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terça-feira, 7 de julho de 2020

QUANDO PORTUGAL DEU O SALTO PARA O MUNDO


Luís Santos


Agora que estamos perto da execução das obras de Requalificação do Cais do Descarregador, em Alhos Vedros, relembramos que por ali, em 1415, se realizaou o Conselho Régio onde estiveram o rei D. João I, com os seus filhos, a famosa Ínclita Geração, onde pontuavam Infante D. Henrique, o Navegador, e D. Duarte futuro rei de Portugal, masi Nuno Álvares Pereira, condestável do reino, entre outros, e foi dado o "tiro de partida" para a incrível obra que constituiu (e ainda constitui) a Expansão Ultramarina Portuguesa. Faz este mês 605 anos.

Poucos anos depois, no final desse século, o alcochetano rei D. Manuel I, assistia à saída da armada de Vasco da Gama, rumo à Índia, ali no Estaleiro da Ribeira das Naus, na Azinheira Velha, hoje Santo André - Barreiro, então concelho de Alhos Vedros. A Ribeira das Naus ou Feitoria da Telha, funcionava em complementaridade com a Ribeira das Naus de Lisboa, sendo a construção dos navios iniciada no verão em Lisboa, e conclída no inversno na Azinheira Velha, por se tratar de um local abrigado.

Menos de um século depois, Afondo de Albuquerque, neto de Gonçalo Lourenço de Gomide, à época o dono de todos "os direitos, rendas e senhorios de Alhos Vedros", tornava-se Governador da Índia, mandato que exerceu entre 15019 e 1515.

Assim, entre 1415 e 1515(!), os episódios que se podem relacionar entre a região e a Expansão Ultramarina são de facto impressionantes. Mas há mais...

Na foto, o lugar do Estaleiro das Naus, na Azinheira Velha, hoje concelho do barreiro.

quinta-feira, 9 de julho de 2015


Palestra efectuada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 29 de Junho de 2015,
no âmbito das Comemorações do 6.º Centenário da estadia
d’el-Rei Dom João I em Alhos Vedros.

COMUNICAÇÃO

Esta comunicação é uma síntese do power-point que acabámos de analisar. Aquando da preparação de ambos, dei preponderância ao texto do cronista. Estruturei a comunicação em 7 pontos, que enunciarei ao longo da leitura. Como já sabeis, o tema que me foi proposto é

Ceuta, 1415 – o Conselho Régio de Alhos Vedros,
o último antes da partida de Lisboa.”

1. De acordo com José Adriano de Freitas Carvalho, no seu escritoOs Fundamentos Poéticos do Documento. A Propósito de uma Página Exemplar do Leal Conselheiro”, incluído em “Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos”, publicado em 2004 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 385, no respeitante ao Conselho Régio efectuado naquele povoado ribeirinho é dito que consistiu em «uma reunião breve, e com reduzido número de conselheiros (…), sob um alpendre, para dar conta a D. João I do resultado da anterior, em que o rei (…) discorre sobre os empachos levantados
Contudo, tal Conselho Régio veio a revelar-se decisivo, no tocante à partida da frota para a conquista de Ceuta.

2. Quanto à relevância do Conselho Régio de Alhos Vedros, comparativamente aos Conselhos anteriormente levados a cabo, é minha intenção deixar bem clarificadas duas considerações: primeira, ausência de chauvinismo da minha parte, que seria desprovido de total razão de ser na sociedade actual, que se pretende cada vez mais evoluída, corporizada numa realidade multi e pluricultural; segunda, a minha convicção de que o sucesso ou o insucesso na implementação de um projecto, seja ele de que natureza for, advém, indiscutivelmente, da capacidade de liderança (ou ausência dela), mas igualmente do trabalho em equipa, numa imprescindível comunhão de vontades (ou não) que, ao longo do tempo, determinará os consequentes resultados (êxitos ou fracassos). Lendo o relato do cronista, no respeitante ao planeamento da empresa bélica que visava Ceuta, constatamos que, da parte de Dom João I, houve ajuizada liderança, alongada maturação, trabalho estruturado «ca mais de três anos havia, que ele tinha este feito começado».
Nesta comunicação, incorreria numa gravíssima omissão, se não referisse que o Conselho Régio de Alhos Vedros adveio da conjugação de dois factores: um, acidental, isto é, a urgência de garantir a segurança do Rei num local preservado da peste; o outro, a necessidade de ser definido o rumo a dar à empresa norteafricana, que o inesperado falecimento da Rainha embargara. Tratou-se, pois, de mais um Conselho, na continuidade dos anteriores.

3. Previamente informado da irresolução ocorrida no Conselho Régio da véspera, que tivera lugar no Restelo, o Monarca ouviu apoiantes e oponentes da realização da empresa que há anos trazia o reino em frenesim. 
Analisando a Crónica da Tomada de Ceuta, de Gomes Eanes de Zurara, os argumentos a favor eram «que todavia el-rei devia partir, como primeiramente tinha ordenado, porque deziam que tamanhas despesas como já eram feitas, e tais provimentos com tantos trabalhos remediados e buscados, nom deviam assim de passar em vão. Quanto mais, pois aquilo fora movido principalmente por serviço de Deus, se nom devia leixar d’acabar por nenhuma cousa, nem havia hi rezom per que se justamente leixasse de fazer, ca posto que assim a Rainha falecesse, sua morte a tal feito nom devia fazer empacho. Ca a Rainha nom era mais que uma mulher, cuja morte nom trazia outra torva pera seu propósito, somente a tristeza que eles por sua causa filhavam. (…) Quanto mais que a fama deste feito era tão devulgada per muitas partes do mundo, que todos pensavam que tamanho movimento nom podia parar sem cometimento dalgum grande feito. Pelo fim do qual estavam cada dia em esperança de ouvir certo recado. A qual cousa seria mui vergonhosa assim pera el-rei como pera todo o reino, quando soubessem que por semelhante azo o leixavam de poer em fim
Avançando na leitura da narrativa do cronista, aqueles que eram contrários à abalada da frota «acordavam que todavia el-rei por nenhum caso devia partir. Por certo, deziam eles, se vós dezeis que por isto ser serviço de Deus o devemos principalmente de seguir, bem se mostra que Lhe nom praz de semelhante movimento. Por quanto, ante os nossos olhos traz tão manifestos sinais, per que de rezom devemos creer que o nosso movimento é comtrayro de Sua vontade! Que cousa tão maravilhosa pensais, que é o dano que esta pestenemça fez e faz cada dia em tanta boa gente, como per sua causa faleceu e falece? E nom é dúvida, que depois que forem todos dentro nos navios, que se nom acenda muito mais, ca o ajuntamento a fará muito mais acender. E o remédio proveitoso pera ela seria de se espalhar agora esta gente. E é certo que nom poderia tamanho fogo estar muito que se nom apagasse. E se nós agora partíssemos, pode ser que assim como morreu a Rainha, morrerão outras pessoas tais, cujo dano trazerá muito grande perda. Devemos ainda muito recear tamanho dano, como recebemos na morte daquela senhora, porque somente as suas orações eram abastamtes pera nos livrarem de quaisquer perigos. Ca bem mostrou Nosso Senhor Deus sinais acerca da sua morte, per que muito devemos sentir a perda de seu falecimento, do qual nom há nenhum, posto que de pequena condiçom seja, que nom tenha mui grande sentido. Certamente nós lhe mostraríamos sinal de pouco amor, perdendo em tão breve tempo memória de sua morte, nom tomando sequer algum espaço per que o mundo conhecesse o sentido que tínhamos de sua morte. Mas logo assim tirados dos choros de sua sepultura fazermos partida, nom seria bem. E que ainda quiséssemos leixar estas cousas, temos outro mui grande empacho, que é muito pera considerar. E isto é que por azo da doença da Rainha se desaviaram muitas cousas, pera corregimento das quais nom há mester menos de um mês. Pois nós somos agora casi em fim de julho, e quando um mês passasse, seríamos em fim d’agosto, que é já começo do inverno, em que se nom deve começar semelhante feito. É assim que, por todas estas rezões, se deve por agora escusar a eixecuçom desta cousa 
 
4. Uma vez escutados os pareceres divergentes sustentados por cada uma das partes beligerantes, o Rei revelou ser detentor de apurada eloquência e de incontestável sagacidade diplomática, aptidões que lhe permitiram aproveitar, de forma exímia, os argumentos dos opositores, fazendo-os reverter a favor da concretização da empresa, como se pode inferir das seguintes transcrições:
«(…) el-rei ouvidas assim aquelas rezões, descobriu sua cabeça que tinha coberta com seu doo, e disse. Muito me pesa porque em tão boas pessoas é achado nenhum falecimento de fraqueza em semelhante caso. Ca certamente eu cuidara, que posto que eu, por causa de minha grande tristeza, ou por outro algum azo quisera ficar, que eles me constrangeram pera ele, conselhando-me que todavia seguisse minha viagem. Porém, considerando acerca de todollos empachos que eles puseram em minha ida, cuja força principalmente está em estes acontecimentos que se ora seguiram, contando pelo mais forte o falecimento da Rainha que Deus haja. Creendo que o aparecimento destes sinais é mui grande amoestação de nossa ficada, o que eu todo entendo pelo contrayro, porque notório é, que pera prosseguimento de tamanho feito, nom cumpre mais que irmos arrependidos e purgados de nossos pecados, emclinamdo ao Senhor Deus nossas almas, tornando-nos a Ele de todo coraçom, fazendo penitência dos erros passados que contra Ele cometemos, e demandando-Lhe mui humildosamente que nos livre de nossos inimigos, e que Lhe praza dar glória a Seu nome, exalçando a Sua santa fé, quebrantando e destruindo todollos Seus comtrayros com a Sua própria virtude. (…) Porque necessário é, que Deus use das Suas creaturas como Lhe prouver. (…) Pois que sabemos nós, se Nosso Senhor Deus per estas cousas nos quis provar? (…) Certamente eu creo que todas estas cousas que assim acomteçerom, som mais porque Deus per elas nos mostra a çertidom da vitória que o comtrayro (…) e pera nós isto firmemente creermos, ponhamos ante os nossos olhos as maravilhosas cousas que lhe acomteçerom antes de sua morte, pelas quais certamente sabemos, que a sua alma está em bem-aventurado repouso
                        
5. Mais adiante, o cronista apresenta-nos um esclarecedor arquétipo do exercício da autoridade régia. Não nos esqueçamos que, à época, meados da segunda década do séc. XV, a sociedade portuguesa se achava ainda profundamente alicerçada na matriz medieval. Daí que, na resolução de controvérsias de carácter político, a «última palavra» competia, incontestavelmente, ao Rei.
Pela pena de Zurara, sabe-se que o mesmo sucedeu no Conselho Régio de Alhos Vedros, em virtude da urgência da tomada de uma decisão relativamente a Ceuta. É, então, alicerçado em tal prerrogativa, que Dom João I declara peremptoriamente: «porém por todas estas rezões eu determino com a graça do Senhor Deus de seguir todavia minha temçom por Seu serviço. Ca doutra guisa nom me parece que faria o que devo. (…) Pois que assim é, disse el-rei, toda minha detença será daqui até quarta-feira, e depois siga-me quem puder. E vós, meus filhos, tornai-vos logo à vossa frota, e fazei dar a tudo tal aviamento, que quarta-feira, a Deus prazendo, possamos partir

6. Em face do anteriormente referido, dois detalhes dignos de realce que mencionar, os quais, na minha opinião, conferem ao Conselho Régio de Alhos Vedros um carácter sui generis, porque deliberativo: o primeiro, ter sido nesse povoado da «borda-d’água» que, finalmente, foi tomada a decisão de partir para Ceuta; o segundo, aí se ter definido uma data - 23 de Julho, antevéspera do Dia de Santiago - para abalar de Alhos Vedros e rumar ao Restelo, a fim de aprontar o que carecia ser aprestado para a partida da frota.

7. E, para concluir, tenho de confessar-vos um desejo pessoal… Oxalá eu tenha conseguido dar o meu modesto contributo, para deixar bem gravado na memória individual e na memória colectiva que, na segunda metade do mês de Julho, do ano 1415 da nossa Era, ocorreu em Alhos Vedros um facto assaz marcante para a História Local! Todavia, proclamar bem alto, que tal acontecimento, mesmo «contra possíveis ventos e marés», se encontra, incontestavelmente, arreigado na História Nacional!

                                                                     Muito obrigado!

                       Francisco José Noronha dos Santos


(Não é usada a grafia preconizada pelo actual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Fotografias com Música





Noites de Lisboa
D. João I, rei de Portugal, e Castelo de São Jorge

Fotografia de Lucas Rosa
(Clique na Foto)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O luto de D. João I em Alhos Vedros


No passado dia 18 deste mês de Julho do Ano da Graça de 2014 completaram-se 599 anos do falecimento da malograda Rainha D. Filipa de Lencastre.
Sob o efeito de indescritível sofrimento, Sua Alteza, el-Rei D. João, o Primeiro, vai despedir-se de sua amada esposa.
Os filhos aconselham-no a abalar, para não ser vítima da malfadada pestilência.
O Conselho Régio aprova a partida.
Em essa mesma data, Sua Alteza aporta à Vila de Alhos Vedros.

«Senhor, porque semtimos que a senhora Rainha he era tall pomto, que em breue tempo fará fim de sua uida, pareçenos que he bem i5 que uossa merçee sse parta daquy pêra alguúa parte, porque o mall nom aja rrazom de seer mayor, sobreuimdouos alguíía gramde emfirmidade pollo aazo de uosso gramde nojo. O quall com menos pena semtirees nom teemdo amte os olhos a força do caso, porque o auees de semtir.
E bem uos parece, rrespomdeo elRey, que eu aja de desemparar a ssemelhamte tempo huíja molher, com que tam lomgamente niamtiue companhia, por certo hi sse pode seguir quallquer caso que a Deos aprouuer, mas eu per nehuú modo nom partirey dapar delia, em cuja companhia me Deos faria merçee de me leuar pêra o outro mundo. Porque querees uos senhor, disseram os Iftamtes aazar dous muy gramdes malles por uossa estada sem esperamça de nehuú proueito. O primeyro, que semtimdo-uos a Rainha açerqua de ssi, acreçemtarlhees mayor trabalho, quamdo lhe lembrar que ja uos mais nom ha de ueer. Ca posto que a sua uoomtade seia comforme aas cousas do outro mundo, em quamto a alma esta na carne, he necessário que a humanidade rrequeyra o que he de sua natureza. O segumdo he que uos estamdo aqui, he necessário que estees a todos seus offiçios, que a ueiaaes depois de fimda. A quall uista uos trazera aa comsijraçom mujtas cousas, cuja nembramça acreçemtara o uosso gramde nojo, de que sse uos depois pode seguir alguúa emfirmidade que será mujto peor. Porem uos pedimos por merçee, que uos nom apartees daquello que sempre husastes .s. rrezam e comsselho, mayormente sobre cousa tam assijnada.
Pois que assj' he, rrespomdeo elRey comtra o Iftamte Duarte, uos mamdaae chamar todollos do comsselho que aqui ssom, e fallaae com elles, e o que acordardes que he bem que eu faça, isso farey.
E breuemente o comsselho feito, determinaram que todauia elRey se deuia partir dalli, e sse passar aalem do Tejo a huú luguar que chamam Alhos Vedros, como sse de feito partio. Mais daquelle triste espidimento que elle fez da Rainha sua molher, quamdo a foi ueer amte que sse partisse, nom posso eu fallar tamto como deuia, porque a força das lagrimas me embarguam a uista, que nom posso escpreuer, comsijramdo em cousa tam triste, ca sse me apresemta amte a jmagem do emtemder, como o uerdadeiro e leall amor he mais forte cousa daquellas que a natureza em este mundo jumtou. Do quall Sallamam disse no camtar dos camtares que era forte como a morte.»
in CRÓNICA DA TOMADA DE GEUTA POR EL REI D. JOÃO I,”COMPOSTA POR GOMES EANNES DE ZURARA”,
PUBLICADA POR ORDEM DA ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA, SEGUNDO OS MANUSCRITOS N.ºs 368 E 355 DO ARQUIVO NACIONAL. FRANCISCO MARIA ESTEVES PEREIRA


Recolha feita por Francisco José Noronha dos Santos

sábado, 7 de dezembro de 2013

"A Decisão" - D. João I em Alhos Vedros: Considerações Finais


Os acontecimentos narrados são ficcionados, mas assentes em factos reais, concretamente a ida de El-Rei D. João I a Alhos Vedros e a sua permanência no «Palácio de D. Afonso, Conde de Barcelos.» [in “Crónica da Tomada de Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara].

«É conhecida e muitas vezes citada a estadia de D. João I em Alhos Vedros, em 1415, pouco tempo antes da expedição a Ceuta. Segundo a “Crónica da Tomada de Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara), o rei de Boa Memória estava em Alhos Vedros, refugiado da peste que vitimaria sua mulher Dona Filipa de Lencastre. Com ele estava o seu filho D. Afonso, conde de Barcelos.» [in VARGAS, José Manuel (2007). Aspectos da História de Alhos Vedros (Séculos XIV a XVI), Edição Junta de Freguesia de Alhos Vedros]

Também os Infantes da “Ínclita Geração” ali estiveram, a fim de saber qual seria a decisão de El-Rei, quanto à conquista de Ceuta.
Indiscutivelmente, a fazer fé no Cronista, foi em Alhos Vedros que Sua Majestade tomou a deliberação de partir para essa empresa e a transmitiu aos filhos.
Pode haver quem afirme que estes factos não passaram de mera ocorrência acidental, fruto de um conjunto de circunstâncias particulares.
Em parte, estou de acordo com essa visão
Contudo, também não podemos esquecer que a resolução Real tomada naquela terra da borda-d’água, se traduziu na mola incitadora da gesta portuguesa da Expansão Marítima, iniciada no séc. XV, e que tão relevantes consequências teve para Portugal e para o Mundo de então!
Por esse “simples” motivo, será que não merece a pena divulgar condignamente tais factos históricos, tão intimamente incrustados na História de Portugal, na História Europeia e na História Universal? Estou plenamente convicto que sim! Daí este meu singelo contributo.
Onde se terá situado, efectivamente, o «Palácio de Dom Afonso, Conde de Bar-celos»? Terá sido no Largo do Cais? Na Quinta da Graça? Ou, ainda, noutro local diferente destes?
Em termos narrativos, penso ser pouco relevante a problemática de tal localização. Já em termos históricos, considero pertinente que se intensifiquem e se aprofundem as pesquisas, no sentido de se definir a localização exacta desse «Palácio».
No meu texto, opto deliberadamente pela sua localização no Largo dos Cais, tendo como enfoque o Palacete dos Condes de Sampaio – uma construção que remonta ao séc. XVII, portanto posterior aos episódios narrados.
A ser essa a verdadeira localização, é evidente que a estrutura residencial que existiu no séc. XV não é a que hoje está visível. Mas poderá ter sido a partir dessa estrutura mais antiga que, posteriormente, tenha vindo a ser erigida a edificação ainda existente.
Esta minha escolha deveu-se, essencialmente, a uma estratégia narrativa mas assenta, também, no facto de se tratar de uma opção defendida por vários estudiosos.

«No “Guia de Portugal”, de Raul Proença (2.º vol., pág. 638), (...) pode ler-se o seguinte: “Teve aqui um palácio o Conde de Barcelos, D. Afonso e nele se refugiou seu Pai, o Rei D. João I, fugido à peste, enquanto sua mulher D. Filipa de Lencastre agonizava em Odivelas. O palácio veio depois a pertencer aos Marqueses e Condes de Sampayo.”» [in Alves, C., 1992, pp. 38-39]
«O Condestável Dom Nuno Álvares Pereira tinha propriedades nestas terras, e Dom Afonso, filho bastardo de D. João I, Rei de Portugal, tinha Palácio no Porto desta Vila. Dom Afonso casa com a filha do Condestável do Reino e torna-se Conde de Barcelos e, mais tarde, no 1.º Duque de Bragança. Neste palácio dos Barcelos, em Alhos Vedros, o Rei veio refugiar-se da Peste (segundo crónicas da época) que assolava Lisboa e já tinha tirado a vida à Rainha. E juntando os seus filhos na casa do meio-irmão destes (Dom Afonso) deu ordem à ínclita geração para a tomada de Ceuta. Saíram de Alhos Vedros e reuniram-se em Belém antes de partirem para o Norte de África. Este Palácio, hoje, permanece ferido mas de pé, abandonado depois de ter sido usado durante décadas como fábrica de confecções - o Primeiro Palácio dos Bragança.» [in Famílias de Alhos Vedros”, de João Gaspar – http://www.geneall.net/P/forum_msg]
«/…/o Paço Real, situado junto ao cais da vila, local onde se refugiou o rei D. João I para fugir à epidemia da peste, que assolava na altura a cidade de Lisboa, vitimando D. Filipa de Lencastre, sua mulher.» [in Jornal O Rio, 23/04/2009 –http://www.orio.pt/modules/xt_conteudo/index]

Enquanto cidadãos e Alhosvedrenses, compete-nos a todos nós (e a cada um) dar a conhecer estes feitos, e orgulharmo-nos de os mesmos terem ocorrido na nossa terra.
Desafio todos os estudiosos, evidentemente que no bom sentido, a disponibiliza-rem-se para aprofundar as suas pesquisas a propósito destes acontecimentos. Mas que lhes seja, igualmente, feita a devida justiça por quem de direito, e que esses seus trabalhos de investigação tenham os apoios oficiais necessários, assim como uma ulterior divulgação condigna.
Convido, pois, os Poderes Locais a investir ainda mais na recuperação do património construído, assim como a incrementar actividades de animação e de difusão dos factos históricos ocorridos em Alhos Vedros.
Estas iniciativas, a ser implementadas futuramente, constituir-se-ão numa mais-valia cultural (e não só), quer para Alhos Vedros, quer para o Concelho.
Nestes tempos de globalização (desenfreada), que tende a tudo homogeneizar, cada vez se torna mais premente e imperioso o incremento dos valores culturais e dos factos que marcaram épocas passadas. São eles que consubstanciam a herança recebida dos nossos ancestrais, que é nossa responsabilidade legar aos vindouros.
É nestas singularidades que se alicerça e enforma a identidade particular de cada Povo e de cada Nação! 


[SANTOS, Francisco José Noronha dos, A DECISÃO – D. João I em Alhos Vedros – Julho 1415, Lisboa, Sítio do Livro, Lda., 1.ª Edição 2011, pp. 145 – 149]



NOTA DO AUTOR: À data da publicação, a redacção do texto não se subordinou às normas preconizadas pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"A Decisão"


por Francisco José Noronha Santos

Na sequência da minha 'análise' das diferentes 'fontes de pesquisa', o Rei D. João I chegou a Alhos Vedros no dia 19 de Julho de 1415, uma Quarta-feira.
No dia 20, logo pela madrugada, recebeu a 1ª visita dos Infantes que, em seguida partiram para o Restelo.
Os Príncipes voltaram segunda vez a Alhos Vedros, no dia 21, para conferenciar com El-Rei. Aquando dessa segunda visita, D. João I tomou a importante DECISÃO.
Conhecedores da deliberação real, os Infantes e outros membros do Conselho rumaram ao Restelo a fim de tomarem as devidas providências...

Que DECISÃO terá sido essa? Que PROVIDÊNCIAS tinham de ser implementadas?

Durante o dia 22, um Sábado, reinou a azáfama no Palácio do Conde de Barcelos: urgia aprontar a abalada d'El Rei.
Domingo, 23 de Julho de 1415, Dom João, o Primeiro, embarca na galé Real e parte de Alhos Vedros...

Nota do Editor: O livro está disponível na Editora "Sítio do Livro" ( www.sitiodolivro.pt ) e pode ser encomendado pela net. 



Fonte:
«SERRA, Maximiano José da, 1750 (?) – 1834, Planta de Alhos Vedros; levantada por Maximiano Joze da Serra, coronel do Real Corpo de Engenheiros, no anno de 1805; dezenhada por Joze Antonio Mourão, 2.º tenente do mesmo Corpo, debaixo das direcçoens do mesmo coronel, em 1820 Escala 1:2000 1820 1 planta: ms., color; 49 x 64 cm 3105-2A-25-35 (DIE)»

Legenda:
1 – Largo do Cais, ou Largo do Porto.
2 – Estaleiro (dos pais do Toino).
3 – Palácio de Dom Afonso, Conde da Barcelos.
4 – Jardim do Palácio.
5 – Casa de Gonçalo Lourenço de Gomide.
6 – Casa de Ti Julião Moleiro e de Ti Benta.
7 – Taberna e hospedaria do Galego.
8 – Igreja Matriz.
9 – Largo da Igreja.
10 – Praça principal da povoação.
11 – Marinha das Senhoras Comendadeiras de Santos.
12 – Rua Direita.
13 – Cárcere ou cadeia.
14 – Rua dos Pinheiros.
15 – Rua da Estalagem.
16 – Estalagem (dos pais do ).
17 – Quinta da Graça.
18 – Rua Velha.
19 – Rua do Cais.
20 – Quinta de São Pedro.
21 – Esteiro.
22 – Forno de pão (dos pais do Chico).
23 – Marinhas de sal.
24 – Muralha do cais.