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domingo, 7 de julho de 2013

M I R A D O U R O





A RODA DOS DIAS




A madrugada sucede à noite antecede o dia

Como a água que sacia vem da nascente

Amigável é apenas um tom que aproxima a utopia

Que Amigo completa em sinfonia na alma da gente. 






Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca

domingo, 21 de abril de 2013






RETRATOS - II
Olha agora o mar e escuta o azul.
O teu mar interior o tom de que se veste.
O vento sossega
torna-se brisa
as aves pousam
a vida acalma-se
refreia-se
suspensa de ti
em ti
esperando o sinal
do que queiras.
Agiganta-se um pulsar
nessa quietude.
As árvores refrescam-se
no orvalho
que da alma escorre
e as nuvens percebem
que devem partir.
Então
o sol brilha
sem obstáculos.
Os caminhos reverdam-se
nas ervas
que os tracejam
e o azul liquefaz-se
mais
inunda  
todos os espaços
e vivifica-os
nesse refrescar.
As luzes das janelas
iluminam as casas
no princípio da noite,
trabalhadores descansam
dos cansaços do dia,
as crianças acolhem-se
no colo das mães
ávidas de acariciar.
O sonho levita no sentir
bem-aventurado
de quem se dignifica
no banho do suor próprio
que amassa o pão
que se serve à mesa.
A ternura exercita-se
nas histórias que se contam
à noite,
depois da janta,
no remanso do sofá.
 
Manuel João Croca
 
Foto de Edgar Cantante
 

domingo, 14 de abril de 2013





Foto: Edgar Cantante


RETRATOS – I


Ia eu andando, de noite, na rua onde moro.
Era já tarde na noite quando ouvi, através da persiana entreaberta da janela, uma voz que chorava baixinho num desconsolo que tocava.
Chorava, baixinho chorava.
Pensei parar para ouvir, achei que não devia mas algo em mim queria escutar o que o choro carpia.
Ando não ando, paro não paro, a indecisão irresolvia se ouvir ou não o que a voz gemia.
Não parei porque alguém se aproximava na noite na rua onde moro.
De modo que fiquei sem saber que dramas ou que dores ali aconteciam mas sei que era noite e por detrás da janela de persiana entreaberta alguém chorava, alguém sofria.

*

E então fui andando para o sítio onde ia, sentindo que algo em mim se transformara já. Senti que algo naquela dor que eu desconhecia e me não pertencia, em mim entrara e comigo trazia.
Entrei no bar.
Uma música passava, soava. Era uma balada que um homem cantava. Cantava em inglês. Era uma balada longa, dolente, onde se contavam amarguras de uma vida sem picos de luz como tantas vidas.
No bar, a gente era pouca. Ninguém me pareceu suspenso da balada embora a balada passasse na mesma. As baladas são assim. São só para quem gosta ou para quem repara nelas.

Manuel João Croca