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terça-feira, 26 de outubro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL


Termina aqui a publicação do conto “Há Pintassilgos No Meu Quintal” neste formato da blogosfera. Não é uma leitura fácil, reconheço-o e também não será um exemplar de uma simples companhia de entretenimento. Ainda assim, se a mesma tiver servido para proporcionar alguns momentos de prazer, estarão saldados os esforços deste vosso servidor. Se por qualquer motivo, da mesma tiver resultado a inquietação de perguntar, a dúvida de dizer, ou a curiosidade de querer saber mais sobre determinadas matérias, então diria que teríamos ultrapassado as minhas melhores expectativas. Se, no fim de tudo, o querido Leitor encontrar aqui uma alegoria sobre a Vida, aí terei que dar por alcançados todos os meus propósitos.

Resta-me assim agradecer àqueles que me convidaram para colaborar neste “Estudo Geral” e para que não corra o risco de me escapar algum nome, coloco o meu reconhecimento nas pessoas do António Manuel Tapadinhas que me endereçou o convite e na do Luís Carlos Santos que é a alma do projecto.
A todos aqueles que me leram, quer tenham ou não deixado o rasto de um comentário, o meu bem-haja pela atenção que me dispensaram.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
COMENTÁRIOS
II


A.Tapadinhas disse...
Lendo esta pergunta,

"Olhando a Terra, por exemplo, é uma coisa tão perfeita, não é?"

a minha resposta é afirmativa.

Algumas pessoas é que fazem todos os esforços para a estragar...
E, parece-me que a epidemia está a transformar-se numa pandemia...

Se realmente houver "uma mãozinha por trás disto tudo", agnóstico que sou, estamos safos: Deus (?)tarda, mas não falha!

Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
"A vida é bela, os homens é que a estragam", dizia alguém que foi figura desta aldeia em que nasci e que infelizmente não saberei homenagiar com o devido respeito que uma tão elevada profundidade necessariamente requereria.
as a verdade é que estamos perante um resumo de sabedoria que nos diz tudo ao recordar-nos que a escolha do mal é eminentemente humana; são os homens que se decidem pelo vale tudo para satisfazerem os seus interesses particulares - eu, sem eufemismos, diria ganância, mas enfim, temos de ser polidos, não é? E Seja como for, vai daí e zás, trata de pisar o próximo com o mesmo à vontade que se atiram ácidos para os rios e gases tóxicos para a atmosfera.

Quanto à tal mãozinha que pode empurrar, eu que tenho alma de andarilho e para mim não reconheço outro território para além dos meus sapatos, pelo que gosto de ver e ouvir, acima de tudo ver e ouvir e ler, é claro, pois todos podemos ver, ouvir e ler e dificilmente poderemos ignorar, resrevo para as personagens o que possam ter para dizer a esse respeito. Sem qualquer dúvida, serão capazes de uma eloquência a que eu jamais me poderia habilitar.

Contudo, posso apenas dizer que Ele não falha, nem tarda, nós é que somos muito distraídos ou ensimesmados o que acaba por dar o mesmo.

Aquele abraço, companheiro

Luís
A.Tapadinhas disse...
...aqueles que mais acerrimamente negam a realidade de Deus têm, normalmente, uma ideia muito primitiva de Deus.

A evolução do conceito de Deus vai sendo feita adaptando-se ao aumento do conhecimento científico. Será alguma vez tão grande que prove ou elimine a existência de Deus?

No entanto, nem sempre o conhecimento científico é uma boa razão para se estar mais próximo de (ou da existência de), Deus.

Os portugueses por saberem tanto, recusaram dar barcos a Colombo para descobrir o caminho marítimo para a Índia, navegando para Oeste. Sabiam que nenhum navio conseguiria cobrir essa distância, cerca de 19.000 quilómetros. Os espanhóis, que precisavam de vencer os portugueses, deram-lhe o que ele queria e, com uma sorte inacreditável, depois de navegar 5.000 km, descobriu outro continente. Colombo morreu convencido que tinha chegado à Ásia.

O saber, algumas vezes, ocupa lugar, quer dizer, não nos deixa ver o mais evidente: um continente logo ali ou um deus...

Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Tiro o chapéu ao teu comentário e curvo-me perante o mesmo. Diz o essencial com pouco e isso é obra.

E começas por uma pergunta inteligente, a de o conhecimento que os saberes científicos nos proporcionam eventualmente vir a provar ou eliminar a existência de Deus. É uma interrogação crucial pois coloca-nos perante uma dualidade que no dizer comum mutuamente se exclui mas que por si nos remete logo a essência da questão. E quanto a mim a resposta é negativa antes de tudo porque não tem que o fazer. Mais não fosse pelo que dizes por fim, é que Ele não resulta e muito menos se poderia conter no conhecimento que dele pudessemos fazer, antes Se revela nessa luz interior em que nos sentimos caminhar pelo Seu apelo. Algo mais do género do essencial que não está no que os olhos vêem, como poeticamente nos disse Saint-Éxupery.
Mas continuamos a invadir a sabedoria das personagens que, insisto, são destas matérias muito mais sábias que eu e por isso deixo que sejam elas a dizer.

Colombo, Colombo, esse rosto esconso que a História colocou no cerne de um antes e depois, tem a grande curiosidade de ser o único grande herói que quase ganhou a dimensão de um herói cultural, como se dizia na Antropologia de antanho, o mesmo é dizer um ser verdadeiramente mitológico.

Está de pé a teoria de um Professor norte-americano que o apresenta como português, de gema e a mais alta nobreza -na verdade, o homem saberia muito para um simplório genovês que por naufrágio tivesse chegado a Portugal- e parte de uma conspiração de El Rei D. João II, por quem o homem do leme desobedeceu ao Gigante Adamastor.
É um livro interessantíssimo de se ler e apesar de o rigor académico não se reconhecer em tal procedimento de escrever a História, não deixa de nos colocar perante questões muito interessantes de se saber e conversar a respeito das mesmas. Enfim, malhas que o império teceu.

E assim deixo aquele abraço,

Luís

A.Tapadinhas disse...
No início parecia que se estava a falar do Presidente da República, ou mesmo do Procurador - Rainha de Inglaterra, ao dizer, que se regula pelas suas próprias leis, sem que ele tenha que ter aí o mais pequeno papel.
:)
Ele (com E maiúsculo), agora, nunca interfere nos assuntos dos homens, mas há dois milénios atrás, a acreditar no que lemos, interferia dia sim dia não, e nem sempre pelos melhores motivos...
:(
A Shoa seria uma boa razão para Ele se mostrar, mas...

...um pai, que vê o seu filho morrer com um tiro ou pelo efeito colateral de uma bomba, tem todo o direito de exigir uma intervenção, pois, se para Ele são todos iguais, para o pai o seu filho é mais igual que os outros...

E, agora, a grande questão: Todos estamos ligados pelos mais diversos laços. Cada um de nós é capaz de encontrar uma boa razão para intervir, num dado momento, num dado contexto. Todos a cumprirem a lei do olho por olho, não ficaríamos todos cegos?

Aquele abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Viva, Tó

Mais uma vez deixarei que sejam as personagens a dizerem o que têm para dizer a respeito da primeira parte do teu comentário. Continuo convicto que terão palavras mais sábias que as minhas e, em todo o caso, a óptica será sempre a deles que pode ou não, em algum(ns) (do(s)) caso(s), coincidir com a minha, mas essa, para aqui, pouco importa.

Quanto ao resto e sintetizo-o no "(...) Todos a cumprirem a lei do olho por olho, não ficaríamos todos cegos?", a minha resposta é afirmativa.
É justamente para isso que temos o livre arbítrio que nos permite escolher, para mim, justamente os valores que nos façam interiorizar o princípio de procurarmos viver sem fazer mal a ninguém, ainda que a realidade seja mais complexa que uma linearidade dessas aparentemente pode comportar. São esses os limites da civilização que temos por boa, a nossa consciência, aquela perante a qual sempre responderemos, a única em que se pode alicerçar um mundo em que se procure evitar a maldade -muito complexa esta ideia e requerente de ampla e detalhada discussão- e, bem vistas as coisas, aquela em que poderemos compreender, antes de tudo sentir e então depois compreender que, afinal, é em nós que Ele vive e se manifesta e por isso somos nós que O poderemos reconhecer e escolher, sendo nós que sendo Ele em cada um, deveremos agir na procura da elevação ao Seu nível, com isso reconhecendo no outro um irmão e vivendo com ele na convicção de não o querer ofender, seja de que maneira for. A maldade é eminentemente humana e é uma opção inteiramente humana evitá-la ou, se quisermos, evitar de a ela recorrer.

Observações certeiras, as que tu fazes, mesmo aquelas que eu deixo para os dialogantes do conto a resposta. Há horas de conversa para fazer a respeito das mesmas, provavelmente noutra oportunidade.

Aquele abraço,

Luís
A.Tapadinhas disse...
Posso afirmar, depois de ler o teu texto (corrige-me se estiver errado), que o teu protagonista é de opinião que os conhecimentos adquiridos pela Ciência e pela Religião se complementam. Num mundo perfeito seria o mais acertado. Mas...

Tenho de dizer que o teu protagonista é ingénuo: temos uma infinidade de registos históricos de casos de guerras abertas entre ciência e religião -E pur si muove-e muito poucos de colaboração...

É como a relação entre o texto e a música de Vanessa Benelli: é tão absorvente ouvir as notas do piano, que não dá para ler o texto ou vice-versa, ao contrário, como diria o outro...
:)
Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Não, não, não é e o que se dirá depois permitirá perceber isso. Coexistem, mas a coexistência não implica complementaridade; qualquer delas se remete para ordens de coisas que nada têm a ver entre si pelo que...

Mundos acertados... Seriam possíveis na Matemática, Terra onde se demonstra; fora dela estamos sempre onde o bicho humano mora, ou pode morar, ou simplesmente meter o nariz e aí...

Aí entramos no domínio da confusão que geralmente se faz entre o elemento e o conjunto não singular. É verdade que o pensamento que estilhaçou a ortodoxia teve, em inúmeras e indesejáveis situações, a carne assada na fogueira -ainda que seja curial ressalvar que deste modo estamos a ver a(s) religião(ões) como se o catolicismo fosse a única delas- mas também não deixa de ser verdade que ela continua e sempre continuará a mover-se o que, aqui, significa que apesar de tudo sempre os Bacons disseram, os Galilleus seguiram, os Diderots espalharam e uma miríade -não são mãos cheias- de outros que de tantos faria uma lista de endereços, acabaram por afirmar de tal modo o conhecimento científico que hoje até aqui vivemos num mundo de pensamento laico.
Para além disso, devemos ter presente que se aplicássemos o raciocínio pelo prisma da Madre Teresa de Calcutá e dos inúmeros mártires que literalmente deram a vida pelos outros... Provavelmente, um observador exterior -talvez um ET do Spilberg que brincava com as crianças- diria que somos -estou a referir a Humanidade- uma espécie de Santos e seguramente quereria perceber se tal se deveria a questões hereditárias ou culturais. Como ficariam os cabelos dele -aqui os de outros planetas têm cabelo- quando se confrontasse com a ingenuidade de Anne Frank. Enfim...

O remédio santo diz-nos que sempre é possível ler primeiro e escutar depois, ou escutar primeiro e ler depois, ou ler antes e escutar antecipadamente ou, como diria o amigo do outro, ler a seguir e escutar primeiro, ou será que era ao contrário?

Aquele abraço companheiro,

Luís
A.Tapadinhas disse...
Mudou completamente o sentido da palavra inteligência com a sua manifestação suprema: a tolerância!

Esse sentido inovador coloca a máxima inteligência na cabeça de uma criança, ou no tolinho da aldeia...

Quem é mais tolerante=inteligente que uma criança ou um "tolo"?

E também, e não menos importante, que todos nascemos com a mesma inteligência. A educação, a sociedade em que estamos envolvidos é que a pode conspurcar.

Em termos populares as crianças e os loucos são os que estão mais perto de Deus...

Mais uma vez, o povo tem razão.

Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Ora aí está. Confesso que nunca tinha pensado o assunto sob esse prisma.

A inteligência é um atributo da nossa espécie; como animal cultural que somos, podemos tomá-la como uma ferramenta, aquela que a biologia nos dá. Infelizmente ou não, não traz consigo livro de instruções pelo que o uso da mesma depende de cada um de nós.
Ora esse é um sentido ético da inteligência que em geral nunca é considerado, mas existe, diria que é empiricamente verificável, pelo que de modo algum o poderemos considerar estranho na Humanidade. É pois um acto de vontade, de consciência e, posso estar enganado, parece-me que será mais nesta perspectiva que a personagem usou a ideia.

A criança e o tolo -atenção que tolo não tem que necessariamente significar louco e há um uso que assimila ambos os vocábulos ao mesmo significado- materializam a escolha inocente -a que não é conspurcada pelas peripécias e condicionalismos do fluir enculturativo e de todas as envolvências da socialização, como dizes- não tanto um comportamento adoptado por tomado como melhor que outros. Digamos que tantos uns como os outros serão espontaneamente assim, no caso, tolerantes.
Mas aqui temos o contraponto da outra sabedoria popular que lembra as papas com que se enganam os segundos, como que para nos recordar que é aquela muito complexa e de outra forma seria insólito que tivéssemos conseguido tanto em tão escasso par de centenas de milhares de anos.

Contudo, não deixa de ser interessante que o povo faça a leitura que lhe atribuis, pois a verdade é que a criança expressa tolerâncias que, muitas vezes, estão interditas aos adultos pela formatação que a sua cultura lhes deu -e isto sem qualquer ponta de determinismo cultural que seria de todo um absurdo pela contradição entre as partes que pressuporia em relação aos argumentos anteriores. Os preconceitos rácicos são um bom exemplo disso e qualquer jardim escola misto é um bom laboratório em que tal se pode facilmente verificar.

Mas a consciência e o livre arbítrio, bem como a inteligência são apanágio de qualquer um e por isso as crianças assimilam e processam e também agem pela sua própria vontade e são bem conhecidas as histórias de meninos e meninas perversos que se comprazem com o mal alheio. É a natureza humana e foi justamente nela que as utopias de um homem novo -subtilmente a companheira da ideia do mundo novo de um amanhã melhor- esbarraram. Afinal somos apenas humanos inapelavelmente sujeitos ao erro, no limite, de uma opção desajustada para com os outros ou outrém.

Daí o sentido ético encontrado para a inteligência que é a propriedade que nos é dada para interagirmos com o mundo envolvente.

Será que só no Seu encalço seremos capazes dessa inteligência ética? Não me parece que Ele seja o único caminho para aí chegar e a criança que se fez homem, mesmo longe Dele, não estará por isso mais distante de conseguir encontrar-se em tal uso da inteligência.

Devo admitir que também não me parece que seja um caminho fácil e apesar de compreender o pensamento da personagem e de genericamente até ser capaz de o subscrever, não reinvidicaria para mim a exemplicação de alguém assim.
Mas eu limitei-me a escrever o conto, só isso.

Aquele abraço, companheiro

Luís
luis santos disse...
Olá Luís. Só agora, 6ª feira, 19h, li o teu texto. Curiosamente, o texto que publiquei hoje cruza parte da temática que aqui abordas. Embora tivesses feito referência no texto anterior ao homem de Piltdown não há relação nenhuma entre ele e este que agora publiquei. Digo-o,simplesmente, para evitar más interpretações entre os mais desprevenidos. De resto, não será de estranhar que aqui e ali abordemos temas comuns...

Grande Abraço.
10 de Setembro de 2010 19:36
Luís F. de A. Gomes disse...
Não há qualquer problema e muito menos qualquer possibilidade de mal entendido.

A Antropologia, melhor dizendo, o vasto universo das Antropologias abarca um conjunto de saberes e métodos de pensamento e entendimento da realidade do Homem incrível; a Antropologia está para a Humanidade com a Astrofísica para o Universo. É depositária de conhecimentos a respeito de toda a História Humana quer enquanto espécie em si, quer enquanto ser social e portanto enquanto o animal cultural que por isso se adaptou a todas as geografias da Terra e, numas mais radicalmente que noutras, as alterou em seu benefício –esta do seu tem muito que se lhe diga se atendermos à muitíssimo desigual repartição dos rendimentos a nível planetário e particularmente dentro de cada país. Seja como for, a Antropologia é talvez a única área de saber que nos permite uma visão global da nossa caminhada, na medida em que na sua vertente antropobiológica -salvo seja a expressão- nos obriga a uma certa reconstrução cultural do passado pelo que, obviamente em âmbito inter-disciplinar, nos habilita a podermos ver um filme das diversas culturas quer no espaço quer no tempo. Com efeito, existe aí um banco de dados a respeito de todas as populações humanas que actualmente habitam o planeta.
Não estamos contudo no domínio de uma ciência exacta. A um certo nível, estamos mais perto das metodologias da História, genericamente das Ciências Sociais; quando falamos da hominização, aproximamo-nos das competências e modos de operar do campo das biologias. Tanto num caso como no outro não há a possibilidade da demonstração pelo que os argumentos, as ideias e as teorias não têm que ser necessariamente universais, isto é, aceites por toda a comunidade científica ainda que haja toda uma linguagem que o é, uma série de conceitos que são reconhecidos de igual maneira em toda a parte e até explicações que são tidas como boas por todos os que se debruçam sobre tais matérias. Ora se uma atitude científica pressupõe, em si mesma, a abertura para a pluralidade de expressões e pensamentos e, de facto, tal sucede em todas os quadrantes dos saberes científicos, mais ainda será de esperar que ela aconteça num domínio onde a característica da universalidade é tão difícil de atingir e nem sempre é possível.
É enorme a variedade das correntes que já surgiram na Antropologia Cultural e sem prejuízo de preferirmos umas a outras, de considerarmos uma teorias melhores que outras, certas explicações mais elegantes que outras, é absolutamente natural que hajam pontos comuns nessas muitas abordagens e que em alguns pormenores aconteçam repetições. Não vejo que venha mal ao mundo por isso e pessoalmente não é algo que me preocupe.
É bom de ver que há todo um potencial de reflexão que só tem a ganhar com a multiplicidade de leituras e pontos de vista e isto sem prejuízo da reserva de achar que nem todos os contributos tenham resultados positivos e enriquecedores. Seja como for, mais não sendo pelo efeito do espelho, tenho por princípio que a pluralidade de abordagens é sempre um fermento propício ao aparecimento de ideias –novas ou renovadas- ou ao seu aperfeiçoamento.

(continua)
Luís F. de A. Gomes disse...
Quando me candidatei aos estudos universitários, teria entrado em qualquer dos cursos a que poderia aceder. Escolhi Antropologia não por qualquer curiosidade científica propriamente dita ou qualquer vontade de vir a trabalhar nessa área, mas apenas porque pelos dados que então reuni, me pareceu que era aí onde melhor me poderia habilitar para fazer aquilo que realmente queria e que era fazer literatura de ficção, quer dizer, entre os diversos cursos por que poderia optar, tudo indicava que seria aquele em que poderia aprender as mais relevantes ideias e teorias, bem como as melhores metodologias e ferramentas de pensamento para me arriscar a tentar compreender a humanidade, a natureza humana e a partir daí, pelo menos, conseguir construir personagens credíveis e consistentes, mundos inventados, é claro, mas que formassem pessoas, tal qual eu e tu, capazes de saírem das páginas do livro e ganharem vida própria, a respeito dos quais nos fosse dada a sensação de que os mesmos poderiam sentar-se connosco a uma mesa e conversas –como o fazem aqui neste conto.
Hoje, mais de trinta anos passados sobre essas decisões, não tenho a menor dúvida que acertei, em cheio.
Como é fácil de entender levei a licenciatura muitíssimo a sério a que não foram estranhos os resultados finais da mesma e para além desse interesse particular que referi, confesso que comecei por me espantar com o interesse o potencial daquele universo de saberes e à medida que fui crescendo nos estudos, fui ganhando uma curiosidade intensa por diversas das suas problemáticas e posso dizer que acabei por extravasar o principal motivo que ali me levara, acabando por me vir a pós-graduar e, ainda que na modalidade de um trabalho independente e freelancer, se o termo aqui tem alguma aplicação, até a permanecer activo e a fazer trabalho de investigação na área do racismo.
Mas isso é uma decorrência do meu principal interesse que é a literatura e como há muito que percebi que esta última é mais uma das fontes de conhecimento a respeito do Homem, nada há que lhe possa ser estranho ou desprezível e muito menos ideias –vindas de onde vierem e ainda mais das Antropologias- que naquela não possam ser processadas de maneira a que os leitor seja confrontado com o convite para reflectir sobre este ou aquele assunto, este ou aquele fenómeno.

Ora como poderia então haver mal entendidos? Não poderia, a menos que eu tivesse a pretensão de saber tudo ou ter a única verdade ou… Sim, é claro, essa hipótese também é válida, fosse pura e simplesmente parvo e pensasse que todo e qualquer teria que pensar exactamente como eu. Seria uma tristeza e, sobretudo, uma ofensa para este próprio espaço que se alguma característica tem, é ela a diversidade, de opiniões, abordagens, gostos e preferências. É assim afinal que é a vida e é exactamente dessa maneira que gosto dela pelo que é assim que deve ser e apesar de ser parte interessada e, em conformidade, a minha opinião ser parcial, não tenho dúvidas em dizer que é dos blogues mais interessantes com que me tenho deparado e só é de lamentar que não seja mais conhecido.

E pronto, aquele abraço, companheiro
Luís
luis santos disse...
Obrigado pelo extrordinário conhecimento que as tuas palavras revelam. Só Deus sabe quanto te devo por ter a possibilidade de ter tido na minha vida um amigo-primo-irmão ligeiramente mais velho.

Que Deus te abençõe, sempre!
Luís F. de A. Gomes disse...
É verdade, estamos perante a amizade de uma vida que já vai ganhando volume no número de décadas que contém.
Sempre brindo a ela, do fundo do coração, pois não tenho dúvida alguma que em boa parte, em ela, por ela, no âmbito de todas as envolvências que aí houverem e as vivências, as experiências, as aprendizagens que proporcionaram, não só em boa parte vieram a condicionar muito daquilo que eu sou, como pessoa, como também a propiciarem grande parte do húmus em que procuro gerar as palavrinhas com que vou criando as pequenas histórias que gosto de contar.
Sobre este último aspecto, para quem ler com atenção o que tenho vindo a escrevinhar, há todo um clima que se faz sentir, todo um laivo de humor ao mesmo tempo subtil e carinhoso que percorrem as minhas páginas que vêm justamente desses anos em que a nossa amizade se foi solidificando e que foram os mais importantes e decisivos para o nosso crescimento enquanto pessoas.
É pois de uma longa amizade que estamos a falar que pode ter andado por aqui e por ali mas permaneceu, sempre e por isso e pelo que disse anteriormente, sempre a ela brindo, no fundo do meu coração.

Nesta medida, tenho a certeza que Ele sabe ser essa dívida recíproca e acredito que, por tudo o que escrevi, se Fosse dado a pensar sobre ela, concluiria pelo peso maior do meu prato.

Aquele abraço, velho companheiro

Luís
A.Tapadinhas disse...
"Quer dizer, os cientistas ainda não sabem explicar muito bem porque é que ocorrem essas transformações que resultam na evolução das espécies. Sabemos que se tratam de mutações e tudo indica que elas decorram de erros de transmissão do código genético. Mas não existe uma explicação inteligível e aceite para que isso suceda e então admite-se, se quiser provisoriamente, como é da praxe da construção do conhecimento científico, aceita-se então provisoriamente que isso possa ocorrer por mero acaso. Depois há o facto de algumas alterações serem benéficas para os indivíduos, isto é, terem a propriedade de lhes conferirem vantagens adaptativas e outras não e isso parece que acontece por acaso."

Já Darwin tinha notado que as variações apareciam por acaso nos animais em cada ninhada, na cor, tamanho, nas sementes, em tudo. Ninguém sabia por que razão a selecção natural se mantinha, apesar do acasalamento indiscriminado de cães, gatos, pombos... Raio da evolução que não seguia um padrão certinho. Só sabia funcionar aos saltos!
Até que, Mendel, um frade Agostinho, que gostava de botânica e estatística, começou a combinar ervilheiras de diversas cores e a apontar os resultados. Quando ele misturou ervilheiras verdes com amarelas, as que nasceram eram amarelas-amarelas, e não amarelo-esverdeado ou verde-amarelado. Mas na terceira geração, essas sementes amarelas, tanto davam flores amarelas como verdes.
As deduções que fez são, ainda hoje, as leis da hereditariedade e servem para flores, cães e homens.
Apesar de as ter publicado, em
1866, ninguém ligou às suas idiotas descobertas com as ervilhas.
Darwin morreu em 1882, sem saber que a falha maior da sua teoria estava corrigida: as súbitas alterações chamadas mutações.
Mendel morreu em 1884.
Em 1900 três botânicos preparavam-se para publicar as suas "descobertas", quando "descobriram" que Mendel, trinta e quatro anos tinha descoberto (sem aspas) o mesmo.
A biologia molecular perdeu uma geração, porque alguém não soube fazer um simples trabalho de casa.

Moral da história: Tudo acontece por acaso...
até evoluirmos o suficiente para encontrarmos a explicação.
:)
Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Tal e qual e melhor apresentado não poderia estar.

Mas vale a pena notar que o Darwin sofreu forte oposição dos poderes estabelecidos da época, particular e mais manifestamente por parte das autoridade religiosas de então e muito generalizadamente pela sociedade bem pensante da altura para quem as suas ideias e teorias eram simples heresias, quer por romperem por completo com a ideia de Criação que a ortodoxia do pensamento estabelecia como única explicação para o apareciento do Homem, quer por nos colocarem a modos que na a´rvore genealógica de outros primatas, ideia que parecia verdadeiramente bizarra e a que a imprensa da época respondeu com a gravura de um macaco com a cara do genial cientista.
Foi uma árdua luta académica e científica para que as suas teses viessem a ser reconhecidas e ainda para que fossem aceites como a melhor explicação para a formação e a evolução das espécies.
Em outras áreas, com outros protagonistas e até com outras vinganças, houve outros episódios equivalentes a esse. E certamente que não terá sido apenas neste lado do mundo de que estamos a falar.
É curioso reflectir sobre isso.

Mendel foi outro actor de tais cenários que no recato do seu convento provavelmente nem teve consciência da importância e das repercussões das suas descobertas. Mas nao deixa de ser de certo modo simbólico que tenha sido um religioso que tenha dado o contributo que referes e que, ao contrário dos mitos de origem, veio permitir perceber que somos o resultado de um longo processo evolutivo, manifestamente de acordo com as leis da própria Natureza.
Parece que não, mas a par da Revelação de Abraão, talvez tenha sido essa uma das mais decisivas revoluções no pensamento dos homens; seríamos diversos do que somos.

Se a colocarmos em perspectiva e se com isso considerarmos o de outras espécies que nos antecedem na História da nossa Evolução, aventura do conhecimento, apesar de tudo, tem sido das mais rápidas viagens que o espírito e o génio humano têm logrado.
Será que nos vamos queimar nas asas como no mito clássico? Será que sonseguremos a sabedoria bastante para manusearmos o fogo sem nos queimarmos? Essas são dúvidas que perturbam e sobre as quais vale a pena pensarmos e é justamente aí que me parece que a literatura as outras artes se encontram como fontes de conhecimento para os homens, para além de lhes saciar a sede de oinirismo e evasão que tudo aponta para que tenha surgido com a nossa espécie, o sapiens sapiens.

Vê lá bem o que o Pessoa tem propiciado. Poderá haver alguém que duvide da grandeza da obra que nos legou?

Aquele abraço, companheiro

Luís
A.Tapadinhas disse...
Não resisto a fazer-te um desafio! Já te confessaste admirador da ficção científica.

Neste parágrafo - Digamos que assim, a Humanidade, se é que pudéssemos usar esse termo para uma qualquer espécie que se nos assemelhasse, seria seguramente outra -, fazes uma afirmação com a qual não podia estar mais de acordo.

O desafio, a pergunta do milhão de €uros é: Qual Humanidade resultaria dessa "ínfima" alteração?

Recordo-me dum livro de fc em que a humanidade era gerida por religiosos que recebiam instruções directas de Deus e nisso baseavam o seu poder...

...com resultados deploráveis.
:(
Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Sim, certamente e sempre que os poderes se baseiam numa qualquer forma de verdade revelada, seja ou não religiosa e os exemplos da História são fartos a esse nível, os resultados sempre trouxeram o rasto do sofrimento e da morte.

Mas é curioso perceber como é que os sistemas religiosos –se assim se pode falar- estiveram, quasi sempre e isto para reserva de algum que me escape e não possa ser incluído em tal reunião, os sistemas religiosos, dizia, quase sempre estiveram associados a formas de domínio e controle do poder e é ainda mais curioso verificar que muitas vezes fizeram uso dos conhecimentos a respeito dos fenómenos naturais justamente como instrumentos de manipulação e de afirmação da supremacia de tais deuses sobre os homens e, por via disso, de reforço e consolidação desses centros de poder. Praticamente desde o aparecimento e consolidação que os primeiros estados trouxeram consigo todo o aparato de estruturas religiosas. Eram as previsões dos ritmos e manifestações da Natureza que iam desde as mais simples orientações no que se refere a sementeiras e colheitas, às mais sofisticadas previsões de eventos cosmológicos, como, por exemplo, eclipses e que os senhores dos templos, por serem, em grande parte, guardiães dos saberes mais relevantes da época, usavam a favor do reforço e da continuidade da sua própria importância e poderio. Daí a vulgaridade das teocracias.
Já quanto ao desafio que colocas é de difícil solução pois não se trataria de uma ínfima alteração, antes de uma alteração fundamental. Não se trataria de uma simples alteração de valores e princípios éticos, em que, por exemplo, num mundo exótico como o império romano dos séculos da que ficou conhecida por pax romana, os nossos semelhantes de antanho se dessem a comportamentos que tomaríamos simplesmente por criminosos, como o vulgar infanticídio que até era uma das formas de controle demográfico ao alcance da época. A diferença seria outra, antes de substância que não apenas em termos formais.

(cont)
Luís F. de A. Gomes disse...
(continuação)

Poderemos olhar as espécies hominídeas que nos antecederam e tentar perceber que diferenças poderiam haver entre elas e nós.
Uma de ordem fundamental, é que os mortos ficavam onde tivessem morrido muito simplesmente por não haver quem os chorasse. Isto parece pouco mas traz todo um cortejo de impossibilidade de pensamento ético que só à nossa espécie –sapiens sapiens- foi bio-geneticamente consentido e que marca a diferença fundamental entre o que poderia ser um mundo de caçadores homo erectus e um outro bando já composto pelos nossos avós.
E aqui entra mais uma curiosidade; é que tudo indica que apenas o nosso cérebro apresenta as circunvoluções correspondentes ao que se pode designar de pensamento religioso. Por outras palavras, os cérebros das espécies que nos antecederam na nossa árvore genealógica, não apresentavam as áreas correspondentes a essa actividade mental e a verdade é que a arqueologia jamais encontrou provas do contrário nos vestígios que desses seres chegaram aos nossos dias.
Será que os laços entre mães e filhos seriam da mesma ordem que aqueles que se formam em todas as populações humanas actuais? Provavelmente não, ainda que seguramente houvesse afecto.
Haveria sentimento de perda perante a morte de outrem, por mais chegado que fosse? Continuamos na probabilidade negativa que nos leva a pensar que a caça ao semelhante, o flagelo sobre o semelhante, não teriam na mente as barreiras de um pensamento ético que seguramente não existia.
As diferenças seriam portanto de esta ordem e o mundo resultante é o da lógica da sobrevivência, pura e dura, ainda que já pudessem haver manifestações que representassem a alegria de estar vivo para lá dos simples actos ligados àquela prova primacial.
E continuamos sempre no âmbito daquilo que nos espanta; é que quase se poderia dizer que a Humanidade se foi fazendo a ela própria.
Os já citados romanos, por exemplo, em cuja cultura havia uma vasta produção de pensamento no domínio da moral e da ética, não viam qualquer problema em matar um recém-nascido muito simplesmente por não acreditarem que o mesmo fosse de imediato um ser humano. É muito curioso ter isso em consideração pois, pessoalmente, uma das mais espantosas revelações que se verificam a partir de certos modelos matemáticos de abstracção que desenvolvi no contexto das investigações sobre o racismo que tenho vindo a efectuar, é justamente que nós não nascemos humanos, fazemo-nos humanos, ainda que todos nasçam com as características bio-genéticas que permitem dar e consolidar esse passo.
É pois interessante de ver que na Evolução sucedeu o equivalente; um dia surgiu alguém com um cérebro capaz de desenvolver o pensamento a respeito do transcendente e tudo indica que foi a partir daí que historicamente surgimos nós. Ora isto deveria dar muito que pensar, mas é conhecimento recente e por isso com um longo caminho à frente para percorrer.

(cont)
Luís F. de A. Gomes disse...
(continuação)

O desafio que colocas, o de imaginar uma espécie com a Fé geneticamente transmissível, teria que nos levar para outras animalidades, salvo seja a expressão, uma espécie de abelhas ou formigas que sabem o seu papel à nascença e que nascem obreiras ou soldados sem que possam fazer nada em sentido contrário pois isso está determinado pela sua biologia. No caso, todos esses seres viveriam de acordo com a procura de Deus e nesse sentido seria mais ou menos um mundo sem conflito, na medida em que sem excepção todos tomariam o semelhante como à sua própria pessoa e por isso agiriam em conformidade com a busca da Eternidade.
Nesse aspecto, creio que seria mais emocionante pensar nos mutantes. Como seria se aparecesse um indivíduo que, por defeito genético, nascesse, vamos colocar a hipótese, tal como nós nascemos, sem estarmos programados para ter Fé. Será que o sujeito teria vantagens adaptativas que o levariam a dominar os outros? Como se constituiria então o seu sistema de valores e em que se fundamentaria ou poderia fundamentar? Levá-lo-ia a reproduzir-se e a dar origem a uma nova população dominante?
Quanto a mim, este seria um desafio com muitas mais potencialidades para reflectirmos sobre a Humanidade que somos. Mas apesar de gostar de fc, e apesar de até já ter escrito fc –teatro- ainda não chegou a hora e para ser sincero nem sei se jamais chegará, para que eu me atire a uma história em tais incertas águas; pelo menos por agora, não me parece que tivesse alguma coisa a acrescentar a esse quadrante literário onde há monumentos como um Verne, um Wells, um Clarcke ou um Asimov que anteciparam futuros que hoje tomamos por banalidades deste presente. Pessoalmente, não tenho e dificilmente poderia vir a ter conhecimento suficiente para chegar a tanto.

Aquele abraço, companheiro
Luí

A.Tapadinhas disse...
É necessário um elaborado conceito intelectual, para tomar consciência que eu (cada um de nós) sou irrepetível, único e, por isso, importante em tudo o que se desenrola no mundo. Bater de asas da borboleta, na teoria do caos...

Os nossos avós para sobreviver, depressa chegaram à conclusão que o grupo era indispensável à sua sobrevivência, porque havia animais mais fortes, mais rápidos, mais... tudo, excepto um pequeno pormenor: não tinham o polegar oponível.

A família, cedo se transformou num conceito alargado (e com tendência para alargar cada vez mais): tribo, povo, raça... ... humanidade!

Estamos, agora, no dealbar de um novo conceito: o planeta não é exclusivamente nosso, os animais e as plantas não foram colocados na terra para nosso divertimento...

Cada um de nós tem uma imensa responsabilidade: temos a inteligência, temos os meios para, não digo evitar o colapso, digo prolongar este ciclo de vida.

Far-se-á com pessoas como, Pessoa...

...mas sem os pintassilgos que poisavam regularmente às terças-feiras, no meu quintal!

Obrigado por teres compartilhado connosco este belo trabalho!Faz bem à saúde pensar! Parabéns!

Aquele abraço,
António
luis santos disse...
Obrigado pela partilha dos bandos de pintassilgos que sempre pulularam pelo nosso quintal. O Fernando Pessoa sai envaidecido pelas ricas reflexões que te proporcionou. E terá gostado de ler, com certeza. Uma outra figura sempre omnipresente durante as leituras, não menos valiosa em nós que Pessoa, foi o Francisco José Gonçalves, ele próprio, todo ele, um pintassilgo, nas cores, no esterno, na alegria, o que o tornava único, pois claro, à semelhança de cada um de nós. Aqui fica uma singela homenagem a esse nosso companheiro de passarada, e tão parecidos com os anjos que são. É esta importância de sermos únicos, creio, que torna tão singular, especial, este nosso Estudo Geral. Esta capacidade de assumirmos e partilharmos com os outros as nossas criações, não ficando atrás dos que revelam o artista que existe no fundo de cada um de nós. Ou a vida não fosse um palco e a luz das estrelas os holofotes que nos fazem brilhar. "O homem não nasceu para trabalhar, mas sim para criar", diria o Professor Agostinho da Silva. Felizes dos que atingiram na vida a criatividade absoluta, quem sabe o "update" necessário para transmigrar para outros planos... Talvez por isso seja importante continuar o Estudo. Já pensaste na próxima partilha habitual das terças-feiras?
Luís F. de A. Gomes disse...
Pois é Tó, pensar faz bem à saúde e aquilo a que estes pintassilgos poderiam aspiurar seria a isso mesmo, deixar um pequeno convite para que as pessoas pensem, preferencialmente pela sua própria cabeça, pois afinal sempre caberá perguntar o que andamos cá a fazer que é capaz de ser uma das questões cruciais que nos distinguem dos outros seres vivos.

Em todo o caso devo dizer que faltam ainda os finalmentes pelo que não será hoje a despedida, propriamente dita, dos fascículos deste conto, apesar de a história, essa, ter, de facto, terminado.

Obrigado pelas tuas palavras que são sempre reconfortantes de ouvir, mas o prazer por ter escrito e, porque não dizê-lo, de o apresentar publicamente, foi meu e quanto a este último aspecto, mais ainda por o ter feito num espaço tão interessante como este blogue.

Aquele abraço

Luís
Luís F. de A. Gomes disse...
É isso amigo o homem nasceu para pensar, mas o problema é que no pensar é que está a subversão e vai daí, os senhores do mundo...

O "Estudo Geral", à sua mnaneira, vai por esse caminho, mais não fosse pelo facto de se fazer contra o pensamento único de que enfermam as sociedades em que vamos vivendo e que tanto atrofiam a individualidade de cada um, das quais fazem fonte de força do rebanho que mantém os alicerces do mundo de ganância que se tem consolidado desde há vinte anos para cá e onde, apesar de todas as melhorias, porque as há e sucessos na saída da pobreza de milhões e milhões de almas vivas, a concentração da riqueza é cada vez maior, a repartição da mesma tem sofrido retrocessos graves e, em conformidade, aumenta o fosso entre os mais ricos e os mais pobres.
Faltam pois pensamentos alternativos e, nesse sentido, o "EG" -é giro porque se pode dizer o ovo, quer dizer a semente de um futuro- é uma praça de liberdade, um exemplo de coragem e de fermentação de ideias que, para meu gosto pessoal e aqui sempre ressalvo que, de certa maneira, sou parte interessada pelo que o meu ponto de vista será sempre parcial e jamais isento, mas seja como for, dizia que o EG é uma casinha de conversas e pensamentos que dá gosto acompanhar, repito, na minha opinião, é claro.

Tal como é claro que este meu conto poderia, atendendo ao título, ser dedicado à memória desse nosso irmão que já partiu há duas décadas para nos acompanhar a partir do regaço da Eternidade onde seguramente está. Contudo, dediquei-lhe um conto que compilei nas "Histórias da Margem Sul" e que justamente, faz salvaguarda da memória da nossa infância justamente relacionada com esta vertente da passarada. Depois, depois decidi que estava na hora de dedicar um trabalho à Bélinha que me acompanhou no meu crescimento de quem escreve e muito acabou por contribuir para que eu tomasse o rumo que tomei em direcção à obra que tenho vindo a realizar, mesmo que em silêncio e que agora tenho vindo a divulgar ao público leitor -arrogando-me da vaidade de ter um público leitor.

Quanto ao futuro, já tenho ideia do que vou apresentar e de como o farei mas não será aqui e agora que vou falar disso. Apenas posso acrescentar que, da mesma maneira que o "Há Pintassilgos..." me pareceu ser um trabalho adequado para sair aqui, no EG, tenho para mim que o mesmo sucederá com a próxima publicação que conto fazer. Seja como for, ainda faltam algumas semanas até chegar lá, pois há os finalmentes dos pintassilgo que terão que ser feitos. Há a regra da honestidade intelectual para respeitar.

Aquele abraço, companheiro

Luís

terça-feira, 12 de outubro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
COMENTÁRIOS
I


A.Tapadinhas disse...
As imagens que retiro dos pensamentos traduzidos em diálogo vão enriquecer o arquivo "As Minhas Imagens", que o meu cérebro vai guardando...
E ainda não apareceram os pintassilgos...
:)
Abraço,
António
luis santos disse...
Será um prazer acompanhar a riquíssima prosa do Luís em deambulações à volta do Pessoa. A música do Cage está bem ao nível da prosa e do prosado. Bem escolhida. Obrigado Jasmim D'Água.

A.Tapadinhas disse...
Estou a gostar dos Pintassilgos! Não no sentido em que gostava deles quando era criança...
rsrsrs


Razoavelmente novo? Direi que ninguém é suficientemente velho para morrer! Eu, pelo menos, irei morrer irrazoalvemente novo!
rsrsrs

"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada."

Acho fabuloso alguém conseguir tornar interessante uma série de personalidades, considerando a dificuldade que temos em considerar aceitável (mesmo para os amigos!), uma só personalidade.
hehehe

Igualmente fabuloso, alguém efabular sobre essa circunstância e prender-nos, como um pintassilgo apanhado na rede...
:(

"Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Isto disse o Poeta, porque a outra disse que "estar vivo é o contrário de estar morto" (ou seria ao contrário?)
hehehe

As tuas palavras têm visgo...
:)
Grande abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Viva companheiro,

Os pintassilgos, por enquanto, lá vão pardalando, mas tão só para que a sinfonia se forme, à medida que formos dando o ouvido à melodia. Esperemos que encante, porque é para isso que sempre vamos vadiando pelas florestas mágicas onde ainda palpita a tranquilidade de podermos viajar por dentro, mas esperemos também que inquiete que é precisamente o que apetece fazer quando de lá regressamos a este mundo pardacento em que se vai transformando o mundo corrente. E como não temos mais nada para atirar às montras desses quotidianos postiços, vai daí e... Pintassilgada com eles que é o que povo precisa -e não é por estar a pensar na mestria do Hitchcok que os lançamos.
Esperemos assim que a passarada vendavalize que é para tanto que tem as asas.

Vamos ver...

Aquele abraço,

Luís
A.Tapadinhas disse...
Espero que ao menos os pintassilgos apareçam, já que a Ofélia está a desaparecer numa nuvem de heteronimia...
rsrsrs

Abraço,
António
luis santos disse...
Uma boa reflexão essa do Pessoa ter-se cumprido como poeta, contra ser casado. Ou, por outras palavras, mais do que ser poeta ser poema. Ou, mais do que ser um só, simplesmente, ser muitos embora o que ele quisesse mesmo era ser todos. O nada que é tudo, pois claro.

Obrigado também pela música que tem sido de um extremo bom gosto.
Luís F. de A. Gomes disse...
Continuaremos pois a escutar o concerto do Colónia que foi, para meu gosto, excelente e vamos ouvi-lo até ao fim, com as palmas e tudo.

E foi assim companheiro, o homem foi mesmo um poeta, no sentido grego do termo, ele viveu como tal e isso implicaria, de facto, a menos que fosse pateta, a elaboração de uma obra literária, quer dizer, só para isto faria sentido viver como um poeta e é aí que está a dificuldade. Como conjugar isso com uma vida familiar razoável? Eis, neste modo de vida em que vivemos, um problema de sempre. E a solução nunca é fácil e quando é conseguida, pelo menos tanto quanto me é dado ver, estamos normalmente perante casos de sorte, felizmente, não tenho dúvidas em acrescentar.

Pois fico muito satisfeito agora por ele ter sido dado a tomar a opção que tomou e mesmo se esta lhe levou uns quantos bagacitos a mais para o fígado, mas lá está, esse é o nosso egoísmo de leitores que se deliciam com a poética e não só que ele nos deixou.
Para mim e não tenho nem por um lado a pretensão de conhecer o todo da sua obra e muito menos, por outro, de ter um vasto conhecimento da literatura mundial, portanto pelo menos avaliando pelos escassos conhecimentos que possa ter sobre esse domínio da cultura humana universal, diria que para mim é um dos grandes monumentos da literatura mundial de todos os tempos, está no panteão dos maiores, dos mais significativos e representativos do que se escreveu nas mais variadas línguas ao longo dos séculos. A "Chuva Oblíqua", por exemplo, será sentida como bela enquanto houver a nossa espécie de sapiens sapiens; atrevo-me a dizer isto e outros exemplos poderia acrescentar.
E isto sem embargo de não ter nada a ver com a mundivisão em que deu forma a todo esse trabalho e ainda menos concordar com a maior parte dos pressupostos da mesma, mas isso é uma questão de liberdade de pensamento e nunca nada alguém tem a ver com ela e seria uma simples cretinice dela fazer uma referência para avaliar uma obra literária, do Pessoa ou de quem que fosse.
Quem quer que queira fazer qualquer trabalho original no âmbito da literatura em língua portuguesa, não tem como escapar a pelo menos escutar as palavras do nosso Fernando, nosso porque meu e teu, de qualquer, nós portugueses que foi como tal que ele se expressou, mas ainda mais nosso porque de qualquer humano e nessa dimensão de todo o mundo. Ouvindo Pessoa, até um bosquímano será levado a pensar no que está no interior da sua consciência.

É o nosso mais ilustre desconhecido e isso é uma pena. Esperemos que esta conversa possa contribuir para despertar a curiosidade sobre a obra do poeta e pensador que foi o Fernando Pessoa. Se assim for com um único Leitor, darei os meus esforços por saldados e bastar-me-à para me satisfazer com o resultado.

Até lá, aquele abraço
velho companheiro
Luís F. de A. Gomes disse...
Meu querido primo,

O que é isso de atirar o olho à...
Ofélia alheia?!

Aquele abraço,
isto é que está aqui uma roda, também tu, velho companheiro

Luís
luis disse...
Aqui vai mais uma achega para manter viva a chama da obra do poeta e que também me ficou gravada na memória: "Ser tudo de todas as maneiras possíveis", o que, de certo jeito, justifica tanta heteronímia, o que vai dar no mesmo de ser o tal "nada"... Claro que o homem para lá de ser um medium assumido, segundo nos consta, inspirado nas ideias de Hippolyte Rivail (...), também terá andado muito pela filosofia oriental - Bhramanismo, Taoismo, Budismos (talvez tenha sido aqui que encontrou essa ideia de "nada"). Mas não ficou por aí e, ao que parece, O Livro da Serpente trás uma síntese pessoana que o distingue de tudo o resto, autor incontornável da filosofia lusitana, ocidental, mundial, mas ao que se sabe, nunca tenha sido um filósofo no sentido académico do termo.
E fazendo jus à nossa Revistinha aqui deixo um poema da Mensagem (sobre a alma portuguesa), o único livro que o poeta publicou em vida, só para não ter de ir agora ao sótão...

D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Aquele Abraço.
Luís F. de A. Gomes disse...
"(...) autor incontornável da filosofia (...)" (...) "(...) nunca tenha sido um filósofo no sentido académico do termo."

Essa é a dimensão maior da obra do homem e é o que o coloca no Olimpo dos maiores vultos da literatura mundial; ele escreveu filosofia com a sua poesia. Salvaguardo sempre a irrelevância de estarmos ou não de acordo com o seu pensamento e, claro, sem estar a fazer a apologia do que quer que seja. Mas sobre isto não me adianto pois, se a memória não me engana, no próximo post, creio que o recém-chegado à conversa falará precisamente disso. Prefiro que seja(m) ele(s) a di9zer.
Ainda assim, sobre este aspecto, não resisto a lembrar o que li a uma Senhora de um outro blogue –Restolhando- a respeito da universalidade do seu pensamento por via da abrangência das ideias que expressou na sua poesia. Esta troca de palavras sucedeu depois de ter completado e revisto o “Há Pintassilgos…”, embora reconheça que não desdenharia mesmo nada incorporá-la na sequência de ideias que aí se apresentam. Sustenta a Josefa Faias, assim é o seu nome, uma das razões por que o Fernando é tão entendido é o facto de ter expressado sentimentos, sensações, ideias, visões em que muitas pessoas se podem rever. É uma ideia elegante, digo eu, na minha modesta opinião. E atrevo-me a acrescentar que tal decorreu precisamente do facto de ele ter justamente conseguido expressar essa tal reflexão filosófica sobre o Ser, o âmago da nossa humanidade e é aí que reside a sua grandeza literária. Depois há toda uma obra que é vasta e multifacetada e que está aí para que nos possamos deleitar com ela e a partir dela pensarmos no ser que somos, coisa que em todos os tempos a humanidade fará, mesmo que volte a ter que fazer a guerra com os paus e as pedras dos seus primórdios. E por isso Fernando Pessoa está para o futuro com um Esquilo está para o presente e o futuro também pois os universais sempre terão o entendimento de todos os tempos.
Noutros países, depois das teses na Universidade, dos laicos estudos mais ou menos profundos e das mil e uma citações, um monumento como o Pessoa, isto é, uma peça do património cultural –da Humanidade, não podemos esquecer disso- como ele, seria também há muito um direito comercial.

E vamos indo que a propósito desta nossa conversa e daquilo que escreveste e acrescentaste ao que no se vai dizendo no “Há Pintassilgos…”, tive uma nova ideia e vai daí uma homenagem ao Largo da Graça, o original que antecipou os tempos e que foi ideia tua.
À semelhança do que então fizemos ou, para ser mais exacto, ao que íamos fazendo de uns fascículos para os outros, se bem te recordas, quando terminar o texto, acrescentarei um último post com o conjunto dos comentários que forem aparecendo ao longo da história.
Eu até tinha decidido que no último post, e para que ficasse completo, publicaria imediatamente antes um outro em que apresentaria a bibliografia deste trabalho que existe como parte do mesmo no texto original.
Mas agora decidi que depois do post em que se lerá a palavra fim, a combinação com o post da bibliografia será o conjunto de comentários que aqui surjam. É isso que vou fazer e estou a escrever isto como o faria numa nota pessoal, para que não me esquecesse. Dessa forma terminará esta minha colaboração neste blogue –sem prejuízo de que possam haver outras que, de qualquer forma, não conto vir a fazer sem que os pintassilgos batam a asa.

E pronto, com esta decisão termino e deixo aquele abraço
luis santos disse...
D. Fernando
Infante de Portugal

Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um vento frio passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

(In, Mensagem.)
A.Tapadinhas disse...
É isso mesmo! Explica ou define lá isso do anti-moderno.

Espero que também sirva para a minha paixão: a pintura...
:)

Abraço,

Luís F. de A. Gomes disse...
Bem, não seria bonhito se me adiantasse à personagem que, na próxima terça-feira, dará essa explicação.

Mas não me parece que se possa aplicá-la à pintura.
Eis neste útlimo caso um domínio em que pouco mais sou que um simples ignorante. Do ponto de vista técnico sê-lo-ei, de todo e do ponto de vista histórico não andarei muito longe disso. No âmbito daquilo que se poderá designar por teoria da pintura -e nem mesmo estou seguro de ser esta uma linguagem certa e adequada- estou a leste de tudo. Tudo o que possa dizer a esse respeito resulta do facto de gostar de ver e ter visto pintura por esses museus fora e pelas mais variadas exposições de arte que tenho vindo a ver ao longo da minha vida. Nada de baseada em estudo e muito menos qualquer procura com um mínimo fr rigor documental e metológico.
Ainda assim não me parece que entre os pintores e ao nível da pintura que se fez -e aqui restringimo-nos só a este cantinho do mundo que genericamente e só por questões de linguagem de conversação poderemos designar por cultura ocidental, nela englobando as tradições europeias e as que delas resultaram entre as populações de igual origem no novo continente- tivesse havido um movimento artístico que recusasse, por pressuposto e por base de pensamento, o legado da chamada modernidade, isto é, toda a explicação do mundo fundamentada a partir do legado científico. Não sei, mas pelo menos nunca ouvi falar em tal.
A anti-modernidade -salvo seja a expressão- de que se fala relativamente ao Pessoa estabelece-se na recusa expressa dessa tradição enquanto válida ferramenta para entendermos o Homem e toda a problemática que sejamos capazes de colocar a respeito da sua dimensão no Universo. Só isso e não se pode dizer que tenha sido um caso isolado nos contextos da literatura e da produção de pensamento da época. Ora não sei se isso também se passou na pintura e com pintores. Desconheço por completo tudo o que possa haver a esse respeito.
Enfim, como soe dizer-se, não se pode ter tudo.

Aquele abraço, companheiro

Luís


A.Tapadinhas disse...
"Podemos incorrer naquilo a que eu particularmente costumo chamar como o defeito do olhómetro".

Permito-me discordar! Se não tivéssemos esse defeito, seríamos um povo completamente diferente, atrevo-me a dizer, menos importante no contexto universal. Grande parte das nossas conquistas não têm qualquer razoabilidade, digo, preparação científica. E nem estou a pensar, especialmente, nos Descobrimentos, porque nessa altura, éramos mesmo os que mais sabíamos...

O português com essa capacidade mais evidente foi (é) o Camões: via mais com um olho do que outros com os dois...

Muito estimulantes, intelectualmente, os pintassilgos... Quem diria!

Traduzindo para a pintura. Todos os temas são bons para pintar, a diferença está no pintor. Tu pintas ideias!

Grande abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
E no sentido em que discordas partilho a tua opinião, se bem que por formação académica, naturalmente, tenha em conta toda a importância da comensuração e da verificação empírica dos dados e, obviamente, cuide sempre de procurar verificar o sentido de verdadeiro ou falso para as proposições que utilize num discurso e, portanto, seja normalmente dado a ter o tal olhómetro sob vigilância.
Contudo não me parece que seja exactamente nessa perspectiva em que colocas a tua discordância, antes no sentido de ter sido essa uma das maneiras com que os portugas afinal conseguiram atingir certos resultados que, se tivéssemos em conta os requisitos e aparatos científicos para as alcançar, de modo algum se esperaria que eles conseguissem. Inteiramente de acordo com isso e para não irmos mais longe, é simples de entendê-lo se tivermos em conta que afinal até temos cientistas de renome nas mais variadas áreas, da mesma maneira que temos empresas que produzem tecnologia de última geração igualmente em sectores diversos, apesar do ensino miserável que proporcionamos às nossas juventudes. Para além disso, sempre tivemos brilhantes matemáticos -esquece-me aqui, sem recurso à minha biblioteca, o nome de um que se correspondeu com Einstein, por exemplo- e físicos que apenas o nosso nacionalismo pitoresco não é capaz de ver e compreender e em conformidade não destaca. Mas isso deve-se justamente ao facto de não termos na nossa natureza qualquer atavismo que nos inferiorize em relação aos outros povos e, em condições normais, também nós sermos capazes de proezas interessantes. Aliás, creio que isso é para mim a melhor prova da mediocridade e isto para só considerar o plano intelectual do caso, estava a dizer que isso é a melhor prova da mediocridade das nossas elites de poder que, mais que quaisqueres outras, deveriam saber a importância que um bom sistema de ensino tem nas condições que proporciona para que haja um bom banco de cérebros no contexto de uma população; dois séculos depois da aposta que D. Dinis fez na formação -universitária e de carácter prático no que às artes de marear diz respeito, no primeiro caso com a reforma que elevou os Estudos Gerais a Universidade e, no segundo, com a chamada de um almirante genovês para reformar a nossa marinha e tratar do ensino das novas técnicas usadas no sector- lá conseguiram os nossos antepassados um feito que haveria de mudar o mundo e que ainda hoje nos mantém à conversa e que de Portugal fez por mais de um século uma grande potência naval e militar no mundo de então, mas também científica e no plano das ideias em geral -Spinoza é de origem portuguesa, é bom não esquecer- e, no patamar da economia, ao nível do comércio também. Mas isto são pormenores no dizer corrente em que o que mais conta são, como dizem os Valentins Loureiros da nossa tristeza, os assuntos mais importantes e é aí que a massa entra e abafa tudo o que possa estar sobre a mesa, escorrendo sempre para o lado do bolso -só de alguns... Enfim, ganâncias de poucos que cerceiam as possibilidades de muitos e essa é um mal de que não nos temos sabido livrar.

(continua)
Mas aquilo que dizes de Camões é outra prova indirecta do que acabei de dizer e até posso acrescentar mais algumas palavrinhas.
Sem embargo do que referi quanto ao facto de termos tido sempre cientistas que ombreiam com os melhores do seu tempo, a verdade é que por tradição derivada de um trabalho de produção continuada e acarinhada pelos por quem de direito, há muitos séculos que os portugueses estão arredados dos momentos mais significativos da história do conhecimento e isto quer em termos científicos, quer em termos filosóficos. Não é por acaso que, neste último aspecto, os nossos melhores filósofos foram poetas e entre esses, justamente, Camões é um deles. Não entro aqui nem mesmo teria sabedoria para o fazer, fosse onde fosse, na discussão de saber se certos sonetos que tomamos como camonianos são de facto obras de sua autoria ou simples traduções de outros poetas, mormente de Dante e Petrarca; Jorge de Sena, entre outros, chama-nos a atenção para isso. Seja como for, uma peça como “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…” é uma verdadeira síntese filosófica de um modo de ver o mundo e, por sinal, bem acutilante e que permanece moderna, não será assim? E como este, muitos outros exemplos poderíamos encontrar na lírica do nosso Luís Vaz que nos permitem dele dizermos ter sido também um bom filósofo. Coisa que, pelo menos é disso que até aqui o “Há Pintassilgos…” tem tratado, aconteceu com o Fernando Pessoa, para mim, um dos vultos maiores –tal qual o de “Os Lusíadas”- da literatura mundial.
De resto, os nossos pensadores são muitíssimo modestos e não há uma única ideia que deles tenha saído e que se possa dizer, aqui está, um contributo que teve este ou aquele impacto no domínio da moral, da ética, da epistemologia e por aí fora e que veio a abrir novas vias de pensamento em tal área. Temos o Padre Vieira, mais perto de nós um Sampaio Bruno ou um Sérgio e na actualidade um Eduardo Lourenço ou um José Gil mas… Estão à medida da nossa dimensão cultural.
Mas é por isso que apesar destes constrangimentos às suas capacidades, os portugueses até têm conseguido resultados no mínimo interessantes e sem mais que olhómetros para conseguir avaliar as coisas e nesse sentido concordo com a discordância que expressaste.

Quanto ao resto esperemos que a leitura continue a ter interesse que, até que a tarde termine, ainda muita coisa haverá de ser dita e isto não porque eu ache que tenha alguma coisa a dizer a alguém –e ainda menos nos temas que se seguirão e antes de tudo pelos motivos que se compreenderão com toda a facilidade- mas antes por achar que as pessoas não perderão nada em pensar, sentido em que esta conversa pretende ser um convite.

Aquele abraço, companheiro

Luís

A.Tapadinhas disse...
Sabes o que mais me espantou quando comecei a descobrir Pessoa?
???
Foi a sua capacidade de traduzir em palavras que até eu entendia (!) os grandes problemas filosóficos do Ser intemporal.

Não precisava, como acontecia com outros autores, de ler dez vezes o texto, de procurar dicionários e interpretações de especialistas, que em vez de facilitar apenas "complexisavam" o que já era difícil de entender.

No meu blogue, tenho leitores do Brasil, de Espanha e das américas, que sabem quem é Pessoa, o citam e o admiram...

Ele é mesmo universal!

Abraço,
6 de Maio de 2010 11:41
Luís F. de A. Gomes disse...
Como não admirar o que é universal?
E belo, não tenho qualquer dúvida em afirmar, de uma frescura, de uma musicalidade até de uma transparência de imagem que sempre me esmagou quanto o fazem certas pinturas que vejo uma e outra vez e perante as quais sempre tenho a sensação de estar perante algo transcendental. Pessoa, na poesia, foi e continua a ser isso, belo, universal e de uma argúcia ímpar.


E subscrevo o que dizes quanto à sua capacidade de fazer simples o que outros manifestamente têm tanta dificuldade em exsplicar. Aliás, creio que aí reside outra das suas grandezas, se assim posso falar e já aqui falei a esse respeito, citando alguém -Josefa Paias- que me permitiu entender a razão de ser assim; é que ele foi capaz de transmitir ideias, sentimentos, sensações, dores com que muitos humanos se identificam e logo a universalidade, mas a profundidade do escrutínio também.

Infelizmente, entre nós, ainda podemos falar dele como um ilustre desconhecido. Enfim...

Aquele abraço, companheiro

Luís

A.Tapadinhas disse...
"Você repare que o homem ainda vive escravizado pelas questões materiais da sobrevivência...
...e podemos dizer que tudo se resume ao facto básico de os seres humanos terem que ganhar a vida para sobreviverem."
Em que fase estaria a evolução da humanidade se não tivéssemos de dedicar metade do tempo de cada dia à nossa sobrevivência?
Não devemos esquecer que foi dedicando as 24 horas do dia à sobrevivência que chegámos aqui!
:)
Bradbury é mais conhecido pelas suas obras Crónicas Marcianas
(1950) e Fahrenheit 451 (1953). Não sei se és apreciador de fc. Eu sou.
Ele tem um conto (acho que é dele) em que um polícia da Terra é requisitado para ir a um planeta superdesenvolvido para resolver um crime. Essa civilização estava tão avançada que os homens viviam completamente isolados, comunicando entre si só através da televisão. No entanto, apesar disso, um dos habitantes desse planeta apareceu assassinado. Teve de ser um terráqueo primitivo (ainda por cima polícia!) a resolver o crime, acto que não havia memória de alguma vez ter acontecido.
Moral da história: Afinal, aquela sociedade não era perfeita!
Haverá alguma?
Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
Bastante e uma memória que tenho foi o dia que faltei à escola para ficar a ler "A Máquina do Tempo" do H. G. Wells que só fui capaz de abandonar depois de devorada a última linha. Aliás, em jeito de homenagem a essa minha paixão -que ao nível do cinema ainda é maior- tenho até a minha modesta passagem pelo género no âmbito do teatro, com um pequeno conjunto de peças todas elas classificáveis no domínio da ficção científica.

Também eu não acredito em sociedades perfeitas e creio que jamais a Humanidade que somos o conseguirá atingir. Trata-se de um paradigma, mas não temos como o alcançar e isso tão só pelo simples facto de não sermos, nós próprios, seres perfeitos; ora a equação seria, como é que seres imperfeitos conseguiriam dar origem a mundos perfeitos? Parece-me que a resposta tem de recair sobre a impossibilidade.
É digamos, essa a lição da parábola de Babel que, mais do que nos dar o mito da origem das línguas, como agora alguns estudiosos pretendem, parece-me a mim que reflecte precisamente sobre a nossa imperfeição de seres naturalmente condicionados pela contingência do erro.
O que, por sua vez, não quererá dizer que não tenhamos por bom um tal paradigma. Pretendermos atingir a perfeição terá sempre como consequência que tentemos atingir o melhor e isso é bom, é, bem vistas as coisas, uma das principais molas do progresso que os homens têm conseguido desde que a mamãe Eva saiu de África à aventura de colonizar o resto da superfície terrestre.

Mas é assim, o trabalho continua(rá) a ser esse barrote que se nos entalou entre os dentes e não conseguimos remover, pois o problema seria sempre esse, qual a alternativa? E a verdade é que até aqui não existiu e se quisermos ser minimamente sérios, deveremos admitir que aqueles que se esfalfaram na labuta do trabuco foram aqueles que melhores resultados têm conseguido no domínio do respeito pela dignidade que cada um traz dentro de si quando nasce. Lá está, ganharás o pão com o suor do teu rosto...

É claro que hoje em dia vivemos no limiar de um mundo novo, quiçá com a probabilidade de os homens deixarem de ser escravos dessa obrigação de sobreviver, mas isso seria outra conversa que, possivelmente, até haveremos de continuar, mas, por agora, fiquemo-nos por aqui.

Aquele abraço, companheiro

Luís
luis disse...
...quantos homens de elite nasceram de homens comuns? E quantos homens comuns nasceram de homens de elite?

Será que temos todos um antepassado comum como dizia, por exemplo, o Darwin? Ou será que não?

Aquele Abraço,
Luis Carlos
Luís F. de A. Gomes disse...
Pois é, amigo, esse é um dos problemas, "(...) quantos homens de elite nasceram de homens comuns?" e é por isso que são tão importantes os princípios e os mecanismos da justiça social. O(s) mito(s) de um qualquer homem novo nunca deixou de se acompanhar pelas maiores desgraças.

E temos esse antepassado comum, sim, alhures a(s) molécula(s) que ter(ão)á adquirido as propriedades daquilo que convencionamos chamar vida e a partir da(s) qua(is)l explodiu e se expandiu esta maravilhosa aventura em que às páginas tantas aparecemos, mais não fosse para pudermos desfrutar tamanha beleza.
Curioso é saber que toda essa matéria se formou nos cataclismos das fornalhas cósmicas estelares o que de nós faz verdadeiros filhos das estrelas que, por isso, quase se poderiam designar como as nossas antepassadas comuns. Darwin, esse, ficou fascinado quando reparou nisso e só lamentou já não estar entre nós para se espantar na estranheza dos nossos rostos.

Aquele abraço, companheiro
A.Tapadinhas disse...
Tenho andado por outras paragens, a minha mente ocupada (o disco rígido já tem pouco espaço disponível) e, por isso, tenho deixado passar sem comentários os dois últimos capítulos.

Continua em crescendo, diria, o duelo de palavras e de ideias. Não sei como irá acabar ou talvez (quem sabe?) nem acabe...

Não há engenharia genética que nos valha: os pintassilgos, que é o nome vulgar dado às aves do género Carduelis, são mais (bonitos) perfeitos. Hesitei entre os dois adjectivos: um servirá para qualificar a estética outro a função e qualquer deles é aplicável. Quando era moço e andava a caçar pássaros com a fisga, embora lhes atirasse a pedrada, fazia para não lhes acertar! Já sabia que ficava cheio de pena!

Abraço,
António
Luís F. de A. Gomes disse...
E há ainda quem duvide que as conversas são como as cerejas... Afinal tudo começou pela observação a respeito da ousadia de alguém querer escrever uma obra literária, afirmação que, de tão singela, poderia muito bem ter morrido logo ali, com uma simples palavra de anuência.

Por acaso fui armador de pássaros, com o amigo Luís Carlos e o saudoso Chico de boa memória, Francisco José Gonçalves, filho de Belmiro e Branca Gonçalves, gente de coração fundo e cérebro sadio que do trabalho tirou o pão e o agasalho sem alguma vez se curvar perante borrascas e ferimentos na alma e que na vida deixou um rasto daqueles em que florescem cores e húmus que persistem em não fazer mal a ninguém. E sempre de contas direitas que há visões de antanho que permanecem sem prazo de validade. Era na casa dele que tínhamos as ferramentas da arte, no quintal de uma casa térrea de chão acimentado mas já com luz eléctrica e casa de banho própria o que, para a época, representava a melhoria de uma condição de existência que as vicissitudes de um mundo injusto haviam trazido de outro abrigo onde o mínimo do conforto fora assegurado pelo braço determinado dos próprios. Lembro-me como para o Chico foi isso encarado como um prémio merecido de uma vida de trabalho árduo e ininterrupto. E era pois da casa dele que, nem sempre antes do Sol nascer como recomendavam as boas regras, lá partíamos para nos camuflarmos nas ervas e esperarmos que os livres se deixassem enganar com o ardil de uma qualquer coisa melhor, ouvindo o silêncio da brisa e, quando era o caso, das conversas entre as ramadas, tendo os céus por cenário e a erva da lezíria por horizonte. Era esse o preceito e se bem me recordo, junto da concorrência, o Chico gabava-se de ter a melhor negaça do mundo, uma lugra magnífica que era um espanto de ver, até pestanejava o asame sem que do toque da sua mão precisasse e o Chico que era magro de se contar costelas, inchava de gordo quando dizia estas coisas ao Vladimiro ou até entre os homens mais velhos, entre quem convivia nas noitadas de tabernice na sede do Grupo Columbófilo, onde era sócio e concorrente de outros que, por sua vez, diziam possuir os pombos mais rápidos e resistentes de que havia memória. Não ali, em outro local mas que era frequentado pela mesma espécie de gente alpercatada e de calças de ganga calejadas de carregamentos e outros esforços, a taberna do Martinho que já ia em cento e tantos anos de descontos para a caixa de previdência, aí, estava a dizer, houve até alguém que revelou ter um pombo que fazia a viagem ao Porto, com ida e regresso, nuns escassos quinze minutos. Aquilo é que era uma vida.
Infelizmente esse irmão de sempre partiu novo para a Eternidade, mas tenho a certeza que ainda hoje ele andará a pensar como é que se escapou um bando que havíamos conseguido levar à rede e sobre o qual ele aterrou depois de um voo de golfinho para evitar que as redes, vá lá saber-se porquê, não haviam fechado bem, deixassem fugir os pintassilgos que assim se ergueram em mancha e, zombeteiros, pois então, se reencontraram com a liberdade de caírem nas garras de algum gato, para desespero do nosso companheiro. E assim foi e hoje tenho para mim que se tratou de um final feliz, pois apesar de morrer novo, o meu querido amigo Chico viveu como quis.

E com esta memória do Francisco José Gonçalves me vou, não sem deixar aquele abraço

Luís
A.Tapadinhas disse...
Depois de ler o texto, dei por mim a pensar que talvez seja mais fácil tentar provar que Deus não existe!

Se, sendo mais fácil, ainda assim a prova não for concludente, quererá dizer que, afinal, Deus existe, uma vez que o contrário não pode ser provado?

Einstein talvez tenha partido deste princípio para a teoria da relatividade. O princípio absoluto que escolheu foi que nada pode superar a velocidade da luz, o que foi verdade durante muitos anos e hoje já não é. Não sendo verdade, serviu como tal e com resultados muito relevantes para a humanidade.

Exista ou não, Deus faz falta a todos nós, quanto mais não seja, para termos escolha!

Viva a democracia!
rsrsrs
29 de Junho de 2010 10:56
Luís F. de A. Gomes disse...
Sobre Ele não me pronunciarei, pelo menos agora ou por esta ocasião, deixo essas palavras às personagens que seguramente são mais inteligentes que eu e terão, certamente, mais conhecimentos do que eu na matéria.

Já quanto à democracia é isso mesmo, viva ela que sempre nos deixa em aberto a possibilidade de escolher ainda que a realidade não seja assim tão simples, mas isso seria e terá que ser uma longa conversa. Não digo propriamente dito neste espaço das caixas de comentários mas este da blogosfera, será, sem dúvida alguma, uma das praças em que isso pode e deve ser feito, quanto a mim, é claro.
E devo acrescentar que não partilho a ideia de que aquela seja a menos má de todas as formas de regime político pois, quer enquanto isso mesmo, quer enquanto modo de vida e, como tal, expressão civilizacional, sou daqueles que afirmam que a democracia é, apesar de tudo, o melhor dos regimes e a melhor maneira de viver; como não acredito no proselitismo, ressalvo que isso é assim na minha modesta opinião pois aceito que outras preferências sejam justificadas e, não direi igualmente válidas mas acrescentarei, exequíveis (?), se bem que não esteja certo de seja este último termo o mais adequado.

Aquele abraço, companheiro

Luís
Anónimo disse...
A democracia é o regime das maiorias de "tolinhos", incluindo algumas facções (só para não meter tudo no mesmo saco) dos "Super Dragões" e dos "No Name Boys", onde a demagogia ganha quase sempre.
Luís F. de A. Gomes disse...
"A democracia é o regime das maiorias de "tolinhos", incluindo (...)" os anónimos que têm todo o direito a expressar as suas opiniões, inclusivamente de negação da mesma, ainda que o não tivessem nas alternativas que, naturalmente, presumo, pressupõem a total liberdade de expressão.

Quais são as alternativas à democracia? Partimos sempre do princípio que aprender não ocupa lugar pelo que somos todos ouvidos.
Anónimo disse...
caro senhor
a democracia é uma coisa para se ir construindo todos os dias. há-de chegar o dia que deixará de ser democracia para passar a ter outra qualquer designação, como tudo na vida a sujeição à permanência é absoluta. são tantas as alternativas à democracia, não é verdade? umas melhores que outras, de acordo e até poderão vir misturadas. mas preservemos as liberdades enquanto bem a não alienar.
Anónimo disse...
perdão. onde se diz permanência deverá ler-se impermanência.
Luís F. de A. Gomes disse...
Estamos pois esclarecidos.

Muito obrigado por nos lembrar a lei da mudança que está subjacente à matéria e, como tal, a tudo neste Universo em que vivemos.

Aprendemos ainda que a democracia se constrói todos os dias e que, para ela, existem muitas alternativas que "(...) até poderão vir misturadas. (...)"

E ficámos a saber que a liberdade é um bem "(...) a não alienar."

Bem-haja por tanta sabedoria e pela elevada generosidade de a partilhar connosco.

Há que repeti-lo, agradecemos

Luís F. de A. Gomes

terça-feira, 5 de outubro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alberoni, Francesco –ENAMORAMENTO E AMOR
Tradução de Amandina Puga
Bertrand Editora (2ª. Edição), Venda Nova,
1985;
-AMO-TE
Tradução de Cristina Rodriguez e Artur
Guerra
Bertrand Editora (4ª. Edição), Venda Nova,
1997;
-SEXO E AMOR
Tradução de Jessica Falconi
Bertrand Editora (3ª. Edição), Venda Nova,
2007;
Almada Negreiros, José de –TEXTOS DE INTERVENÇÃO
Obras Completas, 6
Editorial Estampa, Lisboa, 1972;
Borges, Paulo –UMA VIAGEM POR FERNANDO PESSOA
Curso Livre sobre a obra de Fernando Pessoa
CACAV, Alhos Vedros, 2009;
Caeiro, Alberto –POEMAS DE ALBERTO CAEIRO
Introdução, organização e bibliografia de António
Quadros
Nota do Editor sobre o organizador e introdutor
Publicações Europa América, Mem Martins;
Campos, Álvaro de –POESIAS
Nota explicativa à primeira edição dos
Editores
Nota sobre o Autor de Fernando Pessoa
Edições Ática, Lisboa, 1978;
Costa Gomes, Luísa –NUNCA NADA DE NINGUÉM
Teatro da Trindade, Lisboa, 1991;
Gomes, Luís F. de A. –A CARTA
In “O Pau”, 03/0/2009
Atirei O Pau Ao Gato, pauga.blogspot,com;
Kirkegaard, Soren –LE CONCEPT DE L’ANGOISE
Gallimard, Paris, 1968 ;
Jay Gould, Stephen –A VIDA É BELA – O XISTO DE BURGUESS
E A NATUREZA DA HISTÓRIA
Prefácio do Autor
Tradução de Ana Maria Pires, Carlos
e Florbela Fernandes e Jorge Pires
Revisão científica de Carlos M. da Silva
Gradiva (1ª. Edição), Lisboa, 1995;
Lévy, Primo –SE ISTO É UM HOMEM
Nota de Abertura do Autor
Tradução de Simonetta Cabrita Neto
Público, Lisboa, 2002;
Marinetti, Filippo –MANIFESTO FUTURISTA
In “Abaciente”
http://abaciente.blogspot.com;
Marx, Karl e Engels, Friederich –MANIFESTO DO PARTIDO
COMUNISTA
Prefácio à edição alemã de 1872 e
à edição russa de 1882, pelos
Autores
Prefácios às edições alemãs de
1883 e 1890 por F. Engels
Tradução sob responsabilidade da
Editora
Sementes, Porto, 1974;


Nietzche, Friederich –ASSIM FALAVA ZARATRUSTA
Tradução de M. de Campos
Edições Europa América, Mem Martins, 1978;
-PARA ALÉM DO BEM E DO MAL
Prefácio do Autor
Tradução de Herman Pfluger
Guimarães & Companhia Editores, Lisboa,
1978;
-ECCE HOMEM
Introdução do Autor
Guimarães & Companhia Editores (4ª. Edição),
1978;
Pareto, Vilfredo –SOCIOLOGICAL WRITINGS
Escolha e introdução de S. E. Finer
Tradução para o inglês de Derick Merfin
Pall Mall Press, Londres, 1966;
Pessoa, Fernando –MENSAGEM E OUTROS POEMAS AFINS
Introdução, organização e bibliografia de
António Quadros
Nota Editorial de António Quadros
Edições Europa América, Mem Martins;
-POESIAS
Nota explicativa da primeira edição por
João Gaspar Simões e Luís de Montalvor
Edições Ática (10ª. Edição), Lisboa, 1978;
-POESIAS INÉDITAS (1930-1935)
Prefácio de Vitorino Nemésio
Advertência de Jorge Nemésio
Edições Ática, Lisboa, 1978;
-O ROSTO E AS MÁSCARAS
Antologia cronológica organizada por
David Mourão-Ferreira
Círculo dos Leitores (2ª. Edição), Lisboa,
1979;
-TEXTOS FILOSÓFICOS (Vol. II)
Textos estabelecidos e prefaciados por
António de Pina Coelho
Edições Ática, Lisboa, 1968;
-PÁGINAS DE ESTÉTICA E DE TEORIA E
CRÍTICA LITERÁRIA
Textos estabelecidos e prefaciados por
George Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho
Tradução dos textos ingleses por Jorge Reis
Edições Ática (2ª. Edição), Lisboa, 1975;
-ULTIMATUM E PÁGINAS DE
SOCIOLOGIA POLÍTICA
Introdução e organização de Joel Serrão
Notas sobre o critério da edição de
Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão e
Joel Serrão
Recolha dos textos de Maria Isabel Rocheta
e Maria Paula Morão
Edições Ática, Lisboa, 1980;
Platão –A REPÚBLICA
Tradução de Sampaio Marinho
Publicações Europa América, Mem Martins, 1975;
Poirier, Jean –HISTÓRIA DA ETNOLOGIA
Tradução de Ivone Toledo
Editora Cultrix, São Paulo, 1981;
Reich, Wilhelm –ESCUTA ZÉ NINGUÉM
Introdução do Autor
Tradução de Maria de Fátima Bívar
Publicações Dom Quixote (10ª. Edição),
Lisboa, 1981;
Reis, Ricardo –ODES
Edições Ática, Lisboa, 1978;
Silva, Agostinho da –NAMORANDO O AMANHÃ
Grafação e Nota de Abertura de
Luís F. de A. Gomes
CACAV, Alhos Vedros, 1996;
Singer, Peter –ESCRITOS SOBRE UMA VIDA ÉTICA
Tradução de Pedro Galvão, Maria Teresa
Castanheira e Diogo Fernandes
Publicações Dom Quixote (1ª. Edição), Lisboa
2008;
Vargas Llosa, Mário –A GUERRA DO FIM DO MUNDO
Tradução de Maria Vitória Navas e Salvato
Teles de Meneses
Livraria Bertarnd, Lisboa, 1984
Vários –OS UPANISHADES
Nota Introdutória dos Editores
Tradução da versão inglesa por Inês Busse
Livros da Vida Editores Ldª., Mem Martins

terça-feira, 28 de setembro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XXIV


-A ciência chama-nos a atenção, dá-nos a entender, põe em destaque a singularidade que é a vida, a irrepetibilidade de cada ser.
-Explique-se melhor.
-Se você verificar as contingências que são precisas que se reúnam para o aparecimento de um determinado ser, percebe que há uma singularidade tão grande, há um conjunto de circunstâncias que se combinam de um modo e um momento tão únicos que não têm qualquer repetição no decurso do tempo. Ora se aplicarmos isso ao ser humano, para que cada um de nós tenha nascido foram precisas a reunião de tantas circunstâncias que só por si nos confeririam a máxima importância. Se a isso acrescentarmos o facto de sabermos que resultamos da reunião de um espermatozóide determinado com um óvulo também ele determinado e que se fosse outro espermatozóide e outro óvulo já não nasceríamos aqueles que somos mas outros, considerando tudo isso verificamos uma singularidade tão irrepetível… Repare que mesmo no limite único da nossa génese, isto é, no acto preciso de que parte a nossa formação enquanto ser vivo, mesmo aí permanecemos nesse domínio da singularidade, do irrepetível, quer dizer, tendo também isso em conta, então não há como negar que a vida, as nossas vidas, são uma singularidade tão grande, são tão irrepetíveis que por si só valem como toda a humanidade e por isso também não podemos deixar de as achar infinitamente dignas e a partir daí também poderemos construir todo um sistema de ideias e valores que se alicerce no respeito pela vida, pela dignidade dos homens que nesse sentido nascem iguais e fraternos por serem membros de uma mesma espécie e, por isso, todos eles, à nascença, infinitamente dignos e merecedores de todo o respeito. Mas ainda há uma outra maneira de aí chegarmos por via da racionalidade científica, se assim podemos falar, desta vez parece-me a mim que pelo lado da filosofia.
(…)
-Sou toda ouvidos.
-Basta que pensemos na morte.
-Na morte?
-Sim.
-O que é que a morte tem a ver com isto?
-Ora bem. Consideremos o ponto de vista materialista segundo o qual não existe qualquer Paraíso e que a morte é pura e simplesmente o fim de tudo. Não existe nada mais para além do derradeiro suspiro de cada um. Há quem defenda isso, não é assim?
-Sim.
-Então, nesse caso, voltamos a ter que considerar tudo aquilo que dissemos a respeito da singularidade de cada uma vida e por via disso do quão cada vida terá que ser necessariamente preciosa. Ela acontece uma única vez, não mais se repetirá e isso volta a remeter-nos para a tal singularidade tão grande que, por si só, nos confere esse tal estatuto de infinitamente dignos.
-É uma observação pertinente.
-Mesmo tendo em conta todo o ror de atrocidades que desde tempos imemoriais o homem tem infligido ao seu semelhante?
-Mesmo tendo isso em conta, é claro e repare que a ciência, uma vez mais, vem em nosso socorro nesse aspecto.
-Como assim?
-É que apesar de, pelas provas arqueológicas que temos encontrado, sabermos que os seres humanos sempre se flagelaram uns aos outros, a verdade é que também se sabe que a natureza humana não é a da concorrência e da conquista e da rapina.
-O que queres dizer com isso?
-Se não é parece, não?



-Mas não é. Os seres humanos viveram a maior parte da sua existência enquanto espécie como caçadores e recolectores e, nessa dimensão, a chave da sobrevivência sempre foi a da partilha e a da cooperação. Mesmo tendo em conta a violência entre os homens desde os tempos mais primitivos, a verdade é que em tal modo de vida que foi o nosso desde as origens e que partilhamos ou herdamos das espécies anteriores das quais evoluímos, como, por exemplo, o homo erectus que, tudo o indica, já seria caçador, em tal modo de vida, dizia, a chave da sobrevivência sempre foi a da partilha e da cooperação e, se tivéssemos alguma natureza, seria assim essa. Portanto, nunca poderíamos sustentar que o homem é, por natureza, concorrente e predador em relação ao seu semelhante ainda que de facto também o seja, quer em relação ao seu semelhante como em relação ao meio envolvente no qual sobrevive. Mas não é essa a característica que lhe garantiu a sobrevivência; essa foi a da partilha. O gesto aparentemente inocente do caçador que chegava ao acampamento e partilhava a carne, da mesma maneira que esse outro gesto de apresentar, para a refeição do dia, aquilo que se tinha recolhido no ecossistema circundante. Foi isso que possibilitou que as populações humanas sobrevivessem e se multiplicassem num meio que, apesar de toda a abundância que a Natureza lhe colocou ao dispor, não deixava por isso de ter as suas hostilidades e naturalmente mortais. Mas foi essa relação de grupo que permitiu aos seres humanos resistirem à fome e ao frio e se, quiséssemos apontar alguma natureza para a nossa espécie, essa seria certamente a primeira de todas. Afinal, é aquela que seguramente se verifica desde sempre. Para além do que sabemos que existem populações humanas que nunca conheceram a guerra que, tal como os Andaman do arquipélago do Sueste do sub-continente indiano, nem mesmo têm uma palavra para designar esse fenómeno.
-Muito curiosa, essa tua observação.
-Mas isso mostra-nos que não estamos condenados e viver em conflito uns com os outros, não é?
-Sim.
-E isto mesmo tendo em consideração que também há povos que vivem sobretudo da caça e da recolecção, como nas terras altas da Nova Guiné e que vivem em quase conflito permanente entre grupos diferentes. Há meio século até, ainda haviam caçadores de cabeças. Mas não é isso que apaga aquilo que disse.
E agora voltando ao Pessoa, é por tudo isto que referi que, em minha opinião, não achei assim tão transcendente o seu ponto de vista da potencial infinitude que cada um tem dentro de si.

O sopro e o arranhar do chão, cascateado numa amaragem fonte de um ondulado aplaudido pelos piares que passam e, no atrevimento, saltitam nas margens, na concomitância do gargalhar da folhagem.

-Vocês não se querem levantar e passear um pouco? Não quererão aproveitar a frescura para continuarmos esta conversa por este sítio tão bonito?
-Por mim, já estou no ir.
-E eu já estou levantada.
-Vamos então.
-Depois de si.
(…)
(…)
(…)
-Diz-se que as conversas são como as cerejas, não é verdade? Mas depende sempre da qualidade das mesmas, não será? Aqui temos daquelas gradas e cheias de sabor. Já repararam onde o nosso Fernando Pessoa nos levou? Não será isso um testemunho, o melhor testemunho da grandeza da obra que nos legou?
-Estou inteiramente de acordo consigo.
-Não nos faltam provas de…


FIM

terça-feira, 21 de setembro de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XXIII


-Ai, agora não posso estar de acordo contigo. Então e nós? Que sentido para nós humanos?
-Não te aflijas, minha cara. É precisamente aí que entra a Fé. A vida do homem tem ou terá o sentido que lhe quisermos dar. É tão simples como isso. E para aqueles que foram tocados pela Fé, eu gosto de dizer para aqueles que foram refrescados pela carícia do dedo de Deus, é para esses que a vida adquire sentido e esse só pode ser o de querer ir ao Seu encontro, estás a entender?
-Sim, visto dessa maneira…
-Ora acontece que é precisamente por em termos factuais não sermos capazes de encontrar qualquer sentido para o Universo e para a vida, é justamente pelo facto de na realidade eles surgirem –salvo seja a expressão, mas aqui para efeitos da conversa serve- é precisamente porque eles nos surgem sem qualquer sentido que lhe poderemos atribuir um determinado sentido. Isto pode parecer um truque intelectual mas não é e até me parece bem fácil de entender; parece uma redundância, mas a verdade é que se houvesse um qualquer sentido pré-destinado para o Universo e a vida, a menos que ele manifestamente fosse o de um desenlace no colo da Eternidade, quer dizer, a menos que ele próprio apontasse então para Deus, a menos que fosse assim, de outra forma não teríamos como poder ser tocados pela Fé. Ela pura e simplesmente não teria qualquer espaço para aparecer. E mesmo que fosse dessa forma, quer dizer, se o Universo e a vida tivessem esse tal sentido que apontasse para Deus, então também nesse caso a Fé não teria qualquer espaço pois ela estaria seguramente implícita, quer dizer, viria gravada, seria uma característica da própria espécie pois, independentemente de tudo o que pudéssemos fazer, o destino final seria sempre esse.
(…)
-Mas ainda para além disso, aí não teríamos qualquer maneira sequer de conceber a própria Fé, pois dessa forma não haveria o livre arbítrio que nos possibilita a escolha ou não em que ela se materializa. Desse modo não seríamos nós que escolheríamos ir ao Seu encontro, digamos que à partida já estaríamos programados para o fazer. Até poderia admitir, por hipótese de absurdo, que pudessem existir universos paralelos em que isso pudesse ser assim. Mas não custa muito perceber que aí estaríamos perante uma realidade completamente diversa desta e sobretudo completamente diferente; os pressupostos da mesma sendo outros, teriam que provocar materializações completamente distintas destas. Digamos que assim, a Humanidade, se é que pudéssemos usar esse termo para uma qualquer espécie que se nos assemelhasse, seria seguramente outra. Tal como a conhecemos, a Humanidade, pura e simplesmente não existiria.
-Estou a entender o que queres dizer.
-Mas desculpe-me lá mas há qualquer coisa que me escapa em toda a sua exposição.
-O quê?


-Então o senhor está a afirmar que nós damos sentido a uma coisa que a ciência, precisamente segundo aquilo que disse, nos diz que não tem sentido algum? Não podemos encontrar aí uma contradição nesse raciocínio?
-Admito que possa parecer assim, mas não há. É sempre a questão de termos a liberdade de irmos ao Seu encontro. Tal como disse, Deus é infinitamente justo e bom e por isso só poderia querer partilhar a Eternidade com alguém dotado da liberdade de escolher ou não ir em Seu alcance.
-Bem, tenho que dizer que continuo impressionada contigo, mas vejo sentido nisso que estás a dizer. Tenho que mais uma vez confessar que nunca tinha pensado dessa forma, mas para ser sincera, tenho que admitir que vejo sentido nisso que estás a dizer.
-Mas há mais e a verdade é que se nós não precisamos de Deus para nada quando pretendemos entender e explicar os fenómenos do Universo e da vida, bem vistas as coisas, também não precisamos Dele para nada para criarmos um corpo de ideias que igualmente nos conduzam è fraternidade entre os homens e, em conformidade, à ideia de dignidade humana e do respeito pela mesma que, por exemplo, podemos encontrar nos Mandamentos.
-Meu caro amigo, isso dito por mim não me causaria a menor admiração, mas vindo de quem disse tudo o que senhor acabou de dizer e até com a eloquência com que o fez, isso já me deixa um tanto ou quanto desconcertado.
-Mas não tem porquê, meu caro senhor e é tanto assim que o meu caro amigo, no contexto da reflexão a respeito do Homem que a ciência nos possibilita e digo-lhe que aqui não estou apenas a tomar em conta as ciências que tratam da vida em particular ou a própria filosofia, estou mais a pensar nas ciências físicas que tratam das leis da matéria e do Universo, nesse contexto, dizia, na reflexão a respeito do Homem que é possível de fazer aí, por via de questões como o lugar do Homem do Universo, o sentido da vida, por exemplo, é possível que nesse contexto sejamos capazes de desenvolver ideias, eu diria mesmo, teoria humanista, digamos assim, através da qual poderemos sintetizar lógicas de pensamento que igualmente nos conduzem ao princípio da dignidade humana e do respeito pela mesma e, nesse sentido, às ideias de fraternidade e paz entre os homens que são, afinal, pedras de toque de qualquer manifestação de pensamento religioso.
-Explique-se lá.
-O senhor veja; para mim a dignidade decorre do facto de sermos filhos de Deus, para falar no sentido em que tu falaste, podemos dizer que, por via da Sua obra, somos Seus filhos e por isso estabelecemos que somos dignos.
-Sim. Eu também partilho essa ideia é precisamente com base na mesma que considero que os seres humanos nascem, de igual modo, infinitamente dignos.
-Você aplica isso mesmo aos maiores criminosos? Como é que o faz?
-Sim, claro, mesmo a esses, até aí pode englobar aqueles que conceberam e executaram a Shoah. O que tanto eu como ela defendemos é que todos somos Seus filhos e aqui jamais poderia haver qualquer excepção. Como poderíamos justificar que uns nascessem com esse dom, salvo seja a expressão, mas serve aqui para a conversa, como é que poderíamos justificar que uns nascessem com esse dom e outros não?
-Não são os judeus que se dizem o povo eleito? Não será isso uma forma precisamente de afirmar isso mesmo?
-Isso do povo eleito é outra coisa, tratam-se de pessoas que aceitaram estabelecer uma Aliança, a Sagrada Aliança com Ele. Mas não tem necessariamente que derivar nessa interpretação que o senhor faz. É claro que isso seria matéria para outra conversa, mas tenho para mim que a ideia de povo eleito não significa ou representa uma posição de privilégio no sentido da que seria se por isso considerássemos o povo escolhido para usufruir dos benefícios da tal Aliança. Muito longe disso. Antes vejo essa ideia como a assunção da responsabilidade de ser exemplo para os outros homens daquilo que será a vida vivida no respeito pela vontade de ir em Sua procura. O povo eleito significa aquele que dá o exemplo de viver na Fé, para sermos mais simples. É uma ideia de humildade, não é um conceito xenófobo e logicamente não teria qualquer sentido que o fosse. Mas isso é, como disse, uma outra conversa.
Para aquilo de que estávamos a falar, o facto de mesmo os maiores criminosos nascerem filhos de Deus, ora o que acontece é que depois, por causa daquilo que fazemos, lá está aquilo que já dissemos da salvação depender daquilo que fazemos aqui na Terra e de mesmo um gentio poder alcançá-la na base da virtude, o que acontece é que depois, ao longo da vida, por causa daquilo que fazem na vida, há aqueles que podem estiolar essa centelha que todos nós transportamos dentro de nós e que em todos está no momento em que se nasce. Mas isso é outro problema. Seja como for, essa é, digamos assim, a forma de conhecimento que o pensamento religioso, o modo religioso de ver o mundo produz a respeito da natureza do homem que, sendo Seu filho, como já dissemos, nasce infinitamente dignos.
-E a ciência?

(continua)