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sábado, 29 de novembro de 2025

Museus de Seúbal

por Luís Santos

MUSEU DO TRABALHO MICHEL GIACOMETTI

Em Setúbal , perto da estação do Quebedo, ao lado do miradouro de Santa Luzia com magnífico quadro real sobre o estuário do Sado, Tróia e ainda uma nesga do Parque Natural da Arrábioda.

Um Museu dedicado aos setores de atividade profissional:

no primário, uma coleção de alfaias agrícolas, da pastorícia, etc, transportando-nos ao mundo rural mais tradicional;

no secundário, a indústria conserveira que no século passado atingiu cerca de 120 unidades fabris, de grande significado económico para a cidade, e agora nem uma. Também alguns testemunhos sobre a salinicultura.

no terciário, a Mercearia Liberdade que foi transportada inteirinha de Lisboa para Setúbal e ali se mostra como um dos exemplos do comércio tradicional do passado.

Entre o registo de vários testemunhos de operárias dessa indústria das conservas que levava peixe ao mundo, aqui fica um particularmente curioso


MUSEU de ARQUEOLOGIA e ETNOGRAFIA do DISTRITO DE SETÚBAL


Fomos lá ontem em visita de estudo.

A par de muita informação sobre a nossa espécie, de onde viemos, de quem descendemos, uma exposição permanente com informação pormenorizada alusiva às ciências que lhe dão nome, em termos universais e locais.

Também uma exposição temporária sobre Olaria ao tempo romano no baixo Tejo, entre a Quinta do Rouxinol (Seixal) e Porto dos Cacos (Alcochete).

Histórias e património desta nossa região há cerca de dois mil anos atrás... muito interessante e bonito de se ver.

MUSEU DE SETÚBAL / CONVENTO DE JESUS

Espaço ímpar integrado na museologia de Setúbal, o CONVENTO DE JESUS.

Dez anos a ser construído, concluído cerca de 1500,

o Portal feito com a pedra única da Arrábida,

a capela constituída por catorze painéis, um dos mais notáveis conjuntos da arte renascentista, atribuídos a Mestre Boitaca, o arqui-teto do Mosteiro de Santa Maria de Belém (Jerónimos).

Tudo isto, e muito mais, o Museu de Setúbal/Convento de Jesus, parte de um reconfortante passeio pela cidade, grandiosa a sua história.

sábado, 17 de agosto de 2024

Crónicas de Paulo Landeck


EM ÓRBITA

Desejou ter barba de raspar fósforos, e guardar no bolso universal uma pedra de isqueiro para desconsertar improvisado céu em noite escura, quando fugisse novamente de casa para viver nas dunas à beira mar.

Nessa altura, em que tudo se podia e quase nada era ainda permitido pelos pais, - nem mesmo fugir de casa, - sonhou desentortar um dos olhos com o garfo e cuspi-lo até à lua! 

Com um pouco de sorte, deixaria a sua marca em solo lunar. 

Mas...tinha uma dúvida, só uma dúvida: 

não saberia como piscar o olho mais tarde, ciente de que perderia o globo e a dúvida surgiria.

Tinha só esse problema com o olho, o seu olho, uma dúvida, sem o resto do corpo em redor para o chatear...imaginem se fossem duas, problemas a dobrar!

Lá bem ao alto, a singular dúvida persistiria, na direção do berlinde terrestre que reflectia vivo azul e deflectia algo que talvez nem sequer pudesse um dia voltar a vislumbrar; por seu deleite, e por todos os oceanos que o seu olho jamais derramaria, seguro no garfo ou longe de si, admitiu o fracasso da ideia.

Procurou renovar sofrimentos, queria agora polir o fosco iluminado pelo farol. 

Se esquerdo ou direito, não sabia precisar...e ao centro, sobejava o nariz.  

Das três, uma certa, libertou-se da armação devido à condicionada ilusão.

Tanto sonhou e sonhou para não deixar de quebrar óculos...e assim, possíveis fragmentos de janelas e mais janelas perdidas no espaço!

Ainda como consequência, o lume jamais se apagou das páginas bruxuleantes dos muitos livros lidos fora de horas. - Palavra de narrador. - Estava mais do que certo, destinado para toda a vida a sonhar acordado. - E talvez depois da morte fosse uma espécie de sonho ao contrário, quem sabe, livre de pesadelos. Não sei...sonhos e pesadelos sempre andaram de mão dada, pelo menos, na vida real de quem sonha acordado. - 

De nada lhe valeria fugir de casa...ainda que encontrasse seguramente conforto nas dunas de verão à beira-mar.

Naquele tempo, dificilmente existiria céu igual. 

Despertou. 

Pensou então em aprimorar nova técnica de olho posto na ambição. Quem sabe o que dali resultaria, se resolvesse explorar uma outra órbita à procura de familiar globo ocular, desta feita, de faca e garfo. - Nada como a boa educação, nunca sabemos quem pode estar à espreita numa qualquer janela indiscreta. -

Deu por si abraçado a um enorme sobreiro despido, inequivocamente envergonhado. 

Seria por causa do coração da menina gravado à navalhada pelo futuro marinheiro!? 

Faltava-lhe o garfo, afinal. 

Não sabia ainda, se o coração dela palpitaria sequer por tão notável entrega e delicadeza. 

Desconhecidas as contas, não passava de um sonhador preso no espaço, ansioso por regressar à Terra, tremendamente nervoso por avaliar todas as possibilidades de regresso. - 

Tinha visto uma vez em vários documentários, como as impressionantes expedições às florestas virginais, podiam bem começar nos despenteados vasos das varandas, algures pela vizinhança. 

Avencas e fetos até o ajudavam a pensar, mas ali, na zona nascente da serra, só tinha um enorme sobreiro corado, e uma navalha de algibeira para cortar os cotos no lugar das côdeas...-

sem um pé-terra sequer para afogar ansiedade em sumo; e quando assim é, o melhor é aguardar que chova. -

Procurou então novos sinais, de pés bem assentes na terra...para dar com marca pintada cor da neve. Quedou-se incrédulo: próximo encontro marcado com a desgraçada que lhe dera a volta ao miolo, só dali a nove anos!

Como pôde ser tão cruel...não podia ser...

Tinha quase a certeza de estar bem perto das nove da noite, por issso, resolveu esperar mais um pouco.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Crónicas de Dezembro

 Luís Santos

É a Hora. Fomos de visita à LIVRARIA UNI VERSO, em Setúbal, que muito se recomenda, ali a uma dezena de metros da lateral esquerda da Câmara Municipal. Muito mais que bons livros. Amistoso atendimento. Bons presentes de Natal. Entre-tanto, o nosso amigo Bocage ia-se fazendo anunciar. Entrámos em pastelaria a que deu nome e, curiosamente, entre as muitas pessoas que se entrecruzavam, entrando e saindo, mónadas de interligadas almas, a larguíssima maioria eram mulheres. Tal como atrás do balcão, umas quantas empregadas em atarefado serviço, tudo mulheres. Não havia como não pensar, eis as musas do Bocage que se vão multiplicando e saltitando entre poemas. As suas muito cantadas mediadoras divinas, qual carrocel mágico de eternas curvas rodando sem parar. Nelas, todas as ~~~ do mar, todas as *** do céu, tudo o que não tem mais fim.

P.S.: Este textinho, inspirado pelo dia em que faria 87 anos, é dedicado ao meu pai.

Breve testemunho do Encontro de ontem no Moinho de Maré do Cais Velho, a culminar a 1ª edição do PRÉMIO LITERÁRIO DE ALHOS VEDROS, patrono Leonel Eusébio Coelho, onde se comemoraram também os 509 anos da atribuição de Carta de Foral à vila, pelo alcochetano rei D. Manuel I, ainda que a idade da terra, pelo menos com este topónimo, vá até perto do início do país oitocentos anos atrás. Mas, o que mais importa agora reconhecer é que este Prémio Literário, cuja segunda edição para 2025 foi anunciada, já que a sua periodicidade se determinou bienal, vem mais enriquecer as boas dinâmicas culturais e artísticas que caracterizam esta região e, muito em particular, este lugar que nos dá porto de abrigo.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

APOCALYPSE NOW (OU O GANG DOS DINOSSAUROS)


Quando eu era rapaz, lá no meu bairro, a miudagem resolvia habitualmente os seus conflitos à estalada, ou mesmo ao pontapé, e, em casos mais extremados, à pedrada. Nada de mais. Podia haver cabeças partidas, mas só isso, e tudo acabava bem, normalmente com a interferência de juízes de paz de ocasião: vá, façam as pazes, apertem a mão.

Esclareça-se que o entrar em vias de facto não era imediato, havia um ritual, preliminares como coisa de amantes. O desafiante cuspia no chão e só ia à cara do outro se ele espezinhasse o cuspo.


Também é assim com os adolescentes transviados, os mentecaptos que o povo identifica como «cá dos nossos» e coloca no cavalo do poder. Cada alcandorado destes é a sumarização dos piores vícios da populaça em um só indivíduo.


O problema é que esta miudagem cretina e malformada tem ao seu dispor pedras muito perigosas e escasseiam os juízes de paz de ocasião de antigamente.


Aquela senhora com ar de porteira das Avenidas Novas, metida num brexit que lhe arrepia o toutiço, assim que viu o czar bamboleante cuspir no chão, foi a correr pisar a desagradável cuspidela e telefonou de imediato ao fraldisqueiro da França e à patroa da Alemanha para lhe guardarem as costas. Os outros putos ranhosos do clube dos burocratas anafados, tirando burriés do nariz gritaram fanhosos: força, garina, estamos contigo.


Os gangues de adolescentes marginais comportam-se sempre assim, nem é expectável que se comportem assado.


Entretanto, o pato-bravo lá do outro lado do Atlântico, que foi escolhido pelos russos para que o povo lhe desse o voto, e o voto é aquela coisa que se põe nas urnas, como se fosse cadáver, pôs-se em bicos dos pés e disse: vamos mandar umas ameixas para a Síria. É preciso acabar de partir aquilo tudo, que a reconstrução vai ser um maná.


Está a contar com o recuo dos russos, mas engana-se. Recuaram em Cuba, quando eram comunistas, embora poucochinho, mas agora que são o contrário e muito, não vão recuar.


Será que estou com receio de uma guerra atómica?


De modo algum!


Não há condições para uma guerra atómica, só para um enorme e global holocausto. Se se der, não vai haver ninguém para se lamentar. Conhecem algum dinossauro que se lamente pela extinção?


ABDUL CADRE

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

f.g.amorim



Um sonho ?

Sem saber como, bem na minha frente um velho de barba branca, olhar doce, em paz, tal como alguns de nós têm imaginado como será a figura de São Pedro quando lá chegarmos, se lá chegarmos.
Devia ser mesmo o guardião das chaves dos vários “hoteis” que nos aguardam: os paradisíacos e os infernais!
Sem se interessar em saber o meu nome, nem o que eu havia feito durante a estadia na Terra – isso ele já o deveria saber; está inscrito na eternidade – quis ouvir a minha opinião sobre a humanidade, o seu comportamento e até o que eu pensava do futuro do pequenino planeta onde vivia.
Coisa estranha! Se era mesmo o São Pedro, nada do que eu lhe contasse poderia aparecer inesperado!
Assim mesmo atrevi-me a falar, não deixando dúvidas ao bom e simpático velhinho, o quanto eu era descrente nos homens.
Sem se perturbar foi-me ouvindo contar que na Terra os homens matam pelos motivos mais fúteis!
As torcidas, no futebol, agridem e matam os que aplaudem os seus adversários, há lutas ferozes a que se atrevem a chamar desporto, em que os homens, e mulheres se esmurram até perderem os sentidos, os ditadores, que ainda os há e muitos, prendem, torturam e dão sumiço a cantores da liberdade, que as indústrias farmacêuticas inventam e criam epidemias para aumentarem o lucro do seu negócio, que tratam os miseráveis de países pobres como cobaias descartáveis, que há países onde os medicamentos custam cinco a dez vezes mais do que em outros, que se fazem guerras com mentirosas ideologias de religião, e também, mas principalmente, porque os fabricantes e negociantes de armas embolsam fortunas inimagináveis, que o infame tráfico de drogas não acabará nunca porque além dos financeiramente interessados, a população mundial está cada vez mais descrente no seu futuro e prefere alienar-se com psicotrópicos, que o provento dos trabalhadores, em todo o lado, tem diferenças abissais entre os que fazem as leis e os que a ela têm que se sujeitar, enfim, senhor – lhe disse eu ­– em algum momento o Criador deve ter errado ao dar vida ao homem.
Se o céu, o paraíso, é para os bons e o inferno para os maus, como o cristianismo nos fez crer, neste último não deverá haver mais lugares disponíveis!
São Pedro olhava-me e, apesar de contra a luz, pareceu-me ver uma pequenina lágrima sair de um olho. Para não mo mostrar, deu uma volta enquanto passava a mão nos olhos, e voltando-se para mim disse:
-Não. O Criador não fez nada de errado. Por muito amar tudo, mas tudo, quanto criou, deu liberdade a todos os seres, tanto animais como vegetais! E isso é fácil de compreender, quando, por exemplo, se vêm plantas, árvores frondosas, crescerem em lugares que os homens abandonaram, mostra que foram livres de escolher onde querem viver, os animais a que os homens chamam de irracionais, que vivem em total liberdade jamais competindo com os da mesma espécie, e ao homem foi concedido, além de tudo, o privilégio de pensar, a inteligência para coordenar a vida de toda a natureza de forma a que ela transforme a vida na Terra no verdadeiro Paraíso.
Mas o Criador, Deus, ou como lhe queiram chamar, sempre teve que lutar com um muito feroz e invejoso competidor, a quem costumam chamar de Satã ou Diabo.
Os homens não pensam muito sobre o Diabo, mas ele consegue ser tão real, desconhecido, incognito e temido quanto o Criador. O Diabo aparece sob a forma de ouro, jóias, poder, inveja, soberba, vingança, e todos os outros males que os homens conhecem bem e fingem desconhecer.
O Criador que existe desde sempre, não tem pressa. Na eternidade não há pressa. Tudo é instantâneo, e quando os homens pensam que estão há cem mil anos na Terra, esquecem-se de que esse tempo não conta.
Aqui, no éter, na eternidade, não há hotéis paradisíacos nem infernais, nem entes bons nem maus, o que não significa que aqueles cujo comportamento, na sua tão breve passagem na terra, tenha sido condenável, não devam pagar por isso. O mais natural é que voltem, noutro corpo material e sofram o que fizeram sofrer aos outros.
Só redimidos serão aceites no Espírito Único, integrados no Criador, só assim, como dizem os cristãos, poderão ver a Face de Deus! A Face de Deus que é o sopro que dá a vida do espírito.
Alguns homens têm disto uma noção mais profunda do que todos os outros. Têm até um nome curioso para aqueles que estão prontos a estar com o Criador: encontrar o Nirvana.
Para eles não há paraíso ou inferno; há somente que cumprir com a vontade de Deus, que o fez superior a todos os outros seres. Não para os destruir ou escravizar mas os conduzir, todos, à perfeição.
Eu continuava a pensar que o meu interlocutor seria mesmo o São Pedro, o bom velhinho pescador, como o imaginamos. Mas estas suas afirmações baralharam mais a minha cabeça, e decidi aproveitar a ocasião para lhe fazer algumas perguntas:
Mas Senhor, se Deus foi o criador de tudo e existe desde antes de tudo, porque criou o Diabo? E nessa mesma ordem de idéias porque, ao criar o homem lhe deu a possibilidade de escolher o mal, em vez de o ter deixado a viver como todos os outros seres vivos, sem guerra, nem hierarquias, nem vaidades, nem invejas, etc.?
Se a nossa inteligência, a nossa alma, o nosso espírito, são fruto do “sophos”, do sopro do Espírito de Deus, ou Deus fez uma trucagem e nos deu um espírito maligno, o que ninguém entende porquê, ou, mais grave e pode parecer a mais profunda das heresias, se esse espírito é o espírito de Deus, alguma coisa está errada. De que adianta a minha alma, ou o meu espírito ter que reencarnar para voltar a sofrer, se esse espírito nos foi dado por Deus.
Porque Deus faria isso com os homens?
Se o espírito, a alma, ou como lhe queiram chamar, nos foi “dado” por Deus, “à sua imagem e semelhança”, e se existe desde... sempre, e sempre continuará a existir, e se eu posso encorporar-me ao espírito eterno, isso significa que de lá saí, e se agora tenho que me purificar para voltar, é porque terei saido de um espírito impuro!
Se Deus desde o “primeiro”infinito antes de mim não teve tempo de se purificar, como poderá fazê-lo no infinito seguinte?
O que não foi feito na eternidade anterior ao meu momento, não vai poder fazê-lo na eternidade posterior!
Eu, com toda esta argumentação já estava todo baralhado e o amável São Pedro parecia estar a fixar as minhas observações para as ir expôr...
Achei melhor terminar, dizendo-lhe:
Senhor, eu acho melhor não saber nada, do que me alimentar de afirmações ilusórias e inconciliáveis.
Prefiro ficar com um infinito incompreensível e sem limites do que me restringir a um Deus cujo incompreensível é delimitado por todas as partes.
São Pedro parecia um pouco confuso, mas com seu olhar tranquilo despediu-se com esta mensagem:
Nada te obriga a falar do teu Deus, mas se decidires fazê-lo é necessário que as tuas explicações sejam superiores ao silêncio que elas rompem.
Só mais uma pergunta: o senhor é o São Pedro?
Não. Aqui não há santos!
E sumiu entre as nuvens!
E eu?
Creio que acordei... e fiquei em silêncio.
Ainda estou indeciso se terá sido um sonho, mas tem dado muito o que pensar.

8-jan-13
http://www.fgamorim.blogspot.pt/