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sábado, 11 de janeiro de 2014

UMA MULHER ÁRABE COM ROSTO PRÓPRIO - MAJAM MAHMUD


Urge uma Revolução provocada pela Mulher

Majam Mahmud, que antes preferia ser rapaz porque como mulher não via futuro digno, está orgulhosa do seu género. É uma rapper egípcia de 18 anos e de lenço na cabeça que não tem papas na língua quando fala. Não lhe interessa a política mas a discriminação. Na sua música lematiza temas tabu de uma sociedade medieval. Chama as coisas pelo nome sem os rodeios do oportuno. Enfrenta os problemas da nação; fala sem medo da discriminação da mulher e do assédio sexual na sociedade egípcia. O Ocidente mais interessado na guerra económica do que na justiça individual e social fecha os olhos da guerra dos homens contra as mulheres especialmente nas sociedades da Índia e da África.

Para quando a revolução da Mulher?

Segundo uma pesquisa das Nações Unidas 99,3% das mulheres egípcias indicam terem sido sexualmente molestadas.

Para Majam Mahmud o problema da discriminação sexual no Egipto é intocável porque é declarado tabu e como tal não precisa de leis que condenem o assédio sexual. Quem sofre as consequências cometidas pelos agressores não são os infratores mas as mulheres que depois têm de assumir o desprezo social. Os homens querem que as mulheres sejam graciosas e atractivas mas sem chamar a atenção. A solidariedade masculina não quer ser questionada, nem quer sofrer a concorrência entre homens e por isso a mulher terá de ser a eterna vítima, a culpada do desejo masculino. Este é lei e por isso não se pode questionar a si mesmo. Neste contexto, ser mulher livre é uma provocação. As mulheres calam-se e nas sombras do seu silêncio continua a fermentar a arrogância e a violência masculina. O problema é que o sistema não se muda, quem se muda são as pessoas e só quando estas se mudam, só então se muda o sistema.
 
Numa altura em que ideias revolucionárias já germinam debaixo de cabeças com lenço, há mais motivos de esperança do que qualquer pretensa primavera árabe na sociedade norte-africana.

Majam Mahmud pergunta numa entrevista com o Speigel: “Que se pode esperar de uma sociedade onde o maior objectivo para uma mulher é casar?” Logo a seguir desabafa “Eu realmente acredito que a próxima revolução será uma revolução da mulher.” O problema da sociedade muçulmana mais que um problema religioso é um problema de homens e de cultura árabe cimentada no Corão e na sharia.

A verdadeira revolução está na transformação do espírito. O mundo árabe cairá um dia num caos se não se mudar, mas a mudança só as mulheres a podem fazer através de uma revolução doce ou também agressiva, à maneira de homem. Majam Mahmud é um exemplo muito necessário, uma luz a brilhar e mais que um grito de emancipação é uma voz modelo que grita por libertação do chauvinismo masculino com a sua consequente violação. A música é um dos melhores instrumentos para se transmitir uma revolução.

Deveria haver direito a asilo mais liberal para as mulheres perseguidas por razões de cultura ou religião. Se observamos as mulheres vítimas do exílio político observa-se, porém, que trazendo os homens consigo não há possibilidade de libertação individual.
É um facto sociológico que, de uma maneira geral, os homens não querem mudar-se preferindo continuar a viver ao abrigo das leis naturais que perpetuam o domínio do mais forte. A cultura árabe, fruto de uma geografia agreste, continua na elaborar as suas leis positivas com base na cópia da lei natural. (De não descurar que a cultura ocidental tem outras formas de discriminação, muito embora mais suave).

Aqui temos a ver com uma cultura misógina bárbara onde, sob a capa do islão, se dá continuidade à discriminação das antigas sociedades de clãs primitivos. (Temos porém que estar atentos na avaliação porque muito do que acontece sob a capa das religiões são costumes ancestrais nómadas da cultura árabe.)

Se se pretende um desenvolvimento são e sadio a discussão terá de ser feita em termos de sociologia e de antropologia. De facto a velha cultura egípcia tem elementos muito mais desenvolvidos do que lhes foi posteriormente imposto com a hegemonia da cultura bérbere árabe. Uma discussão fora destes moldes corre perigo de, sem notar, levar a água ao próprio moinho! O que está aqui em causa é a relação e a integração da feminilidade e da masculinidade na pessoa independentemente do ser homem ou mulher!

Há quem critique Majam Mahmud por trazer lenço na cabeça, um símbolo da repressão; estes esquecem porém que ela pode assim alcançar melhor um público conservador de mulheres que de outro modo não atingiria. Também há que estar-se atento na luta da emancipação para se não cair em movimentos emancipatórios baseados em princípios masculinos, como por vezes acontece no ocidente.

Uma sociedade patriarcalista que segue unilateralmente os vestígios de Abraão só poderá ser mudada com a mutação progressiva da mulher e só esta poderá constituir a base de uma verdadeira revolução.


António da Cunha Duarte Justo



sábado, 27 de abril de 2013

Os caminhos do espírito



A Tradição Islâmica

Tradição fundada por Maomé (570-632). Maomé nasceu em Meca, o centro espiritual do islamismo.
Durante um dos retiros espirituais que Maomé costumava fazer nas cavernas dos Montes Hira para orar e meditar, foi visitado pelo Anjo Gabriel que lhe anunciou ter sido escolhido por Deus como o último dos profetas da Humanidade.
Gabriel aparece suspenso na posição de lótus, estende-lhe o Corão, o livro sagrado do islão, e pede-lhe que ele o recite. Na tradição oral diz-se que Maomé foi levado pelos anjos numa viagem ao Paraíso, onde viu os diferentes níveis de existência (planos infernais, intermédios (purgatório) e divinos).
Allah (Deus), já é referenciado pela cultura árabe politeística, anterior a Maomé, sendo considerado como o Deus supremo. Maomé, como diz Mircea Eliade, em “História das Crenças e Tradições Religiosas”, (…) vem dizer que não há Deus senão Deus, e que só Ele é digno de ser cultuado, tirando realidade ao homem e ao mundo. A criação é uma teofania e toda a criatura é uma manifestação de Deus.
Maomé funda, então, uma nova tradição religiosa assente em cinco regras fundamentais:
1)    Shalat – oração quotidiana cinco vezes por dia, virados para Meca.
2)    Zakât – esmolas legais para benefício de todos.
3)    Sawn – período de jejum durante o Ramadão
4)    Hajj  - peregrinação a Meca, pelo menos, uma vez na vida, com exceção para os que não têm recursos.
5)    Shahâdat – Só há um Deus e Maomé é o seu profeta.
Existe um islamismo esotérico (interior) que passa só pela oralidade, reclamado pelos Sufis como vindo diretamente do Profeta. Sustentam que as revelações visionárias de Deus não são credíveis, mas sim as auditivas. Este princípio que, de alguma forma, desacredita a experiência de Moisés sempre lhes trouxe alguns problemas...
Os Sufis (os sábios) usavam roupas muito pobres que consistiam nuns bocados de tecidos cozidos uns aos outros. O Sufismo é a entrada no comportamento exemplar que consiste em morrer para si e viver em Deus (ver Sufismo, de Carl W. Ernst, Edições Chambala).
Já os dançarinos Dervishes rodopiam (numa oração integral com o corpo, a alma e o espírito) até entrarem em transe, de forma a chegarem a Deus. Segundo eles, a dança constitui a forma mais rápida para aceder ao divino. Esta importância que se dá à dança acontece igualmente noutras culturas.
Uma última nota: O conceito de Jihad (esforço que se deve fazer para chegar a Deus – “guerra santa”), não tem uma interpretação exclusivamente violenta. Para os Sufis a Jihad é para ser feita contra si próprio, contra a não submissão a Deus que existe em cada um.

Carlos Rodrigues

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A herança islâmica portuguesa

"A presença árabe-muçulmana na Península Ibérica alargou-se por vários séculos e influenciou a civilização portuguesa, no período decisivo em que se definia o seu ser cultural” (Antônio Dias Farinha, 1986)

O povo português assimilou a influência de diversas culturas - romanos, árabes, judeus, visigodos e outras. Vale a pena analisarmos estas heranças para compreendermos a atualidade e o futuro dos povos que conviveram com os portugueses na formação das suas identidades. Foi o que aconteceu por séculos com a presença árabe-muçulmana ma Península Ibérica.

A compreensão desta herança começa pela necessidade de entendermos que a mensagem religiosa do Islão teve como mentor o profeta Maomé, numa transmissão, a partir da escrita e da sua própria interpretação, profundamente basilar à civilização arábico-muçulmana, difundida, ao pormenor, pelos fiéis de Meca, Medina e da região da Arábia Central. A primeira biografia do Profeta é a interminável coleção de importantes tradições, compiladas em Medina por Muhamad Ibne Ishaq. As suas revelações iniciaram-se cerca do século VI da era de Cristo, no vale rochoso de Meca. Um tradicionalista ortodoxo menciona que, ao chegar o momento da Oração, o Profeta, por hábito, saía e dirigia-se para os vales da cidade. A tradição aponta o Anjo Gabriel a anunciar a Maomé que fora escolhido como o enviado de Deus. Alî, filho de Abû Talib, tio do Profeta, fora o primeiro homem de que há notícia a acreditar no enviado do Senhor, rezando com ele e aceitando a sua mensagem.

Quando Maomé faleceu, Árabes, Muçulmanos e Persas, de crença ecumênica e de espírito missionário, disseminaram-se por vastas áreas habitadas, distintas na sua cultura, civilizações herdeiras da cultura clássica, pela qual os islâmicos se deixaram também influenciar. A mutação da capital político-religiosa, primeiro em Medina, depois direcionada a Damasco e ainda a Bagdade, ao longo de dinastias omíadas e abássidas, provoca uma perda da referência de cultura dos primitivos centros islâmicos e de matriz do Islam clássico. Não obstante, a civilização islâmica não deixa de ter todo um conjunto de saberes único e genuíno.

A mentalidade religiosa muçulmana tem um caráter universalista, sem perder a referência às doutrinas de Maomé, valorizando o modelo da Umma, do Islão, da comunidade de crentes, como a organizara e dirigira o Profeta nas cidades de Meca e Medina.

A propósito, escreve Antônio Dias Farinha: o quadro mental do muçulmano forma-se a partir do ensino do Livro Sagrado aos jovens, desde a infância, e da obediência aos mandamentos e deveres religiosos codificados na Sharîà, ou Lei islâmica, aplicada pelos qâdis e respeitada pelos chefes políticos”.(1985)

Na sociedade muçulmana observa-se que os Árabes fixaram-se nas cidades, reunidos em bairros distintos, bairros esses nomeados pelos nomes de cada tribo ou família. Além da própria sociedade islâmica provocar esta antítese, as chefias políticas também refletiam esta oposição cidade/campo.

A arte muçulmana encerra em si um conjunto de manifestações artísticas, correspondentes a diferentes graus de evolução da sua cultura, numa civilização que se expandiu por um vasto território, tendo sido o seu factor de unidade a religião. Desta feita, a arte islâmica em Portugal corresponde a um dado momento da evolução civilizacional muçulmana, interagindo com um povo, cuja cultura era totalmente distinta e, principalmente, atendamos, no setor religioso que comandava a vida de ambos os povos: os Árabes e os Portugueses. Este fato é deveras compreensível, até porque os Muçulmanos entraram no nosso território, com o objetivo de invadi-lo e usurpá-lo aos Visigodos (710-716). Apesar da conflitualidade, a arte foi, de certa maneira, bem aceite e facilmente assimilada pelos moçárabes, deixando os seus vestígios e influências. Como se esperava, a arquitetura (religiosa) islâmica, com a “Reconquista”, foi, em grande parte, cristianizada, destruída e profanada, num impulso vingador contra aqueles que o Islão tinha como infiéis.

O fenômeno cultural islâmico caracteriza-se pela sua assimilação, criação e difusão de determinadas formas artísticas. No campo decorativo, basta atendermos à lindíssima escrita árabe, cujos textos originais eram decalcados na íntegra ou por partes nas paredes, pintadas ou ornamentadas com relevos belíssimos. Tanto bastava para a decoração. Ou ainda com azulejos reproduzindo partes de textos ou com motivos geométricos de belíssimas cores

Um dos mais importantes contributos dos Muçulmanos foi o surgimento de um novo urbanismo e uma outra arquitectura trazidos para a Península Hispânica e, no nosso caso específico, sobretudo para o Centro e Sul.

Entre as cidades portuguesas islamizadas e que ainda, após século sobre séculos, são capazes de revelar alguns destes elementos aqui trazidos a lume – o seu castelo, materiais de construção, solidez militar e decoração -, contam-se Alcácer do Sal, Évora, Lisboa, Mértola, Santarém, Sesimbra, Óbidos, Palmela, Silves e Sintra, como as mais sintomáticas. Atendamos às suas muralhas e aos espaços da cidade.

Esta civilização caraterística do Sul da Europa e do Norte de África, nas zonas periféricas, teve uma extrema relevância na época. De uma importância no alargamento do saber, pelas tradições islâmicas - que não podemos considerar mais fechadas na sua evolução e áreas do que as cristãs, proibidas de serem explicadas e veiculadas para o Exterior, segundo regras rígidas da Igreja Católica -, temos o caso de Toledo, um brilhante centro cultural e intelectual, retirando-se ensinamentos no ensino do quadrivium, pondo em destaque a Álgebra e a Medicina, entre outras áreas do saber.

Ao nível da tipologia da cidade, a urbe ibérica recebeu influências diretas da tipologia urbana istâmica.

Ao nível linguístico, o contributo revelou-se interessante, na toponímia, nos vocábulos islamizados e em novos substantivos introduzidos no nosso léxico. Nos mais variados setores, a influência islâmica infiltrou-se, até na própria culinária. Contudo, alguns aspectos desta aculturação foram apagados por vários vectores, entre eles o militar e cultural tradicional, obra da “Reconquista” que fora, naturalmente a grande causadora da destruição da arquitetura religiosa islâmica.

Margarida Castro
19.06.11

Adaptado do estudo “Portugal e o Islão na Idade Média”, por João da Silva Sousa, in http://www.triplov.com/letras/Joao_Sousa/islao/index.htm