Estive ministrando uma disciplina acadêmica intitulada Arte e Educação no início desse ano. No projeto do curso havia objetivos a serem alcançados, entretanto sempre há objetivo (ou objetivos) que a gente estabelece paralelamente. Objetivos nem sempre técnicos ou mensuráveis por nota ou conceito. Mais se assemelhando a uma meta subjetiva que propriamente se parecendo com um objetivo.
Queria que os alunos entendessem algo essencial sobre a atividade artística que está muito perto do que eu penso a respeito. Queria derrubar o senso comum de que arte é algo bonito, emocional, alegre... Afinal, como afirma Alfredo Bosi, “belo é o que nos arranca do tédio e do cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heróicos, sagrados ou ingênuos de viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte. Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da essência”.
Queria também derrubar o mito de que arte é dom, talento, capacidade inata, inspiração e só. Queria que entendessem, mas não só entendessem, que tivessem algo perto de si para reforçar o quanto talento não basta. Para mostrar, por experiência própria, uma trajetória em desenvolvimento, com erros, muitos erros para se obter êxito. Alguém que complementasse e completasse... pois, eu não pretendia supervalorizar o saber acadêmico, escolar. Afinal, estudar, ensinar e aprender acontece em muitos lugares e a escola ou academia é apenas um desses lugares.
A disciplina era compactada: manhã e tarde e duraria de segunda à sexta. Logo no segundo dia solicitei que procurassem artistas da cidade para levarem para conversar conosco sobre suas atividades estéticas. Artistas variados: músicos, pintores, dançarinos, escritores, artesãos, cantores, etc. Enquanto isso a disciplina ia carregada de teoria. De cansar o quengo! Para quebrar a expectativa daqueles que esperavam passar uma semana de recreação, de brincadeira.
Nisso conheci muitos artistas, terei algo especial para dizer sobre cada um deles (talvez volte a falar sobre os mesmos em alguma crônica no futuro). Entretanto, a presença do senhor Chico Pintor, que no decorrer daquela semana estava pintando a escola. Ele que é pintor de paredes e pintor de quadros falou com firmeza e desenvoltura sobre seu ofício de pintor de paredes para garantir a sobrevivência e sobre seu “ofício” paralelo de pintor de quadros para seu deleite pessoal.
Ele que estudou pouco em escolas era senhor de seu território e mostrou caminhos que trilhou. Demonstrou conhecimento de técnicas e de nomenclaturas próprias da pintura. Falou de dificuldades técnicas, o que conseguia e o que não conseguia fazer. Dos exercícios, dos erros, muitos, dos acertos. Em suma: ele nos arrebatou. Resumiu tudo quanto eu fui tentando meter a custo na cabeça dos alunos nos quatro dias anteriores. Parecia até que já nos conhecíamos e que havíamos combinado o que dizer.
Encerrei a Arte e Educação com duas certezas: meus meninos e meninas certamente aprenderam não só o que eu desejava sobre arte, mas aprenderam também a dar o devido valor ao aprendizado não-scholar.
Belém, 04 de maio de 2011.
Abilio Pacheco*
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*Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça). Email para contato: abilioescritor@uol.com.br. Site: www.abiliopacheco.com.br.
Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Cheiro de Café
Não há nada que mais me pareça com a crônica que o cheiro do café.
É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo.Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las.
O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor... Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.
A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada.
A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui.
A crônica, atrativa... logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances...
Belém/Tailândia, 26 de Janeiro de 2011.
Abilio Pacheco, professor, escritor
É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo.Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las.
O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor... Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.
A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada.
A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui.
A crônica, atrativa... logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances...
Belém/Tailândia, 26 de Janeiro de 2011.
Abilio Pacheco, professor, escritor
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Ora, o Goiás!
Se vou me meter numa seara perigosa... escrever é muito perigoso, parafraseando Riobaldo. Vou! Vou falar de futebol. Deveria comemorar o campeonato do meu Fluminense, mas com o tempo parece mesmo que a gente vai torcendo mais pelas pessoas que pelos clubes. Anote aí que a frase não é minha, é de Eduardo Galeano. Ou ainda falar do quanto o Goiás fez a diferença nas rodadas finais do brasileirão; em especial na última.
Prefiro, entretanto, perturbar o pensamento do leitor sobre o que pode acontecer hoje à noite. Uma coisa inusitada em termos de futebol. Um time rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional poderá se tornar campeão de um torneio internacional. Que o futebol é uma caixa de surpresas (e lá vou eu enchendo o texto com citações alheias) não é novidade, mas a conquista do Goiás será desconcertante.
Vejam só, não sou torcedor do Goiás, mas hoje à noite o Goiás é o Brasil (outra citação). Mais que isso, ele representa todos esses times fora do eixo sul-sudeste, representa uma alegria para torcedores que não costumam ter os nomes de seus times entre os grandes, cidadãos que não costumam ver sua região, seu estado se desenvolver ou se destacar em certos setores e atividades. Sei que exagero, mas é o que sinto. Quero vê-lo campeão (até para alegria de meu amigo Ilídio, na minha macondo – Marabá – ficar contente com seu time).
Entretanto é desconcertante. O problema é que no Brasil mesmo os times ditos grandes, não conseguem ter plantel para se sustentar em dois campeonatos. Não adianta colocar a culpa no acúmulo de torneios paralelos. Na Europa, não é muito diferente, mas lá os times montam plantéis de titulares suficientes para dois times.
Houve época em que se falava até de Milan A e Milan B. Nestas terras tupiniquins, em que mal os times se sustentam com 2/3 de bom elenco, seria um luxo inimaginável.
Por isso o Goiás caiu. Por isso um time que na pior hipótese será vice. Não! Não vou nem pensar nisso... Por isso um time que será campeão hoje à noite, vai no ano que vem disputar dois campeonatos paralelos: a Copa Libertadores da América e o Brasileirão da série B. E, como deverá, a exemplo desse ano, optar por direcionar atenções, treinamentos, jogadores a uma das competições... paremos por aqui.
Isto é que digo que é desconcertante: disputar a série B e um torneio internacional. Já disse que sou amante das leis (de algumas) e disse no início do texto que ia meter-me em seara perigosa falando sobre futebol. Pois bem, caros leitores, no caso do Goiás, torço para que seja campeão. Mas torço também para que algum passe de mágica faça-o disputar paralelamente a Libertadores, o Brasileirão 2011 da série A.
Belém, 08 de dezembro de 2010.
Abilio Pacheco, professor, escritor.
www.abiliopacheco.com.br
Prefiro, entretanto, perturbar o pensamento do leitor sobre o que pode acontecer hoje à noite. Uma coisa inusitada em termos de futebol. Um time rebaixado para a segunda divisão do campeonato nacional poderá se tornar campeão de um torneio internacional. Que o futebol é uma caixa de surpresas (e lá vou eu enchendo o texto com citações alheias) não é novidade, mas a conquista do Goiás será desconcertante.
Vejam só, não sou torcedor do Goiás, mas hoje à noite o Goiás é o Brasil (outra citação). Mais que isso, ele representa todos esses times fora do eixo sul-sudeste, representa uma alegria para torcedores que não costumam ter os nomes de seus times entre os grandes, cidadãos que não costumam ver sua região, seu estado se desenvolver ou se destacar em certos setores e atividades. Sei que exagero, mas é o que sinto. Quero vê-lo campeão (até para alegria de meu amigo Ilídio, na minha macondo – Marabá – ficar contente com seu time).
Entretanto é desconcertante. O problema é que no Brasil mesmo os times ditos grandes, não conseguem ter plantel para se sustentar em dois campeonatos. Não adianta colocar a culpa no acúmulo de torneios paralelos. Na Europa, não é muito diferente, mas lá os times montam plantéis de titulares suficientes para dois times.
Houve época em que se falava até de Milan A e Milan B. Nestas terras tupiniquins, em que mal os times se sustentam com 2/3 de bom elenco, seria um luxo inimaginável.
Por isso o Goiás caiu. Por isso um time que na pior hipótese será vice. Não! Não vou nem pensar nisso... Por isso um time que será campeão hoje à noite, vai no ano que vem disputar dois campeonatos paralelos: a Copa Libertadores da América e o Brasileirão da série B. E, como deverá, a exemplo desse ano, optar por direcionar atenções, treinamentos, jogadores a uma das competições... paremos por aqui.
Isto é que digo que é desconcertante: disputar a série B e um torneio internacional. Já disse que sou amante das leis (de algumas) e disse no início do texto que ia meter-me em seara perigosa falando sobre futebol. Pois bem, caros leitores, no caso do Goiás, torço para que seja campeão. Mas torço também para que algum passe de mágica faça-o disputar paralelamente a Libertadores, o Brasileirão 2011 da série A.
Belém, 08 de dezembro de 2010.
Abilio Pacheco, professor, escritor.
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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Crónica de Aniversário
Há cerca de três anos e meio tive uma ideia absurda. Decidi que ao atingir 500 amigos no Orkut iria publicar meu primeiro livro de poemas. Quase um ano e meio depois, veio a lume meu ‘mosaico primevo’, que é o primeiro impresso em gráfica, posto que outros dois já haviam sido mal prelados: um em impressora jato de tinta (poemia) e outro em xerox (vago mar – sob heterônimo).
Dizer que a ideia foi absurda deve ser eufemismo. Afinal, meus 500 amigos (na época) de orkut não iriam comprar cada um um exemplar. Aqueles que compraram ou não, certamente não o fizeram por causa do site de relacionamento, mas por causa do relacionamento comigo fora da net.
Mas não foi a venda ou não de livros para amigos de orkut o que mais me chamou atenção sobre estes relacionamentos reais / virtuais. O termo virtual não me soa bem. Afinal, não consigo enumerar pessoas com as quais nos últimos cinco anos tenho me relacionado apenas pela Internet. Todas são bem reais, garanto! E a relação estabelecida com eles nada tem de virtual. Alguns transitam das páginas da net para o telefone fixo, para minha caixa postal, para porta da minha casa, para ruas por onde ando, para corredores de instituições onde trabalho…
Foram alguns destes que me surpreenderam há dois anos. Talvez crise de ingenuidade. Ao se passar por uma pessoa conhecida sua que está fazendo aniversário e você tem ciência, você cumprimenta? Parabeniza? Se você, distante no espaço, sabe do aniversário de alguém, você telefona, manda email, scrapt no orkut ou mensagem pelo facebook? Ora da quantidade de mensagens de feliz aniversário em meu scrapt do orkut em 2008 (cerca de 2/3 dos amigos mandaram mensagem), muitas eram de colegas de trabalho e alunos para quem eu estava lecionando naqueles dias.
Eis o meu espanto, coisa que custei a entender e que ainda não me assentou direito: quem te cumprimenta na net, pode te ignorar totalmente ao vivo (vice-versa?). Para todos no Orkut agradeci o scrapt. Talvez isso tenha dado a interlocução como encerrada. Pessoalmente, poucos tocaram no assunto. Teve quem telefonasse, mandasse email… Destes dos scrapts aos quais resolvi agradecer, ouvi respostas interrogativas. Houve quem garantisse que não me mandara mensagem alguma.
Não, gente! Não estou querendo festas, tapetes vermelhos, bolos e presentes. Sequer me queixo de lembrancinhas ou mesmo da lembrança de que completo anos. Apenas chamo atenção para isto: parece haver em muitas pessoas uma cisão significativa entre a vida hodierna (off-line) e vida na Internet (on-line). Como o que se faz e se vive na Internet não apresentasse conexão com o que se faz na vida cotidiana. Não se lembram de compromissos marcados, de tarefas, de emails que enviaram. A Psicologia deve já estar estudando isso.
Este é o primeiro aniversário que completo estando no Facebook. (Desta vez não vou criar meta de amigos para me decidir pelo lançamento do próximo livro.) Talvez a coisa tenha mudado de dois anos para cá. Talvez alguns (especialmente os alunos) leiam isto aqui (crônica de aniversário – é um gênero? um sub-gênero?) e o comportamento seja diferente na segunda (que é quando volto à sala de aula, pois estou afundado numa suspeita de dengue). De todo modo, antes de escrever esta crônica ainda não li meus emails, scrapts ou mensagens no Facebook. Farei isso amanhã, conforme a febre e as dores deixarem.
É certo que muitos amigos verdadeiros e virtuais (só porque o termo que se é este, mas extremamente reais) vão usar a net para mandar mensagens de aniversário, não há mal algum nisso. Vou ler com muita satisfação, já disse: conforme a suspeita de dengue deixar. Entretanto, maior satisfação será ver algum pessoalmente nos próximos dias e receber um abraço.
Belém, 01 de Dezembro de 2010.
Abilio Pacheco, professor, escritor
Dizer que a ideia foi absurda deve ser eufemismo. Afinal, meus 500 amigos (na época) de orkut não iriam comprar cada um um exemplar. Aqueles que compraram ou não, certamente não o fizeram por causa do site de relacionamento, mas por causa do relacionamento comigo fora da net.
Mas não foi a venda ou não de livros para amigos de orkut o que mais me chamou atenção sobre estes relacionamentos reais / virtuais. O termo virtual não me soa bem. Afinal, não consigo enumerar pessoas com as quais nos últimos cinco anos tenho me relacionado apenas pela Internet. Todas são bem reais, garanto! E a relação estabelecida com eles nada tem de virtual. Alguns transitam das páginas da net para o telefone fixo, para minha caixa postal, para porta da minha casa, para ruas por onde ando, para corredores de instituições onde trabalho…
Foram alguns destes que me surpreenderam há dois anos. Talvez crise de ingenuidade. Ao se passar por uma pessoa conhecida sua que está fazendo aniversário e você tem ciência, você cumprimenta? Parabeniza? Se você, distante no espaço, sabe do aniversário de alguém, você telefona, manda email, scrapt no orkut ou mensagem pelo facebook? Ora da quantidade de mensagens de feliz aniversário em meu scrapt do orkut em 2008 (cerca de 2/3 dos amigos mandaram mensagem), muitas eram de colegas de trabalho e alunos para quem eu estava lecionando naqueles dias.
Eis o meu espanto, coisa que custei a entender e que ainda não me assentou direito: quem te cumprimenta na net, pode te ignorar totalmente ao vivo (vice-versa?). Para todos no Orkut agradeci o scrapt. Talvez isso tenha dado a interlocução como encerrada. Pessoalmente, poucos tocaram no assunto. Teve quem telefonasse, mandasse email… Destes dos scrapts aos quais resolvi agradecer, ouvi respostas interrogativas. Houve quem garantisse que não me mandara mensagem alguma.
Não, gente! Não estou querendo festas, tapetes vermelhos, bolos e presentes. Sequer me queixo de lembrancinhas ou mesmo da lembrança de que completo anos. Apenas chamo atenção para isto: parece haver em muitas pessoas uma cisão significativa entre a vida hodierna (off-line) e vida na Internet (on-line). Como o que se faz e se vive na Internet não apresentasse conexão com o que se faz na vida cotidiana. Não se lembram de compromissos marcados, de tarefas, de emails que enviaram. A Psicologia deve já estar estudando isso.
Este é o primeiro aniversário que completo estando no Facebook. (Desta vez não vou criar meta de amigos para me decidir pelo lançamento do próximo livro.) Talvez a coisa tenha mudado de dois anos para cá. Talvez alguns (especialmente os alunos) leiam isto aqui (crônica de aniversário – é um gênero? um sub-gênero?) e o comportamento seja diferente na segunda (que é quando volto à sala de aula, pois estou afundado numa suspeita de dengue). De todo modo, antes de escrever esta crônica ainda não li meus emails, scrapts ou mensagens no Facebook. Farei isso amanhã, conforme a febre e as dores deixarem.
É certo que muitos amigos verdadeiros e virtuais (só porque o termo que se é este, mas extremamente reais) vão usar a net para mandar mensagens de aniversário, não há mal algum nisso. Vou ler com muita satisfação, já disse: conforme a suspeita de dengue deixar. Entretanto, maior satisfação será ver algum pessoalmente nos próximos dias e receber um abraço.
Belém, 01 de Dezembro de 2010.
Abilio Pacheco, professor, escritor
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Marina, naturalmente
Marina da Silva não se pintou, nem foi pintada. Marina pintou: apareceu, surgiu. Natural e alternativa.
Respeito o pensamento de quem acha que a campanha de Marina não decolou ou de que foi um fracasso. Talvez não se tenha percebido que, ao contrário de muitos candidatos cônscio de não vencer (basta ver o resultado e as ‘coligações’ da eleição de 2002, 1998, 1994), Marina não se candidatou para ter uma votação expressiva a fim de estabelecer uma aliança (conluio?) no segundo turno e com isso apoiar alguém para garantir um ministério, muito menos se candidatou apenas com a finalidade de criar uma plataforma eleitoral para 2014.
Ela, militante, ecológica, esquerda rubra sem desbotos, tem um compromisso não só com os quase 20 milhões de cidadãos brasileiros que votaram nela, mas também com os outros que não votaram e independentemente de votação, tem compromisso, como foi citado, “com o grito da terra e dos pobres”. Duas coisas que não podem esperar. Muito menos esperar quatro anos. Como alguém comentou no site do Movimento Marina [www.movmarina.com.br], é necessário “incluir na pauta assuntos como sustentabilidade com desenvolvimento” responsável num país (acrescento aqui) cuja política tem sido (depois que Marina saiu do Ministério do Meio Ambiente) a de distribuição de licenças ambientais e de bolsas cujos valores ($$) terminam por voltar aos bolsos de quem tem o que vender.
Dizer que a votação expressiva de Marina se deu por uma estratégia do segundo colocado nas intenções de voto e nas eleições é, no mínimo, subestimar o pensamento crítico dos quase 20 milhões de brasileiros que votaram, não no Partido Verde, mas numa candidatura que levava uma proposta alternativa alicerçada em ideias de economia e ecologia plausíveis tanto para esta bilateralidade política quanto para os radicalismos tautológicos. Como ela mesma afirmou em seu pronunciamento no dia 03 de Outubro (aliás, quando foi que vimos um terceiro colocado comemorar tanto?), sua candidatura e seu trabalho não acabaram com o término da apuração, pois representa uma audiência e uma voz, ora assumidos ou reafirmados.
Por tudo que disse nas eleições e tem dito depois, Marina não deixou que lhe pintassem “esse rosto que é só seu”. Ela, que já é bonita com a história Deus lhe deu, é certo que está mais longe de Serra que de Dilma, mas o problema é o quanto Dilma (ou as alas pseudo-esquerda do PT) está perto dos interesses capitalistas, das posturas adotadas por seus aliados, de uma já conhecida direita; basta ver as alianças.
Marina assinala “uma nova forma de fazer política”. Ao contrário do uso tradicional dos votos dados aos candidatos derrotados nas outras eleições, ela sabe usar esse capital eleitoral de forma mais política, para um debate de ideias e ideais, que politiqueira. Estávamos acostumados a ver no dia seguinte às eleições o terceiro, o quarto ou o quinto colocados de mãos dadas a um dos dois colocados no primeiro turno (em muitos estados brasileiros ainda é assim). Daí assistirmos a esse processo de loteamento político (de um ou de outro lado). Não é difícil imaginar que se Marina estivesse no segundo turno, Dilma e Serra no dia 04 de outubro estariam, em nome da governabilidade, posando de mãos dadas e erguidas.
Ao contrário desse e de outros eufemismos, não esperemos alguém que quer estar no poder a qualquer custo. Não esperemos o apoio em troca de cargos ou status. Esperemos alguém cujo apoio será dado ao candidato que assumir a inclusão de uma pauta exclusivamente a fim de ganhar votos e ser eleito, mas sim àquele que aceitar a pauta e a presença de pessoas que façam o compromisso assumido ser efetivamente cumprido. Caso contrário, os quase 20 milhões de brasileiros desejosos dessa pauta e devidamente representados, saberão agir.
Quem se habilita? Quem, de fato, cumprirá?
Abilio Pacheco, professor, escritor.
Respeito o pensamento de quem acha que a campanha de Marina não decolou ou de que foi um fracasso. Talvez não se tenha percebido que, ao contrário de muitos candidatos cônscio de não vencer (basta ver o resultado e as ‘coligações’ da eleição de 2002, 1998, 1994), Marina não se candidatou para ter uma votação expressiva a fim de estabelecer uma aliança (conluio?) no segundo turno e com isso apoiar alguém para garantir um ministério, muito menos se candidatou apenas com a finalidade de criar uma plataforma eleitoral para 2014.
Ela, militante, ecológica, esquerda rubra sem desbotos, tem um compromisso não só com os quase 20 milhões de cidadãos brasileiros que votaram nela, mas também com os outros que não votaram e independentemente de votação, tem compromisso, como foi citado, “com o grito da terra e dos pobres”. Duas coisas que não podem esperar. Muito menos esperar quatro anos. Como alguém comentou no site do Movimento Marina [www.movmarina.com.br], é necessário “incluir na pauta assuntos como sustentabilidade com desenvolvimento” responsável num país (acrescento aqui) cuja política tem sido (depois que Marina saiu do Ministério do Meio Ambiente) a de distribuição de licenças ambientais e de bolsas cujos valores ($$) terminam por voltar aos bolsos de quem tem o que vender.
Dizer que a votação expressiva de Marina se deu por uma estratégia do segundo colocado nas intenções de voto e nas eleições é, no mínimo, subestimar o pensamento crítico dos quase 20 milhões de brasileiros que votaram, não no Partido Verde, mas numa candidatura que levava uma proposta alternativa alicerçada em ideias de economia e ecologia plausíveis tanto para esta bilateralidade política quanto para os radicalismos tautológicos. Como ela mesma afirmou em seu pronunciamento no dia 03 de Outubro (aliás, quando foi que vimos um terceiro colocado comemorar tanto?), sua candidatura e seu trabalho não acabaram com o término da apuração, pois representa uma audiência e uma voz, ora assumidos ou reafirmados.
Por tudo que disse nas eleições e tem dito depois, Marina não deixou que lhe pintassem “esse rosto que é só seu”. Ela, que já é bonita com a história Deus lhe deu, é certo que está mais longe de Serra que de Dilma, mas o problema é o quanto Dilma (ou as alas pseudo-esquerda do PT) está perto dos interesses capitalistas, das posturas adotadas por seus aliados, de uma já conhecida direita; basta ver as alianças.
Marina assinala “uma nova forma de fazer política”. Ao contrário do uso tradicional dos votos dados aos candidatos derrotados nas outras eleições, ela sabe usar esse capital eleitoral de forma mais política, para um debate de ideias e ideais, que politiqueira. Estávamos acostumados a ver no dia seguinte às eleições o terceiro, o quarto ou o quinto colocados de mãos dadas a um dos dois colocados no primeiro turno (em muitos estados brasileiros ainda é assim). Daí assistirmos a esse processo de loteamento político (de um ou de outro lado). Não é difícil imaginar que se Marina estivesse no segundo turno, Dilma e Serra no dia 04 de outubro estariam, em nome da governabilidade, posando de mãos dadas e erguidas.
Ao contrário desse e de outros eufemismos, não esperemos alguém que quer estar no poder a qualquer custo. Não esperemos o apoio em troca de cargos ou status. Esperemos alguém cujo apoio será dado ao candidato que assumir a inclusão de uma pauta exclusivamente a fim de ganhar votos e ser eleito, mas sim àquele que aceitar a pauta e a presença de pessoas que façam o compromisso assumido ser efetivamente cumprido. Caso contrário, os quase 20 milhões de brasileiros desejosos dessa pauta e devidamente representados, saberão agir.
Quem se habilita? Quem, de fato, cumprirá?
Abilio Pacheco, professor, escritor.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Mixórdia de Maio
para o dia das mães
maio
madres, Maria e mulheres
nubens, grinaldas de laranjeiras
bocas, primaveras de trópico:
olhos atônitos de cheiros
pele plena de luzes e cores
como pôr ordem na idéia
e dizer coisa com coisa
se maio me mixordia?
Abilio Pacheco
maio
madres, Maria e mulheres
nubens, grinaldas de laranjeiras
bocas, primaveras de trópico:
olhos atônitos de cheiros
pele plena de luzes e cores
como pôr ordem na idéia
e dizer coisa com coisa
se maio me mixordia?
Abilio Pacheco
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