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domingo, 30 de junho de 2013

 
 
 
CONVERSA OU ECO
 

E sempre recomeçar a partir do ser que de repente é nada. Um nada branco que aceita a cor do pintor e da pincelada. Luz e sombra, renascemos no morrer de cada dia e na encruzilhada procura-se a harmonia.

Calamos para depois cantarmos desconstruindo pavores onde o grito se forma.

O vento, as aves do mar, o sol e o luar são parte dos hinos que escutamos.
De resto, há sempre algo mais que só depois saberemos, percebemos assim que é tempo de nos lançarmos ao caminho. Que é tempo de fazer a música e compor a melodia.

Viver é sem remédio, no acatar e na rebeldia.

 


Pintura: Luís Delgado; Texto: Manuel João Croca

domingo, 5 de maio de 2013

                                           

                                              RETRATOS - IV




Ando pela rua
e vejo
os rostos
das pessoas.

Pessoas que são
a nossa gente,
eu, tu, nós,
todos.

Rostos
assustados,
acabrunhados,
destruídos.

Não!
Não pode haver
desculpa
para quem
nos quis assim.



Manuel João Croca




Pintura de Luís Delgado (óleo s/ platex)


domingo, 28 de abril de 2013



RETRATOS – III




Pintura de Luís Delgado (óleo sobre platex)


DESEMPREGO

Voltaram os distúrbios do sono.
Vai-se para a cama quando os olhos já pesam e os bocejos se soltam e, após o indispensável balanço do dia e o reavivar de alguma ocupação agendada para o tempo seguinte, o sono acaba por chegar aparentemente natural já que com certeza legítimo.
Mas algo existe, que de natural nada tem pois que subitamente se interrompe o sono às horas mais surpreendentes.
Indeciso entre considerar já ser muito tarde ou ser ainda muito cedo, fica-se ali quieto esperando que o dormir regresse. Os olhos mantêm-se fechados como que ordenando ao corpo que readormeça.
Ouvem-se as horas na torre da igreja.
Uma única badalada.
Ora bolas que meia será?
Às vezes espera-se que a torre nos diga o acerto das horas completas, outras não há pachorra para esperar mais meia hora para a confidência. Acende-se então a luz do candeeiro e espreita-se o despertador: 05,30 horas.
Uma volta na cama e a tentativa de que o calor do leito iluda a biologia e se deixe de novo seduzir pela lembrança do sono recente e contorne a despertina. É, recorrentemente, uma expectativa frustrada, o despertar está decidido e não se acobarda.
No outro dia eram 04,50, noutro 06,15, noutro ainda 05,10. Às vezes ainda se fica um pouco deitado, de olhos abertos, tricotando pensamentos embalados no respirar pesado da companheira que ao lado dorme ou evade-se a atenção para o exterior catando ruídos na noite.
Às vezes ouve-se uma coruja já que por aqui há algumas.
O tempo passa lento em direcção à manhã e ao corpo impõe-se o levantar. De mansinho, como convém atendendo à hora e para não incomodar o resto da família que dorme sem dar por nada. Levantam-se as persianas devagar oferecendo-se às plantas cá de casa o clarear da manhã.
Na cozinha se bebe água e se fuma um cigarro na varanda das traseiras olhando, até  ao encadeio, o néon amarelo dos candeeiros da praceta até que a aurora surge num ritual sempre novo e os ruídos do despertar se começam a ouvir nas casas ao lado.
Durante muito tempo foi assim.
Só eu na noite aguardando a chegada do dia.
Agora já não é pois que, de vez em quando, identifico outros fumos, de outros cigarros, que se elevam das janelas.
Não sendo aberrante é, contudo, de certa forma estranho.
O tempo habitualmente consignado ao descanso, consumindo-se com os cigarros que se fumam em silêncio na madrugada.
Senti necessidade de me informar do que por ali se passava e lá fui sabendo que o desemprego recrutara mais reforços ali no quarteirão.
Pronto, estava explicado.
E assim, também, compreendido o porquê desta solidão partilhada acentuar ainda mais o desconforto e a sensação de abandono despropositado e, como tal, óbvia e forçosamente inaceitável.
Temos de dar uma volta a isto.
O presente o exige, o futuro o merece. 

Manuel João Croca