Foto: Edgar Cantante
RETRATOS – I
Ia
eu andando, de noite, na rua onde moro.
Era
já tarde na noite quando ouvi, através da persiana entreaberta da janela, uma
voz que chorava baixinho num desconsolo que tocava.
Chorava,
baixinho chorava.
Pensei
parar para ouvir, achei que não devia mas algo em mim queria escutar o que o
choro carpia.
Ando
não ando, paro não paro, a indecisão irresolvia se ouvir ou não o que a voz gemia.
Não
parei porque alguém se aproximava na noite na rua
onde moro.
De
modo que fiquei sem saber que dramas ou que dores ali aconteciam mas sei que
era noite e por detrás da janela de persiana entreaberta alguém chorava, alguém
sofria.
*
E
então fui andando para o sítio onde ia, sentindo que algo em mim se transformara
já. Senti que algo naquela dor que eu desconhecia e me não pertencia, em mim
entrara e comigo trazia.
Entrei
no bar.
Uma
música passava, soava. Era uma balada que um homem cantava. Cantava em inglês. Era
uma balada longa, dolente, onde se contavam amarguras de uma vida sem picos de
luz como tantas vidas.
No
bar, a gente era pouca. Ninguém me pareceu suspenso da balada embora a balada
passasse na mesma. As baladas são assim. São só para quem gosta ou para quem repara
nelas.
Manuel João Croca