RETRATOS – III
Pintura
de Luís Delgado (óleo sobre platex)
DESEMPREGO
Voltaram
os distúrbios do sono.
Vai-se
para a cama quando os olhos já pesam e os bocejos se soltam e, após o
indispensável balanço do dia e o reavivar de alguma ocupação agendada para o
tempo seguinte, o sono acaba por chegar aparentemente natural já que com
certeza legítimo.
Mas
algo existe, que de natural nada tem pois que subitamente se interrompe o sono
às horas mais surpreendentes.
Indeciso
entre considerar já ser muito tarde ou ser ainda muito cedo, fica-se ali quieto
esperando que o dormir regresse. Os olhos mantêm-se fechados como que ordenando
ao corpo que readormeça.
Ouvem-se
as horas na torre da igreja.
Uma
única badalada.
Ora
bolas que meia será?
Às
vezes espera-se que a torre nos diga o acerto das horas completas, outras não
há pachorra para esperar mais meia hora para a confidência. Acende-se então a
luz do candeeiro e espreita-se o despertador: 05,30 horas.
Uma
volta na cama e a tentativa de que o calor do leito iluda a biologia e se deixe
de novo seduzir pela lembrança do sono recente e contorne a despertina. É, recorrentemente, uma expectativa frustrada, o despertar está decidido e não se
acobarda.
No
outro dia eram 04,50, noutro 06,15, noutro ainda 05,10. Às vezes ainda se fica
um pouco deitado, de olhos abertos, tricotando pensamentos embalados no
respirar pesado da companheira que ao lado dorme ou evade-se a atenção para o
exterior catando ruídos na noite.
Às
vezes ouve-se uma coruja já que por aqui há algumas.
O
tempo passa lento em direcção à manhã e ao corpo impõe-se o levantar. De
mansinho, como convém atendendo à hora e para não incomodar o resto da família
que dorme sem dar por nada. Levantam-se as persianas devagar oferecendo-se às
plantas cá de casa o clarear da manhã.
Na
cozinha se bebe água e se fuma um cigarro na varanda das traseiras olhando,
até ao encadeio, o néon amarelo dos
candeeiros da praceta até que a aurora surge num ritual sempre novo e os ruídos
do despertar se começam a ouvir nas casas ao lado.
Durante
muito tempo foi assim.
Só
eu na noite aguardando a chegada do dia.
Agora
já não é pois que, de vez em quando, identifico outros fumos, de outros
cigarros, que se elevam das janelas.
Não
sendo aberrante é, contudo, de certa forma estranho.
O
tempo habitualmente consignado ao descanso, consumindo-se com os cigarros que
se fumam em silêncio na madrugada.
Senti
necessidade de me informar do que por ali se passava e lá fui sabendo que o
desemprego recrutara mais reforços ali no quarteirão.
Pronto,
estava explicado.
E
assim, também, compreendido o porquê desta solidão partilhada acentuar ainda
mais o desconforto e a sensação de abandono despropositado e, como tal, óbvia e
forçosamente inaceitável.
Temos
de dar uma volta a isto.
O
presente o exige, o futuro o merece.
Manuel João Croca