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sábado, 11 de março de 2017

Poemas com Jazz


Canto Cupido

Na boca que te leva a dizer que me amas
Dorme um desejo profundo, que a mim,
Gesticula mudo um sinal de apocalipse
E a terra treme.

No fim os teus cabelos ascenderam os céus
E toda a casa que partilhamos endividará o senhorio.
Nossa ausência, o perfume que deixas,
O gato que morre de fome, os relógios que eu deixo,
Toda nossa louça bordalo pinheiro que nos une aos dois
E teremos de deixar.

Tu prometias quando dançavas com o olhar
Na direção dos meus olhos,
Fitava-los prometendo e prometendo
E continuando a prometer até a íris que te contorna a alma
Derramar em silêncio sobre as pálpebras a emoção contida
Que te escorria ao longo da face.

Lembras-te disso?
E lembras-te quando ouvíamos a música das galáxias por cima de nós?
Nessa noite em que a lua nos disse que o sol nunca deixaria brilhar.
Pois foi nessa mesma noite que o sol pediu a noite em casamento.
A lua, essa mesma lua que ocultava o sol
Para que eu te dissesse baixinho a palavra "Amo-te".

Na nossa casa brilhavam luzes cintilantes
Mas ficou tudo tão escuro.
Será que apaguei o gás? Lembro lá de tal coisa.
Ou foste tu? Consegues lembrar-te?
Impossível, ainda ontem tomaste um banho quente
Enquanto eu fui comprar um tabaco.

Científicos estudos teus detectaram o buraco negro
Em que oráculos meus pressentiram o apocalipse,
O declínio do nosso império deu-se e a terra tremeu.
O teu corpo flutua agora e o meu caminha
Só a memória nos une em direcção ao sol.

Consigo ver os teus olhos na escuridão
Consigo sentir o odor do teu corpo e as fragancias em te banhavas.
Consigo escrever em pormenor todos teus sonhos
Quando declaravas que Copérnico e Galileu estavam errados
E que o nosso amor era o centro do Universo.

E os dois corações estremeciam de repente quando
O carteiro batia á porta dizendo ser correio
E e nos tranquilizávamos
Porque pensava-mos que nos vinham penhorar os sonhos,
Daquilo que cada um de nós sentia e nunca foi capaz de ao outro.

Pois dentro de nossos peitos havia uma guerra humana
Tremenda, insegura, trágica, sanguinária,
Sim, porque a consciência é como um teatro de guerra
Onde se move a artilharia do corpo fazendo recuar infantaria da alma
E em havendo um cessar fogo final tudo volta ao mesmo,
Deixando desnudas as nações que nos unem,
Os pássaros voltam a cantar, o rio a correr, o sol a brilhar e crianças a nascer.

Tu tinhas em teus frágeis dedos o cristal
Daquele serviço de copos que compramos na Boémia.
Ficavam bem na mesa da sala não achas?
Eu ria-me para ti como uma criança enquanto bebia vinho,
Pegava-te nos dedos finos e do teu olhar reprovador
Nascia um sorriso terno e a seguir chamavas me tonto.

Fomos tudo e nada
Onde o tudo e o nada se juntam para que haja vida.
Ao menos um rasto de vida, alguma coisa que justifique
Que o amor entre duas pessoas é necessário para uma vida completa.

Agora já sei, o destino disse me ao ouvido,
Já me provou, só me resta rir e ser alegre.
Um pássaro voa, o vento levante ergue-se e o sol põe-se,
Retribuo te todos os meus sorrisos, a vida flutua,
E o mundo não dá por nada.

Málaga 2017

P.S.: Para jazz clique no nome do autor

sábado, 3 de setembro de 2016

Poemas com Jazz


UM LUGAR

Lá na morada onde me mora o medo
Aceno um "Óla", acendo um cigarro e passo.

Discreto, sem que o coração me ajude ou a razão me processe,
Sem que um demónio ou um anjo intervenham na minha existência 
E me perguntem se quero fumar um charro ou simplesmente olhar o céu.

A última lembrança que tenho quando passei aqui
Foi um artifício de fogos descodificando flores murchas.
Velhas casas a oeste com as lamparinas ainda acesas 
E velhas cantando cânticos religiosos de um lado ao outro 
Da morada onde me mora o medo

Entro num café com um cigarro na boca,
A cinza cai e eu avanço sereno e a alma banhada em rosas,
Um homem sentado a uma mesa ri-se,
Ofereço-lhe um licor, sento-me e rio também 

Um piano toca e o sol doira lá fora,
Borboletas poisam e as flores saúdam-lhes,
O canto dos pássaros estende-se ao comprido nos galhos,
O mundo repousa sereno e estar vivo é um luxo.


NOTA: Clique no nome do autor para ouvir a música escolhida para este mês!!!

sábado, 30 de abril de 2016

Poemas com Jazz


O Volvo de D. Quixote

D. Quixote ao volante de seu volvo
Pela mata que se avistava ao longe.

De longe louco pela noite,
Ela, a noite sonhando a aurora,
Lutando e amando o náufrago silêncio 
Da terra que move os astros.

Loucura da noite na noite assim,
Um escudo brilha no céu e não é gigante
Sem de todo ser moinho num vento de utopia real.

Fiel escudo em cima do escudeiro céu,
Confidente da noite por trás dos oráculos,
Cavalgam pela madrugada em volta
A quem à Aurora declamam versos.

Quixote ressona pelo fio de saliva queixo a baixo
Sentado ao volante de seu volvo á beira da estrada.
A mata escuta o iPhone que o desperta,
E o gigante sol, tão real que da chave na ingnição
Desfila Quixote pela lança que lança ao volante cavalo.


 Diogo Correia

Pelos 400 anos da morte de Miguel de Cervantes a 22 de Abril de 1616

(CLICAR AQUI)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Até Jazz...



Fruta de peça


O frasco de tomate que da popa deu fruta.
O futuro também passa por ser fruta com caroço
E o balanço que o mundo faz do que passou
Irrompe pelo banquete em que os deuses se folgam.

A fruta mais que certo é fresca
O banquete mais que certo é eterno.

Ou não: a fruta não é eterna nem o banquete é fresco.
É só a força de razão humana guiando um povo de deuses.
É só a máquina humanamente possível de imaginar atmosferas
Terrestres que no solo semeado crescem árvores que dão fruta.

O frasco claro, pois certo... O frasco...
Ainda o frasco não tinha nascido já as frutas eram jóias ao pescoço das árvores.




Nota: Clicando no nome do autor, o poema dá jazz!!!