"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz"
Luís Santos


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

“-Matilde, toma atenção.” –Solicitou a mais velha e, professoral, continuou: “-Uma alergia muito frequente é a alergia ao pólen. O pólen é: um legume? Um fruto? Uma parte de uma flor?” (1) 
“-Uma parte de uma flor.” –Respondeu a outra de imediato. 
A mãe reagiu em velocidade proporcional: 
“-Tu sabes isso, Matilde?” 
“-Então, se não é nenhuma das outras duas só pode ser esta.” –Não se fez esperar o pardalito. 



King Crimson 
e o pai flutuando 

em torno das estrelas e da felicidade. 



E aqui nos curvamos, em sinal de respeito, perante um acto tão digno. 
Há voluntários a trabalhar gratuitamente entre os elementos da equipa portuguesa que presta auxílio às vítimas e na busca de sobreviventes do terramoto que assolou o Irão. 
Assim os homens se aproximam. 



Nos antípodas está o caso do abuso e exploração sexual das crianças da Casa Pia. 
É sórdido o que se ouve. A ser verdade, esta canalha destruiu a democracia em Portugal. 
Todos os receios que fui revelando nos dois diários anteriores se materializam pela pior maneira. 
Só as máfias se aproveitaram desta embrulhada. 



E no penúltimo dia do pior ano de que tenho memória, inauguraram-se os últimos dois estádios dos dez que pusemos de pé para o euro dois mil e quatro. 
Tomo este simbolismo para ilustrar o próximo como o ano da palhaçada. 

Somos sempre capazes do pior. 


 Alhos Vedros 
   30/12/2003 


NOTA 

(1) Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES?, p. 17 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES, Não refere a tradução, Porto Editora, Porto, 2003

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (240)

Desenho de Pedro Sousa Pereira
In. Ode Triunfal

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 

Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 



Fernando Pessoa
Álvaro de Campos



Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Barulhos


No barulho das ruas
algumas horas
de paz e recolhimento

não há música no ar
nem palavra a ser dita

No barulho das casas
alguns minutos
de repouso e acolhimento

não há discurso
nem a fala do ator

no barulho em geral
instante em que o silêncio
aprofunda o gosto

não há como rasgar a folha
nem recitar a prece  

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Antúrios



Amar e Amor
fecundo rumor
suave sopro

calmo
espelho de luz azul
mar do sul

cristiano embalo
divinal lusa cor
tropical


Fotografia e Composição Fotográfica de Kity Amaral
Legenda de Luís Santos


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ESTA CASA ESTÁ UM GELO

E pronto, mais um Natal passou e com ele estes meus dias de folga que a família passou no Porto. 


Por lá, todo o ramo materno vai bem, não tanto o meu cunhado Carlos que, pelo fecho da empresa em que laborava se viu remetido para o desemprego o que, aos quarenta e oito anos de idade, é motivo para alarme justificado dada a situação um tanto embaraçosa que provocou, logo em alguém como ele que reagiu com pouca energia na busca das necessárias alternativas. De resto há notas de alegria, a começar pela Patrícia, a filha dele, com bons resultados no curso de medicina que vai entrar nos exames do terceiro ano e sem cadeiras em atraso e como parece desenhar-se uma perspectiva de trabalho a curto prazo, se bem que o comércio da mulher enfrente as consequências da descida do poder de compra na freguesia, é de esperar que tudo se componha e também eles se igualem na tranquilidade que caracteriza o dia a dia dos outros membros do clã que muitos são. 


A Margarida e a Matilde estiveram no sétimo céu. 
Passeios e jantares na casa da tia Fátima quanto baste, foi um ror de brincadeira com o primo Daniel, o mesmo sucedendo em casa dos avós a quem, certamente, terão perturbado o silêncio. 

Lá nos acompanharam nas visitas sociais e na noite de ontem, em que tomámos café com a Tuxinha e o Carlos a quem não víamos desde há três anos, quando jantámos em casa deles precisamente por esta quadra. Dom Leonardo, sempre alegre e sorridente, também veio e, naturalmente, enquanto os pais meteram a conversa em dia, a ganilha lá esteve nos seus joguinhos. Pena que a Paula e o Zé Carlos se tenham divorciado, mas nada temos a ver com isso. Assim, só a ela vimos bem como ao André e à Catarina. 

O Carlos já concluiu o Mestrado em cuja tese defendeu o uso da Astronomia no ensino da Matemática. 

Parece que o serão terá continuidade no Carnaval, em Bragança. 


E a Fátima e o Quim convidaram-nos para uma viagem ao Rio de Janeiro, no próximo Verão. Querem passar uns dias em Ouro Preto e contam alugar um apartamento na Barra, no mesmo condomínio em que vive o Luís, o irmão estrangeiro a quem dediquei os contos brasileiros do “Faces”. 


Na tarde de sexta-feira fomos todos ao cinema para vermos “À Procura do Nemo” com a pequenada.

“-Então piolhinho, qual foi a moral da história?” 
“-Que um pai faz tudo para ajudar um filho.” –Respondeu-me uma carinha sorridente que me abraçou cheia de ternura. 
E a Matilde também entendeu a história e gostou. 


“-Ó pai, põe o Rui Veloso.” 
“-Sim! O Chico Fininho.” –Acrescentou a mais velha. 

“-Chico fininho! Úu. Chico Fininho! Úu” 
Lá foi a família em coro, acompanhando a versão ao vivo do último álbum do cantor. 


Ai que bem sabe a despreocupação dos dias de férias. 


Triste o Porto cidade que vive a vergonha de se ver urbe, a segunda do país, manietada pelos homens da bola e dos interesses que por ali se acoitam. 
O centro daquela que já se auto-denominou a capital do trabalho está em buracos há uma boa mão cheia de anos, o dois mil e um cultural foi a palhaçada que se viu de que a casa da música, ainda em construção, é um exemplo hilariante e o metro que tão necessário é à qualidade de vida das populações da cidade e da área circunvizinha, terá a sua próxima estação a funcionar no estádio do Dragão cujos acessos estão acabados e foram prioritários ao que de resto a cidade precisa. 

É o espelho do país que fez da organização de um torneio internacional de futebol um desígnio nacional. 


E este governo já não faz coisa com coisa, antes deixa que o marfim corra. 
E depois das SA na saúde que sem contarem enquanto rúbrica continuam a depender do orçamento de estado, aí vem mais uma reforma genial; permitir a exploração privada do notariado sem que nada mude nesse domínio e nos privilégios que a legislação lhe confere. 

Depois do precipício há o abismo que se segue à plataforma em que aquele assenta. 
E nós lá vamos, alegremente, caindo naquele. 



Toca a ligar o aquecimento que a casa está gelada. 



A engenharia financeira é muito bonita, sobretudo muito inteligente. O problema surge quando o capital perde a correspondência nas mercadorias produzidas; aí não há passo de mágica que nos valha e se na base das operações está aquela velha sabedoria do onde se tira e não se põe… 
Pois foi isso que sucedeu com o grande grupo italiano da “Parmalat” e o resultado, como seria de esperar, foi a falência. 
Até aqui, nada de que alguém esteja a salvo. Acontece é que nos escombros lá estava a caixa negra e vai daí, o diabo tirou a capa. O principal acionista e líder da multinacional meteu ao bolso quinhentos milhões de euros. 

Bem, pelo menos aqui, temos uma mancha negra em que há alguém que nos bate a perna. 



E este ano de má memória teria que se despedir da pior maneira. 
A terra tremeu no Irão e ainda que a ira tectónica não tenha chegado aos sete graus na escala de Richter, a histórica cidade de Bam, Património da Humanidade, viu as suas velhas casas de barro ruírem e soterrarem à volta de quarenta mil pessoas. 

Deus seja misericordioso com aquelas almas. 

E o mundo mobilizou-se para prestar auxílio e na busca de sobreviventes. 
Infelizmente, as esperanças de grandes resgates é diminuta e agora impõe-se que as feridas sarem o mais rapidamente possível e se investigue e invista numa reconstrução em que tais desastres percam o condão da fatalidade. 



O natal solarengo é sempre bonito. 
Os campos salpicam-se de amarelo e branco. 
E o pequeno jardim dos meus sogros fica cheio da graça dos brincos-de-princesa que a brisa faz campainhar. 



Lamento é a minha falta de tempo para a leitura que muito perde pelos meus afazeres profissionais e no tempo que lhes sobra, por este diário também. 
Ainda assim vou fazendo o que posso e nestes dias voltei a perder-me no pensamento de Amartya Sen que nos apresenta uma perspectiva da Economia tão humanista quanto é documentada em termos do suporte teórico das suas leituras. 

É um logro, pensarmos que se consegue melhorar a vida das populações ao arrepio das liberdades. São estas, precisamente, as responsáveis para que o desenvolvimento se distribua pela maior malha possível dos seus indivíduos. 

Não é uma lição fantástica? 


Mas já que estamos a falar de leituras que dizer de um artigo em que, depois do pedantismo do Autor em querer arvorar uma sabedoria que não tem, contando-nos história já contada e fazendo uso de um empirismo de caso único, se faz uma subtil associação entre a vontade de muitas mulheres muçulmanas usarem o véu e “(…) o poder económico da comunidade judaica.” ? (1) 
Só não dá vontade de rir por sabermos que não estamos perante palavras inocentes. 



Bom, mas nem tudo são tristezas. 

Hoje visitámos a família da serra. 
No regresso ao lar, fizemos um desvio e fomos almoçar a casa da minha tia Benita. 
O convívio entre nós é sempre uma ternura que a alegria e a boa disposição tempera. 

Só não vimos o Quim e o Tiago porque o trabalho os impediu. 
O meu priminho preferiu interromper os estudos e agora trabalha na empresa de materiais de construção do pai. E enquanto este teve um almoço de negócios, aquele teve um camião de materiais para descarregar. 

De resto estão todos bem e o Sérgio parece estar recuperado da cirurgia que fez ao joelho. Está optimista para o quarto ano de engenharia que frequenta na Universidade de Leiria. 

E a nova casa do Beto está uma delícia, cheia de varandas sobre um vale a cair de verde, onde as brumas pairam nas mesclas de serpentinas onduladas. 
A concepção e o desenho dos interiores estão excelentes; com as divisões do primeiro piso unidas por uma espécie de ponte, em madeira a que se acede por uma ampla escadaria no mesmo material, dificilmente conseguiriam um enquadramento mais harmonioso e cheio de luz. 
Ficamos felizes por eles que bem merecem esta obra da autoria deste meu primo. 
Deus lhes dê muita saúde para se gozarem de um lar tão bonito e acolhedor. 



E esta tarde saiu a acusação para dez dos arguidos do caso da exploração e abuso sexual de crianças da Casa Pia. 
Aí vem mais uma batalha de intoxicação informativa. 
As bombas rebentarão quando e se assistirmos ao julgamento. 

Esta gente já destruiu este país. 


Alhos Vedros 
  29/12/2003 


NOTA 

(1) Portas, Miguel, O VÉU, p. 11 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Gomes, Luís F. de A., FACES, Dactilografado, Alhos Vedros, 1999 
Portas, Miguel, O VÉU, In “Diário de Notícias”, nº. 49217, de 26/12/2003

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (239)

Encontro de Jacob e Raquel, Bartolomé Esteban Murillo, 1665Óleo sobre Tela, 245,5 x 363,5 cm

Génesis significa origem, nascimento, criação, princípio, mas é também o primeiro livro não só da Bíblia Cristã como da Hebraica.  
Conta-se uma história no Génesis, capítulo 29, em que o pastor Jacob combinou com o seu patrão, Labão, trabalhar de graça durante sete anos, para casar com a sua filha, Raquel.

Camões contou esta passagem neste belo soneto:   

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivesse merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

Esta lembrança vem a propósito dos SETE anos que o ESTUDO GERAL cumpre nesta data.
Nestes sete anos, tentámos honrar a nossa divisa e saudamos todos os que colaboraram connosco e também as 267.551 visualizações de páginas, das quais 8.639 no último mês, dos nossos leitores, que demonstram a vitalidade do nosso Blogue e da Revista do ESTUDO GERAL. Acreditamos em mais sete anos, tal como Jacob acreditou que teria o prémio merecido pelo seu trabalho.
A todos o nosso obrigado.
BEM-HAJAM!


sábado, 21 de janeiro de 2017

Lançamento do Livro "Bichos à Solta"


Caros colegas e amigos

Gostávamos muito de vos ter presente na sessão de lançamento do nosso livro Bichos à Soltana próxima 4ª feira (25 de Janeiro), às 18:30h, na Livraria FERIN (Rua Nova do Almada, 72, 1249-098 Lisboa, Tel. 213424422).
Não deixem mesmo de aparecer! Abraço amigo.

Os autores
Luís Souta
Lionor Dupic
Constança Souta




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

“Rastejado Para Fora Do Covil Dos Vis E Ferozes E Para A Poderosa Luz do Dia E Da Consciência”


Manuel de Sousa


Rastejo e sou mau como o veneno das cobras sarapintadas
Digo coisas que nem oiço e nem ao Menino Jesus interessam
Levanto os braços ao ar e saio aleatoriamente louco aos berros
Até aos Anjos dizem que eu incomodo tanto que tapam os ouvidos
De tal ordem que mesmo minha fugaz sombra foge e me abandona

Tento convencer muitos dos que ainda me ouvem as vis palavras
Faço-me engraxar aos sapatos e o mais profundo que me convém
Abro os poros ao máximo para que os bajuladores me cocem o interior
Guio-lhes os sentidos e as mãos para os meus próprios objectivos e metas
Rezo-lhes depois uma missa especial dita em língua que ninguém entenda

Viro as costas a tudo e chuto quem apanho pela frente
Meus escrúpulos podem-se contar pelos dedos fechados
Nem mesmo os olhos são domados com essa dita facilidade
Trato tudo à volta com um desdém que me convém ter amiúde
Largo do alto de um penhasco mental os que não me seguem o rasto

Não prevejo e nem me apetece mudar o carácter em tempos próximos
Vou aceitando e sendo como sou e pronto e não serei mais nada que isso
Oferecerei a mim mesmo e a muitos tao simplesmente prendas envenenadas
Tratei sempre comigo dependurado ao pescoço um espelho semi mágico a brilhar
Terei contudo a certeza que ele só me dará e projectará as melhores imagens possíveis

Só se mudar de repente de paradigma e evoluir sensivelmente contarei mudar
Entrarei conscientemente e sem que o mal oculto se apercebe que estou no lado do bem
Andei e andarei disfarçado o quanto for necessário e vestido de ovelha mansa e observadora
Contarei até três e fixar-me-ei mentalmente na conta que Deus fez e lançarei as sementes boas
Semearei tanto a cordialidade e a compreensão como a solidariedade humanas por essa terra fértil afora…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 17 de Janeiro de 2018, em Homenagem a todos os que praticam a evolução, a inteligência e a compreensão de todas as coisas da existência, incluindo a nos próprios…

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

# Políptico Red





# Políptico Red

4 de 60x80 
Mixed Media

Ana Pereira



Para melhor visualizar a pintura clique em cima. Ver mais aqui:
 https://www.facebook.com/Ana-Pereira-Artes-Pl%C3%A1sticas-1234204616639689/?pnref=story


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

É tão bom almoçar na companhia das conversas dos pardalitos cheios de fantasias e brincadeiras. 

“-Ó pai, vamos jogar às palavras?” 
“-Aladino.” 

E eu, quando me sento no café para beber a bica e passar os olhos pelo jornal, levo o coração cheio, tão transbordante que nem dou conta das horas que passam até ao regresso a casa. 



E o Sol do princípio da tarde que faz o verde dos campos sorrir de amarelos.



Agora a Líbia mostra-se colaborante na luta contra o terrorismo. 
Kadhafi sabe que o seu regime também sucumbiria perante uma avalanche fundamentalista e, vai daí, os serviços secretos líbios trataram de prestar informações sobre a Al-Qaeda aos americanos. 
Para mostrar boa vontade, o país renunciou a programas de armas de destruição maciça e prepara-se para abrir portas a inspecções internacionais. 

Pessoalmente, desconfio destes ataques repentinos de sensatez. 
São tácticas que os ditadores usam para se manterem no poder. 



Malas e bagagens aviadas. 
A família vai passar o Natal em casa dos avós maternos. 



A produtividade da economia espanhola é setenta por cento superior à portuguesa. 


Portugal sofre de depressão ao nível da escola. 


 Alhos Vedros 
   23/12/2003

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (238)

Serpentes de Água, Klimt, 1904Óleo sobre Tela, 80x145cm


Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco ...?

E o ventre, inconsistente como o lodo? ...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono ...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


DAVID MOURÃO-FERREIRA

SELECÇÃO DE ANTÓNIO TAPADINHAS

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Rosmaninho



Parece ser inata a tendência do ser humano em desvalorizar tudo o que tem com fartura, mesmo que tal seja belo é útil. Acontece assim com o rosmaninho, bonito subarbusto, cheiroso, benfazejo para a vista, para o corpo e para a alma. Lamentavelmente hoje quase ninguém o preza.

No norte do País era costume atapetar com rosmaninho os caminhos por onde passavam as procissões. Sabendo-se que tais cortejos religiosos eram e são reminiscências herdadas do paganismo, não é difícil crer que esse curioso uso venha de longínquas eras. Também os raminhos da quinta-feira-da-espiga não passavam sem as florinhas desta agradável labiada. O volumoso “Diccionario de Plantas Curativas de la Península Ibérica” de Enric Balasch e Yolanda Ruiz, no capítulo de botânica oculta, considera o rosmaninho uma sanjoanina, isto é, uma planta mágica vinculada ao santo festejado a 24 de junho. Igualmente era associado a Santa Bárbara para esconjurar as trovoadas e os relâmpagos.

Mitos e crenças à parte, o que agora interessa é caracterizar esta planta que existe em abundância no nosso País e quase por toda a bacia mediterrânica nas charnecas e ermos arenosos e xistosos, sendo uma típica espécie heliófila, termófila e xerófila, isto é, gosta de luz, de calor e de secura. É importante frisar que estamos a falar da Lavandula stoechas da família das Lamiaceae, para não haver confusões que infelizmente são muito frequentes. De facto, alguns autores e tradutores mencionam Rosmarinus officinalis que corresponde ao alecrim, induzindo em erro os incautos leitores.

A planta forma um feixe ramificado que pode chegar quase a um metro de altura. Os ramos são verdes mas devido a estarem cobertos de pelos parecem esbranquiçados. As folhas também são tomentosas. As inflorescências (pequenas flores tubulares e labiadas) estão apinhadas em espigas densas que terminam num penacho formado por três vistosas brácteas violetas cuja função é atrair os insetos polinizadores. O fruto é um aquénio trigonal.

Existem cinco principais subespécies da Lavandula stoechas em Portugal: pedunculata, luisieri, viridis, sampaiana e lusitanica. Como se depreende, algumas são endémicas no nosso País. As mais vistosas encontram-se atualmente na moda e são vendidas em vasinhos nas floristas e nos supermercados. Em Inglaterra são muito disputadas as “Portuguese Giant Spanish Lavender” a que atribuíram o nome vernáculo de Lavandula stoechas portuguese giant. Inglesices!

Em Espanha há mais de meia centena de denominações populares para o rosmaninho. Espanholices!

Em Portugal, os mais atrevidos consideram esta planta a rainha das alfazemas.
São-lhe atribuídas as seguintes propriedades medicinais: antissética, digestiva, tónica, antiespasmódica, cicatrizante, antibacteriana e febrífuga.

O óleo contido nas suas folhas e flores possui um complexo de essências ainda não inteiramente estudadas (borneol, cetonas, cineol, cânfora, etc.) e pode ser utilizado em perfumaria e aromaterapia.

O “chá” de rosmaninho é bom para a bronquite, a asma, o catarro, a tosse, as enxaquecas. Segundo o meu amigo José Salgueiro, reputado ervanário de Montemor-o-Novo, deita-se 30 g de flores num litro de água a ferver e deixa-se 10 minutos em infusão. Tomam-se três chávenas por dia fora das refeições, sendo a última ao deitar. Acrescento que, quem não for diabético, deve dissolver uma colherinha de mel para reforçar os efeitos benéficos.

Externamente podemos usar a água da cozedura das folhas e flores para desinfetar e cicatrizar feridas, estimular o crescimento capilar (atenção aos carecas), suavizar a pele e eliminar a seborreia, a caspa e o acne.

Dado que as flores possuem néctar em abundância, o rosmaninho é ideal para a apicultura de qualidade, originando um mel escuro muito apreciado.


Miguel Boieiro

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Versículos


(Amor)
Um grande amor É!


Luís Santos

(Sonho) 
Os sonhos
são outros mistérios
formas de ser
momento de vida.
Etéreos.
Linguagem dos pássaros.


(Permanência)
Delicada atenção
Provas de amor
Cuidados como pérolas
Testemunhos de eternidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

OLÁ INVERNO!

Peguemos então em duas das perguntas que fizemos num artigo anterior. Comecemos pelas seguintes:
As associações de pais têm algum papel a desempenhar na vida escolar? Tais organismos podem produzir contributos benéficos para a vida escolar? 
As respostas são positivas e não é muito difícil encontrarmos argumentos que o sustentem. 
Desde logo pelo facto de os pais serem os primeiros responsáveis pela educação dos filhos, não é? 
Por muito que se objecte que as famílias já não são as únicas responsáveis pela socialização e enculturação dos seus filhos, ainda que se diga que repartem esses papéis com outros elementos das sociedades de que a escola, os grupos de amigos ou a televisão são elementos corriqueiros, como também, em tal co-responsabilidade, acabam por ter o prato mais leve da balança, sem embargo de tudo isso, a verdade é que os pais têm o dever de zelar pela educação dos filhos e isso significa que devem estar conscientes de que a transmissão de certos valores e regras de conduta parte, em primeiríssimo lugar, deles e só deles, o que traz implícito a permanência de uma atitude de acompanhamento para que haja sempre uma porta aberta ao aconselhamento ou à crítica e repreensão, se for esse o caso. 
Em conformidade, só pelo facto de eventualmente propiciar uma maior aproximação entre os progenitores e a realidade escolar, as associações de pais desempenham uma função positiva. Conhecer o meio onde alguém se move é um modo de se lhe estar próximo e há dados empíricos que provam que tais alunos, de maneira geral, têm comportamentos mais adequados para com a escola e o acto de aprender. 
Daqui resulta que a participação das associações de pais na gestão das escolas pode ter proveitos no que diz respeito à disciplina e à implementação de regras de boa conduta nos estabelecimentos de ensino. 
Não sendo tudo, não é, de modo algum, um contributo despiciendo. 
Fora disso e focando a lente na experiência da Associação de Pais da Escola Básica nº. 1 de Alhos Vedros, verificamos que um tal corpo jurídico tanto pode colaborar na identificação das lacunas nas condições de trabalho e vivência da população escolar, como funcionar como mais um parceiro de diálogo e de pressão para que surjam as respostas por quem de direito. 
Pois foi isso que sucedeu no contexto daquela cooperação de que saíram vários melhorismos como, por exemplo, obras que vinham sendo adiadas e se revelavam necessárias, tais como a reparação dos telhados e das janelas, ou os arranjos do recreio e dos canteiros em que se eliminaram falhas de segurança, mas também poderíamos acrescentar a troca do mobiliário ou as lombas e a sinalização que vieram abrandar certas velocidades incivilizadas que punham em risco físico as crianças que saíam pelo portão. 
Bem, estes motivos, digamos assim, egoístas, são suficientes para defendermos a existência das associações de pais. Contudo, existem outros de ordem colectiva, de que vamos apenas citar um. 
As escolas públicas são pagas com os dinheiros dos impostos pelo que nos diz respeito as aplicações que daqueles se façam. 
Ora com tudo isto está resolvida a primeira pergunta: vale a pena que os pais se envolvam no associativismo escolar? 
Claro que sim. 
Depois não poderemos olvidar que se pretendemos criar uma civilização de cidadania, então não nos devemos furtar às oportunidades para a intervenção cívica. 

Será este o segundo de uma série de artigos que conto publicar no jornal “O Rio” a propósito da associação de pais para o agrupamento vertical. 
Há que lançar a discussão em torno do objectivo de sabermos como é que aquela se comporá e de propostas a respeito do modo de funcionamento. 



Mal vai o mundo nesta quadra de natal. 

Os europeus continuam anestesiados pela crise económica que teima em fazer finca pé na economia alemã que parece não ter ainda recuperado do choque de integração da ex-RDA e mais recentemente do que resultou da adopção da moeda única europeia o que, pelo efeito de arrastamento, afecta os parceiros da União e gera um clima psicológico de pouca confiança e incerteza perante a crescente globalização dos mercados. 
Como praticamente não contam em poderio geo-estratégico pois, para tanto, não dispõem das necessárias forças militares, deixam que os discursos mais radicais proliferem e que os integrismos não só se mantenham de pedra e cal em algumas partes do mundo, como ainda se instalem no interior das demografias que habitam este espaço. Em França, por exemplo, está convocada uma manifestação de mulheres muçulmanas a favor do uso do véu nas escolas públicas. Alguém acredita que os mullahs não estão por detrás disto? 
Ora acontece que o futuro reclama que os ocidentais falem a uma só voz. 
Do ponto de vista do perigo que representa para a paz mundial e a própria Humanidade, o terrorismo da Al-Q aeda é uma ameaça semelhante ao nazismo e já declarou a guerra mundial que hoje em dia presenciamos. 

Será que assistiremos ao grito de vitória de fanáticos sobre um monte de cinzas? 
Enfim… 

E só assim se compreende que o Iraque continue a ser palco de um esforço dos aliados sem o empenho das Nações Unidas e da larga maioria das nações amigas. 



Ena, ontem, na festa da catequese, a Margarida participou num coro da sua classe que interpretou canções de natal. 
A restante família aplaudiu com um sorriso na boca. 

Agora que as amigas brincam na sala, o pai põe as letras em dia. 

Ainda há pouco, na Matriz da Vila, eu e a mãe escutámos um recital do coro da “Vélhinha”. 



O Inverno começa nevoento. 


 Alhos Vedros 
   21/12/2003

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (237)



As Árvores Vermelhas, Autor António Tapadinhas
 Óleo sobre Tela 50x40cm

Para provar o grau de simplicidade, que era um dos seus objectivos na pintura fauve, Matisse tentou convencer um amigo e companheiro de pintura, que um quadro criado por si (Cebolas cor-de-rosa, 1906), era de autoria do carteiro da vila. Ele não conseguiu convencer o amigo, como talvez eu não os conseguisse convencer de que estas árvores foram pintadas pelo meu neto.
Mas podem acreditar que a tinta gasta nesta tela, usada com parcimónia, daria para fazer uma centena, tal a quantidade que usei para conseguir o relevo, a textura e a profundidade que tinha planeado. 
Espero não ser traído pela qualidade da fotografia, para que possam apreciar a violência suave das cores…

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 7 de janeiro de 2017

Anjos à Solta ou "Elegância Bizarra"


ANJOS À SOLTA ou ‘Elegância Bizarra’
sobre o último livro de Luís Souta
por José Gil
«Toda a criança é um artista,
o problema é manter-se como artista depois de ter crescido»
Pablo Picasso

COMO CARTA CONFECCIONAL

«Contar histórias é transformar a vida na brincadeira mais séria»
Augusto Cury, 2004


Comprei este livro de Luís Souta Bichos à Solta, no início de Janeiro de 2017, para o oferecer à minha neta Caetana ainda muito nova para estas narrativas mas certamente impressionável pelas belas ilustrações da Constança e Lionor Dupic.

Livro bonito em A4 horizontal com uma capa e um miolo muito interessante na "mancha" comum aos designers contemporâneos. Sublinho a qualidade da capa, a modernidade da estampagem, das colagens e das ilustrações interiores nos 25 postais. Cores vivas e traço rigoroso a partir de imagens de animais ou muros tão em falta nas ilustrações de livros infantis. Aponto ainda uma influência de Picasso e o seu menino.
Parabéns Constança e Lionor.

O aspecto que mais pode seduzir a minha neta são as imagens e “há que ter em conta sempre que a imagem gráfica é anterior à escrita (Joan Costa, Design para os Olhos, Dinalivro, 2011).
Perfeição técnica fascínio visual como o flamingo. Citando novamente o autor de Design para os Olhos “a perceção icónica radicalmente diferente da perceção  textual”.
Por isso não o outro do mesmo mas o outro do outro.
Há um corpo narrativo. E um corpo gráfico que cria novas relações com o leitor sujeito de uma segunda ou terceira leitura.

Parece-me numa primeira leitura que são 25 textos simples para a minha filha Cristina, a mãe de Caetana. Postais/cartas escritos ao longo de 15 anos e assinados por golfinhos ou outros bichos como narradores/autor.

A designação "Juvenil" logo nas primeiras páginas afasta-o da "infantilidade" de certa literatura auto nomeada para crianças e situa-o numa faixa etária da juventude aos adultos.

Livro para todos comunitário. Desenhos e textos a ser com prazer “lidos” de formas diferentes por cada faixa etária em diferentes leituras ao longo da vida. Livro para guardar.
Celebração da natureza.

«A natureza e a ecologia interessam
intuitivamente às crianças»
CAPICUA
(ana matos fernandes)

Por outro lado - Lição de Como Ilustrar no nosso tempo com criatividade, domínio do ofício gráfico-digital, mas ainda mais me admirou a noção presente de teatralidade, corpos de animais em planos de cores quentes e frias num palco de personagens desenhadas em duas dimensões.
Design artístico para textos com luz e sombras. Brilhante cenógrafa, Lionor. E inclui planos e ritmos de linhas e cores, como no teatro plano sobre plano.

O livro publicado na Sitio do Livro, Edições Virgula, constitui na "Palavra Prévia" do autor e no belo prefácio de Paulo Borges uma leitura amadurecida o que se volta a sentir nos dois últimos Postais para uma Constança já maior e com outras preocupações para além dos bichos.

Anjos bichos ou bichos anjos em salvação de um meio ambiente poluído e destruído. Será que os animais sofrem como ou mais que nós? E pensam? E têm uma vida espiritual?
Que a natureza dos bichos e a nossa nas suas biodiversidades com o mundo vegetal se unam por um século diferente.

Anjos de uma "elegância bizarra" como a narrativa das histórias dos diversos postais (diria quase cartas confeccionais, pai-filha em crescimento). Quantas semelhanças tem a inocência da natureza e nos animais que os assemelha às imagens dos anjos de grandes desenhadores e pintores.

Volatilidade das "coisas" belas e inocentes como os golfinhos ou flamingos na espuma da defesa da natureza - direito à biodiversidade.
Uma preocupação social e ambiental "Unir a Humanidade pela defesa do Ambiente" e dos animais retratada na Declaração Final - "Declaração Universal dos Direitos dos Animais".

O discurso situa-se quase sempre nas "águas transparentes", o remetente pode ser um roaz do Sado ou outro bicho como múltiplas personagens ou heterónimos da fala do Pai, o espaço marítimo raramente em terra (Setúbal, Tróia, Alcácer), Cascais (Pai do Vento) ou das ilhas e Arquipélagos, de Espanha, América e Canadá.

Até à pagina 42 centra-se nos Golfinhos e Roazes e depois o Cavalo («Estou convicto que agora tens dois amores: equídeos e delfins»)... e também os hamsters, os esquilos, os flamingos, as cegonhas-brancas.
O autor num conjunto de Postais Ilustrados escreve a sua filha os comportamentos dos animais que vê, observa, e os seus envolventes ambientais, geralmente, mar, terra, ar.

Muito bem escrito numa ortografia antiga, anterior ao "Acordo", claro, coerente, cristalino ao longo de vários anos de diálogo desenvolvido por dias de celebração, citamos alguns:
Dia da Criança, p. 16
Dia dos Avós, p. 20
Dia Internacional da Dança, p. 28
Dia Mundial para a Preservação da Camada de Ozono, p. 34
Dia Mundial da Paz, p. 36
Dia Mundial do Ambiente, p. 42
Dia Mundial do Professor, p. 46
Dia Mundial da Água, p. 48
Dia Mundial do Teatro, p. 50
Dia Universal dos Direitos da Infância, p. 52
Dia Internacional da Família, p. 60
Dia da Paz e da Compreensão Mundial, p. 68.

A sublinhar destes dias a coerência dos temas, criança, infância, avós, família, professor, paz ou dança, teatro ou Ambiente, Água, Camada de Ozono,… Outros clusters de temas relacionados com os vectores do livro podíamos encontrar, pai filha ou filhas, livro infância criança, dança-teatro ilustrações.

Não posso terminar sem referir a quantidade e qualidade de notas de rodapé para um leitor mais entusiasmado nos Bichos e na Literatura e uma citação que é, como diz o autor, um Princípio de Vida digo eu como escreveu Goethe ler/viver/escrever "sem pressas e sem pausas". Grato, Luís.
Uma última palavra sobre o título o sublinhado de Bichos e não animais à solta. O universo de Miguel Torga e os seus bichos na ilustração do livro como um todo texto-imagem.