Vamos Embora meu Diário Querido!
Vamos andando para fora deste lar, Diário Amigo, tens-me
acompanhado anos sem fim, com calma e simpatia, nesta intimidade do meu quarto,
a única possível, ao pé do meu colega de habitação e eu acompanhado por estas fotos de família, única lembrança possível da minha vida anterior. Lá está essa
da minha senhora mãe com esse vestido preto e ajustado, o colar de pérolas
verdadeiras, elegante, esguia, um pé em frente de outro, as mãos cruzadas em
sinal de oração sustendo seu livro de missa, séria, um certo sorriso a
brilhar na sua boca, perto do meu pai, seu marido, esse senhor digno e bonito
que eu abraço, e esse eu sorridente e feliz vestido com o hábito de noviço
dominicano nos meus 17 anos, no dia em que ingressei no mosteiro para um dia
ser sacerdote pregador. Foto que assinala um dia alegre para essa ultra
católica mãe, triste para o não crente pai que assim perde um filho, cheio de
riso para mim que ansiava amar ao próximo e converter pecadores; tudo isso vejo
e lembro nos minutos de sair da cama, às cinco da manhã, para ir escrever no
gabinete que o lar disponibiliza para mim; pensamentos de lembrança com amor
que me fazem sorrir, quão crente e religioso era eu nesse tempo! Como eu
subordinava meu ser a quem eu pensava que fosse a vontade de Deus… tornar-me
sacerdote era o meu intuito…o silêncio do meu quarto permitia-me essa digressão
no tempo…um “ah! era assim que eu pensava”...”era assim que eu decidia”....
Sorri com simpatia pensando no meu ser de então.
Lembrava Querido Diário como eu mortificava a minha carne
com silícios e chicotadas para não ter pensamentos que furassem a minha
castidade agora entregue à Divindade… Meu colega de quarto resmungou entre
sonos e distraiu a minha recordação… que volta… e vejo-me sair desse mosteiro
poucos meses depois do dia da foto em procura de estudos e de amor, e romper a
castidade de amor e de sexo em que nem uma masturbação tive, para assim, em
estado de pureza louvar o Criador…Era assim o meu acreditar de então.
Lembrava-me disso nessa fria manhã do dia de me ir embora do
lar em que vivi, tão semelhante como me tinha ido fora do dito convento…
Pensando no meu futuro decidi que o que eu queria era defender os injustiçados,
ajudar os criminosos, socorrer os sem abrigo e decidi então ser advogado, uma
espécie de sacerdote cível sem obrigação de castidade, pobreza e obediência,
três votos que na solidão da casa de repouso lembrava-me serem sementes do meu
futuro… Sorri com essa lembrança nessa madrugada em que me mudei para casa da
mulher da qual eu estava namorado e que desejava… À saída do mosteiro não tinha
um amor para motivar o meu abandono da cela monástica, mas sim o tive para
fugir dessa outra subordinação às regras de uma casa de velhos, pensava eu na
hora de sair da cama, na minha intimidade, submissa às regras civis… Como
tentei de as manipular na solidão da minha escrita e nas minhas persistente
leituras no corredor, onde me sentava e onde me ia entretendo nesses nove anos
de enclausuramento causados pela manipulação mentirosa de uma minha descendente
que me classificara como incapaz de entender o real e fechara-me nessa
instituição. Quando abandonei o mosteiro tinha uma vida toda para construir e
ser alguém dedicado a trabalhar para outros; mas abandonar o lar de velhos era
um recuperar de uma vida de amor e de desejo com a mulher que amava, de calma e
simpatia, de namoro, de trabalho como se eu fosse entendido em aves e terra… pensava eu tudo isso no dia da minha partida, meditava na teologia que eu
estudei , nas qualidades de Deus, no amor fraterno… mas nessa madrugada meditava
em como amava essa carismática e atraente mulher, era recuperar uma vida que
tinha começado anos passados, uma atração que me fazia feliz, arriscado e
forte… era ser jovem outra vez, era para mim retomar uma vida a dois … para ser
autónomo e feliz... era tanto o meu pensar para essas horas da madrugada…
No lar lutei para restituir a credibilidade em mim, apostei
para que os outros fossem felizes, servi os meus colegas de idade, assim como
sobrevivi com o apoio incrível da mulher que amo e que me deu apoio
incondicional, assim como a minha outra descendente que não me largaram e
acompanharam-me durante anos… também com o apoio de uma “amiga gorda” com a
qual falava infinitamente… Ideias e lembranças, todas, na madrugada da minha
partida.
Saí do lar… tinha eu adoecido pela falta de dopamina, a
secreção que permite pensar, andar, calcular, o neurónio restabeleceu-se,
cresceu, recuperei faculdades com a ajuda de uma médica do lar… corri ao
tribunal, pedi a mudança de filha acompanhante, ganhei a minha causa, foi-me
dito que podia viver onde quisesse… cá estou eu com a senhora que acreditou em
mim e me fez feliz. Foi com ela que fomos de visita à minha vida anterior, aos
amigos das aldeias que estudei, sobre as quais escrevi quatro livros, a minha
família galega como se denominam a si próprios, dias de felicidade e de atenção
deles para connosco…de uma simpatia e bom tratamento que me permite esquecer a
violência com que me tratara a descendente que me fechou no lar que agora
abandonei finalmente… nem consigo lembrar as formas duras que foram empregues
por essa minha descendente e sua família para me desqualificar socialmente… para
que meus amigos e colegas fugissem de mim… para me isolar e não receber as
honrarias que a sociedade me quis dar… e que contudo teve um final feliz para
mim. Assim exponho as lembranças do apoio que pude dar aos velhos do lar, que
tenho escrito neste livro, que agora, por amor de Deus, só quero acabar para
não sofrer mais por causa das manipulações da dita descendente… perdi uma filha
e dois netos mas ganhei uma vida de amor e tranquilidade. O editor deste meu
livro e de amigos que me acompanharam nesses nove anos, eles sabem quem
são, têm convertido a minha vida no paraíso que sempre sonhei…
Tive dois mosteiros, o de sacerdote a servir uma divindade,
na qual eu já não acredito, e o de uma casa de repouso onde fui maldosamente
encerrado. Dos dois consegui safar-me sem grandes dificuldades ou tristezas
para minha vida que agora é feliz e plena… passei a ser um encantador de patos
como a mulher que amo me denomina, besos e abrazos Diário Querido que me tens
acompanhado toda a minha larga vida de quase 85 anos… tanto ano… Diário Amigo.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do
ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Março 2025
Notinha: Na foto, Raul Iturra, Quinta Barra Mansa, Fontanelas, Sintra, Portugal - fotografia de Maria do Céu Raposo.
3 comentários:
Ao longo destes meses, Raúl Iturra deu-nos a conhecer uma experiência traumática vivida no interior de um lar onde o "encarceraram". Todos estes textos, que partilhou connosco, são, segundo Pierre Bourdieu, «uma operação de objectivação de si, de auto-análise, de sócio-análise» ("As Regras da Arte: Génese e Estrutura do Campo Literário", Ed. Presença, 1996, p. 46)
Angel amigo, que bom. Que testemunho de vida mais precioso. Que final feliz. Muito bom vê-lo feliz com a sua companheira, com a vida. Muito se honra o Estudo Geral da sua colaboração. Já estamos prontos para as próximas.
Meus caros amigos Luiz e Luís Carlos são já muitos anos que compartilhamos vida, saber, atividades, carinho, tenho entregue a vós o que eu sabia como ser mais velho, vossa aceitação de mim tem sido também a base do meu prazer de viver e fazer antropologia, a minha ciência mãe para a análise social. Sobreviver a um injusto encarceramento num lar, foi praticar antropologia com os meus colegas velhos, o que manteve a minha mente em paz e ativa, converter o silêncio desse cárcere em análise científica, deu-me o carisma para tratar os meus amigos octogenários com autoridade, amor e alternativas para os entediantes dias de vida numa casa de anciões, de falar com eles, rir, trocar ideias e amor. Salvaram-me. Vossa companhia ajudou os meus esforços por objetivar minha dura vivência nessa casa, ajudou-me a entender o fim da vida de tantos tratos à distância por família e lar, com pouco de essencial da vida: amor e beijos materiais que mantêm vivos e alegres os que estão na recta final. Por isso objetivei, por isso aprendi o prazer da comunicação com fantasias de senilidade. Como convencer antropólogos para praticar este exercício como trabalho de campo e não apenas os símbolos da outra vida social. Estudos e fim de vida devem ser o trabalho de campo mais proeminente da nossa análise da mente cultural. Amo minha mulher, amo essa minha filha que ainda me acompanha, entendo mas não aceito essa que me encarcerou, amo esses funcionários amigos: africanos, asiáticos, árabes, um par de portugueses. Amo-vos. Besos e abrazos, orientem para entender velhos e crianças, a flor da vida.
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