«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

sábado, 31 de julho de 2010

Crónicas em vídeo de Luís Guerreiro, um paineleiro português, e sua esposa na "Terra Brasilis - 2010", Parte 1


Nota do Editor: Luis Guerreiro, residente em Alhos Vedros, Portugal, dedica-se desde jovem à Azulejaria Artística. Um dos motivos desta sua visita ao Brasil é a organização de duas exposições em painéis de azulejos de sua autoria, em Brasília e Ribeirão Preto. Esta sua viagem inclui também um encontro com o realizador de cinema, jornalista e amante de BD/Animação, carioca, Eduardo Souza Lima (Zé José) que faz pouco tempo esteve entre nós a convite da Azulejaria Guerreiro compartilhando a sua obra, coisa que continua fazendo para muito gáudio nosso.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Mágica da Vida

por
Fernanda Leite Bião(1)

A mágica da vida talvez seja buscar as possibilidades.
Mágica de mistério, mistério, o não conhecido ou mesmo desconhecido. Sempre há o que se retirar da cartola. Coelho, lenço, vida, possibilidades.
Possibilidades, condição do que é possível, do que pode acontecer ou mesmo do que faz a riqueza de alguém, clama o nosso querido e amigo dicionário.(2)
Assim, não espere para amanhã para buscar realizar a mágica do possível em sua vida.
A vida já exprime uma porção de incertezas, de movimentos e de possibilidades de se fazer. Construir-se no infinito do finito – você.
Caminhe mais rápido, se desejar.
Caminhe mais lento, se precisar.
Não olhe somente os obstáculos – podem ser pedacinho de pedras que você transformou em montanhas.
Os labirintos são desafios para a alma, para que não se canse.
Pegue sua bolsa de tesouros. Temos os nossos. Busque o mapa da sua existência (seus projetos), desenhe seu roteiro (suas metas e objetivos) e comece a sua grande viagem.
Quando chegar, me avise!

______________
(1) E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.
(2)INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.

terça-feira, 27 de julho de 2010

a citação de Fidel - debate?

Caro António Tapadinhas

Nomeio-te porque presumo que a citação do Fidel é uma provocação da tua responsabilidade. Não a subscrevo. Custa-me até ter como rosto deste nosso Estudo Geral uma frase que tão facilmente legitima a violência armada. Mas, como acordámos, o espírito deste Estudo é o da pluralidade de ideias e, por isso, talvez seja um bom ponto de partida para que se abra um espaço de debate. Veremos se há paciência e vontade para que isso aqui seja possível.

O meu programa de participação cívica e política não inscreve a revolução armada como linha de conduta. Defendo o primado da paz e do livre pensamento (com regras, claro) e não posso deixar passar em branco ver como “cabeça do nosso cartaz” a citação de um líder de princípios autoritários e prisioneiros de consciência. E peço, desde já, as maiores desculpas se estou a ser injusto para alguém. Mas ter a polícia à porta por exercer, civilizadamente, a liberdade de pensar e exprimir opinião foi um direito que conquistámos no nosso país à custa de demasiados sacrifícios. Esperemos que não seja necessário repetir. Nem sei se deverei concluir que temos entre nós um pró-castrista?

Com a habitual estima,

Luís Santos

domingo, 25 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

"Cantata" de "O Olhar de Ulisses"


Ando pelos ponteados da folha. Deixo respirar o poema no poente.

Há coisas que não sou capaz de dizer por palavras, doem azuis.

em chã de éguas e portas azuis para a “Cantata” inteligente do

último ballet Gulbenkian no sopé do vale no Teatro Camões

choro à morte da livraria Ler Devagar e da livraria Eterno Retorno

a poesia e a dança são irmãs gémeas no sopro musical harmonizo

como o xisto nas casas negras, sublime, elegante e cristalino.

Voo do Bairro Alto ao Piódão, incêndios e cinzas iguais.

salto da Rua. S. Boaventura para um varandim filosófico

da conversa e do bailado das mãos em cada conversa indignada.


Na Quinta Arqueológica de S. Pedro, um necrópole medieval

escrita em cerâmica com quatro andamentos pelo Lago do Álamo

e na Quinta da Pedra Firme em Santarcangelo di Romagna.

um pouco à frente o Rio Uso como Ítaca a sombra do meu corpo

deseja invadir a sombra do teu no sol da areia numa poesia

simples e perfumada ,ao arco íris da tua madrepérola,


vejo a tua blusa vermelha saltando pela fresta do biombo creme

estou deste lado, já, nas cataratas de Itaipu e Iguaçú, a casa

isenta de vela e remos no verde chocante do obelisco do

marco das três fronteiras , bebendo Cauim para “a pedra que canta”

com fé no Deus Mboi e o jovem guerreiro Tarobá dançando na canoa

com Naipi à sombra da palmeira sagrada até lá, volto à Europa no verão

entre a música de Salzburgo e Verona como um farol de luz branca.


José Gil

___________________________________

"Cantata" - Espectáculo do Ballet Gulbenkian no Teatro Camões.

"O Olhar de Ulisses" - Angelopoulos

terça-feira, 20 de julho de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XV

Os solavancos de um voo directo a uma aterragem entre o verdume das folhas. O chamamento sem resposta, uma e outra vez e as asas coloridas voltaram a abrir-se para um lançamento sob um dos arcos do muro.

-Você diz-se agnóstico, mas tinha dito que o Fernando Pessoa é uma das suas referências o que, a este nível, me leva a concluir que abarca o panteísmo de que ele se reclamou a propósito do que, entre outros aspectos, viria a caracterizar o super-homem.
-Bem, desculpe-me interrompê-la, mas vamos lá a ver isso. Agora sou eu que tenho que fazer um reparo de pormenor. Parece-me que o próprio Pessoa quando colocou a tónica no panteísmo não o terá feito do ponto de vista de quem pensava que essas diferentes entidades, de alguma maneira, regulam as manifestações da realidade no mesmo sentido que os gregos antigos atribuíam aos seus deuses do Olimpo; eu tenho para mim que o Fernando Pessoa falou de panteísmo antes por pensar que esses deuses são uma, digamos assim, uma criação do homem e que precisamente por causa disso é esse mesmo que os contem dentro de si. Quer dizer com isso que é o próprio homem que contem em si o poder e as genialidades dos deuses. Quer-me parecer que foi por aí que ele foi quando divagou por essas águas do panteísmo.
-Isso é verdade.
-Sim, também concordo que o Pessoa vai nesse sentido. Ele é muito complexo e é até muitíssimo curioso verificar que apesar do que aqui se disse de ele ser, de alguma forma, anti-científico, reparemos que ele até acaba o “Ultimatum” justamente a proclamar a criação científica, a expressão, tanto quanto me recordo, é mesmo esta, ele afirma que proclama a criação científica do super-homem e já não estarei tão certo de que aqui ele esteja a assimilar o termo ciência à metafísica como sustentei anteriormente. Aliás, toda a cosmovisão que ele construiu, a sua metafísica ou, se quisermos, a sua visão metafísica do mundo, é, ela própria, uma mistura de referências filosóficas e não só ocidentais; estou convencido que, por exemplo, ele terá lido as “Upanishades” ou pelo menos, algumas delas, provavelmente em número significativo, mas digo isto pelas referências que amiúde perpassam ao nível das ideias marcadas por esses sistemas filosóficos do oriente. A visão metafísica do Fernando Pessoa é, dizia, uma mistura de referências filosóficas e esotéricas e até de informação científica avulsa de que ele seguramente ia tomando conhecimento. Não conheço a biblioteca que ele teve e que não sei se deixou ou não…
-Parece-me que também existe esse espólio e que há quem se esteja a debruçar sobre ele.
-Mas o que eu ia a dizer é que embora não conheça a biblioteca que ela possa ter possuído, não me admiraria muito se na mesma, a existir, claro, exista o rasto disto que acabei de dizer a respeito das suas referências. Mas é precisamente nesse contexto que pessoalmente subscrevo essa sua interpretação a respeito da potencialidade dos deuses dentro do Ser segundo o Pessoa. Creio mesmo que é sobretudo isso que nos transmite a ideia da infinitude do ser, a infinitude e a multiplicidade do Ser que ele defendeu e que teria que ser reconhecida e posta em prática, salvo seja, para que cada um se cumprisse no que de mais elevado temos na nossa existência.


-Também estou de acordo com isso, mas vocês não me deixaram acabar e eu tenho que voltar um pouco atrás. É que apesar disso que o senhor acabou de dizer, continua a intrigar-me o facto de você pôr em dúvida a realidade de Deus, prefiro dizer assim do que usar a palavra existência, mas continua a intrigar-me o facto de você duvidar da realidade de Deus e devo dizer que até o fez de uma maneira bastante veemente e no entanto, depois, fala de deuses e depois ainda diz-se agnóstico. Como é que o senhor conjuga tudo isso? Tenho que confessar que isso me deixa um tanto intrigada.
-Bem, vamos lá ver isso. Eu falo no sentido pessoano que acabei de expor. É precisamente por isso que aceito e repito que estou absolutamente convencido a respeito da pertinência e digo mesmo necessidade do super-homem. É neste sentido que eu me coloco. Quando me digo agnóstico, eu estou sobretudo a referir-me e ao mesmo tempo a recusar essa ideia do Deus judaico-cristão, esse Deus criador do mundo e castigador dos homens. Ora o que eu recuso, aquilo em que eu não acredito é nessa concepção que nos diz que temos que viver de uma determinada maneira para ganharmos o Céu. Esse Deus que nos castiga se formos maus e nos recompensa se formos bons. Nisso, eu não me revejo. Depois há perguntas que ficam no ar, não será assim? Afinal o que é isso do bem e do mal? Quem é que define o que é o bem e o que é o mal? Pois é tudo isso que de modo algum me convence. Contudo não deixo de pensar que possa haver algo por detrás disto tudo, alguma entidade que provavelmente terá que ser uma energia qualquer que ponha tudo isto em movimento. Não sei, embora seja capaz de admitir que isso seja possível. Olhando a Terra, por exemplo, é uma coisa tão perfeita, não é? Por vezes dou comigo a pensar que até leva a crer que de alguma maneira possa haver uma mãozinha por trás disto tudo. É por isso que me disse agnóstico mais do que ateu; acho que posso dizer que o termo agnóstico se me aplica melhor, me designa melhor que a palavra ateu.
-Estou a entender, embora ache tudo isso que acabou de dizer uma enorme confusão. Espero que o senhor não me leve a mal por falar desta maneira.
-De todo, minha cara amiga. Nunca é de mais repetir que estamos a ter uma conversa bastante civilizada e, arrisco-me a dizer, cheia de interesse, não lhes parece?
-Sim, bastante.

(continua)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

AVIEIROS


Bateiras de Avieiros Acrílico sobre Tela 50x50cm
Autor António Tapadinhas
(clique sobre a imagem para ver pormenores)

Avieiros são os pescadores oriundos da região centro do país, principalmente de Vieira de Leiria, que procuraram o seu sustento na pesca no Vale do Tejo e no Estuário do Sado. O movimento migratório foi tão forte que ficaram conhecidos como os ciganos do rio. Inicialmente rejeitados pelos habitantes locais, viram-se obrigados a viver nos seus barcos, o que justificou assim a frase que considerava a sua embarcação como o berço, a câmara nupcial e a tumba.
As características mais evidentes da bateira do avieiro, são os dois bicos com a proa e a popa igualmente arredondadas para romper as ondas com facilidade e, também, as suas cores berrantes.
Com o decorrer do tempo, fixaram-se nestas zonas, onde construíram pequenas casas de madeira, que foram pintadas com as mesmas cores dos seus barcos. As casas destas aldeias foram edificadas sobre vigas para evitar as cheias do Tejo. A aldeia de Palhota é das poucas que mantém a originalidade da sua construção palafita e que alguns bem-intencionados procuram preservar, como um traço de união com o passado.
Mais uma vez, é a tentativa de sobrevivência de um tipo de vida em vias de extinção.
Voltarei ao assunto, pois estou a preparar uma série de quadros com as palafitas que existem na reserva natural dos estuários do Tejo e Sado e na ria de Aveiro.

CARTA ABERTA aos Chefes de Estado e de Governo dos países da CPLP

Os princípios e os direitos não se trocam por negócios
A Guiné Equatorial não pode ser membro da CPLP


A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi criada em 1996 e reúne o conjunto dos países que têm o Português como língua oficial. Tendo como objectivos a concertação politico-diplomática e a cooperação, a CPLP rege-se, entre outros princípios, pelo “...e) Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos e da Justiça Social;...”.

Em 2005 foi criado o estatuto de Observador Associado da CPLP, cujos titulares “terão de partilhar os respectivos princípios orientadores, designadamente no que se refere à promoção das práticas democráticas, à boa governação e ao respeito dos direitos humanos, e prossigam através dos seus programas de governo objectivos idênticos aos da Organização, mesmo que, à partida, não reúnam as condições necessárias para serem membros de pleno direito da CPLP”.

Em 2006 a Guiné Equatorial de Teodoro Obiang tornou-se membro Observador Associado da CPLP, pedindo agora a sua admissão como membro de pleno direito. A decisão será tomada no dia 23 de Julho em Luanda, no quadro da VIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP.

Teodoro Obiang é o Presidente da Guiné-Equatorial desde 1979, sendo recorrentemente reconduzido neste papel com percentagens eleitorais que ultrapassam os 95% ... 31 anos num poder que conquistou através de um golpe de Estado, num país rico, nomeadamente em petróleo, cuja população continua pobre.

Este Chefe de Estado ilustra-se por ocupar os lugares mais altos dos ranking internacionais, tais como o dos piores ditadores ou o dos Presidentes mais ricos do mundo ( ), por acumular referências nos relatórios internacionais de organizações de defesa dos Direitos Humanos que denunciam os abusos e violações nesta matéria na Guiné Equatorial( ), por ter visto a UNESCO recuar na criação de um Prémio associado ao seu nome... E a “sua” Guiné Equatorial é também conhecida por ter sido excluída da iniciativa EITI - Extractive Industries Transparency Initiative, pelo facto de não cumprir as suas mais básicas obrigações.

Todos os membros da CPLP sofreram com as ditaduras que governaram os seus países ou dominaram os seus territórios não autónomos. Pela liberdade deram a vida milhares de cidadãos. Não queremos caucionar um ditador, nem reconhecer uma ditadura que só procura disfarçar a sua verdadeira natureza.

Defendemos um não inequívoco à admissão da Guiné Equatorial como membro de pleno direito da CPLP, na medida em que o país não preenche os requisitos para entrar na CPLP. Nem sequer tem o Português como língua oficial, apesar de inúmeras promessas feitas nesse sentido pelo seu Presidente. E a adopção da língua portuguesa por decreto ou qualquer outro tipo de mecanismo arbitrário resultaria em mais uma imposição brutal ao seu povo, no caso a de uma língua completamente desconhecida.

A admissão da Guiné Equatorial na CPLP constituiria um precedente inaceitável – com amplas consequências políticas - na prática e na ética da organização e levaria à sua grave descredibilização.

Julho 2010

D. Basílio do Nascimento (Timor-Leste)
Frei Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto) (Brasil)
Eduardo Lourenço (Portugal)
Elisa Andrade (Cabo Verde)
Francisco Buarque de Holanda (Brasil)
Inocência Mata (S. Tomé e Príncipe)
D. Januário Torgal (Portugal)
José Mattoso (Portugal)
Justino Pinto de Andrade (Angola)
Manecas Costa (Guiné-Bissau)
Margarida Pedreira Bulhões Genevois (Brasil)
Maria Victória Mesquita Benevides (Brasil)
Mia Couto (Moçambique)

Iniciativa, promovida pelo CIDAC - Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral, o Fórum pela Paz e pelos Direitos Humanos e a secção portuguesa da Pax Christi, visa questionar séria e publicamente a possibilidade de adesão da Guiné Equatorial à CPLP na próxima Cimeira de Luanda.

domingo, 18 de julho de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A dança do tempo

Vai longe entre as nuvens,
Perto das estrelas.
Vários pontos luminosos
Enfeitam os jardins do cosmo
E brilham sobre a dança do tempo.
A cada momento,
Em cada época,
Pequena ou grandiosa história.
Não importa,
Somente o crescimento.
Bailam conforme o próprio movimento.
Aprendizes das próprias experiências,
Centelhas do criador,
Criatura cocriadora,
A caminho da evolução.

Fernanda Leite Bião

Curso Açorianidades e Insularidades

(literatura de matriz açoriana)

Conforme agendado, venho informá-lo/a de que as pré-inscrições para o Curso Açorianidades e Insularidades, na Universidade do Minho, já poderão ser efetuadas. Basta ir ao site dos Colóquios da Lusofonia:

http://www.lusofonias.net/estudos%20e%20cadernos%20açorianos/estudos%20açorianos.htm

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ensaio Geral

É preciso que nos fundemos na paz.
Pouco há de mais vil do que a ideia de guerra, onde a principal consequência é a do sofrimento e da morte. Onde se sacrificam generalizadamente aqueles que nos são mais queridos, todos.

Devemos eleger como motivo maior o amor.
O que nos permite olhar o outro como a nós próprios, sinal da aceitação plena do milagre da vida, compreensão de que enquanto houver alguém que se perca por desvelo é igualmente uma parte de nós que se vai.

A compaixão pelos pobres, a misericórdia pelos enfermos, a solidariedade nas desavenças, a fraternidade nos infortúnios são atitudes maiores que nos libertam das amarras da vida. Enquanto existir alguém que esteja preso nós estaremos presos também.

Ocuparemos parte das nossas reflexões e acções na necessidade de dignificação do trabalho e da vida. Entregar a maior parte do tempo de vida a um trabalho escravo não nos permite a liberdade necessária para aceder a níveis mais amplos de consciência e a uma melhor compreensão da verdade.

Não há dinheiro que nos salve. Não há lucro que nos sirva. Não há conforto que nos liberte. Só a ideia de sermos Um, corpo total, nada e tudo, nos livrará do ciclo infinito de vidas em sofrimento. A emancipação de todos trará a consciência clara do que deverá ou não ser feito.

Substituiremos as ilusões mentais de todas as construções ideológicas (como esta!) pelo primado da escuta e da conversa em prole do bem comum. Meditaremos nos caminhos ideais que nos guiam a uma suprema calma mental, a uma fina harmonia do corpo, a uma capacidade optimizada de compreensão do (des)necessário próximo passo.

Estaremos realmente vivos.

Luís Santos

P.S.: Este texto resultou de uma con-versa com os amigos Raul Costa e João Martinho justamente no Café Ensaio.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Dilemas

No falso dilema premissas se intercalam
ao desenrolar do espírito: emaranhados
pensamentos entrecruzam destinos
e desatinados permitem a associação
dos fatos. Na verdade, a falsidade
é sonho irrealizado.

Pedro Du Bois
10/07/2010
inédito

terça-feira, 13 de julho de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL


XIV


-Mas há aí um pormenor naquilo que disse que, mais uma vez me vai perdoar, mas lá está, não me parece que faça muito sentido. Da maneira que falou, então poderemos dizer que uma pessoa é educada na Fé. É isso, não é?
-É.
-Pois, mas é isso que não parece que faça muito sentido. Então uma pessoa é educada na Fé?
-Claro.
-Mas a Fé ensina-se? É que atendendo ao que vocês disseram, não me parece mesmo nada que isso algum sentido. Há aí qualquer coisa que não bate certo. Vocês dizem que a Fé não se explica, mas pode ser ensinada? Como assim?
-Não, repare que há aí algo que ficou por dizer. A Fé, propriamente dita, essa, enquanto revelação e reconhecimento de um apelo interior, naturalmente, essa não se ensina.
-É claro que é assim. Ninguém poderia pretender que se ensinasse alguém a sentir esse apelo interior de pretender viver pelo caminho de O procurar, de ir ao seu encontro e a verdade é que na realidade, não é isso que se passa.
-Então…
-Então o que se passa é que muito simplesmente é mais fácil que um tal reconhecimento venha a suceder dentro de um contexto de uma determinada educação do que sem ela. Isto parece-me óbvio. Ora acontece que um indivíduo é educado dentro dos princípios, dentro do conhecimento da história religiosa do seu povo e nessas circunstâncias, espera-se que a Fé se lhe revele ou, se quiser, que ele encontre ou se encontre com essa mesma Fé.
-Pois, é mais isso que se passa. Assim está melhor explicado esse aspecto.
-E também pode muito bem acontecer que, apesar disso tudo, mesmo admitindo que uma determinada pessoa teve a melhor educação a esse nível, apesar disso, pode muito bem acontecer que essa pessoa venha a permanecer céptica e nunca venha a ser tocada pela Fé, nunca a venha a sentir e muito menos a reconhecer.
-E o que acontece a essas pessoas? Não vão para o paraíso, como dizem os católicos?
-Os católicos e não só. Mas não, também não é isso que necessariamente tem que acontecer. Não me parece que um gentio deixe de alcançar a Eternidade se tiver vivido como um justo que é isso que, para o caso, realmente conta. Aliás, até um qualquer sujeito pode ser um materialista convicto e conseguir viver como um justo. Para termos carácter não temos que necessariamente ser pessoas de Fé.
-Concordo plenamente com isso. Até o mais convicto dos ateus pode muito bem chegar ao Paraíso desde que tenha vivido como um homem bom. Nem poderia ser de outra maneira, não é?
-Ora bem, somos todos filhos Dele.
-Tal e qual, mas justamente por isso é que a salvação está ao alcance de qualquer um. Isso dependerá da maneira como tivermos vivido aqui na Terra.
-Mas não acha que então, dessa forma, de nada vale ter Fé? Você, pelo que diz, tanto seria salva por ter Fé ou não. Aliás, da maneira como colocou o problema, a menos que eu tenha percebido mal, nem mesmo se pode dizer que seja a Fé a coisa mais importante. O que realmente conta é a vida que se leva, é aquilo que fazemos nesta nossa passagem pelo mundo dos vivos. Estou em crer que é isto que se pode extrair das vossas palavras. Terei entendido mal?





-Entendeu muitíssimo bem. É tal e qual como afirma. Não poderia ser de outro modo, pois se assim não fosse não teríamos como justificar e muito menos incorporar o livre arbítrio. A salvação só poderia mesmo depender de cada um de nós e, nessa medida, em termos práticos, só poderá estar pendente de conseguirmos levar ou não uma vida mais ou menos virtuosa.
-A relação que estabeleces com o livre arbítrio é fundamental. Mas há ainda uma outra nuance que, de certa maneira, está articulada com isso que acabaste de dizer. É que a não ser assim, então teríamos que impor a Fé e isso é que não faria o menor sentido, isto mesmo apesar de não deixar de ser algo recorrente na história da humanidade. Mas repara que do ponto de vista da construção do pensamento, isso seria um verdadeiro absurdo, pois significaria que estaríamos a querer impor algo que diz respeito à vida interior de cada ser humano. Mas essa tem sido justamente a interpretação mais até do que das ortodoxias das hierarquias religiosas e políticas que precisamente usam a religião para expandirem os seus interesses e, como acontece tantas e tanas vezes, sobretudo as suas ganâncias. Essa ideia tremendamente perniciosa de querer impor a Fé é o que tem estado na base das mais sanguinárias guerras religiosas ao longo do tempo e lá está, aqui está mais uma boa razão para não acreditarmos no proselitismo, se bem que não seja de modo algum a mais importante.
-É isso que dizes, voltando a salvaguardar o problema do proselitismo, perante o qual continuo a colocar algumas reservas. Mas a verdade é que muitas vezes se atribui, ou é possível atribuir às religiões, elas próprias, as causas das guerras religiosas.
-E não será mesmo assim? Se olharmos o problema em profundidade, não será precisamente nos fundamentos doutrinários das religiões que se encontram as motivações ideológicas, salvo seja a expressão, pelas quais os fiéis se mostram tantas vezes capazes de quererem até matar os outros e nem mesmo é raro que esses outros sejam correligionários e, com isso, a fazerem a guerra?
-Pessoalmente, como deve compreender, não me parece que seja assim. Eu diria que aquilo que nós vemos são as hierarquias ou partes dessas hierarquias que estabelecem essas interpretações, são esses estratos que sublimam os aspectos mais exclusivistas, se quiser até podemos afirmar, os mais xenófobos –isto se o termo aqui tiver alguma validade- são essas hierarquias que determinam essas interpretações que abrem e conduzem a essa vontade de fazer a guerra.
(…)
-Mas que os princípios, os preceitos religiosos, se virmos bem, não consentem. Afinal, por exemplo, todos os princípios do cristianismo são ideias de paz, princípios que propõem a fraternidade e não a guerra entre os homens. O respeita o teu próximo como a ti mesmo só pode ser à paz que conduz, de modo algum à guerra.
Mas há uma pequena coisa que o senhor disse que me deixou um tanto intrigada.
-O quê?


(continua)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

A INFÂNCIA PERDIDA DA URBE...QUE QUALIDADE DE VIDA?

“Os homens e as mulheres de uma urbe precisam de encontrar os pontos de referência fundamentais à sua segurança e prazer: espaço limitado e isolado para a sua própria intimidade; ruas onde possam passear e encontrar o que precisam para a sua existência: locais pitorescos que quebram a monotonia das ruas; recintos para a contemplação e manifestações artísticas; locais para actividades colectivas ; natureza modificada pelo Homem em forma de jardins e contacto fácil com a própria natureza.
Na cidade devem procurar criar-se as condições que possibilitem ao homem o contacto com a sua própria infância.”

João Santos, «Algumas reflexões sobre urbanismo e cultura»,O tempo e o Modo, 1966.

.
O excerto acima transcrito, serve-nos de ponto de partida para a pequena redacção que abaixo se segue, tendo como propósito elaborar uma introdução e contextualização do pensamento para outras reflexões que ai virão, centrando-se em temáticas como: núcleos urbanos; Património urbano; espaços verdes e identidade urbana.

-------------------------------

Cada indivíduo faz a sua própria leitura visual da paisagem que o envolve, levando consigo as memórias espaciais, construindo novas paisagens com essas mesmas memórias, apoderando-se do poder das analogias. Legitimando assim, a sua envolvência com o espaço vivido, dando sentido e vida ao espaço habitado, situando-se nesse lugar através de uma escolha existencial,- estando de acordo com as nossas funções psicológicas da orientação e identificação com esse lugar - criando através do lirismo simbólico a ideia de espaço.

Nas Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, através não só das descrições geométricas que Marco Pólo faz das cidades do império Mongol de Kublai Khan mas, da descrição existencial que faz delas, leva-nos a uma maior compreensão da apropriação do homem pela ideia de espaço, entendendo as trocas sociais e culturais. Num romance sobre Gaudí, Mário Lacruz , narrando a vida do arquitecto catalão dá-nos essa mesma visualização de ideia de espaço e a sua maior e melhor compreensão da Cidade social e cultural dessa época. Para se construir o devaneio onírico da Cidade temos que recorrer às nossas memórias sensitivas e sociais vividas diariamente na vida da urbe.

A casa é o nosso abrigo primordial, ela é o espaço onde nos sentimos resguardados, onde as nossas lembranças e vivências estão guardadas, pensá-la não se trata apenas de descreve-las , mas sim de poetizar o espaço, de sacralizar o nosso “cantinho” para que deste modo cheguemos à “função original de habitar” através da Casa natal, que é a primeira referência que o Ser tem de uma casa, levando-a consigo na memória e tentando reproduzi-la das mais diversas maneiras. A função de habitar e de sentir a casa é tão intrínseca em nós que criamos uma dependência de pertença a algum lugar sem nos passar pela cabeça a sua (des)sacralização, vêmo-la como um local sagrado que mesmo na morte a tentamos levar, materializando-a na nossa ultima morada.

Segundo Heidegger o habitat/casa não deve ser só pensado como algo estandardizado mas, uma interacção do lugar com a casa e com quem a habita formando desse modo uma comunidade, passando da identidade individual para a identidade social, ou seja, como uma correlação entre o sagrado e o profano. Poderemos entender melhor essa correlação através de um diálogo que o discípulo tem para o seu mestre Zen “Qual é a verdadeira natureza do Buda?
"-O cipreste no pátio.”, responde o mestre, sugerindo a união entre o visível e invisível “o quotidiano humilde e a realidade final, o relativo e o absoluto. O “cipreste no pátio”, a flor à nossa frente, a pedra sob os nossos passos são os caminhos que levam para além do além do mais além.”. O acto de colocar o cipreste no pátio redimensiona-o do profano para uma sacralização do espaço, adquire uma dimensão através de um acto Humano revelador da transcendência do Ser.

Ressoa em nós, como um eco na escuridão da noite, a frase:
“ (...)Na cidade devem procurar criar-se as condições que possibilitem ao homem o contacto com a sua própria infância.”
Porque, com o advento do turismo e das chamadas cidades criativas, a identidade individual de cada localidade perdeu-se para ganhar uma identidade homogénea com as localidades congéneres, já não há grandes distinção... Como sacralizar o espaço colectivo com o advento das cidades criativas e o furor turístico e patrimonial?
A Cidade, a Vila, o Lugar, essa casa que alberga a casa foi esquecida pelos seus usufruidores, demitiram-se dos seus deveres cívicos passando-o para o poder político. A apatia para sentir e perceber a cidade é notória nos comportamentos que temos com ela, atitudes automáticas e mecanizadas que não nos levam a perceber e questionar que a cidade, essa casa que alberga a casa, nos pertence de igual modo que ao poder autárquico.

Citando o artista Leonel Moura “ a cidade desaparece do centro do debate crítico. (...) ela tornou-se um problema exclusivo do planeamento e das políticas municipais, com resultado à vista: desaparecimento do espaço público através de uma privatização extensiva; uniformização das centralidades, que agora só têm a valência comercial; degradação dos serviços públicos, em particular os de transporte; aumento da miséria e exclusão.” . É necessário uma nova consciência, uma (re)educação, um voltar à origem, onde o lugar era sentido e apreendido como propriedade colectiva, onde cada indivíduo “trabalha” para a concretização da sacralização da Cidade, do lugar que habita.

Como recuperar a infância perdida da urbe, que no jogo das escondidas se desiludiu com a qualidade de vida da sua própria casa?
Porque os cidadãos se destituíram dos seus deveres centrando-se mais nos seus direitos de usufruto do solo?

Maribel Sobreira

---------------------------------
Notas:
(1)Calvino, Itálo, As Cidades Invisíveis, Editorial Teorema;
(2)Lacruz, Mário, Gaudí um romance, Publicações Dom Quixote, 2006;
(3)Bachelard, Gaston, A Poética do Espaço, Martins Fontes Editora, São Paulo 2005, p.62 “Nessa comunhão dinâmica entre o homem e a casa, nessa rivalidade dinâmica entre a casa e o universo, estamos longe de qualquer referência às simples formas geométricas. A casa vivida não é uma caixa inerte. O espaço habitado transcende o espaço geométrico.”.
(4)Op. cit., p.37.
(5)Op. cit., p.33.
(6)Heidegger, Martin, Construir, Habitar, Pensar, Conferencias y Artículos, Serbal, Barcelona 1994;
(7)Vários autores, Os melhores contos Zen, Editorial Teorema, 2002, p.83.
(8)Ibidem.
(9)Moura, Leonel, Formigas Vagabundo e Anarquia, LxXL edições, 2009;

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pela Noite Adentro

pela noite adentro
trazes os cotovelos
o sol visado entre
as tuas doces pernas
com roda e o seu valor
a cor do teu corpo
deslizado e escuro
onde crescem as raízes
danças a minha cegueira
uma dança nua na praia
avanço no teu corpo
lua nova avanço com uma
mão cheia de areia fina
um movimento errante
e vento negro dalgum vulcão
movimentam os montes das
tuas ancas, espelhos negros
numa luz de surdez. os cegos
encantam-se com os corpos
que conhecem pelo odor e pelo
aroma e tacto, as orquestras de
cegos muito leve o calor
junto ao mar azul e crespo, fica
novamente enlaçado no meu

será que o meu amor
ouve a minha voz tão longe sente
sou a lâmpada, as palavras voam
e só ouvimos os pássaros

José Gil
(in, Corpo Total, 87)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Espírito Santo

No Brasil, as tradições açorianas chegadas a partir do século XVIII deitaram raízes, passaram a fazer parte da vida e do cotidiano do povo que aqui se estabeleceu, principalmente nos estados do sul e sudeste do país. Uma dessas tradições, o culto ao Espírito Santo, a força divina que nos guia, ganhou influências culturais de outros povos, novas cantigas, outros adeptos e formas de se exteriorizar, manteve-se a essência. Reafirmando a tradição antiga, um poema popular açoriano:
Senhor Espírito Santo
Lá da casa da Ribeira
Cheira a cravo,cheira a rosa
Cheira a flor de laranjeira.

Tenho tantas saudades
Como folhas tem o trigo
Não as conto a ninguém
Todas trago comigo.

Minha triste saudade
Vamos nós mais devagar
O amor é criancinha
No correr pode cansar

Pus-me a cantar saudades
Ao pé de uma verde cana
Respondeu-me uma folhinha
Triste vida tem quem ama.

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 04/07/10
(in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br publicado aqui com a permissão da autora.)
Nota do editor: no dia 4 de Julho comemora-se em Coimbra o bom nome da Rainha Santa Isabel, uma das grandes figuras da espiritualidade portuguesa, introdutora no país do Culto Popular do Espírito Santo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Teatro em bando

(Uma pequena reportagem)

Vale de Barris foi, no passado fim-de-semana, capital do teatro europeu. Foram acolhidas treze companhias de teatro dos vários cantos da Europa representando cada uma das suas peças nos vários palcos espalhados pela serra de Palmela.

Tratou-se de um evento muito singular e fraterno organizado pela companhia de teatro “O Bando” e o seu mentor João Brites que promovia um intercâmbio internacional a diversos níveis. Houve sobretudo muito boa energia a circular naquela encosta da serra, pois quem assistia a uma peça ao relento não podia deixar de sentir aquela aragem pura campestre, tão bem como o cantar das cigarras que não deixavam de dar beleza á noite.

As pessoas essas estavam sempre com um sorriso no rosto e empenhadas também em trocar impressões e conviver com os nossos convidados estrangeiros. Teve também um lado poético este festival teatral. No fim e com uma encenação de João Brites juntou-se numa peça só as várias companhias que contracenando uns com os outros e dentro de uma boa harmonia despregavam as gargalhadas aos espectadores.

AAHH. Digo que teve um lado poético porque esta encenação tinha como tema a lua que por coincidência encontrava-se cheia no calor da noite, o que fazia despertar um certo transe nas emoções de então.

Foi memorável este evento que tanto fez felizes as pessoas que se inseriam nele, ou não será o teatro um despertador de emoções num corpo que sabe que pensa.

Diogo Correia
07/ 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XIII

-A Fé é algo que existe dentro de si. Existe ou não, tão simples como isso. É o sentimento, se é que a expressão tem algum significado, é aquilo que você sente dentro de si e que o impele a ir ao encontro Dele. A Fé é isso, é esse reconhecimento interior. É viver justamente no reconhecimento dessa centelha que é precisamente a marca de sermos Seus filhos. Pois bem, neste sentido já deve estar a perceber porque digo que não é algo em que se possa acreditar, antes algo que se reconhece que se sente e se reconhece e que acaba por nos guiar nos nossos passos. Veja que não pretendo que todas as pessoas sintam ou vivam com a Fé, pelo menos da maneira como a estou a explicar. Mas não temos como negar que um tal apelo seja algo que não possa acontecer a qualquer pessoa, a qualquer ser humano. Se quiser, numa síntese, podemos dizer que viver com Fé é viver no desejo de O encontrar na eternidade.
-Mas você vai ter que me perdoar a insistência. Mas não continuamos a falar de crença?
-Não, de modo algum. Trata-se, como disse, do reconhecimento. Você sente e reconhece esse apelo e reconhece esse princípio e muito simplesmente vive de acordo com isso.
-Mas eu tenho que insistir. Não se poderia dizer o mesmo quanto à crença, isto é, você muito simplesmente acredita nisso e vive em conformidade.
-Se me permitem e sem querer estar a melindrar o senhor, vocês vão deixar-me introduzir aqui uma pequena observação, pois parece-me que o nosso amigo não está a alcançar completamente o que tu estás a querer dizer. Sou o primeiro a reconhecer e a admitir que pode ser subtil, mas há uma diferença fundamental que possivelmente se entenderá melhor se conseguirmos colocar o problema desta forma. Ora vejamos.
Se nós colocarmos a questão no plano da crença, nesse caso não teremos como escapar ao problema da prova e em última instância, seremos sempre forçados a admitir que, por isso, serão as vicissitudes do desenrolar da vida que irão determinar os princípios segundo os quais alguém conduz o seu comportamento no dia-a-dia. Quer dizer que nós tomamos como verdadeiro aquilo que conseguimos provar e nessa linha só tomaremos como bom aquilo que consigamos provar. Podemos depararmo-nos com situações em que consigamos provar algo que estabeleça princípios que ponham em causa outros que anteriormente tomávamos como bons. Podemos portanto mudá-los ao sabor das circunstâncias.
Ora não é isso que se passa. Quer dizer, não deve ser a vida que determine os nossos valores, somos nós, de acordo com estes que deveremos conduzir as nossas vidas.
A Fé é esse reconhecimento anterior em função do qual aceitamos os princípios segundo os quais procuraremos conduzir as nossas vidas. É por isso que se pode dizer que a Fé é uma revelação.
-Ai muito obrigado pela achega. Mas não te sabia tão atento a este género de questões.
-É, eu sou uma verdadeira caixinha de surpresas, já devias saber isso muito bem.
Mas agora o senhor já entende melhor a diferença de que ela estava a falar?



-Sim, estou a entender a diferença que estabelecem entre o acreditar e a Fé, tal como falam dela, mas para mim que não sendo propriamente dito ateu, sou, desse ponto de vista, digamos assim, agnóstico, é um tanto ou quanto difícil partilhar essas vossas convicções, se assim me posso referir a elas.
-Nem com toda a certeza estaria aqui alguém a pretender convertê-lo ao que quer que fosse. Estamos no domínio de uma troca de ideias e mais uma vez manifesto a opinião de que está a dar lugar a uma conversa cheia de interesse.
-Subscrevo o que diz sobre o interesse da conversa e é claro que também não estava de modo algum a pensar em que estivesse aqui alguém a querer converter-me. Nem isso faria qualquer sentido, é como diz, estamos a ter uma troca de ideias.
-Claro.
-Mas o ateísmo, meu caro amigo, permita-me que lhe diga que não passa de uma infantilidade.
-Ena, voltas a surpreender-me.
(…)
-Mas o problema continua de pé. Pessoalmente continuo sem perceber como é que se pode afirmar a existência de Deus, como é que se pode sustentar que Deus existe.
-Lá está, a revelação da Fé…
-Mas da maneira como vocês abordam a questão, isso da Fé não seria algo que teria que suceder quer dizer, algo que deveria estar presente em todos os seres humanos? Não teria que se observar essa, digamos assim, universalidade?
-Não necessariamente.
-Tal e qual. Veja que essa obrigatoriedade de haver essa revelação em todos os seres humanos não decorre imediatamente de se dizer que ela é algo susceptível de ser observada em qualquer membro da nossa espécie. Aquilo que eu defendi é que esse apelo interior pode ocorrer em qualquer pessoa, não quer dizer que necessariamente assim venha a ser. Não é, digamos assim, um estado de espírito estranho à inteligência da nossa espécie, é, pelo contrário, algo absolutamente natural; toda e qualquer pessoa nasce com a capacidade de sentir esse apelo e também nasce com todos os mecanismos cognitivos que lhe permitam fazer esse reconhecimento. Foi isto que afirmei, por outras palavras, mas o que quis dizer foi isto. Ora apesar de nascermos com essa potencialidade não implica isso que tenhamos que a materializar, isto é, que a Fé tenha que revelar-se obrigatoriamente em todo e qualquer indivíduo. Veja até que a revelação da Fé acontece mais frequentemente por via da educação, é, podemos dizê-lo, a forma mais habitual por que isso sucede. Isto sem que nos esqueçamos que ela também pode acontecer por via da mística, isto é, àqueles a quem Deus se revela. Aliás e num aparte, por exemplo, é por isso que para mim não faz qualquer sentido o proselitismo.
-Fico espantada contigo. Deixas-me de boca aberta, muito embora ache discutível aquilo que dizes sobre o proselitismo. Mas acredita que me deixas de boca aberta.
-Não tem nada de mais. Afinal nunca falámos sobre estes assuntos, pois não?

(continua)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

As Estrelas do Coração

Para cada estrela no céu,
Há uma estrela no coração.

Olhamos para a vastidão estelar
E desistimos de contar
As estrelas da noite.

Olhamos para a vastidão da vida humana,
Vemos confrontos, deslealdades e desilusões
E desistimos de amar.

Amar é como contar as estrelas:
Exige esforço e concentração.
Às vezes, o céu fica nublado
E não conseguimos, naquele instante, prosseguir.
Às vezes, vem o vento
E nos joga um cisco nos olhos.

Mas é preciso continuar
Olhando para o céu.

Embora, às vezes, o tempo nuble,
Por trás, esconde-se o brilho do sol ou a limpidez da noite estrelada.
Não é por que não conseguimos contar que
O amor não existe.

A cada estrelinha que contar no céu
Brilhará uma outra em seu coração.

Não desfaleça!
Continue firme:
Olhando e contando
Perseverando e amando.


Dalton Campos Roque e Andréa Lúcia da Silva
http://www.consciencial.org

sábado, 3 de julho de 2010

Interligação de Universos (3)

.....................fala-me sobre o tempo.
- A observação linear do homem terrestre codifica o ontem como passado, o hoje como presente, e o amanhã como futuro.Mas isso não é verdade, é próprio duma observação condicionada, não abrangente. A progressão é vertical,não horizontal. A espiral contem em si a atemporalidade, mais perto da Realidade. A visão humana não permite a aceitação do não tempo. Aos cinco sentidos já conhecidos dos seres humanos, outros aguardam, em forma de embrião, o seu desenvolvimento, a gênese do Novo Homem. Os limites próprios da temporalidade serão, em breve, um marco já transposto da evolução humana.Aquilo a que chamais Nova Era verá o Homem atemporal, multidimensional.

antonio alfacinha
alfa2749@yahoo.com.br

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quem sou eu?


Fernanda Leite Bião


Outro dia me perguntaram: — Quem sou eu?
Busquei, em meio à minha razão e reflexão, precisar. Uma imagem invadiu a minha mente. Deixei-a entrar.
Era uma estrela cadente luminosa. Cores variadas percorriam seu corpo celeste e traduziam a beleza do seu ser. Acompanhei-a. Busquei seguir seus passos. Ou seria o seu rastro?
Percebi que ela transitava entre mundos e percorria o universo. Parecia sem rumo preciso, de curso incerto.
Senti-me um pouco apreensiva em seguir um ser sem direção exata. Entretanto, uma coragem frente ao desconhecido e às possibilidades de conhecer se espargiram em minha alma. Fui tomada de uma força poderosa que me movimentou.
Por onde passávamos, via um baile de corpos celestes. Tantos movimentos, tanta diversidade.
Estranho, parecia já conhecer algo semelhante àquilo.
Enquanto viajava, busquei contemplar todos os detalhes à minha volta.
À medida que me permitia sentir, vivenciar, o medo se esvaía.
Comecei a reparar que o medo tem energia vital em nossas experiências passadas. Elas modelam experiências e respondem aos comportamentos presentes.
Em face do perigo, nós tendemos a nos conservar exatamente no lugar que conhecemos. Acontece isso comigo. Será que acontece com outras pessoas? Acontece com vocês?
Bem, a viagem foi uma viagem! Engraçado como a mente da gente se perde na imensidão do cosmo. Parece, de fato, uma estrela sem rumo, vagando por aí.
Quando me assustei, estava de volta a mim.
Fiquei curiosa para saber onde a estrela foi parar. Ao mesmo tempo, voltava a quem sou eu.
Eu sou...
Peraí!
A estrela caiu. Lembrei agora. Lugar estranho aquele...
Mas, voltando à nossa pergunta inicial: vou olhar ali no espelho. Espera um pouco, tá?
Olhei-me. Observei cada detalhe.
Sabe o que descobri? Acho que minha mente baila demais.
Vi as cores da estrela em mim. Será que ela caiu aqui em casa?
Não sei. O que vocês acham?
Quem sou eu? Acho que sou a estrela cadente.