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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A estátua equestre de D. José - Lisboa


“Vocês sabem qual é a pata direita do cavalo de D. José? – Não??? – É a esquerda!”
Esta era uma brincadeira do meu tempo de menino, que nos obrigava a ir constatar o fato! Basta ir lá ver o dito cavalo!
Agora a Câmara de Lisboa mandou restaurar a estátua. Está lá há 237 anos, foi feita pelo grande artista Machado de Castro sob projeto de Eugénio dos Santos, o arquiteto que, junto com Carlos Marcel, e sob a supervisão do engenheiro chefe, Manuel da Maia, projetou a Baixa de Lisboa, totalmente destruida pelo terremoto de 1755.
D. José não quis posar e o artista teve que recorrer a retratos. Para evitar diferença acentuada na parecença, baixou-lhe o capacete e deu-lhe uma cara de jovem... quando o rei estava já envelhecido. Como é óbvio o Marquês de Pombal também quis ficar na estátua e lá está a cara dele bem na frente, num grande medalhão que, quando da sua morte e condenação foi de lá retirado, mas, recolocado em 1833!
Pronta, foi a estátua colocada no lugar onde ainda está, uns dias antes da inauguração, entretanto resguardada por cortinados de tafetá carmezim até 6 de Junho, quando o rei fazia 61 anos!

(Olhem a pata esquerda!)

Na noite da inauguração acenderam-se 28.000 luzes na Praça do Comércio, além das habituais.
Houve festas vistosissimas nas salas da Junta da Casa dos Vinte e Quatro, na do Juiz do Povo, no Colégio de Santa Maria de Jesus, com concertos, discursos, recitações poéticas nas línguas grega, hebráica, arábica, inglesa, francesa que por fim eram traduzidas para português, porque...
No segundo dia vieram suas Magestades à Praça do Comércio ver passar o cortejo alegórico, com 8 carros triunfais, acompanhados de danças! Tão grandioso a desfile que durou a noite toda.
Na noite seguinte queimou-se vistoso fogo de artifício depois do que os monarcas passaram à Sala da Alfândega, sala com 223 palmos de comprido e 96 de largura, onde se sentaram na tribuna real para assistir a uma sonata cantada em italiano, L’Eroe Coronato.
Na sala imediata, iluminada com 1.200 luzes, fora preparada uma ceia descomunal e opípara, com lagos rodeados de flores onde “navegavam” miniaturas de todos os tipos de embarcações do rio Tejo.
Custou 100.000 cruzados, o que seria hoje algo como... 2.000.000 Euros.
Consumiram 226 arrobas de vaca, 118 de vitela, 112 de presunto, 39 de carneiro, 55 de bacalhau, 4 de toucinho, 459 galinhas, 170 perus, 26 perúas, 312 pombos, 18 perdizes, 4 porcos, além de 4.154 ovos, 24.725 pães, 5 baricas de azeitonas, 358 arrobas de açúcar, 13 de canela, 16 arráteis de baunilha, 954 canadas de leite e 624 arrobas de gelo para sorvetes! (Por favor multipliquem as arrobas por 15 e verão a bestialidade da despesa!)
E vinhos? Nacionais e estrangeiros custaram só o equivalente hoje a 100.000 euros!
E ainda se consumiram 2.292 barris de água!
Depois da ceia houve o baile, iniciado pelo conde de Oeiras e a Embaixatriz de Espanha, e a Marquesa de Pombal com o Embaixador, só entrando nesta primeira dança as senhoras de primeira Grandeza que não fossem solteiras!
No último dia repetiu-se a passagem do cortejo com os mesmos carros alegóricos e danças, à noite foi queimado mais um grandioso fogo de artifício, e o importante capitalista Anselmo José da Cruz Sobral fez representar nessa noite, à sua custa, o drama musical O Monumento Imortal. Finda a representação foi servida mais uma esplêndida ceia, apresentada em ricas porcelanas da Saxónia.
El-Rei D. José por se encontrar doente e melancólico, olhou todas estas manifestações festivas com a maior indiferença e desprazer.
Ano e meio depois... falecia!
É de esperar que na reinauguração da estátua, após a sua restauração, a CML não gaste tanto dinheiro... a menos que a UE financie!

Francisco Gomes Amorim
26/11/2012

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Invasão Muçulmana da Península Ibérica e a convivência de cristãos, judeus e muçulmanos

por Margarida Castro

"pelo diálogo inter-religioso: o desafio do nosso tempo"


A comemoração dos 1300 anos da chegada do general árabe Al-Tariq à Península Ibérica, é um acontecimento de importância histórica de enormes proporções culturais. Convem relembrar um pouco da história dessa época e que explica a cultura do dialogo inter religioso que prevalece.

Djabal al-Tariq (também conhecido como Tarif abu Zara) deveria ser muito mais conhecido do que é. Isto porque, este general Árabe foi um dos maiores conquistadores de toda a Idade Média. Seu nome não chega a rivalizar com o de um Carlos Mango, ou com o de um Justiniano, mas seus feitos retrataram bem o poderio militar Islâmico no primeiro quarto do século VIII.

Mas o que fez este general de tão importante? Bem, para nos situarmos na História deste homem, devemos nos lembrar que no final do governo de Abd al-Malik (685 – 705), os Berberes foram finalmente submetidos e convertidos ao Islã. Assim sendo, no início do governo de Al-Walid (705 – 715), serviram de braços para Musa ibn Nuçair, governador da Ifríqiya (região do norte da África, a oeste do Egito), em sua expansão rumo ao Maghreb (região onde hoje se situa o Marrocos). Entre 705 e 708, o governador realizou com sucesso esta expansão e, através dela, atingiu o oceano Atlântico.

Com a invasão Muçulmana de 711, e a derrota de Roderico ( Rodrigo)-rei Visigodo- em Guadalete, a única resistência gótica séria, foi feita em Mérida. Com a sua queda todo o noroeste foi submetido. Tropas Berberes ( povos oriundos do Norte de África) foram colocadas no centro de Portugal e Galiza., mas com a revolta dos Berberes e a grande fome na região (740 - 750), estas foram evacuadas.

Braga foi abandonada, mas a população rural aí permaneceu ou foi depois restaurada. Quando ‘Abd ´ar-Rahmän I criou a dinastia Umayyad em Córdova (756), houve alguma resistência no oeste, e talvez tenha colocado algumas tropas Berberes em Mérida e Coimbra. Lisboa foi independente por alguns anos ( cerca de 805).

Por essa época, a conquista do norte da África estava consolidada pelos Árabes e o governador de Ceuta, Juliano ( o conde Julião dos cronistas), que outrora fora fiel ao monarca Visigodo havia cedido seu apoio aos Árabes (apesar de ser Cristão). Mas por quê? O rei Witza, da Hispania, tinha morrido e não foi permitido ao seu filho, Áquila, assumir o trono; os nobres Visigóticos elegeram Rodrigo, para o trono. Segundo Juliano disse aos Árabes, ele odiava Rodrigo, pois este havia desonrado sua filha ( lenda não provada ) , por isso, queria vê-lo derrotado e humilhado.

Os Árabes, que já vinham atacando, por meio de navios, as costas da Espanha há muito tempo, viram nessa inimizade sua chance para invadir e anexar a região que eles conheciam como al-Andalus. Em Junho de 711, Musa ibn Nuçair, o governador do norte da África, enviou à Hispania um exército composto por cem cavaleiros, quatrocentos guerreiros e sete mil Berberes. Os navios para o ataque foram fornecidos por Juliano, governador Visigótico de Ceuta.

Rapidamente, os Muçulmanos tomaram a cidade de Algeciras e os rochedos da costa (hoje conhecidos como Rochedo de Gibraltar). Depois disso, marcharam para Córdoba. O rei da Espanha, Roderico, estava ocupado combatendo os Vascónios, no norte, e demorou certo tempo para conseguir mobilizar seus exércitos para combater os invasores. Enquanto as tropas reais não chegavam, Djabal al-Tariq assolava o sul da península.

Enfim, em 19 de Julho de 711, o Rei Roderico finalmente alcançou a região onde os Árabes estavam e a batalha iniciou-se. Esta iria durar sete dias, ou seja, até o dia 26 e ser decidida pela inteligência do general Árabe.

Numericamente superiores e providos da motivação de defenderem seus domínios, os Visigodos estavam a ponto de derrotar os Árabes. Foi quando o General Al Tariq convidou dois irmãos do Rei Witza (o Rei que havia morrido), e fez com eles um pacto: se estes desertassem com suas tropas, seriam poupados e recompensados.

Sendo assim, no dia 26, dia do combate derradeiro, as duas principais frentes da cavalaria Visigótica debandaram e os flancos do exército Hispano ficaram desguarnecidos. Avisados de antemão que isso iria ocorrer, os Muçulmanos atacaram pelos flancos e trucidaram a infantaria Visigótica. Foi um massacre no qual tombou, inclusive, Roderico.

Ficando sem rei, a Hispania não conseguiu reagrupar-se para a defesa e, sendo assim, em dois meses, Tariq havia conquistado totalmente o sul da Hispania e preparava-se para marchar em direcção ao centro.

Musa, na África, ao saber dos sucessos de seu general, reuniu um exército e desembarcou na costa leste da Hispania, formando agora duas frentes de invasão Muçulmana que atacavam a península.

Os nobres Visigóticos que não tinham sido subornados pelos Mouros (nome pelo qual os Europeus, chamavam os Islâmicos), começaram a ser exterminados e, ao procurarem auxílio nas cidades, não eram bem recebidos, pois os Judeus (que dominavam o comércio e, sendo assim, a vida urbana) estavam cansados das perseguições Cristãs impostas a eles pelos Visigodos e preferiam a liberdade de culto (mediante o pagamento de impostos) oferecida pelos conquistadores.

Dessa forma, os partidários de Rodrigo, agora sob o comando de Pelágio, foram isolar-se nas montanhas do extremo norte da Hispania, onde, devido ao posicionamento estratégico, esperavam resistir ao extermínio da mesma maneira que os Bascos vinham fazendo contra eles. Formou-se assim, o primeiro dos Reinos Hispânicos pós-conquista Árabe: o Reino de Astúrias.
Entre 711 e 714, os dois generais Árabes conquistaram toda a Hispania, excepto o Reino das Astúrias, que devido à sua localização de difícil acesso, pode resistir e se tornar, mais tarde, no século IX, o berço da Reconquista da Hispania, reconquista esta que teve o apoio, militar e financeiro, de Carlos Magno (pelo menos em sua fase embrionária).

Quanto ao Genetal Tariq, foi mais um dos conquistadores esquecidos de nossa História, só não foi totalmente esquecida porque, em homenagem a ele, foi erigida uma cidade (na parte Europeia do estreito), e esta cidade foi baptizada com seu nome, cujas corruptelas futuras tornaram Gibraltar (djabal al-tariq), o mesmo nome com o qual foram rebaptizadas as Colunas de Hércules, pois, se no passado o Semi-Deus havia afastado os perigosos Berberes da Europa por meio da separação dos dois continentes, agora, um general (que nada tinha de Semi-Deus conseguia quebrar a vontade dele e impor a sua, em outras palavras, o Islão ganhava terreno dentro da Cristandade.

Pouco depois, o governador árabe da África, Mouça-ibn-Nokair, sabedor do êxito de Tarik, desembarcou na Espanha, acompanhado de seu exército. E em menos de dois anos efetuou a conquista de quase toda a Península Ibérica. Em 713, na cidade de Toledo, proclamou o califa de Damasco, Omar II (717-720), soberano de todos os territórios conquistados.

No primeiro momento, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em harmonia. Os muçulmanos encontraram nos israelitas auxílio para a administração e para o comércio, e assim as comunidades judaicas foram fortalecidas. O ambiente de tolerância que se instaurou possibilitou um florescimento cultural, científico e econômico. O hebraico ressurgiu como língua literária e academias rabínicas foram fundadas nas cidades de Córdoba e Lucena.

Fontes:
- www.brasilsefarad.com/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=97&Itemid=60
- portugalhistoria.blogspot.com/