"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão."
Chico Xavier (in, Diálogos Lusófonos)

sábado, 30 de novembro de 2013

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado.


Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será.  


repara no apego do escritor


pela Gândara, primeiro degrau rumo a 


onde já moram 163.

Naquela casa
tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu

mais de 27,6 milhões de visitas.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

NATAL DA DIÁSPORA


 É o tema com que inicio a partilha deste Natal de 2013 com todos vós.
Esta composição é particularmente dedicada aos mais de 5 milhões de portugueses
que um dia, tal como eu, tiveram que ultrapassar as fronteiras da Pátria
para procurarem no além a dignidade merecida.
Vejam e ouçam este tema aqui:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Natal_da_Diaspora/index.htm

Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia.
Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.euclidescavaco.com

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

VERÃO E INVERNO
 


CAROLA JUSTO

Acrílico sobre madeira 50x50


“Schneeweisschen und Rosenrot”, é o título dum conto dos irmãos Grimm de que não encontro uma tradução em português. É um conto de duas irmãs que simbolizam o Verão e o Inverno. Se quisermos, podemos dar-lhe o título ”Verão e Inverno”.
                                                                                              Carola Justo

(texto adaptado por Luís F. de A. Gomes)

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Agostinho da Silva: A Educação de Portugal e o Culto Popular do Espírito Santo

Travessa do Abarracamento de Peniche, 7, casa onde viveu Agostinho da Silva (Foto de Lucas Rosa)


É no culto popular do Espírito Santo, onde Agostinho da Silva encontra a referência mais alta de sempre vivida pela cultura portuguesa, sendo que, por isso, nele devemos buscar inspiração. O início das comemorações deste Culto remonta ao reinado de D. Dinis, século XIII, tendo perdido dimensão a partir do século XVI. Hoje, ainda se pratica nalguns lugares do continente, mas é sobretudo nos Açores, nalguns estados do Brasil e comunidades de emigrantes nos EUA que se organizam estas festividades.

Culto, onde se pretende que a fraternidade cristã não seja uma palavra vã, mas antes que ganhe expressão numa economia que não se caracterize por um existir concorrencial para o desenrasca de apenas uns quantos, mas que se destine a servir todos.

Economia que não tenha a sua expressão máxima no mundo do trabalho que escraviza os homens enquanto subordinados produtores, mas antes no tempo livre e na criatividade absoluta, sendo que o caminho se deve fazer em direção a uma produção automática dos bens como já vem prometendo o grande desenvolvimento tecnológico das últimas décadas. Onde a propriedade privada, para bem de uns poucos, deverá ser substituída pela propriedade coletiva, para bem de todos.

A utopia é a de que o desenvolvimento tecnológico possa libertar o homem o mais possível da escravidão do trabalho.

Mas o ponto fundamental da prática do culto popular do Espírito Santo é a coroação de uma criança como Imperador do mundo libertando, simbolicamente, os adultos das funções dirigentes que, antes, deverão ficar entregues à meninice que existe em cada um de nós.

Nas palavras de Agostinho, “…declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que (a primeira) convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro.” (Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II: 104)
               
São estas as premissas onde assentam os seus ideais educativos. É um projeto educativo, portanto, assente em bases religiosas o que Portugal tem de dar ao mundo. Mas, atente-se, de uma religião que estende a mão a todas as outras, alargando-se mesmo a ateus e agnósticos, desde que respeitem todas as religiões como se de suas se tratasse.

Nesta interação religiosa, o mais importante de tudo é a forma como se terá de potenciar a organização social para o bem de todos e para a vigilância da paz, princípio primordial de um Império de Servir, sabendo que num Império do Espírito tem menos importância aquele que manda do que aquele que serve.

Portanto, os valores que se perfilam no horizonte neste Projeto da Educação de Portugal são os da liberdade, da justa distribuição económica, de uma coexistência pacífica entre os povos e as religiões, o espírito da criança como o maior bem do mundo.

Nos últimos séculos da nossa história pouco se tem feito por este Império do Espírito, a não ser a fé que alguns têm manifestado, “o Espírito, porém, nos vai chamar agora”. (id.: 116)

A missão dos mais esclarecidos é, então, a de educar o povo a partir dos valores referenciados, mas sabendo que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo, mas criar as condições para que as pessoas se vão desenvolvendo a partir daquilo que mais lhes convém interiormente. 

Luís Santos

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



O trabalho é a fonte da riqueza, sustentam os economistas e do ponto de vista da moral pode ser encarado como um dos olhos de água de que brota a dignidade dos homens, pois é dele que retiram o sustento e, com ele, a possibilidade de cuidarem de si e dos seus e de prevenirem o que importa para que num balanço final possam dizer que por eles nenhum mal ou fardo vieram ao mundo que será o mínimo que sempre caracteriza cada uma destas nossas passagens pela existência que não tenham sido em vão. É por isso que se trata de uma autêntica desgraça todo e qualquer cenário em que, pelo uso daquela força, mais não resulta que a miséria, a permanência na pobreza de ter e haver, em que regularmente se propaga a do ser que se lhe junta, como se nem a todos fosse merecido esse direito natural à dignidade que só o próprio poderá estiolar pelas consequências do seu comportamento. Assim justificando que o reconhecimento do seu valor e importância seja matéria dos contornos em que se desenha a justiça social e com isso, sem que se sacralize esse factor tão decisivo para a Humanidade, se coloque o mesmo como o vértice primordial das relações económicas, o que é dizer que seja a partir da adequada valoração daquele que deverá ser pensada e organizada a actividade económica. Em linguagem simplificada, estamos no domínio da mais rasteira justiça social quando defendemos que aqueles que trabalham – é óbvio que estou a colocar o assunto em termos genéricos e que por isso salvaguardo para juízo de avaliação aqueles que são mandriões e dolosamente displicentes e desastrados, como amiúde aparece na qualidade de objecção nas conversetas que se vão tendo à mesa do café – merecem uma remuneração que lhes permita viver com dignidade, diria até com toda a dignidade. Ah que saudades que eu tenho do paizinho e da mãezinha que muitas vezes comungavam horas de diálogos em torno destes temas em que o meu querido pai gostava tanto de reflectir, nas horas de refúgio dos seus doentes e das preocupações que lhe davam e que depois, como quem põe ordem ao pensamento, adorava expor à atenção e argúcia da mãezinha que, por sua vez, se encontrava no seu papel de examinador e balança da robustez daquelas ideias que apesar de todo o comedimento de uma vida de recato, eu tenho a certeza que também a ela empolgavam. Como eles gostariam de testemunhar este laboratório de sociedades em que estamos verdadeiramente a viver, perante o que seguramente ele reforçaria as suas opiniões a respeito da indignidade da miséria forçada e a imoralidade de quem para tanto contribui. Era o paizinho que dizia que ao assimilarmos o trabalho ao ponto central e fulcral da actividade económica, estamos a colocá-lo no cerne do problema, estamos a afirmar que ele está antes daquela e que é para o dignificar que aquela deve ser organizada e a isso chamava ele as bases de um mundo justo. Como julgar então as ocupações de terras que um pouco por todo o Sul têm decorrido nestas últimas semanas? Como explicar àqueles que nos contam histórias de fome e impotência que há outras maneiras de alcançarem essa tal dignificação que, de geração em geração, lhes tem sido negada? Não por acaso, aqui não houve a mais leve tentativa de apropriação da mais pequena parcela de terreno agrícola ou, tão só, qualquer forma de repartição daquela pelos trabalhadores rurais que aqui laboram todo o ano, nem naqueles mais ou menos trinta hectares que sempre deixámos selvagens lá para os lados dos penedos do rio e onde quem reina são os bichos que põem e dispõem da floresta brava que lhes é dada. Está certo que essas propriedades tenham sido objecto da reivindicação da terra a quem trabalha? Não, não está, apesar de tudo existe a noção de propriedade privada e, por muito que se diga, eram aquelas pertença de alguém. Em face das leis vigentes, nem há como escapar a que estamos perante actos ilícitos, actos meramente ilegais e, como tal, passíveis de procedimento judicial. Para que a partilha da terra possa ser feita com um mínimo de justiça, se bem que não seja isso que resulta dos processos de colectivização que estamos a presenciar pois, o que vemos, o que se vislumbra é a formação de cooperativas, há quem fale de unidades colectivas de produção, coisa que não sei o que seja, contudo, para que em tudo isso haja algum sentido de justiça, alguma outra forma deveria ser encontrada para que se não tivesse que reparar uma injustiça com outra injustiça. Temos pois assim duas injustiças em conflito e não me parece que o caminho mais aconselhável seja optar por uma delas ou, se quisermos, resignar-nos a termos que apenas escolher entre uma e outra, mesmo que seja aquela que nos pareça menor. Mas do ponto de vista de uma condenação moral, como estigmatizar aqueles que bem lá no fundo tão só estão a lutar por um pouco mais de pão? Poderá alguém apontar-lhes o dedo e chamar-lhes nada mais que criminosos? Sem estar a desculpabilizar o erro, esta é uma das situações em que é relevante ter os condicionalismos em conta e por fim não há como pormos um pensamento ético de parte.
Nós aqui é que parecemos ter sido elevados a um caso de estudo por causa de tudo isso. Sinceramente não gosto de muitos dos que têm por aí aparecido para verem e aprenderem com o nosso exemplo, donos de uma arrogância de meter o nariz em tudo o que é sítio e cheios de esquemas de perguntas em que a sensação com que ficamos é a de estarmos a ser avaliados pelos cânones de uma cartilha em que depois se verá se somos bons ou maus, se estamos ou não em conformidade com o que deve ou deverá ser o socialismo nos campos. São, no dizer do Manuel, os comissários políticos que mais do que aprender o que quer que seja, por aqui aparecem em busca das suas próprias certezas ou daquilo que as possa pôr em dúvida para que em resposta, em caso de dúvida, possam exterminar um tal abcesso reaccionário. Seja como for, também com eles aqui temos recebido os rostos simples e as mãos grosseiras que os acompanham e que nos olham de espanto quando confirmamos que aqui vivemos há trinta e quatro anos e tudo aquilo que veem foi construído pela obra e engenho de todos, colectivamente organizados, como dizem os ideólogos e sem zaragatas porque um quer uma parte maior do que a dos outros, como me fez precisar uma mulher a quem acima de tudo, esbugalhou que o Manuel se tenha levantado da mesa e arrumado a cozinha, enquanto eu a iria acompanhar para que fizesse uma visita guiada à escola de adultos que, hoje em dia, por já só ser necessária para uma mão cheia de retardatários da alfabetização, apenas funciona no âmbito da associação cultural. Mas também aparecem curiosos que nos olham com um misto da ternura de quem está num jardim zoológico e da veneração de quem visita algo sagrado. E para que a sensação de macaquinho se agigante, até temos por aí um antropólogo inglês que nos escolheu para estudar um exemplo daquilo a que chamou uma aldeia colectiva. É o que a revolução está a fazer de nós, mesmo contra a vontade de todos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (56)


Caminhos, António Tapadinhas, 2008 Acrílico sobre Tela, 70x50cm

Um mapa serve para escolhermos o melhor caminho para encontrar qualquer coisa... Será que os poetas conseguem fazer um mapa para serem descobertos por alguém que amam? 
Se sim, quero que essa virtude seja acrescentada aos pintores!

António Tapadinhas

domingo, 24 de novembro de 2013



O ESTADO DO TEMPO - III


Desaba sobre nós uma fria humidade fina que enregela o corpo e entorpece os ossos.
É normal que tal se verifique já que estando em pleno Outono o tempo frio começa a ser uma presença frequente.
A sensação física de frio manifesta-se também na actividade mental que nos impulsiona. Até a terra se acaçapa em latidos domesticados pelo manto da friagem.
Mas, ainda que em baixa intensidade, tudo pulsa ainda e sempre.
Costuma-se dizer que “enquanto há vida, há esperança” e, por todo o lado e não obstante, continua a haver vida a rodos.
Resiste-se o melhor que se pode às condições adversas mas espreita-se a oportunidade, espera-se o advento de condições mais vantajosas para que tudo possa eclodir a seu tempo e as dinâmicas ganhem um ritmo mais fluido e escorreito.

Tenho para mim (poderei estar enganado por desinformado ou insuficientemente informado) que, nos últimos tempos, as manifestações colectivas, seja de protesto seja de reflexão ou seja ainda de reflexão-protestativa, que maior impacto ou adesão têm suscitado por parte da sociedade em geral têm sido as promovidas/organizadas por organismos plurais, que englobam várias estéticas e sensibilidades e que, por isso mesmo, assumem uma representação de transversalidade social. A estar certa a constatação, revelará que organicamente a sociedade emite sinais da solução em que acredita, da alternativa que quer. Uma alternativa que, embora unida no busílis; a recusa do status quo e da tendência evolutiva perceptível no rumo seguido por quem actualmente “comanda”, respeite diferenças e consigne o plural enquanto representação da sociedade.

E se estiver certa esta interpretação dos sinais, é pois altura de cada um assumir o seu papel. A começar por cada um de nós em geral e pelos partidos políticos da oposição fora do chamado “arco da governação” em particular (se calhar), que deverão trabalhar na construção de uma base de unidade que seja honrosa, digna e possível para todos esquecendo divergências, reais ou inventadas por egos demasiado inchados ou narcísicos, secundarizando-as em função do que é essencial: a construção de uma alternativa confluente que ajude a corporizar a possibilidade de que o centro do poder político executivo possa ser deslocalizado, alargado para áreas que permitam um maior respeito e uma maior aposta na defesa daquilo que caracteriza qualquer sociedade tida como desenvolvida, ou seja, uma sociedade que respeite o direito ao trabalho, à educação, à saúde e à justiça enquanto pilares do exercício livre do viver. Para todos é claro. Será isto que se espera de nós, de todos. Ou não?

                                                                                                  Manuel João Croca



Foto: Edgar Cantante - pormenor seleccionado por M.J.Croca

sábado, 23 de novembro de 2013

Dulcamara


por Miguel Boieiro

Apreciar a flora que brota espontaneamente à beira dos percursos pedonais que episodicamente trilhamos, acaba por se tornar, com a continuação, um passatempo deveras agradável. Não é preciso ir ao campo para divisar a exuberância multifacetada e multicolor da vegetação. Mesmo em plena cidade, as plantas não pedem licença para emergir viçosas e atraentes se para tal encontrarem propícias condições.

Uma escassa hora livre que disponho antes da aula de fitoterapia que costumo orientar na Universidade Sénior dos Coruchéus dá-me para passear um pouco pelas chamadas “avenidas novas” que circundam as instalações. Anoto, com prazer, que quase todos os prédios possuem jardins anexos e até pequenos hortejos. Alguns espaços são tratados com esmero pelos respetivos moradores. Outros restam abandonados mas sempre repletos de plantas (árvores, arbustos, flores, ervas …). É incrível como deparamos com tanta variedade florística em pleno solo urbano, estercado, quase sempre, pelos excrementos dos canídeos, omnipresentes naquela aprazível zona de Lisboa.

De entre tantas plantas que observo que vão das simples ervinhas até às olaias, às tílias, aos lódãos, aos plátanos, aos abacateiros, aos ginko bilobas fêmeas, deu-me agora para distinguir um pequeno arbusto, cujas flores azuis em formato estrelar sobressaem em diversos jardins. Poderia escolher outra mas, desta vez, calha falar da dulcamara.

Trata-se de uma planta ornamental, é bem de ver, mas também medicinal, conhecida e utilizada desde o tempo dos faraós. Atualmente, devido ao quimismo consumista que nos flagela, raramente é mencionada como espécie curativa. No entanto, a doce-amarga, nome popular por que também é conhecida, cuja designação científica, Solanum dulcamara L., indicia a sua família botânica - solanáceas - tem muitas aplicações no campo da fitoterapia.

Antes de prosseguirmos, convém caracterizar bem a planta em questão. Trata-se de um subarbusto perene e trepador com folhas ovais, pontiagudas, verde- escuras e pecioladas. Cresce, e embora sem gavinhas, enrola-se nos seus próprios suportes flexíveis, podendo atingir quatro metros de altura. As flores têm cor azul-violácea e estames amarelos. São alternas, pedunculadas e hermafroditas, possuindo habitualmente cinco pétalas. Os pequenos frutos formam bagas ovoides que começam por ser verdes, passando a vermelhas quando amadurecem. As sementes são reniformes (em forma de rim).

Julga-se que a dulcamara é originária das zonas temperadas da Europa e do norte de África. Ela contém interessantes princípios ativos de que se destacam os gluco-alcalóides, a dulcamarina, a solanina, os taninos, as saponinas e as resinas.

Tem reconhecidamente propriedades diuréticas, emolientes, cicatrizantes, depurativas, expectorantes, febrífugas, sedativas, analgésicas e refere o Dr. Samuel Maia no seu antiquíssimo “Manual de Medicina Doméstica”, também narcóticas e anafrodisíacas.
Principais indicações: bronquite, celulite, hidropisia, urticária, eczema, herpes, acne, queimaduras, hemorroidas, artrite, reumatismo …

O caule da planta tem inicialmente um sabor doce e logo a seguir muito amargo, daí a origem do nome dulcamara. Já se mencionou que pertence à família das solanáceas, o que só por si, implica que tenhamos muito cuidado com o seu manuseio, devido aos alcaloides tóxicos que contém, dos quais se destaca a solanina. No entanto, não está ainda bem determinado qual o grau rigoroso de toxicidade desta planta. Considera-se que as bagas são venenosas, especialmente quando estão verdes, contudo, numerosas espécies de aves ingerem-nas sem, aparentemente, qualquer efeito nocivo.

Antigamente a dulcamara era intensamente utilizada em aplicações internas (infusões). Todavia, hoje em dia, por precaução talvez exagerada, recomenda-se mais o seu uso externo.

Eis algumas receitas que repesquei na minha biblioteca privada:
- Cozimento ou a cataplasma das folhas frescas para aplicar em contusões, queimaduras, herpes e hemorroidas (Dr. Oliveira Feijão).
- Cataplasmas preparadas a partir da decocção de 100 g de folhas em 2,5 dl de água a que se adiciona linhaça (sementes de linho moídas). Aplicar três vezes ao dia, durante 15 minutos, na região afetada (Dr. Pamplona Roger).
- Infusão de 15 g para um litro de água para tomar apenas uma chávena por dia, em jejum (Dr. Lyon de Castro).
- Infusão de 20 g dos caules pulverizados num litro de água. Ferve durante quinze minutos. Tomar uma chávena ao deitar para a polução noturna (Dr. Samuel Maia). Nota: isto é mais para a malta nova, como é evidente.

Outras receitas antigas incluem tinturas, compressas e o suco fresco das bagas.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Livros d'África





JOÃO NOGUEIRA GARCIA (1926 – 2006)

Nasceu em Vila Nova do Ceira, perto de Coimbra. Em 1948 partiu para Angola vindo a tornar-se, no ano seguinte, um dos fundadores da vila do Quitexe (a sua casa foi a terceira a ser construída). Casou-se em 1951 e foi no Quitexe que nasceram os quatro filhos do casal.
Infelizmente esta localidade viria a ser fortemente atingida pelas mortandades perpetradas pela UPA – União dos Povos de Angola, que tiveram início em 15 de Março de 1961.
Sobre os acontecimentos vividos naqueles dias trágicos deixa-nos um livro, uma Edição de Autor de 2003, intitulado “QUITEXE 61 - UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA”. É um registo cru, sem grandes rasgos literários mas com um profundo sentido humanista.

“No percurso, perto da fazenda do Matos Vaz um casal de nativos, ela com um bebé atado às costas, caminha pela berma da estrada. De uma carrinha alguém dispara e mata o casal. Eu, que vou noutra carrinha, mais atrás, vejo horrorizado o bebé rastejando por cima do corpo da mãe já morta. O motorista não pára e ninguém grita… A morte sobrepõe-se à vida!
Oh maldição do tempo em que vivemos! Onde está Deus que não vê isto?”

Viveram-se momentos tensos e perigosos: “Ao Quitexe começam a afluir as mulheres e crianças brancas de todas as fazendas”, que serão mais tarde evacuadas para o hotel do Uíge. Aí as condições eram as piores: “Os homens tinham ficado no Quitexe. Esgotada a possibilidade de defesa vou à loja do Ferreira Lima buscar uma dezena de catanas que distribuo pelos quartos. Com os poucos homens organiza-se uma defesa simbólica com duas pistolitas e duas catanas. (…) A meia-noite aproxima-se e então começo a ver e ouvir vultos que se aproximam, subindo a rua das traseiras do hotel:
- MATA! MATA! UPA! UPA!”

Não se pense, contudo, que se trata de uma obra facciosa, como tantas outras há. A visão do Autor é equilibrada, sabendo analisar os diferendos entre as partes em contenda como, aliás, se pode extrair do título do livro. Deve-se isto, sem dúvida, ao facto de ser um homem com pensamento de matriz democrática (foi apoiante activo de Arlindo Vicente e de Humberto Delgado o que lhe valeria, desde então, uma vigilância apertada por parte da PIDE…).

Numa carta escrita a uma tia a viver em Portugal, já previa o que não tardaria a chegar, referindo-se então aos acontecimentos de 4 de Fevereiro de 1961: “(…) Em Luanda parece que os encontros têm sido renhidos e que já houve centenas de mortes, mas mesmo por lá, por enquanto, parece que os ataques são só dirigidos contra a polícia e o exército e que das forças revoltadas fazem parte brancos. Seria uma sorte, pois se vamos para a questão racial será uma desgraça, pois será o caso de mata que é branco e mata que é preto. Mas parece-me que não teremos sorte pois esses cavalheiros daí, para salvarem a pele, não hesitarão em nos sacrificarem.”

Houve episódios que João Garcia não conseguiu contar, por pudor e por respeito à dignidade humana, embora consigamos adivinhá-los entre linhas. Mas ficará sempre, na leitura desta obra desenvolvida em 111 páginas, uma visão diferente sobre aqueles trágicos acontecimentos de Março de 1961 que ceifaram vidas e destruíram sonhos, mas que aceleraram o processo inevitável da independência de Angola.


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

CASAS COM PÁTEO
 



LUÍS DELGADO

Óleo sobre Tela 60 X 70
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"A Decisão"


por Francisco José Noronha Santos

Na sequência da minha 'análise' das diferentes 'fontes de pesquisa', o Rei D. João I chegou a Alhos Vedros no dia 19 de Julho de 1415, uma Quarta-feira.
No dia 20, logo pela madrugada, recebeu a 1ª visita dos Infantes que, em seguida partiram para o Restelo.
Os Príncipes voltaram segunda vez a Alhos Vedros, no dia 21, para conferenciar com El-Rei. Aquando dessa segunda visita, D. João I tomou a importante DECISÃO.
Conhecedores da deliberação real, os Infantes e outros membros do Conselho rumaram ao Restelo a fim de tomarem as devidas providências...

Que DECISÃO terá sido essa? Que PROVIDÊNCIAS tinham de ser implementadas?

Durante o dia 22, um Sábado, reinou a azáfama no Palácio do Conde de Barcelos: urgia aprontar a abalada d'El Rei.
Domingo, 23 de Julho de 1415, Dom João, o Primeiro, embarca na galé Real e parte de Alhos Vedros...

Nota do Editor: O livro está disponível na Editora "Sítio do Livro" ( www.sitiodolivro.pt ) e pode ser encomendado pela net. 



Fonte:
«SERRA, Maximiano José da, 1750 (?) – 1834, Planta de Alhos Vedros; levantada por Maximiano Joze da Serra, coronel do Real Corpo de Engenheiros, no anno de 1805; dezenhada por Joze Antonio Mourão, 2.º tenente do mesmo Corpo, debaixo das direcçoens do mesmo coronel, em 1820 Escala 1:2000 1820 1 planta: ms., color; 49 x 64 cm 3105-2A-25-35 (DIE)»

Legenda:
1 – Largo do Cais, ou Largo do Porto.
2 – Estaleiro (dos pais do Toino).
3 – Palácio de Dom Afonso, Conde da Barcelos.
4 – Jardim do Palácio.
5 – Casa de Gonçalo Lourenço de Gomide.
6 – Casa de Ti Julião Moleiro e de Ti Benta.
7 – Taberna e hospedaria do Galego.
8 – Igreja Matriz.
9 – Largo da Igreja.
10 – Praça principal da povoação.
11 – Marinha das Senhoras Comendadeiras de Santos.
12 – Rua Direita.
13 – Cárcere ou cadeia.
14 – Rua dos Pinheiros.
15 – Rua da Estalagem.
16 – Estalagem (dos pais do ).
17 – Quinta da Graça.
18 – Rua Velha.
19 – Rua do Cais.
20 – Quinta de São Pedro.
21 – Esteiro.
22 – Forno de pão (dos pais do Chico).
23 – Marinhas de sal.
24 – Muralha do cais.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Nem sei por onde comece, se por aqui, pelo debate que de repente surgiu na comunidade e que espero tenha ficado resolvido pelas meras decorrências do bom senso, como só dessa forma poderia ser resolvido, se comece por ali, isto é, pelo que se passou nestas últimas semanas no país que entrou definitivamente numa ebulição que ninguém imagina como irá arrefecer e muito menos o que daí venha a resultar de bom ou mau para todos nós. Para já há quem cante vitória, na sequência da qual se ouve falar como nunca no socialismo que me parece ser visto das diversas maneiras que as diferentes e variadas correntes que dele se reclamam o definem e que para os militares, especialmente ao nível das mais altas patentes que têm responsabilidades dirigentes, se trata do socialismo à portuguesa, uma espécie de trilho algures entre aquilo que um tanto depreciativamente há quem chame de social-democracia sueca e o socialismo de estado e de partido único do modelo soviético e que os mais esquerdistas ou como tal ditos, querem antes ver mais próximo dos moldes chineses, da mesma maneira que o é para os partidos, com os socialistas reclamando para a originalidade lusitana uma mistura de economia privada ou assente na iniciativa privada e uma forte posição do estado no tecido económico nacional, naturalmente com uma sociedade de contornos pluralistas e os comunistas parecendo mais apostados em conseguir antes uma economia planificada baseada na propriedade e controlo estatal, também ela com as garantias das liberdades e das escolhas de governação por processos eleitorais, não ficando no entanto claros os limites de a quem é aberta uma tal possibilidade, no que os mais radicais conseguem maior precisão ao definirem muito prosaicamente que aqueles que se oponham abertamente a esses caminhos sejam pura e simplesmente silenciados. Num destes dias, ouvi a um jovem comunista que aqui vive e trabalha, a expressão modo de produção socialista para descrever o que, na sua maneira de ver, está, neste momento, a construir-se em Portugal. Seja como for, há cânticos de vitória no ar, pelo menos por enquanto, mas tenho a impressão que a tempestade é bem mais negra e efectiva do que pretendem as ilusões que a negam ou nem a consideram enquanto tal e temo que das respostas a toda esta alegria de afirmação política ou de uma dada opção política venha a derivar um clima de violência que possa descambar numa qualquer espécie de guerra civil. A verdade é que estamos assistindo a um extremar de posições que não é líquido que a aprendizagem da democracia que temos feito até aqui seja capaz de resolver fora do estado de conflito. Vamos ver, a intuição diz-me que isso dependerá em grande medida do cumprimento da palavra dos militares que agora se organizaram em Conselho da Revolução, de permitirem a realização de eleições para uma assembleia constituinte. Esperemos pois que as coisas se encaminhem no bom sentido e que os meus maiores receios sejam de todo infundados ainda que, em consciência, não seja capaz de dizer do acerto das propostas que por ora estão a ser postas em prática. Razão tinha eu em duvidar da bondade do abraço do General Spínola às regras da democracia e se não será rigoroso dizer que o que se passou em seguida foi uma resposta à sua acção muito duvidosa, até por esta, por sua vez, ser ela própria uma reacção ao crescente de ascendência que as facções socialistas, digamos assim, têm gozado nestes últimos meses, até um tanto à boleia do que muitos militares têm afirmado quanto às suas preferências por aquele quadrante, não será errado de todo sustentar que o comportamento da velha raposa e particularmente a tentativa de golpe pela força que capitaneou, espoletaram ou precipitaram aqueles outros acontecimentos. Certo e sabido é que no dia onze, Spínola chefiou um ataque aéreo a um quartel de Lisboa que vitimou mortalmente um soldado e que em defesa do regime de Abril ou em mero sinal de apoio, saíram à rua não só muitos militares e muitas unidades, como milhares e milhares de civis que mais uma vez barricaram estradas e se colocaram em locais estratégicos, no que houve actos de violência e outras mortes, com excessos evitáveis de algumas pilhagens – será este o termo? – a sedes de partidos apontados como fascistas e que provavelmente, em muitos casos, nada tiveram que ver com a sublevação que me pareceu toda ela de contornos cesaristas, mais do que derivada de comandos de uma qualquer organização propriamente dita. Depois o General fugiu, acho que para Espanha e atrás dele muitos outros, assim como outros foram presos e o retorno foi a nacionalização da banca e dos seguros que milhentas de manifestações e palavras de ordem logo apoiaram, exigindo-se agora a confiscação dos grandes grupos económicos que se acusam de estarem por trás de boicotes económicos com o intuito de levar este poder a cair e se possa regressar ao antigamente. Sinceramente não sei se será esse o caminho mais acertado. Será que estaríamos preparados para, de um momento para o outro, o estado passar a dirigir as empresas e a organizar as relações e os circuitos económicos? Quer dizer, será que repentinamente vamos encontrar os recursos humanos que inúmeros teriam que necessariamente ser, para o levar a cabo? Não tenho qualquer maneira de responder a estas perguntas com um mínimo de segurança, mas é fácil de perceber que estas são questões cruciais. Ora sempre terá de haver quem dirija as operações, quem saiba o que é mais adequado numa determinada ocasião e quem domine os mecanismos das vendas e das encomendas dos bens que se produzem e será que é assim tão fácil de assegurar uma coisa dessas? Foi por isso que me pareceram uma verdadeira parvoíce as propostas de alguns trabalhadores para que, de certa forma, também aqui se procedesse a um género de colectivização das nossas actividades, concedendo a propriedade de tudo, em total igualdade de circunstâncias, a todos aqueles que aqui laboram. Bem, sem qualquer vergonha devo confessar que cheguei a temer cenas de confronto físico e, porque não, armado – há muita gente por aí com armas de caça, por exemplo – quando alguns mais renitentes fizeram finca-pé para que se discutisse e levasse a votos a decisão em causa, não sem que antes tivessem esquecido fazer uma campanha a favor da mesma. Contudo, é justamente o que me leva a ter sérias reservas quanto às nacionalizações que se reclamam e o pendor da economia que daí vem; será que é isso que as pessoas pretendem, sequer estão preparadas para pretender? É que das discussões que foram prolongadas e intensas foi o que se apurou, nem todos o querem assim e pela experiência que temos deste nosso projecto colectivo – e aí creio que temos essa autoridade que imediatamente decorre de o termos feito – estes só serão exequíveis quando todos aqueles que neles estão envolvidos assim o quiserem e este é um dos que a mim se apresentam como dos principais calcanhares de Aquiles dos países do bloco socialista. Mas isto seria matéria para uma outra conversa. Acabou por imperar o bom senso e, com efeito, a ideia foi rejeitada pela larguíssima maioria dos presentes para quem, a exploração de que possam ser objecto é devidamente temperada por toda a redistribuição da riqueza que, afinal, até temos conseguido neste nosso cantinho do paraíso. Será que poderei tomar isto como um pequeno sinal de esperança para este país?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (55)

 Ilha Dulcamara, Paul Klee, 1938
Óleo sobre papel de jornal, 88x176cm
Há uma idade
Em que felicidade
E imortalidade
Rimam e são verdade!


António Tapadinhas

domingo, 17 de novembro de 2013

 
 
O Estado do Tempo – II


TEMPO(s)
 

Como água circulando pelos tecidos-terra vivificando-a, o pensamento. Envolvido em cadência de tambor, evocação de uma solenidade antiga trocada por repugnante pantomina.

Tum-Tum.
Tum-Tum-Tum.

Todo o tempo é temporário, transitório.
Sem palavras, apenas um leve rumor e, contudo, perfeitamente audível, de dentro, fala que é longe o cais dos abraços e move-se, ainda.
Continua a afastar-se e regressamos agora e sós.
Será? Ou não? 

Tum-Tum.

 
De-vagar o olhar
antecede o tacto
e o enleio que o aroma
arquitecta.

De-vagar o alheamento
cobre de indiferença
os dias desesperançados
de brilho.
 
De-vagar o ouvir
que soçobra no silêncio
dos voos parados
das gaivotas.
 
De-vagar seca,
em combustão interna,
a pele curtida
do tambor-alma.
 
De-vagar a viagem
de dentro p’ra fora
tudo à volta acontece
sem espanto.
 

De-vagar o tempo

coisas sonhadas

canções por inventar

na raiz dos sons


De-vagar se apronta
o levantamento sem rebelião
antes consciência
feita acção.

De-vagar o tempo
afasta a névoa, o desamparo
ateia-se o soletrar do fogo
e, no seu devir, o tempo sussurra:
SERVIR.

Tum-Tum.
Tum-Tum-Tum.

 
(in “Humanascer ou a Procura da Luz” de Manuel João Croca)

 
 
 
Anta, Sol e Árvores
(óleo sobre tela)
Pintura de Luís Delgado

sábado, 16 de novembro de 2013

Milagres


«A prática devocional nada mais é do que servir os outros. Nada tem a ver com desfiar o terço, com a reza ou com o hábito»
                           Saadi
                           (Versão portuguesa de Abdul Cadre)


Recuso-me a fazer parte dos supersticiosos que, quando estão gravemente doentes, vão ao médico e vão a Fátima: se se curam, foi milagre, se pioram é negligência médica. Mas, em boa verdade e sem falsa modéstia, não sei nem poderia saber se há ou se não há milagres, mas se os houver, então o Cosmos é bem mais iníquo do que o imaginam os azedos e os pessimistas.
Ora, os crédulos e sobretudo aqueles que o sendo ou não sendo lucram com haver crédulos, querem fazer crer aos que não são uma coisa nem outra que um Deus de humores variáveis e instável disposição altera as regras estabelecidas de acordo com a cara do freguês e com as pedinchices e os empenhos metidos aos deuses menores, que são os santinhos de altar, tidos como mediadores seguros destas coisas. Neste politeísmo vulgar, anacrónico e abstruso, a gente reza um qualquer responso, acende umas velas e é trigo limpo: de imediato as coisas em vez de caírem para baixo passam a cair para cima.
Bom, isto é a modos como antigamente – lembram-se? – quando íamos a uma repartição e metíamos uma verdinha na mão do funcionário: «trate lá da coisa que eu não me esqueço de si». Bendita cunha!
Milagres? Que heresia!
A arbitrariedade, o nepotismo, o favorzinho transportados para a credulidade e a superstição constroem a insustentável crença num Deus caprichoso e subornável, confundível com um qualquer pequeno ou grande ditador, mesmo que na figura mínima de um simples manga-de-alpaca.
 E há até – vejam bem! – os crentes de milagres do avesso, que são as desgraças e as catástrofes. Nestes casos, a cunha é para que se safem os que pedincham; o mal dos outros, sendo ou não castigo merecido por pecados cometidos, é com toda a certeza a vontade de Deus, que poderá estar a escrever direito por linhas tortas.
Assim – e espero que assim não seja – entre o Deus das cunhas e o Diabo sedutor haja malvado que escolha e esperto que lucre…
A minha escolha é que por mais que à minha volta aconteçam coisas maravilhosas e inexplicáveis, não as tentarei entender pelo recurso à minha ignorância, antes procurarei encontrar as razões, as causas e as leis propiciatórias das maravilhas, tendo em vista salvá-las do capricho, da arbitrariedade e inclusive do acaso.

ABDUL CADRE
 http://acverruma.blogspot.pt/

NB:
Saadi é o pseudónimo do grande poeta persa do século XIII Musharrif Od-Dîn Sa'adi


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A MINHA VIDA NA MALA

Proposta para Celebrações comemorativas dos Emigrantes

António Justo

Uma organização de exposições sob o título “MINHA VIDA NA MALA”, no âmbito de celebrações comemorativas dos emigrantes portugueses, poderia tornar-se num factor de promoção e revitalização de associações e iniciativas nobilitadoras da presença portuguesa.

O objectivo principal do projecto seria focar o itinerário e o papel da vida migrante; celebrar a presença dos portugueses nos diferentes países e motivar a nova geração de emigrantes a desenvolver o associativismo e o portuguesismo universalista. Criar recursos lusos de apoio e fomentar sinergias entre associações e as mais variegadas instituições. Contribuir para espalhar a festa portuguesa.

Conteúdo do projecto: Num trabalho de rede de consulados, missões, associações, artistas, professores, assistentes sociais e multiplicadores culturais, activar entre os emigrantes iniciativas concretas viradas para diferentes públicos.

Um apoio financeiro poderia provir do MNE, União Europeia, bancos, etc.

Resultados a esperar: celebração da emigração, fortalecimento da consciência migrante, intercomunicação e fortalecimento operacional das associações e inclusão das mais variadas personalidades em actividades das associações. Fortalecer a consciência dos emigrantes.

A coordenação poderia ser feita pela Secretaria de Estado para as Comunidades, Instituto Camões, consulados, missões, alguma universidade, associações e possíveis parcerias sob um comité ad hoc.

O projecto poderia constituir uma oportunidade para reflectir sobre a identidade portuguesa e possibilitar a objectivação de histórias de famílias que partem e que ficam.

Cada pessoa ou família envolvida no projecto poderia apresentar uma mala, a ser exposta e elaborada com materiais, imagens, objectos, documentos, lembranças, tudo relacionado com uma vida entre paragens e em que a mala se tornou símbolo de vida e companheira. Trata-se de conhecer e divulgar, também com postais, cartas, músicas, etc., o contributo da emigração em termos geográficos e sociológicos valorizadores do nosso povo e das nossas terras. Nas associações ou iniciativas seria importante envolver artistas a apoiar a elaboração das malas.
Naturalmente que um tal projecto poderia assumir proporções regionais, nacionais ou mesmo internacionais. A estender-se o projecto a Portugal (por exemplo ligação com a festa migrante) implicaria que as repartições da cultura das Câmaras, bancos, alguma faculdade universitária e os meios de comunicação social se tornassem, possivelmente, promotores do projecto. Este projecto, depois de realizado nos diferentes locais, poderia tornar-se depois numa exposição itinerante.
Não há família nenhuma em Portugal sem experiência migrante. A migração marca a paisagem e a alma de Portugal. É uma constante característica de organização da vida familiar portuguesa e do seu Estado. A emigração é, na realidade, uma das cinco quinas que marcam o país.

Este é um contributo para um “Brain” de ideias que poderia preparar um projecto a ser assumido pelo Senhor Secretário de Estado Dr. José Cesário e pelos deputados, conselheiros da emigração e outras parcerias.

Fica aqui a ideia e o apelo!


António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

MUNDO COLORIDO
 


CAROLA JUSTO

Acrílico sobre Madeira 50 x 50
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM


O médico e a boneca. Norman Rockwell, 1929 Norman Rockwell Museum, Stockbridge, U.S.A.


Verdades inconvenientes

São tantas que davam para encher vários sacos a transbordar e ainda ficavam verdades de fora.
Nem vale a pena fazer a listagem, que não há crónica que aguente, mas hoje não consigo não falar sobre uma verdade inconveniente.

Trata-se da relação médico doente. Está na berra, não há como não estar na ordem do dia. Os dias ordenam que não se adiem os nossos dias.

Estive num fim de semana recente numas jornadas sobre saúde e espiritualidade: alimento de luxo para a minha alma, meu espírito, minha felicidade. As crenças do meu coração mais antigo encontram ali um eco tal, que saio destes fins de semana como de um SPA com massagem de chocolate e banho de perfumes. É chocolate, são perfumes, ventos de amor e consciência.

Os conferencistas são médicos, cirurgiões, enfermeiros, cientistas: físicos.

Abordam diversas facetas da saúde e mais do que um deles tratou da relação médico doente, efeito placebo e cura. Referiram várias experiências científicas que comprovam inequivocamente que o que cura não é o medicamento, não é propriamente o princípio ativo, mas o mecanismo mental e emocional do doente que aciona o princípio ativo… quer ele esteja ou não presente no medicamento. E o mecanismo é, sem dúvida, uma boa relação médico doente: tempo, atenção, verdade e estímulo, que desencadeia no doente um estado emocional favorável à cura. Porque quem se cura é sempre o próprio; o médico, o terapeuta, são facilitadores.

Na verdade, isto retira um grande peso de cima do médico, do terapeuta. Porque se ele fez o melhor que sabia e mesmo assim não resultou, se ele fez exatamente o mesmo que ao outro doente que aparentemente se encontrava num estado muito mais difícil e se salvou, que concluir? Que o médico, como qualquer cuidador, é “apenas” (e isto não é pouco) um facilitador de cura. Quem se cura é o próprio, numa ainda relativamente (mas já não totalmente) misteriosa relação com o princípio curador universal a que não vou dar um nome porque não o sei e não vou inventar por causa dos equívocos.

Foi sensivelmente isto que a Drª Teresa Gomes Mota tentou dizer hoje numa entrevista na televisão a propósito do lançamento do seu livro O Admirável Placebo. Tentou, mas não conseguiu, porque as perguntas sucediam-se às perguntas como se ali não houvesse espaço para as respostas. Como se a entrevista apenas tivesse ocorrido para se fazerem perguntas. Cada vez que a doutora tentava aflorar a questão, afinal central, do placebo, que é a relação médico doente, o seu discurso era cortado com outra pergunta ou com o final da entrevista. Muito frustrante.

Acabou por ser uma entrevista banal quando poderíamos tê-la ouvido referir coisas como estas, que aparecem no seu livro:
“sacralidade do encontro clínico”, “verdade e compaixão”, “as pessoas têm espaços selados que necessitam de ajuda para abrir”, “melhoram porque confiam, são escutadas e estimuladas a mudar”.

Conseguiu referir que há casos em que ainda antes de começarem a tomar o placebo os doentes já registam melhoras, o que prova que não é a farinha de que se compõe o placebo que cria o efeito, mas também não é o princípio ativo.


Os físicos dizem o mesmo, que é em nós que tudo se decide, no nosso pensamento. Os poetas também, lembro Pessoa quando escreve “è em nós que é tudo”. Os místicos já o vêm dizendo há uns milhares de anos. Mas uma médica ainda não tem autorização para dizê-lo na televisão. É uma questão de tempo. A verdade é uma avalanche lenta, mas avança. Inconvenientemente. Para nossa conveniência.


Risoleta Pinto Pedro