela matina, como o único dever escolar desse dia. Nestes quatro anos espera-se que os alunos aprendam o solfejo e a desembaraçarem-se na escrita e na leitura de pautas para que mais tarde possam vir a incorporar a aprendizagem de um instrumento. O que é pois criar um filho para além de lhe propiciar que cresça feliz e em segurança? Agora vejo que os meus receios jamais se poderiam ter materializado e que tanto eu como o Manuel nos temos saído bem como pais e, não erro se falar por ele, embevecidos com as mil e uma maravilhas que isso nos tem proporcionado.
Ai que hoje abusei e amanhã temos inúmeros sacos de batatas para encher e carregar para a camioneta da distribuição. Já passa da meia-noite. Fico-me por aqui.

FRESCOS


Velejamos em ondinhas de brisa cálida nos pontos brancos, alados, que buscam a segurança na distância prudente da costa e dos homens.

                                    Alhos Vedros, 26 de Setembro

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (6)


Golconde, René Magritte, 1953
Óleo sobre Tela, 81x100cm
O MAIS NOVO DOS ANTUNES

O homem dizia que ele, o rapaz, nunca viria a ser gente.

A mãe do rapaz era pobre…

O rapaz até parecia esperto, mas era dos Antunes.

E ser dos Antunes trazia-lhe uma espécie de destino… o de nunca vir a ser gente.

Dizem que os Antunes eram todos destrambelhados. Eu não sei, nunca os cheguei a conhecer. Só conheci o rapaz…

A mãe do rapaz fugiu com o mudo numa quarta-feira e deixou as filhas mais velhas – duas miúdas gémeas – fechadas dentro de uma mala.

As miúdas iam morrendo. O que valeu foi o carteiro que estranhou o cão que estava estranho, chegou-se à porta, ouviu os gritos das gémeas e chamou a polícia.

Os tios do rapaz diz que eram todos muito magrinhos, que bebiam muito e ninguém sabia ao certo quantos eram. Pareciam muitos, eram todos iguais e falavam alto.

As miúdas da mala andam sempre as duas, juntas. Andam depressa, parece que vão a fugir.



O rapaz já sabe que nunca virá a ser alguém. Ouviu uma conversa na escola…

Um homem de fato azul, muito bem parecido, dizia que o miúdo até era esperto, mas tinha de ser avaliado, sinalizado, acompanhado, ajudado… era dos Antunes (lembram-se dos Antunes?).

Portanto, o melhor era pedirem a tal avaliação o mais depressa possível, porque num instante se chegava ao fim do ano e depois não havia tempo de preparar o processo… ele percebeu que o homem de fato azul, muito bem parecido, de quem nunca soube o nome e que só viu naquele dia – de longe – falava de uma coisa chamada ensino especial.

O rapaz não sabia bem o que isso era. Ficou com a pulga atrás da orelha e acabou por ouvir a D. Fernanda comentar que, coitadito, o mais novo dos Antunes (lembram-se dos Antunes?) já estava para avaliação e que o homem do fato azul, muito bem parecido, tinha dito que ele, o rapaz mais novo dos Antunes nunca chegaria a lado nenhum, o que é o mesmo que dizer que nunca viria a ser gente.



O homem dizia que ele, o rapaz, nunca viria a ser gente.

A mãe do rapaz era pobre e tinha fugido com um mudo.

E o rapaz era o mais novo dos Antunes.



O rapaz gosta de música.

Mas, pobrezinho, nunca vai aprender a cantar. É enteado do mudo.

O desgraçado do miúdo é meio destrambelhado… põe-se a olhar para um livro como se soubesse ler. E fica horas naquilo.

Na visita de estudo ao aeroporto, não foi. Não valia a pena ir, disse-lhe a professora, nunca havia de andar de avião.

Dá-me uma pena, os Antunes…



O rapaz cresceu. Foi à tropa. Fez-se um homem. Aprendeu a ler, sozinho.

Estudou.

É piloto de avião e farta-se de viajar.

Foi por pouco… mas chegou a ser alguém.

Nem parece da família dos Antunes.



O homem do fato azul morreu. Mas ia tão bem parecido…



Maria Teresa Bondoso

9 de novembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

ENSAIO SOBRE O HOMEM DO ADEUS


Lisboa Imaginada, Autor: António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela, 90x90cm
ENSAIO SOBRE O HOMEM DO ADEUS

Parte I

O senhor João Serra como espelho de um certo Portugal

O senhor João Serra nasceu em 1930. Media 1,75 m.. Tinha cabelo branco comprido que lhe caia (ma non tropo) pelos ombros e em melenas sobre a fronte aristocrática. Tinha a pele muito branca. Ostentava, mas de forma quase imperceptível, uma cárie como emblema da sua penúria financeira. Articulava bem com um sotaque lisboeta e com uma pequena afectação “chique” que se arrastava um pouco em cada final de frase e que me transporta, sempre que o oiço, ao foyer do Hotel Avenida Palace no preciso ano de 1939. Usava óculos de massa preta a fazer lembrar um Yves Saint Laurent dos anos 70. Usava quase sempre cachecóis em contraste bonito com “canadianas” de cor clara. Fez a instrução primária em casa com um professor particular. Não casou, não teve filhos, nunca viveu um grande amor, não teve profissão, viveu sempre em casa dos pais, fez a instrução primária toda em casa com um professor particular. Com ambos viveu até aos 13 anos num palacete da Rua Tomás Ribeiro em Lisboa, quando os pais se divorciaram. Depois, viveu com o pai, durante muitos anos numa casa do Restelo. O pai montou-lhe um estabelecimento comercial em Lisboa que ele deixou falir em pouco tempo. Após a morte do pai foi viver com a mãe. Com a morte da mãe inicia, como numa espécie de travessia anti-heróica, o período mais bonito e mais trágico da sua vida. O velho Dicionário da Porto Editora de 1961 diz que “solidão” é “o estado do que está só”. O estado do senhor João Serra, segundo o Dicionário da Porto Editora de 1961, era o de um homem só. Morreu no ano de 2010.
«Essa senhora é uma malvada que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente».( Blogue O Adeus ao Senhor do Adeus, Dezembro 2010).

Um homem ao morrer, como qualquer outro ser, está irremediavelmente só. Mas um homem pode estar só e não estar, necessariamente, a morrer? Ou, pelo contrário, estaremos logo a morrer a partir do momento em que nascemos?

Quando o senhor João Serra veio para a solidão da rua para fugir à solidão da casa já estaria a morrer?

O senhor João Serra saía de casa todas as noites para fugir de si próprio, para fugir ao sofrimento de ser como era?

Que estado de alma, que acontecimento, terá produzido a gota de água que fez transbordar a taça que levou o senhor João Serra a quebrar a inércia da solidão caseira, ainda assim, confortável, para se lançar num outro tipo de solidão, menos confortável, mais barulhenta e até mais perigosa?

Terá sido a falta insuportável da sua mãe que lhe dava o escasso equilíbrio, as asas para se manter a voar? «Não voar é morrer!», terá, forçosamente, pensado o senhor João Serra naquela noite longa em que as paredes de sua casa ganharam vida.

E ganharam braços e ganharam mãos que o estrangulavam a mando daquela senhora malvada de cabeça desgrenhada, olhos coruscantes e trejeitos de louca.

«Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia… Quando a mãe morreu fiquei desasado». (Blogue “O Homem que diz Adeus” Março 2005).

Então o senhor João Serra deve ter achado que vir para a rua podia ajudá-lo a respirar, que já sufocava lá dentro... E que comunicar com os outros, ainda que só através dum simples adeus de principezinho – que nem ensaiou e lhe saíu com naturalidade, naquela primeira vez que, a medo, experimentou – era uma forma de enganar a solidão, ainda que por breves instantes…

Dizer adeus a si próprio em frente dos outros era uma bonita forma de antecipar teatralmente, com um cenário de rua atravessada por automóveis com pessoas em fundo, o seu próprio fim. A preocupação da estética sempre presente; bastava olhar para a sua maneira de vestir, de falar, de ajeitar a melena…) Antecipar, encenando todas as noites, uma ideia delirante do seu próprio fim como forma de melhor receber o fim quando o fim fosse mesmo a sério… Como se enfim fosse, de uma assentada, actor, produtor e realizador do seu primeiro e último filme. De um filme que não precisasse da palavra “fim” para assinalar o fim porque todo ele seria, já e só, o fim.

«Sempre quis ser actor mas nunca me deixaram…». (Blogue “O Homem que diz Adeus” de Março 2005).

E ao desfiar as suas elucubrações por entre as lúgubres paredes de sua casa, soube finalmente - a par dessa outra dor que o deixou “desasado” - da dor imensa duma vida sem sentido. No baú dos sonhos perdidos, jaz o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e, pior, o grande amor que nunca conheceu.

“Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar.». ( Blogue “O Homem que diz Adeus” de Março 2005).

Era dor a mais. Não aguentou. Decidiu mergulhar na rua.

Abraçou uma ocupação certa que nunca teve, um “part-time no Saldanha”. Ao princípio, parecia ser uma ocupação pouco digna, assim meio a fingir, mas esta foi, estou certo, a coisa mais séria que o senhor João Serra fez em toda a sua longa, imprestável e inconsequente vida. Finalmente saía do útero pós-materno e enfrentava o mundo – qual D. Quixote - à sua maneira, num gesto tão patético e tão lúcido quanto belo.

Mergulhou na rua como quem mergulha no vinho, para uma bebedeira. Um breve alheamento da dor “desasante” da solidão. Voar baixinho, viver à tira, à justa, à pele, mesmo que com a ajuda dum analgésico, é, apesar de tudo, voar…

E recomeçou a voar, ainda que muito baixinho, ali mesmo junto ao Saldanha. Os seus voos eram rasantes curtos e incertos. Mas voava. Nos primeiros tempos voava meia hora e ficava muito cansado. Com a continuação do exercício, a asa “desasada” pela dor que o “desasara” ganhou tónus muscular. Começou a equilibrar-se melhor e a aguentar mais tempo a voar.

Estou a vê-lo num vídeo no “You Tube”, em 2005, a dar uma entrevista na rua em pleno desempenho das suas funções; um exercício de “adeuses” de tocante beleza crepuscular (no sentido do seu contributo estético para uma forma de encarar a morte) com um “placard” em fundo cujo relógio marca 01,43 h. de uma qualquer madrugada.

“Chega por volta das onze, meia-noite. Começa pela zona do Monumental, vai descendo a rua até ao Marquês de Pombal e depois sobe, parando sempre em pontos estratégicos. Nunca falha.”, diz Arménio chefe de mesa da Marisqueira Maracanã, que já lhe serviu alguns jantares.». ( Blogue O Homem que diz Adeus - Março 2005).

Nesse vídeo quando o repórter lhe pergunta o que é que ele achava mal em Portugal ele responde que os portugueses cá não produzem nada mas que quando vão para o Luxemburgo, para a França ou para a Suiça são óptimos.

Ele também foi para o estrangeiro, não para trabalhar mas apenas para aprender inglês.

«Foram três anos fantásticos. Tinha um grupo de amigos fabuloso, com quem viajei imenso. Teria lá ficado se não fosse tão agarrado à família…O meu pai não sabia o que havia de fazer comigo. Decidiu mandar-me para Londres. Achava importante que eu falasse inglês fluentemente e eu fui. Ainda tenho saudades desse tempo. Foi uma festa do princípio ao fim. Inglês aprendi, mas não na escola como ele queria. Depois um dia decidiu que já chegava, cortou-me o dinheiro e mandou-me regressar». (Blogue “O Homem que diz Adeus”. - Março 2005.

Na minha pesquisa tropecei numa citação muito interessante que comparava o Senhor do Adeus com o mito urbano do “naked cowboy”: um homem que sai muitas vezes a dar uma volta na Times Square apenas com um chapéu de “cowboy”, as respectivas botas e umas cuecas. Não sei se o anti-herói nova iorquino irá ter direito a estátua. Por cá, há quem queira erigir no Saldanha uma estátua ao “homem do adeus”. Já corre, célere, nas redes sociais, uma colecta…

Mas, falta ainda desvendar o maior drama do senhor João Serra.

É uma espécie de “matrioska” só que com duas bonecas; um drama dentro de outro drama, qual deles o maior. A boneca maior é a ressaca. A boneca mais pequena é a bebedeira. Mas tinha dias em que a posição das bonecas se invertia e em que a boneca maior era a bebedeira e a boneca mais pequena era a ressaca, um dramático paradoxo…

A bebedeira, seja de que espécie for, nunca é eterna, desemboca sempre numa ressaca. Mas no caso do senhor João Serra a coisa complicava-se porque todos os dias a ressaca desembocava, inexoravelmente, numa nova bebedeira.

Isto foi o suplício de Sísifo do senhor João Serra. Extremamente penoso, extremamente custoso, nunca acabado. A dor da ressaca do regresso a casa conjugada com a dor do “torna-viagem” à bebedeira constituíram, para mim, a encenação mais completa e dramática da última parte da sua vida, porque também travestida de tanta coisa (das luzes da ribalta, do apagar das luzes, do “glamour”, da prostração, dos acordes dum fado, dum estremecer de silêncio...).

E garantiram, apesar de tudo, ao senhor João Serra durante alguns (poucos) anos uma existência q.b. mas, ao mesmo tempo, foram também os aceleradores da sua morte anunciada num adeus no Saldanha.

Depois…

O pressentir ficar só, o pressentir o fim, o pressentir só, o ficar só, o fim…



Parte II

O contributo do senhor João Serra para um outro Portugal

Há uma inegável similitude (ressalvadas as proporções, claro está) entre o percurso deste anti-herói com o percurso do próprio país. Este tipo de anti-herói nacional, para o país em que nos tornámos até não está nada mal. Empobrecido, deprimido, decadente, belo, dramático e a voar tão baixinho que estremecemos a cada batimento da asa “desasada” pois tememos sempre que vai “desasar” de vez…

Como o senhor João Serra também Portugal, em tempos idos viveu num grande palacete da Tomás Ribeiro, cobiçado por todos, até, dizem, pelo senhor Gulbenkian. Como o senhor João Serra, também Portugal andou tempo de mais num grande pagode.

“Que saudades tenho desse tempo…A casa estava sempre cheia de família e amigos…».(Blogue “O Homem que diz Adeus”. - Março 2005).

Mas, para já, também o “papá” cortou a mesada a Portugal…

Era bom que Portugal, de uma vez por todas, enfrentasse com a coragem do senhor João Serra – e, se possível, com a sua elegância – todos os seus fantasmas e saísse deste faz-de-conta interminável, saísse do pseudo útero em que se encasulou há tempo de mais e que cortasse, com uma tesourinha empunhada pela sua própria mão, o nauseabundo e sufocante cordão umbilical em que se enleou, nem que fosse para arranjar um qualquer “part-time” ali para o Saldanha…

O autor não aderiu ao “Novo Acordo Ortográfico”.

Autor: José Jorge Vinha