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domingo, 6 de abril de 2025

Agostinho da Silva, Dispersos

 


"Hoje, as pessoas andam metidas nessa trapalhada de uns defenderem o capitalismo - ou o liberalismo dentro do capitalismo, é a moda mais recente - ou, pelo contrário, defenderem o sistema do Estado com a economia planificada e autoritarismo, julgando que essa é que é a luta fundamental, quando, no fim de contas, a disputa entre capitalismo e a outra coisa (como se lhe quiser chamar, socialismo, comunismo), vem de uma raiz comum - da obrigatoriedade do trabalho; simplesmente o capitalista obriga o cavalheiro a trabalhar porque se não o fizer morre de fome, e os outros obrigam-no senão é declarado anti-social... Um caminho certo da economia seria encontrar a maneira de abolir o trabalho. Mas, vendo bem, não tem que se ter preocupação com isso, sabe, porque o trabalho está-se abolindo a si próprio!"

- Agostinho da Silva, A NOSSA OBRIGAÇÃO É SER POETA À SOLTA (Entrevista a Carlos Câmara Leme) [1986], IN DISPERSOS, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988, pp. 166-167.


domingo, 1 de maio de 2011

Murmurações

Dispersos XIII - 2011



Um desfile, ou torrente, de palavras-sons tantas vezes sem nexo, chegam, correm, tornam a partir e somem-se.
Decerto terão, hão-de ter, alguma razão para vir, ainda que eu não saiba, ou não consiga, ouvir.

Ergue-se depois o olhar e sai de dentro.
Cá fora tudo é mais claro e nítido.

Espraia-se, o olhar, em redor e encontra o outro que também é nós.
Interage com o ouvir que cata e capta um ciciar queixoso e mamífero até que, em expansão incontrolável, se alarga ao espaço vegetal e ao que voga, por o sabermos que não por o identificarmos, no espaço aeriforme carregado de odores que completam o conjunto.

E aí já a balada, apesar dos gritos, apesar da dor, ganhou a dimensão da sinfonia.
Os instrumentos que isoladamente constroem o som total, falam do hoje, do agora e do futuro que, irmãos meus, todos estamos a construir mesmo que o não saibamos, mesmo que o não queiramos.
Porque Entre-existimos.
Sim, isso é claro!
Som da vida.
Uma vontade de paz, justiça social e económica, desejo de devir fraterno, solidário, serviço, servir.

Irrompem então as palavras - mesmo quando a boca se queda em silêncio – acesas no olhar, no sentido directo do abraço e dos intérpretes que, como nós, todos, sabem o significado do verbo, do pão e das espigas.

E assim, quando torna ao dentro, vem o olhar mais iluminado e tudo é mais claro e luminoso.
A alma brilha, refulge, e o possível fica maior, o querer fica mais forte e o som que fica em fundo e envolve é o do amor.


m. j.
26.Abril.11