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terça-feira, 3 de abril de 2012

INTIMIDADES



Termina aqui a publicação de “Intimidades” naquela que é a sua versão para a blogosfera. O meu maior desejo é que a companhia lhes tenha sido agradável. Se, ao longo destas muitas semanas, o querido Leitor se divertiu com a prosa, então este vosso servidor dará por bem empregue o tempo e os esforços desenvolvidos com ela. Ainda assim, se para além disso mergulhou mais fundo e naquela encontrou as pistas de um convite à reflexão sobre a vida, os mistérios da mesma e a amálgama de relações e circunstâncias em que se faz e decorre, será esse o prémio máximo que advém da certeza de não ter escrito em vão pois, mais que no ser lido, a melhor recompensa resulta do facto de ser entendido.
Como escrevi na “Nota de Abertura”, estamos perante um romance que foi construído através de quadros diversos. A escolha por esta forma de apresentação não foi inocente. Na verdade, tenho para mim que a vida não só não é unilinear, como dificilmente conseguiremos entender a vida de alguém fora das contingências em que decorre. No entanto, espero ter conseguido contar a biografia do narrador que, afinal, é ao mesmo tempo o Autor ficcionado dos sete volumes que compõem este projecto literário que assinei como Sebastião Sorumenho, mas esse é o veredicto que aos Leitores diz respeito.
A estes, do fundo do coração, resta-me agradecer a atenção que me têm dispensado, não resistindo à promessa de aqui voltar, para continuar esta amostra da obra que tenho vindo a lavrar desde os começos da juventude, o mesmo é dizer, há mais de trinta anos. Perante todos me curvo, em sinal de estima e respeito e, como já disse, pela mais profunda e sincera gratidão.

Alhos Vedros, 17 de Março de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

INTIMIDADES


NÃO SEI SE OUTRO DIA VIRÁ

Ao som de
Madredeus


Enquanto me desfaço no teu rosto, atraído pelo teu sorriso, há nos meus tímpanos uma voz que me alonga o braço até à superfície de planetas distantes, de onde retiro e atiro o pó que ao entrar na atmosfera terrestre se transmuta em fogo-de-artifício que ao meu olhar deixa em estátua. Corre um regato dos teus dedos, um regato que me lava os momentos de vitória da morte e corro sobre os seus arrojos e salpicos feitos de esmeraldas e pétalas de margaridas, ouvindo um canto que me distende e faz planar ao ritmo de um dedilhado repetitivo de guitarra e uma voz segredando-me as fórmulas mágicas que elevam o meu corpo à condição de gás das nebulosas.
Não sei se amanhã vou estar aqui admirado deste luar que trazes nos olhos, eu rasgo a minha carne e os meus músculos com a revolta de saber que amanhã não estarei aqui, inebriado de ti, fulminado pela paz e o encanto de me sussurrar pelos teus cabelos, como um viandante cansado que sobre uma pedra descansa o queixo na palma da mão e se deixa escoar, com a mesma paciência das galáxias, liberto, completamente liberto no cativeiro dos teus gestos. Mas sei que mesmo da essência da luz, por ti esperarei até ao dia do juízo final e será de mão dada contigo que me apresentarei para pedir perdão por todos os meus pecados. E também sei que entre o ontem e o amanhã está tu, para todo o sempre estarás tu, dando-me os impulsos necessários para as minhas muitas e muitas cambalhotas entre as estrelas.
Por favor, mira para o alto que eu estou lá com a presença que a velocidade da desintegração me consente, no ar pelo efeito da aragem com que as asas dos anjos teus amigos me levam a voar pelo céu da alegria em te encontrar, eu desfeito no teu rosto, colado ao íman que é o sorriso da tua contemplação.
Olha, aceita esta mão cheia de borboletas que tenho para ti, que guardei uma vida inteira numa caixinha sagrada que abri só para ti e agora, exactamente neste instante, rogo a Deus para que seja digno de ofertar, nu de humildade e cheio de vontade de te acariciar a expressão de um afago de algodão. É claro que tenho consciência da ventura que é pingar-me em teu redor, assim como compreendo a bem aventurança que é permanecer na tua órbita e nem posso dizer que o merecesse, apesar de saber que nada mais sou que um mortal, afinal um simples mortal que, cheio de lágrimas, aceita a bênção que é viver sobre a frescura do teu deambular.
Eu tenho tão pouco para te dar, mas fui a Marte buscar uma pedra que não existe nesta superfície e prometo que de hoje em diante viverei com a preocupação de não aleijar quem quer que seja, Prometo que vou ali fazer o regaço da nossa solidão grávida de delícias e desse modo incapaz de molestar um simples zumbido, para o que me basta o calor que emana do interior com que me atiras, feito pássaro, pelo horizonte.
E esta voz feiticeira a elevar-me até à metamorfose num pólen luminoso que mansamente chove no teu tacto. Esta voz feiticeira cantando-me árias de onirismo e eu, enfeitiçado, levado por essa melodia até à margem do teu coração.
Amanhã, quando eu já não estiver aqui, saberás, só tu saberás que te estarei contemplando e acenando a partir de uma estrelinha inatingível e podes estar certa que esperarei por ti, com a mesma paciência das galáxias, até ao segundo anterior do último dia do juízo.

Alhos Vedros, 21 de Maio de 1998


FIM

CORRIGENDA:
A data do quadro "VOCAÇÕES" está indevidamente registada; trata-se de 23 de Fevereiro de 1998 e não de 2011 como, por lapso, se indicou.

terça-feira, 20 de março de 2012

INTIMIDADES


AMANHECERES

 
O Sol continua a espreitar pelo interior do território pertencente ao povoado vizinho. Quando a primeira baba de luz vem lembrar às cores da lezíria que devem espreguiçar as pétalas, já a passarada abandonou os ramos e, cheia de linguarejares, esvoaça e saltita para encanto de quem lhe preste atenção. Outrora, tal assunto era abafado pelos sons das passadas e pelos ditos e mexericos das demandas do trabalho. Hoje há o barulho do trânsito que as pasteleiras de outros tempos, pouco ruído faziam quando a hora era marcada pelas buzinas das fábricas. Actualmente há o tilintar das louças nos cafés e já não há tantas mulheres que se dirijam para o mercado, em busca dos condimentos da dieta diária. Ainda há os deambulares, agora por maior número e variedade de lojas e já não existem apenas as conversetas em tabernas, há gente suficiente para prosas e jornais a meio da manhã. Mas as andorinhas, mesmo estando lá, há muito que deixaram de fazer ouvir os seus piares.

Alhos Vedros, 21 de Maio de 1998

terça-feira, 13 de março de 2012

INTIMIDADES


AS FESTAS DAS MORÇOAS

O senhor Madeira era um poeta. Escutei-lhe várias peças da sua autoria e, inclusivamente, guardo na memória um poema que ele dedicou a uma das minhas irmãs, por ocasião da expressão pública da paixão dela por aquele que veio a ser meu cunhado. Não sei se a sua obra é vasta e se daria para dar corpo a algum livro e muito menos tenho conhecimento daquilo que os filhos possam ter feito ao espólio que, certamente, deixou. A verdade é que todos o viam tal como o defini e sempre que ele era alvo de comentários, dessa forma era distinguido para se saber de quem se estava falando. E o homem correspondia-lhes às expectativas. Quando estávamos na sua presença facilmente dávamos conta de ser uma pessoa diferente, não só pelo cuidado com que harmonizava as suas indumentárias com as situações do quotidiano, também pela linguagem e gestualidade com que respondia às solicitações mais diversas, sobretudo pelas atitudes de que se permitia, aqueles seus passarinhares pelos canteiros que ele, por moto próprio, prolongava pelas ruas que ia enchendo de borboletas. Sem embargo, melhor seria dizer que era um artista, pois a sua propensão natural para as coisas das letras e das artes, não só o levaram a escrever e encenar e ensaiar teatro como, também, a representar papéis em que, muitas vezes, conseguia elevada densidade lírica. Fossem os casos do âmbito da cultura e lá estava ele, como o responsável com que todos naturalmente contavam e, por mais novo, não havia sócio da maior colectividade do burgo que não soubesse que os serões eram maioritariamente organizados por ele. O senhor Madeira fundou e dirigiu o rancho etnográfico daquela sociedade e, ano sim ano não, repartiu com o senhor Fernando Rosa que era desenhador e também gostava de pintar com as palavras, a responsabilidade directiva pelo bom andamento da biblioteca e as actividades que aí tinham lugar e eram muitas, das sessões de leitura aos recitais, ou do destaque dos livros e exposições aos colóquios sobre variados autores.
E era alguém cheio de alegrias e rasgos de humor, de riso fácil e frontal que geralmente encarava as contrariedades com ânimo de as resolver. Por vezes vociferava e zangava-se com os mais novos, especialmente quando estes lhe baralhavam os tempos e punham em causa prazos e compromissos. “-Porra! Que na minha terra é uma cebola.” –Gritava ele, dando-se, ao mesmo tempo, à canseira de apresentar um rosto de espantar pardais e que, particularmente nas raparigas mais acanhadas, causava o susto necessário a que tudo voltasse a correr bem. No entanto, todos sabiam que era sol de pouca dura e a regra era conviverem satisfeitos até com os arrufos e as birras do criativo, mais que não fosse, pelo respeito que lhe tinham. Entre os mais velhos, nem mesmo os mais rudes ousavam caçoar da figura e, uns mais por uns motivos que outros, não havia alguém que lhe desdenhasse o trato ou a companhia.
O senhor Madeira tinha vindo muito novo da serra algarvia, chamado para trabalhar na fábrica de um parente que há anos se lançara na prensagem da cortiça com que fizera casa e fortuna, depois de ter começado como rapazola aprendiz nas compras do mato, em que ganhara a experiência e a sabedoria que o levaram a singrar na vida. Ora o senhor Madeira, como tantos outros rapazes, da mesma idade, cheios de dificuldades para encontrarem um ganha pão indígena, imitou-lhes os passos e, abandonados os bancos da escola, após um par de revoluções atrás de um balcão de mercearia, lá veio ele, no pouca terra, na busca da aventura de alcançar um amanhã melhor. Rapidamente se apercebeu que aquilo de dar cortiça à banca não era o caminho da felicidade e como era moço de virar o boi do avesso, atirou-se com unhas e dentes à instrução nocturna e quando chegou às vésperas de entrar na tropa, andava já no instituto comercial que entretanto concluiu e a partir do que ascendeu a guarda-livros da fábrica que entrementes ia crescendo. O gosto pelas leituras e a divagação era anterior a isso e o avolumar da instrução apenas lhe possibilitou dar àquelas uma maior consistência, fazendo com que o seu detentor acabasse por chegar a ser um idoso com sólida cultura. Talvez por isso ele tenha encantado a professora primária com quem constituiu família e, de certeza que também devido a isso, criou três encantadores filhos com muito carinho e atenção e o bom senso e a sapiência que deles fez gente de bem.
Infelizmente o senhor Madeira não partilhava os discursos que, no período revolucionário de Abril, apontavam como necessária a morte dos patrões e a apropriação dos meios produtivos pelos explorados, como na circunstância se falava. Isso valeu-lhe a destituição dos seus cargos na colectividade a que dedicara a vida e a pura e simples proibição de encenação de “Um Barco Para Ítaca” –teatro burguês e reaccionário, dizia-se- com que anos mais tarde se despediu numa colectividade da sede do concelho. Foi o maior desgosto que lhe podiam ter dado e lembro-me dos meus pais repararem que o homem tinha envelhecido, repentinamente, um punhado de rugas e cabelos brancos. “-Deixe lá, Senhor Joaquim.” –Confortavam-no os poucos que se mantinham chegados. “-Isto é uma cambada de ingratos que não merecem que você se preocupe por causa deles.”
Quem veio a não estar para essas palmadinhas foi um grupo de convivas de um café de bairro em que a vila se começava a expandir e onde, na ala de povoamento mais anoso, lá estava a vivenda de rés-do-chão e primeiro andar onde o poeta tinha o piano para os filhos e a janela sobre o estuário para as suas musas. Fartos do fim das diversões e das noites ideológicas que as tinham substituído, aqueles filhos de naturais e imigrantes que os engrossavam, decidiram reatar as festividades da terra que, no triénio em que aconteceram, pelos críticos foram rebaixadas à condição de festas de bairro.
Durante muitos anos, foi aquela a última manifestação da sociedade civil local, isto é, foi a última iniciativa que não contou com o suporte ou a promoção dos órgãos de poder autárquico, mas apenas com as forças e os meios que os homens bons foram capazes de reunir. Há quase uma década que aquela tradição tinha sido interrompida e quando a estreia findou, os simples foram unânimes em reconhecer que tinha sido um êxito. E também aqui pela vez derradeira, nas bocas do mundo correu o nome do senhor Madeira como a alma e a chave daquele sucesso.

Portel, 20 de Maio de 1998

terça-feira, 6 de março de 2012

INTIMIDADES


UM POUCO DE CONVERSA FIADA

 
Sempre achei muito interessante a verificação da morte de Deus. Temos pela frente um raciocínio prenhe de coerência que lhe advém de uma harmonia que põe a nu toda a sua elegância. O interesse aumenta quando se faz derivar aquela ideia das conquistas científicas e tecnológicas –aqui tomaria a liberdade de acrescentar a expressão tecno-económicas- da civilização ocidental. Neste ponto, além da beleza, o argumento ganha destaque pela inteligência. Partindo daí para concluir pela inexistência de sentido para a Humanidade, então penetramos a subtileza que raramente acontece nos circuitos cerebrais da nossa espécie. Pelas quasi infinitas perguntas que a proposição implica, dela diríamos estar diante de um verdadeiro monumento à capacidade dos homens fazerem uso da razão. Eu, humildemente me rendo à sua majestade. Se não, vejamos.
Falem-me da morte de Deus e eu de imediato imagino um velhinho no seu leito de morte, exalando o último suspiro. É que há algo que parece escapar àquela constatação. É o facto de Deus ser uma construção humana, isto é, Deus, ou melhor, a leitura que Dele fazemos, o modo como O concebemos, tudo isso é uma criação nossa; antes de mais Ele é um conceito. Ora é necessariamente a este que se proclama o óbito o que, em termos de continuidade de pensamento, não nos leva a lado nenhum. Tão só significa que abdicamos de uma noção, acto esse que não nos deveria tirar o apetite para o jantar. Com efeito, se, na realidade, Deus existe ou não, é algo diverso. Na condição afirmativa, Será, digamos assim, a energia do vazio, a Eternidade que não tem princípio nem fim e que Estaria para lá do princípio do Universo que, justamente, Ele teria criado. A Fé na sua existência é uma revelação e não é justificável com qualquer género de argumentação científica. Acontece ou não e estou em crer que tanto num caso como no outro não há mal algum para o mundo e nem os incrédulos deixarão de ser abençoados por o serem, tal como os crentes não retirariam daí nenhum benefício particular. Seja como for, a existir, de facto, o Deus real jamais poderia ser aniquilado por uma afirmação humana pelo que esta só pode ter em vista a concepção que Dele fazem os homens. Nesta dimensão, é um silogismo como qualquer outro, não tem nenhum mérito especial. Segue daí que para umas quantas pessoas a existência de Deus não é considerável. Ora, também está bem assim. Efectivamente, sempre a nossa espécie conviveu com isso, a menos que se pretenda que nos séculos de antanho a maioria tinha crenças bem definidas e com a Entidade Suprema bem identificada. Quando é que deixou de haver não crentes? Pois o nosso planeta sempre girou indiferente a isso.
Mas é de peso a observação que, dadas as conquistas da nossa civilização, não faz o menor sentido continuar a ter Fé em Deus. Nesse aspecto, do alto da sua superioridade intelectual, os seus advogados parecem ser os únicos a não ter dado conta que, nas suas tentativas para explicar os fenómenos do Universo, jamais um cientista que fosse precisou da hipótese divina nas suas teorias. Sequer ao nível das humanidades isso se verificou quando sabemos que certa filosofia também a Ele não recorreu para justificar a dignidade humana. Se Deus criou o Cosmos, fê-lo para que houvesse a possibilidade de aí surgir a inteligência capaz de encontrar a Eternidade. Quer dizer que, se Deus criou a matéria, fê-lo para partilhar a sua criação e não para a impor a quem quer que fosse. Uma vez iniciada a Obra, por natureza e essência dinâmica, logo a Bondade se retirou de cena –salvo seja a expressão- e deixou que as coisas evoluíssem por leis próprias. Não entender isto, pretender que o Altíssimo se ocupasse das contingências de baixo é estar ainda no patamar da conceptualização do Deus relojoeiro de há dois séculos atrás. A César o que é de César. Para explicar o Universo, apenas devemos procurar conhecer os fenómenos que lhe dão corpo e as suas próprias leis.
Resta o brilharete da ausência de sentido para a vida humana e o Universo. Sobre esta última parcela desde logo devemos chamar a atenção para a racionalidade animista que lhe subjaz. A Natureza teria uma espécie de consciência que obrigatoriamente deveria certificar-se se o rumo estaria ou não a ser cumprido. Muito bem, o Universo, por si, não tem que ter necessariamente sentido. Se o admitirmos criado por Deus, consequentemente, tem-no; e nós seríamos esse desiderato. Que mal havia nisso? Mas se não considerarmos essa possibilidade, também não desvendamos qual possa ser o problema da inexistência de sentido no Universo, pois não vemos como é que isso nos impossibilitaria, inclusive, de procurarmos sobreviver-lhe. A falta de sentido para a vida humana ainda é melhor e aqui recordo-me dos meninos que perguntam aos pais qual a brincadeira que devem levar à prática pois, de contrário, não mais conseguirão que ficar quedos. Ora essa, a resposta a isso só pode ser que a vida terá o sentido e a dignidade própria que lhe queiramos atribuir, a menos que se admita a predestinação da vida humana –o que estaria maravilhosamente de acordo com a proclamação da morte de Deus- e, por isso, a sua falta de autonomia e liberdade, o que a moderna neuro-biologia parece pôr em causa. Em Deus encontramos um sentido para a existência humana e justificação para a sua dignidade. Exemplificando, podemos dizer que todos os homens são filhos de Deus, possuindo, à nascença, uma dignidade incomensurável e que ninguém, sem atentar contra Ele, pode tentar alterar a não ser o próprio que a pode delapidar por via das suas más acções. Isto continua a não ter mal nenhum. Por sua vez, vários foram os filósofos que chegaram à dignidade da vida humana sem necessitarem de se referir a Deus e também não vejo em que isso possa ser menos considerável.
Falar na morte de Deus, nesta medida, é algo que faz pouco sentido, do ponto de vista intelectual não nos aquece nem nos arrefece; simplesmente não nos conduz a parte alguma. Mas fazer disso uma atitude militante, num mundo tão violento como é aquele em que vivemos, será, no mínimo, irresponsável, pois retira da conversa uma das contenções externas para a nossa mais bárbara animalidade.

Alhos Vedros, 17 de Maio de 1998

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


CIDADÃO DE CORPO INTEIRO

 
Foi com todo o orgulho que a adolescência consente que eu esperei a chegada da funcionária e dos autarcas da Junta de Freguesia para efectuar o meu recenseamento. Cedo aprendi que nos cabe a dignidade de zelarmos pelas nossas vidas e, naturalmente, nunca entendi porque eram vedadas as possibilidades dos cidadãos responsáveis pretenderem tomar em mãos os destinos das coisas públicas, devendo os restantes dizerem de sua justiça qual deles o melhor. Por isso me alegrei com as perspectivas democráticas da manifestação dos cravos com que o povo recebeu os militares que deram cheque xeque-mate ao Estado Novo e, alguns meses mais tarde, mal me apercebi do desprezo com que a extrema-esquerda olhava essas questões, logo me apeei dessas composições de militância política, passei a formular os meus pensamentos e as minhas opções a partir de outros quadrantes. Com efeito, embora jamais tenha abraçado uma linha política definida, sempre me vi como um democrata e em conformidade tenho procurado agir e, por via do estudo e reflexão, reforçar e consolidar, sob esse ângulo, os meus pontos de vista. À data do primeiro recenseamento depois de Abril, estando eu em idade apropriada, foi com um sentimento de honra que fui a primeira pessoa a sentar-se nos degraus de entrada do edifício da Junta e é com garbo que hoje posso ostentar o número vinte e oito no meu cartão de eleitor, sabendo que antes de mim, nos cadernos, apenas constam os nomes das pessoas e respectivos familiares que, à época, asseguravam o funcionamento daquele organismo.
O mesmo fulgor no peito repetiu-se quando estreei meus olhos a verem o meu voto entrar pela ranhura da urna. Exactamente quando isso aconteceu não o saberei afirmar só pelo uso da memória; teria que recorrer à observação dos registos históricos da matéria. Mas sei que interiormente sorria de contentamento enquanto esperava a minha vez e nem o voto em branco diminuiu o júbilo e a interpretação da importância do acto e recordo-me que, no regresso a casa, senti-me tratado pelos meus botões como um homem. Nem quando recebera o meu primeiro salário eu tivera uma ideia igual. É evidente que logo esbocei um sorriso e encolhi os ombros que outros atributos não faltariam para que me pudesse considerar um homem, mas imediatamente apreendi aquela data como um marco simbólico da minha entrada nos assuntos do mundo adulto. Até ao momento, nunca descortinei as razões para alterar a fronteira. Finalmente eu era chamado a materializar a minha quota de propriedade do estado e também eu podia indicar quem gostaria de ver a gerir os negócios. Isso era ser homem e, relativamente ao meu pai, senti um enorme privilégio.
Não era a primeira vez que eu participava em votações públicas. A começar pelas experiências das reuniões gerais de alunos que, ao tempo dos governos provisórios, paralisavam os então ainda liceus –num dos quais eu estudava- e escolas comerciais e industriais, onde votara greves e protestos e reivindicações de braço no ar, ou expressara apoios por voto secreto para as direcções das associações de estudantes e os representantes discentes aos conselhos directivos, mas também nas algazarras das reuniões de moradores, invariavelmente de forma directa e tantas vezes entre apelos e apupos de última hora, também nessas magnas assembleias eu exercera os meus direitos de gaiato com quinze anos. E em todas essas ocasiões tivera já o ensejo de aderir ao lado dos vencidos.
Fosse como fosse, aquela tinha sido para mim a minha primeira votação séria e na altura pensei assim, a única em que aquilo que estava em causa era a valer.
Olhando para trás, agora revejo em outra ocasião a primazia, quanto ao grau de importância, entre as votações em que participei, curiosamente assinalando também a minha preferência pela ala derrotada da disputa.
Tratou-se de uma assembleia geral para a eleição dos corpos dirigentes de uma colectividade da vila, por sinal, a mais antiga e prestigiada.
Desde o fim de setenta e quatro que as direcções eram cozinhadas em reuniões partidárias e que as listas afectas a um partido ganhavam, compreensivelmente, devido ao maior número de sócios simpatizantes daquela corrente, de resto eleita em toda a autarquia por fortes maiorias absolutas. Mas o problema era que nesses três quatro anos subsequentes, a sociedade mais se parecia com uma coutada partidária e no que dizia respeito às missões para com os associados, até entre os acólitos era notório que muita coisa estava a ser deixada por fazer. Não havia memória de algum sócio impedido de avaliar o trabalho dos órgãos directivos e, como não podia deixar de ser, apareceram os rostos para o descontentamento. Os bailes tinham acabado, havia retratos de Marx e Lenine nas paredes, o grupo de teatro e a comissão cultural tinham que produzir realizações politicamente correctas e, como se sempre tivesse sido assim, as instalações abriam-se para todo o tipo de associações que as solidariedades com o mundo socialista vieram a dar corpo. Era demais e comentava-se que um sócio prestigiado tinha visto recusada a cedência de uma sala para uma reunião de empresários locais. A resposta veio de um grupo de velhos nomes da casa, a quem um movimento de abaixo-assinado veio propor para encabeçarem uma alternativa que devolvesse a instituição ao recreio e instrução de todos os associados. Os nomes da lista eram de peso e pela primeira vez foi apresentado um programa escrito que as boas vontades promoveram junto das residências dos confrades e, pelas reacções que iam obtendo, tudo parecia indicar estar próximo o fim daquele curto período que seria melhor esquecer. Eu e outros jovens que frequentávamos a sede por, em parte, ali termos sido criados, deixámo-nos iludir pelo desejo e começamos a festejar a vitória antes de tempo.
A ilusão apenas durou até ao momento em que entrei no pavilhão gimno-desportivo para participarmos naquela assembleia geral. A raiva que senti foi tanta que, reconhecidamente batido, ao levantar-me para votar nos meus candidatos, quase que as lágrimas me saltaram pelos olhos.
Nas primeiras filas, num dos lados da formação de cadeiras alinhadas de frente para uma mesa com a bandeira da colectividade, os idosos do Lar da Santa Casa da Misericórdia, também ela dirigida pela mesma cor de sectarismo político, tinham acabado de fazer pender o número de votos para o lado da direcção que ali estava para renovar o mandato.

Alhos Vedros, 17 de Maio de 1998

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


O VISGO E A REDE

À
memória de
Francisco José Gonçalves


Mais de dez anos passaram sobre um conto em que lhes referi a minha antiga qualidade de armador de pássaros. (*) Então limitei-me a descodificar aquela expressão e escrevi que não era o momento de lhes falar das minhas aventuras. Tratava-se de apresentar um certo indivíduo e o a propósito daquela referência foi para que o querido leitor entendesse a autoridade de um testemunho pessoal a respeito do mesmo. A história continuou, foi concluída e eu nunca mais pensei no assunto. Pois é chegada a hora e eu quero agora contar-lhes um episódio que sucedeu no decurso da minha carreira de predador.
Bem, talvez seja de bom tom esclarecer que hoje em dia muito dificilmente voltaria a repetir tais acções, pelo menos ao nível dos motivos. É certo que, com apenas uma excepção, o objectivo era a captura de asas para gaiolas. Em nada molestávamos uma pena que fosse e, no cativeiro, tudo fazíamos para que as criaturas estivessem bem alimentadas e nas melhores condições possíveis. No quintal do Chico, construímos um viveiro cujas dimensões permitiam aos mais irrequietos desentorpecerem e cuidávamos para que a densidade populacional fosse habitualmente pouco elevada. Mas só a ideia de furtarmos as avezinhas à liberdade que Deus lhes deu, nesta fase do meu crescimento, só isso me causa náuseas e seria suficiente para me levar a ficar quedo. Poderia ainda acrescentar outras razões para a recusa actual, no entanto devemos compreender que tudo começou pela meninice, por via da transmissão cultural e, além disto, aquele género de preocupações não faziam parte dos discursos dessas idades.
Com efeito, a coisa começou, para mim, por volta dos doze treze anos de idade. Eu armava em conjunto com o Luís Carlos e o Francisco José, aliás os responsáveis pela minha entrada na arte. Para eles, o início datava dos tempos da escola primária e quando eu me juntei, como aprendiz, é fácil de ver, já os meus sócios se tomavam como veteranos. Procedíamos à recolha para o nosso contentamento e para ofertarmos aos amigos, mas também tínhamos instintos empresariais e a maioria dos exemplares eram vendidos a particulares, apesar de, em uma mão cheia de ocasiões, termos tentado mercá-los com uma loja do ramo que havia no Barreiro. Imaginem gaiolas embrulhadas, com os pássaros a darem acordes e a esgravatarem, entre nós, no comboio, connosco a falarmos alto para tentarmos ocultar a matéria que transportávamos. Isto é um aparte, mas a verdade é que formávamos uma sociedade. Dividíamos equitativamente as despesas e no final de cada época que mais ou menos coincidia com o dealbar da invernia, repartíamos os lucros que sobravam depois de todos os custos estarem cobertos. Naturalmente, a mão-de-obra também era justamente repartida entre todos.
Era um vício, como diza o Chico, acordar cedo para que a aurora nos encontrasse prontos a esperar os incautos, camuflados em arbustos ou valas e canaviais, nem um agulha bulindo, para que estivéssemos atentos às chegadas e nos pudéssemos aperceber das aproximações que nos interessavam. E não era só a capacidade de engenho que viciava, era também a tranquilidade e as despreocupações associadas ao estar ali expostos à frescura da terra e da manhã, a que se associavam as disputas entre os candidatos e as chamas que enchiam a lezíria de trinados e piares vários.
Quem nunca armou não sabe do que estou a falar e nem deve perceber o sentido dos termos usados. Eu esclareço. Há diversos métodos para a captação ornitológica e cada um deles terá as suas variedades formais. Fundamentalmente existem três grandes tipos. A apanha feita através de ratoeiras, uma outra com o uso de uma rede e finalmente aquela que implica a utilização de visgo. Da primeira que se destina a matar os animais para fins de tacho, não vou falar. Até pelo simples facto de nunca a termos praticado. Quanto à última, consiste em envisgar cabelos de piaçaba e prendê-los a uma ramagem que depende da espécie visada; só para dar um exemplo, para os tentilhões é aconselhável uma pernada de oliveira. Empina-se o galho em sítio que sabemos ser batido pelos cantores alados e com o auxílio de chamarizes e se também de negaças, não fica mal, é procurar que os livres se entretenham com os cativos e esperar que poisem na armadilha de cola e depois ser rápido e ágil a deitar a mão sobre o esforço das asas bamboleantes e pernitas bêbedas que remetem a fuga para um varejar pelo chão. Há quem use este processo em complementaridade do que falta e era isso que nós fazíamos. A armação com a rede é mais complexa e trabalhosa. Consiste em camuflar uma rede de malha minúscula que se reparte em duas secções, convenientemente enroladas e dispostas de modo a formar um quase vértice triangular. As extremidades estão estacadas, assim como tudo o resto que não sejam gaiolas e ervas e arbustos alapantes, e as duas pontas de base estão ligadas a dois paus, unidos entre si por uma corda que depois de se unificar da bifurcação em v, se estende até à mão daquele que executa o puxo com que as muletas se erguem para permitirem, caindo em direcção oposta que as redes se abram e caiam, uma sobre a outra, envolvendo e aprisionando o que esteja por baixo. A fim de a passarada escolher aquele local de descanso e repasto, usa-se uma negaça e chamas. As segundas são aves reconhecidamente boas intérpretes que ali depositamos em gaiolas –se estiverem envolvidas em lenço branco ainda cantam melhor- devidamente escondidas com vegetação, preferencialmente, componente da dieta alimentar dos alvos. Têm como função chamarem quem anda voando. A primeira é um pássaro que deve ser treinado para estar sobre um poleiro e em que se coloca um colete de fio que se prende a um pequeno patim que é possível movimentar com o auxílio de um cordel, levando o funcionário a simular que esvoaça rente ao chão. Logicamente, com isso se visa atrair e enganar os outros. Em qualquer das duas últimas metodologias que acabei de abordar, é necessário saber fazer as frentes, operação que resulta em manter ou em levar os bandos no caminho do isco sem que aqueles olhinhos topem a presença humana.
O segredo consiste em ter paciência para que, quando em grupo, todos os viandantes estejam no interior do triângulo fatal e mal isso seja conseguido, puxar o mais forte e rapidamente possível e correr para a rede, não vá algum conseguir escapulir-se por uma qualquer nesga que o acaso tenha deixado em aberto. Depois é só agarrá-los e enfiá-los nas cadeias.
Aquilo que seria a nossa medalha de ouro, isto é, o nosso melhor puxo, acabou por ser um fiasco.
Nós já tínhamos ouvido falar em bandos disto e daquilo, a nossa inocência levava-nos a acreditar em mais de cem pintassilgos. Acontecia é que jamais víramos tão fartos ajuntamentos. Mas uma dada manhã, conseguimos contar vinte e poucos prontinhos para a facturação. Tudo tinha sido feito a preceito. Eu fizera uma frente exemplar e o Chico um trabalho com a negaça digno de um mestre. As gargantas engoliam as salivas quando, depois de, gestualmente, termos confirmado entre nós o número e a posição certa, o Luís Carlos se preparou para esticar repentinamente a corda. Zás, estava tudo apanhado.
“-Hoje vamos almoçar fora.” –Gritou o Chico enquanto corria a rir para a rede. O entusiasmo era de tal ordem que, a dois passos, ele se atirou para aquilo como se de uma piscina estivéssemos a falar. A consequência foi que ficou enleado nos fios e malhas rotas e o que eu e o Luís vimos foi um corrupio de asas e penas no ar, precipitando-se na fuga que o acaso lhes abrira. Nem as chamas ficaram para contar a história e a negaça não deixou as algemas no local.

Amieira, 15 de Maio de 1998

(*) Sorumenho, Sebastião
O VARREDOR
In "HISTÓRIAS DA MARGEM SUL"
Nota Introdutória do Autor
Dactilografado, Alhos Vedros, 1987

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


QUANDO O PROIBIDO ERA O DEVIDO

 
“-Conversas de homens.”, era como os graúdos, nas tabernas e cafés, etiquetavam as linguarices que, no seu entender, requeriam que os miúdos arredassem desta ou daquela convivialidade. Bastava que os motivos fossem os comentários sobre algum adultério, geralmente definido em vernáculo, sem que se atendesse às razões de conveniência ou até um ou outro caso de quebras de honestidade no que de mais simples possam ter as relações do dia-a-dia. Aos ouvidos das crianças estavam interditos certos assuntos, não fosse a sua inocência sofrer rombos no casco ou, o que seria pior, comprometer a palavra de alguém. Quanto a este último aspecto, dava-se o caso de existirem temas de que os mais novinhos nem chegavam a suspeitar, por tão só serem abordados nas suas costas e quando andavam por longe e se por acaso uma qualquer fresta deixasse passar a mais ligeira brisa, logo os mais noviços eram severamente repreendidos por se terem metido onde não eram chamados e, sob os mais variados prenúncios de desgraças e diversas ameaças, quase sempre intimados a calarem-se e esquecerem o sucedido.
Certa noite, dando conta de uma discussão em piano entre os meus pais, apercebi-me que o meu ganha-pão fizera algo proibido e que, segundo os reparos da minha mãe, poderia pôr em risco o conforto de toda a família. O susto induziu-me a querer saber mais, mas se o homem me explicou que aquilo não me dizia respeito pelo que me deveria omitir sequer das lembranças, em a madre encontrei um muro feito da crua promessa de me dar um par de estalos se voltasse a referir-me àquilo, fosse onde fosse e com quem quer que fosse. E ponto final, pois de contrário logo ali me seriam adiantadas as primeiras prestações. Só muito depois do último inquilino ter podido abandonar o exílio nas garras da polícia política, eu vim a saber que o paizinho oferecera dinheiro para que um jovem conterrâneo, implicado no assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, perpetrado pela LUAR, pudesse aproveitar a saída precária para assistir às exéquias do progenitor e desse o mergulho numa fuga para a Bélgica.
Maior foi a surpresa em torno da prisão do meu avô João que, por sinal, até era um admirador do trabalho do consulado do Professor Oliveira Salazar.
“-Não, não, menino.” –De imediato o barbeiro me corrigiu a perplexidade que instantaneamente atribuíra o castigo a uma conduta menos digna por parte do velho e que, a meus olhos, era de todo impossível. E, tesoura na mão e pente na outra, na realidade ele não fez qualquer compasso de espera. “-O seu avozinho foi preso político. Já há muitos anos.” –Executando um gesto largo. “-Era o seu paizinho um moço. Então o menino não sabe?” –Corriam as primeiras translações em liberdade e ainda eram frescas as tardes em que quase toda a gente falava de política.
Mestre Eliseu é uma daqueles homens que sempre trabalhou só, prenhe de diacronia para cogitares que são interrompidos pelos saltitares de converseta em converseta com um ou outro cliente, ou nos círculos matinais que na sua loja bebem o desportivo. Não se coíbe de falar mal dos outros e de rogar pragas àqueles de cuja cara não gosta. Tirando uma marotice em que, já viúvo, se metera com mulher alheia e de que eu sabia por portas e travessas que aqui não vêem ao caso, tirando isso pode-se dizer que nunca fez mal a alguém. Mas também nunca foi pessoa de ajudar outrem. Para ele, cada um trata de si e, em conformidade, sempre viveu de casa para a barbearia, para que aos seus não faltasse o alimento e o agasalho. Aos Domingos ia, uma vez por outra, ver futebol e quando vinha o calor gostava de nadar no rio. Saía em excursões que de resto era o que conseguia ver no cinema e no palco da principal colectividade da terra.
Eu não sabia dizer se ele estava a dar mais uma das suas injecçõezinhas de fel, mas há muito que sabia ter ele sido, por muitos e bons anos, o último barbeiro do avô João, a casa de quem, todos os dias, antes de abrir a porta, se deslocava para fazer a barba e, quando se impunha, aparar o cabelo. Certamente sabia do que estava a falar e os detalhes com que me narrou o episódio, deixavam antever que muito do material vinha directo de desabafos do próprio intérprete. Na verdade, o que de imediato expôs até era lisonjeiro para o mau ancestral. No entanto, quem não deve ter tido quaisquer considerações do género foi o barbeiro, mortinho que estava por contar.
Assim soube que no dia em que a Alemanha assinou a rendição, a alegria popular explodiu de tal maneira que, coisa nunca antes vista, mais de uma centena de pessoas se juntaram em frente da “Vélhinha”, onde anteriormente tinham escutado notícias pelos altifalantes com que, ao Domingo, os directores possibilitavam que o rádio da colectividade falasse para o exterior. Por entre vivas aos aliados e à liberdade e gritos pela democracia, depois de discursos e mais propostas e contra-propostas, já com bandeiras nacionais e panos negros, decidiu a massa dirigir-se a pé até ao Barreiro, onde, diziam, deveria juntar-se a outra manifestação que saíra para a rua a partir das fábricas da CUF e do Caminho de Ferro. Quem não gostou da ousadia foram os homens afectos ao regime e –diz-se que um industrial, à época, o chefe dos legionários e que se orgulhava de ter sido um dos Viriatos na guerra civil de Espanha- algum deles alertou as autoridades que, em acto contínuo, deram a resposta. Já se gritavam morras ao Salazar quando a mole se preparava para abandonar a vila onde, sem aviso prévio e sem olhar a quem, a guarda a cavalo caiu de sabres e coronhas sobre as pessoas, ferindo umas e prendendo outras, originando precipitações pela lama ensanguentada e voltas atrás na rota de passagens à clandestinidade. Aquele dia de juízo fez com que houvesse quem apenas à noite tenha abandonado as morraceiras para regressar a casa e nas semanas seguintes esteve a localidade ocupada pelos militares e submetida a recolher obrigatório.
Obviamente que o meu avô nada teve a ver com aquilo. Ele nem saiu de casa e muito menos instigou ao mínimo bulir de uma palha. Mas como nunca escondera as suas preferências pelos ingleses e os aliados e desde a reviravolta no curso dos conflitos que, por vezes, deixava que muitas pessoas fossem à sua cozinha escutar a BBC, quando se tratou de encontrar um possível cabecilha para o desacato, diz mestre Eliseu que um certo ranhoso tratou de se vingar por o Hitler ter perdido a contenda. O mal entendido foi rápida e facilmente esclarecido e o senhor João pôde regressar à sua vida de sempre. Mas nunca se conformou pela humilhação que sofreu por ver a sua casa revolvida, com criadas e penas a voar. E a solução foi atirar a pedra para o fundo do poço que nem o meu pai se atreveu, alguma vez, a abrir.
Eram os silêncios de outros segredos impostos.
No entanto, sempre me permaneceu na memória a figura do Carlitos, o filho da Dona Cristina, amiga de minha mãe que, dados os azares, vivia a expensas de seu pai; jamais olvidei os olhos sem brilho do Carlitos que todas as tardes, sempre à mesma hora, nos batia à porta munido de um jarro onde levava batidos de fruta que em minha casa se faziam para que ele os levasse ao seu pai que, no leito, estava desenganado dos pulmões. Nos dois ou três meses que durou o padecimento, sempre a minha mãe se lamentou por aquele anjinho, mas igualmente manteve de fora a razão da doença. Quando o nome daquele homem foi dado a uma rua, precisamente aquela em que nascera, entendi que tinha sido a PIDE que o devolvera à família para que aí desse o último suspiro.

Alhos Vedros, 14 de Maio de 1998

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

INTIMIDADES


À NOITE SOB AS ESTRELAS

Quando as noites se cobriam com aquele lençol de atmosfera tépida e incendiada pelas misturas de grilares, as pessoas sentavam-se à porta até que a hora de repouso lhes lembrasse a necessidade do fim dos convívios. Pelas ruas passavam os vagares e os bancos de jardim enchiam-se de encontros que se prestavam a dar agrado ao serão e a bem dizer da vontade de não querer permanecer em casa. Ele eram as mães e os filhos a quem preveniam quanto aos miúdos desacompanhados, maioritariamente homens que ainda não achavam hora de regressarem aos seus, mas também jovens, sobretudo rapazes e os mais pequenotes que as mocitas, essas, lá cirandavam inevitavelmente em torno das poses e poisos das matronas. E os casais, “-Oh marido! Hoje está uma noite tão bonita para ficarmos em casa.”, aqui e ali apareciam os braços dados de uniões mais apostadas no binómio. Conversava-se em torno de pequenas coisas da vida, comentavam-se os nacionais de futebol e a carreira europeia do Benfica, com os dentes mais cerrados e os ouvidos mais abertos, falava-se da guerra em África e da inércia do salazarismo e é claro que o destino alheio sofria muitas e muitas tesouradas. Naquela praça, adjacente à sede da principal colectividade da terra e o maior edifício ali sediado, a noite era um campo de gritarias e gargalhares, vozes de quem fala alto e os chamamentos a plenos pulmões deste ou daquele miúdo mais renitente. E à razão dos dedos de uma mão, de quando em vez se aproximava e afastava o ruído de um ou outro motor pela estrada nacional que cortava o coração da vila. Da satisfação da sede da relva e das flores, brotavam cheiros que mais vinham encantar o ócio. Às vezes, as discussões e o confronto físico e, mais rarao ainda, as inconveniências de bêbedos que eram enxotados para uma ressaca em face a face com as estrelas. Respeitavam-se regras, pois então, e os homens eram mandados calar quando, por qualquer motivo, diziam palavrões e até nas anedotas se procurava temperar o picante com simples alusões às frases ou situações mais obscenas, a não ser que a roda, toda ela, fosse feita de machos.
Depois as brisas começavam a fazer as ramagens murmurarem e os primeiros bancos deixavam-se permanecer ali, na sua quietude, -Eh Manel! Já lá vais à deita?” e davam-se as boas noites que já não eram capazes de esconder os bocejos. Os assentos voltavam à cozinhas e as portas fechavam-se. As luzes da “Velhinha” apagavam-se e o contínuo tratava de cerrar os postigos e janelas. Com a debandada dos últimos consócios, eram apenas os gaiatos mais crescidos que se deixavam ficar, para escutarem o grito de uma mãe ou um pai que assim punham términos à brincadeira. À esquina do cruzamento dos cafés, resistiam este ou aquele que ainda tinham noite para darem à língua no adiamento do sono.
Por fim restava o som das badaladas, no campanário e, se houvesse vento, o som de uma ou outra folha rastejando pela areia, entre os canteiros e o coreto.

Alhos Vedros, 14 de Maio de 1998

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


OS TEUS OLHOS AZUIS

Para a
Paula Canena

A minha tia Gertrudes foi a outra das minhas tias que se deixou ficar solteira, no seu caso pelo ramo paterno e até que a sua alma se juntou ao Criador. Ao contrário da tia Engrácia que bateu o pé ao meu avô para estudar e, em algumas outras ocasiões de choque, da minha tia Raquel que, após a segunda grande guerra, impôs um divórcio litigioso ao marido que tinha uma amante e depois criou um filho com os rendimentos do seu trabalho, aquela terceira filha sempre foi mais dada ao seu mundinho de bordados e leituras a que o talento acrescentou as telas de rostos e paisagens ou de simples instantes do quotidiano que ela pintava, sem outra intenção além do amassar das horas. Para lá disso escrevia poemas, assim passando os dias entre o seu quarto e a solidão de passeatas pelos campos e quintas circunvizinhas à vila. Dela guardo um volume, feito à mão, de algumas dezenas dos seus poemas de amor e na minha sala a curva de um regato num bosque, em aguarela. De todos os irmãos, a tia Estrudinhas, como lhe chamavam os sobrinhos, era a que mais se condoía com os pobres de haver e de espírito que usualmente se cruzavam, por baterem na porta e na rua, pela sucessão das semanas de um mundo em que nem todos tinham a possibilidade de ganharem o pão. Era a única que se dispunha a prestar ajuda nas festas de caridade da Santa Casa da Misericórdia e, no lar, tomou a seu encargo as canseiras de ter sempre um prato de sopa para os gaiatos de duas ou três famílias que os azares dos pais tinham atirado para a miséria. E censurava os irmãos quando se esqueciam de lhe entregar as roupas que abandonavam, para que ela pudesse aliviar as carências de algum corpo com frio. Desde menininha que ela dera mostras de vir a ter aquele temperamento, quer pelo carinho que dispensava até aos bonecos e animais, quer pela argumentação espontânea e permanente que, nas histórias que lia, usava para tomar partido pelos mais fracos. Dizem os mais velhos que mesmo os seus bonecos viviam em aposentos confortáveis que ela preparava com o desvelo de ter miniaturas de cobertores para o arrefecimento das madrugadas.
Segundo o ponto de vista da irmandade, a minha tia Gertrudes faleceu devido a uma doença do fórum nervoso, mas o Dr. Neves, amigo de meu pai e que de há muito conhecia aquela casa, sustenta que antes foi um ela deixar-se morrer. Nas duas últimas anuidades da sua vida, já eu aparava o bigode, aquela minha tia tornou-se uma pessoa propensa a barafustar por tudo e por nada e a todos virar as costas abafada de ufas e invectivas e descrenças. Chegou a passar dois meses sem sair do quarto e por fim acamou-se, a côdeas e a água, acompanhada por lágrimas e silêncios e ainda ordens para que se não visse a luz, até que uma noite o coração deixou de pulsar e alguém a encontrou lívida na manhã do dia seguinte.
Conta a minha mãe que aquela minha tia vivia encantada com as melodias dos passarinhos e as múltiplas nuances das tonalidades da luz. Quem ela verdadeiramente admirava eram os homens do saber e das artes, de quem sabia narrar, embevecida, as biografias e comentar as obras, pois, apesar de apenas ter estudado, com professora em casa, aquilo que seria o equivalente a um curricula liceal, a tia Estrudinhas era mulher de sólida cultura literária e histórica e filosófica, capaz de recitar de cor muitas passagens de “Os Lusíadas” e de citar obras de clássicos com fartura e elegância. Só o seu recato a que se remetia pelo entendimento de uma posição de última linha num mundo organizado para os homens, tão só a baixa voz que raramente se expressava a impediu de ir além do anonimato. Mesmo com o corpo, ela em nada se manifestava a fim de abandonar o exemplo que vira na sua mãe e já eu era bem crescidinho quando ela se decidiu a vestir fato de banho pela primeira vez, ainda que passasse todos os santos verões sob as aragens da beira-mar. E nem assim se pode falar de ousadia, uma vez que a obrigação teve como motivo a resposta às dores do reumático. Tanto foi que durante toda aquela primeira época ela se refugiou nas rochas do fundo da praia, ou em uma pequena enseada menos frequentada da baía. Justificava-se à minha mãe com a vergonha que sentia por saber que os homens poderiam distrair-se nas suas carnes.
Pensava eu que a tia Gertrudes nunca casara por jamais ter encontrado a chavinha que alhures existe para nos abrir o coração. No dia do seu funeral vim a saber a verdade.
Foi minha tia a enterrar numa campa que ela própria há muito adquirira e que se situava paredes meias com uma outra, muito anosa, da qual, veio então a saber-se, afinal sempre ela cuidara. Era a última morada de alguém que morrera novo, ceifado na aventura de querer conquistar mais e mais velocidade na estrada.
Do teu azul olhar
me fiz eu cativa,
onde quer que eu viva,
não há outro encantar.
Era o João, a cuja memória dedicara esta quadra.

Portel, 13 de Maio de 1998

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


O FANTASMA DE JOÃO SORUMENHO

No tempo e no espaço, a família é universal. Compreende-se. Explicam os entendidos que ela é uma resposta cultural aos mecanismos biológicos da reprodução da espécie e também por eles sabemos da variedade formal em que a mesma se realiza. No entanto, ela é isso mesmo, uma construção cultural, pelo que não reproduz, necessariamente, as relações biológicas da consanguinidade. Trata-se de uma convenção e eu estou convicto que ela existe pelo reconhecimento ou, por outras palavras, só por essa via ela ganha existencial real. Apenas quando os indivíduos se reconhecem como parentes é possível falarem numa determinada família concreta. Ora o reconhecimento não se completa apenas no acto das diversas identificações pessoais, dele igualmente faz parte a memória e, com esta, as histórias que cada grupo singulariza em relação aos outros. No momento, não é minha intenção elaborar um trabalho desse género. Tão só quero chamar a atenção para o facto de aí podermos encontrar episódios que nos bem disponham e, por exemplo, sirvam para entreter um serão de cavaqueio.
Quando eu era pequeno gostava muito de escutar as histórias das minhas tias, de as ouvir narrar as peripécias deste ou daquele ou as mais estranhas lendas de outras eras e os mais variados eventos fantásticos. Desde os feitos de um tal Jorge Cagáu, uma autêntica baleia, no dizer dos conterrâneos que, todos os anos, ia a nado, pelo menos uma vez, até à ilha do Rato, mas também passando pela sina de um rapaz que tinha ataques e se transformava num cão de verdade, a todos eu abria os tímpanos e dedicava a atenção com igual prazer e entusiasmo. Por vezes, as deste último tipo provocavam-me arrepios e, à noite, faziam-me sonhar e, no preâmbulo do sono, perscrutar no escuro a metamorfose dos meus bonecos em monstros que eu me esforçava por ver se estavam ou não em movimento. Evidentemente que tudo isso foi ultrapassado com o decorrer dos anos mas, naquelas idades, quando eu apagava a luz e o longe parecia ficar todo da mesma cor, dava-se então o aparecimento da dúvida sobre se as coisas ganhavam ou não capacidades insuspeitas e terríveis. E de todas as contarias eram as que envolviam almas penadas que mais me levavam a adormecer com a cara voltada para a porta do quarto.
Quantas não são as famílias que, no seu património, guardam passagens de encontros com o além? Pois bem, o mesmo se passa com a minha, especificamente no ramo paterno, em que existe um caso de fantasmagorias. Propriamente dito, tratou-se de uma assombração que recaiu sobre a casa do meu avô, era o meu pai menino, por volta do início da segunda guerra e que, se aos residentes nunca chegou a preocupar por causa de um cepticismo natural em face da falta de provas, ainda trouxe a vizinhança com o credo na boca por mais de duas invernias. O meu avô ria-se e até fazia humor com o racionamento da comida que o país passava à época, argumentando que assim deveria contar com mais um hóspede. Mas até a Dona Teresinha insistia que não se devia brincar com esses fenómenos e ela era crente e nada dada a matérias de superstição.
Tudo começou quando, uma noite, alguém das casas fronteiras à Igreja Matriz e laterais ao cemitério foi acordado pelos sons de pancadas cuja origem, ao fim de alguns dias de repetições e depois do acréscimo de outros sons próximos de uivos, a suspeição fez recair sobre aquele rectângulo onde os mortos repousam. A Dona Henriqueta, jurava a pés juntos que ouvira o portão a bater e que, cheia de coragem, anesgando-se atrás das cortinas, bem vira que a pesada estrutura de ferro se movia sem qualquer fonte de inércia.
Daí às visões mais extravagantes foi o tempo de um raio e nos cafés e tabernas começaram a soar desencontradas descrições ora de uma sombra da altura do campanário, ora de uma luz que deambulava sem sentido. Nas barbearias, chegou-se à conclusão que só os peitos mais abertos poderiam ter testemunhado aquilo que começava a remeter as pessoas para trás de postigos e ferrolhos cerrados.
Até que uma noite de chuva houve um casal que viu um enorme vulto branco a erguer-se do interior da última morada e dali sair em direcção ao centro do povoado. A mulher urinou-se e o homem ficou gago e só por isso não eram capazes de pormenorizarem o rumo daquele mau encontro. Mas depois aquilo repetiu-se e outros olhos confirmaram a versão, até que o povoléu pôde estabelecer que o fantasma desaparecia no terraço das traseiras da casa do meu avô.
Ao princípio ainda houve um ou outro criado de atalaia, mas como nenhum deu com o que quer que fosse, rapidamente a família remeteu o assunto para o domínio da crendice popular e despreocupou-se com aquilo que designava muito simplesmente por um disparate. Diz o meu pai que apenas ele, o tio João e a tia Mimi, justamente os mais novinhos, deixavam que a cabeça descaísse para baixo dos cobertores. Contudo, o evento tornou-se habitual e, digamos assim, padronizado; primeiro escutavam-se as pancadas e uma algazarra que se assemelhava a um misto de gritos e uivos e depois lá se elevava a brancura que, bamboleante, demandava o destino que já se sabe. Num clube que era mais frequentado pelas famílias dos industriais de cortiça e os outros que a si se viam como os mais abastados, chegou a dizer-se que era o fantasma do Senhor Ezequiel, um admirador de Hitler, recentemente falecido que queria amaldiçoar aquele meu avô que não escondia as suas preferências anglófilas. Mas não era nada disso.
Um dia veio a saber-se que, afinal, tudo não tinha passado de um arranjinho entre uma das criadas do meu avô e o seu amante que assim conseguiam impor às más línguas o recato que lhes permitia abraçarem-se no seu segredo. Era ele quem produzia os ruídos e que sobre as andas se agigantava, não só para amedrontar, mas também para alcançar a altura do ninho de amor.
O plano chocou numa bebedeira alheia que, não dando conta dos ziguezagues, acertou em cheio no pedestal do fantasma que acabou por partir uma perna.

Amieira, 11 de Maio de 1998

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


VISÕES DE ANJOS

 
Ai que vontade eu tenho de te falar, de te contar-me no que de mais profundo está na parcela que conta da minha alma. Sinto que a ti serei capaz de confessar os meus segredos mais bem guardados, aqueles que são fundamentais no que verdadeiramente sou e faço. Nem calculas como é difícil viver em semi-clandestinidade, permanecer em silêncio e solitário no meio de conversas e convivências, alapando actos e ideias por não ter a quem contar. Não que isso me desespere, sequer que tal me impeça de continuar aquilo que penso ser o meu caminho, mas custa tanto ter que evitar falar de certos preenchimentos do tempo, quando eles são tão grandes e nos deixam tão pouco espaço para outras dedicações. É tão penoso ter que me desculpar permanentemente por não estar atento, ter que inventar desculpas para as horas que furto a outras manifestações tidas por mais essenciais. Dói não ter ninguém que se disponibilize para ouvir apenas, alguém capaz de escutar um simples desabafo, o que bastaria para que os olhos sem esperança de ver não tivessem que ser mascarados por uma alegria que, mais do que existindo, por si, é convencionada. E a felicidade por te encontrar é tão grande que me vejo forçado a controlar-me para não te invadir com uma torrente avassaladora das minhas ninharias. Contigo seria capaz de trocar impressões até ao ocaso do tempo. Inclusivé, sinto que poderia pensar em voz alta, diante de ti, sobre as dúvidas ou os desejos ou as pretensões relativas aos trabalhos que penso vir a fazer coisa que, mesmo por superstição, devo admiti-lo, jamais tive o hábito de o fazer com alguém.
Eu creio em Deus, acho que foi Ele que criou o Universo para que a inteligência consiga aí encontrar a Eternidade. E acredito na existência dos Anjos que são espíritos divinos que nos observam e acompanham e desde muito novo que, nas minhas fantasias, penso que eles, embora não possam comunicar connosco e muito menos nos arredar de uma qualquer rota, podem iluminar-nos, isto é, revelarem-se-nos no nosso pensamento e, por essa via, guiar-nos os passos ou, se o quiseres, homenageando o rigor, proporcionando ao iluminado que a partir daí conduza as suas atitudes e comportamentos para com os outros e a vida em geral. Não sei como é que eles fazem isso, nem sei como ou porquê escolhem esta ou aquela pessoa. Obviamente são poucos os eleitos, como o testemunha o mundo cão em que vivemos. No entanto agrada-me pensar que eles penetram apenas as almas fechadas para as sementes do mal. E tu és alguém assim, uma criatura que independentemente de tudo é incapaz de lesar outrem deliberadamente. E ainda acrescentas coisas ao mundo, a começar pelo teu sorriso e a tua paz. Tu és um desses anjos vivos que deambulam entre nós; só por existires fazes-nos sentir a esperança de algures encontrarmos a felicidade, pois foi para tanto que Deus nos legou esta passagem pelo mundo.
Tenho a certeza que tu nunca me condenarias nem me julgarias em absoluto e que sempre me procurarias encontrar um laivo de humanidade no meu egoísmo mais radical. Esquecer-me-ás, com certeza, mas estou certo que se nos reencontrássemos, nunca o farias pelo lado da minha maldade e possivelmente estender-me-ias a mão, tão só pelo facto de ser teu semelhante.
O meu drama é que nunca consegui conviver muito bem comigo e se quiser ser sincero, devo acrescentar que nos momentos em que a razão me permite distanciar-me um pouco de mim, concluo, inevitavelmente, pela impossibilidade de gostar de quem sou. Em pequeno chorava e barafustava quando diziam que eu era mau, depois de ter feito isto ou aquilo e propagava que também eu era bom, mas não era. Era um miúdo que a si próprio se colocava à frente de tudo e que se atrevia na crueldade para alcançar o que de mais importante havia para mim. Também por isso, o meu crescimento intelectual foi uma espécie de domesticação do meu temperamento de autêntica besta. Apesar do que e sem atender a ninguém que não eu, não deixei de sacrificar os melhores anos das minhas energias ao simples prazer de escrever. É que a minha tragédia é este apelo incontrolável e incontornável que sinto para escrever, de tal forma que se não o fizer entro em sofrimento. E quem me diz a mim que isso não é, tão só, o balandrau com que escamoteio o gozo que me dá a criação literária? A verdade é que eu nunca fui uma pessoa com vontade de me empenhar no que quer que fosse. Não fossem os Anjos e eu não acreditaria um milímetro na nossa espécie e muito menos na sua possibilidade de salvação. O meu cepticismo quanto às nossas possibilidades de nos libertarmos do mal seria absoluto, cegaria qualquer réstia de crença no melhoramento da existência humana. Mesmo quando assumi ideias e militâncias políticas ou quando participo em realizações colectivas, faço-o porque me apetece e diverte. Não me recordo de me ter dado sem outra razão que não o gosto de o fazer. Nem me parece que o meu egoísmo alguma vez o consentisse.
E tu és o Anjo que eu conheci, a existência que, por a ter conhecido jamais olvidarei e jamais deixarei de considerar para manter a chama de procurar ser uma pessoa melhor.
Quando alguém me contou que tu tinhas elogiado o resultado de um borrão com o propósito de secar um pincel, compreendi que só poderias ser o meu Anjo depois de saber do empenho que tiveste para mostrar esse trabalho.
Valeu pois a pena acordar para um dia ter chegado a conhecer-te.

Alhos Vedros, 9 de Maio de 1998

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


A SETA DO TEMPO

 
O tempo é a modos que uma marcha imparável que se materializa nas diversas mutabilidades da matéria múltipla nos muitos universos que, em conjunto vistos, perfazem a totalidade cósmica. Ele cresce em nós de um nada percepcionado, até à verificação, por vezes dolorosa, da sua omnipresença e, se estudarmos mais fundo, concluímos que apenas o anulamos em modelos ideais que, na realidade, a nada correspondem. O tempo tem uma seta, a da irreversibilidade, o que faz com que nos encontremos permanentemente no futuro, ainda que, de início, o não saibamos. Bem visto, o presente ou, se quisermos, os presentes são sempre uma convenção, têm a duração com que delimitamos uma qualquer acção de um qualquer elemento, pois o que acontece é uma infinita formação de porvires que, inevitavelmente, deixam rastos de passados. Não que seja obrigatório um movimento com determinado destino ou que as consequências necessariamente identifiquem uma espécie de pirâmide de complexidade. No que a nós, humanos, diz respeito, estou até convencido que vivemos num mundo de imponderabilidade onde as leis, se é que as possamos isolar, e, por inerência, as previsões, apenas conseguem uma aproximação de probabilidades. Seja lá como for, a verdade é que a seta do tempo está lá, indelével, sobre a ombreira do seu próprio portão.
É curioso como no princípio temos a impressão que tudo permanecerá como aos nossos olhos se apresenta. Eu escrevi curioso mas queria escrever engraçado, é esta a palavra mais acertada. E é engraçado porque mais tarde, mesmo sem que sejamos dados a grandes reflexões e erudições, basta que atentemos para acabarmos por concluir que a vida se vai fazendo numa colagem, mais ou menos ordenada, de permanências que em alguns casos desejaríamos perpétuas. Trata-se da seta do tempo, a nossa seta do tempo que, pela lufa-lufa, nos permite a experiência de um plural de vidas. E, agora sim, é curioso como certas pessoas interpretam o vai vem dos nossos quotidianos. A curiosidade reside no facto de curtas presenças se prolongarem tanto na memória. É assim, algumas almas, até por pormenores irrelevantes e sem explicação, depois de um laivo de cruzamento, permanecem, tenho para mim que devido à esquina que virámos e, provavelmente, em outras circunstâncias não viraríamos.
O Ricardo Jorge, o Tuberculoso, é um desses indivíduos. Estivemos próximos enquanto durou a comunhão de uma crença política, o que não chegou à conta de uma revolução e aconteceu era a adolescência meã.
Tinha sido miúdo criado num dos bairros de expansão da vila, onde as casas térreas e caiadas a cores de outras dignidades testemunhavam a fixação de povo oriundo de paragens alheias onde o pão era mais incerto. Os seus pais há muito que tinham imigrado do interior da peneplanície além do Tejo para, em conjunto, tentarem assegurar uma velhice livre de faltas a mais. A mãe procurava transmitir-lhe aquele espírito engenhoso que, dos malabarismos, tirava a multiplicação dos alimentos, sapiente que era de uma ciência de reciclagem muito antes dessa necessidade se ter estendido a tantos e tão diversificados aspectos do nosso mundo. E com isso contribuiu para que o salário de um empregado do comércio da grande cidade pudesse manter uma casa com dois rapazes de barriguinha satisfeita e roupa lavada. E ambos lhe exigiam que fosse respeitador, vestiam-se com o que de melhor tinham para os bailes festivos da colectividade do bairro e levavam-no em todas as ocasiões, mesmo às assembleias de sócios e, com as conversas de tacho, incutiam-lhe o interesse pelo que o rodeava. De resto, o catraio fez-se no areal que daquelas construções fazia ilhas, nas estações mais quentes, de um ondulado de cerealíferas selvagens. Disputava-se e media-se com os outros miúdos do lado de lá da via férrea, fronteira onde terminava a autonomia do centro da vila. Com eles jogou à bola e fez explorações velocipédicas, com eles se atreveu e arrependeu e lá chegou ao moço que eu vim a conhecer. Mas aquilo que o individualizava era a propensão para interrogar os mistérios do que nos era dado saber. Talvez daí aquele seu aparentar do avesso e aquelas suas hipóteses de curar constipações pelos choques de um isqueiro electrónico. Acontece que ele tinha carácter, não tirava partido do corpo gigantesco e evitava implicar com os outros ou, mais que isso, fazer-lhes mal. Quando as suas associações e non sense se expressavam em voz alta faziam-nos rir. E apesar do seu estar permanentemente a trepidar as realizações alheias, era uma companhia que mais valia ter do que não ter. E até que a Universidade e o casamento o levaram dali, o rapaz chegou a ser lendário, dele se contando genialidades como a lembrança de levar os borrachinhos recém-nascidos para o quarto, a fim de passarem a noite no aquecimento de uma estufa. Hoje acompanha a vida escolar das filhas que já transportou, brincalhão, sobre os ombros e ainda anda de mão dada com a mulher na rua, com quem já partilhou a troca de casas e de carros.
Estive aí um quinquénio sem o ver e, certo dia, à época do meu primeiro ano universitário, vim a reencontrá-lo na cantina do Instituto Superior de Agronomia, onde ele estudava e a partir de onde encontrou a profissão. Depois dos salamaleques esperados e das apresentações das respectivas namoradas, disparou uma pergunta que reatava uma conversa que interpretáramos em certo Inverno distante por uma boa meia dúzia de anos.
Afinal já era capaz de sustentar porque era muito mais importante acabar com a pobreza do que protegê-la que, bem ponderada a questão, era afinal ao que se limitavam os propósitos de muitos revolucionários bem pensantes que diziam ser a vanguarda do povo. E no que pessoalmente dizia respeito, em princípio, estava certo que a sua quota-parte seria cumprida.
“-Mas se alguma vez deixarmos de olhar para o nosso semelhante, se, mesmo podendo, não estendermos uma mão a outra ou se não evitarmos pisar quem está ao nosso lado, aí tornar-nos-emos em cruéis egoístas e a partir daí seremos capazes de todas as demências.” –Concluíu com a expressão de menino com que sempre dissera todos os disparates.

Amieira, 8 de Maio de 1998

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


TROÇAR NÃO É BONITO

 
Naquele tempo o mundo estava dividido em pobres, ricos e remediados. E o mundo estava ali, era vizinho, ao fim da rua, nas casinhas térreas de telha vã e sem luz eléctrica, no outro lado da rua, na mansarda bem alimentada e segura. O mundo estava sentado, ao meu lado, nos bancos da escola, na ardósia que poupava os cadernos de papel pardo aproveitados ao mais ínfimo espaço e nas malas de cabedal com estojos de lápis e esferográficas e caixas de lápis de cor às dúzias. Andava pela rua, em correrias de bola e esconderijos, vociferando palavrões. Não era o caso de que ele não se encontrasse nos bufetes das sociedades musicais e recreativas ou deixasse de se cruzar nos passeios e nas mesas de cervejas e hilariação. Mas a todos era comum o discurso da fartura, da escassez e da suficiência sobejante. O Marçal que, segundo o Chico Armando, vivia num chalé de prata, dada a chaparia reflectora que lhe amparava o telhado e a parede ventosa da barraca, o Marçal dizia que o Júlio do café era rico por ter carro e um estabelecimento e, por sua vez, o Pedrinho da Professora Arlete que também era dona de uma padaria, considerava-se um infeliz por não ter os mesmos carros eléctricos com que um amigo brincava sobre os mosaicos de um terraço debruçado para um ajardinamento de laranjeiras.
Era assim que todos conheciam o seu lado da linha e mesmo quando algum rosnava, se a coisa estava para lá da inveja, era aceite que apenas o esforço ordeiro e vagaroso poderia proporcionar a passagem de um estádio a outro, embora sempre dentro do respeito daquele equilíbrio em que o mundo estava repartido em três partes.
Talvez por isso os miúdos aparecessem com teorias de umbigo que apelidavam de vadios os gaiatos que não brincavam em casa ou, em contrapartida, chamavam de meninos da mamã a todos aqueles que não podiam beliscar as calças vincadas e os sapatos brilhantes. Bem, olhando o jardim a partir do ar aquecido por detrás dos vidros de janelões por onde passaria um homem em pé, minha irmã e primas riam com as macaquices do Bétis e dos mariolas que se enchiam de nódoas de terra lamacenta, no entanto, ainda agora estou em crer que dificilmente ultrapassariam as gargalhadas de quem atira a moeda à foca; e mais tarde vim a saber que, apesar de cobiçadas, ai não que não eram, apesar disso, a gentileza lhes era devolvida e elas eram tidas como inúteis que jamais serviriam para dar conta da casa de um homem. Hoje sou capaz de me recordar da confusão de quem se espantava com a troça e os remoques com que muitos caçoavam dos modos e dizeres de quem não tinha de seu, tal como me chocava a chacota com que as boas maneiras eram recebidas como caganças de quem tem a mania de ser superior aos outros. E os meus olhos tanto se perdiam nas recomendações da mãezinha, como nos sorrisos descuidados de miúdas que apenas se preocupavam em passar o tempo que lhes restava antes de começarem a trabalhar. É claro que eu também mostrava os dentes com as anedotas sobre as particularidades daqueles que proferiam mal as palavras ou manifestavam desconhecer tantas das coisas que vinham nos livros. Com isto não estou a apresentar uma defesa do miúdo que era, tão fácil que é admitir a graça do empregado do bar que confundia as toilettes com as tabletes e se apressava a apontar a montra a quem pretendia lavar as mãos. Fosse como fosse, à medida que fui crescendo, cada vez mais me foram confundindo aquelas carapaças com que se pretendia a imutabilidade da ordem.
Não sei dizer se a minha vocação literária adveio das minhas preocupações ou se estas se me revelaram por efeito daquela. Certeza tenho que ambas, são, em mim, uma atitude que data do despertar da puberdade. Provavelmente surgiram independentes e coexistiram e quando me foi dado a inventar o primeiro poema, a que não terá sido estranha a influência de quem falei em outra altura, é compreensível que tenham aparecido em conjunto e a peça em causa tenha registado a preocupação com a injustiça no mundo, o tal mundo que ainda estava dividido naquele triângulo primordial. Para o caso interessa que dali brotava a minha perplexidade.
E se ela tinha seara para a foice.
Até pelo simples facto de o mundo estar ali, como vizinho.
Pois quem não sabe que as pernas crescem e se fazem corredoras? Que a alma se agiganta e a omnipresença obrigatória de um tecto se transforma numa prisão?
Ora essa, como é que uma pessoa sensata poderia proibir um rapazola saudável de fazer a pira e meia e de cabecear para golo? Era isso que os meus pais pensavam, além de partilharem a opinião que não me fazia mal nenhum conviver com as outras crianças, muito pelo contrário e sempre eu me reparti entre amizades que não permutavam umas com as outras. Devo até confessar que isso me agradava. Ai não que não me sentia bem dentro das roupas irrepreensíveis com que desfrutava os sofás do A. J. para escutar as últimas novidades dos Beatles e dos grupos que vieram depois. Então não eram uma felicidade as brincadeiras e mais tarde conversas com o António João e as irmãs, a descoberta dos movimentos sob a intermitência das lâmpadas de néon e os lanches, no fresco das latadas do quintalão. Mas era tão bom trocar impressões sobre “Os Cinco” como nadar entre uma margem e a outra do esteiro, ou jogar às escondidas entre varinos e fragatas com aqueles fatos de banho roçados e fora de moda que raramente contactavam a frescura do oceano. E se me entusiasmavam as deambulações que A. J. e os outros faziam sobre a vida de outros planetas, também me empolgavam as opiniões do Chico e do Abílio sobre o Benfica e o futebol em geral e igualmente dava como incontornáveis as aprendizagens ornitológicas que fazia, quer junto de pessoas mais velhas, quer com os meus confrades das arolas e quejandos.
Creio que tão só por cretinice eu não teria compreendido quanto a sorte sorria a uns tanto quanto se negava a outros.
No entanto, quando por vezes me deixava pensar na quietude do meu conforto, o que ouvia eram as palavras do paizinho e da mãezinha, recordando-me o respeito que devia aos outros, tal como nós, todos eles filhos de Deus e, por isso, igualmente dignos.

Portel, 7 de Maio de 1998

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

INTIMIDADES


NINGUÉM TELEFONA À ELISABETE


Para a
Maria Sarmento, o Joaquim Serra e a Paula Canena.
Que o graal não mais vos abandone e a poesia também.

É fácil de compreender que a Elisabete sempre tenha sido a minha prima preferida. Se o facto de sermos co-etários nos aproximou nas brincadeiras e, mais tarde, nos estudos, as cumplicidades acarretaram o aprofundamento dos laços até à indestrutibilidade. Sobre estas não vou falar por só a nós dizerem respeito e as primeiras são por demais evidentes para que percamos tempo com elas. A verdade é que, entre a nova geração da linhagem, era com ela que eu mais me relacionava e só a ela confessei alguns dos mais profundos suspiros da alma. Desde os primórdios dos meus registos memográficos que ela está lá, em baixos relevos, quase fazendo o pleno dos momentos decisivos da minha biografia. Foi ela que comigo escolheu a roupa que vesti no dia do meu casamento e os seus olhos sempre acompanharam os meus, quer nas vitrinas da entrada para a Universidade, quer nas esperas dos resultados de exames importantes. Quando não podia estar telegrafava ou usava o telefone e o mesmo sempre eu fiz que, nisto de amizades, a reciprocidade é uma condição imprescindível.
A Bétinha, para os pais e os tios, Bete para o irmão e simplesmente Bé, para mim, cedo se revelou uma criança de poucos segredos e muito virada para os aspectos mais alegres do estar acordado. Aquilo era um constante traz dali para aqui, um eco automático de novidades e opiniões, o que, associado às suas capacidades de síntese e exposição, faziam dela uma espécie de telejornal da fratria e utilizo propositadamente o vocábulo videográfico, pois era ela tão cheia de pormenores e mímica que, nas melhores reportagens, quase nos fazia ver os filmes das narrativas. Nas piores ocasiões das suas novas, os primos mais velhos chegavam a enxotá-la e o Zé Carlos, na sua qualidade de primogénito, avançava mesmo com o epíteto de abelha para a expulsar do local. Mas ela sabia estar perante brisas que, embora se repetindo, nunca iam além da sua natureza de ventanias temporárias. Até porque todos os outros gostavam dela e da sua maneira de estar e, depois, devo dizer que também não desdenhavam a larga maioria dos noticiários. A prima Elisabete encontrava, inevitavelmente, um modo de contar que arrastava os risos e, orelhas moucas que era para as suas cantorias públicas e os reparos que nos outros escapavam, a sua ausência jamais deixou de ser notada nas festividades familiares. Como pensa no instante de um relâmpago, não admira que tenha cursado língua e literatura inglesa com as duas pernas às costas, conseguindo um tempo de primeira opção para o Conservatório, onde se formou no canto lírico que actualmente exerce, de forma semi-profissional, em acumulação com a docência num dos liceus históricos da capital, onde mora, ainda solteira e muito dada a folias. Naqueles saraus em que os mais novos eram solicitados a mostrarem os seus talentos e em que eu, à falta de melhor, invariavelmente interpretava o “Ele E Ela” da Madalena Iglésias, sempre foi a Bétinha quem mais se esmerava no aprumo das suas actuações que, à voz, geralmente acrescentavam sofisticadas coreografias. Era a sua veia artística que tão precocemente se revelou e de forma indelével.
E que brincadeiras nós tínhamos, Deus meu, que de tantas e tão variadas, sem qualquer exagero, dariam para ilustrar um manual de passatempos para a infância. Entre aquelas havia uma que, pela sua raridade, era especial de se gozar pelo muito gargalhar que espoletava. Estou a falar da clandestinidade dos nossos telefonemas anónimos, com os quais nos divertíamos apenas por perguntar se o senhor Américo Pinto já tinha sido promovido a galo ou, então, para marcarmos encontros, com certos homens, em nome de potenciais amantes imaginárias, para posteriormente saborearmos as esperas infrutíferas a partir de qualquer ponto estratégico. Era uma tentação irresistível, sempre que a mãezinha tinha que sair e nós podíamos desfrutar a privacidade das portas fechadas do hall em que estava a mesinha de tripé para o telefone. Ele houve um dia em que fomos severamente castigados, depois de o meu pai ver a conta de uma tarde de telefonemas para os Estados Unidos e outros países, estes, europeus. Mas até essa condenação que, já a adolescência ia de vela aberta, acabou por desaguar no abandono daquela diversão, foram vários os períodos em que a paródia mais se parecia com um vício.
Mas acabou por chegar o dia em que o feitiço se virou contra o feiticeiro.
Para mal dos meus pecadilhos, a Bé tinha uma amiga muito amiga que me irritava solenemente e que, sem que alguma vez a tivesse incentivado para tanto, em redor das despedidas liceais começou a perseguir-me com intuitos namoradeiros que apenas tinham por consequência o obrigar-me a fazer-me invisível e instantâneo nas desaparições. Estas coisas não se explicam e o que acontecia é que eu não sentia qualquer atracção por ela o que, na concomitância de um verdadeiro comportamento de lapa, não me apresentava qualquer alternativa às pernas para que te quero.
Ora vêem, como vocês são espertos, é claro que a minha querida priminha lançava os seus pauzinhos para o fogo e, não contente com as incertezas que expressava de maneira a que a outra alimentasse esperanças, estava sempre a providenciar para que eu me cruzasse com ela e, de preferência, sem interferências de terceiros. E estais vós a imaginar como ela era pródiga e eficaz naquela sua santa-antoniedade.
Certa vez eu apurei que ambas se preparavam para me levarem até Sesimbra, onde, para efeitos de pernoita, ficariam apenas os dois que já se sabe.
Ah marota que me queria pôr a vida em perigo. Mas eu, então, consegui levar a vante.
A coisa era para elas aparecerem casualmente em minha casa e me convidarem para fazer, já me esqueci o quê, mas pouco importa, o certo é que tudo terminaria com uma estadia num hotel daquela vila pesqueira e balnear.
Pois no fim da tarde anterior, eu tratei de telefonar à minha tia Emilinha e, voz camuflada, pois então, em nome de uma dada pessoa, deixei um recado que pedia à Bé para esperar um telefonema, na tarde seguinte, a fim de decidir um encontro que andava para acontecer há algumas Luas.
Escusado seria dizer que a prima Bé passou a tarde e a noite em casa, prenhe de lamentos e impaciências, mas a campainha nunca se fez ouvir em nome da voz desejada.

Alhos Vedros, 30 de Abril de 1998

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

INTIMIDADES



UM BRINDE COM CHAMPANHE

Para a
Elisabete Gonçalves,
um pela sugestão, dois pela amizade,
from the deep of the heart.

A mãe sempre disse que eu era um cabeça na Lua. Não que alguma vez tenha sido alguém que passa pelos dias sem lhes observar as colorações ou que participa no quotidiano sem lhe sentir o pulsar. Nada disso e até desde muito cedo que eu gosto de indagar as ondas que me envolvem e aqui e ali me encharcam a pele, ora acolá se ficam pelo humedecer do rosto. É, em mim, precoce, o hábito de cogitar sobre as diferenças entre os sapatos que amparam os múltiplos caminhares deste mundo e os mistérios das estrelas e da física terrestre de há muito que me fascinam e deixam cheio de vontade de perguntar. Aliás, de que outra forma eu poderia ter vindo a fazer-me escritor, sem tais recordações, quando sabemos, a expressão da escrita é, em parte, igualmente um trabalho de memória? Mas a santa senhora tinha razão, eu desempenhava aquelas atenções com a negligência de outras e, sem ser um gaiato virado para o nariz e o umbigo, eu vivia esquecido de uma série de pequenos eventos e coisas que interessavam aos outros. Isso notava-se e levava-os a referirem-se-me como uma pessoa que facilmente se deixava navegar pelos circuitos que o imaginário cria.
A verdade é que desde a mais tenra idade me vi forçado a conviver com esse jeito pouco cómodo de abandonar, no olvido de brincadeiras, aquilo que deveria levar pela mão e, como deveis calcular, a sofrer as consequências que isso me trazia em termos de punições e das dores de alma que, amiúde, vinham associadas às perdas. Dos óculos que ficavam nos bancos de jardim ou se partiam atrás das pedras que demarcavam as balizas de jogos que nos faziam sentir Eusébios e Pelés, aos chapéus de chuva que ainda hoje, anualmente, desaparecem com a intermitência das primeiras chuvas, ele houve trabalhos de casa por cumprir, recados trocados com desencontros e bagagens extraviadas e até correrias atrás de carreiras que levavam a mala esquecida no banco em que tinha travado uma converseta de se lhe tirar o chapéu, se não, tão só, por deixar que os olhos pousassem nas sucessões de imagens no caminho para a escola. Hoje é com um sorriso que me recordo das aflições que me invadiam quando, numa boa mão cheia de ocasiões, logo no hall do instituto superior, fui recebido pela verificação de ter que prestar provas de exame daí a um simples par de horas.
Qualquer um de vós tomaria por incómodos estes rastos de boca aberta e mãos à cabeça e o mesmo se passa comigo. Compreensivelmente, muito teria preferido que a maioria dos casos não o tivessem sido. O problema é que sempre tive em mãos algo que me ocupava o cérebro e quase apenas por intuição, Sol bocejante, percebi a falta de tempo para me concentrar nos propósitos de obviar os aspectos mais desastrosos da minha maneira de ser. E dou graças a Deus por não me ter sido muito difícil a aprendizagem da coexistência com essas pedras caídas sobre o pé.
No entanto, com este meu olhar flutuante, nem só em espinhos me espicacei. A vida é assim mesmo e a lei dos equilíbrios, só por si, encarregar-se-ia de trazer a fragrância das compensações e rosas houve que bem perfumosas me foram polvilhadas sobre o contentamento.
Um dos prémios para a minha inocência aconteceu-me num jantar do staff e convidados de um festival de cinema, em Tróia, já lá vão uma boa dezena de anos. Aproveitei eu e a Luísa a folga daquele Sábado para nos entretermos com películas que sabíamos não virem a passar nos circuitos comerciais e outras que, ali, teríamos oportunidade de ver em género de estreia. Ela convidou uma amiga de infância e lá fomos os três com o entusiasmo de quem vai satisfazer curiosidades cinéfilas. Telefones para cá e para lá e a minha mulher combinou encontro com a Léninha e o Rui que ali permanecia para efectuar a cobertura jornalística do evento. Amigos de universidade e cumplicidades da juventude, logo ele tratou de nos convidar para jantar, para o que se dispôs, de imediato, a obter-nos os ingressos necessários para lhes fazermos companhia no salão onde todo o pessoal participante se alimentava. Lamentavelmente, na opinião do meu amigo, só lhe foi possível requisitar dois convites, muito embora, em acto contínuo, eu tenha manifestado a disponibilidade para pagar a minha despesa, o que fiz com toda a naturalidade e é claro que algo diverso não seria de esperar. Chegada a hora do manduco e sabendo que me deveria dirigir para a mesa quatro, depois de ver os meus convivas entrarem por uma portinhola de fundos, lá fui em demanda do sítio de pagamento. Na antecâmara do espaço gastronómico, não dei conta de nada que se assemelhasse a um local de cobrança, mas vi uma fila de pessoas, à entrada, na qual me coloquei. Pouco depois estava em frente dos meus companheiros, não sem antes ter sido salamalequeado pelos empregados que iam passando e conduzido à mesa devida pela cordialidade e educação de um deles. Sentei-me e jantei, num convívio feito de sétima arte e recuerdos, bem como as opiniões avulsas que, nestas ocasiões, sempre acontecem a respeito dos assuntos que fazem as gordas dos media. Quando o repasto foi dado por findo, chamei um empregado e perguntei-lhe quanto estava a dever, uma vez que não trazia qualquer daquelas tarjetas de passe. E o outro, com um sorriso que não sei se de gozo se de complacência, disse-me com bons modos que eu estava ali como convidado do festival pelo que nada teria que desembolsar.
Mas tenho para mim que o pódio está ocupado por uma certa garrafa de champanhe.
Tudo começou por uma das minhas desgraças, quando, já perto da Ericeira onde iríamos passar um fim-de-semana em casa da Teresa e do João, dei conta de não trazer comigo as chaves do carro que deixara perto da residência deles, em Campo de Ourique. A memória dizia-me que aquelas apenas podiam ter ficado na porta do veículo. Por entre o meu susto do pensar no dinheiro que iria perder se me furtassem o automóvel e a opinião do João sobre a reduzida probabilidade de passar ali alguém que simultaneamente reparasse no meu esquecimento e tivesse a intenção de me causar dano, lá regressamos a cem à hora à capital e eu, bufando, no viaduto Duarte Pacheco, deixei escapar a promessa de brindarmos com champanhe se o objecto fosse recuperado a contento. E o suspiro de alívio nem se fez esperar. Um pedreiro de uma obra fronteira ao estacionamento tinha visto tudo e guardado o abre-te sésamo. O reatar do lazer foi uma rodagem de gargalhadas e na estância balnear, no supermercado em que fomos comprar o vinho para o jantar, dei conta da venda do prometido néctar francês. A palavra tinha sido dada e eu apresentei a garrafa à menina da caixa que digitou o preço enquanto eu tirei as notas que tinha no bolso e eram, uma de cinco mil escudos, uma de mil e outra de quinhentos. Mal tive tempo de lhes atirar o rabo do olho, pois a rapariga, com maus modos e ar de desdém, sacou-me uma de imediato e à velocidade do som, deu-me cento e cinquenta em moedas como troco. Guardei o dinheiro e saí dali sem me certificar se a conta estava certa ou não.
Foi quando eu me ofereci para pagar os cafés, após o jantar e o primeiro brinde comemorativo que eu verifiquei que mantinha comigo as duas notas mais altas.

Portel, 29 de Abril de 1998