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domingo, 30 de março de 2025

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

Vamos Embora meu Diário Querido!
 

Vamos andando para fora deste lar, Diário Amigo, tens-me acompanhado anos sem fim, com calma e simpatia, nesta intimidade do meu quarto, a única possível, ao pé do meu colega de habitação e eu acompanhado por estas fotos de família, única lembrança possível da minha vida anterior. Lá está essa da minha senhora mãe com esse vestido preto e ajustado, o colar de pérolas verdadeiras, elegante, esguia, um pé em frente de outro, as mãos cruzadas em sinal de oração  sustendo seu livro de missa, séria, um certo sorriso a brilhar na sua boca, perto do meu pai, seu marido, esse senhor digno e bonito que eu abraço, e esse eu sorridente e feliz vestido com o hábito de noviço dominicano nos meus 17 anos, no dia em que ingressei no mosteiro para um dia ser sacerdote pregador. Foto que assinala um dia alegre para essa ultra católica mãe, triste para o não crente pai que assim perde um filho, cheio de riso para mim que ansiava amar ao próximo e converter pecadores; tudo isso vejo e lembro nos minutos de sair da cama, às cinco da manhã, para ir escrever no gabinete que o lar disponibiliza para mim; pensamentos de lembrança com amor que me fazem sorrir, quão crente e religioso era eu nesse tempo! Como eu subordinava meu ser a quem eu pensava que fosse a vontade de Deus… tornar-me sacerdote era o meu intuito…o silêncio do meu quarto permitia-me essa digressão no tempo…um “ah! era assim que eu pensava”...”era assim que eu decidia”.... Sorri com simpatia pensando no meu ser de então.

Lembrava Querido Diário como eu mortificava a minha carne com silícios e chicotadas para não ter pensamentos que furassem a minha castidade agora entregue à Divindade… Meu colega de quarto resmungou entre sonos e distraiu a minha recordação… que volta… e vejo-me sair desse mosteiro poucos meses depois do dia da foto em procura de estudos e de amor, e romper a castidade de amor e de sexo em que nem uma masturbação tive, para assim, em estado de pureza louvar o Criador…Era assim o meu acreditar de então.

Lembrava-me disso nessa fria manhã do dia de me ir embora do lar em que vivi, tão semelhante como me tinha ido fora do dito convento… Pensando no meu futuro decidi que o que eu queria era defender os injustiçados, ajudar os criminosos, socorrer os sem abrigo e decidi então ser advogado, uma espécie de sacerdote cível sem obrigação de castidade, pobreza e obediência, três votos que na solidão da casa de repouso lembrava-me serem sementes do meu futuro… Sorri com essa lembrança nessa madrugada em que me mudei para casa da mulher da qual eu estava namorado e que desejava… À saída do mosteiro não tinha um amor para motivar o meu abandono da cela monástica, mas sim o tive para fugir dessa outra subordinação às regras de uma casa de velhos, pensava eu na hora de sair da cama, na minha intimidade, submissa às regras civis… Como tentei de as manipular na solidão da minha escrita e nas minhas persistente leituras no corredor, onde me sentava e onde me ia entretendo nesses nove anos de enclausuramento causados pela manipulação mentirosa de uma minha descendente que me classificara como incapaz de entender o real e fechara-me nessa instituição. Quando abandonei o mosteiro tinha uma vida toda para construir e ser alguém dedicado a trabalhar para outros; mas abandonar o lar de velhos era um recuperar de uma vida de amor e de desejo com a mulher que amava, de calma e simpatia, de namoro, de trabalho como se eu fosse entendido em aves e terra… pensava eu tudo isso no dia da minha partida, meditava na teologia que eu estudei , nas qualidades de Deus, no amor fraterno… mas nessa madrugada meditava em como amava essa carismática e atraente mulher, era recuperar uma vida que tinha começado anos passados, uma atração que me fazia feliz, arriscado e forte… era ser jovem outra vez, era para mim retomar uma vida a dois … para ser autónomo e feliz... era tanto o meu pensar para essas horas da madrugada… 

No lar lutei para restituir a credibilidade em mim, apostei para que os outros fossem felizes, servi os meus colegas de idade, assim como sobrevivi com o apoio incrível da mulher que amo e que me deu apoio incondicional, assim como a minha outra descendente que não me largaram e acompanharam-me durante anos… também com o apoio de uma “amiga gorda” com a qual falava infinitamente… Ideias e lembranças, todas, na madrugada da minha partida.

Saí do lar… tinha eu adoecido pela falta de dopamina, a secreção que permite pensar, andar, calcular, o neurónio restabeleceu-se, cresceu, recuperei faculdades com a ajuda de uma médica do lar… corri ao tribunal, pedi a mudança de filha acompanhante, ganhei a minha causa, foi-me dito que podia viver onde quisesse… cá estou eu com a senhora que acreditou em mim e me fez feliz. Foi com ela que fomos de visita à minha vida anterior, aos amigos das aldeias que estudei, sobre as quais escrevi quatro livros, a minha família galega como se denominam a si próprios, dias de felicidade e de atenção deles para connosco…de uma simpatia e bom tratamento que me permite esquecer a violência com que me tratara a descendente que me fechou no lar que agora abandonei finalmente… nem consigo lembrar as formas duras que foram empregues por essa minha descendente e sua família para me desqualificar socialmente… para que meus amigos e colegas fugissem de mim… para me isolar e não receber as honrarias que a sociedade me quis dar… e que contudo teve um final feliz para mim. Assim exponho as lembranças do apoio que pude dar aos velhos do lar, que tenho escrito neste livro, que agora, por amor de Deus, só quero acabar para não sofrer mais por causa das manipulações da dita descendente… perdi uma filha e dois netos mas ganhei uma vida de amor e tranquilidade. O editor deste meu livro e de amigos que me acompanharam nesses nove anos, eles sabem quem são, têm convertido a minha vida no paraíso que sempre sonhei… 

Tive dois mosteiros, o de sacerdote a servir uma divindade, na qual eu já não acredito, e o de uma casa de repouso onde fui maldosamente encerrado. Dos dois consegui safar-me sem grandes dificuldades ou tristezas para minha vida que agora é feliz e plena… passei a ser um encantador de patos como a mulher que amo me denomina, besos e abrazos Diário Querido que me tens acompanhado toda a minha larga vida de quase 85 anos… tanto ano… Diário Amigo.

 

Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Março 2025


Notinha: Na foto, Raul Iturra, Quinta Barra Mansa, Fontanelas, Sintra, Portugal - fotografia de Maria do Céu Raposo.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

A minha família e eu, Diário Amigo...


"...Caralho...onde será que andam estes rapazes...José Luís! Luís Migueeel...! andem cá...! Venham caralho...! O “inri” disse-me que iam andar bem... que o Luís Miguel podia caminhar...puxa onde é que andam estas merdas... Luís Migueel!?! José Luíis!?! Joosé Luís..!! andem cá...! disse-me este senhor, o “inri” como a palavra de Jesus quando estava crucificado…, esse que se senta perto da porta de entrada… que vocês andam na vindima... será...? …talvez este corredor por onde ando me leve para o caminho... Luíis Migueel…!, José Luíis...!! tira-te daí puta... sai do meu caminho sua bêbada... esta é a minha rua...puta... sai...ai!, aí há uma porta...vejo um pátio que de certeza leva-me à estrada que me leva à vindima... José L…, L... Miguel...será que foram à casa da Ivonne... a minha filha ...Luíiis... não pode ser, ela dá aulas... ha! cá está a porta que me tira de aqui... mesmo...vai dar ao caminho onde me disse o senhor que era a vindima… é só um salto... é só andar e rápido porque faz-se noite e vejo mal... meninos!...  a comer pois... onde é que estão meninos?... paparoca!!... vejo pouco ...o sol entrou... caralho... olá, vem aí um carro... vou correr pró mato para não me atropelar... atão... vem aí uma senhora e um senhor... não queero…, não me agaarrem...! que eu não grite? como não vou gritar se me estão a agarrar para eu não ir à vindima ter com os meus rapazes! …o que vão eles cear? não vê que trabalham o dia inteiro e têm fome... largue sua puta bêbada... soltem-me... meus filhos são doentes e vou levá-los à casa... larguem-me digo!... não quero entrar no seu carro... ai caralho... está me a magoar... Luís...Zé Miguel...! …larguem-me os braços... não vou entrar... aí... aí... aí..."                            Foi o que disse a minha amiga magra do lar, enquanto empurrava portas e afastava velhos para fugir da casa de repouso. E foi o que fez com sucesso. Ela foi encontrada pelos funcionários que saíram de carro a correr à sua procura no entardecer, numa tarde de inverno, alarmados e assustados pela sua segurança. Por sorte foi que uma senhora a viu na estrada a andar sem tino e gritar o nome de pessoas, calculou que ela era do lar e avisou-nos. Não era a primeira vez que essa mulher de 94 anos que vivia no lar, sempre em procura dos seus filhos já adultos, mas com atraso mental… zangava-se com todos e fugia para tratar deles... a família colocou-a no lar, mas todos os dias a sua angústia crescia por não os ver. Ela batia nas pessoas todas porque não podia tratar desses adultos doentes, que eram crianças para ela…

Um dia meditava eu, com tristeza, nesta mãe frustrada que procurava os seus filhos, quando ouvi de repente pontapés e golpes na porta do refeitório e um pranto de agonia que interrompeu a minha meditação... "deixem-me entrar ... abrem a porta pois... tenho que ir trabalhar para lavar os pratos do jantar que cozinhei para os miúdos deste jardim de infância...abrem a porta... não sejam maus, devo acabar meu trabalho para esses pequeninos, por favor... se não trabalho como é que posso tomar conta do meu marido... e desses pequenos... abrem...!! por favor!..." dizia a pequena cozinheira de metro e meio de altura que, em desespero, temia não cumprir ao que estava obrigada no seu emprego. A senhora chorava com grande mágoa. Então eu tomei as suas mãos, beijei a sua cabeça e tentei acalmá-la porque sofria mais do que uma senhora idosa como ela podia suportar. Sua sobrinha veio visitá-la como fazia sempre todas as três semanas e desta vez contei-lhe a desventura da sua tia. Ela disse-me que mais nada podia fazer por ela, e já era muito, que a sua tia era uma viúva sem filhos que se tinha fartado de trabalhar para cuidar do seu marido doente e tinha adoecido quando ele morreu… regressando à infância... Por isso, essa pequena mulher ia a todos os quartos à procura de roupa para levar para a casa do seu marido...que a esperava para jantar. Um triste fim de vida para quem contribuiu para o bem estar dos filhos de outros, que na sua esterilidade não foi capaz de conceber. Por isso ela adotava emotivamente os filhos dos outros... que ia perdendo a cada ciclo, nessa elementar ação de os alimentar, o mais humano dos trabalhos… alimentar para manter crianças vivas e felizes! Ó Querido Diário uma luta sem fim, esse anseio desesperado de dar conforto às suas crianças agora imaginárias, esse manter vivo o homem que amava, uma louvável acção aprendida no seu duro lutar pelos outros.

" Anda Esmeralda - essa irmã defunta que ela ressuscitou, senta-te aqui comigo, querida irmã, aquece as minhas mãos pois eu não consigo, dá-me essa manta para me agasalhar antes que venha o nosso irmão João ma tirar e que eu fique com frio… ele vai dizer que já tenho manta nas pernas, para que quero mais... e quê... eu queria outra manta agora para as minhas costas... anda menina, dá já!… que morro de frio... essa manta não é de ninguém, digo-te é minha pois… anda… dá cá mulher... olha! ... repara abriu-se a porta da rua... vamos já fugir com este senhor que a abriu… carago…”. E dizia o velho que abriu a porta “abri a porta não sei como, consegui tirar o fecho de cima... vou correr para treinar à bola o meu plantel... assim continuo ativo para que os meus filhos se orgulhem de mim... dinheiro eles já têm…, trabalho também, falta-lhes ter o prazer de contar com um pai bem conhecido e muito aplaudido pelos outros... vamos minha senhora para o campo da bola?" "Vamos senhor sim com a minha irmã Esmeralda..." "… que bom sermos tantos... tem que me aplaudir muito!..." "aplaudimos Esmeralda?” "Que diz ela senhora..." "Diz que não entende a merda da bola, mas que como vamos fugir juntos vai bater palmas para agradecer..." "Bom então..." "Vamos depressa...?" "...vamos pois, vão gostar de me ver treinar, estou certo..."

Aí parou a aventura que vi e ouvi. Fui calmamente ao gabinete da direcção referir deste projeto de escapada e a aventura cessou... Tinham conseguido abrir a porta e sair para bem deles foram travados no seu intento, mas  desapontados na realidade por eles fabricada. 

Relatos de situações recriadas bem melhores que a que o lar ou as suas famílias fossem capazes de lhes inventar ou sugerir. Para familiares e funcionários do lar eram transgressões por mentes doentes, não uma elaboração feita por seres humanos agora isolados que antes tinham sido habituados a carícias, a ter responsabilidades, dar e receber amor, a ter uma família e que perderam desde o dia que entraram no lar e tiveram que inventar uma alternativa para acompanhar essas emoções vazias. Para a família era um congeminar de mentes doentes, não era entendido como algo que se procura, com essas elementares criações e assim encontrar um amor que já não têm. A pior das faltas num lar. Os velhos são pessoas que amam e tentam recuperar uma vida doméstica perdida com imaginária criação.

Querido Diário, tudo isso é uma atentado contra família, carinho, maturidade e passa a ser substituído com um grande investimento de ternura em seres com atividades inventadas. É difícil entender este comportamento mas parece-me que deveria ser respeitado como um direito de recriar uma família com o aconchego amoroso necessitado por todo o adulto maior... beijos e abraços Diário Querido...se não falo contigo, com quem falo então...?

Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Fevereiro 2025


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

A Minha Gorda Amiga

Uma homenagem


É com alegria e sorrisos, meu Diário Querido, que vou-me lembrando dessas conversas de quase nove anos que tive no lar onde resido com a minha gorda amiga, já mencionada por mim nos capítulos anteriores. Gorda como metáfora de uma mulher linda, com cara de porcelana como boneca, lisa, sem nenhuma ruga nos seus 86 anos. Anos que eram celebrados por todos nós no 22 de Abril de cada ano. A senhora alta, esguia, apesar dos quilos a mais que tinha em certos anos, porque desde sempre tem adorado comer. Era bom dente, melhor garfo, eram abundantes as bolachas e chocolates... Uma senhora mesmo senhora, cativante, vestida com roupa que tem tido por hábito mudar todos os dias. Levava mais de uma hora no seu quarto para escolher o vestido que mais assentasse aos seus caprichos do momento. Roupa grossa no inverno, com casacos compridos adequados à cor do fato, sempre com vestidos porque: “as calças são para homens e eu não sou, sou mulher que gosta de atrapalhar homens bonitos com a minha roupa”, gostava ela de dizer e de pôr em prática. Daí as largas horas que gasta em se arranjar e para pentear os escassos cabelos sobreviventes da sua cabeça...ela os pintava...quase cor ruiva que gostava para parecer mais arrumada… Sugeri-lhe, um dia, deixar de pintar o cabelo, ela aceitou e passaram a ser de cor branca, parecendo-se  assim como mulher digna da alta sociedade, como ela gosta de ser classificada. Por norma, esta distinta mulher quer andar com pessoas bonitas e bem apresentadas e por isso mandava-me, ao longo destes anos todos, atar um lenço ao pescoço e colocá-lo dentro da camisa. Mandava-me comer, comer e muito "para que desapareçam as covas da sua cara, Sr. Doutor, para que fique assim mais bonito"...Gosta dessa elegância nos outros. Desde o primeiro dia que partilhamos o lar gostou do proprietário da casa de repouso, um homem jovem, bonito, bem vestido e perfumado. Odor que ela adora. Ela nunca  deixou de me oferecer água de colónia:  “caso o perfume tão bom que usa o Sr. Doutor e que eu gosto se esgote...". Sempre me chama Sr. Doutor e obriga os outros a usarem este adjectivo para falarem comigo. Um senhor Doutor quando não usava “Senhor Professor Doutor que escreve tantos livros”. Tem sido um bom garfo e melhor vestida ainda, mas a falar...fala todo o tempo...calmamente, lentamente, informada, especialmente de bispos e papas, santos e anjos, um saber litúrgico sem igual. Cansava-me tanta palavra, especialmente porque gosto de ler em silêncio. Parar aquilo era só com comédia: fecho o olho esquerdo que ela vê desde o seu sítio enquanto mantinha aberto o direito para ver televisão no tempo em que eu gostava de ver programas. "Está a dormir?.." dizia-me e eu respondo..."Estou a dormir profundamente...", mentia eu e ela aceitava e assim calava-se.  "Que dia é hoje querida amiga?"  “segunda..." "pense bem... ontem veio a sua filha que só aparece aos sábados..." "não me diga que é domingo.." "é..." "atão...há missa.." e eu punha o canal correspondente na liturgia do domingo dos católicos e ela ia orando ao longo do que o oficiante dizia...em profundo silêncio perante os outros ali sentados...e ai dos que falam...!! Recebem um grito de fúria "caluda...é a missa...não se fala...respeito". Ela católica devota, eu anticatólico frenético e militante, passei a respeitar profundamente a sua inabalável fé... ela quase uma santa na sua devoção...e o terço! ai, meu Deus...três ou quatro por dia...era eu o seu coro ou procurava-lhe outros acompanhantes, havia muitos, era só coordenar os que iam rezar com ela, eu organizava e ela gostava da minha iniciativa, contava com ela, era esperada. Aprendi muita geografia de Portugal com as suas histórias de viagens quando procurava velharias que vendia na sua loja na estrada de Sintra, o que sempre gostou de fazer nos trinta e cinco anos de atividade como também aprendi a geografia da sua terra: "Sou da aldeia com ovelhas que eu pastoreava enquanto lia os romances do Camilo (Castelo Branco) e a vida do Santo António, pertenço à freguesia do carvão, do distrito dos antigos escravos que os romanos não foram capaz de conquistar”, ensinou-me ela. Eu agradecia...um par de vezes disse-me que sonhava comigo, eu curioso, queria saber o que sonhava. Ela: "Aí não! É só comigo, tenho vergonha de lhe contar..."...outra vez desafiou-me "o Sr. Doutor comprimenta as senhoras com um beijo e a mim nada..." Lá fui eu, beijei sua bochecha e ela feliz com esse carinho, “...não vou lavar a cara nos próximos dias..."!! Num lar de idosos havia pessoas que morriam, eu sabia e vinha-lhe contar e a minha muito querida amiga rezava terços pelas suas almas durante três dias porque "ele está no julgamento divino e com o terço ajudo-o….". Com a passagem do tempo, a minha maravilhosa amiga emagreceu e passou de mulher forte a elegante, linda, bem vestida a uma senhora mais querida ainda na sua magreza. Ela adorava a minha mulher. Tinha sempre um presente para ela nas suas visitas com beijos sem fim. Cara de porcelana, uma beleza velha desperdiçada, querida por todos no lar: ela não grita, não se zanga, opina e tem sido ouvida como ninguém, com uma dignidade sem arrogância que a todos cativa. Não fosse eu casado e amante da minha mulher a teria namorado, essa dama que quando uma descendente minha retirou-me com maldade o uso do meu telefone ela deixou-me usar o dela sem pagamento. Minha mulher ofereceu-lhe uma cruz dourada com pedras de cores de fantasia e ela a todos dizia que era um presente de ouro com pedras preciosas, porque não podia ser por menos vindo de uma senhora que ela, essa minha antiga amiga gorda depois elegante e muito bonita, mas mesmo muito bonita, recebeu da sua amada amiga, minha mulher. Essa minha querida matrona elegante e calma entrou ontem na eternidade e hoje vai ser enterrada, eu a choro profundamente mas aceito a realidade com calma, não tenho outra opção, descansou...Querido Diário, vamos lembrá-la enquanto estivermos vivos e vamos nos encontrar na ressurreição em que ela acreditava.



Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Janeiro 2025


sábado, 14 de dezembro de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra


 A memória dos meus velhos


Eis-me irritante, meu Diário amigo, por essa crença das pessoas todas, dos velhos sermos esquecidos, não entendermos, não dizermos o que pretendemos, termos só memória do passado e ignorar o presente. No entanto, somos pessoas prioritárias em qualquer fila, deixam-nos passar primeiro nas ruas onde os carros param à nossa passagem. Vejo-me obrigado a agradecer mexendo a minha bengala em gesto de cumprimento. Faz pouco fui convidado a ver uma peça de teatro com a minha família. No foyer éramos uma multidão à espera do começo da obra. Os mais jovens, corpos ágeis, tinham aparecido primeiro e estavam sentados nas escassas cadeiras; o meu enteado mais velho e a sua mulher procuraram sítio para mim porque tínhamos chegado mais tarde devido ao meu caminhar lento; uma senhora amável levantou-se e convidou-me a usar o seu sítio contra todos os meus princípios de “ladys first” e dizer, como era meu hábito à mulher que me oferecia a cadeira e à mulher do meu enteado que elas é que deveriam ter prioridade. Princípio que ninguém queria aplicar, eu era um velhinho magro e tremido por estar em pé; eles eram amáveis entendiam a realidade, eu por minha vez queria usar o tradicional “mulheres primeiro” que tinha norteado quase oitenta anos da minha vida…Como é que uma mulher, ainda por cima bonita, ia-me dar o seu lugar?…

               Os velhos não somos pessoas que esquecemos, somos seres de princípios.  Estes princípios têm mudado com a passagem do tempo. Os nossos corpos resistem um pouco, cansamo-nos, custa-nos muito admitir essa realidade. Talvez uma simpatia devesse acompanhar essa gentileza de quem nos quer amparar para nos ajudar, sem acanhamento: um sorriso, uma palavra amável para nos aceitar, uma abertura e argúcia a outras realidades. Ó Diário querido como educar os jovens para serem espontâneos no seu apoio, com alguma imaginação e sem vergonha nem embaraço pela caridade que fazem. Caridade essa que entendo ser a atitude má. Ser caridoso é o que nós os velhos rejeitamos porque salienta a nossa inutilidade na interação social. Na sociedade capitalista da concorrência é a forma de mostrar que somos inúteis na produção, de nos sentirmos pouco ativos na vida social, especialmente depois de termos passado a vida a criar e orientar outros, a criar filhos para serem interativos. Fomos criados numa sociedade que entende que a realidade deve ser caridosa e que obriga a socorrer os velhos…Dizem de nós: “Eles não sabem, coitadinhos não entendem, esqueceram!” Tudo isto é indigno de nós.

               Tenho uma querida amiga entre os meus velhos do lar que fartava de dizer a todos os que queriam ouvir que ela era filha dum senhor que compunha música e escrevia poemas na sua casa da aldeia A, da freguesia B, do concelho de C, do distrito D, onde ela tomava conta do rebanho de cabras e ovelhas todo o dia enquanto ia lendo histórias; após sete anos de contar isto a todos, agora só lembra este facto se lhe é perguntado com simpatia numa conversa normal, com carinho e estímulo. Tenho reparado que este carinho e apoio estimula a memória que outros dizem que não temos, uma memória atrapalhada pelo medo dos que mandam, dos que decidem. Um temor destas nossas crianças que rapidamente no tempo passam a ser autoridades no lugar em que dantes éramos nós a organizar a sua vida. Não reclamo o status quo, não peço para parar a sociedade na geração anterior, só digo que não queremos condescendência, queremos igualdade no tratamento e amor na interação. Não queremos que gozem da nossa conversa, menos ainda fazer pouco de nós, mas queremos que seja aceite sem ironia a realidade que vive o adulto maior; se se aceita com alegria e estímulo o que uma criança inventa como realidade, porque não fazer igual com a criança velha? 

Tenho reclamado esse respeito ao longo da minha vida em livros e ensaios, mas nunca tive aderentes a essa ideia.

Tenho tido companheiros de quarto que se sentem atemorizados quando chegamos ao pé deles, gritam e pedem ajuda, como esse senhor acometido com o mal degenerativo de Huntington que, por casualidade, um dia perguntei-lhe quem era esse lindo rapaz numa foto que tinha ao pé dele, se era filho ou amigo. Ele parou de gritar e disse-me com orgulho ”esse sou eu aos meus vinte anos”. Comecei a falar com ele sobre a sua vida dessa altura, e ele passou a contar-me das pessoas namoradas que tinha tido e, na sua difícil maneira de narrar, disse-me do colega que o tinha seduzido e da mulher que o tinha abandonado pela sua doença. Desde aquele dia pude acarinhá-lo, ouvi-lo, perdi o medo, pude beijá-lo. Um carinho que ele passou a esperar da minha parte porque mais ninguém lhe falava ou acariciava. O medo que eu tinha com os seus gritos passou com o amor que lhe dei e ele por seu lado acalmou. Nenhum homem beija outro na nossa cultura pelo temor de ser qualificado como gay. Com esse medo os machos batem nos outros machos quando é necessário. Para acalmar e apoiar os meus colegas do lar, apenas os funcionários não cristãos tocam e beijam esses velhos doentes. Com eles aprendi e assim a memória volta, e torna a vida calma, volta a simpatia, a comunicação… o medo desaparece, esse medo que faz gritar. Também deste colega de mesa, que sempre dizia que nada tinha para dizer, descobri que tinha uma filha e uma sobrinha com as quais não se dava muito bem, mas foi-me contando a vida da sua descendência e do seu passado. Até ganhou peso, antes aprisionado num corpo magro de solidão, depois de ter socializado seu problema.

                A falta de lembrança também ocorre pela falta de contacto com a  normalidade da realidade criada nas pessoas pela demência senil ou doenças neurológicas que aparecem com a idade. Assim como a senhora que fala com a sua irmã defunta e que quando eu aceitei esta conversa como um facto real, ela passou a sentar-se ao pé de mim e a me contar as suas conversas com a morta. Facto que eu contei às suas filhas e a partir daí, sem dúvida, conseguiram melhorar a sua relação com a mãe. Eu próprio tive uma filha que inventou uma família que dormia na casa de banho da nossa casa. Ela não conseguia dormir sem antes ir deitar a sua família inventada que para ela tinha existência material. Se aceitamos a realidade inventada com respeito, carinho e inteligência para uma criança, porque não se aceita também a realidade inventada pelo adulto maior.

               Os velhos não esquecemos, a nossa verdade é que é diferente da histórica, até por motivos de limitações fisiológicas e biológicas. É difícil viver na interação da concorrência e do lucro para o que já não temos nem informação, força, apetite ou entendimento. A maior parte de nós não pode realizar operações bancárias ou mesmo de comunicação porque hoje em dia tudo é digital e virtual, até o dinheiro pelo que lutamos uma vida inteira transforma-se em números abstratos - nunca o vemos, é imaterial. Como é que se pode pretender que o velhinho se lembre da materialidade que sustenta a memória se hoje ela é completamente diferente? Hoje em dia há barrigas de aluguer para a reprodução humana, matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, morte assistida, divórcio, namoros que começam pela cama, valor das palavras na mesma língua que tem diferente significados. É uma sociedade absolutamente diferente para o qual o velho ou velha, este adulto maior, foi educado e que as religiões persistem em impingir como verdade dogmática contra os princípios que agora governam a interação…  A maior parte da sociedade está condenada a não lembrar o que não viveu… Com carinho é que se entende as recordações e realidade deste ser que já é de outra história. A falta de carinho dá medo e o medo faz esquecer.

Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Dezembro de 2024 


terça-feira, 19 de novembro de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

Alegrias no Lar

 Tenho a impressão, Diário amigo, que não sou capaz de deixar de expressar nas tuas páginas que a vida no lar, em que resido, também tem as suas piadas…falo de funcionários, de utentes perdidos…mas não tenho falado das confusões que também se geram aí...seria como não entender as palavras ou as conversas que a minha segunda irmã, já falecida, gostava de contar, como esta história:

“Era um capitão dum barco de turistas que no meio duma tempestade chamou um marinheiro que era gago e disse-lhe para atirar a âncora para parar o barco porque este estava a soçobrar. O marinheiro gago que mal entendia as palavras e mal avaliava as situações,  ripostou ao comandante: “pois é capitão,  é melhor so-sobrar do que fa-faltar…!” contava a minha falecida irmã quando brincava em vida. Eu ria como um possesso com a história do jovem marinheiro gago que confundia “soçobrar” que quer dizer afundar com o “so- sobrar” que era a sua forma gaga de dizer sobrar… Era uma irmã divertida, como o era também o escritor espanhol Jardiel Poncela do começo do século XX , que narra no seu espantoso livro “La Tournée de Dios” que o criador numa anunciada visita à terra apareceu num balão Zeppelin... Os notáveis da terra o esperavam em formação no cimo dum monte, com o representante da divindade na terra, o Papa na frente da fila; Deus desce do Zeppelin, um velhinho magro, pequeno, com uma pequena mala na mão direita e vestido de fraque, olha  indeciso e com temor para tanta gente aí reunida, hesita e avança duvidoso para um senhor vestido de vermelho, ajoelha-se e diz com temor:  “Santidade…” e beija o chão… o cardeal em questão sente-se embaraçado e lhe diz com medo “meu Senhor, não sou eu… é esse pequenino vestido de branco que está aí…” e dissimuladamente o cardeal aponta várias vezes com o dedo para ao lado e Deus diz…”Desculpe, é que há tanta gente… e faz tão pouco tempo que mudaram o meu representante na terra que fico confuso… também já estou tão velho que me engano…”

Se o marinheiro curtido equivoca-se, se a divindade engana-se também, o que não será Diário querido dos enganos dos meus velhos do lar! Era essa capacidade de se equivocar que vários de nós usamos maldosamente para nos divertir com os nossos colegas utentes. Foi o que eu fiz vezes sem conta com a minha querida amiga de mesa, essa senhora gorda que adorava a hierarquia das classes sociais do qual eu tomei vantagem e disse-lhe um dia que: “as pessoas da alta usam a colher e não a faca para comer”. Ela de imediato pousou a faca, e passou doravante a usar a colher para comer;  olhava para mim com um porte altivo, elegante, com uma certa arrogância no seu visual e passou a aconselhar a todos usar a colher em vez da faca para comer… Todo o lar come agora com este talher tão prático que até os funcionários o aconselham e todos o preferem. Duma brincadeira nasceu uma forma de comer bem mais prática  para os velhos. Ou também o problema do garfo… em que sugeri, também à minha gorda amiga… “que os dentes do garfo devem-se pôr para baixo, como o usam as marquesas e condessas para não se picarem os dedos”; essa minha amiga acreditou e assim passou a fazer e foi imitada por vários utentes que se orientavam pelo seu comportamento. Na visita seguinte da sua família ela apareceu com ar de orgulho e disse “sou agora uma condessa e como como tal …o Sr. Doutor ensinou-me” e a família ficou feliz por vê-la tão bem disposta. “Parabéns Sr. Doutor parabéns por diverti-la!” Sem eu lhes dizer o que eu me tinha divertido com estas anedotas. Como o caso de outro colega de mesa que adora comer e repetir o prato, esse grande e gordo amigo meu, que a todas refeições dizia: “senhora cozinheira não me dava mais um pouquinho, um nadinha de comida a mais , por favor, uma nadinha...”. Eu advertia: “Ó senhora cozinheira não se engane, é só uma nadinha, meia batata, meia colher de arroz apenas…e o colega de mesa, educado e tímido como era reforçava…”pois é cozinheira é mesmo como o Sr. Doutor diz…”. Felizmente ninguém ligava ao que nós dizíamos e o prato da segunda vez aparecia cheio. Foi assim que esse meu amigo aumentou mais vinte quilos de peso. Até lhe é difícil andar agora! Passou de setenta a noventa quilos, facto quase inédito numa casa de repouso sempre a poupar para não gastar, mais inclinada a poupar para lucrar e repartir esse dinheiro poupado aos velhos pela família proprietária… Uma família que brinca com a vida dos utentes. Assim quando aparecem na casa de repouso vão logo directo desligar os aquecimentos dos quartos ou retirar o aquecedor da sala de convívio aquecida agora só pelo calor humano dos vinte e tal utentes apinhados nesta sala. A outra sala de estar antigamente usada, que é excelente, com sol e vista para o jardim e para as árvores foi suprimida por “ordem superior”…antes fosse brincadeira, pensava eu..,queria eu..,sonhava eu…

Essas brincadeiras com os meus colegas utentes não eram apenas minhas, a minha amiga gorda um dia disse-me que eu não era doutor nem merecia ser assim chamado porque eu andava a namorar com uma senhora utente que não prestava, dizia ela, porque nem sabia como me tratar, nem sabia dizer-me sr. Doutor como ela fazia…e essa minha amiga gorda deixou de falar comigo durante dias a fio; foi uma situação incómoda a de estar na mesa com quem estávamos habituados a falar, com quem tínhamos falado durante anos e que eu queria como amiga verdadeira. Felizmente a acusada de conviver comigo disse um dia a esta minha amiga que ela era uma esposa devota ao seu falecido marido, acrescentando que de certeza a senhora gorda também o seria. Então ela reconsiderou e sem explicação nenhuma começou a falar-me outra vez e desta forma um dia disse-me: “O senhor Doutor merece todos os complimentos porque  Deus o fez Doutor." Foi a melhor brincadeira da minha vida. O que eu tinha suado para ser doutorado, os anos de pesquisa, os montes de livros estudados, o sacrifício da minha família e agora no lar, a minha beata amiga pensa que tudo o que é bom desce desde do Criador, sendo nós uma pura porcaria que deveríamos agradecer e ficar calados! Engano que todos sofremos pelo ensino da Santa Madre…Igreja …Católica…uma simpatia dos cónegos que ensinam a palavra de Deus. Meu Deus! Santa paciência…! 

Os enganos são grandes, não só o do marinheiro mas também os dos dons atribuídos à divindade. Outro  engano divertido surgia à hora do jantar quando  um amigo de 92 anos telefonava à sua namorada e lhe dizia “...meu amor já estou na bicha do jantar”.  Era todos os dias corrigido por outra minha amiga utente, que dantes dançava comigo, mas que tinha perdido a sua capacidade de andar e que desde o seu confinamento numa cadeira de rodas ouvia, mandava e dizia-lhe, aos gritos;  “ não é bicha!...é fila! …bicha é homem que gosta de homem!” O  namorado apressava-se a corrigir, ou seja, sofria desse mal mundial que pune a quem ama pessoas do seu mesmo sexo, o que felizmente está a mudar… o amigo de 92 anos morreu antes de mudar de opinião. A amiga da cadeira de rodas não vai mudar facilmente como não muda para me dizer diariamente e várias vezes “Como está hoje Sr. Presidente Américo Tomás!” Dizer-me isso a mim que estou em Portugal por causa duma ditadura que combati, passei assim, vivendo num lar, a ter os poderes de outra ditadura que nunca conheci. Uma delícia de brincadeira!

São os divertimentos dos que não sabem que confundem a história da humanidade porque vivem noutra realidade chamada doença senil, como essa outra utente que entrou a falar francês aprendido da sua emigração de trinta anos em Paris e que após sete anos de vida no lar só canta em português as música da nossa Amália ou o hino de Fátima.  “A 13 de Maio…” Que nem Deus nem os gritos dos outros utentes conseguem calar; ou o caso do homem que vai a caminho aos 100 anos e que me chama “doido do caralho”. Um novo nome que este senhor criou para mim e que cada vez que não faz chichi na porta de entrada do lar vai à casa de banho que eu uso e quando eu entro ele entra também e diz-me “saca o seu caralho  para cruzar a sua mija  com a minha, como eu fazia com os meus amigos quando batíamos punheta todos juntos…” e  eu fujo antes que queira bater punheta comigo … . Eu nem reporto o caso à direcção, só ia arruinar a reputação do senhor centenário e não ia curar a demência senil de que sofre e que um dia o vai matar…

É uma risada o que conto e que tem divertido a minha vida no lar, na casa de repouso que tenho habitado há quase uma dezena de anos. Se não procurar esses divertimentos que o Mozart fez com a música no séc XVIII como ia eu poder viver e guardar comportamento adequado ao meu entendimento. Eu faço rir os mais próximos, os mais amigos, os colegas de mesa, mas até certo ponto apenas, porque uma não ouve, outra não tem voz, outro só fala para dizer que nada tem para dizer e… só fala para pedir mais comida ou para dizer “não me chateiam a cabeça…não me dêem  banho, não quero, nasci limpo…”,
pois é assim também como ele se cheira… É como um galinheiro em que a convivência de galinha, patos, gansos que tenho tido o prazer de cuidar ao longo da minha vida, bicam-se, os machos batem nas fêmeas, como é comum acontecer entre humanos…os mais grandes sempre batem nos mais pequenos como se o seu corpo fosse o capital que dá lucro que permite o prazer. É a alegria dos seres humanos que sabem bater nos mais perdidos…Diário querido…alegrias do lar…

Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, 16 Novembro de 2024 


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra


 

Noite Irritante


Quando chega a noite, Querido Diário, começa o meu eterno problema:

 “Será que eu vou dormir ou não? Será que o meu colega de quarto vai dormir para eu dormir também?”

Tenho tido sucessivos colegas de quarto, como tenho narrado antes, cada um com feitios e preocupações diferentes. O meu primeiro colega foi o cego que gostava de ser chamado o “garanhão do lar” porque tinha seduzido várias senhoras, as velhinhas nossas colegas utentes que gostavam dele. Elas o disputavam aos murros entre elas, com uma certa cumplicidade minha para o advertir quando via “mouros na costa”, quer dizer os funcionários a vigiar comportamentos. Era um colega de quarto que mal me deixava dormir porque apesar de tanta atividade sedutora deitava-se cansado, adormecia e ressonava… Outro problema ao que me tive que habituar e…habituei-me!

Em toda a minha permanência no lar deitava-me cedo para acordar cedo. Comecei por me deitar às dezanove horas para acordar às quatro e quarenta e cinco. A minha esperança era poder adormecer a pensar na minha família distante e imaginar minhas filhas como pessoas queridas e sábias. O que eu não sabia era que este poder dormir cedo e acordar calmo era devido aos sedativos que me eram prescritos pela  minha descendente psicóloga clínica e tutora. Uma antiga médica do lar achou essa medicação excessiva e, com a sua sabedoria e a minha resiliência, ajudou-me a mudar a receita. Preferia eu com o seu apoio ser dono de mim e do meu pensamento. Elaborei uma estratégia para me controlar. O meu comprimido para dormir acabou e depois de vários dias a dormir pouco e mal, aprendi a descansar a noite toda: eu meditava sobre uma ideia e dava voltas e voltas a essa ideia até que essa cansativa reiteração aborrecia-me e adormecia, após ter feito uma respiração profunda de dez ou quinze inspirações e expirações de ar que tinha aprendido no yoga. O medo de não dormir, no entanto, estava sempre presente mas lembrava-me da dita médica, da sua simpatia, da sua gentileza, da sua amabilidade e essa lembrança acalmava-me, conseguia retornar ao meu pensamento e adormecia. A verdade, Querido Diário, é que o medo da insónia é duro, é pesado, amedronta. Sem a medicação instala-se esse estar calado a pensar nos problemas da vida quotidiana. É uma dor que não recomendo, é uma ansiedade que nos mantém despertos e gera um problema de convívio no dia seguinte; não podia queixar-me a ninguém porque arriscava-me a automáticamente  ser me receitado de novo o calmante para adormecer e me ser retirada essa liberdade de escolher o meu próprio comportamento. Viver a minha realidade, viver a minha escolha, que era o que eu pensava quando acordava no meio da noite. No meu pensamento estava sempre presente a minha aprendizagem ao longo da minha vida intelectual, quando estudei e escrevi sobre as idéias de Emmanuel Mounier, Jacques Maritain, Tomás de Aquino e Aristóteles. Essas ideias eram fruto do debate secular sobre predestinação e livre arbítrio que caracteriza tanto o oriente como o ocidente sobre o destino da humanidade. Era eu um entusiasta apoiante das ideias de Agostinho de Hipona, séc. IV, que defendia duramente que éramos livres para pensar e agir e assim salvar a nossa alma. Um destino que Jean Calvin de Genebra do séc XVI argumenta que a nossa salvação já estava pré-destinada. Salvar ou perder a alma para os que acreditam nela, um debate que leva mais de três mil anos na arena intelectual. Com esse debate e essas teorias no meu recordo durante noites irritantes, ia adormecendo enquanto assim fugia do lar em pensamento. Era essa uma questão que não inquietava os meus colegas utentes cujo livre arbítrio, tanto defendido para mim e para os outros, estavam perdidos na demência senil, no alzheimer e na obedência ao credo católico e nos calmantes administrados para passar a noite e não escarafunchar a paz do recinto chamado “casa de repouso”. Era um debate impossível num lar de não livre escolha; pensava eu enquanto arguía para adormecer com a predestinação calvinista e com a tese da igreja escocesa presbiteriana de condenação e o dito livre arbítrio dos católicos. Deus punia pelos tantos pecados cometidos durante a nossa vida  e nos lança para o inferno, essa delícia da chamada Santa Inquisição. Nem ideia tinham os meus meus queridos velhos desse secular debate, desse meu debate com os meus professores dominicanos, em que pensava enquanto pretendia adormecer, eu, homem sem crenças fazia já muito tempo. Assim ia cansando o meu pensamento e a minha mente, e, adormecia. Levemente lembrava-me que era um debate começado por mim aos meus 14 anos e que na noite irritante dos meus oitenta, ajudava-me a dominar a ansiedade que causava a insónia… livre, predestinado, livre, predestinado…e aparecia essa menina nua na minha cama e assim reparava que sonhava, quer dizer, dormia, sonhava, via as horas e reparava que tinham passado horas … santo céu!... sempre ia descansando. Tornava a pensar em Aristóteles  e a leitura desses livros proibidos feitas pelo dominicano Tomás de Aquino no séc XIII, que para não pecar tanto lia os escritos do árabe Averróis sobre Aristóteles…um sábio Islamico cujos textos iluminaram Aquino que por sua vez defende a minha apreciável liberdade de escolha…e ia eu pensando, nesse meio acordar, meio dormir da uma da manhã, o que vou eu dizer à minha amiga quando às cinco da manhã lhe envio a minha mensagem habitual no computador que uso no lar e com essa preocupação tão material e terrena tornava a adormecer…Uma motosserra a atroar  acordava me outra vez às três da manhã…era o ressonar do meu companheiro de quarto, o garanhão, ressonar profundo, duro, barulhento…dei-lhe um grito e calou-se mas entrou a funcionária da noite a pedir silêncio e com voz exacerbada…”Os senhores nem me deixam descansar no turno da noite, gritam tanto”. Pensei que não era bom rispostar, o que me iria criar outra causa de insônia, e assim deixar a funcionária da noite dormir no seu turno… ainda eram três e meia da madrugada. Era possível dormir um pouco…um par de horas…não se descansa…a aula acabava…havia palmas…eu corado fazia reverências como quando estrelava numa peça de teatro na minha juventude…era mais uma vez a funcionária da noite a bater as mãos “acordar, sair da cama!…”...não havia liberdade de escolha tomista…a funcionária não sabia disso, mas sabia que queria ir embora para casa, para dormir após um dia e uma noite de trabalho. Levantar todos os velhinhos às cinco da manhã permite-lhe sair às sete. Já não pensei mais estava descansado por ter conseguido dormir algumas horas,  podia ir escrever após o meu duche quotidiano e descrever no meu diário mais uma noite irritante com o medo da insónia que a dinamiza… e esperar a passagem do dia… para dormir no sofá e depois à noite voltar para a minha cama com esse típico medo da insónia numa casa que repousa com calmantes…santa paciência!


Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

Os velhos somos também pessoas que amamos.

A afetividade no lar. 


Lembras-te, Querido Diário, que temos falado de perda de identidade no lar. Parece-me que a pior das perdas é a falta de amar e sermos amados. Somos criados na vida social como construtores da identidade amorosa, como criadores de afetividade. Começamos por amar os nossos pais, continuamos pela empatia com os nossos irmãos, parentes e amigos. Amamos e gostamos de ser amados pela pessoa que nos pode acompanhar durante a nossa vida; se temos filhos tomamos conta deles e se é uma relação não reprodutiva ou adoptamos ou amamos os dos amigos. Não é preciso consultar Freud ou seu discípulo Donald Winnicott para entender que querer e desejar são actividades muito próximas: quando queremos alguém, normalmente queremos tocar essa pessoa, não apenas dar a mão ou um golpe no ombro ou um braço pelo pescoço, também queremos abraçar estreitamente e beijar. O costume ocidental é homem beijar mulheres e vice-versa, crianças beijar adultos, adultos acarinhar pequenos.


Estes factos não existem nos lares onde tenho vivido  exceto raras ocasiões de intimidade entre homem e mulher. Não há solução para a falta de abraço estreito, menos ainda o de beijar exceto, como eu aprendi a fazer com adultos com doenças senis ou degenerativas que precisam de contacto físico afectivo: dar a mão, trocar palavras, acariciar. É uma forte dor não ter ninguém para abraçar. Donald Winnicott descobriu o que tenho analisado num outro livro meu e diz que a partir do quarto mês de gestação a criança em formação desenvolve afetividade erótica e normalmente quando um pénis erecto entra numa vagina com um bebé em formação, este feto mexe e tenta expelir o intruso que penetra a essa futura mãe.

 

O amor e o desejo existem no lar, especialmente  entre adultos com camaradagem prolongada. Tive no meu quarto um colega que passado um ano de conversas sobre a sua família filhos e mulher sobre qual ele sempre falava, perguntou-me um dia: “Ó Doutor acha que faz mal que eu bata uma punheta”, “ó meu amigo só não faz mal como é o hábito de pessoas sós e desde criança, bata que é bom para si”. Prudentemente eu me retirava do quarto quando ele parecia excitado e respeitei a única intimidade possível para um velho num lar. Única possibilidade erótica para idosos, cabelos brancos, rugas, com falta de excitação exceto se é estimulado. As pessoas mais novas procuram seres da sua geração que permitam um desejo mais agradável. Nós os velhos também queremos ter interacção sexual mas dificilmente se torna possível com pessoas mais novas que não se sentem atraídos por nós. No lar a vigilância é tão estreita que ainda que haja atração esta não se pode materializar.


Eu tive a tentativa de sedução dentro do lar por uma amiga de longa data que me contava os sonhos eróticos que ela tinha comigo. “Ó Sr. Doutor, ontem à noite sonhei que o senhor me penetrava e eu sentia-me feliz, tive que brincar com a minha “patareca” para me satisfazer. Eu replicava “fico feliz de saber que a satisfiz, ainda que na sua fantasia”, “Sr Doutor não queria meter-se na cama comigo?”, “Ó minha senhora era uma grande honra mas cá está proibido” “quem, quem proibiu…, fazer amor não é pecado”, “minha senhora é pecado para os que mandam no lar e não permitam que nós dois possamos brincar”. Contudo não havia dia que eu não fosse de manhã  visitar a senhora desde a porta do seu quarto, não havia noite que eu antes de deitar não fosse ao quarto dela para lhe levar bolachas que ela esperava com prazer e fruição. Não era só a bolacha que ela esperava, era também a carícia na sua mão e a minha voz que lhe pedia que tivesse doces sonhos e que não falasse com as suas colegas de quarto para ela dormir e elas descansarem bem. Ao longo de 9 anos habituamo-nos à simpatia de falarmos, comer na mesma mesa, mudar o canal de televisão para que possa ver o que ela queria até que esta minha amiga foi removida da minha mesa e lhe deram o seu lugar sentada noutra sala. A nossa amizade foi interrompida pela autoridade do lar, não apenas não podíamos materializar nenhum desejo bem como a nossa troca de ideias e conversas foi acabada. Não é apenas o desejo proíbido bem como o cultivo da amizade pura e casta que  também foi acabada. Só foi possível retomar nossa conversa quando ela começou a perder a sua memória e o contacto com a vida real e voltaram a dar-lhe o seu lugar no sofá junto ao meu no corredor da entrada, não pela nossa amizade mas bem por conveniência do lar. Foi assim que, sentada ao pé de mim, eu ouvia as suas histórias, tomava conta dela, chamando um funcionário quando os chichis e os cocós saiam da fralda para o chão e pedia a mudança de fraldas quando já estava toda a roupa empapada. Foi uma amizade aceite porque passei a ser útil nesta casa de repouso para uma utente que já não era capaz de controlar os seus esfíncteres. A  utilidade é o que manda nas relações do lar.


Não apenas eu tive este contacto simpático na nossa vida em comum, também havia um outro colega de quarto praticamente cego que namorava uma senhora utente da sua geração e que tinham de fechar a porta do quarto para eles se acariciarem despidos e eu tinha que avisá-los atempadamente quando iam aparecer funcionários que proibiam o amor entre velhos. Nunca me esqueço dessa primeira vez que entrei no nosso quarto e ele estava sem calças nem fraldas e ela despida sem camisola e sem soutien. Esta primeira vez ela gritou e como ainda era mulher ágil, saltou da cama e correu de volta ao seu quarto aos gritos “meu Deus, meu Deus, que horror, desculpa…” foi a partir desse dia que eu falei com o meu colega e pedi-lhe para ter mais cuidado na sua sedução. Ele ria e disse-me que ele era o “garanhão do lar”, que estava aí para amar e fornicar com essa e outra velha que gostava dele e o perseguia usando as suas mão para o esfregar entre as pernas e ele feliz, satisfeito com a sua vida erótica do “velho mais ativo sexualmente” do lar.


Havia formas simpáticas de usar a líbido proibida, especialmente dar-se as mãos, trocar beijos, ouvir declarações de amor. Não esqueço esse senhor que estava sempre a solicitar os amores de uma idosa que ele queria, mas era-lhe proibido declarar-se abertamente. A afetividade e o desejo apareciam de outras formas como o de essa senhora que dançava comigo quando havia festas e saídas para o jardim da casa mas que acabaram quando ficou confinada numa cadeira de rodas por se ter acidentado e partido o osso da perna no seu eterno andar pelos corredores do lar. A partir daí a afetividade passou a manifestar-se nas sessão de jogo do bingo,  a beijar-me e dar-me a mão quando eu ia a falar com ela na sua cadeira e dizia-me “Ó Sr. Presidente Américo Tomás dê trabalho ao meu filho que não consegue juntar dinheiro para mim”, “Senhor tenente ande cá dê-me a mão e acaricia-me as bochechas e beija-me”. O que eu fazia para a sua alegria e satisfação. Ou aquele senhor habituado a estar com a mãe e a irmã em casa deles mas que no lar não tinha a quem acarinhar e chamava-me aos gritos, agarrava as minhas mãos mas beijava e punha as suas bochechas a jeito para eu as beijar e, às vezes, beijava-me nos lábios, ele feliz e eu complacentemente  entendi a sua necessidade de afecto. Tanto assim que sem me chamar eu ia de modo próprio à sua cadeira de rodas acariciava as suas mãos e beijava-o com simpatia. Às vezes ia ao seu quarto onde era levado por causa dos seus gritos, o acariciava, o acalmava e ele parava de gritar.


A afetividade no lar é muito controlada. A maior parte dos idosos raramente recebem visitas porque os seus parentes estão a trabalhar. Quando os parentes vão visitá-los, falam com eles, levam-lhes lanches ou bolachas ou frutas e o idoso ou idosa visitado passam a ter a sua afetividade satisfeita por um tempo. Quando os parentes vão embora procuram uma pessoa amiga entre os colegas utentes para, pelo menos, conversar. A afetividade como eu dizia está reduzida ao mínimo ou a carícias que alguns funcionários, especialmente os estrangeiros, dispensem aos utentes. Nunca esqueço este primeiro ano de atividade de um funcionário que mal entrava de turno comprimentava com beijo nas bochechas todos os idosos sentados na sala de convívio. Ou as funcionárias não portuguesas que atribuíam aos idosos  diminutivos ou alcunhas, criadas por elas.  Mas também há as senhoras funcionárias que abraçam e beijam os utentes com senilidade menos avançada, com abraços estreitos, apertados e excitantes. Todos eles ficavam felizes de serem assim amados por pessoas que exercem autoridade sobre o comportamento dentro do lar.


O que mais me admira é a suavidade e a paciência com que funcionários muito crentes na divindade sorriem, acariciam, abraçam, contam histórias a pessoas que de outra maneira não teriam ninguém em quem se apoiar para amar e serem amados. A afetividade é procurada por quem viveu uma vida inteira a procriar, educar e produzir. A afetividade é um bem precioso que quando estamos mais combalidos e solitários e sem ninguém para tocar, procuramos a simpatia de quem, mas nem sempre, nos pode amar. Uma das formas que alguns dos utentes têm de exprimir a sua emotividade é gritar, vilipendiar, chamar nomes, inventar histórias que vários dos outros utentes rejeitam ofendidos. Já tinha referido no capítulo anterior a senhora de 94 anos que grita “puta, bêbada, caralho” que acorda nos outros, especialmente nas suas colegas de mesa uma raiva que se manifesta em gritos de zangas, às vezes em muros com que as ofendidas tentam defender o seu bom nome que tanto estimam.


Não consigo esquecer um funcionário, que deixou de trabalhar no lar, que vivia com o seu companheiro, sargento do exército, na casa maternal e que por hábito dava nomes simpáticos a toda a população idosa do lar. Eu fui batizado por ele de “doutor charmoso”, especialmente quando eu vestia calças brancas e camisola vermelha, ele vinha me abraçar estreitamente e me beijava; fiquei triste quando ele se foi embora para um sítio melhor. Ele normalmente contava-me as suas histórias de amor e de como mudava rapidamente de namorado porque nenhum deles prestava para ele; eu aconselhava-lhe e trocava ideias sobre o namoro, tal como eu falava com outros funcionários de suas famílias o que eles agradeciam; é mais uma forma de expressão da solidão afectiva que todos temos de uma casa tão fora da realidade social. A afetividade é tão deturpada que eu costumava sonhar que fazia amor com uma funcionária muito bonita mas de um temperamento espantosamente desagradável, distante e aos gritos comigo. Não permitia que eu saísse do meu quarto antes das cinco da manhã, a minha hora habitual que tive que adotar no lar. Não me dava o chá com açúcar medicamente prescrito para o meu acordar. Ela evitava comprimentar-me no dia dia e no entanto eu falava-lhe de forma simpática e nos meus sonhos a desejava. Normalmente ela não sabia do meu sonho como dos que eu contava a uma outra funcionária com a qual éramos amigos e riamos, estrepitosamente. Era assim como manifestava o meu carinho aos funcionários estrangeiros que também me iam contando as suas vidas e as suas solidões por estarem longe dos seus países. Eram tão exilados como eu, eu político eles de economia política. As nossas conversas pessoais ficam comigo por serem complexas e delicadas.

 

Os velhos somos pessoas. Os velhos amamos. Os velhos desejamos. Os velhos queremos fazer amor. Existe a pacata ideia de que passado setenta anos, nós, idosos, temos dado cabo do nosso erotismo. Com o que eu tenho referido, posso provar como é uma falácia; que é impossível satisfazer o desejo como o imaginamos, lá isso é verdade. Sim, como disse antes os velhos amamos e desejamos, mas o nosso desejo é abafado pelas leis da ética das religiões que impede uma relação entre duas pessoas que não estão casadas de forma heterosexual. É abafada pela crença nessa ética pela autoridade do lar e pela moral dos funcionários que nunca sei se é respeitada também na sua vida quotidiana. Os funcionários nos vêm com o olhar desta ética que exige que nós tenhamos um comportamento  de respeito dos costumes que não acredita na sinceridade do amor entre velhos para exprimirem a sua afetividade. 



Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Setembro de 2024 


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

A PERDA DE IDENTIDADE NO LAR


Nem tudo o que acontece no lar, querido diário, é resultado do eterno debate entre funcionários e utentes ao qual me tenho referido nas páginas anteriores. Entramos no lar já velhos, cansados, com uma história de vida marcada pelas nossas relações sociais construídas na interação com os outros. Somos pessoas resultado da nossa vida social, vivemos em nichos definidos pela dita interacção. Nascemos, somos filhos, um primeiro nicho social; se temos pila entramos na categoria de homem, se não, mulher. Desenvolvemos o nosso comportamento imitando os adultos que nos criam, que nos rodeiam, que acompanham o nosso crescimento, sejam eles familiares ou instituições que tomam conta de crianças. Em breve somos estudantes, somos enviados para instituições chamadas escolas para sermos introduzidos à cultura, à mente cultural do estado em que vivemos: somos preparados para sermos cidadãos do país em que nascemos e incutem-nos sabedoria de letras, sabedoria de história, sabedoria sobre o universo em que moramos; incutem-nos também a crença numa divindade e um comportamento religioso que define como agirmos com outros seres humanos; incutem-no sermos pessoas.


Os anos passam, cada época da nossa vida é diferente da etapa anterior: somos aprendizes, somos estudantes, chegamos à idade de amar e sermos amados, à idade de trabalhar e colaborar com a economia social, passamos a ser profissionais. Uma profissão seja letras, ciência ou trabalho direto, que nos introduz à economia, que nos dá salário, casa, emprego. Normalmente encontramos o nosso par, juntamo-nos, acasalamos, passamos ao estatuto de pais, criamos, educamos, orientamos. A nossa atividade muda de etapa em etapa e vamos ganhando uma identidade pela qual somos conhecidos no país de que somos parte. Somos cidadãos com responsabilidade ética, estética e afetiva. É principalmente o nosso papel de pais que define o nosso comportamento como um elo importante do nosso objectivo de vida: não apenas reproduzimos seres humanos, também reproduzimos saber para introduzir os seres humanos que criamos na vida social, como nós também fomos igualmente introduzidos. Sermos pais é o mais importante da nossa vida de interação. O nosso objetivo não é apenas educar, é também amar e ser amado pela geração de pessoas que temos estado a criar. Crescemos, envelhecemos, cansamo-nos. A geração que criamos devia tomar conta de nós e velar por um fim adequado de vida, calmo, tranquilo e economicamente funcional. No entanto, a vida social moderna tem organizado uma interação que retira os mais velhos da responsabilidade social directa e entrega-os a lares que os alimentam, os cuidam, os vestem, definem os seus parâmetros quotidianos.


A nossa identidade muda de sermos adultos responsáveis para sermos outra vez crianças que obedecem a um plano definido de comportamento individual. A nossa vida social muda, deixamos de ser entidades, passamos a sermos indivíduos obedientes.


Já não vou referir o que acontece com os outros colegas utentes do lar em que vivo como tenho feito nos outros capítulos do meu diário mas vou  passar a vasculhar apenas na minha própria vida. Um dia não consegui andar, colocaram nas minhas mãos um andarilho para me apoiar e continuar meu quotidiano como sempre tinha sido. Esta etapa não durou muito tempo: caía na rua, enganava-me nas compras, a minha gestão económica era-me difícil com o pouco dinheiro que me era pago cada mês pela minha reforma, pela mudança das formas do acontecer no quotidiano; entrou na nossa vida pessoal  a internet, os bancos passaram a serem geridos pelo computador, as compras eram feitas em linha, enfim um descalabro que me acontecia após 70 anos de uma construção histórica social liderada por mim próprio e a partir do meu entendimento. As formas de vida mudaram de tal maneira que era necessário uma nova educação para viver de forma autónoma como o tinha feito antes. Confiei que a minha descendência ajudar-me-ia, confiei que a minha descendência explicar-me-ia as novas formas de ação em função da minha nova etapa de vida. Não tive esta sorte. A minha descendência resolveu fechar-me num lar e referir que eu não entendia a realidade, que eu estava doente e não valia a pena explicar-me a nova vida social, e isolar-me do mundo que eu tinha ajudado a construir foi a solução encontrada. Eu próprio acreditei que era incapaz de perceber o mundo atual causado por doença progressiva, seria parkinson e demência vascular tal como me era explicado que doravante era a minha realidade. Felizmente uma médica do lar disse-me: Doutor Raul vamos parar com estas queixas e doenças, vamos diminuir a medicação que toma ao pequeno almoço, almoço, e jantar e a pouco e pouco vai se confrontar com a vida como ela é e não como a sua filha mais velha, a quem foi confiada a sua tutoria, lhe quer fabricar. Perguntei-lhe como iria eu fazer? Com paciência, com calma e boa disposição, respondeu-me a médica, e  quando precisar venha falar comigo para contar-me o que pensa, o que sonha e o que sente.

 

A partir deste momento foi uma progressiva viragem.

 

Assim no lar eu tinha todo o tempo para mim, estava isolado, não tinha passeios, não tinha visita dos meus amigos e colegas excepto o convívio com duas antigas estudantes de doutoramento que não pararam de me acompanhar, alguns passeios com uma antiga amiga de longa data e pelo convívio da minha filha mais nova que me visitava desde do estrangeiro um par de vezes ao ano. Visitas escassas devido à distância do lar do meu antigo local de vida e dominadas pela falta de partilha da vida social ativa.


Como disse antes tinha todo o tempo para mim e pensando como redefinir um convívio com os meus colegas de lar resolvi apoiar quem precisasse cada vez que fosse necessário, andar, ajudar os meus colegas a jogar ao bingo com a animadora cultural, ler livros sem fim o dia todo, escrever o meu diário de vida na sofá que uso, inventar conversas com funcionários amigos que me relatavam o que acontecia no mundo exterior. Raramente ouvia notícias, normalmente nunca aceitei sentar-me a ver televisão. Conseguir ler e escrever foi o meu objectivo de vida. Era difícil convencer as diversas diretoras do lar de como eu queria organizar a minha vida. Fiz-me amigo profundo de uma senhora com quem almoçava, conversava e ria. Esta senhora foi retirada da minha mesa e fui colocado com outras pessoas sendo assim o meu convívio organizado pela direcção do lar, por ordem de quem neste tempo, conforme a lei, era a minha tutora. Tive que lutar e com ajuda de poucos amigos e da minha filha mais nova, mandei o meu grito de ipiranga  recorremos ao tribunal de família e tempo mais tarde fui libertado da minha submissão a uma tutoria que me ia matando. A minha identidade foi recuperada pelo grande esforço e disciplina de vida que organizei no meu dia a dia: acordar às 5 da manhã, tomar banho, escrever e viver o dia entre comidas, conversas, reflexões e música. Tive sorte, e a pouco e pouco tornei a ser o Raul Iturra que eu tinha sido. Comecei a interagir em mensagens e telefonemas com algumas pessoas que quiseram responder às minhas mensagens e chamadas.

 

No lar é mais fácil perder identidade e submeter-se ao que define a direção por ordem da família. Falei com o proprietário do lar e pedi para ser tratado como um velho que não tinha para onde ir e aí morava por falta de acolhimento noutro sítio. O lar submete. O lar manda. O lar ouve a família e não o utente. O utente normalmente tem pouco para dizer e passa a ser como criança como falei nos capítulos anteriores. No meu caso infelizmente entendia o que acontecia e bati-me contra a disciplina e organização do meu tempo por outros. Aceitei horário de comida do lar, mas o meu tempo quotidiano foi por mim organizado: assim me entretive e os nove anos passaram sem eu reparar.

Somos pessoas. Somos adultos, somos pais, somos cidadãos. Tudo isso parece acabar quando se quer manter uma  disciplina no seio de um grupo de adultos que passa o dia a conversar e ver televisão, eventualmente a se entreter com as atividades de animação cultural. Há eleições nacionais, ninguém sabe e ninguém vota, ninguém vai às urnas. Apenas dois de nós temos seguido à risca a planificação política do país. Ninguém sabe o que se passa nem qual será o futuro. O nosso país prescinde das pessoas que moram em lares apenas orientados pelas suas famílias nas quais cada utente confia com profundidade e nos quais tem esperança de os ver outra vez numa próxima visita.


O lar faz perder a identidade de ser pessoa que a sociedade nos incute antes de sermos velhos entrando assim no fim da sua vida sem que saibamos para onde vamos, nem com quem, nem como. Eu gritei, pedi acesso ao tribunal de família e libertei-me do autoritarismo com que a lei manda tratar os velhos do país. Tentei recuperar a minha identidade mas choro pela solidão dos meus colegas que ainda estão fechados no lar sem saber para onde vão até um dia dele sair no seu próprio funeral.



Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga

Barra Mansa, Agosto de 2024


sábado, 22 de junho de 2024

Do Diário de Vida de Raul Iturra

 

A MÃE, UMA GARANTIA DE COMPORTAMENTO ÉTICO



Sempre pensei, Querido Diário, que a mãe era a mulher que nos gestava, dava à luz, criava e eventualmente ensinava. 

No lar onde resido ouvi a conversa da minha colega utente que fala com sua irmã, que só ela vê, a quem dizia:

  • Ó irmã, estou farta do comportamento da nossa amiga que sabes, porque rouba-me o marido e o dinheiro que tenho na carteira,

A irmã que ela imagina responde:

  • Como sabes que ela se deita com o teu marido?,

  • Porque os vi beijarem-se e abraçarem-se o outro dia,

  • Tens andado a espreitar?

  • Tenho!

  • Mas que coisa, isto não se faz, assim não recuperas o amor do teu homem,

  • Talvez não, mas tomo cuidado de que a mãe não saiba,

  • A mãe não sabe?,

  • Pois não!

Diz a minha colega utente em diálogo que ela reproduz do seu passado, que só ela conhece:

  • Enquanto a mãe não saiba está tudo bem porque não quero levar uma rebocada dela. Não quero que me diga outra vez “Ó rapariga, este homem não presta..”

  • Será que ela disse que não presta porque te faz sofrer?

  • Eu já não sei, irmã, se presta ou não, apenas não quero que a mãe saiba…


Eu fiquei perplexo como a minha amiga utente, que fala com a irmã, que se importa mais da opinião da mãe do que do comportamento do seu marido com a sua amiga. Até onde eu entendo seria mais provável dar mais importância ao relacionamento do casal, do que a conduta que mantém com a sua  mãe que um dia acabou, especialmente quando a filha se tornou mãe e a mãe avó. 

Esse respeito pela opinião da mãe o tenho também observado nas visitas quotidianas de uma imensa filharada, adulta e casada, de outra utente que não sai da sua cadeira de rodas; um dia vêm dois, outro dia três, a seguir uma filha só e assim sucessivamente ao longo das semanas. Todos eles  beijam-na, abraçam a mãe e às vezes dão-lhe o lanche como mostra de carinho, choram quando ela está perdida ou mal de saúde. Perguntam com ansiedade como tem sido o dia dela. Querem saber o que come, o que conversa, o que ela comenta. Têm-me dito que essa mãe foi quem organizou a vida deles todos até casarem e saírem de casa. Eles agradecem a entrega dessa mãe hoje em cadeira de rodas que não teve um minuto de sossego na sua dezena de gravidezes ao longo de 20 anos. Não é apenas dedicação mas é a orientação amorosa e emotiva que ela lhes deu ao longo do seu crescimento, período no qual essa mãe incutiu um comportamento religioso que ela cultivava em casa: terço em família, missa aos domingos, catequese e outros rituais religiosos com que a igreja católica ao qual eles pertencem os formou. 

Um comportamento que eu também vivi e não entendi porque nesse tempo os ritos eram numa língua desconhecida, uma língua morta que se denomina latim. Uma língua conservada no ritual católico para subjugar os membros da igreja que viviam no mistério dos motivos pelos quais os sacerdotes exigiam um determinado comportamento, especialmente na sexualidade e na emotividade.

          A Igreja Católica pensava que o entendimento da Bíblia, quer do antigo, quer do novo testamento, estava reservado ao clero que estudava e se preparava durante anos para espalhar a palavra de Deus e a liturgia que acompanhava o sermão. Que um secular entendesse estes textos, era heresia que bradava ao céu e que podia causar a condenação de quem não estava preparado para entender a palavra divina que sem preparação podia ser mal entendida. 

Eu não consigo esquecer os sermões que o missionário da terra em que nasci costumava dizer no sermão da tarde: “Em cima está o céu aberto, em baixo o inferno aberto também; entre o céu aberto e o inferno aberto, estamos nós suspenso por um fio que a morte pode cortar e  irmos cair no inferno ou subirmos ao céu. Porque é mais fácil cair do que se levantar”. E enquanto dizia isto brandia o crucifixo com um Jesus semi nu, morto. E ele dizia “será que este Cristo impede-nos de arder eternamente para nos levar a uma vida de alegria e tranquilidade?”. Não consigo esquecer o medo que a homilia me dava e admirando-me a preparação do sacerdote por incutir fé através do medo.

São estas ideias que a mãe da minha amiga que fala com a sua irmã, incutiu também na sua descendência. Eram também as ideias que a mãe hoje sentada na cadeira de rodas transmitia à sua filharada como me tem contado; eram também estas as ideias que a minha mãe me transmitia a mim porque nunca esqueço o dia em que me falou e me perguntou “Ó filho porquê tens tanta olheira”, “eu olheira minha mãe, não sabia”. “Tens, tens, teus olhos estão pretos por baixo das pálpebras, tens por acaso maus costumes?”. Eu sem saber o que eram maus costumes, por princípio de auto defesa respondi: “ não mãe, não tenho” e fiquei duvidoso de que seriam esses maus costumes. Corri e perguntei a um amigo meu da minha idade, os dois com 13 anos e contei-lhe a conversa e perguntei-lhe o que serão esses “ maus costumes”; Ele riu na sua liberdade de vida, filho como era de pais maçons e ateus,  “maus costumes, é o que a gente faz : bater punheta”, “Bater punheta, o que é isso?”, “É o que tu chamas de forma tão elegante masturbação”. “Ah.. então isso é um mau costume?” “ Pois é!” e riu… Eu fiquei espantado porque a mãe tinha me dito que um mau costume era um pecado que só um confessor podia perdoar em nome da divindade. A partir deste dia lutei violentamente por não me masturbar e passei a andar atrás de uma empregada jovem que havia em casa para me deitar com ela, porque não me tinha sido dito que foder fosse um mau costume. A partir dos meus 13 anos tentei libertar-me do julgamento moral sobre o meu comportamento sexual secreto, fugindo da masturbação procurando a cama duma rapariga sem sempre consegui-lo e voltando assim ao pecado... Nem me confessava sobre a minha vida sexual por temor que os sacerdotes amigos da mãe dessem a entender que eu devia ser vigiado na minha sexualidade e na emotividade.

          Deve ser assim como os filhos das minhas amigas utentes têm se relacionado com as suas mães sempre a pensar na salvação e na perdição entre o céu e o inferno. É assim que a minha amiga utente que fala com a sua irmã, que só ela vê, tem mais medo da crítica materna do que a da traição do marido com a sua amiga. É assim que a minha amiga utente em cadeira de rodas deve ter educado suas crianças para respeitar a castidade ensinada a partir do exemplo de Jesus, José e Maria que nunca tiveram experiência sexual ou emotiva como nos é transmitido pelos ditos assexuados e servos sacerdotes católicos que já não falem em latim mas ensinam os mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus e a subida ao céu em corpo e alma da sua mãe, a Virgem Maria, como dizem agora em língua natal para todos entendermos.

          Nunca pensei, querido diário, que as mães também fossem uma garantia de comportamento ético e social, ensinadas a serem assim pela catequese obrigatória da igreja católica; nunca pensei que era necessário dominar a multidão de fiéis na base da sua sexualidade e amor, como a clerecia é dominada. Nunca pensei nas lutas do Papa Roncaglio, João XXIII , que mandou o fim da missa em latim e ordenou a prática do ritual e a leitura da palavra divina em língua natal. Anos de luta fratricida entre cristãos: católicos contra protestantes, homens salvos contra hereges, que ele acabou duma penada. Mas não acabou com a subordinação do comportamento social e individual pela imitação do comportamento dos ícones santos, pessoas  que a igreja salienta como exemplos.

          Tudo isto pensei quando ouvi estas três mães, a minha e as minhas duas colegas utentes. São as garantes do comportamento ético que a doutrina religiosa prescreve. Apenas que a minha colega que fala com a irmã que só ela vê, acaba por dizer “Vai tudo à merda, não me importa esse marido, essa amiga é nojenta, o dinheiro que perdi o recuperei no trabalho, e só vou me importar dos meus filhos”; ou a mãe em cadeira de rodas começa a gritar de manhã cedo ”foda-se, caralho, deixem-me em paz, quero comer, calem a boca…” e outras ideias semelhantes, palavras que demonstram a sua libertação dos ensinamentos dogmáticos que ela, no entanto, já incutiu na sua filharada, acreditem eles ou não essa doutrina religiosa. Ou a minha mãe que no seu leito de morte me perguntav incessantemente: “Onde está o pai, onde está o pai, onde está o pai…”, sem se lembrar para nada da divindade…. Será que elas estão em pecado…?

          É uma pena, meu Querido Diário a sorte das mães  submetidas a uma imagem ética que passa a ser a estética da vida em comum, da solidariedade social. Que está no dogma desde que não prejudique a alegria de viver que reside na afetividade e no prazer sexual. É o que penso da vida através do meu convívio no lar.


Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL

Texto Editado por Claire Smith Antropóloga

Barra Mansa, Junho de 2024