“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

DUAS CASAS E DUAS ÁRVORRES




LUÍS DELGADO

Óleo sobre MDF 60,5 x 81

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os caminhos do espírito


Pseudo-Dionísio (O Aeropagita)

Nome porque é designado o autor de "Teologia Mística" (Medievalia, 10, 1996, Edição Fundação Eugénio de Almeida), texto que se calcula tenha sido escrito entre os séculos V-VI. É um discurso sobre a causa inicial de tudo, mas que desde logo nos diz que não há forma de a conhecer, dadas as limitações humanas para uma compreensão absoluta do que nos rodeia, muito embora o nosso desejo de tudo saber. Assim, como as palavras perdem o rigor Pseudo-Dionísio passa a utilizar uma linguagem metafórica e refere-se à divindade mais como treva, do que como luminosidade.

Pseudo-Dionísio é influenciado por Plotino: a experiência mística está para além do sensível e do inteligível (para lá do ver, do sentir, do falar...). Tem de se abandonar o conhecimento que é dado pelos sentidos. Ter a experiência da treva, do silêncio. No fundo, abandonar todas as formulações mentais - toda a Teologia, toda a Filosofia.

Embora situando-se na tradição cristã, em Pseudo-Dionísio chegamos a um conhecimento "não-dual" que tem paralelo nalgumas tradições orientais como, por exemplo, o Taoísmo ou o Budismo.

Com ele o que se busca é a união com a fonte primordial através de um transcender, um abandono de todas as operações sensíveis e inteligíveis, que possibilite uma relação direta com a "Fonte", onde não há espaço para que se represente seja o que for.

Na Teologia Mística para se ser assumido por "Deus" tem de se ficar "vazio", num estado de disponibilidade total. Só é possível conhecer se se suspender a busca do conhecimento. Trata-se de uma forma de conhecimento por assimilação e não através da teologia.

O místico tenta libertar-se de todas as construções do mundo para poder aceder à realidade tal como ela é. Para Pseudo-Dionísio há qualquer coisa que está antes do homem, que está para além dele... A "Causa" é totalmente transcendente, é qualquer coisa a que se pode aceder, mas que não se pode explicar. É uma experiência radicalmente individual e que, simultaneamente, transcende o próprio individual, pois que há uma anulação do próprio indivíduo... A "Causa" está livre de toda a construção humana.

Carlos Rodrigues

Referência Bibliográfica: 
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Fac. de Letras da Universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º sem.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

FRESCOS


Minúsculos rectângulos dourados sobre o pano do sofá e o chão brilhante, reflectindo um ladrilhado de nuvens, tais conchinhas andantes num céu transmutado pela velocidade do vento.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Em boa hora decidimos pôr de pé uma pequena unidade de transformação de cortiça e, com isso, entrarmos no domínio da indústria respectiva. Com efeito, é essa matéria-prima de que o nosso país é o grande produtor a nível mundial e na última década temos assistido a uma forte expansão desse sector entre nós. Se os primeiros passos e os primeiros avanços foram induzidos pela fixação de capitais ingleses que aqui instalaram as fábricas necessárias à exploração dessa riqueza natural, há algumas décadas que a produção é maioritariamente assegurada por famílias nacionais que decidiram entrar no negócio e agora começam a controlar os principais mecanismos e circuitos em que se processam as compras e as vendas que, desde o sobreiro à rolha da garrafa do melhor vinho, perfazem os meandros dessa área da economia. Visão teve pois o José Pedro que há uns três anos atrás observou que temos desperdiçado muito dinheiro pelo facto de nos limitarmos a vender o produto tal qual sai das árvores e, ao que parece, o baptismo que este ano teve lugar, pelo menos, começa por lhe dar razão. Há muito que pessoalmente me deixei de preocupar com tais decisões, embora estas continuem a ter o carácter colectivo que, desde a origem, sempre tiveram; seja como for, o bom sucesso que temos alcançado com as nossas iniciativas e os níveis de prosperidade e, em função disso, de especialização que tal nos proporcionou, tudo isso acabou por nos pôr a salvo dos tempos em que havia que acudir a tudo e assim deixaram espaço para o respeito da velha sabedoria que nos diz caber a cada galho o seu macaco, ou seja, possibilitaram que os mais entendidos tenham não só a primeira palavra como o voto decisivo nos assuntos correspondentes. E a verdade é que tenho todos os motivos para confiar no bom senso e competência do pessoal que actualmente permanece mais directamente ligado à direcção económica e financeira da cooperativa e, por outro lado, nada me custa admitir os meus fracos conhecimentos nestas matérias e até as reduzidas capacidades para compreender o que possa ser melhor numa determinada situação e muito menos para explicar as vantagens ou desvantagens de uma dada opção. Mas não me foi difícil perceber as explicações do José Pedro quando nos fez ver que se em vez de vendermos a cortiça no seu estado bruto, procedêssemos a uma primeira transformação, não só seríamos nós a acumular os rendimentos dessa operação, como igualmente poderíamos obter uma maior margem de manobra na determinação do preço de venda das arrobas produzidas e ainda vermos facilitadas as nossas possibilidades de escoamento. Segundo as palavras daquele companheiro e aqui vou procurar o máximo de fidelidade ao que ele disse, sendo a procura para a cortiça empranchada em menor número que para aquela no estado virgem, estaremos desde logo em melhor posição para conseguirmos bons preços e garantias de venda pois é a partir daqui que o raciocínio dele careceu de tal descodificação que me pareceu razoavelmente simples de seguir, apesar da lei que nos diz que os preços tendem a baixar consoante a procura para um certo bem é menor, sendo nós os produtores da matéria-prima, mais facilmente poderemos apresentar preçários competitivos que iremos justamente retirar dos ganhos que as nossas concorrentes têm que alcançar sobre aquilo que pagaram pelo material que transformaram para vender às grandes produtoras de rolha e outros materiais acabados que essa indústria gera. Ora o que se tem passado é que nos temos limitado a extrair a cortiça das árvores e a carregar os fardos para os camiões com que os industriais ou os intermediários os levam daqui e nem sempre temos conseguido atingir aquilo que poderíamos considerar a licitação mais justa, tanto pelo nosso trabalho como, assim falou o Gustavo, pela importância estratégica do produto em apreço. Aliás, a realidade é que nem mesmo existe qualquer princípio de justiça, em toda a operatória que determina tais custos e, com efeito, dá-se até o inverso de, se por acaso a Natureza nos bafejar com a sorte de uma colheita mais grada, o resultado acabar por ser uma quebra nos preços de venda da mesma. É pois contra essa maré que o José Pedro teve a feliz ideia de querer remar e se na altura, não tendo havido qualquer oposição, o propósito não foi recebido com qualquer onda de entusiasmo, agora há uma unanimidade em dizer ainda bem que assim se fez. E com isto aproveitámos a oportunidade para reinstalarmos os armazéns que tínhamos à entrada do povoado e em que sediámos as produções de azeite e outros bens alimentares com que estamos no mercado com marcas próprias. Decidimos que seria melhor demolir aquelas construções, excepto aquela onde agora fica o local de recolhimento das máquinas agrícolas e aproveitámos uma área de terreno pedregoso e sem outro préstimo que um pasto pobre que temos a uns dois, três quilómetros daqui, mesmo na raia da propriedade e na vizinhança da estrada nacional, para aí montarmos o nosso pequeno núcleo de fábricas numa zona adequadamente preparada para o efeito. Com edifícios independentes e espaços próprios, temos agora para além do novíssimo fabrico de cortiça, uma unidade fabril de descasca e empacotamento de arroz e uma outra de calda de tomate, assim como o lagar de azeite e a respectiva linha de produção e engarrafamento e ainda o armazém onde procedemos à embalagem dos pinhões e às produções de pinhoadas e batatas fritas em pacote. Para lá transferimos igualmente a oficina automóvel que tínhamos atrás do casarão e que a partir daqui irá funcionar como garagem para os carros que a maioria de nós já possui. Foi pois em boa hora que nos lançamos na transformação da cortiça e até parece que a Mãe Natureza nos quis presentear por isso, uma vez que este foi o ano em que tirámos a maior quantidade de sempre das árvores.
Por sua vez as casas do bairro novo, para os trabalhadores, estão prontas. Falta completar os arruamentos, coisa que já não deve demorar muito.
Vivemos numa aldeia cada vez mais bonita.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (13)

Centro Comercial, Autor António Tapadinhas,Acrílico sobre Tela, 80x100 cm
AUTO-RETRATO
            Lembro-me de ter lido um conto, há muitos anos, que nunca mais me saíu da cabeça! Era sobre uma mulher! Cheia de liberdade! Já não me lembro quem o escreveu – pode ter sido a Doris Lessing, parece-se com os seus contos ou, se calhar por gostar tanto dela, apetecia.me que fosse seu…
            Na altura, as minhas idas ao supermercado eram uma verdadeira aventura! Com uma casa sempre cheia de adolescentes para alimentar, quantas vezes tive que empurrar dois carrinhos ao mesmo tempo, atropelando uns e outros de quando em vez e desculpando-me como podia…
            O título do conto é ‘Shopping for One’ e não faço ideia de como terá sido traduzido, se é que chegou a sê-lo… e aquela mulher livre e só, com um cestinho só, comprava só dois ou três pacotinhos de qualquer coisa que lá íam dançando no fundo do seu cesto só… ao mesmo tempo que invejava os carrinhos atulhados das mães como eu, que a atropelavam e  que também tinham casas cheias de adolescentes para alimentar…
            Hoje sou eu a mulher do cestinho só – e quando as mães dos carrinhos me atropelam limito-me a sorrir, um sorriso de solidão, acentuado pela montanha de coisas que as outras mulheres transportam nos seus carrinhos de supermercado…
            Li há poucos dias num livro de que gostei, qualquer coisa parecido com a liberdade traz a solidão… 

Amélia Oliveira

domingo, 27 de janeiro de 2013





MANEIRAS DE ESTAR, DE SER.


Um grupo de jovens ria-se.

E ria-se por nada de concreto.

Ria-se como uma expressão de estar.

Depois, calaram-se.

Quer dizer, deixaram de rir.

Ficaram em silêncio olhando em várias direcções.

Cada um diferente na direcção do olhar.

Depois, um começou a falar enquanto os outros pareciam alheados mas se calhar não estavam porque, de repente, começaram todos a falar ao mesmo tempo.

Qual seria o estímulo para cada gesto e atitude?



Fotos: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

sábado, 26 de janeiro de 2013

Caetano Veloso envia Um Abraçaço


A música faz parte do novo disco “Abraçaço” que encerra a trilogia de álbuns que Caetano gravou em parceria com a banda Cê, da qual fazem parte o guitarrista Pedro Sá, o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes. O primeiro CD com o trio foi 'Cê' (2006), seguido de 'Zii e Zie' (2009).


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Livros de África, por Tomás Coelho



ROCHA DE SOUSA
Nasceu em 1938 este professor universitário, pintor e crítico de arte, natural de Silves. Em 1961 foi convocado para a guerra em Angola: “Assim é convocada a nossa juventude culturalmente precária, compelida a amar de súbito um território tantas vezes tratado de esguelha na própria escola, omitido sem grandeza, província, colónia, província outra vez, imensidade física de assombrações e de fascínios, terra de degredados e dos mais singulares enriquecimentos.”. 

Regressou em 1963. Dessa experiência foi fazendo registos do que via e sentia nas matas dos Dembos entre Zala e Nambuangongo. Só em 1999 conjuntamente com a Editora Contexto resolveu publicar os seus escritos a que deu o título de “ANGOLA 61 – UMA CRÓNICA DE GUERRA OU A VISIBILIDADE DA ÚLTIMA DERIVA”.

É uma escrita densa, por vezes pesada, mas paradoxalmente clara e luminosa. Eis como descreve a estranheza de se ver num mundo tão diferente e belo porém tão perigoso: “O medo latente leva-nos a considerar a massa sombria da floresta, quando o contraluz lhe disfarça os contrastes, como uma espécie de espuma lamacenta, absurda, com as suas bolhas de vários odores rebentando debaixo do céu.” Esta presença física e emocional da floresta dos Dembos é recorrente em todo o livro.

Já instalado naquela que iria ser a sua “casa” durante um tempo que lhe pareceria demasiado longo, deixa-nos o relato da estupefacção sentida perante a barbárie, causada sobretudo pelo medo, quando o homem se transforma e vira lobo do homem “numa loucura de falso triunfo, raiva, vingança, desforra inútil, os soldados andaram em círculos no meio da pista, fazendo piões com as viaturas, puxando depois o corpo do guerrilheiro, ao qual cortaram dedos e orelhas, “troféus de guerra”, a barbárie refluindo nestes pobres representantes da civilização ocidental, os mesmos que depois abriram uma cova fora do cerro de Zala e aí enterraram os despojos daquele homem meio coberto de sangue, mutilado, sem nome e ainda sem pátria.”

Retenho também a descrição quase poética do objectivo da jornada: “Nambuangongo surge do abismo. Recorta-se no céu e parece um monte de ruínas negras. Algumas palmeiras, como sentinelas eternas, convivem com o leve impulso da brisa. Imagino que se movem, um sopro de vida, folhas oscilando vagarosamente, as pontas desfocadas nas nuvens de terra e luz.”

E os mortos. “A seu lado, como se dormisse em grande paz, está o nosso companheiro, o João Mateus, (…) dorme, nem sequer vai acordar em Luanda, descerá à terra no cemitério local, esse nome pomposo com que baptizamos os patéticos alinhamentos das sepulturas nestes lugares, (…) “absolutamente provisórias”, como assegura o comandante Maçanita.”

Disto e do que aqui não coube resulta um livro extremamente lúcido, essencial para a memória daqueles que participaram na(s) guerra(s) em África.  

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

REFÚGIO CALMO - I



CAROLA JUSTO

Acrílico sobre madeira 50x40

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Versículos


Aniversário

A Beleza
é uma responsabilidade,
as coisas bonitas
mudam com a idade.


Luís Santos



Notinha: Hoje o Estudo Geral comemora o seu 3º aniversário. Parabéns.




terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Não há dúvida nenhuma que é maravilhoso termos à volta de nós esse espectáculo único que consiste em vermos os filhos crescerem. É certo que há amarguras, desde logo aquelas que decorrem daqueles momentos em que eles aparecem doentes com isto ou aquilo mas, nesse plano, no que nos diz respeito, até nem temos muito que nos queixar pois, para além das constipações e de uma ou outra gripe e dos sarampos e papeiras que são normais na idade mais tenra, nada mais tivemos que fosse motivo para uma preocupação maior. É claro que os cadilhos se não resumem apenas a esses aspectos que se prendam com a saúde. Ele há por vezes aquelas situações em que as personalidades de cada um chocam com o acatamento desta ou daquela regra, deste ou daquele reparo, tal como existe o permanente cuidado de vermos se tudo corre bem com a escola e se os deveres estão bem feitos, da mesma maneira que há os momentos em que temos que ralhar por desobediências ou de algo que ficou fora do lugar ou muito simplesmente não deveria ter ocorrido e que portanto mereceria a devida resposta, muito embora seja da opinião que isto se tratam de episódios triviais do crescimento e da própria educação e que por isso são como as palavras que, por não terem qualquer importância, nos entram por um ouvido e nos saem por outro. Seja como for, tenho por sentido que não é isso que apaga o que sobra, justamente as muitas coisas que, ao observarmos neles, nos incutem uma profunda alegria e uma leveza na alma em que sentimos o quanto somos felizes por assim ser. Naturalmente há dias em que estamos menos receptivos às necessidades de atenção com que eles nos desafiam e, em conformidade, não sendo algo corriqueiro, também não serão raras as ocasiões em que pura e simplesmente sequer somos capazes de responder convenientemente às solicitações que nos apresentam ou, no mínimo, nem sempre temos a presença de espírito para o fazer da melhor maneira, contudo, estaria a ser injusta comigo se não dissesse o quanto me satisfaz ouvir perguntas inteligentes na boca dos meus pequenotes e ver como eles são capazes de perceber assuntos por vezes complicados para a sua idade. É mesmo uma cena digna de registo e que sempre me deixa nas nuvens, estar de parte e presenciar os diálogos entre o pai e os filhos e vê-los conversarem sobre isto e aquilo como se todos fossem adultos. Sobretudo é um prazer infinito vê-los ganharem corpo e autonomia, vendo-os resolverem os problemas que se lhes deparam e como conseguem eles próprios criarem e organizarem aquilo que lhes interessa, tal como sucedeu nestes últimos dias a propósito de um clube de futebol que os miúdos fundaram. Felizmente, as nossas crianças podem crescer saudáveis entre a casa e a rua e com o imprescindível à vontade de não estarem permanentemente sob a supervisão dos respectivos pais e dos mais velhos em geral. Nesse sentido, esta nossa aldeia até já tem a marca das bicicletas juvenis e dos cães correndo entre elas, assim como, não sendo dia escolar em que a maior parte das horas têm o murmúrio marejante das folhagens e os ruídos de um ou outro mecanismo que, a partir da praça, se ouve ao longe, até que a chamada de alguma obrigação o imponha, as gritarias e correrias dos jogos e até das desavenças se colam como uma espécie de sombra ao panorama auditivo de quem está de parte. Do mesmo modo os campos são patrulhados pelos mais crescidos a quem o avolumar das destrezas e confiança possibilita que se afastem nos caminhos e na distância e isto sem distinções de género coisa que, para mim, é um prodígio assinalável e muito provavelmente virá a reflectir-se nas consolidações de uma nova cultura de relacionamento entre os membros do casal que, muitos de nós, manifestamente já evidenciam. Mas é sempre uma emoção ver uma sala cheia de miúdos entusiasmados com um determinado propósito que a si, de livre e espontânea vontade, se impuseram. Como eu me ri sozinha numa destas tardes por causa do meu rapaz mais novinho, no meio dos mais crescidos a dar opinião e sentenças de como deveriam prender emblemas e números nas camisolas. O Luís, um dos filhos do Gustavo e da Viviana que tem todas as características de um líder, reuniu uma equipa de futebol que, pelas narrativas baralhadas de entusiasmo da ganilha que aqui esteve, já defrontou outras congéneres de outros bandos de gaiatos da Vila e de aldeias das redondezas. Mas eu tenho que admitir que fiquei espantada com todo o trabalho que estas alminhas desenvolveram, desde os cadernos em que registam a contabilidade do deve e do haver das quotas que todos pagam e dos peditórios e sorteios que realizam, para, entre outras coisas, puderem ter os débitos para a aquisição de uma bola e dos equipamentos de calções verdes e camisolas brancas que, assim me explicaram, um acordo entre benfiquistas e sportinguistas os levou a escolher em contrapartida do nome de Sport Esperança e Benfica. E não é que o filho do Gustavo teve o cuidado de fazer um estojo de primeiros socorros que montou numa maleta? Eu nem queria acreditar quando o meu pequenito me disse do que se tratava e que era precisamente da sua responsabilidade transportar nos dias dos jogos. E o mais curioso é que lá conseguiram convencer a dona Noémia a coser os números e os emblemas nas camisolas. Não é pois maravilhoso ter todo este espectáculo à mercê dos nossos olhos e da alma?
Como eu gostaria de dizer aos meus queridos pais o quanto sou feliz.

FRESCOS


Vagabundo. O tapete transmontano, gaitas de foles flutuantes, os vales profundos cavados pelo rio. A companheira fiel e o céu e o ar não conta, enquanto o vento se escapa através de milhares e milhares de flores trementes e que poderemos erguer novamente.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (12)


Pobres Esperando a Sopa, Nonell, 1899

Óleo sobre Cartão, 51 x 65,5 cm
 TROCA DE DOENÇAS

A Maria Filomena tem Alzheimer há 10 anos. Tem-se mantido estável e, como diz o Doutor Luís, era bom que todos estes doentes fossem como ela. Na realidade, eu não a conheço pessoalmente, mas vejo-a passar na rua e parece-me não estar nada mal. Continua com muito bom aspeto e, aparentemente, ainda consegue levar a sua vida com alguma ligeireza.

- Não é bem assim – diz a filha – só quem está com ela é que sabe.

Eu já tenho pensado o que será que ela quer dizer. A senhora parece-me tão bem…

A D. Augusta é a irmã mais velha da Maria Filomena e já está muito esquecida. O Doutor Luís, que sempre foi o seu médico, diz que ela tem é muita idade, porque, do resto, até está bem boa.

- Coitadinha, – diz a filha – já está tão velhinha, a minha mãe…

Eu cá já tenho pensado que bem, só se for do resto, porque de aspeto, a Maria Filomena parece estar bem melhor.

- A minha mãe diz que a tua mãe não está boa da cabeça. Sabes o que ela me disse? Diz que a irmã parece uma maluquinha e que já nem a percebe.

A filha da D. Augusta riu-se.

- Olha, a minha diz-me que a tua cada vez está pior. Mas depois nem me soube dizer porque é que dizia aquilo.

A filha da Maria Filomena riu-se.

E eu fiquei a pensar que, muito possivelmente, o tal do Doutor Luís devia estar enganado.

E então, o que é que eu fiz?

Troquei as fichas ao médico.

Mas foi só para perceber qual delas estava pior.

Se a Maria Filomena, com Alzheimer há 10 anos, ou então a D. Augusta que tinha já muita idade.

Calei-me bem caladinha.

No dia da ida ao médico, pus-me à coca.

A D. Augusta, ligeira, rodopia e já nem cai.

E a Maria Filomena vem calada e cabisbaixa.

Houve troca de doenças.

Agora a D. Augusta tem Alzheimer há 10 anos e a Maria Filomena sente-se outra vez menina. E do resto nem se fala.

Maria Teresa Bondoso

domingo, 20 de janeiro de 2013









                                                               QUERER - IV



Quando aquela coisa,
a que uns chamam
VIDA
e outros,
simplesmente,
QUERER
chegou
com vontade de abraçar,
não me sobressaltei.

Estava preparado.

Como tal,
fui abraçado e abracei
e nessa entrega
me encontrei.




                                                                                                                          Fotos: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca


















QUERER - III

Com o sentir
de que se tecem
os sonhos
e se constroem castelos no ar,
se atrai o olhar
pelo infinito do
espaço sideral.

Em baixo,
a terra,
sente-se desafiada
decide também ir ao baile
e embalada,
devaneada,
galopa junto.

Para a comum jornada
partem,
de largada.
Pés no chão,
olhar de madrugada
desperto o ser
na alma iluminada.

Foto: Edgar Cantante; Pintura: Luís Delgado; Texto: Manuel João Croca

sábado, 19 de janeiro de 2013

Poemas Que Se Encontram


Itabira

ao meu amor no 1 de Janeiro 2013

não há mar tão perto mas esse mar ao fundo de Minas
vamos de autobus desde Belo Horizonte são
linhas que se desenham na paisagem seca e dura de
mineiros

não há mar mas esse mar ao fundo de Minas
onde o carvão ficou tranquilo
guardo no coração as linhas da tua casa
como um abrigo de passagem

voo entre dois mundos e só sei do amor
nas flores que ficam pelo chão
Carlos Drumond de Andrade nasceu em
Itabira como tu e pergunta
"E agora José?" o que fazer à romã

José Gil
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com


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FRONTEIRAS

Marco a distância: crio fronteiras
e as armo em cercas farpadas.
Reservo espaço ao póstero. Sigo
os passos menino moço remoçado
e impeço sua saída. Pergunto pela
identidade: faço ver a necessidade
das explicações. Armo minha fala
no descaso do eterno (ou quase)
vigilante. No peso a responsabilidade
rompe o estribilho. Minha fronteira
exige permanências.

(Pedro Du Bois, inédito)



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Essência

A vida é um bem mais que precioso

Qualquer dia
esse tesouro guardado
abrir-se-á

A purificação é permanente,
e é bom que seja

Não há que mudar o que se é
há que aprender, desaprendendo 
(o transcendental salto)

Silêncio


             Luís Santos

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querer

é um querer que não quero,
um fazer que não posso,
um parar já no fosso,
um doer sem fim!
um (re)amar de choro,
um enlouquecer em mim,
um pensar constante,
um desejo de Fim… 


             Amélia Oliveira


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Tragédia escondida de todos

Segredo é uma fantasia oculta.
Secreta é a disciplina do mundo e suas leis
Com tudo o que tenho em mim.

Fantasma é quase o contrário
Do que existe e todos veêm.
Niguem os vê !?!?! Certíssimo!
Todos os olham por dentro sentindo.

Será verdade ?


              Diogo Correia




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Memória Ibérica: A Inquisição


O termo Inquisição refere-se a várias instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica. A Inquisição foi criada inicialmente para combater o sincretismo entre alguns grupos religiosos, que praticavam a adoração de plantas e animais e utilizavam a necromancia.


A Inquisição medieval, da qual derivam todas as demais, foi fundada em 1184 no Languedoc (sul da França) para combater a heresia dos cátaros ou albigenses. Em 1249, implantou-se também no reino de Aragão, como a primeira Inquisição estatal.

Já na Idade Moderna, com a união de Aragão e Castela, transformou-se na Inquisição espanhola (1478 - 1834), sob controle direto da monarquia hispânica, estendendo posteriormente sua atuação à América. A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e existiu até 1821. A Inquisição romana ou "Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício" existiu entre 1542 e 1965.

O condenado era muitas vezes responsabilizado por uma "crise da fé", pestes, terremotos, doenças e miséria social, sendo entregue às autoridades do Estado, para que fosse punido. As penas variavam desde confisco de bens e perda de liberdade, até a pena de morte, muitas vezes na fogueira, método que se tornou famoso, embora existissem outras formas de aplicar a pena.

Os tribunais da Inquisição não eram permanentes, sendo instalados quando surgia algum caso de heresia e eram depois desfeitos.

Os judeus viveram o seu apogeu na Península Ibérica entre os séculos X e Xll e a medicina, a filosofia, a literatura entre os judeus ibéricos eram de grande expressão.

Os judeus estavam bem estabelecidos. Apesar da presença muçulmana na Península Ibérica, a cultura judaica não era afetada, pois se expressava em toda a península de todas as formas, criando até um Centro de estudos cabalístico em Girona, de grande repercussão. (Wikipédia)

Mais tarde, sobem ao poder dois reis católicos: Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, que com a bandeira do catolicismo, conseguiram unificar os reinos ibéricos. Dessa união, surge de forma consolidada a Espanha.

O reino culpava os judeus, diante da Santa sé romana, de todos os males que afligiam os reinos espanhois da Inquisição, com o famoso manual inquisitório “Directorium Inquisitorum”. Para os judeus, dizia-se: “a morte ou água benta”. Centena de milhares de judeus foram batizados, porém guardando em suas casas os ritos judaicos, o que lhes rendeu maior perseguição, começando então os Pogroms: ataques violentos em massa aos judeus, onde cerca de 50 mil foram mortos e cerca de 120 mil fugiram para Portugal.

Margarida Castro
Adaptado de  http://www.bneianussimbrasil.com/2012/07/o-que-foi-inquisicao.html


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

MURMÚRIO #




CELESTE BEIRÃO

Técnica mista  S/Mdf e madeira 120X70 cm

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

f.g.amorim



Um sonho ?

Sem saber como, bem na minha frente um velho de barba branca, olhar doce, em paz, tal como alguns de nós têm imaginado como será a figura de São Pedro quando lá chegarmos, se lá chegarmos.
Devia ser mesmo o guardião das chaves dos vários “hoteis” que nos aguardam: os paradisíacos e os infernais!
Sem se interessar em saber o meu nome, nem o que eu havia feito durante a estadia na Terra – isso ele já o deveria saber; está inscrito na eternidade – quis ouvir a minha opinião sobre a humanidade, o seu comportamento e até o que eu pensava do futuro do pequenino planeta onde vivia.
Coisa estranha! Se era mesmo o São Pedro, nada do que eu lhe contasse poderia aparecer inesperado!
Assim mesmo atrevi-me a falar, não deixando dúvidas ao bom e simpático velhinho, o quanto eu era descrente nos homens.
Sem se perturbar foi-me ouvindo contar que na Terra os homens matam pelos motivos mais fúteis!
As torcidas, no futebol, agridem e matam os que aplaudem os seus adversários, há lutas ferozes a que se atrevem a chamar desporto, em que os homens, e mulheres se esmurram até perderem os sentidos, os ditadores, que ainda os há e muitos, prendem, torturam e dão sumiço a cantores da liberdade, que as indústrias farmacêuticas inventam e criam epidemias para aumentarem o lucro do seu negócio, que tratam os miseráveis de países pobres como cobaias descartáveis, que há países onde os medicamentos custam cinco a dez vezes mais do que em outros, que se fazem guerras com mentirosas ideologias de religião, e também, mas principalmente, porque os fabricantes e negociantes de armas embolsam fortunas inimagináveis, que o infame tráfico de drogas não acabará nunca porque além dos financeiramente interessados, a população mundial está cada vez mais descrente no seu futuro e prefere alienar-se com psicotrópicos, que o provento dos trabalhadores, em todo o lado, tem diferenças abissais entre os que fazem as leis e os que a ela têm que se sujeitar, enfim, senhor – lhe disse eu ­– em algum momento o Criador deve ter errado ao dar vida ao homem.
Se o céu, o paraíso, é para os bons e o inferno para os maus, como o cristianismo nos fez crer, neste último não deverá haver mais lugares disponíveis!
São Pedro olhava-me e, apesar de contra a luz, pareceu-me ver uma pequenina lágrima sair de um olho. Para não mo mostrar, deu uma volta enquanto passava a mão nos olhos, e voltando-se para mim disse:
-Não. O Criador não fez nada de errado. Por muito amar tudo, mas tudo, quanto criou, deu liberdade a todos os seres, tanto animais como vegetais! E isso é fácil de compreender, quando, por exemplo, se vêm plantas, árvores frondosas, crescerem em lugares que os homens abandonaram, mostra que foram livres de escolher onde querem viver, os animais a que os homens chamam de irracionais, que vivem em total liberdade jamais competindo com os da mesma espécie, e ao homem foi concedido, além de tudo, o privilégio de pensar, a inteligência para coordenar a vida de toda a natureza de forma a que ela transforme a vida na Terra no verdadeiro Paraíso.
Mas o Criador, Deus, ou como lhe queiram chamar, sempre teve que lutar com um muito feroz e invejoso competidor, a quem costumam chamar de Satã ou Diabo.
Os homens não pensam muito sobre o Diabo, mas ele consegue ser tão real, desconhecido, incognito e temido quanto o Criador. O Diabo aparece sob a forma de ouro, jóias, poder, inveja, soberba, vingança, e todos os outros males que os homens conhecem bem e fingem desconhecer.
O Criador que existe desde sempre, não tem pressa. Na eternidade não há pressa. Tudo é instantâneo, e quando os homens pensam que estão há cem mil anos na Terra, esquecem-se de que esse tempo não conta.
Aqui, no éter, na eternidade, não há hotéis paradisíacos nem infernais, nem entes bons nem maus, o que não significa que aqueles cujo comportamento, na sua tão breve passagem na terra, tenha sido condenável, não devam pagar por isso. O mais natural é que voltem, noutro corpo material e sofram o que fizeram sofrer aos outros.
Só redimidos serão aceites no Espírito Único, integrados no Criador, só assim, como dizem os cristãos, poderão ver a Face de Deus! A Face de Deus que é o sopro que dá a vida do espírito.
Alguns homens têm disto uma noção mais profunda do que todos os outros. Têm até um nome curioso para aqueles que estão prontos a estar com o Criador: encontrar o Nirvana.
Para eles não há paraíso ou inferno; há somente que cumprir com a vontade de Deus, que o fez superior a todos os outros seres. Não para os destruir ou escravizar mas os conduzir, todos, à perfeição.
Eu continuava a pensar que o meu interlocutor seria mesmo o São Pedro, o bom velhinho pescador, como o imaginamos. Mas estas suas afirmações baralharam mais a minha cabeça, e decidi aproveitar a ocasião para lhe fazer algumas perguntas:
Mas Senhor, se Deus foi o criador de tudo e existe desde antes de tudo, porque criou o Diabo? E nessa mesma ordem de idéias porque, ao criar o homem lhe deu a possibilidade de escolher o mal, em vez de o ter deixado a viver como todos os outros seres vivos, sem guerra, nem hierarquias, nem vaidades, nem invejas, etc.?
Se a nossa inteligência, a nossa alma, o nosso espírito, são fruto do “sophos”, do sopro do Espírito de Deus, ou Deus fez uma trucagem e nos deu um espírito maligno, o que ninguém entende porquê, ou, mais grave e pode parecer a mais profunda das heresias, se esse espírito é o espírito de Deus, alguma coisa está errada. De que adianta a minha alma, ou o meu espírito ter que reencarnar para voltar a sofrer, se esse espírito nos foi dado por Deus.
Porque Deus faria isso com os homens?
Se o espírito, a alma, ou como lhe queiram chamar, nos foi “dado” por Deus, “à sua imagem e semelhança”, e se existe desde... sempre, e sempre continuará a existir, e se eu posso encorporar-me ao espírito eterno, isso significa que de lá saí, e se agora tenho que me purificar para voltar, é porque terei saido de um espírito impuro!
Se Deus desde o “primeiro”infinito antes de mim não teve tempo de se purificar, como poderá fazê-lo no infinito seguinte?
O que não foi feito na eternidade anterior ao meu momento, não vai poder fazê-lo na eternidade posterior!
Eu, com toda esta argumentação já estava todo baralhado e o amável São Pedro parecia estar a fixar as minhas observações para as ir expôr...
Achei melhor terminar, dizendo-lhe:
Senhor, eu acho melhor não saber nada, do que me alimentar de afirmações ilusórias e inconciliáveis.
Prefiro ficar com um infinito incompreensível e sem limites do que me restringir a um Deus cujo incompreensível é delimitado por todas as partes.
São Pedro parecia um pouco confuso, mas com seu olhar tranquilo despediu-se com esta mensagem:
Nada te obriga a falar do teu Deus, mas se decidires fazê-lo é necessário que as tuas explicações sejam superiores ao silêncio que elas rompem.
Só mais uma pergunta: o senhor é o São Pedro?
Não. Aqui não há santos!
E sumiu entre as nuvens!
E eu?
Creio que acordei... e fiquei em silêncio.
Ainda estou indeciso se terá sido um sonho, mas tem dado muito o que pensar.

8-jan-13
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

FRESCOS


Chove imenso, embora o vento intercale ilhas de silêncio nas teclas que se fazem escutar numa superfície resignada à inércia das nuvens e as folhas das árvores brilham, uma vez por outra, sob o efeito de uma lâmpada de secretária debruçada à varanda.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



O amor é um sentimento muito engraçado e curioso, pelos meandros de mistério que o envolvem e lhe dão o sumo e o miolo, muitíssimo curioso. Tanto quanto sou capaz de avaliar, é universal, quer dizer, acontece em todos os povos da Terra e assim foi em todos os tempos de antanho. Há, ou para ser mais precisa, ele deve haver nuances na forma como o mesmo é encarado e, digamos assim, definido, particularmente no que diz respeito ao modo como tem sido cantado, são vários os tons e as vestes em que se apresenta na voz dos poetas, mas na sua forma mais simples, isto é, no mínimo em que se constitui de um laço de afecto e cuidado que outros, como é o caso da amizade que também o podem ser, nesse mínimo denominador, o amor é o mesmo de uns lugares para os outros e assim é desde a mais remota noite dos tempos. Às vezes tenho a impressão que se estabelece uma confusão entre o amor e a paixão que eventualmente está na base daquele. Não haverá o primeiro sem a segunda, pelo menos não conheço um único exemplo de uma história de amor que tenha começado sem que antes os seus intérpretes tivessem passado pelo estado de paixão ou seja, aquele período em que nada mais existe a não ser o outro que parece irradiar qualquer coisa indefinida que o distingue e destaca de tudo o resto e em que a ausência nos comprime o peito como se o estar junto fosse o mesmo que a respiração de que carecemos. Sinceramente não vejo que alguma vez possamos explicar a paixão. Esta é repentina e, mais ou menos, sempre intensa. É um rasgo de alma que sucede subitamente, percebemos que alguém se fez omnipresente no nosso cérebro e talvez por isso sintamos a vontade incontrolável e o prazer infinito de nos colarmos pelas mãos e pelos lábios, num exclusivismo em que não queremos mais alguém. Pessoalmente, tenho motivos para crer que pode até suceder por diversas vezes, uma pessoa pode muito bem experimentar todo esse universo de sensações por várias outras e até ver esse gozo repetir-se com um mesmo ente querido, mas é este um fogo que se extingue, tarde ou cedo, incontornavelmente mais cedo que tarde, as suas chamas vão-se apagando naturalmente, o mesmo é dizer, pela passagem do tempo, nem sempre chegando a ter espaço e oportunidade para desabrochar no perfume dessa corola perene que é o amor. E o amor não é isso ou não é só isso, é muito mais que isso e não é exclusivista, quem ama e se sente seguro de ser amado, não quer o amado só para si, e pode ainda resistir à dor da separação, algo a que a paixão não chega, a menos que se tenha transformado já em amor e aí passou a ser este tão curioso sentimento. A vida de aldeia tem coisas boas e outras más, mas no saldo global, estou em crer que tem mais das primeiras que das segundas. Desde que saibamos e sejamos capazes de manter a privacidade, e obviamente desde que tenhamos gente civilizada e ordeira por vizinhos, há todo um capital de solidariedade e segurança que se ganha e, sem que disso demos conta, muito contribui para que a existência seja leve e, com isso, tenhamos um ganho de disponibilidade para o ócio que tão importante se revela no equilíbrio emocional dos seres humanos. Tem o inconveniente de uma maior dificuldade de recato e solidão, quando a pretendemos ou dela pensamos precisar, mas basta que hajam trilhos de escolher para que possamos ter a expectativa de encontrar o esconso recanto de um momento. E é o que eu e o Manuel, provavelmente os outros também, temos conseguido fazer ao longo destes anos, embora agora tenhamos que incluir os frutos do nosso amor em tais caminhadas. Mas o meu coração continua se enternecendo sempre que ele me passa o braço sobre os ombros e, ao sabor dos passos lentos, encosto os cabelos no seu rosto, ou simplesmente quando andamos com os dedos entrelaçados de mansinho. Nesta quinzena de anos em que partilhamos a vida foram tantas as vezes em que me senti apaixonada por ele e em que seguidamente continuei a sentir as suas amarguras e bem aventuranças como as minhas… Ainda hoje gosto de, em certas ocasiões de maior pressão e desgaste físico e anímico, repousar pelo olhar na evasão das memórias de certos sítios desta nossa mútua entrega tão doce e hoje que temos, para além de nós, a companhia do delírio que é testemunhar como dois feijõezinhos se vão fazendo pessoa que se veja, tenho-me habituado a tirar alguns instantes só para mim em pontos como este, de onde avisto o declínio da luz amarelecer a superfície da albufeira que a brisa, cheia de delicadeza, enruga aqui e ali e onde consigo estar à vontade do ramejar sussurrante do mato. E vendo a nesga da piscina de onde me chegam as gargalhadas e a algaraviada dos miúdos que aí se divertem a esta hora, dou conta de como estão distantes as maiores agruras dos primeiros anos em que a tudo todos tinham que acorrer sem que braços sobrantes houvessem para enumerar e a melhor prova disso é a possibilidade de, a partir do Verão que bate à porta, passarmos a ter para gozar um mês inteirinho de férias e que nós já decidimos vir a passar à beira-mar, em São Martinho do Porto. Vai ser tão bom podermos acordar sem outras preocupações que não seja as do repouso e do passeio. E com todas as nossas conquistas acabámos por nos especializar e há agora quem apenas se ocupe da produção do azeite e dos outros produtos alimentares, como há quem tenha responsabilidades na lavoura, como é o caso do Manuel, mas também quem tenha ficado apenas na administração e na contabilidade, ou no ensino como vai ser o meu caso, uma vez tomada a decisão de avançarmos com o liceu para os nossos, em que passarei a assegurar as lições de História e Filosofia de que espero vir a sair-me bem.
Quem não escuta uma sinfonia no monólogo da chamariz que pousou num arbusto mesmo à minha frente não é capaz de entender os prazeres que a vida tem.
Mas agora o meu amor vem na minha direcção. Fico por aqui. Talvez volte, mais tarde.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (11)


La Grande Jatte, Seurat, 1884
Óleo sobre Tela 205,7x305,8 cm



TRIBUTO

O senhor Zé não sabe ler.

Só lê os rótulos das sacas da ração, o nome dos medicamentos para os animais, o nome do remédio das batatas… Ele diz que ler não sabe, só sabe ver.

- Ó professora, eu só sei ver o que preciso.


Para o senhor Zé ler é ver.

Para mim também.

É ver antes das palavras.

E as palavras são sempre depois da vida.


O senhor Zé é o marido da D. Firmina.

Mas a D. Firmina não é a mulher do senhor Zé.

É a mãe do Quim, da Bela e do João. E a avó dos filhos do Quim.

Ela diz que ser a mulher do senhor Zé é ser mãe do Quim, da Bela e do João. E avó dos filhos do Quim.

Para o senhor Zé também deve ser assim.

É que o senhor Zé está sempre a assobiar. E o assobio vem sempre depois da vida.


Gosto tanto deles…

Do senhor Zé, da D. Firmina, do Quim, da Bela, do João e dos filhos do Quim.


A mulher do Quim está fora. Diz que é Doutora.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 13 de janeiro de 2013










QUERER - II


O oásis é além.

Depois da seara verde,
depois de atravessar a clareira
dos campos incultos por cultivar.

Quem se esqueceu de semear?

Quem se isentou da responsabilidade?

Quem desistiu do futuro?



Texto de Manuel João Croca
Fotografia de Edgar Cantante