"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (172)



Cada vez que alguém, prestes a dirigir-se à população, arranca com "portuguesas e portugueses" dou comigo a gritar um grito fininho que me dá cabo dos ouvidos.
Cerro os punhos e rosno quando são machos com aquela condescendência oiticentista de dizer "portugueses e portuguesas" com a entoação de quem se orgulha em mostrar que se é moderno ao ponto de não se esquecer das mulheres. Diz aquele sorriso meio-engatatão, meio-paternal: "Ah pois! Eu faço questão de incluir o mulherio!"
Vamos lá por partes. Somos todos portugueses. Todos nós, seja de que sexo ou de que sexualidade formos, somos portugueses. Somos o povo português ou a população ou a nação portuguesa.
Como somos todos portugueses quando alguém fala em "portugueses e portuguesas" está a falar duas vezes das mulheres portuguesas. As mulheres estão obviamente incluidas nos portugueses. Mas, ao falar singularmente das portuguesas, está-se propositadamente a excluir os homens, como se as mulheres fossem portugueses de primeiro (ou de segundo, tanto faz) grau.
Somos todos seres humanos. As mulheres não são seres humanas. Quando se fala na língua portuguesa não se está a pensar apenas na língua que falam as portuguesas. É a língua dos portugueses e doutros povos menos idiotas.
"Portuguesas e portugueses" não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez, uma piroseira e uma redundância que fede a um machismo ignorante e desconfortavelmente satisfeitinho.
Somos todos portugueses e basta.
Miguel Esteves Cardoso

Selecção de António Tapadinhas





domingo, 28 de fevereiro de 2016

FALANDO DE MUDANÇA


Abdul Cadre
  
Dizia o outro, certamente carregadinho de razão, que todo o mundo é composto de mudança,[1] mas eu não sei se ele também tinha em conta as mudanças que nada mudam e os feitios empedernidos daqueles indefectíveis das aparências, que dizem amiúde «a mim ninguém muda» ou, na versão mais popular, «a mim ninguém me vira». Face a isto, bem andava um outro que não se cansava de dizer que só os burros é que não mudam.
A capacidade de mudar, não só de opinião, mas sobretudo de comportamento e de vida, insere-se no mais comum dos processos de renovação do pensar e do agir, das estações, do tempo, da natureza. Tem sobremaneira a ver com aquilo que é mais evidente no comportamento daqueles que vivem de propósito: o entusiasmo, que não devemos confundir com o seu aspecto patológico, que é a paixão, que se alimenta da angústia, ao passo que o grande combustível do entusiasmo é a alegria.
Mudar depende da experiência e «a experiência, que é madre das cousas, nos desengana e de toda a dúvida nos tira»[2]. E experiência não é aquilo que se repete até nos tornarmos hábeis, é o que se acumula em discernimento e em ponderação à medida que nos desenganamos. Ser ligeiro, volúvel, mudar por mudar, não é mudar, é mundanar.
De opinião se mude quando de razão e experiência se use.  «Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito».[3] «Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia»[4].
Experiência, entusiasmo e alegria são valores comportamentais de muito difícil uso nos tempos que correm, tão dados à infantilidade das pequenas satisfações efémeras, aos «gadgets» proporcionados pelas novas tecnologias, que são precisamente para nos infantilizar que servem; infantis sem a candura das crianças, sem capacidade para nos maravilharmos. Se aqui houver entusiasmo, não será o de quem aprende a jogar ao berlinde, mas tão-só o de quem quer colher a vantagem de ter um abafador.
Talvez surja o riso – pode bem ser! – mas como um sucedâneo da alegria, apenas para uso externo.
A mudança corrente é a da margarina com sabor a manteiga e dos pozinhos de perlimpimpim em água salobra como sumo de qualquer coisa que o rótulo diz, mentindo. Esta é a mudança corrente, a mudança dos que não mudam, dos que consomem ordeiramente o que se lhes manda que consumam.
E vem o da cantiga e diz: «Para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim» e logo os burros espetam as suas enormes orelhas, mas não escutam; se ouvem, não entendem…
   

[1] Soneto de Camões.
[2] Esmeraldo de Situ Orbis (cerca de 1507), obra do cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira, dedicada a D. Manuel I. A palavra Esmeraldo é um anagrama em latim partir do nome de Manuel (Emanuel) e Duarte (Eduardus). «De Situ Orbis» significa «dos sítios da Terra.
[3] William Blake.
[4] Fernando Pessoa.

sábado, 27 de fevereiro de 2016


Fotografia de António Dias




"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."

Platão

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A nova face da exaltação da morte


Renan Springer de Freitas
Professor de Sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais - Brasil

Em 13 de setembro de 1997 um jovem de 18 anos foi abatido ao invadir, portando um rifle, uma área militar de acesso restrito na fronteira entre Israel e o Líbano, sob controle de Israel. Nessa mesma data seu pai, Hassan Nasrallah, o líder do grupo xiita Hezbollah, se dirigiu a uma plateia de centenas (ou talvez milhares) de pessoas (conforme se vê no vídeo cujo link de acesso é http://www.youtube.com/watch?v=HalvZUHlenU) para dizer, sem verter uma única lágrima, que se sentia “orgulhoso” por Alá tê-lo incluído entre aqueles que têm um mártir na família. Antes ele se sentia envergonhado perante os pais de outros mártires, mas, agora, graças à “generosidade de Alá”, ele também era o pai de um mártir. Disse ainda que seu filho adentrou a área militar “voluntariamente e sabendo bem o que estava fazendo”. Ele agiu como um “verdadeiro mujahideen” (combatente islâmico). Sua morte não significava, por isso, uma vitória do inimigo, mas “uma vitória e uma honra” para o Hezbollah. O exemplo de seu filho, ele conclui, deverá ser ensinado às gerações futuras.

A ideia de que um “verdadeiro” combatente é aquele que não sobrevive é sem precedentes, e parece ser característica de um “mujahideen”. Assim, quando a guerra da Bósnia terminou todos os combatentes estrangeiros tiveram que deixar o país, recebendo ordens para fazê-lo em 1996. Em vez de celebrarem o fim da guerra e a oportunidade de voltarem em segurança para casa, como o faz qualquer combatente, de qualquer época, os “mujahideen” lamentaram e choraram. Eles esperavam morrer como mártir e, naquele momento, essa chance lhes foi tirada, conforme consta no sítio http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150704_bosnia_jihadismo_mu_cc.

A chave para entender uma novidade dessa natureza não me parece estar no islamismo, mas em uma tradição peculiarmente alemã de desdém pelo senso comum e pelos objetivos da vida humana tal como vistos pelo senso comum. Conforme ensinou Leo Strauss, em uma Conferência proferida em 1942 sob o título “German Nihilism”, essa tradição, sedimentada ao longo do séc. XIX, elevava as virtudes militares a um patamar superior de dignidade. No período entre guerras ela ganhou muitas porta vozes, dentre os quais se destaca Ernst Jünger, um combatente alemão na I Guerra que sobreviveu a nada menos que catorze ferimentos, cinco dos quais resultantes de tiros de fuzil. Para ele, um homem que jamais enfrentou o perigo da morte em um combate está em falta com sua própria condição de homem. A exaltação da morte tal como se dá entre os mujahideen me parece, sobretudo, uma radicalização dessa concepção desenvolvida na Alemanha entre guerras. Eu diria, sem ter espaço aqui para desenvolver, que é uma versão xiita, ou talvez islâmica, do niilismo alemão.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

“Em Bicos De Pé No Templo Da Alma”


Penetro apressado nos templos da Alma Algo me diz para ter calma Entro meio insípido em bicos de pé Tento evitar qualquer barulho Vou quase a pairar Ando o mais suavemente possível Avanço no silêncio possível Deixo-me de propósito ser visível aos Supremos Grandes Mestres Nem um pedaço que seja de pó esvoaça à minha passagem A poeira resta assente resvés ao chão Há como que uma aura sagrada no ar Nada de ímpio me acompanha Chego a ouvir o singelo barulho da pureza Algo de misterioso me projecta Sinto a mão invisível do saber bater-me nas costas O impulso empurra-me firme para diante Meio em corrida deixo-me carregar pelo entusiasmo envolvente Milagres perseguem-me e formam-me a espessa aura Vou protegido pelas circunstâncias e pelos bons augúrios Subo as escadas da temperança Inicio-me uma quantidade de vezes a cada passagem Atravesso indelevelmente fronteiras do invisível para o aqui e agora Faço o caminho inverso e vice-versa… Impele-me a força de vontade e a esperança juntas… Escrito em Luanda, Angola, a 23 de Fevereiro de 2016, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Homenagem ao todos os Rotários/Rotarianos do Mundo e ao Rotary Internacional, que hoje comemorou 111 Anos de Filantropia e de Existência, desde sua fundação em Chicago… Parabéns a todos os Clubes Rotários da Terra, sobretudo, por todo o bom e incansável trabalho que têm feito em prol daqueles nossos semelhantes que, tanto têm necessitado de carinho, ajuda e amor, Mundialmente…


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Poema da Semana


ÉVORA - Cidade Museu

Convido os meus amigos a uma visita a esta histórica cidade alentejana e ali se deixar conduzir ao passado no autocarro do tempo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim-de-semana com chuva persistente e trovoada como solista. Ontem à noite, no regresso a casa, na Ponte Vasco da Gama, impressionavam os rasgões luminosos sobre Alcochete. 


Mas aquilo que pareciam vir a ser dois dias de gato em sofá, acabaram com saídas de som e imagem. 

Esta tarde toda a família rumou ao Centro Cultural de Belém para vermos a World Press Photo que à semelhança das exposições anteriores, mais uma vez ilustrou como os media mundiais se desdobram numa narrativa das desgraça e da infelicidade. 
Chocou-me particularmente o instante do disparo com que um rebelde abateu um homem suspeito de roubar uma ventoinha. 
O caminho da paz ainda é tão longo e complicado. 

Em contrapartida, o serão de Sábado teve a magia de um concerto de Jonh Cale. 

Uau! Duas horas repartidas entre sonoridades planantes que nos faziam sentir numa viagem entre as estrelas e aquele rock’rol com sotaque americano em que a melodia nos levava a balançar o corpo nas cadeiras. 
Histórias de solidão e desejos, sonhos e contos de amor, harmonias sublimemente interpretadas por quem sempre procurou distinguir-se por cultivar uma atitude. 
E a memória dos Velvet, ainda presente, como que assinalando que, mesmo na sequência de rupturas, os percursos humanos são cumulativos. 

We want more! We want more! We want more! 
Pena foi que o encore tenha sido tão só o “Aleluia” de Leonard Cohen, ao piano. 



“-Ó pai! Abotoa-me o carapuço.” –Disse a Matilde, à saída do pavilhão da piscina, quando uma rajada de vento lhe descobriu os cabelos. Devo ter transmitido uma qualquer admiração a respeito do verbo e o pardalito ripostou em acto contínuo: “-Sim, este carapuço é abotoante, não vez que tem aí um abotoador?” –Apontando a presilha aderente que permite ajustar o capucho à medida do rosto. 



Será que se perdeu o juízo e a decência? 
Então um telejornal da TVI não transmitiu uma praxe que envolveu aquilo que seriam, se consumados, actos sexuais não consentidos? 

Será que só pararemos na recuperação integral do circo romano? 



E no meio da palhaçada que predomina na vida pública, depois do governo ter nomeado um homem saído da administração da Portucel para tutelar as florestas, a SONAE nega ter pedido tratamento especial para reforçar a sua posição naquele potentado da produção de papel. 



Lá longe, na Universidade da Califórnia, no âmbito de um doutoramento sobre genética da longevidade, o biólogo português Nuno Arantes de Oliveira conseguiu prolongar a vida de um verme de quinze a vinte dias para mais de cento e oitenta o que, à escala humana, seria o equivalente a prolongar uma vivência média de setenta e cinco para seiscentos e setenta e cinco anos. 
Se bem que ainda sem aplicações ou desenvolvimentos imediatos – o que, em minha opinião, abona a favor do Autor – estes estudos podem vir a subsidiar investigação no domínio do controle de doenças como a Parkinson, Alzheimer ou a osteoporose. 

Estão a ver como nós somos tão bons como os melhores quando nos libertamos da canga partidocrática que nos sufoca? 

Felizmente, neste caso, o cientista regressou ao país e, para bem de nós, para se lançar no mercado empresarial de biotecnologia. (1) Trata-se da economia do futuro, aquela que caracterizará os novos países do primeiro mundo e, se queremos lá estar, é com gente desta que poderemos aspirar a tanto. 


Um exemplo a destacar e, por parte das nossas autoridades, quer políticas, quer universitárias, a incentivar; mas essas têm mais com que se preocupar, é claro. 



Ontem tivemos a festa benfiquista que inaugurou um novo estádio de futebol construído em tempo recorde – dois anos – e que, a todos os níveis, passa a ser o melhor do país e um dos eleitos a nível europeu e mundial. 

Voltarei a falar neste assunto. 



Por hoje ofereço-me à leitura 
que a chuva continua a fazer ondular os reflexos luminosos nas poças de um solo saturado. 


Alhos Vedros 
 26/10/2003 


NOTA 
(1) Firmino, Teresa, UM INVESTIGADOR, DUAS EMPRESAS DE BIOTECNOLOGIA, p. 37 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Firmino, Teresa, UM INVESTIGADOR, DUAS EMPRESAS DE BIOTECNOLOGIA, In “Público”, nº. 4964, de 24/10/2003

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (172)

Zé Povinho, Bordalo Pinheiro, 1882
Album das Glórias, n.º 32

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."


Guerra Junqueiro, 1896.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

PEQUENO APONTAMENTO SOBRE FILOSOFIA COM CRIANÇAS


Se me perguntassem diretamente o que é a Filosofia para Crianças responderia: “é o método de aprender a pensar”, o que parece um contrassenso, uma vez que todos nós pensamos e o ato de pensar é uma competência natural em todo o ser humano. Descartes na famosa obra Discurso do método afirmou a este propósito que “o bom senso é o bem mais bem distribuído”, uma vez que todo o ser humano é um animal racional. No entanto, pensar bem e argumentar em conformidade é algo que se pode treinar, desde a infância.

A Filosofia para/com Crianças surge com o filósofo e pedagogo norte- americano, Matthew Lipman que, nos finais da década de 60, enquanto professor da universidade, chegou à conclusão que os seus alunos não sabiam pensar, pela forma incoerente e, por isso mesmo, ineficaz, que acompanhava as reivindicações estudantis que floresciam naquela época (FIGUEIROA REGO, M.J.). Surgiu então uma metodologia designada por Filosofia com Crianças. O próprio autor criou Manuais e escreveu histórias que serviram e servem de base para a reflexão. A Pimpa, por exemplo é um conjunto de pequenas histórias que refletem a vivência de crianças, o seu dia-a-dia e as escolhas que têm de fazer e que as convidam a refletir.

A filosofia com crianças não é mais do que uma metodologia do pensar, melhor dizendo, do pensamento crítico e interventivo. Sendo assim, iniciou-se desde essa data e até hoje a divulgação e a prática desta metodologia, com objetivos específicos, a saber:
- Desenvolver competências argumentativas (logos no sentido grego do termo, como pensamento e palavra);
- Estimular o pensamento crítico e interventivo;
- Fomentar a criatividade;
- Respeito pelas opiniões do outo (escuta ativa).

Perante um texto, forma mais ortodoxa, ou a partir de uma simples imagem, os jovens são convidados a realizar uma “leitura partilhada”, seguida de uma Agenda conjunta, na qual se levantam temas / problema, que culmina num debate reflexivo. Cada um por sua vez, sem interromper o outro (escuta ativa e respeito pela opinião do outro), vai-se construindo um caminho comum. Desta forma os mais pequenos que nunca tiveram contacto com os autores da filosofia discutem sobre assuntos tais como a amizade, certo/errado, agir bem /agir mal, entre outros. Desta forma e se sem dar conta entram no mundo da reflexão, por outras palavras, treinam o pensamento que lhes foi dado naturalmente, mas que carece de treino. Tal como o corpo precisa de exercício, também a mente precisa de se exercitar. Sem se dar conta entram nas reflexões mais profundas tratadas nos clássicos, tais como a beleza do Banquete, a moral kantiana e os temas da liberdade, sempre, claro, tendo em conta o seu nível etário.

O professor ou facilitador, à maneira socrática, conduz os pequenos interlocutores para o diálogo, para a partilha e para a reflexão em ambiente confortável, democrático e propício à descoberta. Daí que a designação correta será “Filosofia com Crianças”, porque são elas que constroem a aula, com a supervisão do professor. A aula é devolvida ao jovem e é ele (em grupo) percorre os caminhos da descoberta filosófica. O adulto apenas pergunta e com as perguntas/questões leva os jovens para os trilhos da reflexão sobre problemas, muitas vezes do quotidiano, outras vezes sobre temas mais profundos, desde a ética até à metafísica. Tanto se discute sobre a legitimidade de roubar, como da existência de Deus e da alma. E tudo isto é possível com crianças pequenas em início da escolaridade.

A minha experiência nesta área diz-me que é a hora de começar efetivamente nas escolas e que a formação de professores poderia considerar esta opção nos estágios profissionais.
 Para quem defende, como Piaget defendia, que a filosofia é coisa do pensamento formal, ficaria deveras maravilhado com a capacidade de abstração, crítica e de intervenção das crianças de pouca idade.

Já existem muitas experiências em Portugal, no Brasil e em outros países da Europa e com excelentes resultados. Algumas escolas implementaram no primeiro ciclo esta metodologia, que pode ser alargada até ao 9º Ano. Consta que chegados ao ensino secundário estes alunos estão “lançados na arte de pensar” e mais aptos e motivados para aprender. Par além do simples treino do pensar, desenvolvem-se competências no domínio da ética, do civismo e da argumentação crítica.

Luís Mourinha


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XVIII) Graffitar a Literatura


Graffitis fotografados por Luís Souta, 2015.
Cascais, Travessa do Visconde da Luz


«O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia»
(Ruy Belo, “Morte ao meio-dia” in Todos os Poemas, 2000: 364)

Estes graffitis pintados, em duas paredes contíguas, por Youth, no âmbito do Muraliza 2014, constituem uma homenagem gráfica à vila piscatória de Cascais. Raul Brandão refere-a no livro quase centenário (1923) Os Pescadores, no capítulo “Lisboa, Setúbal, Sesimbra e Caparica” (pp. 173-189). A edição dos Estúdios Cor (1973, 227 p.) abre com o “auto-retrato” do autor:
«Este tipo esgalgado e seco,
já ruço,
que dorme nas eiras
ou sonha acordado pelos caminhos
sou eu.
e falo alto sozinho,
envolto na nuvem
que me envolve e impregna.
Que força me guia
e impele até à morte?»

Eugénio de Andrade complementa, na sua deslumbrante prosa poética, este retrato no capítulo que lhe dedica – “Quase uma glosa” – em Afluentes do silêncio (Porto: Ed. Inova, 3ª edição, Abril de 1974, pp. 125-129):
«Os olhos tinha-os azuis, de uma azul que nunca destingiu. Uns olhos que consumiu a sonhar. Sonhava impenitentemente porque, à sua roda, tudo morria à míngua de autenticidade. Isto lhe doía. Isto lhe doía mais do que a pobreza dos pescadores (…) De Raul Brandão (…) se poderia dizer (…) gastou-se a sonhar. Alguns dos seus sonhos são ainda os nossos – eis porque está tão vivo no nosso coração.»

Exemplo desta actualidade, foi-nos dado pelo realizador Manoel de Oliveira quando estreou, no Festival de Veneza de 2012, o filme O Gebo e a Sombra, baseado na obra homónima de Raul Brandão (1923).

Os Pescadores, dedicado por Raul Brandão (1867-1930) «à memória de meu avô, morto no mar», é um percurso, ao longo da costa portuguesa, iniciado no local onde nasceu (Foz do Douro), em Abril de 1920, e concluído em Sagres, em Agosto de 1922. Brandão percorre as nossas múltiplas comunidades piscatórias descrevendo, com pormenor e detalhe, os seus diferentes tipos de barcos, de redes, de artes de pesca e, com «um certo exagero emocional tão seu característico», a vida daquela gente pobre e sofrida.

«Este homem é de instinto comunista. Se um adoece, os outros ganham-lhe o pão: recebe o seu quinhão inteiro. Se morre, sustentam-lhe a viúva e os filhos, entregando-lhe o ganho que ele tinha em vida. Dão ao hospital e ao asilo uma parte do pescado. Toda a gente tem direito a ir ao mar – toda a gente tem direito à vida. Vai quem aparece, desde que seja marítimo. Acontece que o barco leva hoje quarenta homens e leva vinte amanhã… O produto das artes é dividido em quinhões iguais pela companha. A pesca do anzol é uma espécie de cooperativa e a barca quase dos pescadores. (p. 181)

Raul Brandão deu-nos conta de uma outra viagem marítima, desta vez pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores (na companhia, entre outros, de Vitorino Nemésio), que decorreu entre 8 de Junho e «a noite de 29 de Agosto [de 1924] passo-a no tombadilho, sempre à espera numa sofreguidão de luz – e toda a noite é de trágica tempestade. No convés, só vejo negrume agitando-se num clamor. Mas de manhã a borrasca aplaca-se dentro da bacia de Cascais»

Quando este livro – As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens (1926) – foi reeditado pela Quetzal (2011, 205 p.), Gustavo Rubim, numa curta e interessante recensão (“Antropologia impura”, Público-Ípsilon, 29/04/11, p. 50), destacou esta vertente antropológica de Raul Brandão:
«Trata-se, admito, duma modalidade impura de antropologia, muito embora Brandão não se esqueça de observar tudo o que um bom etnógrafo deve observar: economia, religião, ritos funerários, modos de habitação, vida familiar, relação com  o ambiente, linguagem, etc. Não admira: a antropologia foi sempre impura ou, por outras palavras, foi sempre (continua a ser) literária.»

Luís Souta

Nota do Editor: Para ampliar as fotografias basta clicar em cima.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LUSOFONIA ECONOMIA E MERCADO


Um Desafio aos Grupos económicos do Espaço lusófono

Por António Justo

Num tempo em que a Europa se encontra em grande crise e as suas potências procuram beneficiar da sua posição económico-geográfica para proteger e fomentar os seus vizinhos mais próximos em detrimento dos países da periferia e benfeitorizando também as suas relações económicas com as suas antigas colónias, seria de grande oportunidade uma união de esforços em todo o território lusófono, não só no sentido do fomento de projectos culturais comuns mas especialmente na elaboração e fomento de um espaço económico comum que privilegie o parceiro lusófono tal como as potências privilegiam os seus parceiros imediatos.

Só em conjunto se conseguirá reagir contra o neocolonialismo das multinacionais das grandes potências interessadas em criar estruturas de dependência tecnológica e económica que amarram os países indefesos aos seus mercados e às suas condições. Disto deveriam estar conscientes os países do espaço lusófono. Um pensamento criativo conjunto, em termos de concepção e projeto futuro, podê-los-ia possibilitar passos alargados no sentido de superar o colonialismo económico das grandes potências, bem como o encalhe em nacionalismos fechados que uma História lúcida já não permite.

Sem tabus, seria óbvio fazerem-se reviver ideais formulados nos tempos do regime de Salazar – necessariamente adaptados às realidades dos países lusófonos actuais - e ver o que ele tinha realmente de visionário a nível de afirmação das antigas “províncias ultramarinas” como parte de um espaço económico comum, numa consciência de complementaridade.

Já no regime de Salazar se concebia a ideia de uma confederação do espaço de multiculturalidade e interculturalidade afro-luso-brasileira correspondente a um mercado comum a beneficiar do mercado europeu: „A formação de um grande e de um só mercado, assegurando a um tempo a comunhão de todos os territórios nacionais sem qualquer diminuição, bem ao contrário, da autonomia de cada um, rasgará horizontes tão vastos que neles caberá a igualdade efectiva de condições, seja qual for o chão português onde labutem, a quantos vivam para criação da riqueza nacional. „In http://eurohspot.fcsh.unl.pt/site/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=391 Não se perca tempo nem se continue a adiar a História com aconteceu no regime de Salazar e aconteceu especialmente no regime do 25 de Abril.

Numa altura em que a economia Portuguesa ainda se encontrava ligada às províncias ultramarinas portuguesas e à EFTA, entre 1960 e 1973 o rendimento nacional por habitante crescia a uma média superior a 6,5% ao ano! "Nos anos 60 e até 1973 teve lugar, provavelmente, o mais rápido período de crescimento económico da nossa História, traduzido na industrialização, na expansão do turismo, no comércio com a EFTA, no desenvolvimento dos sectores financeiros, investimento estrangeiro e grandes projectos de infra-estruturas. Em consequência, os indicadores de rendimentos e consumo acompanham essa evolução, reforçados ainda pelas remessas de emigrantes", constata a SEDES.

A EU (Zona Euro) beneficiou as infraestruturas portuguesas (autoestradas) mas destruiu a agricultura e as pescas e promoveu a desindustrialização do país. As mesmas consequências sofrerão países emergentes (como os do espaço lusófono) que verão as suas economias confrontadas e dominadas pelas multinacionais e amarrados a tratados comerciais e de investimentos internacionais do tipo TTIP que favorecem as grandes potências interessadas em mercados para exportação ou para fortalecimento das suas empresas.

O espaço da Lusofonia é extraordinariamente rico em recursos naturais, humanos e culturais e um excelente exemplo de interculturalidade. Urge portanto, na luta selectiva dos mais fortes, a união de forças no sentido da solidariedade construtiva entre os países mais fracos para não deixarem definir o seu futuro da economia pelos outros, que a exemplo dos bancos vivem bem dos “juros” que os clientes têm de pagar ad infinitum. Facto é que o tempo das economias nacionais já faz parte do passado; não se pode deixar a determinação do futuro ser só determinada pelo consumo e o lucro.

Portugal deveria estar muito interessado, como membro do grande mercado da zona euro, em favorecer o fortalecimento da economia e do intercâmbio da imigração lusófona no espaço europeu. A grandeza de um tal espaço e da população ofereceria a base necessária à formação de grandes grupos económicos com capacidade de concorrerem com os tradicionais grupos das multinacionais que hoje dominam. O espaço intercultural lusófono poderia tornar-se num exemplo de economia social do mercado.

Um tal projecto implicaria a formação de grupos de trabalho ad hoc (redes de técnicos e especialistas) a nível dos ministérios da economia e dos grandes empresários e Bancos dos diferentes Estados da lusofonia. Neste sentido deveriam trabalhar também as universidades de todo o espaço lusófono preparando o caminho com pesquizas, trabalhos de doutoramento e o intercâmbio na aplicação, no lugar, de um saber conectado e de orientação lusófona.

António da Cunha Duarte Justo

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (171)

Caim ou Hitler no Inferno, George Grosz, 1944
Óleo sobre Tela, 99x124 cm

Revolução

Pena que as revoluções
não as façam os tiranos
se fariam bem em ordem
durariam menos anos

liberdade sairia
como verba de orçamento
e se houvesse qualquer saldo
se inventava suplemento

pagamento em dia certo
daria para isto aquilo
o que sobrasse guardado
de todo o assalto a silo

mas o que falta aos tiranos
é só imaginação
e o jeito na circunstância
é mesmo a revolução.

Agostinho da Silva, in 'Poemas' 
Selecção de António Tapadinhas

sábado, 13 de fevereiro de 2016

     Assinalando o 110º aniversário do nascimento de Agostinho da Silva divulgamos o Boletim da Associação:

  nº 65   
Janeiro | Fevereiro 2016  

  



Pela voz de George Agostinho Baptista da Silva


                                              Me fiz gente se é que sou

                                              em Barca d'Alva do Douro
                                              para cima tudo celta
                                              para baixo tudo mouro


                                              o pior é que Alentejo
                                              e Algarve tendo nas veias
                                              como vou eu libertar-me
                                              de tão apertadas teias

 

                                              decerto não escapava
                                              se fosse intelectual
                                              como esses que tem havido 
                                              mais simples que Portugal 


                                              quem não for um mais o outro

                                              mesmo que em contradição
                                              será vencido da vida
                                              lhe desfeito o coração

                                              menos nadar que boiar
                                              é que é a sabedoria
                                              deixe a vida demonstrar
                                              que é a verdadeira guia

                                              e que é só ela quem sabe
                                              o bom rumo da nação
                                              e o porto a que vai chegar
                                              quer ela queira quer não.                                          
                                                                                           
Uns Poemas de Agostinho, Ulmeiro, 1989


  Diverso  e  Uno                    por Maurícia Teles da Silva  


                                                  Para Agostinho da Silva
                                                  13 de Fevereiro, no 110º re-nascimento 


Do tempo histórico a etapa
no verbo eterno presente
o espaço que nos escapa
tendo o agora por ausente

Diverso e integro Saber

de intrépido ousar
no que sustenta o Ser
autêntico no porfiar
 
em seu intento livre
e mais ainda no criar
a memória que vive
Obra de acreditar
 
que o tempo é só instante
a construir-se disperso
uno permanecer
mistério do Universo
 
de ínvio a claro caminho
humanamente se faça
grato Servir d'Agostinho
em Espírito renasça 




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

DATAS DAS SESSÕES DE APRESENTAÇÃO


DIVULGAÇÃO DAS SESSÕES DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO SOBRE AGOSTINHO DA SILVA

Depois de comunicação feita no Colóquio Internacional Agostinho da Silva, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o título de “O pensamento ecuménico de Agostinho da Silva”, as próximas serão:
- 11/3, ás 21,30h, na Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, apresentação de Luís Gomes e intervenção de António Tapadinhas (integrado no "Ciclo Agostinho da Silva nos 30 anos do Aniversário da CACAV" dinamizado pelo Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros).
- 19/3, ás 16h, na Casa Bocage, em Setúbal (Rua Edmond Bartissol, n.º 12), apresentação de Paulo Borges e moderação de Maurícia Teles (organização da Associação Agostinho da Silva).
- 2/4, ás 15,30h, na Associação Raio de Luz, em Sampaio, Sesimbra, apresentação de Pedro Martins (aqui, a apresentação integra-se num Encontro mais alargado que conta também com uma conferência sobre a poesia de Agostinho, de Risoleta Pinto Pedro, e um recital dos Jograis U-Tópico), organização do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva.
- 21/4, ás 18h, na Livraria Barata, Avenida de Roma, 11, em Lisboa, integrado no Ciclo "As Artes da Misteriosofia", organização de Maria Azenha, Pedro Martins e Risoleta Pedro. O Programa completo desta sessão, neste Ciclo, é o seguinte: Espiritualidade e Educação em Agostinho da Silva (Luís Santos); Sampaio Bruno e os Cavaleiros do Amor (Miguel Real); textos declamados (Maria Azenha).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Fisális



por Miguel Boieiro

Há uma boa dúzia de anos trouxe de Ponta Delgada uma compota de frutos que, de todo, desconhecia. Não eram araçás, esses conhecia-os eu bem, pois o saudoso ti Manel das Doze fez o favor de me trazer da Terceira, dois pequenos araceiros para plantar no quintal. Enquanto não geou, o que aconteceu durante sucessivos invernos, fomo-nos deliciando com essa espécie de goiaba selvagem.

O tal frasco de compota tinha uma etiqueta que dizia “doce de capucha”. E sabem que andei um ror de tempo sem conhecer o que era aquilo. Por burrice, sem dúvida, pois com tantos amigos açorianos, nunca os indaguei sobre tal matéria. Agora já sei. Afinal a “capucha” é vocábulo das ilhas para “fisális”, aquele frutinho, hoje tão em moda nos estabelecimentos “gourmets”. Contudo, alquequenge  tem sido, desde há séculos, o nome vulgar atribuído a esta interessante solanácea, que consta na maior parte dos tratados de fitoterapia. Depois de muito hesitar, resolvi titular este artigo por “fisális”, já que se trata da designação atualmente mais difundida. E compreende-se porquê: é deveras bastante mais fácil de pronunciar.

A Physalis alkekengi L é uma planta anual da família das Solanaceae que cresce espontaneamente nos campos de cultivo, figurando, muitas vezes, como espécie ornamental.

Nos Açores, e não só, esta herbácea é quase infestante, pois reproduz-se com excessiva facilidade. Julga-se que ela veio da América do Sul, mais propriamente da Colômbia, país em as produções atingem razoável valor comercial.

Pode chegar aos 60 cm de altura, preferindo solos calcários até à altitude de 1500 metros. O seu caule é erecto, anguloso, ligeiramente pubescente e, amiúde, ramificado. As folhas apresentam-se aos pares e são grandes, alternas, ovais-pontiagudas e pecioladas. As flores, solitárias, formam um pequeno cálice e são hermafroditas (na mesma flor encontram-se órgãos masculinos e femininos) e esbranquiçadas. Finalmente, os frutos, globulosos, mais pequenos do que cerejas, são amarelos ou alaranjados. Por vezes, fazem lembrar uma gema do ovo em miniatura. Encontram-se revestidos de uma membrana verde que, pouco a pouco, vai ficando cor de palha e quase transparente, quando o fruto amadurece. Esta característica determina que o alquequenje seja também conhecido como “planta das lanternas chinesas” ou “bexiga de cão”.

Quimicamente, refere-se um princípio ativo que é a fisalina. Possui também vitamina C, ácido cítrico, ácido málico, glícidos, pectinas e carotenos, para além de alcalóides, como é apanágio de, praticamente, todas as solanáceas.
Entre as suas propriedades, conta-se a de ser depurativa, diurética, emoliente, expectorante, febrífuga e sedativa.

Em fitoterapia, utilizam-se as folhas, essencialmente para aplicações externas, e os frutos. Estes podem consumir-se frescos, secos ou em pó.

Fleury de la Roche, em “Las Plantas Bienhechoras” (versão em castelhano), recomenda a cataplasma das folhas frescas esmagadas para aliviar as inflamações e a infusão de 50 g dos frutos secos num litro de água, para cálculos renais, hidropisia, gota e entorpecimentos viscerais.

Por sua vez, Abdelhaï Sijelmassi, em “Les Plantes Médicinales du Maroc”, advoga que os doentes com taxas elevadas de ácido úrico devem beber três chávenas por dia da decocção de 20 g de bagas secas fervidas num litro de água.

O mesmo autor aconselha prudência quando se ingere os frutos frescos, pormenorizando que não se devem comer mais do que trinta bagas por dia e jamais verdes.

A precaução deverá ser maior nos países tropicais, visto que vegetam espontaneamente cerca de meia centena de espécies “physalis”, sendo algumas bastante tóxicas.

Porém, entre nós, europeus, os sumarentos frutos da espécie “alkekengi” são apreciadíssimos em saladas de frutas e pastelaria, tendo um sabor agridoce muito delicado.

AGOSTINHO DA SILVA: PENSADOR UNIVERSAL DO TEMPO PRESENTE


Comemoram-se, a 13 de Fevereiro de 2016, 110 anos do nascimento de Agostinho da Silva e a sua memória e a fecundidade do seu pensamento e obra não cessam de se tornar mais vivas. É já um lugar comum reconhecer que Agostinho da Silva anteviu há cerca de meio século temas, questões e desafios cruciais da crise do mundo contemporâneo, para os quais apontou soluções e caminhos que, com toda a sua problematicidade, não deixam de ser hoje muito pertinentes.

Agostinho foi um pensador original de todas as experiências fundamentais do ser humano, desde a espiritualidade e a religião até à política. Além disso, foi um tradutor criativo, poeta e escritor de elevado nível, um educador activo na criação de múltiplos centros de estudos e universidades.

A sua obra de vida, escrita e pensamento transmite-nos uma poderosa visão alternativa aos rumos ainda dominantes, mas cada vez mais críticos, do paradigma globalizado de consciência e de civilização. Agostinho é o visionário de um outro mundo possível à escala planetária, radicado numa espiritualidade emancipadora da consciência, no diálogo compreensivo e fraterno entre religiões e culturas, aberto a crentes e descrentes, na transcensão de velhos modelos e antinomias pedagógicas, políticas, económicas e sociais e numa abertura amorosa do humano a todos os seres vivos e à Terra.

Agostinho pensa também o papel mediador que na criação desse mundo podemos ter, cada um de nós e as culturas portuguesa, lusófona e ibero-americanas, em diálogo e cooperação fraternos com todos os povos e culturas.

É assim o momento de repensar Agostinho crítica e criativamente, quer o seu pensamento propriamente dito, quer as vias que a partir dele, das suas fontes e das suas questões se abrem para uma melhor compreensão do tempo presente que ajude a superar a crise que hoje somos. É este o objectivo deste Colóquio Internacional, que reúne especialistas dos estudos agostinianos e uma nova geração de jovens investigadores, numa abordagem multidisciplinar que abra caminhos novos para uma melhor compreensão da complexidade e fecundidade do pensamento e obra agostinianos.

Programa do Colóquio Internacional

AGOSTINHO DA SILVA: PENSADOR UNIVERSAL DO TEMPO PRESENTE

16 e 17 de fevereiro de 2016, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Anfiteatro III, Entrada Livre

PROGRAMA

Iº DIA – 16 DE FEVEREIRO

09h30 – Abertura do Colóquio, por Paulo Borges e Miguel Real
09h45 – Sessão 1 (Espiritualidade e Religião I) Moderação: Fabrizio Boscaglia
09h45 – Luís Santos, O pensamento ecuménico de Agostinho da Silva
10h05 – Manuele Masini, A Idade do Espírito: uma leitura de Agostinho da Silva à luz de Gioacchino da Fiore
10h25 – Annabela Rita, "No espelho d'água da vida" (evocação)
10h45 Debate
11h15 – Intervalo
11h30 – Sessão 2 (Do Passado ao Futuro) Moderação: Paulo Borges
11h30 – Adelina Andrês, A Humanidade de Agostinho, um Presente que Passado e Futuro oferecem para desfrutar
11h50 – Carlos Carranca, Agostinho – um ponto de vista
12h10 – José Eduardo Reis, Agostinho da Silva e a tomada de consciência do alimento: convergências com posições doutrinais de Amílcar de Sousa, presidente da Sociedade Vegetariana do Porto do primeiro quartel do século XX, e com a dimensão ética dos “food studies”
12h30 – João Rodil, Cumprir Agostinho
12h50 – Debate
13h20 – Almoço livre
14h45 – Sessão 3 (Educação e Criatividade) Moderação: Giancarlo de Aguiar
14h45 – Amândio Silva, Agostinho e a Universidade
15h05 – Maurícia Teles, Liberdade, Amor e Criatividade, em Agostinho da Silva
15h25 – Risoleta P. Pedro, O fingimento poético em Agostinho da Silva – máscara, ficção e verosimilhança
15h45 – Debate
16h15 – Intervalo
16h30 – Sessão 4 (Espiritualidade e Religião II) Moderação: Dirk-Michael Hennrich
16h30 – Fabrizio Boscaglia, Agostinho da Silva e o Islão
16h50 – Pedro Martins, Agostinho da Silva, o marrano do Divino
17h10 – Paulo Borges, Espírito Santo, Zen e o novo paradigma da consciência em Agostinho da Silva
17h30 – Debate
18h00 – Intervalo
18h15 – José Adelino Maltez, Agostinho. Da aldeia à república universal (Moderação: Paulo Borges)
18h45 – Encerramento do Iº dia

IIº DIA – 17 DE FEVEREIRO


9h30 – Sessão 5 (Filosofia e Pensamento I) Moderação: Dirk-Michael Hennrich
9h30 – Carlos Silva [lido por Paulo Borges], Efeméride do pensar (e não Agostinho da Silva efémero) – Uma cisma cartesiana
9h50 – Sofia A. Carvalho, O terrível mistério de Diotima: considerações sobre ascese e imaginação em Agostinho da Silva e Friedrich Hölderlin
10h10 – Maria Celeste Natário e Maria Luísa Malato, Conversa com Diotima: Do Estrangeiro em Agostinho ao Estrangeiro em Albert Camus
10h30 – Rui Lopo e Felipe Delfim Santos, Agostinho da Silva e Delfim Santos: uma correspondência cultural e filosófica
10h50 – Debate
11h20 – Intervalo
11h35 – Sessão 6 (Espiritualidade e Religião III) Moderação: Giancarlo de Aguiar
11h35 – Pedro Teixeira da Mota, Agostinho da Silva e a Tradição Espiritual Portuguesa
11h55 – José Manuel Anacleto, Agostinho da Silva e a liberdade radical
12h15 – Manuel Gandra, A Terceira Revelação
12h35 – Debate
13h05 – Almoço livre
14h30 – Sessão 7 (Lusofonia e Brasil) Moderação: Fabrizio Boscaglia
14h30 – Giancarlo de Aguiar, A Cultura Indígena do Brasil nos ensaios de Agostinho da Silva
14h50 – Dirk-Michael Hennrich, Reflexão à margem da ‘Teoria do Brasil’ : Um meio século depois
15h10 – Renato Epifânio, Em diálogo com Agostinho da Silva: repensar a Lusofonia no século XXI
15h30 – Debate
16h00 – Intervalo
16h15 – Sessão 8 (Filosofia e Pensamento II) Moderação: Paulo Borges
16h15 – Pedro Vistas, “Antes teor que teorema”: do amor pela sabedoria à Sabedoria do Amor
16h35 – Miguel Real, Agostinho da Silva e o Providencialismo Português do Século XX
16h55 – António Braz Teixeira, Para uma visão de conjunto do pensamento filosófico de Agostinho da Silva
17h15 – Debate
17h45 – Intervalo
18h00 – Miguel Real, Apresentação do livro Agostinho da Silva. Uma Antologia Temática e Cronológica (org. Paulo Borges), 3ª edição, Âncora Editora (Moderação: Fabrizio Boscaglia)
18h20 – Conferência de Encerramento: Eduardo Lourenço, Filosofia e Profetismo (Moderação: Paulo Borges)

Comissão Científica

Paulo Borges
Miguel Real

Comissão Organizadora

Paulo Borges
Fabrizio Boscaglia
Dirk Henrich

Entrada Livre
Anfiteatro III
Metro: Cidade Universitária

Organização: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Apoios: Associação Agostinho da Silva / Círculo do Entre-Ser
 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Sé de Lisboa



Destruições, Reconstruções, Confusões, Perseguições


por Franscisco Gomes Amorim

Já falámos do Terramoto de 1755. Destruiu um monte de coisas, montanhas de coisas, igrejas, palácios, o famoso e misterioso cais do terreiro do Paço, em Lisboa não só em Lisboa como em muitas outras localidades.

Portugal, rico, com o ouro do Brasil, de repente ficou pobre. Correram ajudas de outros países, principalmente da Alemanha e não dos nossos tão antigos quanto estimados aliados britânicos.
Uma das igrejas que sofreu grande destruição foi a Sé de Lisboa. A Sé, monumento histórico, começada a erguer (?) segundo consta em cima duma mesquita, no tempo de Afonso Henriques, logo após a conquista de Lisboa, no século XII, foi sempre sofrendo (ou beneficiando?) alterações, modificações, confusões, pelo menos até ao século XVIII. E continuou.

Começou a ser levantada a partir de 1147 em estilo românico e terminou nas primeiras décadas do século XIII. O projeto é semelhante à da Sé de Coimbra, já que seu primeiro arquiteto foi Mestre Roberto, que trabalhou na construção da Sé de Coimbra, na de Lisboa e do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Entre os séculos XIII e XIV foi construído o claustro em estilo gótico no reinado de D. Dinis.  Seu sucessor, Afonso IV, modificou a parte traseira da igreja românica, ordenando a construção de uma cabeceira para ser utilizada como panteão familiar. A vontade do rei está expressa no seu testamento, datado de 1345, no qual diz que ".... Porem D. Affonso IV. pella graça de Deus Rey de Portugal, e do Algarve, .... e querendo mais acrescentar em esta obra para Deus ser louvado, e para me dar el galardom nossa santa gloria do Paraizo.... "

Apesar da proibição medieval de laicos serem enterrados na capela-mor, foi aberta uma exceção para D. Afonso, pelo seu desempenho heróico na Batalha do Salado (1340). A nova cabeceira começou a ser construída na primeira metade do século XIV, mas as obras só terminaram nos inícios do século XV, durante o reinado de D. João I. No século XIV, Lisboa e a Sé foram afetadas por vários terramotos. Um, muito forte, no início do século XV causou modificações nas obras. As torres terminavam em pináculos e a torre sobre o cruzeiro tinha três andares, como se vê na gravura a seguir.

A Sé no século XVI – à esquerda a Igreja de Santo António... de Lisboa

Ao longo dos séculos a Sé foi decorada com vários monumentos e altares, a maioria dos quais se perdeu ou encontra-se hoje dispersa em outros imóveis. A capela-mor abrigava o túmulo com as relíquias de São Vicente, que foi decorado por volta de 1470 com um grande retábulo pintado - os Painéis de São Vicente de Fora - de autoria atribuída a Nuno Gonçalves, pintor régio de Afonso V. Os painéis foram retirados em 1614 e encontram-se hoje no Museu Nacional de Arte Antiga.

Em meados do século XVII foi construída uma sacristia em estilo maneirista junto à fachada sul da Sé. No século XVIII a capela-mor gótica foi alterada em forma barroca. O grande Terramoto de 1755 destruiu a Capela do Santíssimo, a torre sul e a decoração da capela-mor, incluindo os túmulos reais, e o claustro. A torre- lanterna ruiu parcialmente e destruiu parte da abóbada de pedra da nave, que foi reconstruída em madeira.

A Sé após o Terramoto de 1755, por Jacques Philippe Le Bas (1757).
À esquerda a Igreja de Santo António, também em ruinas

Nas décadas seguintes a Sé passou por reformas e uma campanha de redecoração. Assim, entre 1761 e 1785 foi reconstruída a Capela do Santíssimo. Entre 1769 e 1771, grandes obras de restauro da torre sul da fachada, construção da cobertura de madeira da nave e remodelação da capela-mor, pintura da abóbada e decoração. As naves foram revestidas com decoração de madeira pintada e a nova cobertura de madeira da nave central foi dotada de óculos que permitiam a entrada de luz.

Antes de 1902

Grande parte das adições da era barroca foram retiradas a partir de uma grande campanha de restauro que ocorreu na primeira metade do século XX, cujo objetivo foi devolver à Sé algo de sua aparência medieval.  Nos primeiros anos de Novecentos, Augusto Fuschini pretendeu reinventar uma catedral medieval, com laivos de fantasia neogótica (como o projeto para a nova cabeceira) e neoclássica (com as grandes colunas para a entrada principal, cujos restos repousam ainda no claustro). A sua morte, em 1911, veio determinar o abandono do projeto.

Em 1911 (bastante horrível!)

Em 1911, o projeto de restauro foi retomado e modificado e passou a privilegiar as estruturas medievais ainda existentes. Foi reconstruída abóbada da nave central, a fachada foi restaurada e refeita e muito aumentada a rosácea, além de muitas outras alterações que deram ao edifício a aparência neorromânica que tem hojeApós novas reformas, como a nova rosácea, a Sé foi reinaugurada em 1940, numa grande solenidade no dia 05 de Maio de 1940.

Enfim, uma grande mistureba de estilos, e a garantia dum monumento do século XII!

A Sé, hoje, o eléctrico “28” e a Igreja de Santo António

Francisco Gomes Amorim
02/02/2016
www.fgamorim.blogspot.com