COMO UM RIO QUE
CORRE
Fui no outro dia ver o filme
a Gaiola Dourada e gostei.
Gostei porque, em minha
opinião, sem ser um ggggggggrande filme (nem tal pretendendo), acaba por
mostrar um pouco daquilo que mais genuinamente somos.
Como um rio que corre
apertado entre montanhas que o tolhem e apertam obriga-se, o rio, a
comprimir-se (como que fechando-se sobre si próprio) até por fim conseguir soltar-se e espraiar-se para, no
alagamento, fecundar a terra para a sementeira que se precisa fazer, também assim
são, porventura, os portugueses, nós.
Constantemente comparados e
depreciados a outros que supostamente nos estarão “à frente” e serão
superiores, reféns de uma auto-estima enfraquecida, amputada por quem sempre de nós se aproveitou sem nunca
nos representar com a dignidade que nos é devida pela história que soubemos
construir, sente-se o português acabrunhado na incerteza que a sua timidez lhe impõe,
suspende o vôo que a alma lhe pede, adiando a manifestação da sua natureza
profunda. Mas como semente que germina e porque o que tem de ser tem muita
força, impelido por uma força estranha e instintiva acaba sempre por se elevar
à altura do seu destino, onde finalmente se realiza naquilo que mais
naturalmente é: um fazedor de pontes, ligador de mundos que, num permanente
deslumbre vai deslumbrando e, assim, seduzir, harmonizar, pertencer.
Foto: Isa Ferreira; Texto: M. J. Croca
