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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Filosofia e Saudade

16. Eduardo Lourenço - "Tempo e Poesia"

A experiência do instante como alguma coisa que escapa ao tempo, que pertence ao eterno, ou melhor, algo que transcende tempo e eternidade - só o instante é real. Tempo e eternidade, passado e futuro esbatem-se no instante. O instante não tem história, nem projecto. O instante é inacessível a nós próprios, não se pode agarrar - agarrar é perdê-lo.

A saudade é esta ânsia de agarrar o inapreensível, o eminentemente fugaz. Inacessível e próxima. Enganam-se os que pretendem fazer da saudade algo de exclusivamente português. Existe sim, uma predisposição sensível para a apreensão da saudade.

Não podemos estar exilados de uma ideia de Paraíso, nós somos o Paraíso, portanto, não podemos sair de lá. Quanto mais procuro, mais me afasto. Não é na procura para fora, mas na procura para dentro que me devo buscar. A saudade é a reversão da própria busca.

Temos aqui uma Saudade tal como é definida por Pascoaes, mas fora de um espírito estritamente nacional. Só a experiência poética nos permite aceder a esta saudade ( e não a ciência, religião, filosofia...). A vitória real é a experiência poética. Na mais idealista das filosofias nós continuamos ainda prisioneiros do mundo. Só a forma poética é a libertação do mundo. Poesia é igual a Criação, anterior à experiência artística, ou à apreciação estética.

A experiência do tempo reduzido a um ponto só. Nós somos a grande imensidão.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009

sábado, 29 de janeiro de 2011

Filosofia e Saudade

15. Eduardo Lourenço - "O Labirinto da Saudade"

O autor faz uma "Psicanálise Mítica do Destino Português":

- Nascimento milagroso de Portugal: "Quero estabelecer para mim um Império em ti e na tua descendência" (palavras de Cristo a Afonso Henriques a anteceder a batalha de Ourique). Portugal terá como destino fundar um Reino de Cristo que o padre António Vieira interpreta como o V Império (e último) sobre a Terra.

- Há um traço marcadamente providencialista na cultura portuguesa, ambivalente, marcada por uma fragilidade e protecção absoluta, um complexo de inferioridade e superioridade, uma relação irrealista que mantemos connosco próprios.

- Durante quase um século a Língua Portuguesa foi a Língua Franca no mundo, à semelhança do que foi o Latim, à semelhança do que é o Inglês.

- A fase do Sebastianismo representa a carência irrealista e tresloucada nacional. A nossa razão de ser passou a estar no passado, "quando nós fomos grandes".

- Com a "geração de 70" no séc. XIX, começa-se a questionar pela decadência e atraso do país que em termos de desenvolvimento jaz na cauda da Europa. Sucede-se o Saudosismo, misticismo nacionalista, uma leitura irrealista da nossa realidade, um patriotismo republicano que corrobora este cenário.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009