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sábado, 3 de maio de 2014

Cavalinha


por Miguel Boieiro

Pela grande variedade de solos a que se juntam diversos microclimas, o nosso País pode justamente considerar-se uma das reservas mundiais da flora medicinal, dado que dispõe de ótimas condições para a produção de variadíssimas espécies. Daí que muito dificilmente se possa compreender que se importem determinadas plantas medicinais e seus extratos, de países onde, por vezes, é necessário criar condições artificiais de produção.

Sobre a planta medicinal que iremos abordar, podemos afirmar que só o concelho de Sesimbra possui, espontaneamente, quantidade suficiente para abastecer todo o mercado europeu. E isto de uma forma absolutamente natural: não é preciso semear, nem adubar, nem sachar, basta simplesmente colher.

Estamos a falar da cavalinha ou Equisetum arvense L., planta vivaz da família das Equisetáceas que teve a sua origem em épocas geológicas muito recuadas. Esta planta primitiva, autêntico fóssil vivo, não floresce, não possuindo, portanto, sementes. A reprodução processa-se através de esporos contidos nos esporângios que se encontram agrupados na espiga com que termina o primeiro caule da planta. Feita a dispersão dos esporos, os caules primitivos, de cor acastanhada, murcham. Nascem então outros caules verde claros, canelados, ocos e ramificados que se dividem em segmentos separados por pequenos nós. Os segundos caules, estéreis, que chegam a atingir mais de um metro de altura, são os que possuem atributos medicinais.

A cavalinha propaga-se com muita facilidade em solos arenosos e húmidos, constituindo uma erva daninha, flagelo dos agricultores. Deve ser colhida no verão e seca à sombra. Depois de cortada em pequenos troços, convém guardá-la em recipientes herméticos. Conserva as suas propriedades durante alguns anos.

Os naturopatas são unânimes acerca das extraordinárias virtudes curativas da cavalinha, a qual contém potássio, ferro, sódio, magnésio, enxofre e sobretudo, silício. O famoso naturista Kneipp considerava a cavalinha, uma das doze plantas medicinais mais incontornáveis e recomendava-a para o combate às seguintes enfermidades: gripes, catarros, resfriados, reumatismos, gota, hidropisia, ciática, inchações, herpes, cárie, pés gretados, hemorroidal, cálculos, doenças dos rins, fígado, baço e bexiga, hemorragias e cancro. É na realidade uma lista impressionante mas ainda assim, incompleta. O espanhol Ferran Comas aconselha-a para o bócio, as inflamações oculares e a tuberculose. O médico chileno Lazaeta Acharan gaba a sua eficácia extraordinária na cicatrização de todo o tipo de feridas.

A rapidez com que estanca qualquer hemorragia é espetacular. Também não parece haver dúvidas de que a cavalinha limpa as impurezas do organismo, essencialmente por ação do silício solúvel de que é bastante rica.

O modo mais divulgado para beneficiar dos princípios ativos da Equisetum consiste em preparar uma infusão deixando ferver a planta pelo menos dez minutos. É conveniente não coar de imediato, pois a cavalinha continua a libertar princípios ativos após a fervura. O “chá” torna-se assim mais concentrado, o que se constata pela sua cor avermelhada. Para meio litro de água são necessários 50 g de cavalinha seca. Se for em verde há que duplicar o seu peso. O “chá” de cavalinha possui paladar discreto mas agradável e não apresenta contra-indicações.

A utilização do concentrado da cozedura da cavalinha para juntar à água do banho dá também bons resultados. Para males respiratórios aconselha-se a aspirar o vapor da cozedura da planta. Da cavalinha fresca pode extrair-se o respetivo suco, que é a melhor maneira de se aproveitarem as suas excecionais propriedades. Infelizmente, importamos este extrato da Alemanha a preços altíssimos.



Enfim, há ainda quem recomende misturar os rebentos tenros nas saladas cruas, ou usar o pó para temperar a comida já que a cavalinha é, comprovadamente, um óptimo remineralizante.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Lúcia-lima


por Miguel Boieiro

A maltinha nova da minha geração tinha por costume intercalar cheirosas folhas de lúcia-lima entre as páginas dos livros para aumentar o prazer das leituras. As folhinhas secavam facilmente e reforçavam o seu característico perfume. Juntava-se assim o útil ao agradável.

Na verdade, a Aloysia citriodora, também popularmente conhecida como bela-luisa é uma das plantas mais aromáticas que conheço e, não fora só por isso, deveria ter sempre lugar permanente nas hortas e quintais dos cidadãos mais atilados. Com ela prepara-se uma infusão deliciosamente aperitiva que não precisa de açúcar e serve, às mil maravilhas, acompanhada por umas fogaças à moda de Alcochete (passe o chauvinismo), para confecionar um requintado lanche, particularmente quando recebemos visitas, mas não só.

Este pequeno arbusto caducifólio da família botânica das verbenáceas veio da América do Sul, tendo sido introduzido na Europa no século XVII. Adaptou-se rapidamente ao nosso clima e consegue resistir às geadas desde que elas não sejam muito agrestes. As suas folhas, que caem no inverno, como já se anteviu, são lanceoladas, quase sésseis (pecíolo curto) e algo rugosas com coloração verde amarelada. As flores são brancas e muito pequenas, agrupando-se em espigas. Os frutos formam minúsculas drupas mas, jamais as vemos no continente europeu. Consequentemente, a reprodução processa-se mediante estacas já devidamente enraizadas que se separam da planta mãe.

A lúcia-lima é estimulante do apetite, digestiva, antiespasmódica, antifúngica, febrífuga, emenagoga, relaxante do sistema nervoso, sedante, hipotensora e carminativa.

Com tantas propriedades, não admira que seja uma das plantas medicinais mais estimadas.

Possui um óleo essencial algo complexo onde foram detetadas mais de cem substâncias. Destas destacam-se o citral, o limoneno, o eucaliptol, o pineno e o cariofileno. Contém também taninos, flavonóides, melatonina e mucilagens.

É indicada para situações de ansiedade, transtornos digestivos (dispepsias, digestões pesadas, flatulências superiores), menstruações dolorosas, cólicas renais e biliares. Por possuir melatonina que é um relaxante natural, por vezes mais eficaz que os tranquilizantes químicos e sem os efeitos secundários desses fármacos, torna-se excelente para combater as insónias.

O “chá” é muito simples de fazer: basta ferver, durante três minutos, 30 g de folhas secas num litro de água e tomar bem quente após as refeições ou ao deitar. Devido ao seu sabor muito aromático e adocicado, convém parar após cinco dias e retomar a tisana uma semana mais parte, porque, com a continuação, ela torna-se um pouco enjoativa.

No Perú, um dos países de origem desta verbenácea, fabricam, a partir das respetivas folhas, uma bebida gasosa muito agradável, cuja comercialização local chega a suplantar a da coca-cola.

Naturalmente que a lúcia-lima é também plantada como apreciado arbusto ornamental e odorífero nos jardins de todo o mundo de climas tropicais e temperados. Ela prefere uma boa exposição solar e solos húmidos bem drenados e levemente argilosos. Uma das características mais interessantes no que respeita ao seu cultivo é o facto de medrar satisfatoriamente no meio de outros vegetais (planta fitófila).

Tal como a erva-príncipe, também a lúcia-lima pode ser usada na gastronomia, conferindo aromas cítricos aos molhos, marinadas, saladas de frutas, gelatinas, etc.

Por fim, há que referir o seu emprego em produtos de cosmética e perfumaria. Segundo “La Beauté par les Plantes” da conhecida editora Gründ, o odor fresco da “verveine  citronnelle” perfuma os sabonetes, as loções capilares, as brilhantinas e os “batons” para os lábios das “madames”.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Setembrista


por Miguel Boieiro


Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.

A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.

Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.

O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.
Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.


A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.
Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.
O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.

Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.

sábado, 22 de março de 2014

Serpentina


por Miguel Boieiro

Felicito vivamente Teresa Perdigão pelo seu excelente livro “Serpentina – Uma Tradição de Raiz”. Igualmente parabenizo a Junta de Freguesia de Ribeira Chã (Ilha de São Miguel, Açores) pela edição da obra e pelo seu labor na defesa e divulgação das tradições e, em especial, da gastronomia popular da região.

Humildemente confesso que a planta que a seguir irei discorrer, jamais afluiu à minha mente no âmbito das pesquisas que venho efetuando, mormente no tocante à fitoterapia e às espécies silvestres comestíveis. Foi a antropóloga Teresa Perdigão quem um dia despertou a minha atenção para a farinha de serpentina e mais tarde consolidou o meu interesse quando me ofereceu o seu livro.

Pasme-se porque a farinha de serpentina vem de uma planta toda ela venenosa e nunca me passou pela ideia que tivesse algum préstimo. Mais uma vez opino convictamente que todas as plantas são úteis, só que algumas foram esquecidas e noutras ainda não se determinou a sua utilidade.

Ora, com a devida vénia, vou então abordar a Arum italicum, planta perene, julga-se que oriunda da região mediterrânica, conhecida popularmente por jarro dos campos. Pertence à família botânica das aráceas que engloba mais de cem géneros e três mil espécies, quase todas ornamentais pela beleza das suas grandes e lustrosas folhas e originalidade dos apêndices florais. Com fins alimentares são mais conhecidos o inhame, Colocasia esculenta (tubérculo) e, residualmente, a costela-de-adão, Monstera deliciosa (fruto).

Convém desde já explicitar que no respeitante aos jarros, ou seja, ao género Arum, a “Flora Portuguesa” de Gonçalo Sampaio aponta apenas duas espécies espontâneas em Portugal: o Arum maculatum e o Arum italicum. Proveniente de África naturalizou-se também no nosso País, como flor ornamental, o Zantedeschia aethiopica, conhecido por “jarro-de-jardim” ou, mais identificadamente por “copo-de-leite”, como é conhecido no Brasil.

Todos estes jarros são parecidos e todos eles são tóxicos, principalmente as bagas que constituem os frutos. Os dois primeiros aparecem nos campos em zonas húmidas e pouco se distinguem um do outro. Lembro-me de que em tempos da minha meninice, quando faltava a comida para os animais, se colhiam as folhas dos jarros que, após cozidas, se davam aos porcos. Estas plantas possuem um sistema de polinização muito sofisticado. A inflorescência é composta por um espadice branco ou esverdeado que protege a verdadeira flor. No interior do espadice surge um atraente espigão amarelo que tem na base flores femininas e mais acima flores masculinas separadas por um conjunto de filamentos. Quando as flores femininas estão recetivas, a temperatura aumenta e é exalado mau cheiro que atrai insetos (moscos). Estes entram à procura do “pitéu” e ficam aprisionados durante 24 horas, enchendo-se de pólen. Passado esse tempo, os filamentos murcham e os moscos podem então sair para fertilizar outra planta. Para resultar, a polinização tem que ser cruzada, isto é, embora a planta agregue os dois sexos, eles não se fertilizam na mesma unidade. A fim de que tudo dê certo, as flores masculinas e femininas produzem os seus pólenes em espaços e tempos diferentes.

Centremo-nos no italicum, embora me pareça que o rizoma do maculatum pode ter também idêntico aproveitamento para se elaborar a tal farinha de serpentina. Um dia hei-de experimentar!

Diz Teresa Perdigão que a serpentina é colhida quando a “vela” (espigão) desponta, por volta do mês de março. Arranca-se a raiz, formado por socas que, depois de limpas das raízes pequenas, são lavadas. Logo após são cozidas com água e sal a que, por vezes, se adiciona uma erva aromática (funcho, por exemplo). Escorrida a água da cozedura pode-se comer, uma vez que a toxina (oxalato de cálcio) fica eliminada. Para fazer a farinha o processo é mais complexo. A serpentina é ralada para dentro de grandes alguidares com água. Muda-se a água várias vezes no mesmo dia e em dias sucessivos para retirar uma espécie de farelo. Finalmente, a farinha, que vai ficando cada vez mais branca, está pronta para utilizar. A autora apresenta várias receitas, com boas fotografias, incluindo papas, pudins, gelados, bolos, cremes e pratos de carne e de peixe.

Anote-se que a farinha de serpentina, muito usada na ilha de São Miguel em tempos de penúria alimentar, chegou a ser comercializada e exportada para o continente, sendo vendida nas lojas do Jerónimo Martins. Na respetiva embalagem comercializada, respigámos as seguintes frases encomiásticas:
Um caldo de serpentina não é apenas um alimento de alto valor nutritivo e fácil digestibilidade, mas um verdadeiro doce que se aprecia com prazer.
Conclusões da análise do Prof. Charles Lepierre:
Farinha tipo fécula de composição normal, bem preparada, semelhante à da “arrow-root”. Pode entrar na alimentação corrente. Poder alimentício – 3.500 calorias por quilograma.

Para terminar, refira-se que, segundo alguns autores, também em fitoterapia os jarros do campo têm utilidade uma vez que as raízes possuem virtudes expetorantes, podendo ser utilizadas no caso de afeções das vias respiratórias.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Rábanos e Rabanetes


por Miguel Boieiro

Os compêndios consultados dizem que o rábano não se encontra espontâneo e tampouco se conseguiu determinar a sua região de origem, embora seja claramente oriundo dos climas temperados. O facto é que ele nasce espontaneamente no meu quintal. Não preciso de o semear porque, na altura própria, ou seja, quando aparecem as primeiras chuvas do outono, começo a ter fartura de nabiças. Com o decorrer do tempo, ganha uma raiz grossa e carnuda, floresce e dá sementes que se espalham pelo terreno. Depois, só é preciso efetuar desbastes e mondas, assentando nos princípios da chamada permacultura.

Este rábano de que vos falo, também conhecido por rabão, nabo-chinês ou nabo-japão, dá pelo nome científico de Raphanus sativus L. subsp. Longipinnatus. Vejamos: “raphanus” vem do grego e significa crescimento rápido, “sativus” provém do latim e significa que a espécie é cultivada e “longipinnatus” refere-se às folhas que são longas e recortadas. Outra espécie afim é o rabanete - Raphanus sativus L. var. radicula. São ambas plantas da utilíssima família das crucíferas com praticamente os mesmos constituintes químicos e semelhantes usos culinários e fitoterapêuticos. Ao efetuar consultas, quer pelos livros, quer pela internet, depara-se com alguma confusão porque há quem as considere o mesmíssimo vegetal. Todavia, quando adultos, apresentam-se fisicamente bem diferentes. Os rabanetes, embora “não indo à mesa do rei”, como se apregoa num fado popular, são bastante mais conhecidos. De ciclo anual, apresentam-se pequenos, redondinhos e vermelhinhos (espécies mais comuns) e entram na decoração de diversos pratos. Por sua vez, os rábanos são bienais, bem maiores, a pele da sua raiz é mais rosada e o sabor mais picante, já que possuem compostos sulfurados em maior quantidade. Podem alcançar quase meio metro de altura, têm raiz pivotante, folhas alternas e flores rosadas hermafroditas. As sementes, de cor castanha, ficam encerradas em silíquas aguçadas.

A textura da raiz é crocante e picante, cujo ardor se reforça com a falta de água.
Eis os principais constituintes do rábano: heterósidos sulfurados, óleo essencial, glúcidos, aminoácidos, antocianósidos, potássio, cálcio, fósforo, vitamina C, vitaminas do complexo B e diversas enzimas.
Propriedades: diurético, béquico, colagogo, dissolvente dos cálculos hepáticos e renais, anti escorbútico e aperitivo.

O rábano é benéfico no tratamento de inúmeras enfermidades, de que destacamos as seguintes:
- Asma, bronquite, catarro e outros transtornos do sistema respiratório. Coze-se 100 g da raiz num litro de água, adoça-se com mel e toma-se 3 ou 4 vezes por dia;
- Dispepsia, cálculos renais e problemas hepáticos. Deve-se consumir a raiz crua amiudadas vezes;
- Cálculos biliares. Comer a raiz cortada às rodelas embebida em sumo de limão;
- Urticária e acne. Esmagar rábanos adoçados com mel, coar e beber até meio litro por dia;
- Artrites. Aplicar cataplasmas de rábanos triturados nas zonas do corpo afetadas.
- Obesidade. Tomar em jejum uma papa preparada a partir de uma raiz de rábano esmagada (ou de três rabanetes) sem qualquer adoçante.

O Dr. Oliveira Feijão em “Medicina pelas Plantas”, prescreve o xarope confecionado com rodelas finas de rábano fervidas com açúcar para debelar a tosse convulsa.

Também o Dr. Samuel Maia no “Manual de Medicina Doméstica” apresenta receitas de xaropes e de vinho antiescorbútico, algo sofisticadas.

Na culinária é sobejamente conhecido o uso das folhas e das raízes dos rábanos em saborosos caldos e sopas alcalinizantes. As raízes cortadas às rodelas valorizam extraordinariamente as saladas crudívoras e aprimoram a guarnição de variadíssimos menus.

No Japão, a variedade designada por “daikon”, de raiz mais esbranquiçada, é um ingrediente importante da respetiva cozinha, proporcionando, inclusive, a elaboração de figuras esculpidas que beneficiam a apresentação dos pratos, uma vez que “os olhos também comem”. É igualmente determinante nas cozinhas coreana, chinesa, vietnamita e indiana.

Em França e nos países do norte da Europa gabam-se as virtudes do rábano negro - Raphanus sativus var. niger, cuja raiz possui uma tez escura. Muito utilizado na culinária, pois é de baixo valor calórico, estimula a secreção dos sucos digestivos com o seu típico sabor picante (Plantes Potagères - editora Gründ).


sábado, 4 de janeiro de 2014

Medronheiro


por Miguel Boieiro

A tia Alzira herdou da casa paterna um velho alambique. Todos os anos ela ia às encostas do monte colher os medronhos que, após fermentados, seguiam para o alambique onde se destilava a famosa aguardente. A tia Alzira não bebe, apenas cheira, mas ficava felicíssima por oferecer a cada familiar uma garrafa de aguardente de medronho, fabricada artesanalmente pelas suas experientes mãos. Agora os achaques e a velhice não lhe permitem mais efectuar esse trabalho que, para ela, era uma espécie de missão. A verdade é que na chamada Zona do Pinhal (Centro de Portugal) os medronheiros são espontâneos, resistiram bem aos incêndios, mas ninguém se dá ao trabalho de apanhar os medronhos que, em catadupa, se esborracham no chão.

Quem já foi a Madrid, decerto se admirou com o emblema heráldico da cidade, constituído por uma ursa com as patas dianteiras apoiadas num medronheiro. Coisa curiosa, pois parece que os ursos se extinguiram na região por volta do século XI e os medronheiros não são ali espontâneos. Tecem-se várias conjecturas, mas ainda hoje não se conhece verdadeiramente o significado do escudo da faustosa cidade.

Postos estes dois parágrafos introdutórios, vamos então analisar as particularidades do Arbutus unedo L, arbusto rústico de crescimento lento, por vezes árvore, da família das ericáceas, originário dos litorais da Europa meridional, chegando a atingir as costas da Irlanda, porém aí com escassa frutificação.

O medronheiro possui um sistema radical potente, formando uma cepa grossa. O tronco tem casca pardo-avermelhada, gretada e escamosa. As suas folhas são persistentes, alternas, lanceoladas, dentadas, de verde-escuro lustroso, um pouco coriáceas e de pecíolo curto. As flores agrupam-se em ramalhetes terminais de cor branca levemente rosada em forma de campânulas viradas para baixo. Os frutos são bagas granulosas cilíndricas, comestíveis, algo verrugosas, de 20 a 25 mm de diâmetro, começando por ser verdes, depois amarelos, depois alaranjados e finalmente vermelhos quando maduros.

Os medronhos contêm açúcares, ácidos orgânicos, pectinas, taninos e vitamina C. São adstringentes quando não se encontram amadurecidos. Têm a particularidade de alcoolizar muito rapidamente, pelo que se aconselha a não ingerir grandes quantidades de repente. Parece, inclusive, que o termo latino unedo significa que convém comermos um medronho de cada vez para não ficarmos ébrios.
O medronheiro é muito apreciado como arbusto ornamental pois chega a ostentar, em simultâneo, os frutos e as flores, sendo estas destinadas à frutificação do ano seguinte. A madeira é densa, constituindo um bom combustível (carvão) e matéria-prima para ferramentas torneadas. Da aptidão dos frutos para confecionar aguardente já falámos, mas importa referir que também servem para fazer compotas e geleias.

As folhas do medronheiro são diuréticas, anti-sépticas das vias urinárias, sendo aplicadas para aliviar cistites, cálculos renais e disenterias.

Transcrevo, com a devida vénia, algumas mezinhas do curioso livro “Les Plantes Médicinales du Maroc” que adquiri, há alguns anos, em Marraquexe:

Diarreia – Decocção de 40 g das folhas num litro de água, ferver 10 minutos, filtrar, açucarar e beber. Este tratamento deve repartir-se por dois dias.

Cálculos urinários – Infusão de 20 g das folhas para um litro de água, deixando repousar 10 minutos. Beber uma chávena três vezes por dia em curas de três semanas que devem ser efetuadas várias vezes ao longo do ano.

Arteriosclerose – Maceração de 40 g das raízes secas cortadas em pequenos pedaços, num litro de água. Ferver em lume brando até que se evaporem dois terços do líquido. Deixar repousar e só filtrar no momento de beber. Deve-se tomar uma chávena em jejum durante três dias.

Quanto à famosa aguardente de medronho, bebida tóxica, como de resto todas as aguardentes, façam como eu. Aspirem apenas o seu delicado aroma frutado que faz crescer-água-na-boca e ativa as papilas gustativas. Vejam como se acelera de imediato o processo da digestão. Eis, só por si, um bom aperitivo e um óptimo digestivo!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tupinambo ou Girassol Batateiro


por Miguel Boieiro

Ouvi falar do tupinambo, como tubérculo comestível, há cerca de quatro décadas. Fiquei curioso, mas nunca tinha surgido a oportunidade de conhecer esta planta que os meus amigos vegetarianos consideram adequada numa nutrição saudável.

Até que no verão de 2010, quando visitei a pequena exploração de agricultura biológica de Miguel Gervásio, perto de Sesimbra, travei conhecimento com o tal tupinambo ou, como também é conhecido, o girassol-batateiro. Trouxe alguns tubérculos e enterrei-os descuidadamente no quintal. A verdade é que, fruto dos demasiados afazeres a que me dedico, nunca mais me lembrei da plantação. Na primavera seguinte brotaram, de facto, algumas plantas mas não deram flor e nada fiz. Este ano apareceram, como por encanto, uma dezena de vistosos girassóis. Esperei que as flores secassem e agora resolvi recolher alguns tubérculos. Cozi-os em água e uma pitada de sal, como se faz com as batatas, e apreciei finalmente o manjar. Está aprovado!

O tupinambo, Helianthus tuberosus, pertence à extensa família botânica das asteráceas ou compostas e ao género dos heliantos, de que se conhecem para cima de 70 espécies. É muito semelhante ao girassol, Helianthus annuus. As suas folhas são igualmente grandes, simples, dentadas, ovais e rugosas, alternas ou opostas. Os caules atingem facilmente 3 metros de altura. As inflorescências formam capítulos amarelos dourados e as sementes são aquénios. As duas plantas distinguem-se exteriormente pelo tamanho das flores, já que os girassóis possuem-nas em maior dimensão. No resto são aparentemente iguais. Todavia, se bem que ambas tenham ciclo anual, a maior diferença encontra-se nas raízes e na forma de reprodução. O tupinambo reproduz-se essencialmente pelos rebentos que brotam do seu raizame, sendo, por isso, uma espécie perene, enquanto o girassol nasce, todos os anos, se se deitar a semente à terra.

Ora sendo uma herbácea vivaz, de fácil cultivo, muito resistente a doenças, não exigindo solos férteis e aguentando-se bem em climas frios, o tupinambo está, nalguns países, classificado como espécie invasora, a extirpar por ser atentatória de outras culturas. Erradamente, julgo eu, pois não se toma em conta o seu assinalável valor alimentício, como a seguir vamos ver.

Os tubérculos do tupinambo têm constituintes semelhantes aos da batata, mas possuem sobre esta uma enorme vantagem. A batata é provida de amido, ao contrário do tupinambo. Ao invés, este possui inulina que é um polímero da frutose, o qual não influencia a glicémia dos diabéticos. Para além dos hidratos de carbono de que a inulina é o principal, encontram-se também vitaminas, em especial a C, a B, a provitamina A e sais minerais, especialmente o potássio.

Os tubérculos que colhi no meu quintal são pequenos, mas, em vários tomos sobre botânica que consultei, refere-se que podem atingir 10 cm de comprimento e 5 cm de grossura. São de configuração nodosa e irregular, fazendo lembrar, pela forma, o gengibre. A sua cor é branco-amarelada com laivos avermelhados e purpúreos. Podem ser comidos frescos (crus) ou cozidos como as batatas, não sendo necessário retirar-lhes a pele. É possível obter deles uma fermentação alcoólica com fama de ser diurética, tónica e afrodisíaca.

Tanto as folhas como os caules são ricos em matérias proteicas e, por isso, tornam-se adequados para ensilagens destinadas à alimentação do gado.

Oliveira Feijão indica “a maceração das folhas em vinho tinto como calmante e resolutivo e o infuso das flores como febrífugo e anti oftálmico”.

No século XVII, quando foi trazido da América do Norte, donde é oriundo, o cultivo do tupinambo passou a ter grande repercussão na Europa, tornando-se popular como sucedâneo da batata. Contudo, o seu menor rendimento, o efeito invasivo e as dificuldades de armazenamento acabaram por arrefecer o entusiasmo inicial dos agricultores. Com efeito, os tubérculos murcham e secam alguns dias após a colheita o que impossibilita a sua rendível comercialização. Em contrapartida, podem ficar enterrados no solo sem se degradarem, mesmo em climas muito frios, desde que não haja excesso de humidade. A solução será recolhê-los só quando necessitarmos de os consumir.


E pronto! Ficam estas “dicas” para espicaçar a curiosidade dos leitores e induzi-los à experimentação alimentar de mais um vegetal esquecido. Em época de guerra (ou de crise aguda) “não se limpam armas”!

sábado, 23 de novembro de 2013

Dulcamara


por Miguel Boieiro

Apreciar a flora que brota espontaneamente à beira dos percursos pedonais que episodicamente trilhamos, acaba por se tornar, com a continuação, um passatempo deveras agradável. Não é preciso ir ao campo para divisar a exuberância multifacetada e multicolor da vegetação. Mesmo em plena cidade, as plantas não pedem licença para emergir viçosas e atraentes se para tal encontrarem propícias condições.

Uma escassa hora livre que disponho antes da aula de fitoterapia que costumo orientar na Universidade Sénior dos Coruchéus dá-me para passear um pouco pelas chamadas “avenidas novas” que circundam as instalações. Anoto, com prazer, que quase todos os prédios possuem jardins anexos e até pequenos hortejos. Alguns espaços são tratados com esmero pelos respetivos moradores. Outros restam abandonados mas sempre repletos de plantas (árvores, arbustos, flores, ervas …). É incrível como deparamos com tanta variedade florística em pleno solo urbano, estercado, quase sempre, pelos excrementos dos canídeos, omnipresentes naquela aprazível zona de Lisboa.

De entre tantas plantas que observo que vão das simples ervinhas até às olaias, às tílias, aos lódãos, aos plátanos, aos abacateiros, aos ginko bilobas fêmeas, deu-me agora para distinguir um pequeno arbusto, cujas flores azuis em formato estrelar sobressaem em diversos jardins. Poderia escolher outra mas, desta vez, calha falar da dulcamara.

Trata-se de uma planta ornamental, é bem de ver, mas também medicinal, conhecida e utilizada desde o tempo dos faraós. Atualmente, devido ao quimismo consumista que nos flagela, raramente é mencionada como espécie curativa. No entanto, a doce-amarga, nome popular por que também é conhecida, cuja designação científica, Solanum dulcamara L., indicia a sua família botânica - solanáceas - tem muitas aplicações no campo da fitoterapia.

Antes de prosseguirmos, convém caracterizar bem a planta em questão. Trata-se de um subarbusto perene e trepador com folhas ovais, pontiagudas, verde- escuras e pecioladas. Cresce, e embora sem gavinhas, enrola-se nos seus próprios suportes flexíveis, podendo atingir quatro metros de altura. As flores têm cor azul-violácea e estames amarelos. São alternas, pedunculadas e hermafroditas, possuindo habitualmente cinco pétalas. Os pequenos frutos formam bagas ovoides que começam por ser verdes, passando a vermelhas quando amadurecem. As sementes são reniformes (em forma de rim).

Julga-se que a dulcamara é originária das zonas temperadas da Europa e do norte de África. Ela contém interessantes princípios ativos de que se destacam os gluco-alcalóides, a dulcamarina, a solanina, os taninos, as saponinas e as resinas.

Tem reconhecidamente propriedades diuréticas, emolientes, cicatrizantes, depurativas, expectorantes, febrífugas, sedativas, analgésicas e refere o Dr. Samuel Maia no seu antiquíssimo “Manual de Medicina Doméstica”, também narcóticas e anafrodisíacas.
Principais indicações: bronquite, celulite, hidropisia, urticária, eczema, herpes, acne, queimaduras, hemorroidas, artrite, reumatismo …

O caule da planta tem inicialmente um sabor doce e logo a seguir muito amargo, daí a origem do nome dulcamara. Já se mencionou que pertence à família das solanáceas, o que só por si, implica que tenhamos muito cuidado com o seu manuseio, devido aos alcaloides tóxicos que contém, dos quais se destaca a solanina. No entanto, não está ainda bem determinado qual o grau rigoroso de toxicidade desta planta. Considera-se que as bagas são venenosas, especialmente quando estão verdes, contudo, numerosas espécies de aves ingerem-nas sem, aparentemente, qualquer efeito nocivo.

Antigamente a dulcamara era intensamente utilizada em aplicações internas (infusões). Todavia, hoje em dia, por precaução talvez exagerada, recomenda-se mais o seu uso externo.

Eis algumas receitas que repesquei na minha biblioteca privada:
- Cozimento ou a cataplasma das folhas frescas para aplicar em contusões, queimaduras, herpes e hemorroidas (Dr. Oliveira Feijão).
- Cataplasmas preparadas a partir da decocção de 100 g de folhas em 2,5 dl de água a que se adiciona linhaça (sementes de linho moídas). Aplicar três vezes ao dia, durante 15 minutos, na região afetada (Dr. Pamplona Roger).
- Infusão de 15 g para um litro de água para tomar apenas uma chávena por dia, em jejum (Dr. Lyon de Castro).
- Infusão de 20 g dos caules pulverizados num litro de água. Ferve durante quinze minutos. Tomar uma chávena ao deitar para a polução noturna (Dr. Samuel Maia). Nota: isto é mais para a malta nova, como é evidente.

Outras receitas antigas incluem tinturas, compressas e o suco fresco das bagas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Couve-galega


por Miguel Boieiro

Para especificarmos botanicamente uma determinada planta há que usar métodos de classificação, cuja sofisticação não é atraente aos leigos.
Exemplifiquemos: temos um elemento do reino vegetal que pertence ao ramo das Espermófitas, ao subramo das Angiospérmicas, à classe das Dicotiledóneas, à ordem das Brassicáleas, à família das Brassicáceas ou Crucíferas, ao género Brassica, à espécie Brassica oleracea, à variedade Acephala e à subvariedade Plana. Mas afinal que planta é esta tão complicada? Pois, nada mais, nada menos do que a nossa corriqueira couve-galega.

E eis como as coisas complicadas podem ser simples e vice-versa. Afinal toda a gente conhece a couve-galega que é das milhentas variedades cultivares de couves (Brassica oleracea) a que se encontra mais perto  da couve espontânea e selvagem que, julga-se, teve a sua origem no continente europeu, a Brassica sylvestris. Por razões óbvias, abordarei aqui outras variedades também sobejamente conhecidas: o repolho, a couve-lombarda, a coração-de-boi, a couve-de-bruxelas, a couve-rábano, a couve-flor, a couve-chinesa, os brócolos, … ou seja, um verdadeiro mundo no campo das hortaliças comuns.

A couve-galega é uma planta medicinal que se pode usar tanto externamente como internamente, mas a sua reputação é gastronómica. Em Portugal a couve-galega é um ex-libris, tal a sua versatilidade na culinária tradicional, com destaque para o caldo-verde que é, sem favor, a nossa sopa nacional, por excelência. Seria estultícia da minha parte descrever como se confeciona o caldo-verde e outras sopas e cozidos deliciosos onde entra a distinta convidada que hoje trouxemos à liça. Ela pode assumir uma multiplicidade de funções. De relance e a título de exemplo, estou agora a lembrar-me das broas-dos-santos que se preparam no início de novembro, em que as folhas da couve servem de base para evitar que os bolos, cozidos em forno de lenha, fiquem com a base torriscada.

O perfil nutricional da couve-galega é notável. Ela contém tanto, ou mais cálcio que o leite, com a vantagem de que a assimilação se faz praticamente sem contraindicações. Para além disso, contém valiosos antioxidantes, ferro, iodo, enxofre, provitamina A, vitaminas C, K e do complexo B. Por isso, pode ser determinante na luta contra as úlceras do sistema digestivo (estômago, duodeno, cólon). Há até quem defenda que produz efeitos benéficos no tocante às doenças cancerosas, como preventiva.
Externamente a couve finamente migada e colocada em cataplasma nas feridas e infeções cutâneas acelera eficazmente a cura das mesmas.

Toda a gente está familiarizada com o aspeto da couve-galega que é cultivada há milhares de anos, mas convém lembrar as suas principais características. Ao contrário das outras couves, ela chega atingir 120 cm de altura e no segundo ano, em que espiga, com ramalhetes de flores brancas providas de quatro pétalas dispostas em cruz (crucíferas), pode chegar aos 160 cm. Naturalmente que os caules se tornam muito lenhosos. As folhas são lisas e não se enrolam no cimo formando cabeça, como acontece com os repolhos. Daí a designação acephala.

A couve-galega não é tão exigente como as outras couves. Dá-se bem em qualquer terreno, desde que bem drenado e nitrificado, e em qualquer clima temperado.
No que respeita à resistência a moléstias e predadores, também se aguenta relativamente bem, sem necessidade de produtos químicos, tantas vezes nocivos para a saúde. O seu principal inimigo é a chamada borboleta branca (Pieris Brassicae). Cada fêmea faz uma postura de 600 ovos, os quais se detetam facilmente nos enrolamentos das folhas ou nas suas páginas inferiores. As lagartas que daí nascem são vorazes e rapidamente devoram as plantações. Felizmente que já existe no mercado um inseticida, aceite em agricultura biológica, destinado a dizimar essa lagartagem específica. Trata-se de um produto com base em Bacillus thuringiensis que atua algumas horas após a ingestão pelas lagartas, impedindo-as de se alimentarem devido a paralisia. A morte sobrevém 1 a 7 dias após a ingestão do Turex (nome comercial do respetivo produto), o qual não é tóxico para organismos diferentes daqueles que combate.

Eis, pois uma indicação útil que apresento sem qualquer interesse que não seja a de promover as regras da agricultura biológica, indispensáveis à preservação do planeta e ao futuro da Humanidade.


E para terminar este singelo escrito, deixo a pergunta tradicional dos franceses – Savais vous planter des choux? (Sabeis vós plantar couves?)


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Espinafre-da-nova-zelândia


por Miguel Boieiro

Acabei de ler o excelente trabalho da minha amiga Maria-Manuel Valagão, ilustre Investigadora do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, denominado “A sopa em Portugal e as sopas de plantas silvestres alimentares”. Trata-se de um tratado notável que relata, sobre múltiplas facetas, o percurso histórico, etnográfico e até mesmo, filosófico de toda a elaboração culinária, resultado da ebulição em água, durante um certo tempo de vários componentes, e que geralmente se come à colher. O estudo, frisa a importância alimentar das sopas, caldos e papas e os seus benefícios para a saúde das populações, quer sejam abastadas, quer de fracos recursos.

Há naturalmente variadíssimas versões desde as leves sopas de vegetais, à canja (palavra que em concani, idioma falado em Goa, significa apenas sopa de arroz), ao caldo verde (com ou sem rodela de chouriço), até às famosas sopas da pedra, sopas caramelas e sopas de corno. Não cabe nesta croniqueta explicar como elas se fazem, mas sempre direi que as pedras e as pontas dos chavelhos têm de ser de boa qualidade para que as sopas resultem. Isto mesmo, dizem os gastrónomos entendidos. Por mim, aproveito para recordar minudências da minha infância em que o prato único que, todos os dias, tínhamos ao jantar era a sopa de feijão. Num dia adicionava-se arroz, no outro massa e no outro pão de dezassete esfarelado, acompanhado de hortaliças, abóbora, um naco de toucinho fresco e um pedacinho de chouriço só para dar o gosto.
Tudo isto vem a propósito de uma referência que encontrei no trabalho da Maria-Manuel sobre o uso de espinafres Tetragonia tetragonoides para confecionar sopas no Alentejo e vai daí, lembrei-me de discorrer sobre essa plantinha.

Em Portugal ela é conhecida como espinafre-da-nova-zelândia, em alusão ao país donde se julga ser proveniente, mas encontra-se completamente naturalizada, sendo mesmo considerada nalgumas regiões uma planta invasora. O seu nome científico tem a ver com a configuração curiosa do fruto em forma de quadrilátero. Em França a planta é conhecida por tétragone, designação que considero mais feliz, dado que, botanicamente, pertence à família das aizoáceas e nada tem nada a ver com o espinafre - Spinacia oleracea - da família das amarantáceas.

Do aspeto do fruto, já estamos conversados. As folhas, a parte que nos interessa para preparar a sopa de legumes, são triangulares, carnudas, papilosas, pecioladas e de cor verde brilhante. A ramagem é prostrada, cobrindo o solo em razoável extensão, dado que com grande facilidade alastra por terrenos abertos. As flores são pequenas, discretas, solitárias nas axilas das folhas e de cor amarelo-esverdeado. 

O valor proteico da planta é fraco, mas em compensação, é rica em vitaminas do complexo B, vitamina C, provitamina A, potássio, cálcio, magnésio, fósforo e ferro. O único senão à utilização desregrada deste “falso espinafre” é a existência de ácidos oxálicos, sobretudo quando a planta já está envelhecida. Por isso, é conveniente rejeitá-la quando se encontra em frutificação.
O espinafre-da-nova-zelândia gosta do calor e da humidade, dando-se bem numa alargada faixa de climas temperados. Não é atreito a moléstias, resiste às investidas dos insetos predadores e possui características halófitas, ou seja desenvolve-se em terrenos medianamente salinos. Lembro-me de que a primeira vez que vi este vegetal em grande quantidade foi junto à praia do Baleal (Peniche), já lá vão umas quatro décadas. Aí, e nessa altura, a planta era espontânea, apresentando uma excelente reprodução. Tal também acontece no meu quintal, visto que a água que obtenho do furo sofre a influência da cunha salina proveniente do estuário do Tejo. Todos os anos tenho abundante produção sem fazer qualquer sementeira.

Quanto às virtudes terapêuticas do espinafre-da-nova-zelândia, aponta-se que o capitão Cook, famoso navegador dos mares austrais, a utilizou largamente para combater o escorbuto que atormentava a tripulação do navio Endeavour.


Contudo, é na gastronomia que este vegetal se mostra relevante. Consulte-se, por exemplo, a obra “Plantes potagères” da editora Gründ, onde o tétragone aparece com grande destaque. Na verdade, a sua primordial utilidade é na preparação de esparregados e de suculentas sopas de vegetais, misturada com outras hortaliças. Fica especialmente bem numa sopa ou estufado com grão-de-bico. Experimentem!


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Plantas que Curam: Estevão-macho



por Miguel Boieiro


Ao calcorrear montes e vales para observar a natureza, hábito antigo, acabo por fixar uma ou duas plantas originais que, pela sua graciosidade, me despertam os sentidos. Já no remanso do lar, procuro identificar-me com essas plantinhas e descobrir os seus atributos. Tem sido sempre assim e os leitores hão-de notar que, quando regresso de uma viagem, trago sempre algumas novidades botânicas para as minhas croniquetas.

Há tempos um aluno do Instituto Hipócrates, onde episodicamente lecionei a disciplina de fitoterapia, desafiou-me para ir a Portalegre, a fim de investigar a flora da Serra de São Mamede. Aceitei com entusiasmo, visto não conhecer suficientemente a região. Se excetuarmos duas visitas rápidas que, em tempos, fiz à cidade e estâncias mais demoradas em Castelo de Vide e em Marvão, o conhecimento que tinha do nordeste alentejano era reduzido.

Fomos (a minha esposa viajou comigo) recebidos principescamente por jovens afáveis da Associação Ambientalista “Ficar”, onde tomámos as refeições e pernoitámos. O objetivo primordial era o de colher plantas silvestres para confecionar um lauto jantar vegetariano.

Juntando os saberes de todos os participantes, lá fomos caminhando e apanhando plantas, ensinando e aprendendo. Regressámos com os alforges cheios e, sem dúvida, muito mais enriquecidos de saberes.

Em determinada altura, a partir da aldeia de Besteiros de Cima, entrámos, quase sem dar por isso, em território espanhol (Codocera – Província de Badajoz). Descansámos um pouco junto à capelinha de Nossa Senhora da Lapa onde já havia a identificação de um trilho pedestre escrito em castelhano e uns metros adiante lá estava o marco com o P deste lado e o E do outro. E foi a descer, até chegarmos a um formoso afluente do Xévora, que fizemos o percurso espanhol. Eis então que, nesse caminho com vegetação muito densa, encontrámos o estevão-macho, a planta escolhida para este escrito.

O nome desta cistácea é assaz curioso. Logo se vislumbra que é uma esteva com folhas grandes, por isso, a designação estevão seria suficiente. Porquê então juntar o adjetivo macho? Apenas para reforçar, creio bem!

Mas o mais curioso ainda é que em Portalegre ninguém diz esteva, preferem dizer jara como os espanhóis. Logicamente, o estevão macho aqui é conhecido apenas por jara-macho.

Pois a jara-macho, como localmente se diz, é cientificamente a Cistus populifolius, enquanto a vulgar esteva dá pelo nome de Cistus ladaniferus.

O estevão-macho é um arbusto muito bonito e poderia, sem favor, integrar os nossos jardins como espécie ornamental. Possui muitos ramos, formando uma mancha densa. As folhas apresentam-se simples, opostas, pecioladas, pegajosas, grandes, de verde intenso, parecidas com as folhas do álamo (Populus spp), daí a designação latina, populifolius. As flores, brancas, um pouco mais pequenas do que as da esteva, nascem em compridos pedúnculos, em forma de corimbos e são muito vistosas. Os frutos estão encerrados em cápsulas ovadas e deiscentes.

Encontrei pela primeira vez o estevão-macho nas imediações do Penedo Furado (Vila de Rei) e logo me encantou. Mais tarde, tornei a encontrá-lo num passeio organizado pelo Clube Ar Livre, na serra algarvia. Contudo, nunca o tinha visto tão alto e em tão grande profusão. Aliás, a altura deste arbusto tem a ver com a disputa face a outras plantas concorrentes para alcançar um lugarzinho ao sol.

Nesta fase da descrição já os leitores estarão impacientes e naturalmente indagarão: “mas para que presta o estevão-macho?”

Pois o estevão-macho serve para fazer loções destinadas ao couro cabeludo. Dizem os compêndios que previne eficazmente a queda do cabelo.

Todas as espécies do género Cistus L têm as folhas e os ramos revestidos de uma oleorresina, exsudada por pelos glandulares, conhecida por lábdano. Este extrai-se através da fervura das plantas em água e tem utilização em farmacopeia, perfumaria e fabrico de vernizes. (Elementos da Flora Aromática de Aloísio Fernandes Costa). O lábdano existente na esteva e no estevão-macho é de composição complexa. Para além do óleo essencial, tem ácidos aromáticos, triterpenóides e mucilagens com ação antissética e mucolítica e foi outrora usado em problemas do foro respiratório, nomeadamente para tosse e bronquite. (Plantas Aromáticas em Portugal de A. Proença da Cunha e outros – Edição da Fundação Calouste Gulbenkian)

E mais não digo!


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Flora na Islândia


A primeira sensação após aterrarmos no aeroporto de Keflavik, a cinquenta e tal quilómetros de Reykjavik, é que estamos numa terra inóspita, sem vegetação, coberta de pedras vulcânicas, cujo negrume nos faz lembrar a ilha do Pico.

Depois, os nossos sentidos ficam espevitados perante a exuberância de flores de todas as cores que encontramos à beira de estradas e caminhos. É preciso notar que nos reportamos ao mês de julho e que aqui, junto ao círculo polar ártico em que os verões são curtíssimos, as plantas têm pressa em reproduzir-se e assim propagar as respetivas espécies. Tal é a lei biológica a que obedecem todos os seres vivos, sejam plantas, animais ou pessoas.

Nesta altura, as margaças, os dentes-de-leão, as rosas vilosas, as tanchagens e as labaças, pela magnitude e beleza das suas hastes florais, provocam os insetos e os ventos para que os ajudem nas operações de polinização. Na verdade, espanta como aqui as folhas e as flores são tão grandes, bem maiores do que as que se acham no nosso clima mediterrânico.

Do hotel onde estávamos hospedados até ao Centro Cultural Harpa, local onde decorreu o 98º Congresso Universal de Esperanto, era cerca de meia hora caminhando a passo largo por um rossio paralelo à orla marítima. Esse passeio pedestre que efetuámos todos os dias, durante uma semana, permitiu que observássemos a vegetação que espontaneamente surtia nas faixas separadoras das vias.

A primeira surpresa foi a de depararmos com a tussilagem (Tussilago farfara) - erva medicinal que oportunamente será objeto de croniqueta própria - já sem flores, apenas com as suas grandes folhas basais que se assemelham a cascos de equinos. A seguir, vieram as flores douradas do taraxaco (Taraxacum officinale) - outra consagrada planta curativa, o tomilho lilás (Thymus praecox) - muito frequente nesta ilha vulcânica, os enormes amores-perfeitos (Viola tricolor), a saxífraga (Saxifraga cespitosa), a prunela (Prunella vulgaris), a potentila (Potentilla anserina), a labaça (Rumex longifolius), a alquimila (Alchemilla vulgaris), a valeriana (Valeriana dioica), a angélica (Angelica archangelica), a tanchagem (Plantago major), a roseira (Rosa villosa) - talvez a flor mais cheirosa que aqui se encontra em estado silvestre. Todas estas espécies, e muitas mais, são ruderais em plena cidade de Reykjavik.

Na Islândia não se veem florestas e a maior parte das árvores que avistámos resultam de cuidadosas plantações. Ainda assim, são proeminentes várias espécies de betuláceas (Betula ermanii, Alnus trabeculosa, Betula pubescens - de folha miúda), de rosáceas (várias espécies de Sorbus), de ciperáceas e de ericáceas.

Nos terrenos adjacentes às quedas de água de nome Hraunfossar encontra-se uma vegetação típica composta por arbustos (birch), cavalinhas rasteiras, tomilho e uma curiosa junça que dá pela designação científica de Eriophorum viridicarinatum. Esta planta deita uns tufos compridos de cor alva que parecem algodão. Em vão procurámos saber se deles extraem algum aproveitamento, pois são muito macios e abundantes. A nosso ver, talvez servissem para encher almofadas. Todavia, não chegámos a nenhuma conclusão.

Dedicámos uma manhã a visitar o Jardim Botânico de Reykjavik, em claro prejuízo da nossa participação no Congresso, mas foi uma opção assisada, já que o Jardim, embora não muito extenso, é dos mais belos que temos visto. O espaço é por demais aprazível por também integrar uma enorme cidade desportiva e um zoo. No percurso pedestre que efetuámos, por entre veredas verdejantes, encontrámos uma colónia de mais de duas dezenas de Coprinus comatus, cogumelos comestíveis que, quando envelhecem, se liquefazem em tinta preta, suscetível de ser usada para escrever. Dado o inusitado achado, não quisemos deixar de o registar.

O Jardim possui uma coleção de cerca de 5 milhares de espécies, dando-nos uma ideia da enorme diversidade vegetativa da zona norte-atlântica banhada pela Corrente do Golfo. Trata-se de um espaço, de visita gratuita, que proporciona educação ao público e aos estudantes de todas as idades, para além de constituir um importante centro científico no campo da biologia. Contrariamente ao que antes imaginávamos, o Jardim Botânico é praticamente desprovido de estufas, se excetuarmos a que integra o Café Flora, aprazível recanto de convívio e entretenimento. Aqui vimos uma videira com cachos de uvas já quase maduras e uma figueira.

A coleção contém 350 espécies das cerca de 485 plantas vasculares existentes em toda a Islândia e várias secções, a saber:
- Plantas vivazes (jardim sistemático);
- Jardim de roseiras com espécies do país (a já citada Rosa villosa) e de outras regiões do mundo;
 - Jardim de rododendros;
- Plantas específicas do hemisfério norte;
- Arboreto com 3,6 hectares de árvores provenientes de várias origens;
- Arbustos das regiões montanhosas;
- Hortaliças e plantas medicinais
Todas as plantas encontravam-se devidamente identificadas através da sua nomenclatura binominal em latim.
Gostaríamos ainda de mencionar algumas curiosidades botânicas, nomeadamente algumas flores pouco usuais relativamente aos nossos parcos conhecimentos de amador:
- As papoilas árticas de cor branca, amarela e laranja (Papaver radicatum), as espetaculares papoilas azuis (Meconopsis grandis) e as vermelhas, muito brilhantes (Papaver bracteatum).
- As lupinas azuis (Lupinus nootkatensis), leguminosas semelhantes às que vimos na Patagónia.
- As duas espécies de arméria (Armeria maritima e Armeria ruscinonensis).
- As calêndulas de cor laranja.
- As sete espécies de Sorbus.
- As borragináceas que incluem seis variedades de pulmonária.
- A famosa Stevia rebaudiana (planta do açúcar), cujas folhas se apresentam bem maiores do que a que possuímos no nosso quintal.

Que nos desculpem os leitores e especialmente os botânicos encartados para algum eventual erro e as muitas omissões que este escrito contém. Afinal o que se pretende é tão só suscitar curiosidades e apetências para o vastíssimo campo da flora e bem assim, da fitoterapia que, na Islândia, ocupam um lugar preponderante.


NOTA - Obras consultadas:
Grasagardur Reykjavíkur
Medicinal Plants of Iceland de Arnbjörg Linda Jóhannsdóttir
Icelandic Herbs de Anna Rósa Róbertsdóttir


Agosto de 2013
Miguel Boieiro