"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz"
Luís Santos


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poemas de Pedro Du Bois


PROVÍNCIAS

Pensou ser histeria
a província. Estava
olhando o espaço
errado. A província
incógnita contém
ideias indigestas
trazidas de fora. O cosmo
fechado em buracos atrai
a sede da permanência:
bom dia boa tarde boa noite.
 

 
NASCER

Conhece do mar a correnteza
a força a cor e as ondas
restabelece com o ar relação de força
ao planar o objeto e contar o espaço
em velocidade no desfazer a terra
em pedaços loteados nos alicerces
das casas altas: reanima o corpo
sob o estupor da música
e se deixa ficar: a vida é a mesma
                    desde quando gerado.



CAPAZ

Capaz de irradiar
o fato no sacrilégio
do acontecimento em lance
rápido de ataque. A sistematização
da defesa no entorno da praça. O contorno
do pássaro em ares enjaulado. Imprimir
no verso o movimento lento das parábolas.
Imprimir no selo a marca da passagem.

Ter na capacidade adjetivada
do referendo o dogma não acontecido.


(Pedro Du Bois, inéditos)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
(3ª Série) - 05
FOTOGRAFIA
Edgar Manuel Cantante

"À Procura da Luz"

Há momentos na vida que são de tal modo marcantes, com os seus sinais, que nos ajudam a contemplar e a refletir para encontrar um sentido para a nossa existência.
Era o fim de uma tarde tranquila com o sol a partir e a lua a ocupar o seu lugar. Ao olhar para a falésia vi também nela alguém em busca do desconhecido e de outra energia que nos ajude a encontrar respostas para as nossas dúvidas e inquietações.
(Obs: Foto tirada em abril de 2012, na praia da Falésia, em Albufeira.
                                   
                                                                                                             Edgar Cantante 



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

EM DEFESA DO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL


Um dos principais exemplares da arquitectura militar Portuguesa (recentemente classificado como Património Mundial da Humanidade, pela Unesco) o Forte Nª Srª da Graça, está em avançado estado de degradação... o que é um atentado ao Património e História de Portugal... Pedimos que PARTILHEM ao máximo este álbum, de modo a despertar consciências, apurar responsabilidades... que todos  conheçam esta situação, com objectivo final de se encontrar uma urgente solução para a recuperação e utilização deste fantástico monumento. Em defesa do Património Histórico e Cultural de Portugal, PARTILHEM, muitos seremos poucos para denunciar esta situação e ajudar a recuperar o forte.... 






Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



A ordem esperada das coisas cumpriu-se e, pelo movimento natural da demografia, chegou a minha vez de ser designada Presidente da cooperativa. Designação é o termo apropriado para descrever o sucedido pois, pela força das circunstâncias, sendo eu a pessoa mais nova dos três sobreviventes da fundação e a única com saúde e, por isso, com uma agilidade que me confere toda a autonomia como pessoa, o Artur, depois de uma série de tromboses, está acamado num lar – o que aqui chegámos a ter encerrou ou, por outra, foi encerrado há dois anos, por falta de verba e dolosa má gerência que, dito a frio, se limitou a formular e pôr em prática um plano de falência, uma vez que a tutela da unidade pertencia à cooperativa que não teve braços para substituir os directores que, estando envolvidos no desmantelamento e divisão das nossas actividades económicas, não só não quiseram preocupações com os encargos de administrar e gerir, como também aí viram mais uma área com hipóteses de vir a gerar mais um negócio privado – e a Teresa, com os seus oitenta anos já não teria paciência para desempenhar o cargo, a menos que não houvesse alternativa e como para além de nós apenas restam como cooperantes o Adão e um filho e uma filha da Mariana, fiquei assim encarregue de presidir aos destinos da cooperativa ou ao que dela resta, se tiver em conta a dolorosa lembrança que praticamente nos sobra a gestão dos pagamentos das reformas que permanecem afectas às extracções de cortiça que continuamos a assegurar, para além da apanha e venda da azeitona e da lenha que ainda garantimos. De resto, tudo o que foi actividade agrícola desapareceu há mais ou menos uma década, com os imensos hectares destas terras que tantas alegrias nos deram, tanto pão e dignidade levaram aos pais e aos filhos, votados ao maior dos abandonos. E como em dez anos o mato tomou conta do que outrora foi solo viçoso e generoso. É a tristeza que vemos nas ruas poeirentas e descuidadas de um local que se fez ermo, como o era quando aqui chegámos, onde as lojas há muito fecharam, os jardins secaram e cristalizaram em ruína e as casas desabitadas se trancaram de tijoleira crua à prova de vagabundos. Pessoalmente lá tenho contado com as visitas que a minha neta Sofia, a filha do Carlos, me tem feito amiúde, desde que decidiu fazer estudos de língua e literatura portuguesa em Lisboa e eleger a minha casa como o retiro das suas meditações e hesitações sobre a vida, pelo que me vai confessando, a respeito da qual está muito longe de saber o que quer. É a minha companhia de passeios vespertinos que tanto me alegram o coração que, para além disso, aqui, neste que já foi um pedacinho do céu onde fui tão feliz, apenas as memórias aquecem.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (65)

Poeira de Estrelas, António Tapadinhas, 2004
Acrílico sobre Tela, 60x50cm

Recompensas

Por cada inclemente dúvida,
uma vibrante certeza!

Por cada amarga desventura,
uma reverberante realidade!

Sou trôpego no meu caminhar?
Nos meus sonhos  tenho da luz a velocidade!

António Tapadinhas

domingo, 26 de janeiro de 2014

 
O Miguel Torgal não deu notícias.
Não sem alguma surpresa, percebi que estava com alguma ansiedade em as receber. Determinado, acabei por conseguir refrear essa coisa.
A racionalidade neste caso funcionou, «até pode ser que não volte a dar notícias, o nosso encontro não deixou de ser uma coisa fugaz», segredou-me a voz da consciência e tudo se aquietou.
Assim, vou partilhar outra coisa prometendo que, quando surgirem novas do personagem, as partilharei.
 




FIM DE TARDE

 

Na contraluz do fim da tarde,

quedavam-se os seres quietos,

observando-se em silêncio.

 

Nas suas individualidades próximas,

insinuavam em nós um outro conceito.

 

Sim, juntos somos outra coisa.

Aqui começa a floresta.
 
                                                               
 
 
                                                                  Manuel João Croca

sábado, 25 de janeiro de 2014

Desmancha Prazeres


Vendas Novas, 21 JAN 2014

Indignem-se, dizem as correntes de mensagens que nos enchem a caixa do correio. E a gente faz forward, comodamente sentados. A superficialidade dum tempo sem tempo, a indignação digital, o carpir como quem mia na esperança de receber um carapau, a solidão disfarçada na ilusão de que o mundo está à escuta do que dizemos, falar para não estar calado, exigir dos outros a santidade banal e pós-moderna de enfeitar o mercado das palavras...

Vamos apodrecendo na vida adiada que nem a esperança concede. Esperamos sentados. Indignamo-nos sem consequência. Toda a nossa raiva se esgota quando agredimos o teclado e premimos o rato como se o estrangulássemos.

Olho as campas rasas do imenso cemitério do facebook e só me ocorre perguntar: há por aí algum corpo que ainda tenha sinais de vida?

Vou até à janela. Uma velhota tenta atravessar a rua, arrastando um cão pela trela. Um automobilista apressado buzina-lhe ferozmente e atira-lhe duas bocas foleiras. Deixo o mundo como está e volto indignado para o teclado.


Abdul Cadre


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Livros d'África
















Ilídio do Amaral


Este autor, uma das figuras angolanas mais brilhantes no domínio da pesquisa e da história, nasceu em Luanda, em 1926. É Geógrafo, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, da qual foi Reitor, Director do Centro de Geografia do Instituto de Investigação Científica Tropical, membro da Academia de Ciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia e da Academia Portuguesa de História. Do seu vasto e rico currículo constam mais de trezentos títulos, quase todos de temática africana.
Na obra “O RIO CUANZA, DA BARRA A CAMBAMBE”, publicada em 2000 pelo I.I.C.T. – Instituto de Investigação Científica Tropical, desenvolve, para além da fauna, flora e geologia, a importância decisiva do rio Cuanza enquanto meio para a ocupação e fixação portuguesa no interior angolano, baseado nas notas de quatro cronistas seiscentistas: o ouvidor André Velho da Costa, o capitão-mor Garcia Mendes Castel-Branco, o provedor Baltasar Rebelo de Aragão e o incontornável António de Oliveira de Cadornega, que é por muitos considerado o percursor da literatura angolana.

Em relatório de 1612, André Velho da Costa relatava a existência de três importantes presídios nas margens do Cuanza: Muxima, Massangano e Cambambe. Se eles não existissemnão ousariam os mercadores negros, que vinham da Matamba, Tunda e Are e outras partes mui remotas, a resgatar ao porto de Luanda.”

Baltasar Rebelo de Aragão, chegado a Angola em 1592 e aí falecido em 1624, descreve o Cuanza como um “rio mui caudaloso e que todo o ano se navegava até à fortaleza de Cambambe.” Daí para cima não se podia passar “por respeito de grande caída de água, a qual era tão grande que do fumo e vapor que lançava para o ar se formava uma espessa neblina que se convertia em fino salitre depositado sobre os penhascos do rio.”

Garcia Mendes Castel-Branco, “um dos primeiros conquistadores de Angola”, onde viveu durante quarenta e seis anos, advogava que todos os tribunais enviassem os degredados “homens, como mulheres para Angola e não para outra parte, e que da cidade de São Paulo (Luanda) os mandassem logo para as fortalezas de Cambambe, Massangano e Muxima.”

De Cadornega ficam os relatos coloridos sobre os usos e costumes dos povos que viviam ao longo das margens do Cuanza, portugueses e filhos da terra, cultivando os seus arimos (plantações), enfrentando hipopótamos e crocodilos, e as descrições das guerras da conquista levadas a cabo pelos portugueses contra os naturais da terra e contra os holandeses, narrativas que, de tão ricas e pormenorizadas, não cabem aqui.



Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
(3ª Série) - 04
 
 
PINTURA
 
Fátima Romão
 
 
CONFIDÊNCIAS
Carvão sobre papel
120 x 9
 
Olho, observo, exploro, abstraio-me e penetro no vazio de um espaço branco, em busca de formas, volumes, texturas e tons.
Procuro nas suas extremidades directrizes que me conduzam a um esboço e a minha ansiedade aumenta perante o seu vazio translúcido, na ausência de figuras, traços e nuances.
Recuo no tempo, no espaço e na minha própria dimensão, transpondo-me no branco que me atrai e ao mesmo tempo me repele.
Estabelece-se uma luta sem limites de sentimentos, imagens e memórias, envoltas numa melodia transcendente a tudo o que seja real.
Uma sequência de ritmos, linhas e manchas invadem a minha mente numa sensação de prazer que, ao longo do tempo, cria forte cumplicidade com a minha angústia, perante a dúvida que um espaço em branco desperta em nós.
Os primeiros gestos nos traços que se definem, criam dimensão e estrutura juntamente com o toque na rugosidade de uma folha de papel.
Sonho e simultâneamente vivo uma outra realidade, desprovida de qualquer contexto racional e objectivo.
Nela, o sentimento revela-se algo intocável, firme e volumptuoso, tão longínquo do mundo que me rodeia.
Não existe traição, egoísmo, injustiça, indiferença e hipocrisia, simplesmente o confronto do meu ego com a minha própria alma, numa mensagem sensorial que estabelecerá o intercâmbio entre a minha realidade virtual e a de um possível observador.
No final, uma sensação de alívio e êxtase inesquecível, no simples acto de contemplar as imagens que acabo de criar e, ao longo dos anos, o reviver de pequenas confidências, num longo percurso por explorar.
Fátima Romão
 
FATIMA ROMÃO é natural de Lisboa (1963), viveu até aos 18 anos no Algarve.
Tendo sido criada junto ao mar e habituada a conviver directamente com a natureza, a luminosidade e volumetria da mesma está sempre patente nas suas obras em termos criativos, assim como a busca de novas sensações e espaços pictóricos, em complemento com a sua paixão pela música e pela dança.
Licenciada em Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, leccionou (1987 – 1995) as disciplinas de Educação Visual / Desenho / Arte e Design no Ensino Secundário Oficial.
Sócia fundadora da Artesfera - Associação de Artistas Plásticos  do  Barreiro ,  participou como designer  em  vários projectos de divulgação cultural e artística, nomeadamente no projecto “Criar a partir da Sucata” do Instituto de Reinserção Social / Projecto Vida (1995); Ciclo de Conferências sobre “Arte e Indústria” no Auditório da Bib. Munic. do Barreiro (1996); projecto de intercâmbio cultural entre Portugal e a Eslováquia - “Barreiro / Bratislava” (1998).
Autora de vários textos sobre arte para catálogos, imprensa regional e rádio, ilustrou o livro de poesia “Um Sonho chamado Liberdade” de Sousa Pereira (1991), realizando os projectos do Troféu da Comunicação Social - “Barrind89” (1989) e do Troféu “Solidariedade” da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro (1996).
Formadora dos cursos de Desenho e Pintura das Oficinas de Arte da  CACAV,  em A. Vedros.
Prémios:

1991 – 1º Lugar / Prémio Logotipo “CUP”- Centro de Utilidade Pública e Ecológica do Barreiro
1995 – 1º Lugar / Prémio de Pintura “Artesfera” - III Exposição Anual da Artesfera  - Bib. Munic. do Barreiro.
1996 - Menção Honrosa / Prémio de Desenho Américo Marinho - Galeria Munic. Barreiro
1997 - Seleccionada para a Exposição / Prémio Vespeira (C. M. Montijo).


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Alhos Vedros, 500 anos de Foral


A Igreja Matriz e Dom Dinis

por Luís Santos


Embora não se conheça a data certa da sua edificação, pensa-se que a Igreja Matriz de Alhos Vedros tenha sido construída no século XIII, contando, por isso, perto de 800 anos.

Há quem palpite que a construção do seu núcleo inicial tenha acontecido no século XII, em 1146 ou 1147*, e que tenha sido construído em cima de uma mesquita árabe que já existiria anteriormente na freguesia, então ocupada pelos mouros, mas a verdade é que não se pode afirmar com rigor que quer a Igreja, quer Alhos Vedros, pelo menos com este nome, tivessem origem pré-cristã.

É sabido que D. Sancho I concede em 1185 o território da zona ribeirinha do Tejo à Ordem de Santiago, sediada em Palmela, mas nada nos diz que à época já existisse uma Igreja em Alhos Vedros. Decerto, poderão vir a ter os nossos arqueólogos uma palavra a dizer sobre o assunto que possa legitimar, ou não, a tal lenda na Nossa Senhora dos Anjos. Para já, o documento escrito mais antigo que refere a existência da Igreja Matriz é de 1298.

Curiosa esta data que nos faz pensar em D. Dinis, nascido em 1261, depois coroado Rei de Portugal no ano de 1279 e até 1325. Há referências no seu reinado à existência de estaleiros de construção naval na área do termo de Alhos Vedros.** Como é sabido, foi D. Dinis que fundou a Marinha Portuguesa e até há quem diga que a plantação do Pinhal de Leiria foi “uma plantação de naus a haver” que depois haveriam de ir às descobertas. Coisas de poetas, pois que poeta, trovador, também foi. E se era poeta, impôs que na corte se tinha de falar em Língua Portuguesa, e foi assim que ela se consolidou para ir ao mundo.

Ficou conhecido como o Rei Lavrador, poderoso que foi o seu jeito reformista na política agrícola do país, jeito reformador que também teve na educação e, vai daí, funda os “Estudos Gerais”, em Lisboa, a primeira Universidade Portuguesa que muito ajudou a dar “novos mundos ao mundo”, como diria Luís de Camões, já que vamos com poetas.

E, neste jovem país, pois que as fronteiras tinham sido definidas pouco tempo atrás, ao arrepio do Papa e da poderosa corte francesa que juntos deram a terrível ordem de aniquilamento dos famosos Templários, por razões que agora não vêm ao caso, o nosso Rei não só os protegeu como lhes manteve os privilégios. E, foi assim que em Portugal a Ordem do Templo passou a Ordem de Cristo, a tal que teve um papel determinante na expansão ultramarina.

E não poderíamos acabar esta alusão a D. Dinis sem falar na sua Santa companheira, a Rainha Isabel de Aragão, ao que parece mulher muito piedosa, amiga dos pobres, espírito pacifista e, dizem… milagreira. Foi por ela que se generalizou em Portugal o famoso culto popular do Espírito Santo, que se cultuava a partilha de bens pelos mais pobres, que se promovia a libertação social dos desavindos e, ponto alto da festa, sempre se coroava simbolicamente uma criança como imperador do Reino. Ora, como nós sabemos, e insistindo com Fernando Pessoa, “o melhor do mundo são (mesmo) as crianças”.


*SILVA, Vítor Manuel, Contributos para a História Local do Concelho da Moita, edição do autor, 2006, p.89, citado de MIRANDA, António Augusto Lobo de, Comércio de Portugal, Interesses Locais, 24 e 26 de Agosto de 1887, XIII e XIV.

**Cf., ALVES, P. Carlos Póvoa, Informações Paroquiais de Alhos Vedros e Moita, Edição Igreja Paroquial de Alhos Vedros, 2007 (3ª edição), p.129.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Não consigo deixar de pensar que esta gente está completamente doida, embora sequer me passe pela cabeça pôr em causa a decisão tomada que, na devida consciência de cada um, resultou de uma vontade que se mostrou largamente maioritária. Mas até por isso, precisamente por estar perante uma onda avassaladora que em tão pouco tempo volveu a mente de tantas pessoas, tal como num livro de Bulgakov que li num dos meus retiros parisienses, até parece que um qualquer manto invisível de magia passou pelo mundo e alterou as consciências dos homens que se deixaram deslumbrar pelo brilho metálico que aquele teve por rasto diante dos olhos de todos. É que só pode ser por pura doidice que de repente se abandonou um caminho que era seguro e onde se colheram e naturalmente continuariam a colher bons frutos, pelos cantos de sereia de outros em que o que se avista são certezas postiças de um enriquecimento individual de promessa, quase se diria sem esforço e isso é nada mais que lirismo, de modo algum podendo confundir-se com um sonho de sonhadores como um dia nos chamaram, antes se reduzindo à simples ilusão de pensar que os desejos e a realidade são a mesma coisa, ainda que pouco tenhamos feito por isso. E a verdade é que a ninguém ocorre perguntar se no mundo que criámos não viemos a obter esse mesmo enriquecimento que agora se coloca no altar de todas as adorações? Isto para nem chegar a espantar-me por sequer haver quem pare para pensar, o mesmo é dizer para efectuar uma avaliação do que conseguimos, o balanço entre o que de bom alcançamos e redistribuímos e aquilo que tenha gerado maus resultados que em prejuízo de todos se firmaram. Como é que em juízo perfeito, em função de um novo paradigma – bem lá no fundo tão velho como o capitalismo – se pode pura e simplesmente apagar toda uma obra que tanto custou a pôr de pé e em que os mais pobres encontraram um caminho consistente para deixar de o ser e sobretudo para não legarem aos filhos nada mais que a pobreza com que os trouxeram ao mundo? Como é possível que ninguém dê valor a isto ou, para ser mais exacta, como é possível que haja alguém que não dê valor a isto, uma vez que o apreço já implica uma posição de princípio? Ora é aí que o sopro das sereias lança o pó da magia que tem envolvido os espíritos, agora todos parecem rendidos ao poder e, pasme-se, à bondade dos mercados e de tal maneira ou com um tal ímpeto que, ao defender-se que estes se regulam entre si, se está a sacralizá-los como se uma leitura de Dyckens não fosse suficiente para sabermos que não é assim que, livres de amarras, completamente livres do controlo por parte dos estados e das leis e das barreiras que o primado da justiça social lhes possam colocar, aqueles tendem a gerar riqueza, é certo, podem até gerar muita riqueza e assim tem sido, mas não a repartem e aquilo que se observou foi que aquela sempre foi acumulada pelos mesmos em número reduzido, traduzindo-se em cada vez mais miséria para os que restam que em larga maioria vão empobrecendo. Contudo é este o sinal dos tempos e aqueles que fundaram esta comunidade são agora uma pequena minoria entre aqueles que decidem e não podem contar com a força dos outros companheiros que em grande número já deixaram de estar entre nós. Foi com enorme desgosto que o José Pedro viu as produções industriais de azeite, arroz e tomate serem divididas, bem como as fábricas de cortiça e a de produção de pano, sequer escapando as oficinas e o próprio posto médico que assim passou a clínica privada e foi com justiça que fez todos os seus herdeiros pessoais, dois dos quais, um dos seus filhos e um neto, envolvidos nesta mudança de rumo, assinar um documento em que se comprometeram a respeitar o usufruto de todas as terras pela cooperativa enquanto esta existir. Para já, há uns quantos que ufanam de contentes e quem os ouve expressar esse optimismo, tem a nítida sensação de escutar um conto de fadas. Vamos a ver ao que irá conduzir esta ambição desmedida que se esconde por entre as loas dos festejos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (64)

Sagração da Primavera, António Tapadinhas, 2003Acrílico sobre Tela, 100x60cm




Cerejeiras

Foi com o raiar de um ensolarado dia
Em meu jardim
Que as primeiras flores das duas cerejeiras
Se abriram

Uma rosa de soslaio lançou seu olhar
Enamorou-se
Outras rosas ficaram com ciúmes

As pétalas das viletas enrubesceram
Outras flores
Puseram-se então a ganhar vida

Meu mundo
A partir daquele instante
Transformou-se
Fez-se Primavera em pleno Inverno

As flores ao despertarem
Deram à minha amada
Encanto e viço redobrado

Sonoramente Vivaldi
Invadiu todos os aposentos

Luz e Sons
Perfume e Vida
Esperanças redobradas

A Felicidade existe
Acredite



                                          Jorge Lemos



domingo, 19 de janeiro de 2014

 


 
 
 
 
 
Caro Zé Paulo, a Feira Medieval da sua terra é muito animada, proporcionou-me imenso prazer a sua descoberta e os novos conhecimentos que travei. Considero-me um indivíduo com sorte e agradecido pelas pessoas que a Vida vem colocando no meu caminho.
Como prometido, cá lhe envio a primeira carta-relato deste discorrer que decidi baptizar como “Em Busca da Felicidade”.
Conto ir dando notícias com regularidade, sempre é uma forma de ir mantendo o registo dos dias.

 Sines
“EM BUSCA DA FELICIDADE” – Relato 1
Quando se decidiram pelo regresso, o condutor perguntou ao resto do grupo se deveria ir pela auto-estrada, se pelo litoral. Por unanimidade optaram pelo litoral e por aí fomos. Um automóvel, sete jovens e uma viagem de regresso ao Algarve feita pelo litoral num clima de boa disposição.
Depois de Grândola virámos para Sines, terra do grande navegador Vasco da Gama que comandou a frota que descobriu o caminho marítimo para a Índia, onde chegou a ser vice-rei nos últimos anos da sua vida, facto que desconhecia mas que a Carina, professora de Geografia de profissão e “eleita” guia turística para responder às imensas coisas que desconhecia e me despertavam curiosidade, fez questão de informar. Soube também que era a terra do grande poeta Al Berto, que ali se realizava, há já vários anos, o Festival Músicas do Mundo, da existência da refinaria e das enormes potencialidades do seu porto de mar.
Em Sines parámos para beber um café.
O Zé Rui disse que eu era convidado e não pagaria nada já que o cachet do espectáculo em Alhos Vedros tinha sido bom. Agradeci e senti-me aliviado já que viajava usando as magras economias que conseguira poupar e não sabia ainda quando terminariam estas minhas deambulações.
Depois São Torpes, onde se ergueu, provavelmente, a primeira basílica consignada ao culto cristão da Europa em homenagem ao mártir cristão São Torpes de Pisa, e a seguir Porto Covo com a sua linda praça quadrangular e a famosa Ilha do Pessegueiro tornada famosa pela dupla Carlos Tê/Rui Veloso.
Seguiu-se Vila Nova de Milfontes onde o Rio Mira, vindo da Serra do Caldeirão e depois de escorregar por entre serras e outeiros, desfalece no Atlântico, e de onde descolou o avião para a primeira travessia aérea Portugal-Macau a cargo de Brito Paes e Sarmento Beires.

V.N.Milfontes
 
Em Cabo Sardão parámos, ali quase à sombra do farol, para almoçar. Comemos feijoada de búzios, não sem antes degustarmos umas postas de moreia frita, especialidades locais que proporcionaram delícia geral. Seguimos depois para Zambujeira do Mar, onde se realiza o maior dos festivais de música do Verão, Odeceixe, Aljezur, Vila do Bispo que, por ser a “capital dos percebes” justificar paragem para provar alguns, acompanhados de uma cervejinha bem gelada depois de “esmoermos” um pouco passeando pela praia do Castelo.
Seguimos para Sagres já a tarde ia adiantada.
Sagres e a sua fortaleza onde, no longínquo século XV, o Infante Dom Henrique construiu a escola náutica, erguida num imponente aguilhão de rocha que se impõe ao mar entrando por ele adentro.



Promontório de Sagres
 
Em atenção a mim, já que todos os outros conheciam sobejamente o lugar, fomos visitar a fortaleza e caminhámos conversando ao longo do promontório.
À nossa frente, estendendo-se a perder de vista até a água tocar o céu, o oceano imenso, a brisa marinha a envolver-nos e qualquer coisa de indefinível a crescer cá dentro. A vocação marinheira tamborilando e a consciência de automutilação no abandono desse desígnio. Entregámo-nos a uma Europa refém de interesses que não nos consideram, aliciando-nos o contento com algumas migalhas que caem da mesa do banquete onde não cabemos como comensais. “Da minha língua vê-se o mar” sussurra-nos o grande Vergílio Ferreira num rebate a que não deixemos morrer em nós o travo de epopeia que realizámos nos caminhos do mar. Mas interesses obscuros pesam mais do que o aproveitar das oportunidades que se nos abrem para a consumação da nossa ancestral vocação: crescer como povo ao encontro do outro, alargando pelo conhecimento e a troca a concepção de mundo ao invés de rastejar numa Europa que não nos considera nem respeita.
Sentia-me emocionado e, solicitando a atenção do grupo, recorri ao livro do meu quase homónimo Miguel Torga que trazia na mochila, li:
 
 SAGRES
 
Vinha de longe o mar ... / Vinha de longe, dos confins do medo... /
Mas vinha azul e brando a murmurar / Aos ouvidos da terra um cósmico segredo.
 
E a terra ouvia, de perfil agudo, / A confidencial revelação /
Que iluminava tudo/ Que fora bruma na imaginação.
 
Era o resto do mundo que faltava /(Porque faltava mundo !)/
E o agudo perfil mais se aguçava, / E o mar jurava cada vez mais fundo.
 
Sagres sagrou então a descoberta/Por descobrir:/
As duas margens da certeza incerta/Teriam de se unir!
                 MIGUEL TORGA
 
Todos aplaudiram e o Pedro disse, «parecias um oráculo».
A Carina, mais uma vez assumindo o papel de guia, foi-me explicando que toda aquela costa que bordejáramos fazia parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. A Costa Vicentina escarpada, bela e rochosa é parte do “rosto”, como Fernando Pessoa lhe chamou na sua/nossa “Mensagem”, com que a Europa fita o Mundo, e passou a declamar de cor:
 
A Europa, posta nos cotovelos: / De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
                       E toldam-lhe românticos cabelos / Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;/ O direito é em ângulo disposto.
                        Aquele diz Itália onde é pousado;/ Este diz Inglaterra onde, afastado,
                       A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
 
Fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Carina declamava muito bem e todos ouviram com um ar entre o atento e o extasiado.
Apesar de nos conhecermos há apenas dois dias, sentia-me cada vez mais ligado e como se pertencesse àquele grupo já há muito tempo. Quando regressámos ao carro para o trecho final da viagem era exactamente nisto que pensava.
Como é que há pessoas que nos fazem sentir integrados e ligados, a pertencer a algo maior, muito maior, que nós próprios e outras só servem para exaltar em nós a consciência de que, por fim, estamos e somos sós, que nos fazem sentir sós? Será por responsabilidade do que somos e como somos, ou daquilo que os outros são e como são? Será pelas circunstâncias? 
E quem cria as circunstâncias?
Sentia que havia da parte deles uma manifesta vontade de me integrarem e eu, sensibilizado com a atitude, atentava apenas na arquitectura da aproximação. Não havia expectativas apenas vontade de não defraudar quem tão bem me acolhia. A vontade de integração era recíproca o que facilitava muito as coisas.
A noite, entretanto, começara a instalar-se.
De Sagres a Lagos é perto, umas escassas dezenas de quilómetros, mas chegámos já a noite se tinha fechado.
Senti-me então agitado.
Durante toda a viagem concentrado na atenção ao percurso, para mim autêntica revelação pois nunca por ali andara, e nas conversas, na tentativa de compreender e conhecer o mais possível de cada um e da dinâmica do grupo, não pensara no assunto mas agora impunha-se que pensasse: era de noite, estava em Lagos - cidade que não conhecia e onde nunca estivera – e não tinha onde dormir. Decerto haveria pensões mas seriam caras ou baratas? Precisava resolver aquele assunto urgentemente.
Como que por transmissão de pensamento, o Pedro perguntou-me se tinha onde ficar. Respondi que não e o convite surgiu de forma espontânea e natural, «olha Miguel, eu e o Mário vivemos num pequeno apartamento, um pouco apertado mas, se te quiseres ajeitar no sofá, podes ficar lá em casa.» Aceitei sem pensar muito e o problema ficou ultrapassado. Curiosamente aceitei o convite sem qualquer constrangimento, não pude deixar de reflectir.
Fizeram-se as despedidas - aproveito aqui para apresentar os outros dois elementos do grupo: o Tó Zé e a Mariana, que viviam juntos -, com um «até amanhã no “Carta de Marear”», e cada um seguiu para as suas casas.
Manuel João Croca

(As fotos foram retiradas da Internet.)