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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Ilha dos Amores


Padre António Vieira
O Imperador da Língua Portuguesa, como Fernando Pessoa o designa na "Mensagem", exemplo vivo do homem total e do universalismo português, uma das personagens mais distintas e originais da nossa cultura. Em Vieira, temos a ideia de que terão existido "quatro impérios" já historicamente verificados, assírio, persa, grego e romano, e de um "quinto império" que estaria por vir, por construir, e que seria português.
Como diz Agostinho da Silva, o Vieira falava do mundo redimido, do mundo restituído plenamente ao Cristo! (...) e que esse mundo perfeito tinha que ser fabricado por portugueses e por espanhóis.
Verifica-se que a profecia do Vieira está concretizada até à parte em que Portugal se autonomizou das colónias, acabando assim também por se libertar a si próprio...

Quinto Império e Ilha dos Amores
Há uma linha de continuidade entre Camões, Vieira e Pessoa, embora pesem os diferentes tempos em que viveram. No fundo, os três são heterónimos do desejo de que se desenvolva no mundo uma realização plena do homem, tendo por ideia de homem um ser que não vive apenas alguns anos e morre... Portanto, dizer Quinto Império ou Ilha dos Amores, tem um sentido equivalente, sendo que a designação de Camões é até mais completa, mais ampla. No fundo, num homem superior há a noção de que se é ao mesmo tempo do ocidente e do oriente.
Fotos de Lucas Rosa
Na foto de baixo, ao fundo, a Ilha dos Amores envolta em neblina, no Rio Minho.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"O Apocalipse sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós", livro de Paulo Borges


"Sozinho, no cais deserto, nesta Hora sem tempo
Olho pro lado da barra, olho pro Infinito
Olho sem olhos, corpo-alma transido de saudade
Olho a fúria deste céu de crepúsculo e tempestade
E a Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar"

"Sou A-que-não-é, A-que-não-foi, A-que-jamais-será
A matriz imensa que a tudo dá à luz, nutre, reabsorve e recria
A mãe, irmã, esposa e amante de todos os seres e coisas
O Alfa-Ómega
A Toda-Poderosa que nada pode senão tudo amar
A infinita saudade que há em todas as coisas
O Infinito-Saudade"

"Não apareci senão para te iniciar ao Amor
Para te insuflar boca na boca o Fogo-Sopro do mundo
Para unirmos os corações ardentes
No íntimo da carne iluminada"

"Ah, quem me desencantará?
Quem me reconhecerá?
Quem me beijará o coração?
Quem me amará e fecundará?
Quem erguerá a mão, encontrará hera
E verá que “ele mesmo era
A Princesa que dormia”?"

"Cesse aqui todo o pensamento, imaginação e linguagem
Dissipem-se todos os véus de conceitos, palavras e símbolos
Finde tudo o que a musa antiga canta
Que outro valor mais alto se levanta
Nada acrescentemos ao espanto, perplexidade e maravilhamento
Deste imenso esplendor e prodígio!"

"Vinde a nós, ó vós todos em cujo íntimo desde sempre habitamos!
Vinde a nós, ó vós todos em cujo coração agora mesmo ressurgimos!
Vinde, ó vinde, vós todos que sois Todo o Mundo e Ninguém!
Ó vós todos, povos-seres de todo o cosmos que trazeis no coração um Mundo Novo!
Aqui e Agora vos convocamos
É a Hora da Grande Mutação
A Hora das Horas
A Hora dos quatro tempos refluírem para o centro anterior a tudo
E ressurgirem como o Quinto
O Império sem império
A Era sem tempo
A Era sem era do despertar da consciência-coração na visão-amor universal!

Ó excelsas irmandades e confrarias do Quinto Império sem império nem imperador a não ser a coroada criança que dança de roda e olhos atónitos num rodopio de espantos, pombas e rosas!
Ó excelsas irmandades e confrarias do Império do Santo Espírito, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, sopra onde quer e fala um silêncio de todas as línguas!
Ó excelsas irmandades e confrarias dos amantes andróginos, que conduzem ao altar interno o masculino e o feminino e o unem em Núpcias mais vastas que o espaço que explodem em festas e folias de amor por todos os seres e coisas! 


Vinde a nós, ó vós todos, que é a Hora!
É a Hora!
A Hora!
Agora! 

Valete, Fratres!
Saúde, Irmãos!"

Do livro "O Apocalipse segundo Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz" de Paulo Borges.
A obra é a base do guião do espectáculo multi-artístico com o mesmo nome que se estreou recentemente no Teatro do Bairro, em Lisboa, e terá uma nova representação no Teatro D. João V, na Damaia, em 25 de Novembro, às 21:30:


sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma oração de Fernando Pessoa

Eis uma oração escrita por Pessoa, que foi conhecida durante décadas através de uma versão incompleta intitulada «Prece», publicada por por Jacinto Prado Coelho e Georg Rudolf Lind (Páginas íntimas e de auto-interpretação, Lisboa, Ática, 1966, p. 61). Trata-se de um manuscrito sem título, possivelmente de 1913, por mim reeditado na integra e publicado, juntamente com outros escritos pessoanos, na revista Tintas, consultável clicando aqui.

Fabrizio Boscaglia


«Senhor, que és o ceu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o n[osso] amôr és tu tambem. Onde nada está tu habitas e onde tudo está é o teu templo.
Dá-me vida para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no ceu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a agua e alto como o ceu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagôas dos meus propositos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pae.

Bemdito seja o teu nome de Ceu e de Terra, e de Corpo e Alma, e de Vida e Morte!

Louvam-te: a cara e as mãos te louvam.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da Terra tua carne. Minha alma possa aparecer deante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa vêr sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu □

Senhor, livra-me de mim. Unge-me da Tua divina □

Que o meu pomar dê frutos saborosos a Ti e a minha vide dê vinho □

Quando me movo, és tu que te moves; quando fallo, és tu que me és fallando. Quando dou um passo, avanças tu. Se paro, estacas de mim.»


Fernando Pessoa

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Largo da Graça



"A Minha Pátria é a Língua Portuguesa"


Quando Fernando Pessoa afirmou que "A Minha Pátria é a Língua Portuguesa" estava também a definir as fronteiras daquilo que para si era o "Quinto Império". E o Império existia.

Mas se o Império Pátrio se esboroou, o "Império" da Língua é bem real e têm sido dados alguns passos bem concretos para a sua consolidação, na política, no desporto, na crescente participação cívica.

Uma maior consciencialização do devir da Língua Portuguesa, decerto, trará novos equilíbrios ao mundo, tal como aconteceu com todo o movimento de expansão ultramarina que se iniciou em Portugal no século XV. Só que agora já não é unicamente de Portugal que se trata, mas antes da Língua Portuguesa. E aqui, embora com outro sentido, a máxima pessoana não podia ser mais actual.

Pessoa publicou a sua famosa máxima no início da década de 30 do século passado. Na altura, a Pátria estendia-se pelo Ultramar. O Brasil já se tornara independente (1822), mas os territórios indianos, Timor, Macau, mais as colónias africanas, tudo fazia parte da Pátria de Pessoa.

Agora que a Nação está entregue a si própria, cabe-nos perguntar o que fazemos dessa herança enorme que advém do facto da Língua Portuguesa ser uma das mais representativas a nível mundial com mais de 200 milhões de falantes.

Secundarizada nos grandes Fóruns Internacionais, como por exemplo na ONU e na UE, onde não tem estatuto de língua escolhida na comunicação interna e externa, também nas políticas nacionais pouco se tem feito por uma afirmação digna da Língua Portuguesa.

É verdade que nos últimos anos a situação tem revelado algumas alterações, desde logo com a criação da CPLP, mas sobretudo com as maiores possibilidades tecnológicas trazidas pela globalização e por uma cidadania que se reconhece ativa, constata-se uma maior consciencialização sobre a questão lusófona.

Muito estará por se realizar e, decerto, que a Mensagem sobre a importância que Fernando Pessoa dava à Língua Portuguesa não tem nos dias de hoje menos sentido, muito pelo contrário.

Luís Santos

sábado, 3 de março de 2012

Acervo de Fernando Pessoa on-line

Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão disponíveis gratuitamente online no site da Casa Fernando Pessoa.
Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia consultar este acervo que é "riquíssimo", mas com o site, bilingue (português e inglês, e disponível em ( http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt  ) em qualquer lugar do mundo, com uma ligação à Internet é possível consultar, página a página, os cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações - incluindo poemas - que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros.


clique em cima para ampliar

sábado, 4 de junho de 2011

Toda a biblioteca de Fernando Pessoa online

Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão
disponíveis gratuitamente online desde ontem à tarde no site da Casa Fernando Pessoa.

A Biblioteca Pessoal está em http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/title/index.ht

Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia
consultar este acervo que é "riquíssimo", mas com o site, bilingue
(português e inglês, e disponível em :

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt

com uma ligação à Internet é possível consultar, página a página, os
cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações - incluindo
poemas - que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros.

sábado, 30 de abril de 2011

Colóquio Internacional Nietzsche, Pessoa, Freud - 3, 4 e 5 de Maio


Informam-se todos os interessados que se encontram abertas as inscrições para o Colóquio Internacional Nietzsche, Pessoa e Freud. O Colóquio terá lugar nos dias 3 (Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras), 4 (Universidade Nova de Lisboa - FCSH) e 5 (Fundação Calouste Gulbenkian) de Maio de 2011 e contará com a presença de conferencistas nacionais e internacionais.

No decorrer do Colóquio será apresentado o nº3 da revista Cultura ENTRE Culturas, dedicado a Fernando Pessoa (com um caderno de 72 páginas com inéditos), bem como os livros Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa (org. Paulo Borges), O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (Paulo Borges) e Fernando Pessoa e Nietzsche: o pensamento da pluralidade (Nuno Ribeiro).

Para mais informações, ver o link:
http://conferencenietzschepessoafreud.blogspot.com/

--
«Something in me was born before the stars / And saw the sun begin from far away.»
- Fernando Pessoa, 35 Sonnets, XXIV.

arevistaentre.blogspot.com
www.pauloborges.net

domingo, 9 de janeiro de 2011

Filosofia e Saudade

13. Fernando Pessoa (1888-1935)

A Filosofia é a arte de imaginar universos falsos.

No plano do pensamento estamos sempre entre uma tese e uma antítese, uma tomada de opinião e o seu contrário, posição e oposição. Embora haja sempre uma tentativa de transgressão, de solução, desta antinomia.

Pessoa coloca-se muito num plano de descartamento, de desilusão, do que foi construído - todas as opiniões são igualmente justificáveis e não justificáveis. Tal como em Agostinho da Silva há lugar para um pensamento paradoxal.

Existem forças afirmativas e negativas como constitutivas do mundo. Há uma tensão ontológica entre estas 2 forças que constitui tudo.

Criação é igual a ficção, a ilusão. Ser é simultaneamente ilusão e falsidade. A ideia construída de Deus está igualmente num nível de ilusão. Mas há uma consciência que escapa a toda esta forma de ilusão. Uma consciência que se cria pela desconstrução de todos os imaginários falsos.

A negação está acima da afirmação, porque nega a ilusão. A forma suprema de negação é o não-ser que, todavia, não é pensável. Não-ser é o que transcende o Único. Não-ser é o que precede o Ser.

Portanto, o não-ser é superior ao ser, mas simultaneamente deve-se ser tudo, de todas as maneiras, já que se é nada. A matéria é a mais fraca das mentiras, por ser o que está mais próximo do ilimitado, do imanifestado.

Haver ser é o mistério ontológico que encerra todos os mistérios, coisas, morte, deuses. “Este mistério, este terrível haver ser…”.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009
-Rafael Baldaia, Tratado da Negação (1916?), In Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, Ed. Nova Ática.

sábado, 20 de março de 2010

Fernando Pessoa e Pedro Vargas

TUDO O QUE FAÇO OU MEDITO

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica
E eu sou um mar de sargaço –
Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.


TRIBUTO AO SOL

Por mim prefiro o Sol.
O Sol é a nossa alma.
O Sol permite a visão.

A partir do sol
vejo o mundo
Sobre o mundo vejo-me
a mim próprio e aos outros

O Sol permite-me pensar.
Com ele penso o que me rodeia
E o que rodeia é mundo

Sem Sol há escuridão
Cegueira,
escravatura
e ausência de lucidez

Tudo o que faço,
faço a partir da luz.
A Luz é iluminação
de tudo o que faço
e penso.

Os Livros são um pouco de Sol,
sol que entra nas nossas almas.
Entra e fica.
Fica e ilumina.

Os Livros, os amigos e as partilhas
são pedaços de Sol,
Como se fossem as tochas da nossa interioridade.

Mas de todos os sóis que existem,
as pessoas são o máximo da iluminação,
o climax da lucidez e da esperança.

Por isso acredito na Humanidade,
no Humanismo e na Verdade.

(poemas enviados por Luís Mourinha)