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terça-feira, 31 de maio de 2011

FACES

Aqui termina a publicação do meu livro de viagens, “Faces” no que será a sua versão em blogue.
A todos aqueles que me leram, tenham ou não deixado o rasto de um comentário, a minha vénia de agradecimento.
O meu maior desejo é que a companhia lhes tenha sido agradável. Se a isso a leitura lhes tiver acrescentado as perguntas de uma alegoria sobre a Humanidade, então direi que foi um prazer ter apresentado estes resultados do meu parco talento.
A quem me convidou para aqui estar convosco, mais uma vez expresso o apreço pela oportunidade de apresentar estas parcelas do meu labor literário.
Haja paz e saúde para todos vós.

Luís Gomes
Foto de João Cordeiro

terça-feira, 24 de maio de 2011

FACES

AI SE O GOBINEAU CÁ VOLTASSE

O “Faces” –o título deve ser lido em inglês- é o meu livrinho de viagens. Não tem quaisquer pretensões de grandeza nem de originalidade e, no contexto da minha obra, não transcende o domínio de um pequeno exercício.
Na verdade, trata-se de uma pequenina compilação de historiazinhas que, na sua maioria, se reduzem a simples pinceladas. Desde logo isso acontece devido ao facto de eu ter viajado pouco. Necessariamente, daí decorre a escassez do material. Mas também a parca profundidade com que me capacito para olhar o outro, de coordenadas dispersas, também isso concorre para que as minhas toscas produções sejam pobres de número e impossibilitadas de, quanto à forma, poderem aspirar sequer às dimensões de uma novela breve. Dir-se-á que eu poderia ter esperado o avolumar da experiência e do conhecimento, desse modo me habilitando a um trabalho melhor e mais sábio. Era uma opção válida. Sem embargo, acontece que eu nunca almejei algo além de um treino. Se o seu resultado merece ou não a dignidade de uma publicação, logo o querido leitor o saberá dizer.
Ora foi precisamente uma tal escolha que me libertou da preocupação quanto a questões de originalidade. Os livros de viagens pertencem a um quadrante antigo e que muitos escritores cultivaram, tendo os maiores, entre eles, conseguido elevá-lo à categoria de género literário. Aí se aceita que o autor se isente da ficção e faça, da sua escrita, uma reunião de observações e derivações de carácter mais pessoal e até intimista. Quando me decidi pela lapidação desta peçazinha, comecei, inclusivamente, por palmilhar tais passos. Mas rapidamente me pareceu estar limitado a um diário de viagem o que eu, naquela altura, não estava interessado em fazer. Surgiu-me então a ideia de colorir rostos, por via dos quais me fosse dado transmitir os mundos que o meu entendimento construísse a respeito das realidades que viesse a ver e experienciar. Estava ciente que outras penas escreveram pérolas maiores, em face das quais, para este trabalhinho, jamais teria a leviandade de pretender a mais leve comparação. Mestre Maugham, por exemplo, é referência inigualável (*). No entanto, dada a contingência de estar bracejando em águas mais leves, sentia-me autorizado a sulcar outras rotas mais experimentais e, nesse âmbito, não considerando o inédito, a esboçar os contornos de vivências de outras paragens e civilizações. E, de acordo com os meus interesses particulares de escrevinhador, via preferível a singela procura da invenção de personagens de culturas distintas da minha. Com isso me exercitaria num determinado género literário, concomitantemente, esculpindo assim carnes em que ainda me não aventurara.
Tomei a decisão em causa no ano de mil novecentos noventa e um. Tinha trinta e dois anos de idade e menos de um terço das coisinhas que, de então para cá, vim a elaborar. Ainda que o meu projecto Sebastião Sorumenho começasse a ganhar vulto, o meu traquejo criativo permanecia nos primeiros e titubeantes passinhos. Consciente dessa realidade, só por insensatez teria deixado de percorrer os trilhos destas pequenas brincadeiras que, nestas palavras, me preparo para dar por findas. Afinal, já cheguei às vésperas de me despedir de Sebastião Sorumenho e à ficção que venho lavrando em nome próprio, posso muito bem juntar agora este que será o meu livrinho de viagens. O meu maior desejo é que estes rabiscos tenham o condão de proporcionar alguns instantes prazenteiros a quem sobre eles se debruçar. Se aí descortinar algum sumo que lhe faça sentir a humanidade mais perto, será, para este vosso servidor, o encanto e a certeza de não escrito em vão.




O que eu sempre apreciei nas viagens são as janelas e as portas que se abrem para a vadiagem, a despreocupação de poder deambular sem outras obrigações e compromissos que não os estritamente procurados, apenas nos submetendo ao objectivo de ver e viver com todos os sentidos despertos e atentos, prontos a propiciarem a compreensão do que nos envolve. Nunca percebi o gozo do turista acidental que vê os sítios que visita pelas fotografias que aí tira ou os filmes que faz. Talvez por isso eu tenha procurado realizar as minhas andarilhices como uma experiência total do corpo, tanto me importando com aquilo que está para lá dele, como com as manifestações das suas reacções aos diversos ambientes enfrentados. Se curo de conhecer as ilustrações bio-climáticas ou geo-morfológicas, ou se atento na humanização das paisagens, também me preocupo em observar a biologia que me é própria e como se adapta a coordenadas climaticamente díspares, tanto quanto ausculto os tecidos sociais e os tipos humanos que se me deparam e até meras ocorrências no quotidiano de vadio. Viajo para compreender os homens e, por tal a fim, ambiciono fazê-lo com os olhos e o cérebro bem acordados, mas também com o coração disponível pois dificilmente se entende quando, pelo menos, alguma empatia nos não envolve com o universo onde visamos descodificar o que quer que seja.
É claro que, uma vez mais, eu nada tenho de original. Muitas serão as pessoas que não andarão longe de pensarem e agirem como eu.
Provavelmente, eis a razão da vulgaridade em presenciarmos alguém narrando certos episódios que terá vivido, enquanto viajante, regra geral, motes bem vindos para jantares e serões de convívio, ou mesmo naqueles entrementes de gare ou trem em que é preciso conversar para ludibriar as horas. O mesmo acontecendo, certamente, com os escritores que, nos seus apontamentos de jornada, destacam as suas envolvências pessoais.
Bem, com toda a sinceridade, nada me impediria de traçar esse rumo. Os acasos da vida reservam-nos surpresas que, amiúde, se nos gravam na memória, quer, tão só, pelo engraçado de uma situação, como pela relevância que, eventualmente, possam repercutir no mais fundo do nosso próprio ser. Pois no decurso de uma viagem, pela nossa mais intensa sede de bebermos o ar que nos rodeia, são mais fartas as probabilidades para que tais encontros nos envolvam ou, se quisermos, para que tenhamos a sensibilidade de nos deixarmos tocar e, assim, em eles atentarmos. Alguns chegam ao ponto de raiarem as nossas classificações do mistério, como o que o Luís Carlos dos Santos, grande amigo meu, interpretou na carreira aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro, ao deparar-se-lhe a feliz coincidência de se sentar ao lado de um velho professor que era amigo chegado da pessoa a quem ele se deveria dirigir, em São Salvador da Bahia, e, além disso, íntimo e grande admirador da obra do pensador para quem o Luís tinha a delicadeza de funcionar como correio. Semelhante a esta, tenho conhecimento de outras casualidades de vagabundo e também eu, e em vários planos, tenho o meu modesto capital de comparticipação na empresa. Sem ter querido fazer dessas historietas e pequenos eventos o conteúdo deste meu livrinho, não resisti a terminá-lo, como o iniciei, com uma série de notas pessoais e, desta vez, relatando aquele que foi o mais agradável e inesperado contacto com que a minha existência me brindou. Teve lugar em Londres, no Natural History Museum, onde tive oportunidade de cambiar ideias com um importante cientista a quem conhecia e muito admirava pelos trabalhos no patamar da biologia do Homem.
A minha actividade antropológica é pública e é conhecido o meu interesse pelas questões do racismo, domínio em que tenho feito investigação e em que espoletei perspectivas singulares e, se não é imodéstia sustentá-lo, as quais posso até designar como inovadoras. Tudo começou por motivações meramente particulares que a encomenda de uma organização não governamental de cariz cristão fez prolongar e aprofundar até ao nível em que fiquei no livro a que dei o título, “Tira O Dedo Do Nariz”. Desde o primeiro momento, nas minhas conclusões, surpreendeu-me que a ultrapassagem daqueles preconceitos implique, afinal, medidas em âmbitos tão visíveis como o ensino do conhecimento científico ou as mais prosaicas regras de boa educação e relacionamentos diários. Nas minhas andanças da divulgação de teses anti-racistas que era outro dos desideratos que a citada solicitação laboral implicava, recordo até uma palestra que proferi na Faculdade de Psicologia, da Universidade do Porto, em cujo período reservado ao debate tive o prazer de escutar a uma veneranda anciã que, segundo disse, sem nunca ter necessitado de toda aquela elaboração teórica, sempre tinha assumido e praticado um comportamento contrário à segregação e, mais que isso, propício à mistura entre grupos raciais, para o que lhe bastou viver de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo. Ora o que me deixou desconcertado, foi, precisamente, a consciencialização de tão estreita via para evitarmos o racismo.
Olhando alguns mapas referentes à dispersão do Homo Erectus e do Sapiens Sapiens e meditando na naturalidade com que as distâncias geo-culturais haviam deixado fermentar os sentimentos de ordem etnocêntrica, uma vez mais sentia a mente embutida por aquela perplexidade. Repito, estava no Natural History Museum e, mergulhado num qualquer ponto indefinido das ditas cartas, soltava-me em razões que se prendem com as conexões entre as referidas atitudes preconceituosas. Eu estava completamente absorvido numa daquelas ocasiões em que a Lua está mesmo aqui sob os nossos pés.




Como se estivesse perante a voz da minha consciência, foi então que ouvi mais ou menos isto:
“-Não acha extraordinário como a nossa evolução, se, por um lado propiciou um fenómeno como o racismo, por outro lado nos deixa antever como a sua derrota definitiva assenta em algo tão simples e simultaneamente tão complicado como a mistura de raças que, na prática, acaba por se limitar a ser nada mais que o acasalamento entre indivíduos de etnias diferentes? O senhor não acha isso extraordinário?”
Não sei dizer mas tenho a certeza que olhei para trás, mais para me certificar de que estava ali alguém e que, dessa forma, aquela pergunta não era fruto da minha imaginação, do que, propriamente dito, para ver quem era. Lembro-me que respondi qualquer coisa de circunstância sem que de imediato tenha identificado o meu interlocutor. Ele é que insistiu e desenvolveu as suas ideias e foi a óbvia atenção que lhe dediquei que acabou por me trazer o reconhecimento da ilustre figura que aqui deixarei no anonimato. E não é que, inadvertidamente, eu estava ali cavaqueando com uma das minhas referências –se fosse adolescente, diria um dos meus ídolos- nada mais nada menos que a respeito da temática que nos unia? No momento entreguei-me ao diálogo e guardo, com especial carinho, as duas ou três horas em que usufruí de tão elevada e agradável sapiência. Só quando nos despedimos eu reparei na raridade daquele acaso e considerei que, pelo menos por uma vez na vida, também eu fora contemplado pela taluda.
“-Pois é, afinal o racismo são patetices que podem ser explicadas por via da análise científica. Ora esse mútuo conhecimento será tanto mais profícuo quanto as diferentes raças estiverem próximas.” –Terei eu respondido, sem realizar, por completo, o alcance das palavras do meu interlocutor.
Delicadamente, ele corrigiu-me e avançou com as propostas dos casamentos inter-étnicos.
Logicamente eu concordei e recordo que até acrescentei algumas críticas ao relativismo cultural, as quais me pareceram poder reforçar aquilo em que ambos estávamos anuindo. No entanto, ele persistia em defender que, na realidade, não era necessária tanta elaboração teórica, no que me terá feito recordar alguém.
Como escrevi, a nossa troca de impressões prolongou-se por um bom par de horas. Mas naquele preciso momento ele acrescentou mais ou menos isto:
“-Veja bem, na vida real as pessoas não estão preocupadas com esse tipo de considerações que não deixam, por isso, de fazer todo o sentido em termos das explicações científicas. Aí, o que funciona são coisas que façam com que as pessoas não utilizem as diferenças raciais para identificarem os outros. Nesse sentido, nada melhor que o amor, o impulso que leva duas pessoas diferentes a unirem e a quererem partilhar as suas vidas. Se um branco casa com uma mulher preta e dela tem filhos, não se lhes referirá como a sua mulher preta e os seus filhos mestiços. Limitar-se-á a dizer, como se dirá entre um casal não misto, a minha mulher e os meus filhos. Quando essa mistura for a normalidade e não a excepção, então os dislates do racismo só serão entendidos enquanto isso mesmo, simples dislates; provavelmente até virão a ser coordenadas que os humanos acabarão por perder e que apenas serão conhecidas enquanto factos e curiosidades históricas.”
Tão arguta e incisiva simplicidade de raciocínio apenas me induziu uma interjeição de concordância.
Ele aproveitou para continuar:
“-Nesse sentido é mais importante aquilo que você pode muito facilmente encontrar aqui, em Londres, do que a larga maioria da retórica política e científica que por aí anda a respeito do racismo e do anti-racismo.”




Nesse ponto eu já sabia adivinhar ao que ele se estava referindo. O fenómeno é demasiado expressivo para que até o mais distraído dele não tome a devida nota. Contudo, novamente ele foi gentil:
“-Isso mesmo, vejo que o senhor também reparou. É o que precisamente se vê por aí, casais mistos. É por essa via que, um dia, o racismo deixará de fazer sentido. E até sou capaz de prever que o futuro da humanidade será assim. A mistura racial. Quase que se pode dizer que, a esse nível, viajar em Londres, nos dias que correm, assemelha-se a fazer uma viagem ao futuro.”

Paris, 5 de Agosto de 1999

terça-feira, 17 de maio de 2011

FACES

FUTUROS


"Mas é outra vez gente de todos os continentes, gente de todas as culturas, gente de todas as cores que se vai juntar ali e fazer alguma coisa nova que é uma nova Europa (...)."


Agostinho da Silva,


ibidem


PARIS



De facto, Paris é uma cidade magnífica.
Eu sempre me ri daquelas manias da senhora Mackenzy de explicar quase todas as coisas pelos ditos e as lógicas de tempos antigos, aquelas ideias cheias de autoridade dos avós e dos avós dos avós, com as quais ela argumenta para nos criticar pensamentos e atitudes que manifestamente não compreende e a enchem de horror. Recordo até certa ocasião, à saída da missa de Domingo, em que um meu reparo mereceu viva reprovação por parte da minha mãe que, de imediato, me acusou de ser cruel e desrespeitoso para com a sua amiga. Provavelmente fui. Dizia ela que na vida é preciso ter sorte, ao que eu repliquei, com aquele ar de púbere a rebentar de acne e bainhas das calças descidas. “-Então, a senhora Mackenzy deve ter tido imenso azar na vida.” Como eu e o George e o Archibald nos esvaímos em gargalhadas, quando numa das nossas passeatas pelos caminhos das falésias, eu lhes contei o sucedido com todos os pormenores de uma caricatura da expressão do rosto da pobre alma, mal esta me ouviu acabar a frase. Bem mais engraçado é que hoje, neste caso particular, quase me vejo forçado a dar-lhe razão. Sim, na vida é preciso ter sorte.



A tia Jennie foi muito simpática em ter-me convidado a passar duas semanas com a família, aqui, em Paris. Ela e o tio são porteiros de um prédio que fica na vizinhança dos Inválidos e a prima Kellie, que trabalha em La Villete, em algo relacionado com projectos para crianças, vive perto, em Pasteur, num bonito e acolhedor estúdio que só perde por ter aquele mostrengo da torre de Montparnasse ao centro da vista. Todos me receberam com o carinho que se dá a um ente querido e também com as honrarias dignas de um príncipe, posso eu dizer, tais não foram os cuidados com que me arrumavam o leito e me preparavam as refeições e ainda a vontade com que se empenharam em me fazerem ver a cidade e os arredores e me preencherem o ócio gigante de tantos dias sem obrigações. A prima Kellie, essa, foi incansável e agora que eu decidi permanecer uns tempos por aqui, até já me apresentou a alguns amigos e amigas, a quem se encarregou de solicitar a atenção para qualquer trabalho que me permita melhorar a condição em que me encontro. O meu tio é conhecido e respeitado numas lojas e cafés do bairro e um dia perguntou-me se eu não estaria interessado em trabalhar na copa de um restaurante, onde estavam a precisar de alguém para fazer o Verão na lavagem dos panelões e demais utensílios que não dão jeito passar pelas máquinas. O salário não é lá grande coisa, mas é mais do que o senhor O’Brian me costuma pagar no meu trabalho sazonal no supermercado e como, por enquanto, posso usar o domicílio familiar, penso que não me será muito difícil conseguir algumas poupanças. Depois veremos o que acontece. Certo é que o chefe e o patrão andam satisfeitos comigo e o meu trabalho e ontem, precisamente, o primeiro disse-me que está a pensar experimentar-me no serviço das mesas; parece que é bom ter alguém que fale bem inglês e como o francês que eu aprendi na escola parece suficiente, tudo indica que, brevemente, iniciarei a minha mobilidade laboral e consequente melhoria social. É claro que eu dou graças a Deus por tudo isto, mas agora que estou repousado e bem disposto, não posso deixar de me lembrar da senhora Mackenzy e da sua sapiência e não resisto a um laivo de humor. Pois foi uma sorte eu ter vindo para Paris que não tenho dúvidas em classificar como a cidade fantástica que, de facto, é.
Naturalmente, na actual situação já não tenho tempo para andar por aí a ver os monumentos e o rebuliço do ambiente. Bem sei que disponho das manhãs, mas o cansaço é de tal ordem que elas mal dão para a leitura de jornais e revistas a fim de avolumar o meu domínio da língua. É que desde as três da tarde até praticamente à meia-noite, ainda estou para gozar completamente as horas de que disponho, segundo me disseram, por volta do jantar. E é bom de imaginar o que é estar a pé, dias a fio, constantemente submergido pelo duro exercício físico de esfregar alumínios e latões de forma a que brilhem e nem o mais exigente fiscal seja capaz de reprovar por falta de higiene. No entanto, parece-me que obtive resultados e, como disse, a compensação está à vista. Por isso não me aborreço por me ter limitado a palmilhar os passeios entre o apartamento dos meus tios e o estabelecimento onde trabalho. Na devida altura, terei oportunidade de ir ao cinema e conviver nos cafés e bares do Cartier Latin que foi onde o movimento nocturno mais me agradou mesmo sem que eu saiba explicar porquê. Afinal, se tudo correr como até aqui, o meu optimismo não está, de todo, fora de contexto. Seja como for, naqueles dias em que me limitei a ser turista, foi-me possível formular uma imagem do que é esta cidade tão vasta e majestática, como eu não saberei dizer se há outra igual, mas como tenho a certeza de nunca ter visto algo que se lhe compare. Devo confessar que uma pessoa como eu que nasci e sempre vivi numa pequena aldeia do nosso litoral mais pobre, dificilmente deixaria de ficar impressionado por um mundo que, visto da Torre Eiffel, tem a urbe na curvatura do horizonte como nós o vemos no mar. Contudo, não será abusivo concluir que esse impacto jamais ocorrerá para diminuir a grandiosidade da capital da França. Por muito exagerado que possa ser o olhar, a sua correcção deixaria sempre a nu uma realidade de proporções inusitadas. Ao seu lado, Dublin, inclusivamente, por muito simpática e bonita que possa ser e eu estou convencido que é, nada mais consegue que ser uma cidadezinha de província.



E que sou eu a mais que um mero provinciano? Para ser honesto, que posso eu saber com os meus conhecimentos da escola técnica e de secundanista universitário que não faça de mim pouco mais que um ignorante para avaliar um mundo que me atrevo a dizer estar além das minhas aptidões de compreensão? Nem mesmo consigo apreender o que o senhor Cunningan e o Padre O’Hara quiseram dizer quando se referiram a Paris como a cidade luz. “-Bem, meu rapaz, vais então visitar Paris, segundo o que eu ouvi dizer.” Entrou ele naquele seu jeito de levar os polegares às axilas e olhar os outros pelo alto do nariz. E foi quando ele rematou em acto contínuo: “-Pois vais então fazer uma visita à cidade luz.” O senhor padre que o acompanhava, também lá deu a sua opiniãozinha e repetiu o epíteto. Eu anui, mirando os sapatos, mas na verdade não alcancei o que ambos me pretendiam transmitir. Ora, como após me felicitarem, apenas acrescentaram as boas sortes e seguiram, eu fiquei sem qualquer outra solução que não os meus próprios pontos de interrogação. Assim, não sei se eles se estariam a referir a um centro de artes e ciências, ou pelo facto de ter sido este o palco da revolução francesa que tantas e profundas consequências teve para a Europa e o resto do mundo, sequer sei se pensaram em qualquer outro aspecto. Seja lá como for, eu que agora aqui permaneço e que já dei as minhas voltas por aí, salvaguardada que está a minha débil preparação cultural, aventuro-me a confessar que não só estou de acordo com a expressão do senhor Cunningan, como até sou capaz de lhe conferir uma interpretação pessoal que, é justo esclarecer, resulta mais das impressões que me ficaram dos passeios de autocarro do que de qualquer uso elaborado da razão. Evidentemente, o perímetro da cidade é demasiado grande para que esta possa ser um todo homogéneo, dessa forma caracterizável pelo seu centro. Com efeito, existem áreas preferencialmente residenciais onde predominam grandes arranha-céus feios e incaracterísticos, isto para não falar das áreas industriais ou dos nós ferroviários com linhas e passagens aéreas e fios e cabos e composições a perder de conta. Acontece é que a parte central da metrópole é a modos que o seu cartão de visita e é só nesse sentido que, a partir dele, podemos dizer que aquela se caracteriza. Pois bem, partindo do princípio –que a meu ver parece e é lógico- que o centro se materializa nas zonas circundantes à Ille da lá Citté, não é que, enquanto descia os Campos Elísios para o Arco do Triunfo, no primeiro andar descapotável de um autocarro turístico, me vieram à memória as felicitações do senhor Cunningan e do Padre O’Hara e, inconscientemente, dei comigo a concordar com eles em como Paris é, de facto, aquilo a que eles chamaram a cidade luz?
Coisa engraçada, eu ali, esbugalhado de tudo e, repentinamente, cheio de ideias elevadas, a dar concordância e conteúdo a uma frase que, ao ouvi-la, não entendera. Mas, então, surgiu-me tão claro e evidente que Paris é a cidade luz que, intuitivamente, o atribuí ao traçado grandioso das vias e avenidas que rasgam e estruturam o tal centro em redor de uma leve curvatura do Sena. Aqui, o clima é mais frio e seco que o nosso e, talvez por essa razão, quer-me parecer, mais solarengo. Apesar disso, deve estar muito longe daquilo que aprendemos ser a luminosidade dos climas tropicais. A luz que percepcionamos é nos transmitida pelo facto de as avenidas, em geral, serem muito largas e arborizadas e, especialmente, pela articulação de vários pólos de interesse se fazer através de grandes espaços, quer sejam do género do jardim frontal às pirâmides de vidro da entrada para o Museu do Louvre, quer sejam do tipo de praças monumentais, como a Concórdia, de onde sai, a condizer, a imponência esmagadora dos Campos Elísios. A meu ver são essas avenidas amplas, como a que sai dos Inválidos, que dão razão e forma às palavras do senhor Cunningan. E a isso se junta a beleza dos edifícios, tanto os palácios como os prédios de habitação, o bonito que é de ver as fachadas alinhadas e enquadradas entre si, com as arquitecturas de outros tempos bem preservadas e, em isso, deixando transparecer um tal cuidado que até eu que sou ignorante dessas coisas, fiquei impressionado pela maneira inteligente como certas construções recentes estão de acordo com as ambiências de épocas passadas. É ver como a Torre Eiffel está magistralmente centrada de um lado com a frontaria da escola militar e do outro com o Trocadero, a ponto de este poder ficar sobre os arcos da primeira plataforma, para quem quer que tire uma fotografia a meio do relvado que se estende entre o ex-líbris da exposição de mil e novecentos e as instalações da academia castrense. Até parece que para trabalhar ali, apenas se contrata a fina flor dos arquitectos franceses. Aliás, o que deve ter acontecido desde sempre, pois a cidade foi edificada ao longo dos séculos e ainda hoje coexistem monumentos e não só de períodos muito diferenciados. E o que aqui conseguiram foram graciosas combinações entre uma catedral dos séculos onze ou doze, se não estou em erro, como é o caso da Notre Dame, e um palácio do barroco do século dezassete, de que é exemplo a sede da Mairie de Paris. E é por tudo isso que nós olhamos à nossa volta e o que vemos encanta, cativa-nos, o que melhor fica registado nas caixinhas das recordações se banhado pelo Sol. Assim nasce a memória na definição tão breve quanto apropriada dos meus caros conterrâneos. Eu não sei se tanto o senhor Cunningan como o Padre O’Hara aqui estiveram alguma vez, de visita ou por qualquer outro motivo, mas sou testemunha em como acertaram numa boa fórmula para a bem descrever.



Essa trata-se da Paris magnífica que, vista do Sena, com as suas pontes e cumes dourados, mais se assemelha a um postal. Ah e como ela é magnífica para quem seja rico ou, pelo menos, tenha o suficiente para se dar ao luxo de gastar sem olhar à subsistência diária. O que não terá uma pessoa para ver e fazer se para isso dispuser de tempo e dinheiro? Basta ter presente que os museus, para termos uma ilustração, conquanto os hajam pequenos e inversamente interessantes, de que me ocorre agora o Rodin, são aqui elevados a escalas gigantescas. Ver com olhos de ver, o Louvre requisitará, seguramente, mais do que um ano de visitas. E depois há outras unidades que não fazem por menos de alguns meses, como o Qay D’Orsay ou, em outras temáticas, a Cidade da Ciência e da Indústria onde eu me deliciei com o interior de um submarino nuclear na reforma. E as mundanidades, sejam de que quadrante e natureza forem, são tantas que não são passíveis de enumeração numa circunstância como esta. Haja tempo e dinheiro, escrevi eu, e aqui poderemos viver uma vida sem nunca nos aborrecermos com falta de algo para fazer. Esta verificação é tão óbvia que, por vezes, nos compassos de espera das bichas para ter acesso às vistas da Torre Eiffel ou a qualquer evento cultural, dei comigo a cogitar como tudo aquilo era um mundo de fantasia, um cenário inconcebível no âmbito de um cidadão comum, uma enorme cidade erguida tão só para o turista ver, um universo de brincadeira em tamanho real que as pessoas visitam para se divertirem e aprenderem em tempo de férias. Pois é essa a Paris magnífica, aquela que, no dizer do senhor Cunningan e do Padre O’Hara, é considerada a cidade luz.
Sejamos atentos e honestos e verificaremos que, para lá do palco, nem tudo se inclui na categoria dos contos de fadas. Se desviarmos a cortina, haveremos de ver a pele de muitas mãos cheias de frio e tresandando a fome que até agonia.
Pois há uma coisa que o senhor Cunningan não disse embora deva saber. É que a senhora MacKenzy, afinal, também tem razão quando diz que não há mundos perfeitos, vulgarmente acrescentando de sua sabedoria que nem no paraíso, cheio que está do bicho humano, nem aí encontraremos uma única sociedade onde não existam coisas erradas e perniciosas. “-Estando lá o homem.” –Sustenta ela com toda a seriedade que a alvura dos seus cabelos lhe consente. “-Jamais pode deixar de haver um caminho mal escolhido.” E nem mesmo as objecções do Padre O’Hara ou de minha mãe, de que o paraíso são as almas isentas de pecado, nem isso a convence da improvável radicalidade da sua teoria. De qualquer modo, abandonando o etéreo e limitando-nos à nossa passagem pela superfície terrestre, não hesito quanto ao acerto do ponto de vista da senhora. Como tal, também a Paris magnífica tem o seu lado deplorável e desesperante, até desolador e eu quase diria diabólico. A prima Kellie citou um escritor, se não me engano irlandês, talvez o Joyce que era sempre tão sapiente em tantos assuntos, adiante, a prima Kellie diz que há um escritor que comparou Paris a uma mulher da vida, se assim posso falar, que é deslumbrante vista de longe e horrível quando auscultada de perto. E é verdade, ainda que eu prefira substituir o adjectivo por outro de melhor tom. Pela minha parte direi que Paris é uma cidade madrasta. Vê-se muita miséria; não é, de todo, invulgar encontrarmos pedintes, no centro, ou cruzarmo-nos com pobres diabos que vivem na rua. Nota-se com facilidade que, naquele tão bonito quadro de caixa de chocolates, se atropelam muitos e muitos excluídos; neste que é o lado certo do mundo, eu acho que só pode ser considerada uma vergonha e excessivo o número de marginalizados que por ali pululam. Ele há tanto alucinado por esses passeios e pelos subterrâneos do metropolitano. São os cilindrados por este sistema de vida em que tudo depende quase exclusivamente das nossas habilidades para gerarmos e nos apropriarmos de dinheiro. E além disso temos a sensação que existem muitas pessoas desocupadas. Eu não conheço as estatísticas, sequer sei se podem algumas comprovar as minhas impressões. Mas na moldura humana ressalta o facto de estarmos numa cidade de pretos e asiáticos. São tantos que é praticamente impossível não nos depararmos constantemente com alguns. No metro, então, é uma coisa assombrosa; tenho alguma vergonha em admiti-lo, mas quase chega a meter medo. Mais do que uma vez aconteceu ser eu o único branco no interior de uma composição. No Verão, há um verdadeiro exército de orientais e pretos do Norte de África com as funções de aguadeiros nas imediações da Torre Eiffel ou de outros focos de atracção turística. Esses, pelo menos, não pedem esmola. Mas é entre essas gentes que se nota muita desocupação e eu não sei se o problema –pois é de um problema muito grave que se trata- pode alguma vez vir a ser resolvido. Tenho para mim que é aí que todas as desgraças começam.



Curiosamente, desde que trabalho no restaurante, tenho feito amizade com um rapaz brasileiro, também ele preto se bem que mais claro, que ali cumpre os mesmos recados que eu. É de São Paulo e diz que veio para a Europa em busca de ganha pão e para fugir à insegurança das ruas da sua cidade. Coutou-me que tem uma mão cheia de irmãos e que os pais são vendedores ambulantes dos mais diversificados artigos e artimanhas. Parece-me ser de bom carácter e também é católico. Costumamos conversar sobre futebol e música, ambos gostamos dos U2, embora, por vezes, façamos um ou outro comentário a respeito de outras temáticas mais sérias. Foi ele que me disse que se toda aquela miséria continuar a aumentar com toda a desintegração social que tem arrastado, se isso acontecer lá chegará um dia em que nos confrontaremos com os mesmos dramas da sua metrópole que ilustrou com um poema de uma banda local, segundo o qual os ratos vão entrar nos sapatos do cidadão civilizado.
Eu faço votos para que ele se engane ou antes, desejo que a evolução da nossa realidade não lhe venha a comprovar a profecia.
Apesar de tudo, este mundo é tão bonito.

Paris, 4 de Agosto de 1999

terça-feira, 10 de maio de 2011

FACES

CIDADE MARAVILHOSA



Nellie Larson é professora de farmacologia, na Universidade de Copenhaga e presentemente vive um idílio dos deuses.
Filha única, se muito cedo aprendera que deveria escolher uma vida e uma profissão, não muito mais tarde descobrira o desejo de permanecer na companhia de seus pais que tão seus amigos e confidentes sempre tinham sido. E tal jamais a impedira de viver pela sua livre e espontânea vontade.
Desde a morte do paizinho, Nellie ocupava os verões em passeios com a mãe.
Um dia decidiram visitar o Rio de Janeiro.
Entre os pontos de interesse, era fatal, anotou o Pão de Açúcar.
Aí conheceu Sebastian Harris, um jovem funcionário do Foreign Office em gozo de férias depois de quatro anos de serviço consecutivo na embaixada inglesa em Havana.
Mutuaram o brilho do olhar na fila de espera da segunda estação do bondinho.
Nellie sorriu, sem querer e Jonh Sebastian também.
“-Such a green shinning eyes…”
Na subida trocaram palavras. Apresentaram-se.
Falaram do que viam e comentaram a vida na cidade.
Decidiram almoçar juntos e à tarde, o inglês levou a mãe e a filha a contemplarem as alamedas do jardim botânico onde, sobre os marejos das multi variadas ramadas, puderam escutar os mais diversos cânticos de pássaros e outras aves ou, tão só, as rangidelas dos enormes tufos de bambu. Um colibri veio pousar diante deles.
Acompanhou-as ao jantar e depois de a senhora se deitar, ela e ele foram ouvir um show de Cássia Eller num pequeno clube de jazz.
Nos dias seguintes passearam pelo estado e, espontaneamente, ambos escolheram Parati para passarem um fim-de-semana em absoluto repouso.
“-Mama needs it.”
Com a Lua Cheia, ao fim da tarde a maré alta alagou as vias apedrejadas da povoação, fazendo a imagem da igreja espalhar-se ondulante sobre o canal.
Deram as mãos. Ali compreenderam que ficariam unidos para o resto dos seus dias.




Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 1995

terça-feira, 3 de maio de 2011

FACES

A MESA DO COCA-COLA




Coca-cola é boa pessoa, apenas deseja viver sossegado e ter o suficiente para si e para os seus, sem pedir nada a ninguém e sem incomodar quem quer que seja.
Chamam-lhe assim devido à forma do seu corpo, pernas arqueadas e encimadas por um tronco que, a partir de ancas estreitas, se alarga nos ombros formatados pela labuta que muita foi.
Actualmente é carregador num dos mercados abastecedores da cidade, mas trata-se de uma ocupação transitória, tão só para ganhar algum dinheiro e não ficar parado.
Faz um ano que se instalou numa pequena casa em uma vila do Rio antigo. Ele, a mulher e os três rapazes que seriam quatro, se um não tivesse nascido com a sina de não passar do primeiro mês.
Farto do garimpo que cumpriu durante cinco anos em que apesar de tudo, arrecadou um razoável pé de meia, teve um bom pretexto para atirar a sachola a um canto e fugir dali, sorrateiramente, pela noite de fora.
“-É preciso ser muito macho pár’águentáá aquilo lá em Serra Pelada. Não é fáciu não.”
Heita que nem queria pensar naquele martírio, onde a menor rixa podia desenlaçar em morte e onde a crueldade e a ganância dos donos dos morros era tal que uma qualquer tentativa para surripiar umas pepitas podia ser punida pelas balas.
“-Veja você kús hóme quando encontrávam algumas pedra com ouro…” –Enfatizando com harpejos dos braços e dedos esticados. “-Ái áquilo páráva tudo. Os mandante diziam prá tôd’o mundo lárgár o trábalho e tôd’á gentche tinha qui sáir dáli pár’ó pátrão ir lá, sozinho, com os seus hómi dji confiança, prá tiráá aquilo qui queria. Ái voltava tudo á cávár á térra.”
Aquilo era um mundo de almas danadas.
“-É cláro qui também tinha gentche bôôa. É com’em tôd’á pártche, tem sempre gentche ruim e gentche bôa. Ahahah más áli tinha muito bicho ruim. Dji máis. Tchinha até bandido qui tchinha deitádo á cás’ábáixo pár’êscaváá búráco no quintáu.”
E um dia alguém o ameaçou de morte, Coca-Cola nunca disse porquê.
Dias depois apareceu à sua cara metade que continuava a trabalhar numa fazenda de cana-de-açúcar no estado de São Paulo, tarecos para que te quero e lá apanharam o ónibus para o Rio de Janeiro.
Cata aqui cata acolá, uns dias debaixo da ponte e uma última noite no passeio, já sob a futura janela de suas pertenças, arrendou a um merceeiro aquele piso térreo.
“-Áqui sempr’é mélhó qui lá no engenho e no gárimpo.”
Com o jeito que a sua Jane tem para cozinhar, pensa abrir uma pequena lanchonete no bairro. Chamar-lhe-á “A MESA DO COCA-COLA”.
“-Veja só assim, umás lêtra, com luzinh’á vóuta, à mélhor comida só mesmo ná mesa do coca-cola. Não é légáu?”

Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 1995

terça-feira, 26 de abril de 2011

FACES

INFORMAÇÃO



Robertinho chegou atrasado e desalmado, nem respondendo ao reparo da irmã sobre não ter mudado de terno.
Desceu as escadas que davam acesso a um jardim cheio de árvores e sombras frondosas, perfumes e piares de aves, mas não fez o costumeiro galanteio à namorada, assim como não atendeu ao conselho de um dos convivas para que provasse a delícia de lagosta que o Francis aprontara.
A um general reformado que de uma roda de chalaça lhe acenou e atirou um dixote sobre uma fusão partidária, limitou-se a sorrir e a responder-lhe com a mão direita.
-Arapoã. –Exclamou ao chegar junto do outro, simultaneamente agarrando-lhe o braço e levando-o a deslocar-se um pouco, para fora de um círculo gargalhante face a uma anedota a respeito de um deputado qualquer. Chegou-lhe os lábios ao ouvido: -Temos que tirar a grana do económico. Hoje no congresso, me garantiram com tôda á cérrteza que vai rébentár por um desses dias.



Petrópolis, 11 de Agosto de 1995

terça-feira, 19 de abril de 2011

FACES

FAVELA BRAVA


“-A bala é minha. Me deixa comer, seu filho da puta.” –Gritou empurrando o outro com a asa esquerda, batendo simultaneamente a palma descalça junto de um enlameado de água suja, com o que uma galinha preta saiu espavorida debaixo de uma ruína de madeira.

No dia em que Dedinhos Moles foi morto pela polícia, a notícia correu célere e, no morro, ninguém lhe chorou a sorte.


“-É melhor assim.”


“-Esse hóme era um doido várridão.”


“-Ele era sanguinolento.”


“-Tu tava aí. Ele passava e não ia cum a tua cára e ele te dava um tiro só porque não ia cum à tua cára.”


“-Esses neguinho aí. Tu tá vendo? Têm a mão aleijada. Sabe porrquê? Os garôto andavam roubando por aí, coisa pequeninina, sem importância, mas como o cára não queria que incomodassem a sua bôca di fumo, aí ele baleou eles, como castigo e exemplo pár’ós outro.”


“-O qui é qui você pensa qui é um cára qui corta as orelha e à língua de um sujeito e as espeta num pau, bem no meio da favela?”


“-Nem as garôta qu’êli tchinha…”


Ninguém apareceu a reclamar o cadáver de Dedinhos Moles.


“-Beato Salú era diferênte. O cára andava ná rua, no meio das péssôôa. E era amigo dá gárôtáda, dava sempre coisas p’rá êlis. Os minino gostavam dêli. E era bom p’rás péssôa sim senhor. Págáva rêmédio, empréstáva dinhéro, coisas assim… Às veze, traziam camião cheio di comida e davam p’ró povo ái. Às pessôa até qui respeitavam êli. Más á polícia deu mão nêli. Foi um outro cára qui o dénunciou. O cára qui tinha ficado com á bôca di fumo áo Beato Salú quando êli têvi di fugir p’rá Báhia. Os policiau cercaram a casa, o Beato résistiu e êlis mátaram êli. Coitado do Beato Salú.”


Parati, 13 de Agosto de 1995

terça-feira, 12 de abril de 2011

FACES

HOMEM DE LAMPIÃO

Meu avô foi Meia Leca, braço direito de Lampião, quem o chamou desse jeito e a quem foi fiel até à hora da morte.

Cumpriu dezanove anos de cadeia e quando saiu, sem qualquer hipótese de reatar o cangaço, arranjou trabalho como funcionário público numa cidadezinha de Pernambuco e aí veio a retirar-se, velho e cansado, com o sonho de um dia poder possuir um fusquinha para ir à pesca e dar umas passeatas com a sua terceira mulher.


Os cangaceiros lutavam contra as injustiças dos donos da terra e matavam e roubavam para castigarem os ricos e darem aos pobres.


Eu não, eu não quero saber dessas questões. Eu roubo para viver e porque não estou para ser escravo de ninguém. A certas horas do dia, pelos lados da ilha de Santo António, há sempre algum relógio ou outras coisas prontas a escorregarem para as minhas mãos.


Às vezes até parece que fico rico e sempre que isso acontece, tenho namoradas.


Há outros como eu e uma vez por outra fazemos assaltos em bando. Mas eu prefiro andar só, ainda é cedo para ter uma quadrilha e aqui no Recife ninguém é amigo.


Eu não quero ser como o meu avô Zeferino, o Meia Leca que foi braço direito de Lampião e ali vai morrendo, reduzido a pescarias e ao sonho de ter um fusca.


Eu quero mais e quero-o para mim e não me interessa que por causa disso não chegue tão longe como o velho. Afinal que valor pode ter esta vida? Eu não quero saber dessas coisas de justiça e injustiça. Eu roubo aos ricos porque são eles que têm valores e dinheiro e eu não. E se eu mato algum é porque isso me dá raiva.

Recife, 6 de Agosto de 1995

terça-feira, 5 de abril de 2011

FACES

A EMPREGADA DOMÉSTICA

-É irmã do Zé, daquele empregado que fomos buscar ontem à noite. –Disse ele de imediato, enquanto ziguezagueava veloz entre a corrida automobilística que é o trânsito no Rio de Janeiro. –O meu braço direito. Interrompeu-se para fazer uma ultrapassagem interior na curva que introduz a marginal do Leblon. Questão de segundos, nem espaço deu para uma colherada. -Mas a Jussára é minha empregada mas tu não tá vendo nada, cara. Ela não é uma qualquer. A mulher aí escreve e estuda por ela própria. –Olhando-me em velocidade proporcional à do automóvel, como a certificar-se da expressão da minha reacção às suas palavras. Ele mantinha o seu sorriso de rosto franzido que o caracterizava na forma de contactar o vulgo. Continuava disposto a narrar: -Inclusivé, ela escreve peças de teatro e já encenou e apresentou algumas delas. Coisa simples, claro, coisa de clube de bairro, de parróóquia. Mas também já ganhou dinhero com as peças. Ela escreve a peça, arranja os actores e encena e depois ela vende às escolas. Vai junto da directoria, faz um trato que nem precisa ser assim muito formal nem nada e aí ela apresenta a peça e cobra os bilhetes. Paga uma taxa à escola e aos actores e o resto fica com ele. Ela é muito esperta. –Voltando a encarar-me num instante de recta desobstruída. –Até já teve de representár. Um dia uma actriz teve um problema, não pôde aparecer e ela a substituiu na hora. -E conseguiu? –Intrometeu-se a Luísa, debruçada entre os dois bancos da frente. -Claro que conseguiu. E foi bem na hora. Mas é a cara que escreve os textos. Ela sabe aquilo que os actores têm que dizer. E como é ela que encena também sabe como eles têm que dizer. Aí ela tomou o lugar da outra e a coisa deu certo. Estava prolífico e parecia adivinhar-me os pensamentos. -Eles são quatro irmãos. O Zé e mais três garotas. As outras são bonitinhas, a Jussára até que nem tanto. Mas é por causa dos problemas que ela tem com a saúde. Por isso ela tem a pele e os dentes estragados e é magrinha. Mas até que nem vivem assim muito mal não. Para o padrão dos pobres brasileiros, especialmente aqui no Rio de Janeiro… Mas eles são todos muito nervosos e têm aqueles tiques. Você reparou? Aqueles gestos que o Zé faz com o queixo. Eles são todos assim. E são gagos. A Jussára, por exemplo, tem que andar medicamentada. Eu é que pago. Se não ela não tinha como se tratár e podia ter um atáque de epilepsia. Mas é boa moça. É boa gente. Eu pago um ordenadão de mil e duzentos reais ao Zé, mas eles sabem dar valor. Aquilo é gente que veio da favela, meu irmão. Eles agora moram ali em Jacarepagua mas nem sempre foi assim. Quando vieram par’o Rio foram viver bem pertinho onde eu tenho a minha empresa no mercado. Foram para casa de um tio materno, na favela do môrro do alemão. Vinham fugidos do padrasto. O pai morreu quando eles eram pequenos e aí a mãe arrumou um outro cara. Mas o homem batia-lhes e se a mãe os defendia ela também levava. O cara andava sempre em cima das mocitas e chegou até a tentar estrupár todas três. E sabe o qu’é qu’êles fizeram? Os garotos, o Zé tinha aí os seus quinze anos e as irmãs são mais novas, eles contrataram um sujeito p’rá matar ele. Só que o cara deu um tiro nele mas o bicho estava com sorte e não morreu. Foi parar ao hospital mas salvou-se. E os garotos tiveram que dizer à mãe e fugiram todos par’ó Rio de Janeiro. O facto de não ser hora de ponta permitia conciliar a história com a condução de um veículo rápido. Passávamos o aterro do Flamengo quando ele concluiu: -Mas é por isso que a Jussára tem muitos problemas com os nervos e com a saúde e é por isso que ela não consegue outros empregos melhores. Ela às vezes pega um trote e está uns dias sem trabalhar e aí ela perde o emprego. Não consegue segurá-lo. Mas ela não é parva não.

Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 1995

terça-feira, 29 de março de 2011

FACES

LENTAMENTE

Jurema sabe que o pai do pai de seu avô foi escravo e apesar de liberto, tanto ele como seu filho mais não conseguiram que permanecerem escravos, deixando tão só ao seu avô a liberdade de buscar refúgio em Salvador, em cujo porto foi moço praticamente até à hora da sua morte. Seu pai foi operário e actualmente é motorista. Moram numa casa que têm vindo a construir de acordo com as necessidades familiares, em Santa Cruz, um bairro pobre que se foi favelando consoante o crescimento que a miséria tem quando se instala num sítio. Jurema acabou o ginásio e começou de imediato a trabalhar, dada a sua arte natural, como ajudante de cabeleireira, perto da Barra. Esforça-se um pouco mais e à noite frequenta um curso de informática, numa escolinha providencial sediada no edifício do shopping, a menos de cinco minutos do salão. É árduo, de segunda a sábado sai de casa às seis da manhã, para regressar depois das onze da noite. E no entanto, Jurema mantém um sorriso de íntima satisfação. Ela acredita que assim virá a melhorar a sua condição.

São Salvador da Bahia, 2 de Agosto de 1995

terça-feira, 22 de março de 2011

FACES

A PRIMA HELENA



A prima Helena é filha de portugueses mas nasceu e foi criada no Brasil, em Porto Alegre.
Os seus pais eram comerciantes e souberam educá-la nos bons princípios da decência e do trabalho, desde muito nova levando-a a crer que a cada um compete ganhar a vida de forma honesta, sem servir de sobrecarga para ninguém e não ofendendo o alheio. A prima Helena é católica.
E como sabe tirar partido das balizas que o tolerável lhe impõe…
É claro que estamos num país um tanto ou quanto desorganizado e com situações desconcertantes.
Mas a prima Helena sempre foi muito despachada, é a sua índole.
Assim se explica que depois de vinte anos como professora primária, durante os quais acumulou dois horários completos, ela tenha conseguido reformar-se de um e ainda tenha encontrado ânimo para, no entrementes do turno liberto, primeiro cursar direito e posteriormente exercer a profissão.
Tal como ela aconselhou a uma amiga que a acompanhou num curso de Psicologia.
“-A coisa é simples. Basta ler umas coisinhas e aquilo se faz num instante.”
Se com isso a outra obteve uma aposentação por grau mais elevado e melhor remunerada, ela ganhou um lugar nos serviços do Ministério que para além de lhe deixar mais tempo livre, oferece-lhe um vencimento consideravelmente maior.
É mesmo da prima Helena que uma vez percorreu Portugal de lés a lés à custa da bondade do meu irmão mais novo.
Só agora entendi como foi isso possível.
De visita para rever a família, fui recebido com todo o calor e solicitude, tendo ela a gentileza de me reservar um quartinho num hotel quase paredes meias com o prédio onde tem o seu apartamento, mesmo no centro da cidade.
Sendo solteira por opção e vivendo só, naturalmente procurou evitar qualquer mal entendido que a minha presença portas a dentro poderia provocar no seu círculo de relacionamentos.
Mas não foi por isso que deixou de ser uma anfitriã inesquecível.
Levou-me a comer nos melhores restaurantes e fez-me passear de táxi pelos pontos mais interessantes do burgo e arredores. Logicamente paguei eu, pois outra coisa não seria de esperar de um cavalheiro pelo que sempre andou desprevenida com o dinheiro.
A prima Helena é assim e ficou contente por me ver de boa saúde.
Diz que retribuirá a minha visita. Oxalá não cumpra a promessa.

São Salvador da Bahia, 1 de Agosto de 1995

terça-feira, 15 de março de 2011

FACES

AO VOLANTE DE UMA COMBI


Centenas de quilómetros pelo interior do Mato Grosso. Céus, como são grandes as distâncias neste reino.
A terra cor-de-laranja entranha-se-nos nas narinas.
Viajamos numa decrépita station volkswagen e a canícula impõe as janelas abertas.
Caminhos de areia e o desconforto de assentos com molas erodidas por uma vida de solavancos.
Mas a paisagem compensa.
Seja pelo verde do sertão que nesta época do ano está sequioso, seja pela exuberância da floresta tropical, a milhas mesclada por povoados de ruas rectilíneas e largas, sempre pintalgadas por casas térreas de cores berrantes.
As aves selvagens, essas, vão aparecendo em qualquer lugar.
Por aqui e ali moradas de caboclos, em madeira e muitas delas com alpendre, quasi todas envilecidas.
À noite avista-se a grandiosidade da Via Láctea, mas no interior da selva húmida pantaneira, as estrelas têm o acompanhamento de uma milhena de sonidos, alguns indistintos, saídos da vida que por lá brota de todos os lados.
Do alto da Chapada dos Guimarães, perto do marco geodésico que, segundo os locais, assinala o centro do continente sul americano, distingue-se bem uma das delimitações do planalto central brasileiro.
Aí, o desnível que se expressa em forma de canyons, está infestado com uma florestação densa e de grande porte, adornada e alimentada pelas cascatas de cujas águas se alimenta a rede hidrográfica que dá forma ao Pantanal.

Cuiabá, 31 de Julho de 1995

terça-feira, 8 de março de 2011

FACES

CUIABÁ



Estava um índio junto do rio.
Ele tchinha uma cúia e estava tirando água do rio pára lávar á cara.
O índio ali estava lávando á cara, lavando á cara e aí chregou um pórtuguêêx.
E o índio qu’istava lávando á cara, lávando á cara com á água de sua cúia, o índio pegou um susto.
O pórtuguêêx não era mau não, ó era… Xita qu’ê nem sei.
Más o índio pegou um susto.
Ihihih foi um susto grraaande, um susto muito graande.
O índio tinha medo do pórtuguêêx. E aí deu um salto.
E quando deu um salto deixou cáir á cúia.
E disse:
“-Cúia bá.”
Que quer dizer á cúia cáiu.
E assim ficou o nome de Cuiabá.


Pantanal, 29 de Julho de 1995

terça-feira, 1 de março de 2011

FACES

ADILSON




“-Filho dje peão é p’rá sáii peão mesmo.”
E assim foi. Findo o primário onde aprendeu a ler e a escrever, a contar e a fazer contas, Adilson começou como moço de mão de seu pai, peão de confiança do senhor de uma grande fazenda de gado.
Com ele aprendeu a montar e a cuidar dos animais, a conhecer o meio e aí saber sobreviver e ainda na companhia do progenitor fez as primeiras boiadas. Depressa se autonomizou e passou a peão boiadeiro.
“-Era duro p’rá caramba.”
Aquilo não era vida de homem, os bichos viviam melhor. E um dia em que um feliz acaso o colocou diante de um grupo de estranhos que pescavam piranhas junto de uma pequena ponte em madeira, pelas conversas que ali ouviu e pelas risadas daquelas pessoas, como que por encanto compreendeu que poderia ganhar dinheiro e viver como aquela moça e aquele rapaz que acompanhavam os turistas.
Tirou-se dos seus cuidados e, pé de onça, lá demandou uma fazenda com exploração hoteleira e virada para o aproveitamento turístico das curiosidades pantaneiras. Caminhou a pé durante um dia e quando lá chegou e apresentou tantos passeios diferentes, com as mais variadas actividades de lazer, o informal empresário contratou-lhe de imediato os serviços de guia.
Adilson fazia um preço por cada indivíduo, o proprietário do hotel aplicava-lhe uma taxa e vendia aos hóspedes visitas e aventuras pelas vias de água que dedilham a selva húmida.
“-Nóóóssa sênhora. Meu filho pássou a gánhárr muito mais do qui táva ganhando.”
Ele era esperto e ambição não lhe faltava. Ensinou outros moços, contratou os serviços de jovens saídas das escolas de agentes turísticos e com isso montou uma firma, a “Viagens Pantanal”.
Por ora está estabelecido em Cuiabá, com escritórios e contabilidade, oferecendo pequenos tours por praticamente todo o estado de Mato Grosso do Sul. É um bem sucedido e já tem fortuna, contudo ainda gosta de ir a conduzir a combi, ou a remar na canoa, explicando aos forasteiros aquilo que não está nas coisas que vêem.
Perto dos trinta, o Adilson continua solteiro.
“-Más tem namorada.”
Agora possui outro sonho, montar uma padaria, talvez com o tempo, quem sabe, uma rede de padarias.
“-Só qui tem qui sêr numa zona dji pobre. Pobre é qui come o pão.”

Pantanal, 29 de Julho de 1995

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FACES

TRISTEZA...


Para o
Luís Paulo de Carvalho Lopes,
irmão estrangeiro em terra distante.

Não é por não falar
em felicidade
Que eu não goste
de felicidade

Não é que eu não goste
da felicidade
É que não falo
de felicidade

E é por falar
infelicidade
Que eu não gosto de falar
em felicidade.



Titãs


SUCURI

-Xente! Sucuri é bicho ruim. Não gosta de ver não. –Sorridente, mostrando as gengivas desdentadas que assim impossibilitavam o contraste entre o esmalte e a tez cafeinada dos caboclos. E depois de pousar a mão na cabeça, continuou com um gesto largo de orador. –‘Cê sabe?! Sucuri enfeitiça a xente, não dá p’rá vê não. Qando a xente tá sozinho, ela atrai à péssôa párá’água. –Expressão ganhando seriedade ao sabor do desenrolar da conversa. –Éééé! Sucuri atrai às péssôa… Cê fica enfeitiçado e vai, vai sem saber porrquê e entra ná água. E então ela se enrola e mata a xente. Sucuri não é bom de ver não.


Pantanal, 29 de Julho de 1995

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

FACES

HUNTING


Paola é filha de comerciantes e também ela vive de um pequeno comércio de artigos para turista, em Taormina, para onde se deslocou após o assassinato do seu marido, em Catânia, onde viviam e ela nasceu, cresceu e estudou. Casou-se pelo mandamento do coração e com a esperança de felicidade para o resto dos seus dias e quando recebeu a notícia da sua viuvez, entregou-se a uma perplexidade que a remeteu à clausura por todo o tempo que mediou entre uma calvície das árvores e a canícula da anuidade seguinte. Foi então que a mãe a convenceu a dar novo rumo à sua existência e a possibilidade de uma tia lhe passar um pequeno negócio naquela vila que a imigração grega havia fundado, foi bem aceite como o ponto de saída para a demanda de novas escalas, naquilo que entendia como um castigo para as suas deambulações apagadas das emoções do amor.
E a sua vida desaguou na melancolia de uma pequena loja, aqui e ali com um livro, vulgarmente com as conversetas do vai vem de clientes e fornecedores. O mais se fez de televisão e revistas, em casa, depois de jantares rápidos, uma vez por outra de entrementes com um ou outro espectáculo nas ruínas do teatro grego. À volta da regularidade de um trimestre, descia à cidade natal para rever os progenitores. Sem dar por isso, esqueceu anteriores amizades.
Logo no primeiro Verão decidiu fazer férias em Malta e hospedou-se num hotel em Sliema, num quarto com varanda escancarada sobre a plataforma argilosa que perfaz os contornos do cru abrasão com que, ali, a ilha recebe a espuma mediterrânica.
Andava perto dos trinta anos de idade e tinha saúde. Sentiu desejos e no jantar desse dia elegeu um outro hóspede solitário para seu parceiro de noite.
Nos anos seguintes repetiu-se e na primeira vez que trocou aquele arquipélago por outro destino, era já detentora de uma considerável colecção de masculinidades várias, onde intimamente gostava de destacar o que sentia como o prémio da iniciação de um adolescente. Nesse estio, em Samos, sofreu uma má experiência. Dois apolos que apanhara numa esplanada e que levara para um recato de rochas na praia, mais não foram capazes do que duas rápidas ejaculações consecutivas, seguidas do imediato subir das braguilhas e um par de galopes de foguete, como se ela fosse uma simples meretriz a quem se furtavam de remunerar. Depois desse desaire que lhe estragou todo o restante veraneio, virou-se para o ocidente e, em épocas sucessivas, acabou por atravessar um bom número de praias do sul de Espanha. Talvez por isso tenha sentido curiosidade por Tenerife e, vendo pelos prospectos turísticos, reservou uma semana em Puerto de la Cruz.
No regresso, deu por boa a hora em que tomara tal opção. Ali, sob as estrelas da marginal ajardinada onde se exprimem artistas e vendedores de bugigangas, cruzou-se de olhares com Pablo que, nessa noite e pela primeira vez em vinte anos de casamento, conheceu outra mulher que não a mãe do seu filho.
Foi ela que o extasiou com tudo o que um homem pode esperar e ter do feminino, mas era ele, até então, o único exemplar de um honesto pai de família para lá da qual a castidade tinha voto.

Há quantos anos ela não estava assim, sentada, só e sinceramente despreocupada, na circunstância, a uma das mesas do bar da piscina do hotel?
Casara com Pablo e a quinta dele e sem hesitações se entregara à labuta de fazerem as terras crescerem e os cabedais amealharem, alguns anos depois com a tutoria conjunta do Pablito que, naquele ano, ficara em casa dos avós maternos para que os pais tivessem oportunidade de se apaziguarem numa união que, depois de uma rodagem de silêncios, ultimamente, resvalara para a gritaria e as ofensas que já pouco distavam do uso físico.
Naquele declínio solar em que o marido saiu do quarto por estar farto de lhe aturar a falta de vontade para se distrair, limitou-se a ficar estendida na cama e a descer, horas depois, para jantar onde então se encontrava, já na companhia de um vinho digestivo.
Sorriu e concordou, em acto contínuo, ao escutar o pedido de um homem de meia idade, bronzeado e com cabelos castanhos puxados para trás, desportivamente vestido mas elegante que, de olhos azuis brilhando, lhe perguntou se podia ter a graça de falar com uma verdadeira obra de artista. Quando a convidou para irem dançar, ela pediu apenas para ir buscar a sua bolsinha ao quarto e ainda na rua, ele deu-lhe a mão e logo de imediato a puxou a si pela cintura e a beijou na fronte.
Na alta madrugada em que ele teve a gentileza de partilhar o táxi que a devolveu a casa, Sara sentiu a estranha sensação de ser mulher e agradeceu a Deus o facto de poder adormecer sozinha e nada indiciar que alguém ali tivesse estado na sua ausência.




No avião, no trajecto que os deixaria no aeroporto de Sevilha, Pablo olhou a mulher com o carinho de outros tempos. Ela sorriu e deu-lhe a mão. Encostaram as faces sobre o ombro dele.


Maska, Agosto de 1998

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

FACES

IMPRESSÕES


Hoje estamos aqui para celebrar a eucaristia, para fazermos um voto pelo padre Casimiro Gusmão e também para Sant’Ana que, como vocês sabem, se festeja neste dia de vinte e seis de Julho e ainda para orarmos ao Senhor que está entre nós

O SENHOR ESTÁ ENTRE NÓS!

O Senhor que nos ajuda a vivermos e a melhorarmos estas nossas vidas fantásticas, neste pedaço de deserto flutuante, em que os pombos disputam alimentos invisíveis às cabras e galinhas pululantes por onde haja um aglomerado de habitações, no qual os furacões do experimentalismo cultural deixaram restos destelhados de edifícios esburacados e risíveis, alguns

AS FARP ESTÃO VIGILANTES NA LUTA DO POVO PELA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO NOVO

cujos testemunhos são ruínas, por ora, ainda brancas, embora, sob o calor tropical, os arames farpados vão enferrujando depressa; ou então as papoilas anacrónicas como a foice e o martelo do Hotel Aeroflot, em Santa Maria do Sal. Outros, dramaticamente eloquentes das tragédias de tantas descolonizações ou da não menos problemática relação dependente dos produtores de matérias-primas, incapazes de influenciarem o ritmo da procura nos mercados, fantasmas de uma economia do sal, de todo incompatível com as tábuas falhadas e acotoadas do cais de embarque.
“-Oh pááá, isso era coisa de muito movimento. Todos os quinze dias vinham aí uns navios a caminho do Congo ou de Luanda e carregavam umas vinte toneladas de sal daqui p’ra fora.”
Um guarda fiscal, por esses tempos, tinha muito trabalho, era uma coisa de grande responsabilidade.
Mas em Espargos sente-se energia florescente em pequenos comércios anódinos mas em pleno esforço de afirmação e enriquecimento e o mar e a mesma transparência de sempre, a orla verde, brilhante que circunda toda a ilha e permanentemente a presenteia com um alvo buliço, aqui e ali mesclado pelo breu acastanhado.
Quando atravessamos a planície de lavas arenitificadas, uma e outra vez visualmente interrompida por algumas corcundas cor de cinza castanho avermelhada, e além, paradoxalmente, jovens cones apontados a um céu não raramente ornamentado com nuvens, maioritariamente dispersantes, negaceiras em abençoarem os dois ou três oásis neste minúsculo prolongamento emerso das imediações saharianas, ao longo do asfalto que rasga as dunas rasteiras e a perder de vista, ou dos caminhos abertos por pneus e gado saído do nada, impera o som do vento e quando descemos o túnel do aproveitamento salineiro de uma caldeira vulcânica, esquecemos por completo o testemunho físico da existência solar.

QUE O SENHOR ESTEJA CONNOSCO.

Ele está entre nós, meu Deus todo-poderoso que me protege dos raios e faz das minhas cabras e do meu burro uns animais espertos para comerem do que há por aí, entre pedras e pedrinhas e pedregulhos espalhados de permeio com os lixos de plásticos e latas que vão sendo arrastados pelos remoinhos mais enfurecidos das deslocações de ar e nos dê saúde para vivermos com Fé e esperança nesta terra abençoada por Si.
Mas este país tem futuro, não é verdade senhor Jacinto?


Santa Maria do Sal, 26 de Julho de 1992

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

FACES

ÁFRICAS
Para o
Guilherme e o grito do Mindelo
pela vida e a dignidade

HASSAN


Vim a saber, posteriormente, ao longo de uma conversa de várias horas entre Marrakesh e Agadir, Hassan é filho de pastores e camponeses berberes, obrigados, por um terratenente oriundo de Casablanca, a recuarem do planalto fértil subsequente a Meknes para as terras semi-desérticas mais próximas à primeira daquelas cidades.
Ainda cresceu, já com aquele andar de lentidão e carnes balofando, passadas de chinela no trote de quem tem de correr atrás das cabras e do Cheou, o nome atribuído por seu pai ao dromedário familiar, à frente do qual ambos se dirigiam orgulhosos para o souk, a fim de procederem à troca dos víveres excedentes ao auto-consumo. Ali, na casa rectangular de adobe cor-de-rosa e no jardim imediato ao poço, sob a protecção de um morro rochoso apontado às nuvens rolantes, aprendeu o necessário e o fundamental à sobrevivência de um homem.
E a feliz casualidade do facto de ter aprendido a ler e a escrever a língua árabe com um mullay de uma aldeia próxima, salvou-o de uma vida incerta quando, aos doze anos, se viu obrigado a viver sob a protecção de um tio materno, pequeno comerciante estabelecido na capital da província.
O seu pai fora um homem corajoso que soube transmitir-lhe esse legado e que após a morte do filho mais velho, por via da desgraça, fora forçado a abandonar o amanho das terras e procurar outros meios para melhorar os réditos e a alimentação do que, apesar de todas as vicissitudes, no íntimo, desejava viesse a ser um novo clã. Apesar de não ter conseguido impedir a morte de outro rapaz e de se ter ficado por um trio feminino e apenas um macho, não descurou a demanda da maior riqueza possível para que todos desfrutassem de uma vida farta e segura. Mas acabou preso, por esfaquear o primogénito daquele que lhe arrematara toda aquela superfície salpicada de piteiras e palmeiras e outra vegetação de arbustos e árvores de clima quente. A mãe e as irmãs que jamais tiveram notícias do prisioneiro, aceitaram o amparo de uma cunhada e ele levou consigo uma revolta silenciosa e uma obstinação férrea de vir a ser alguém, aquilo que, no seu entendimento, se definia por ter uma individualidade, criar e educar a descendência, partilhar tal missão com a mulher e viver de um trabalho sério e limpo, bem remunerado e prestigiante.
“-Podermos descansar no mês de férias junto ao mar e viver numa casa com todas as condições e quarto para mim e a mulher, um para os rapazes e outro para as raparigas. Se assim puder proporcionar-lhes a aprendizagem de uma boa profissão acho que ficaria satisfeito.” –Disse-me ele num francês fluente, fruto de um curso de aperfeiçoamento, a concluir, assim o esperava, no Inverno seguinte, numa escola de línguas na cidade de Ingrid e Bogart.
Foi esse o objectivo secreto que o levou a trocar as tarefas na loja do tio pelo emprego de ajudante e moço de recados num hotel, por volta dos seus catorze anos de idade. Decidira então aprender numa escola pública e concluíra os preliminares necessários à entrada num curso de hotelaria.
Quando o conheci tinha vinte anos e há três que trabalhava como ajudante em autocarros de excursões turísticas. Era uma ocupação decente e com as gorjetas acabava por ser bem remunerado. Hassan estava confiante e contava vir a ser guia turístico, diplomado e competente, etapa que esperava cumprir com êxito graças ao pecúlio amealhado e que ainda lhe proporcionaria uma entrada confortável na carreira almejada.

Conheci-o como consequência de ter seguido a sugestão de duas professoras residentes na margem sul e pessoas das minhas relações que, por mera casualidade, encontrei a banhos em Agadir, onde, apesar de inesperadas instabilidades do tempo atmosférico, em algumas matinas, pela força da névoa, capazes de impedir os rituais balneares, os baixos preços dos alojamentos relativamente luxuosos concorrem vantajosamente com outros lugares igualmente debruçados sobre a ressaca.
Aconselharam-me um circuito turístico que, ponderadas as limitações do tempo e das opções pelos lugares a visitar, possibilitar-me-ia, na opinião delas, um primeiro correr a face pelos marroquinos e o reino de Marrocos.
“-Depois até ficam mais à vontade para alugarem um carro e darem uma volta por vossa conta e risco.” –Disse uma delas, referindo-se à minha mulher.
Ajustados os trâmites devidos com o guia de uma agência de viagens que trabalhava com a estância hoteleira em que estávamos hospedados, dois dias depois, iríamos percorrer um périplo de mais ou menos dois mil quilómetros que ligaria uma sequência de umas quantas cidades, ditas, imperiais.
O Hassan era o ajudante do condutor, um autêntico assistente de bordo que, para além de contar os excursionistas e carregar e arrumar o malame, ainda mantinha o veículo impecavelmente limpo, ali dormindo, no estreito corredor, sobre colchão improvisado, justamente para zelar pela segurança de tudo o que ali permanecesse à sua guarda.
Reparei nele pela atenção com que desempenhava as suas funções e até mesmo a importância com que, aparentemente, se auto-presenteava, dormitando um pouco ao longo dos percursos morosos e extensivamente trepidantes. Calado e olhos testemunhando a obstinação de quem procura cumprir rápida e eficazmente uma acção, não escondia certa circunspecção, diga-se em sua defesa, razoavelmente discreta.
A curiosidade avolumou-se logo após a primeira e, praticamente que eu tenha registado, uma das poucas intervenções que teve nos diálogos com os turistas portugueses que ali viajavam em bancos perto do seu, entre os quais me encontrava.
Duas moças, uma senhora e uma jovem dos seus vinte e tantos anos, discutiam qualquer coisa, estando uma das mais novas a ser questionada pela sua recusa em perder tempo a discutir os preços dos vendedores.
“-Que desperdício.” –Argumentava, soletrante mas segura de si. “-Delapidando o meu rico tempinho para ver a Medina com um mínimo de atenção e pelos meus próprios olhos.”
O ajudante sorriu e, espontaneamente, falou. Percebeu-se e ele depois veio a confirmá-lo, por via das muitas jornadas que já levava com tais gentes, conseguia entender um pouquinho de português.
“-Freedom.” –Disse, repentina e inesperadamente, mostrando o contraste entre a branca dentição e a sua tez carregadamente moura. “-Elle a besoin de liberté.”

Agadir, 17 de Agosto de 1991

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FACES

AEROPORTOS


Aeroportos e aviões.
Um dia perdido por entre esperas intermináveis, descolagens e aterragens.
São Paulo, o aeroporto de Guarulhos fala quase tantas línguas quantas as existentes na Terra.


Aeroportos. Já estive em uma boa vintena deles e posso dizer que de todas as dimensões e feitios. Desde Heathrow, em Londres, um gigantesco aeroporto internacional, quer no referente ao tamanho quer à complexidade em que se constitui como um grande nó inter-continental, de onde partem ligações aéreas para praticamente todo o mundo, constantemente agitado pelas máquinas que sobrem e descem de e para díspares direcções, desde esse, dizia, até aquele que não será erro considerar o antípoda, como é o caso da aerogare de Santiago, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o qual abandonei por uma espécie de portão de quintal, mal acabada a aventura de recolher as bagagens a contento, num armazém de amarelo desmaiado, atravessado ao meio por uma linha de bancos de ripas de madeira, sobre os quais foram literalmente atirados os volumes que não raramente estão a mais ou a menos, por entre aquela oposição devo acrescentar que também já deambulei por aeroportos de média dimensão mas inseridos nos circuitos internacionais e inter-continentais, como, por exemplo, o de São Salvador da Bahia de Todos os Santos ou o de La Valetta, em Malta, assim como em outros mais pequenos mas de expressão além nacional, o de Agadir é, para tanto, um postal, outros tão só com papel regional, como o aeroporto de Iguaçu, no Paraná, onde a pista ainda é avistável a partir de varandas e terraços abertos ao ar atmosférico, provavelmente devido ao calor, mas todos eles eficazes e modernamente organizados, à semelhança de um qualquer grande aeroporto internacional, só que em ponto mais pequeno. E a propósito, embora seja um aparte alienígena a estas páginas, digo que, de todos quantos conheci, aquele de que mais gostei foi o de Brasília, em forma de disco voador e um verdadeiro espectáculo em termos de funcionamento, quer no âmbito das acessibilidades, quer no respeitante à comodidade de em pouquíssimos passos usufruirmos dos serviços necessários e da manga que, em todos os voos, nos leva ao aparelho; aliás, um aeroporto à altura daquela que, na minha modesta opinião, representa uma ideia de cidade do futuro, um espaço feito à escala do máximo proveito para os beneficiários que são os seus habitantes.
Mas, como eu estava dizendo, já estive em muitos aeroportos diferentes e aquilo que sempre neles me impressionou ou, para conferir maior precisão ao discurso, mais me impressiona, trata-se, afinal, de algo que nada tem de diverso daquilo que sucede em tantos outros sítios; é o facto de por lá trabalharem pessoas que dão corpo às suas vidas profissionais invariavelmente sob os olhares dos milhares e milhares de outros que por aí passam.
Ainda hoje não sei explicar porquê, mas quando, à volta dos meus dezassete anos de idade, laborei um bom número de meses no escritório de uma agência prestadora de serviços, sentia o embaraço de desempenhar as minhas funções perto de uma janela e ao alcance de todos os mirones que, por vezes, me observavam enquanto escrevia à máquina ou atendia este ou aquele cliente. Não sei se me irritava o estar ali e os outros lá fora ou se, o que me perturbava, era simplesmente a inevitabilidade de ser o alvo de quem se atrevesse a espreitar. Sei que a situação me era incómoda e recordo-me de dias mais taciturnos em que me remetia para uma secretária de fundos que tinha a particularidade de estar, em parte, camuflada por um armário metálico com gavetas de ficheiro. Ser estafeta, na rua, ou cobrador, como aconteceu mais tarde, isso era uma coisa. Mas trabucar indefeso perante o olhar alheio…
E o curioso é que, inconscientemente, sempre me perguntei se aqueles que o fazem com tal se agradam. Eu destaquei o inconscientemente pois, se o não tivesse feito, certamente estaria para aqui a sustentar tontices. Claro que há ilustrações para todos os gostos; ele haverá quem goste e quem desgoste e ainda os indiferentes. Eu é que, por esta ordem, me posiciono no meio, ainda que tenha conhecimento de alguém que abençoa a oportunidade de, um dia, ter estado naquela condição de funcionária exposta ao público.


Um amigo meu, certo dia, enquanto esperava o check in, no aeroporto da Portela, em Lisboa, quis o mistério que ele sorrisse para uma empregada do balcão da British Airways.
Ela franzira os olhos e escancarara os lábios, adiantando o rosto na direcção dele, quando se viu forçada a bisar a pergunta relativa à preferência entre os lugares para fumadores e não fumadores.
Por fim, dentes brilhando, ele limitou-se a responder que nunca fumara.
Meses mais tarde casaram.

São Paulo, 28 de Julho de 1995 e Londres, 8 de Agosto de 1996