"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

UM DIA

Um dia, um som pegou nos meus sentidos e levou-me por entre ondas e salpicos, agulhas de pinheiros, vozes, vidas... 

Um dia, uma linha pegou na minha mão e levou-me a passear pela folha em branco... de repente, o mar cruzava-se com o ar, com a serra e o sol com o sal, o sul e a vida... Um dia, um cheiro cheio de ternura levou o meu olfacto a passear pelo arroz doce da minha avó, pelo jardim da minha mãe e pela pele suave da minha filha. 

Ana Maria Santos - Agosto 2009

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (99)


O Pífaro, Manet, 1866
Óleo sobre Tela, 160x97 cm


MENINO

sem peso 
precede-o um olhar
que desliga os nós do tempo 
num menino de vida já grande e sem memória 
num olhar firme de quem não cai
por ter caído 
leve como um rebento a nascer 
de um fogo adulto
o menino ainda brinca

apesar de nós
a pesar em nós

Maria Teresa Bondoso


domingo, 28 de setembro de 2014



MIRADOURO 36 / 2014



procura de felicidade
(processo em execução)


aprender
fazer
ensinar
acreditar
duvidar
desalentar
re-aprender
re-fazer
estar
ir
ir e voltar
ir sem voltar
partir
construir
caminho pensamento atitude
pensamento atitude caminho
atitude caminho pensamento
acção
interior exterior
instinto
percepção
perspectivar
construção
vasos comunicantes
arquitectura de realidade(s).
construir
esperançar


                       MJC



Foto: Soraia Arruda

sábado, 27 de setembro de 2014





Título: Petúnia, duas esferas em um plano são um ponto.

Técnica: Mista
Data: 2006

Kity Amaral (Cristiana Penna de Amaral)

BRASIL

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pescadores de Sonhos, por Fernanda Gil




A xávega é uma arte de pesca que teve origem na costa Norte, no século XV, tendo sido no passado muito importante economicamente para um grande número de comunidades piscatórias ao longo da costa portuguesa. Alguns autores referem o uso de redes deste tipo desde 3000 A.C., em várias regiões do Mediterrâneo, A primeira notícia do seu uso em Portugal data de 1405 e é referida para o Algarve. Esta arte tem sido desde cedo, alvo de inúmeras controvérsias e regulamentações. No século XVI, foi proibida por decreto régio em Setúbal, Sines, Odemira, Lagos e Tavira. No entanto, esta situação foi alterada por D. Sebastião em 1567, limitando-se a sua utilização apenas à costa sul de Portugal, durante vários séculos. A xávega com as características actuais terá ressurgido no Algarve, em meados do século XVIII, introduzida por pescadores andaluzes e catalães, e na costa norte foi divulgada por espanhóis e franceses. Mais tarde, o seu uso estendeu-se a toda a costa portuguesa. Actualmente, é praticada em comunidades piscatórias dispersas ao longo da costa, principalmente na costa nordeste.

Nas décadas de 1960 e 1970, verificou-se uma quebra na actividade. Na década de 1980, deu-se uma recuperação generalizada de toda a pesca artesanal, devido em parte, pelo declínio da pesca longínqua bem como pela motorização das embarcações e a utilização de tractores e guinchos para alagem das redes.

A pesca com arte de xávega é praticada por pequenas comunidades piscatórias distribuídas ao longo da costa continental portuguesa. Caracteriza-se por ser uma arte não selectiva e capturar grandes quantidades de pescas acessórias e rejeições. 

No Concelho de Almada, operam 8 embarcações com arte de xávega: 3 nas praias da Costa de Caparica e 5 nas praias da Fonte da Telha. As embarcações utilizadas são construídas em madeira, sendo as mais recentes de fibra, e apresentam comprimentos da ordem dos 7 m. Cada “xávega” opera com uma embarcação e três tractores de apoio, e emprega cerca de 20 pessoas, das quais 5 operam na embarcação e as restantes em terra. Quanto ao esforço de pesca, o tempo de arrasto é, em geral, de uma hora e o número de lances efectuado por cada embarcação por dia varia entre 3 e 4. A pesca com arte de xávega apresenta uma sazonalidade marcada, ocorrendo nos meses de Primavera, Verão e Outono (Março a Novembro), 5 dias por semana, sempre que as condições meteorológicas o permitam.

(Fonte: Mariana Antunes)

Pescadores de Sonhos conta com o trabalho fotográfico de Armando Romão, que retrata a arte xávega na Costa da Caparica.


Em Torno de Agostinho da Silva na Casa Bocage
 Ciclo de Tertúlias III

Sábado | 27 de Setembro | 16h 


Nos 20 anos da partida de Agostinho da Silva
 
Palestra:
"Os três momentos do Quinto Império português: Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva"por José Manuel Anes

Apresentação do livro:
Uma Introdução ao Esoterismo Ocidental e suas Iniciações, de José Manuel Anes (Editora Arranha Céus),  por MauríciaTeles da Silva

José Manuel Anes - Doutorado em Antropologia Social e Cultural (Antropologia da Religião e do Ritual) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Formado em Química. Foi Perito Superior de Criminalística do Laboratório de Polícia Científica e Assistente convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nos Departamentos de Antropologia e de Ciência Política. Tem leccionado em várias Universidades como Professor Auxiliar: Univ. Lusíada, Instituto de Ciências da Saúde Egas Moniz, Faculdade de Direito Univ. Nova de Lisboa (no mestrado em Direito e Segurança). Membro da ESSWE – European Society for the Study of Western Esotericism. Obra publicada, entre outros títulos: Re-criações Herméticas, ed. Hugin, 1995-96; Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira, 2006A Flauta Mágica e os Mistérios Iniciáticos2007Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos,2008Um Outro Olhar: A Face Esotérica da Cultura Portuguesa, 2008A Alquimia: Os Alquimistas Contemporâneos e as Novas Espiritualidades, 2009O Inferno de Dante2013, (pela Editora Ésquilo)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

QUEM SOMOS, O QUE FAZEMOS AQUI, PARA ONDE VAMOS?


O observador não pode ser a coisa observada. Se o que chamamos realidade são sinais elétricos recebidos pelos sentidos e interpretados pelo cérebro , então o observador real não é o cérebro, mas sim aquele que percebe o próprio cérebro. O cérebro é como um “aparelho” descodificador, mas não o criador da consciência das coisas, senão o cérebro deveria possuir consciência absoluta de si. Se pensarmos por exemplo numa árvore, essa imagem não nos aparece dentro do cérebro. Então quem interpreta o cérebro? Ele necessita de um observador externo, e esse observador externo é a Mente.

A Mente é um sistema de energia pessoal que nos envolve o corpo físico, onde projetamos  pensamentos e imagens. A ideia base e primária que possuímos de nós próprios é a de que estamos sempre a pensar, somos uma sucessão continua de pensamentos, e os pensamentos são formas de energia com informação que se manifestam na Mente. A Mente é como um mecanismo de pensar, perceber e sentir do ser humano. É na Mente que a personalidade vive, é autoconsciente e toma decisões, o corpo físico acaba por ser um veículo para a expressão da personalidade.

Quem somos? Somos um sistema vivo de energias com um Corpo Físico, uma Mente, uma Alma, uma Essência Divina, uma Identidade, um Caracter e uma Personalidade.

O que fazemos aqui? Experienciamos a vida, e o que é a vida? A vida é um processo que ocorre entre o organismo (a nossa Individualidade) e o seu meio ambiente. Recebemos os estímulos externos e físicos do meio ambiente, os quais alcançam A Mente através do mecanismo energético do nosso sistema nervoso e cérebro.
Fazemos o que temos feito sempre ao longo da vida: Trabalho, Progresso e Lazer. Qual é a pedra angular das nossas vidas? Aprender e ensinar, aprendemos a andar, a falar, aprendemos com a família, com as instituições, com quem nos rodeia; e ensinamos aos filhos, familiares, amigos, colegas de trabalho e assim sucessivamente.

E se formos eternos? O que faremos no futuro? Como ocuparemos a vida durante milhões e mais milhões de anos? Suponho que faremos o mesmo que temos feito até agora: Trabalho (Serviço), Progresso (Estudo), Lazer (Relaxamento), e iremos adquirindo conhecimento e experiência, sem existirem certezas da Verdade Absoluta, mas sim uma probabilidade crescente de aproximação à Verdade. Talvez a ocupação e o objectivo maior da vida, será o de sermos cada vez mais perfeitos e semelhantes a Deus; e meio universo está empenhado na missão de tornar todos os seres provenientes dos mundos evolucionários, em seres perfeitos e semelhantes a Deus, e esse será o longo Caminho a percorrer até o Encontrarmos.

Para onde vamos? Provavelmente iremos servir nos mundos e criações que irão surgir nas galáxias e universos, que neste momento estão em formação no espaço exterior…



Rui Madeira 


terça-feira, 23 de setembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


PENSAMENTO FILME (ALHOS VEDROS)



Na máquina de projecção,
Vejo meu pensamento-filme
Espreitando-me...
Vou dando à manivela
E imagens desfilam no meu cérebro
E surge o jardim,
Rectangular
Com árvores e bancos
(alguns velhotes sentados, cansados da vida, sem família,
também eles entre parênteses como estes meus versos),
E, logo ao lado, o largo!
O largo da feira,
De trocas de vidas,
de mercadorias,
cheio de vozes, de cores.
(Hoje é um espaço de leituras outras,
mas sempre um espaço vivo de aprendizagem)
O largo!
Também havia a mercearia da Ti Lucília
E a taberna do Ti Chico-Vintém
Com um corvo, o Vicente,
A puxar-nos pelos bibes...
Ao fundo
A Igreja
(cemitério ao lado: vida e morte juntas,
talvez por serem as duas faces de uma só realidade)
Espaço de História,
De pequenas histórias e lendas
De mouros e cristãos,
De mistério para a criança
Que aprendia as primeiras letras
E não conseguia decifrar
Símbolos gravados na pedra.

E recolhendo ao espaço do meu quintal,
Surgem na tela o cheiro dos marmeleiros,
Do verde das patálias,
Do cerise dos brincos de princesa
E o poço a um canto,
Onde me mostravam
A lua.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (98)

Procissão Senhor Jesus da Chagas, António Tapadinhas,
Ano 2008, Óleo sobre Tela, 80x70cm

Procissão
Recebi a chamada de uma amiga que me pediu para colaborar na angariação de fundos, para a Misericórdia do Barreiro. A sua ideia era organizar, com quadros doados por um vasto leque de artistas, uma exposição de pintura com uma característica especial: Todos os quadros teriam o mesmo preço, independentemente do seu valor comercial, ou da notoriedade do pintor. Concordei com o pedido e acertei a data da entrega.
Seleccionar uma obra para doação é menos complicado do que avaliar professores...
Quando percorri mentalmente as que tinha em casa e que eu considerava concluídas, lembrei-me, quase de imediato, da solução perfeita para o problema: Tinha recentemente dado por acabado um trabalho que tomou conta de mim, seguindo um caminho que eu nunca tinha imaginado. Passo a contar:
Num belo Domingo de Abril, acho que foi a 16, data do meu casamento, fui com a família às tradicionais festas de Sesimbra.
Era dia de procissão e quando passou o andor com a imagem do Senhor Jesus das Chagas, fiquei impressionado: A imagem do Senhor, de alguma maneira falou comigo. Não era minha intenção mas acompanhei durante algum tempo a procissão, para tirar fotografias. 
Quando finalmente tive as fotos em meu poder, o maior problema foi seleccionar aquela que seria melhor para a tela que tinha projectado. Depois de um sem número de esboços acabei por me decidir por uma que cumpria algumas das premissas que tinha imposto: Cristo não podia olhar de frente, porque os olhos das imagens não têm beleza, mas tinha de estar em primeiro plano. Queria dar nota do envolvimento da multidão de devotos e das forças vivas que acompanham estas cerimónias. Feita a escolha, pus mãos à obra.
Não tive qualquer espécie de problema com o esboço que fiz. Tinha na minha memória, nítidas, as cores que queria plasmar na tela. Mas... as cores do Cristo na imagem, ficavam mortas, como as dos bonecos de barro, e eu não gostava do que via... A pouco e pouco, fui trazendo vida à imagem com as cores da carne palpitante e do
“sangue a gorgolejar das artérias abertas
pressuroso e vivo
como vermelhas minhocas despertas...”
Tanto realismo colocou Jesus de castigo no meu estúdio: Na minha casa todos ficavam impressionados com o Cristo sofredor e cabisbaixo... – Outra vez – pensei. Esta imagem, do século XVI, segundo a lenda, foi lançada ao mar pela mulher de Henrique VIII, quando da revolta dos anglicanos contra o papado, e recuperada perto do Cabo Espichel. Obra sobre um tema religioso, que não tinha grande futuro na minha casa. 
Solução perfeita para uma oferta à Misericórdia, não acham?
No dia da inauguração da exposição, quando comecei a dar a volta para ver os quadros expostos, ao chegar ao meu, já tinha o sinal de vendido. Durante o beberete, a minha amiga apresentou-me a senhora que comprara a obra e que queria falar comigo. Depois das banalidades sociais da ocasião, a senhora disse-me:
– Quando entrei, vi imediatamente o Senhor Jesus das Chagas, de que sou muito devota. A expressão que lhe deu, apesar da sua situação, não revela sofrimento e traz-me muita paz e conforto. É por isso que o quero na minha casa – disse-me, com os olhos a brilhar. 
A tristeza e o sofrimento do Senhor Jesus das Chagas, no meu lar, transformou-se, por milagre, em paz e conforto, na casa da devota senhora.

domingo, 21 de setembro de 2014



MIRADOURO 35 / 2014


Foto de João Ramos
 
 
E o Outono está a chegar.
Caiem as primeiras chuvas trazidas pelo vento que ainda não é frio.
Suprimem-se os adornos exteriores. O pousio dispensa enfeites. A terra está limpa e as árvores nuas. Escolhe-se minimalista recolhendo-se do frio que se avizinha.
No preto e branco da fotografia segreda-nos, ela Terra, que não é agora tempo para a animação do fandango.
No entanto, ainda que interior, ressoa música de todo o conjunto.
Consigo, consegue-se, ouvir.
Violinos e … silêncio.
É assim e gosto.
Depois, virá o Inverno e a seguir a Primavera. Isso é certo.
Como será?
O que for logo se verá e nós, porventura, estaremos cá.
 
MJC


sábado, 20 de setembro de 2014

O Mito dos 10%


Abdul Cadre
Cambridge, 12 SET 2014

LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS
  
Lucy foi o nome dado a um fóssil de australopitecos atarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 no deserto de Atar (Etiópia). O nome do achado foi inspirado pela canção dos Beatles Lucy in the Sky with Diamonds, que tocava com frequência no acampamento dos pesquisadores
Lucy é também – e as inspirações e conotações ali estão – o título do frenético filme de entretenimento que se exibe em Portugal, com grande afluxo de espectadores, o qual se esgota na embalagem, sendo mal empregados os actores em tal fancaria. Os ingredientes são os do costume quando não se sabe o que fazer com a ideia central: droga, máfia, polícias corruptos. Isto é receita mais do que certa para os amantes de efeitos especiais e muita acção, isto é, pancadaria.
Mas tudo isto é o menos porque serve a quem serve e gosta quem gosta. O pior é o recurso a um disparate assaz popular, apresentado como científico, que tem sido muito acarinhado pela contracultura New Age. Refiro-me àquele mito urbano que quer fazer passar a ideia de que só usamos 10% do nosso cérebro.
Esqueçamos pois o filme e debrucemo-nos apenas sobre o disparate que tanto conforto dá a quem espera que um qualquer plim o transforme em Einstein. Por curiosidade se diga – e certamente muitos se recordarão – que nos anos setenta, em Lisboa, nos acessos ao Metro, distribuíam uns papeluchos em que um Einstein com a língua de fora nos dizia: só usamos dez por cento do nosso cérebro. Estávamos no auge da propaganda da dianética, do falecido Ron Hubbard e da sua  igreja da cienciologia. Qual era a proposta desta gente? Pôr a funcionar os 90% de células mandrionas.
Christopher Wanjek, no seu livro Bad Medicine, diz muito apropriadamente que se deixássemos de utilizar 90% da nossa massa cinzenta, os neurónios inativos degradar-se-iam. Tenhamos em conta que a doença de Alzheimer se deve à perda de 10 a 20% das células nervosas.
Faz algum sentido, uma espécie desenvolver uma cabeça enorme, a qual impede a autonomia imediata ao nascer e põe em perigo a vida da progenitora, para depois utilizar apenas 10% do conteúdo de tal cabeçorra?
Sabendo-se como a natureza é avara, para quê o dispêndio energético com os inúteis 90% não utilizados, segundo as fantasias populares e os «parapsicólogos» de vão de escada?
Ao que parece, este mito resultou da conjugação de vários equívocos despoletados por uma citação de um estudo de William James, aliás inexistente, efectuada por Dale Carnegie. Depois, tendo em conta as localizações cerebrais, confundiu-se actividades que ocupariam dez por cento das funções do cérebro com permanente inactividade dos outros noventa por cento. Todavia, sabe-se hoje, sem lugar para dúvidas, mediante comprovações de medicina nuclear (tomografia por emissão de positrões TEP), que não existe em circunstância alguma qualquer inactividade de zonas cerebrais. No cérebro, tudo é acção.
Mas nesta aberração pseudocientífica nunca fica muito claro se os dez por cento se referem ao tamanho se à capacidade. É que antigamente os computadores eram enormes e tinham uma capacidade muito inferior aos portáteis mais maneirinhos do mercado. Além disso, o tamanho do cérebro não determina necessariamente a qualidade do seu desempenho, de contrário, o Homem de Neandertal teria sido mais inteligente que o homem actual e o cachalote, com o seu cérebro de sete quilos, teria batido aos pontos o Einstein, para desespero da cienciologia e outras seitas congéneres. Mesmo que quiséssemos aquilatar da coisa pela razão volume do cérebro vs. volume do corpo, de imediato nos deparávamos com o rato, que até é um bicho esperto, a ser mais inteligente do que o cavalo ou do que o cão, e bem sabemos que não é assim.
E não se prenda demasiado o cérebro à cabeça porque as aranhas, por exemplo, têm o cérebro espalhado pelo corpo, especialmente pelas pernas e as sanguessugas – imagine-se! – têm 32 cérebros.
Desta falácia, o que é de espantar é ver gente ligada ao esoterismo a abanar a cabeça que sim aos dez por cento. Então, acreditando que o homem tem outros corpos, para além do físico, um dos quais seria o mental, este serviria para quê?
Para além dos muitos artigos científicos que combatem esta crença, revistas populares como a Super Interessante, têm-no feito também. Um programa televisivo do Discovery Chanel, do qual não sou grande fã – Myth Busters (Os Caçadores de Mitos) – no episódio de 27 de Outubro de 2010, os seus apresentadores usaram a magneto encefalografia (MEG) e a ressonância magnética para formar a imagem do cérebro de alguém submetido a uma tarefa mental complicada, verificando-se que quase 100% do cérebro se encontrava em intensa actividade. Isto é algo que muitos cientistas, antes e depois, têm comprovado. Sabe-se que algo de tão simples como tocar guitarra leva praticamente a totalidade do cérebro a intervir. Não existe uma única actividade em que todo o cérebro – CEM POR CENTO – não participe. Mesmo que estejamos a dormir, o cérebro não dorme. Aliás, o cérebro não é sujeito. Não se pode dizer que o cérebro pensa, o cérebro não pensa, quem pensa são as pessoas. Do mesmo modo, as pernas não andam, nós é que andamos, movimentando as pernas. Não se pode confundir aquele que age com as formas e os meios de agir.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"Sterntaler" - um nome num conto dos irmãos Grimm






Carola Justo

"Sterntaler"

Acrílico

54x54

2013

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Poema da Semana


CARAVELAS DO GAMA

Hoje, dia 18 de Setembro faz precisamente 525 que Vasco da Gama chega triunfalmente a Lisboa após a glória do descobrimento do caminho marítimo para a Índia cujo feito inspirou este tema que poderão ver aqui neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Caravelas_do_Gama/index.htm

Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia
entre por aqui na minha sala de visitas
www.euclidescavaco.com

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Etnografar a Arte de Rua (I)


Graffiti. 
Ribamar, perto da Ericeira, concelho de Mafra.


«Quem assina este Manifesto?»


Luís Souta


terça-feira, 16 de setembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

UM JARDIM PARA A EMÍLIA

Emilinha abriu um olho, esticou um braço, depois o outro e saiu da cama. 
De repente, lembrou-se que tinha marcado encontro com as flores do jardim, daquele jardim por onde tinha passado com a avó. 
É verdade! Quando ia saltitando pelo empedrado dos caminhos, um lindo girassol piscou-lhe o olho!
Emilinha ficou espantada, esfregou bem os olhitos e reparou que, além de piscar o olho, o girassol sorria com todas as suas belas pétalas viradas para o Sol. 
Caminhando, rodopiando, Emilinha parecia um catavento, porque ia descobrindo flores que tocavam campainhas, flores que lançavam suaves cheiros e flores que pintavam o ar como se fosse um arco-íris por onde escorregavam abelhas, besoiros, joaninhas e muitos outros insetos! 
Emilinha estava encantada e prometeu voltar na manhã seguinte! 
Agora, ali estava ela no seu jardim! 
E foi conversar com as suas novas amigas. 
Queres vir também?

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (97)

Espólio, El Greco, 1579
Óleo sobre Tela, 285x173
Não podemos dar nada que já não esteja dentro de nós; é essa a desculpa para haver milagres: dar-nos a certeza daquilo em que já acreditávamos. 

António Tapadinhas

domingo, 14 de setembro de 2014




MIRADOURO 34 / 2014
 
 
MOSTO
Setembro é desde sempre e por excelência o mês das vindimas.
O nosso clima temperado mediterrânico é talvez o mais indicado ao cultivo da vinha e do vinho e, um pouco por todo o país, se colhe o que a terra proporciona de abundância.
Também na minha terra, Cabeção, ainda que com menos produtores e menos vinhas do que há anos não muito distantes atrás, se assiste a um afadigamento que reconheço desde os primeiros anos da minha existência. Agora já não com o tráfego de mulas e carroças mas, ainda assim, se reconhece a familiar labuta ainda que assumindo outros registos.
Também da “Adega Afonso Croca” se libertam os calores dos mostos em fermentação. A quase totalidade das talhas acolhe a elaboração de néctares que, lá mais para meados de Novembro, poderão vir a ser saboreados.
O corpo sente-se amansado por imperativo do cansaço mas, mais uma vez, o ritual foi cumprido.
Assim é a Terra.
Mesmo que global e sucessivamente agredida, quando mimada pelo cuidado e desvelos de quem a semeia e cuida, acaba sempre por retribuir.
Porque um espírito profundo e benfazejo a anima e poder partilhar disso é aceder à maravilhosa dimensão da poesia.
 
 MJC
 Cabeção, 14 Setembro, domingo


sábado, 13 de setembro de 2014

Três Poemas, Pedro Du Bois



VIVER

Vivo momentos sem comentários
na análise de séries intercaladas.

Reviso momentos escutando
histórias de vidas ultrapassadas.

Reavivo momentos em calado
          discurso de vida inteira.

Vivo momentos: retiro da árvore
o fruto e o descasco em lâminas.

Revivo o instante no momento
               que me é simpático.




AVENTAR

Avento o tempo
imemorial. Cedo levanto
                  a poeira
                  e atravesso desertos
                  concretados. Concreto ser
                  aventado: pó espalhado
                  espraiado
                  espelhado no opaco
                  tempo de memórias.



TRAIR

    No desgosto
          da hora
 retiro o gesto
de despedida.

A porta fechada
     a passagem.
O rosto impassível
        na passagem.
A passagem deixada
            em resposta.

(Pedro Du Bois, inéditos)


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Livros d'África




MOISÉS KAMABAYA 

Nasceu em Malanje, no bairro do Ritondo, em 1937. Aí iniciou os estudos, primeiro na Missão Católica e depois no Seminário. Mas naquele tempo, para as classes não privilegiadas, terminada a 4ª classe era preciso pensar no futuro: “Meu pai foi levar-me a um colono, amigo seu, dono de uma oficina de mecânica, o Sr. Adriano, que tinha a sua oficina no Ritondo.” Ali ficou algum tempo, até se mudar para Luanda onde estudou Economia no Liceu Salvador Correia até ao 4º ano em 1971, altura em que foi preso pela PIDE e condenado a treze anos de cadeia pela sua participação na luta anticolonial. Foi um alto quadro da FNLA antes de ingressar no MPLA de que foi deputado.

Em finais de 1960 foi testemunha da revolta dos camponeses da Baixa de Kasanje contra as arbitrariedades da Cotonang, a poderosa detentora do monopólio do comércio de algodão naquela região. Ele próprio e alguns dos seus familiares foram participantes activos do movimento, estabelecendo as bases do que viria a ser a FNLA. Baseado nessa experiência escreveu “OS HERÓIS DA BAIXA DE KASANJI”, uma publicação de 2007 da Editorial Nzila, obra que dá a conhecer uma versão mais próxima dos revoltosos. Essa revolta viria a ter o seu clímax durante os bombardeamentos executados pela Força Aérea Portuguesa em Janeiro e Fevereiro de 1961 dos quais, até hoje, se desconhece o número exacto de vítimas.
“Enquanto se davam os acontecimentos trágicos na Baixa de Kasanji, na cidade de Malanje também a PIDE prendia em massa. (…) Foi nessas circunstâncias, que a 30 de Abril de 1961 fui preso, eu, meu pai, João Gaspar Kamabaya e os meus irmãos, Francisco João e Félix, levados à noite, no decorrer de uma grande rusga geral que teve lugar no Bairro da Sé, não para sermos julgados, mas sim para pura e simplesmente sermos abatidos pelo capitão Teles Grilo.
Eu, meu pai e meus irmãos fomos os únicos que escapámos nessa noite, graças à intervenção “in extremis” do Bispo D. Manuel Nunes Gabriel e do notário português Dr. José da Silva Marreiros. Este último estava perto da cadeia com os outros brancos a assistirem à matança dos ditos “terroristas” que queriam a independência.
Os restantes companheiros que nesse dia foram connosco pereceram todos. Depois seguiram-se as prisões do pai do Rosário Neto, o Sr. João Rosário, o Prof. Manuel da Cruz, o Dr. Luís João Sebastião Micolo, o Dr. João Felizardo Muvimba, os Reverendos Metodistas Job Baltazar Diogo, Major Manuel Neto, Filipe de Freitas, Geraldo Manuel Xavier, e expulsos muitos padres e missionários estrangeiros, sobretudo os americanos. Entretanto, é nessa altura que aparece um documento produzido e espalhado em Malanje, pelo Movimento de Libertação Nacional (MLN), do Dr. Micolo, que convulsionou ainda mais toda a sociedade malanjina – o célebre Manifesto de Kasanji.”

Em 1991, Moisés Kamabaya fundou a Associação Cívica Para o Desenvolvimento Económico e Socio-Cultural do Kwanza-Norte, Malanje e Kasanji (AKWAMAKA) de que é presidente.


Tomás Lima Coelho

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sobre a família linguística luso-espanhola


Portugal e o Brasil têm em comum essa intrigante curiosidade de estarem rodeados (quase) por todos os lados pelas línguas espanholas e o Atlântico.




Sentimos o Galego como o irmão mais velho da Língua Portuguesa. Por detrás delas, uma imensa herança linguística, comum na sua maior parte, onde se reconhecem algumas particularidades, conforme as influências históricas sentidas mais a norte ou a sul do território luso-galaico.

À nossa frente um auspicioso caminho conjunto que se constitui por uma das grandes frentes linguísticas mundiais com possibilidades de amplo crescimento, fortalecimento.

Apoiamos absolutamente a causa dos irmãos galegos contra qualquer tentativa de colonização linguística. Vemos a Galiza como um parceiro lusófono absolutamente indispensável, social, político, económico.

Sentimos que o castelhano, as línguas espanholas, fazem parte integrante da família. Tal como são o catalão, o basco e as dos demais países latino-americanos!

Mais do que o respeito, a fraternidade, é um dever que nos compete a todos. Não vemos razão alguma para estarmos de mãos apartadas, antes temos o imperativo de intensificarmos relações aos mais diferentes níveis e, desde logo, ao nível da Língua.

Com a maior consideração pelas identidades regionais, apoiamos uma total aproximação entre todos os países luso-castelhanos para, logo, podermos abraçar todas as línguas, todo o mundo.

Antes de mais, há que concretizar a afirmação linguística em cada uma das partes que nos constitui.



Luís Santos


terça-feira, 9 de setembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


NÓS/ESPAÇOS/NÓS


Nós / Espaços / Nós
Relação dialéctica
De dois elementos activos
Que se cruzam no caminho da vida.

Somos feitos de espaços
Por nós construídos,
Outros, atravessam-nos
E erguem-nos
Peça a peça
Como uma casa para o nosso eu. 

Nós / Espaços / Nós
Relação dialéctica
De dois elementos activos
Que se cruzam no caminho da vida.

Que seria o nosso ser
Sem a nossa peninsularidade,
Sem o nosso Al-Garb,
Sem os nossos poetas,
O nosso povo-infante?
Que seria o nosso ser
Sem os novos Mundos
Que nos ajudaram
A sermos nós,
A criar o sentido da palavra
Saudade?
Provavelmente seríamos outro povo,
Mas nunca este Português
Feito de espaços cruzados.

Que seria o meu ser
sem o mar,
sem a luz do meu sul
sem a igreja,
o largo da minha vila?
Provavelmente seria um outro meu ser,
Mas nunca este eu
Feito de espaços(-)sentidos.

Nós / Espaços / Nós
Relação dialéctica
De dois elementos activos
Que se cruzam no caminho da vida...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (96)

A Cozinha, Santiago Rusiñol, 1891
Óleo sobre Tela, 97,5x131cm

ESPERA 

Olhou de forma casual para o reflexo na água e não viu a clareza da imagem nem entendeu o seu rosto disforme. 
Vencida pela memória dos dias agora estreitos e sem tempo, a velha senhora sorriu tranquilamente, numa espera já ausente. Fugiram-lhe as lembranças e todos os retalhos se aconchegaram no seu quarto fechado.
Cada um dos pedaços aprisionados morria serenamente no fim aguardado de cada momento. As cartas do filho acabavam num beijo presente ali pelas manhãs outrora solitárias e o anel, alargado pelo tempo mirrado dos dedos, guardava o brilho dos dias sem demora. Cumpriam-se os desejos nas memórias guardadas num caderno escrito em partes sem espaços inúteis e sobravam-lhe os medos desfeitos pela vida a passar. 
Tinha-se escapado o sentir num começo intencional e achou-se pronta.
Desejou muitas vezes aquela existência sem vontades e a porta sempre fechada apontava aí o fim dos seus dias. 
Sentou-se, decidida a acreditar numa espera breve. 
Ignorou a casa vazia e o gato dado à vizinha cega e ao filho.
Deitou fora o desejo de encontrar o copo onde ele bebia o desgosto de um amor por fazer e fingiu-o cumprido num casamento muito pouco feliz.
Numa parede branca e gasta, a velha senhora compôs cuidadosamente o seu último olhar e calou o riso de menina e as orações ao pé da cama.

Na mesa, um copo com água. 
Uma imagem nítida de uma mulher bonita e um rosto disforme a partir, devagar. 
No jardim da frente, ao sol, uma rosa insuspeita. 


Maria Teresa Bondoso

domingo, 7 de setembro de 2014




MIRADOURO 33 / 2014


O ESTADO DO TEMPO – V

A água que brota de nascentes – e daí as fontes e os rios e … - e que a chuva traz, irriga e molha a terra.
Alimenta-a, fecunda-a e fá-la parir feita uma imensa e diversificada maternidade.
Depois, o sol aquece e a água evapora, sobe, faz-se nuvem para melhor voar. 
Voa, por onde quer, e depois regressa outra vez num recomeço sem fim.
A vida, maravilhosa aventura, não pára.
Agora, aparecem uns figurões a querer privatizar a água e apropriarem-se dela.
Deixará assim de ser um bem público e comum. A loucura e a ganância não têm fim. São insaciáveis e, se o permitirmos, tenderão a apropriar-se de tudo.
Enfim, eu que por opção e convicção me vejo e sinto pacífico, lembrei-me da expressão que ouvi a um jovem no outro dia, a propósito de um outro tema que tinha a ver com o desemprego e a falta de oportunidades. 
Dizia ele: «Eu quero e desejo a paz. A paz segura e duradoura. A paz para todos, que respeite diferenças e garanta a responsabilidade da liberdade para todos mas, cada vez estou mais convencido que ela só é possível depois de uma guerra que precisamos travar porque a isso nos obrigam.»
E eu que na altura fui dizendo que não, temo que a vida, assim privatizada e só para alguns, venha a ampliar e multiplicar o sentir deste jovem. E se qualquer guerra é sempre de evitar, já o mesmo se não poderá ou deverá dizer de uma oposição que se pretende eficaz e continuada, da desobediência civil exercida com critério e inteligência.
É claro que todos queremos e precisamos viver mas, se nada fizermos para nos opor a esta gramática, qualquer dia pensarão em privatizar, talvez, o ar.
Pode-se duvidar mas tenho para mim que há gente para isso.
Há gente para quem a ideia de gratuídade da vida se afigura como perigosa e socializante para além de um tremendo desperdício.


A Ribeira da Seda na sua passagem por Cabeção
(Foto de Joana Croca)