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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Duetos luso-brasileiros


Imagem de Kity Amaral
Texto de Kity Amaral e Luís Santos


Noite de Páscoa

Favela brasileira

Entre duas luas,

Da minha janela vejo uma favela.


Como será a luz do luar numa favela brasileira dentro da noite de um domingo de Páscoa?


Já tinha reparado que estava a madrugar,

diz ao chico escuro

que tem um amigo do outro lado do mar

manda um beijinho e bom soninho.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Duetos luso-brasileiros


Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos



Roseiral

A Rosa é sem porquê,

se tem água, se tem luz
força que a rasga na terra
cresce e floresce, radiosa

metida no centro da cruz
véu de endeusada fragrância
redenta e rebenta, cheirosa

em janeiro faz milagres
em novembro dá poema
e ei-la em nevoeiro, encoberta

uma prenda templária
uma rosada cristianice,
um diz que disse.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O Mercado de Diamantina


Duetos luso-brasileiros
Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos




Lembro-me das bandeiras que marcavam as fronteiras
e sim, do mercado de escravos no Arraial do Tijuco
da água de coco, dos guaranás e do guarani
do santificado António Vieira 
de uma inquisição que não era santa
do meu próprio irmão arrastado em leilão,
e da carta de alforria daquela dela pele baça, nua, 
diamantina presença, nas suas doces linhas juvenis, 
do seu colo na luz do luar;

e dos trabalhos na roça
dos quadris dobrados e dos trabalhos forçados 
das poças de água suja em que se lavavam as loiças
dos tropicais suores que lhes escorriam pelo rosto 
no coração de minas das pedras preciosas,
e daquela rocha dura, dura
de um brilho que cortava o vidrado solar do dia
em que seguiam os arrepios da febre e dos pés na barriga
a curar o reumático do seu senhor;

e eu, e tu, aqui outra vez, de vez e em português, 
sem amos, sem fim!

24/10/2017

sábado, 22 de julho de 2017

Rosas Gémeas


Duetos luso-brasileiros
Fotomontagem de Kity Amaral
Texto de Luís Santos




Funciona assim: Primeiro, uma imagem, uma fotomontagem. Depois, um, dois, três dias, semiesquecida, sem fundo de resolução à vista, fica no forno a amadurar. Certo dia ao acordar lá estão as palavras todas, enfileiradas, direitinhas. A própria consciência, as sinapses neuronais, sem a habitual acordada atividade mental, produzem o encadeamento textual. O origâmico sonho.

Aí, vem uma xícara de café, e a memória da imagem, tudo de sabor mineiro, brasileiro. Neste caso, as duas rosas, gémeas, numa bela mandala rendilhada, são bem símbolo de amizade, de fraternidade, de irmandade. Rosas, cor de rosa, lado feminino, lado lunar, a própria poesia, o amor. Uma cristianice presença. Ou uma rosa no centro da cruz que desabrocha em redenção, sofrimento, e se transmuta em cultivada alegria.

No meio da cruz floresce uma rosa de braços abertos, o peito(o coração) ao deus dará, um fraterno amor ao próximo, sem tempo e sem espaço, e-terno. A origem são os toucados de pássaros egípcios, a adoração do sol, os enormes túmulos piramidais, os caminhos verticais e a libertação dos escravos. O monte Sinai e as tábuas da lei. Do povo eleito à força do amor. O sol transformado em Deus.

Hoje aqui estamos e o que se vê foi coisa que nasceu lá muito atrás que é simultaneamente mais adiante, muitos anos depois depois de 1822. O século vinte e dois, belo horizonte, sabor mineiro da xícara de café. Os livros ficcionais das nossas estórias infantis fazem-se acompanhar de lindos desejos, mais os seus violinos que lhe dão um sinfónico fundo musical, quase meditativo, com as flautas, as arpas, as trombetas.

O mundo acordou ao som da música das esferas, de cânticos celestiais. Lá se vê a rosa que floresceu na cruz e menino jesus, criança outra vez. As rosas que do manto caem e se transformam em pão, milagre são. A marinha já não é o que era, mas a língua ainda é uma mistura do africano galaico português. E nós postados nos cotovelos, nos toldam românticos cabelos e levamos em “olhar esfíngico e fatal, o Ocidente, futuro do passado”.

Alhos Vedros, Mestre de Avis, 22 de Julho


quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Paraíso das Redes


Duetos luso-brasileiros
Fotografia - Kity Amaral
Texto - Luís Santos


O Paraíso das Redes


Enquanto balanço na rede que me foi oferecida pelo meu amigo índio, são jorge, axé do afoxé, filhos de ghandi, entre a próxima reunião e o pão nosso de cada dia, facebook, coisa de brincar, que nos ajudará a libertar de vez, pergunto qual é a diferença que existe entre a alma e o espírito, aquilo que eu sou, aquilo que tu és, porque descemos aqui, porque haverás de subir? E a palavra do índio diz dos segredos da natureza, do mistério que é teu coração, corpo subtil, amor, amar, porque tudo no planeta é irmão.
A música AQUI 

Mote
"Durante o Brasil colônia (a rede) era muito utilizada para dormir, enterrar os mortos no meio rural e como meio de transporte, onde os escravos carregavam os colonos em passeios pela cidade, e até em viagens. A maca – ou rede de dormir – é um artefato legado dos indígenas da América do Sul."

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Ouro Preto


duetos luso-brasileiros




Fotografia: Kity Amaral
Texto: Luís Santos

OURO PRETO

 ...também em simbólica
homenagem às vítimas, e aos que lhes são mais próximos, do violento incêndio que se fez sentir nos últimos dias em Pedrógão Grande, coração de Portugal.

Reconheço de imediato essas cores. Portadas e véus. Nunca lá estive, mas tenho uma bandeira igual no vão da minha janela. Arquitetos do universo, pedreiros livres, triângulos em cima de quadrados. Da embarcação 5-15 para vera cruz, nossa terra.
Lembro-me de como era dantes, dos garimpeiros e dos bandeirantes. Do ouro preto da pele que era a minha. Do sonho que então tive com um reino divino, que vinha depois de vir, e dos escravos agrilhoados, a minha família. Daqueles índios, daquela índia.
Ajudámos a fazer um país e demos um grito que foi até ao fundo do mundo, pela libertação da alma de todos, pelo querer fraterno de todos em um, um sentimento de nascermos todos à mesma hora. Do que nos é justo afinal.
A tempestade amainou. Cessou a trovoado seca e o vento enrodilhado das chamas. Mas o desesperante cheiro de carne queimada ficou. O sacrifício foi pesado e, depois, um novo dia nasceu, estranhamente, em paz. O paradoxo é que tudo faz parte e o motivo é uma razão maior, do claro dia.
Hoje somos, e como diz o acaso da foto, rebuscamos "motivos para ser feliz" (como se alternativa houvesse...). A essa feliz cidade, a essa idade feliz. A natureza é assim, e que tempestade é essa? O preço a pagar por termos mantido a discórdia.
Ai, saudade… Foi por ela.

E a música é? - https://youtu.be/hc0QISkjKZs

sábado, 10 de junho de 2017

Duetos Luso-Brasileiros


Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos



Marolas

Uma caravela e o céu aberto só por ela
Triangular bolina a seguir desnorteada
Cruzeiro do sul de luz que nos anima e guia,
O sussurro do vento

Nostálgico balanço na doce cama do mar
O búzio e o eco distante no canto da sereia 
Uma India que ainda nos clama e chama,
O fogo do oriente

O lenço escuro composto atado no pescoço
A camisa de xadrez avermelhada e russa
O mastro gasto a que me agarro e miro, 
A Terra sem fim

Um vislumbre de samba e a deusa das águas
Cachoeira de saudade em chuva de prata
E o regaço de criança da mulata que nos mata,
O tempo sem tempo

quarta-feira, 26 de abril de 2017

DUETOS LUSO-BRASILEIROS


composição fotográfica de Kity Amaral
poema de Luís Santos

LAS VENTANAS Y AZUL



CANTANDO COISAS DE AMOR

Por dentro dos umbrais
lugar detrás dos mil véus
debaixo do azul dos céus

Alguns vasos na varanda
corpo debruçado na janela
olhos nas águas furtadas dela

Entre lençóis dependurados
um palhacinho de muitas cores
e os vasos com algumas flores

Para ver a banda passar
explodem rios de serpentina
Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina


(Qual a música que está no ar?)

P.S.: Pode ver a solução clicando AQUI

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Duetos Luso-Brasileiros



Mimo de Vênus 
Meditando e colhendo hibiscos


Composição fotográfica e título de Kity Amaral
Legenda de Luís Santos


Um novo clarão na escuridão
o abraço de Vénus que me espera
por detrás da janela dela

seta que atravessa a noite
brilho do sol, da luz
da cristiana paisagem em que medito

do êxtase oriental em que me deito
dos mimos, da infinita beleza da cor
dos mamilos, do órgão sexual da flor



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Navegar é preciso, Viver não é preciso





Estava lá tudo e era a hora
luz do sol puríssima
o primeiro europeu, e eu, na américa

e parvos que levavam escravos
música e esperança,
belo horizonte

da terra se diz mar à vista
e muito bela uma Índia
que me conquista


(Fotografia de Kity Amaral
legenda de Luís Santos)




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Antúrios



Amar e Amor
fecundo rumor
suave sopro

calmo
espelho de luz azul
mar do sul

cristiano embalo
divinal lusa cor
tropical


Fotografia e Composição Fotográfica de Kity Amaral
Legenda de Luís Santos