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quarta-feira, 23 de maio de 2018


Os Celtiberos

Por volta de 2.000 a.C. começaram a chegar os celtas – Κελτοί em grego – que aparecem na literatura só no século V a.C. Chamaram-se celtas, gálatas– Γαλατάς –, e gaulos ou gauleses  Γάλλοί. O primeiro autor que se refere aos celtas terá sido Hecateu de Mileto(550 a. C.- 476 a. C.), que quando fala de Massalia, diz que fica perto da cidade de Nurax, céltica (Nearchi?). Isso mostra que em certa altura os celtas ocupavam quase toda a Europa central e daí se espalharam pela Itália, Suíça, Boémia, Ilhas Britânicas e pela Península Ibérica, arrastando com eles parte dos povos da Aquitânia, os bascos (?).


Por este mapa de Hecateu, herdado de Anaximandro (!) desenhado meio milénio a.C. vê-se que os celtas estavam já espalhados por toda a parte... que a geografia dele conseguia abranger! E até os Cítios (Scythios e os Trácios) teriam a mesma origem dos celtas, mas não pertenciam ao mesmo grupo. Vê-se até que estariam na Macedónia, que se chamou Galaica, antigo nome de Briântica, na Trácia, e daí seguiram para a Ásia Menor, ocuparam a parte central da hoje Turquia, onde fundaram Ankara.
Por volta de 1750 a.C. toda a atual França estava ocupada por gauleses, celtas, no sul misturados com os lígures, povo ibérico.
Num pequenino livro de poche que há muitos anos comprei, “Os Iberos”, livro já perdido (!) com muita singeleza mostrava como tinha sido o desenvolvimento da Península a partir dos povos iberos e celtas. Os iberos, regra geral, incineravam os seus mortos, guardavam as cinzas numa pequena urna, enquanto os celtas lhes davam sepultura ao corpo.
Um mapa mostrava toda a região da costa mediterrânea e do Algarve com a indicação dessas sepulturas, somente urnas, e à medida que se caminhava para norte apareciam indicações de mistura de ritos iberos e celtas, e no Norte desapareciam as pequenas urnas.
Aos celtas um povo, ou um aglomerado de povos, que ocupou bem mais de metade da Europa, as Ilhas Britânicas e chegaram até Roma, não lhe foi muito difícil ocuparem a Meseta Central da Península e o Norte.
Os romanos, começaram a dar batalha aos celtas, derrotados quando eram parte do exército cartaginês de Amilcar Barca, e foram depois atrás destes. A história da romanização da Península começa pela guerra entre Roma e Cartago. Estes depois de perderem o poderio naval decidiram invadir a Ibéria, iberos e celtas, e formar com eles exércitos para irem atacar Roma. E assim Roma foi avançando, derrotando os cartagineses que já ocupavam boa parte da Península, mas não foram bem recebidos. O primeiro combate importante entre cartagineses e romanos na Península foi a Batalha de Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (atual Tarragona). Os Cartagineses, sob comando de Hanão, foram derrotados.  Indíbil caudilho dos Ilergetes, povo ibero que combatia ao lado dos Cartagineses, terá sido capturado. Quando a vitória romana parecia próxima, acudiu Asdrúbal Barca, com reforços, que dispersaram os romanos sem os derrotar. Assim, as forças opostas regressaram às suas bases - os Cartagineses a Cartago Nova (Cartagena) e os Romanos a Tarraco (Tarragona) - e só no ano seguinte a frota de Cipião venceu Asdrúbal Barca. Depois chegaram reforços de Roma, permitindo o avanço dos Romanos em direção a Sagunto. Durou mais de dez anos esta luta Roma-Cartago na Península, até que os romanos saíram vencedores e começou então a administração romana da Península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, agora integradas no território controlado por Roma.
Levou quase 200 anos para ocuparem toda a península, tendo sofrido muitas derrotas, porque pensavam que ao entrarem na Ibéria iam simplesmente e como “meninos bonitos”, pacificar povos belicosos. Tiveram que lutar muito. Em 182-178 a.C. começam por se chocar com os povos que habitavam o vale do Ebro, entre eles os belos, titos e lusones, estes, apesar de longe, aparentados com os lusitanos.
Em 133 a.C. atacaram Numância, com uma bestialidade inesquecível. Povo arévaco, celta, decidiu lutar e resistir. Um cerco de onze meses, quando conseguiram entrar não tinha um único ser vivo. Os “bonzinhos administradores” romanos destruíram totalmente a cidade e todos os que, fora dela conseguiram apanhar foram degolados. Entretanto os romanos, habituados a comer cereais, tinham que se alimentar de carne! Cozida ou assada dizimou filas de romanos com a disenteria!!
Deram-se mal com os lusitanos, talvez o povo maior de toda a Península. Maior e tão aguerrido ou mais que outros. Viriato não era aquela figura bonitinha de pastor da Serra da Estrela, mas um grande general comandante de imensas forças.
A sua história começa quando o pretor romano Sulpício Galba em 150 a.C. reuniu 30.000 homens dizendo-lhes que receberiam terras e viveriam sossegados. Os romanos colocaram-nos em três acampamentos e os obrigaram a entregar todas as armas, e depois que estavam desarmados mandou as legiões que matassem a todos. Foram assassinados uns 20.000 lusitanos escapando entre eles Viriato que, a partir daí, começou a lutar ferozmente contra os romanos traidores que faziam sempre esta perfídia.
Ataca e sumia com extrema rapidez o que levou Plínio a criar a lenda de que as éguas lusitanas, prenhes só do vento Zéfiro, parem os “Filhos do Vento”, os cavalos mais velozes da Antiguidade.
Vede além no alto cerro a cena que aparece
Todas as éguas ao Zéfiro voltadas
Estáticas sorvendo as auras delicadas
Basta aquilo, e acontece amiúde este portento,
Sem cônjuge nenhum, grávidas só do vento...
Geórgicas de Virgílio (70-19 a.C.)
Derrotou os romanos por diversas vezes e na última, em vez de os aprisionar e degolar todos (!) decidiu fazer a paz e foi nomeado pelo senado romano amicus populi romani.Roma não tinha qualquer intenção de respeitar o tratado, e assim ordenou a Cipião que “comprasse” três amigos e generais de Viriato e o traíssem. Estes o assassinaram enquanto dormia!
Conhecido entre os romanos como dux Lusitanorum, como adsertor (protetor) da Hispânia e até como imperador! Segundo o historiador grego Diodoro da Sicília (ca 90 – 30 a.C.)“Enquanto ele comandava ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele.”
Com traições e bestialidades os romanos “administraram” a Península Ibérica, derrotando todos os povos que se lhe opuseram.
É conhecido o sangue “quente” dos hispânicos. À medida que as legiões romanas se aproximavam de um povo o senado reunia e reconhecendo a sua incapacidade militar propunha render-se, para ainda guardarem uma parcela de poder. Os jovens não aceitavam isso, e chegaram a fechar uma casa do senado e largar fogo com todos os senadores lá dentro. Eles queriam ir à luta! Ainda hoje é assim: os jovens... 

Já nesse tempo havia um entendimento e colaboração entre lusitanos e galaicos. Só depois de assassinarem Viriato é que os romanos conseguem entrar e derrotar a Galícia. A seguir os astures, os cantábricos e todos os outros até aos limites do Pirineus.
Só terminaram as guerras de conquista em 19 a.C. que começaram 200 anos antes!
Sobre os lusitanos fica por esclarecer uma pergunta: não eram iberos, nem celtas. Povo indo-europeu, de onde vieram e quando?
Todos os povos da Península eram bons artífices; trabalhavam o ouro, prata, cobre, estanho, ferro, etc. Nos túmulos dos grandes chefes têm-se encontrado espadas com trabalho lindíssimo

                 

Vamos voltar agora à pergunta do texto anterior: DONCÔVI?
A maioria dos que lerem isto devem ter, pelo menos uma costela portuguesa; os lusitanos, povo indo-europeu, ninguém sabe de onde vieram; os primeiros iberos terão sido os descendentes dos primeiros povos da Mesopotâmia, Pérsia e Afganistão, que caminharam desde o médio oriente contornando o Mediterrâneo, cerca de 15 a 20.000 anos a.C.; os gregos, da Lídia, terão sido depois os colonizadores de Tartesso; os cartagineses, os tais semitas, do sudeste da Península; os gregos do nordeste. Depois os celtas invadiram e ocuparam a Meseta Central e misturaram-se com os povos do norte; os bascos serão uma mistura de aquitanos, celtas e iberos; alguns povos celtas, sempre na Península, falavam o gaulês da Bélgica, outros com metade das palavras vindas da Ilíria (região da antiga Jugoslávia); entretanto chegaram mais cartagineses, com berberes e povos africanos nas suas fileiras e logo a seguir os romenos, outra mistura de soldadesca; quando estes se retiraram entraram os visigodos, povo originário da Escandinávia (os ostrogodos foram para o leste da Europa); mais ou menos ao mesmo tempo os suevos saíram da hoje Polónia e ocuparam a Galícia (foram eles que começaram a usar a palavra Portucale); junto com toda essa turma dos druidas chegaram ainda os vândalos, mas demoraram-se pouco; não tardou que Roderico fosse um falhado e Tarik levou os árabes, mouros, para

Foi assim que Tarik acabou com Roderico. Um infiel contra um infiel !

a Península em 771, e só de lá começaram a ser empurrados três séculos depois, com a ajuda de normandos, franceses, germânicos e ingleses, e saíram de vez em 1492. Os hispânicos respiraram um pouco porque se entretinham a batalhar-se uns com os outros: lioneses, aragoneses, catalães, navarros, castelhanos e portugueses.
Neste meio tempo começaram as navegações e o encontro como novos e desconhecidos povos: africanos, índios das Américas, hindus, malaios, etc.
Surge Napoleão e lá vêm os franceses; e os ingleses para “ajudarem” a arrumar Portugal.
Depois... só do meu lado encontro, não muito para trás, um pouco dos jurunas ou carajás ou mundurucus, um vovô da Suíça, margens do Reno, outro da Normandia, um de Códova, outros bascos de Oyarzum e Alquiza, mais para trás uma vovozinha linda de morrer, uma moura encantada de olhos verdes, que fez vibrar o coração de Lovesendo Ramires, e foi também vovozinha de Egas Moniz (meu primo... um pouco afastado já) e bem mais perto nasceram em Belém do Pará, em A-Ver-O-Mar, Barquinha, Sintra e Lisboa, e eu, no Porto.
Deu para entender? DONCÔVI ? Dificilmente haverá gente mais misturada do que os que tenham, mesmo umas gotas só, de sangue lusitano!
É por isso que eu digo: mestiçagem é o melhor. De qualquer côr ou credo.
Quem souber mais qu’o diga!
Para terminar um pequeno trecho do “Romance d’A Pedra do Reino” do grande Ariano Suassuna:
“... sou o único escritor e escrivão-brasileiro a ter integralmente em suas veias sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia do Reino do Brasil!”
Somos primos!

Francisco Gomes Amorim
10/05/2018


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Cuecas para Turistas


por Francisco Gomes Amorim

Não vamos chover no molhado enaltecendo as praias, a caipirinha, as lindas mulatas (pior agora que as mulheres decidiram abrir guerra contra o assédio sexual, e só é pena que não o tenham começado há alguns milénios) que podem ser observadas, mas com cuidado..., apesar de elas, as mulheres, de forma geral, cada vez mais, usarem roupas que procuram, não cobrir, mas descobrir os pseudo secretos encantos... Enfim, o Brasil tem muito mais coisas interessantes.
Nas grutas da Serra da Capivara, no Piauí, lá no Norte, há centenas de pinturas rupestres e já se chegou à conclusão que permite afirmar vestígios humanos que ali estiveram desde há cerca de 49.000 anos!
Vale, muito a pena ir visitar as grutas deste lugar, onde se encontram as mais antigas pinturas humanas do planeta.
O turista pode, e deve ir visitar também as cidades histórias de Minas, Olinda, Alcântara e muito mais e ver o legado colonial, que faz os brasileiros fingirem que abominam esse tempo (colónias nunca mais!) mas de que muito se orgulham.
Recordações para levar do Brasil? Hoje todos têm telefones celulares que tiram centenas ou milhares de fotos, base das recordações que daqui podem levar, bem como umas garrafinhas de cachaça, da boa, que tem muita, e nessas cidades históricas, tem belíssimas pinturas, baratas, aquarelas ou óleo, estatuetas, etc.
Mas há um item que rivaliza, em muito, com a famosa Lâmpada de Aladim, das Mil e Uma noites ou Noites das Arábias.
Cueca! Isso mesmo, cueca.
O “engenho e a arte” de alguns setores extra sociedade (mas muito influentes) levaram à descoberta de novas utilidades para um pequeno item do vestuário, que o tornou muito procurado, mas ainda não divulgado aos turistas que dele se podem igualmente beneficiar.
Repito, a cueca.
Aqui se encontram cuecas especiais, por exemplo para transporte de dólares escondidos! Isso. O cliente só tem que informar o fornecedor (da cueca e não dos dólares) qual a quantidade que deseja transportar, bem juntinho aos seus órgãos, conhecidos também por “vergonhas”, e passear tranquilamente no meio da malandragem com o c... forrado de grana, que ninguém o vai perturbar, até porque o típico brasileiro costuma ser bem fornecido de glúteos, chamemos-lhe bunda, o que faz com que o portador dessa mirífica cueca passe desapercebido.
As mais caras carregam de 100 a 500.000 dólares, tamanho “G” a “GGP”. As “P” uns 5 a 10.000 e as “M” à volta de 25.000. Genial.
Para as maiores, em princípio, recomenda-se ao portador que arranje um atestado médico dizendo que tem “esteatopígia”  (do grego στεατοπυγία, de στεαρ, stear, "sebo", "gordura", e πυγος, pygos, "nádegas") é a hipertrofia das nádegas ocasionada pelo acúmulo natural de gordura na região, sobretudo em tribos da África meridional, como bosquímanos e hotentotes.


Mas não é modelo único. Há poucos dias um ilustre membro da Câmara dos deputedos, perdão deputados, num caso talvez universalmente exemplar, por indecente e má conduta, foi preso. Mas como a justiça por aqui é muito boazinha com esses deputedos e congéneres, o “sobredito” passa as noites na gaiola e de dia pode sair para estar presente na digna e impoluta assembleia dos sobreditos deputedos todos, a esforçarem-se, em prejuízo da sua saúde, tal o volume de trabalho, a conduzir os destinos da sua querida nação que eles tanto vigarizaram, roubaram e continuam a rir e dar risada!
Comovente, né?
Regra geral as refeições na prisão não são exatamente servidas por chefes franceses nem é remetida de Paris da “Tour d’Argent” para esses coitados que roubaram milhões, bilhões, aos cofres públicos.
Desse modo o “sobredito”, não apreciando a comida da seleta coletividade enjaulada, teve uma ideia que se imagina tenha até registrado patente: arranjou uma cueca, especial, onde ao fim do dia carregava para a penitenciária pacotes de biscoitos, saudáveis, e mais um bom pedaço de queijo provolone para complemento do rango geral.
Este modelo de cueca, à boa moda dos States, foi patenteada com o nome comercial“PFF”, que traduzido significará, do original Pants For Food, Cuecas para Alimentação.
O inventor está em negociação com a FAO, interessada na distribuição de alguns milhões por África.
Não foi divulgado se o queijo ia convenientemente embalado ou se chegou ao destino com o cheiro do lugar onde foi transportado, o que lhe proporcionaria um aroma extra.
Agora os desejados turistas visitantes, interessados nestes modelos especiais de transporte de itens especiais, devem estar fazendo a sacramental observação e simultânea pergunta:
Oh! How wonderful! (Que maravilha, se for inglês ou americano. O alemão: Oh! Wie wunderbar). Mas onde se encontram essas underwear - cuecas - à venda?
Por todo o Brasil tem representantes, distribuidores:
- Congresso Nacional – o “alto” e o “baixo”, aliás da baixaria
- Ministérios
- Governos de Estados
- Prefeituras
- Assembleias Legislativas Estaduais
- Assembleias Legislativas Municipais
- Grandes e médias empresas de construção
Em qualquer destes locais haverá sempre alguém que amavelmente indicará o melhor fornecedor... tanto da cueca como do recheio, generosamente cobrando um pequeno custo de intermediar o negócio. O trivial.

Com esta da cueca lembro de uma anedota que ouviu.... chiii... quando? Em meados do século passado, era eu um jovem, e pasmem, ó gentes, não esqueci.
Em Lisboa, um carro elétrico, um bonde, percorria o seu caminho cheio de gente que se compactava para sempre poder entrar mais um.
Chega o cobrador, o “trinca-bilhetes”, e começa o povo a pagar, na altura algo como cincostões ou cinquenta centavos (transferindo para €uros, seria, mais ou menos 1/400 ávos de 1 €uro).
Lá, no meio do povo, plataforma traseira, uma simpática, graciosa e oferecida mocinha, com um generoso decote (já nessa altura), começa a gritar:
- Fui roubada, fui roubada. Tiraram-me a carteira!
O cobrador, admirado, pergunta:
- Onde a senhora (era bem educado, o trinca-bilhetes) tinha a carteira?
Ela aponta para o generoso decote e diz:
- Aqui.
- E não sentiu quando a roubaram?
- Sentir, eu senti, mas pensei que não fosse por mal !!!!!!!

Se, nesse tempo, já existissem estas especiais cuecas brasiliensis, o dinheiro da mocinha estaria muito mais bem guardado. Mas será que se lho tentassem tirar, ela não iria sentir uma mão passeando nas suas partes íntimas, e também pensaria que não era por mal?
Não. O assaltante era muito delicado.
Honi soit...

Dez. 2017
em, www.fgamorim.blogspot.com

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

por F. G. Amorim


Isto foi já publicado há sete –7– anos, e com certeza muitos já esqueceram.
De qualquer modo um novo exame de consciência não fará mal a alguém.

CONFITEOR , DEO

Aproxima-se o final do ano. É época de Natal. Os sentimentos se não afloram no coração e mente, aparecem, por vezes muito bonitos e muito frios em alguns cartões de Boas Festas que se mandam por obrigação. Assim mesmo é melhor do que o total esquecimento do “outro”.
Uns momentos de solidão, no silêncio, um fixar os olhos além, no horizonte, no infinito, em nada, uma introspecção, um exame de consciência, não custa nada. E é bom.
Muita, muita gente se prepara para o Novo Ano com promessas, previamente falsas e sabidamente a descumprir (sobretudo os políticos), “desejando” que esse novo tempo venha consertar tudo quanto temos ajudado a destruir, mas... tudo, tudo mesmo, já esquecido antes da Festa de Reis!
Não é de admirar; é quando aparece o ouro, as riquezas, e as promessas... esquecidas.
Não é admirar porque todos sabemos que cheio de boas intenções está o inferno. No entanto é sempre bom – não tem efeitos colaterais – analisar o tempo que passou, ver o que se fez de errado, ou pouco, e...
De qualquer modo, venho fazer um exame de consciência publicamente, já que o blog está à disposição de quem quiser.
Comecemos por ver como vivemos dentro do estabelecido pelas Tábuas da Lei, os Dez Mandamentos!

1 - Amar a Deus sobre todas as coisas! Hhiii...! Quantas vezes tive que colocar uma venda nos olhos de Deus para ficar “amando” um carrão, sei lá, um Jaguar, outro cruzeiro à vela pelo mundo fora, apesar de sempre querer que Deus me acompanhasse. O que, aliás, Ele jamais deixou de fazer!

2 - Não invocar o nome de Deus em vão! Então aqui não há perdão. Até misturamos o nome de Deus com palavrões, como por exemplo, quando vimos um político roubar (um não, a corja quase toda) e exclamamos: “Meus Deus! Olha só o que o f. da p. agora aprontou”!

3 - Guardar domingos e dias de festa! Quem guarda? Quantas vezes trabalhei aos domingos, e até em feriados, e tive subordinados a quem estas tarefas eram fundamentais. A fábrica não podia parar! Bom, mas isso faz tempo, porque agora não faço nada! Talvez por isso não me preocupe com este mandamento.

4 - Honrar pai e mãe. Creio que este sempre foi o meu maior ponto de honra. A memória deles ainda hoje me faz sentir mais responsável, e cada dia que passa maior é a sua falta, o seu conselho, o seu carinho, o seu exemplo!

5 - Não matarás. Não me recorda de ter morto alguém. Nem à bala, nem atropelamento, nem com veneno. Simplesmente não vou esquecer nunca, de ter dado um tiro de carabina, e pesada - .375 - na perna de um amigo! Mas foi culpa dele. Mas isso não me livra da culpa de pensar que anda por aí muito ser indigno, que precisava de ser transformado em picadinho. Para salsichas!

6 - Guardarás castidade! Aqui o problema complica-se, mas na minha idade este mandamento ... está já bem guardado!

7 - Não roubarás. Pensei, pensei, pensei e, com certeza, alguma vez devo ter roubado alguma coisa. Ah! Sim! Lembro bem; quando tinha os meus dez ou onze anos e voltava do liceu para casa, passava na frente duma minúscula mercearia, que tinha na porta uns sacos com castanhas piladas (secas). Ainda hoje me lembro que roubei umas quantas, e me devem ter ajudado a quebrar algum dente! O merceeiro ou não via ou não se importava, porque nunca reclamou. Saravá, amigo merceeiro!

8 - Não levantarás falsos testemunhos. Não, Deus, isso é que de todo creio que não fiz. Posso ter feito julgamentos errados; mas, quem não erra?

9 - Não cobiçarás a mulher do próximo! Outra complicação. Tem cada “avião” sobrevoando por aí... Quem podia olhar para a Sofia Loren e ficar indiferente? E a Brigitte Bardot? E a Marylin, a Silvana Mangano? Fala sério. Isto há 50 anos!!! Se não cometemos adultério, por vezes éramos obrigados a sonhar, deixando a nossa imaginação percorrer os corpos daquelas estátuas de carne! Neste mandamento estou ferrado! E poucos se safam. No entanto, a verdade, é que também nunca tive uma vizinha, boazuda que me tentasse. E... safei-me!

10 - Não cobiçarás o que a outros pertença. Cobiçar, na verdade não cobicei, mas que doi a cabeça por ter sido sempre um idiota, quando tantos bens passaram pelas minhas mãos e de nada me apropriei... Oh! Deus, acho que me podeis dar aqui uma nota baixa.

Por enquanto o descanso eterno está a ficar cada vez mais longe.
Vejamos os pecados ditos capitais:

- Ira: Senhor! Eu fico irado com tanta malandragem que nos rodeia, que rouba, que maltrata o menor, em idade ou situação econômica desastrosa, que abusa do poder, que corrompe ou se deixa corromper, que vende armas, drogas e abusam as empresas farmacêuticas fazendo os habitantes dos países pobres a servirem de cobaias, a todos os que colaboram conscientemente na destruição do mundo; se ira é um pecado, confiteor Deo...

- Gula: este também é um pecado lixado! Quantas vezes comi demais, porque me apresentavam cada petisco... Não, Senhor, na altura não podia compartilhar com outrém que tivesse fome. Não estavam a meu lado. Se estivesse, Senhor, Tu que tudo vês, sabes que eu até teria comido menos do que o necessário. Mas naquelas horas, quando nos põem debaixo do nariz um ensopado de cabrito a fumegar, ou a caldeirada do meu amigo Alberto, ou uma bacalhauzada no restaurante de outro amigo, o Pereira, não há quem não caia na gula. E a nossa feijoada brasileira??? Confiteor...

- Inveja. Inveja não tive, mas como atrás digo, algum, vago, arrependimento pelo que poderia ter feito melhor. Não fiz.

- Orgulho: Até hoje, velho, nem sei bem o que é o orgulho. Fazemos algo bem feito e se somos cumprimentados ou elogiados, o nosso ego... ri de satisfação. Será isso orgulho? Se for, já me aconteceu muitas vezes, mas foi “doença” que rápido se desvaneceu.

- Avareza: nessa não caí. Odeio avarentos, mãos de vaca, prestamistas, bancos, agiotas, investidores ou aplicadores de fortunas em jogo financeiro, corruptores, etc.

- Preguiça: aahhh! Estou cada vez mais preguiçoso! As forças vão fugindo, o corpo obedece com dificuldade, e... ficar na cama mais uns minutinhos... Quando era novo, não! Este pecadilho chegou tarde!

- Luxúria. Também não será por esta porta que vou enfrentar o famigerado Lúcifer. Nunca estive nessas bacanais que hoje são cada vez mais freqüentes, não xinguei nem maltratei nenhum subordinado. Nessa da luxúria, estou fora.

Chegamos finalmente aos chamados pecados veniais, que são tratados, como dizem nuestros hermanos, como pecadillos. Não são pecados graves. Mas por exemplo, o pecado da omissão; se a gente se omite sempre, se deixa a banditagem pôr-nos, a toda a hora, o pé na cabeça, ou se a vê fazer o mesmo a outros, sem intervir, aqui o venial passa a ser pecado covardal.

Não sei qual será a minha “nota” quando enfrentar, primeiro o São Pedro, e, se conseguir “levar este bom homem no papo”, depois a Deus.
Mas alguma coisa ainda sei: não vou deixar de lutar, e sempre me manifestar contra a vergonha dos poderosos. Se possível cada vez com mais violência.
Que Deus me perdoe.

21 dez. 10
http://fgamorim.blogspot.pt/

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Império Português, 500 anos...


Francisco Gomes Amorim
http://fgamorim.blogspot.pt/

Texto polémico o que se segue. Mas o que há de melhor do que polemizar... para mais nos compreendermos e entendermos? Polémico e o resumo do resumo!

É sabido que em 1483 Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire, onde tomou conhecimento de um potentado africano, o Manicongo. Desembarcam e são festivamente recebidos pela população. Para não interromper a viagem de exploração do Atlântico, segue para o Sul até ao Cabo de Santa Maria, mas manda emissários ao rei do Congo. No regresso não encontra os emissários e leva alguns congoleses até Portugal. Regressa no ano seguinte, trazendo de volta os africanos que levara, e é ele quem vai cumprimentar o rei do Congo, na sua embala, a cerca de 200 quilômetros da costa. O reino englobava algumas áreas a que depois se deram nomes “europeus”: ducados, marquesados e condados.

Para ajudar o novo “irmão” do rei D. Manuel, não tardou a que soldados portugueses tivessem que entrar em guerras entre os vários nobres da região, procurando que entre todos houvesse paz. Portugal queria parceiros comerciais e só com paz haveria comércio. Jamais houve.

Entretanto, um pouco a sul, o N‘Gola, sabendo do convívio dos portugueses com o rei do Congo, manda uma mensagem ao rei de Portugal pedindo-lhe missionários. E vai Paulo Dias de Novais, como embaixador, acompanhado de quatro missionários, desembarca em Luanda e segue ao encontro do chefe indígena. Já não era o que tinha escrito a carta, mas um filho seu. Paulo Dias acaba prisioneiro durante cinco anos!

E as guerras entre os vários sobas e destes com os portugueses, não acabam nunca. Ora se alinhavam de um lado ora de outro.

Sem que se conheçam as suas procedências e suas histórias, algumas centenas de portugueses já se haviam espalhado por Angola, negociando diretamente com os povos indígenas. Desde o Congo até Benguela, e para o interior, esses foram, por sua conta e risco, os primeiros europeus a habitarem a África negra.
Por influência destes e de alguns relatórios dos jesuítas, em Portugal era grande o sonho da prata que Angola teria. Nunca teve.

Em 1498, a caminho da Índia, chegam os portugueses a Moçambique. O objetivo desta viagem era muito mais importante do que o hipotético comércio com Angola. A Índia e as suas especiarias, negócio altamente rendoso, na Europa nas mãos de venezianos e genoveses e nos mares até à Europa com os árabes, muçulmanos, inimigos da cristandade, que havia pouco tinham sido despejados da Península Ibérica. O objetivo era tomar esse negócio das suas mãos, e fazer de Lisboa o centro de distribuição dessas especiarias para toda a Europa.

Em Moçambique, a Ilha, era o ponto obrigatório de passagem de todos os comércios com a Índia, e apesar de pequena, era já povoada por árabes e macuas islamizados. A partir desta visita, Portugal consegue uma pequena parte, cria uma Misericórdia para aí deixar doentes, e ter o seu apoio logístico.
Começa a ganância. Naus cada vez maiores e com mais naufrágios, em poucos anos o custo da “Índia” era superior ao seu rendimento e, além de se endividar, Portugal começou por proibir a instalação de colonos nas terras a que se outorgou possuidor, por terem sido “descobertas” pelas suas caravelas.

Assim que o Brasil se mostrou colonizável, Angola passou a viver do negócio da escravatura. Escravos era a principal “mercadoria” que todos encontravam em África. Além disso, Angola, pouco mais tinha: um pouco de cera, para iluminação e para as igrejas, um tiquinho de marfim, e prata... zero.

Na costa Oriental, tudo quanto Portugal pretendia era ter livre o acesso ao Monomotapa. Ao ouro do Monomotapa! Nada de colonizações. Mas arrogava-se o direito de ser senhor das terras primeiro visitadas e depois daquelas em que, em permanência, se batia com os árabes, ali instalados há vários séculos, para garantirem o comércio do precioso metal, e para combaterem o negócio de escravos.

Além do ouro tinha muito marfim, normalmente enviado para a Índia onde era trabalhado por artistas artesãos. Da Índia saíam os principais produtos que serviam de troca com o nativo moçambicano.

E durante séculos as colônias africanas era “propriedade” dos reis de Portugal, mas limitadas a uma pequena faixa de terra litorânea e a algumas capitanias em portos onde pudesse haver negócio.

Lourenço Marques “descobre” a “Baía da Lagoa, que mais tarde teve o seu nome, mas onde durante uns dois séculos não residia nem um único português ou colono.

Foi assaltada por austríacos, ingleses e franceses, porque ali o negócio de marfim era importante. Mas sempre Portugal reclamava que aquelas terras lhe pertenciam porque fora o primeiro a descobri-las!

Em 1781 o ministro Martinho de Melo e Castro mandou povoar o interior de Sofala, porque na fortaleza só havia uma dúzia de famílias portuguesas, todas já mestiçadas ou de origem goesa. Em 1885 Gungunhana afirmava ao Conselheiro Almeida que a fronteira portuguesa passava a duas léguas de Sofala e para o interior o território era dele.

Em Angola a situação diferia um pouco, mas todo o interior pouco mais gente tinha do que um outro sertanejo como o famoso Silva Porto.

Na Zambézia, Portugal criou uma invenção curiosa: para poder arrecadar mais algum imposto passou a conceder “Prazos”, praticamente sempre a famílias mestiças e/ou também de origem goesa, mas neles não exercia nenhum domínio.

As lutas sustentadas contra os nativos não foram provocadas, até final do século XIX por lutas entre portugueses e africanos, mas por necessidade de apoiar um ou outro régulo afim de manter a paz no interior e assim o comércio poder fluir.

É o olho gordo dos ingleses que querem as melhores regiões de África para expandirem a sua “religião” comercial que provocam grande instabilidade. Estavam em plena revolução industrial e descobriram que só para cima de Moçambique havia mais de quarenta milhões de africanos que não usavam calçado nem camisa, o que pressupunha uma imensa possibilidade de negócio.

A partir daí, quando os portugueses, que tanto em Angola como em Moçambique sempre tinham precisado da autorização dos sobas e régulos para comerciarem, o que implicitamente reconhecia a soberania destes, a Conferência de Berlim, estimulada também pela ganância do rei dos belgas, determina que só ficam com direito a terras em África os países que os ocupem militar e administrativamente.

Virou-se o jogo. Agora eram os sobas e régulos que dependiam de Portugal, e isso foi um imenso desastre.

Portugal que até essa altura não admitia, sobretudo em Moçambique, colonizar esses “seus” territórios, começou a “vendê-lo” em parcelas. E mais, se não admitira nunca estrangeiros, teve que os ir buscar, porque, sempre pobre e endividado, não dispunha de capitais para desenvolver as “novas” colônias.
E assim nascem a Companhia dos Diamantes de Angola, com capitais portugueses (pouquíssimo), mas de maioria belgas, americanos, ingleses e sul-africanos, a Companhia Agrícola de Angola - CADA -  financiada por capitais belgas, em Moçambique as Companhias Majestáticas como a Cia. de Moçambique, Cia. da Zambézia, Cia. do Niassa, Cia. do Boror, todas com capitais estrangeiros, que quando viram que o negócio agrícola não era rentável, começaram a vender trabalhadores para as minas de ouro da África do Sul, e outras várias.

Depois lembrou-se de fundar o Banco Nacional Ultramarino, visando o desenvolvimento colonial, mas que se verificou ter sido um elemento de falência para os incautos e entusiastas que se lembraram de a ele recorrer para a agricultura.

Angola rendeu, sobretudo para os traficantes, enquanto floresceu a escravatura, em Moçambique lutava-se contra esse tráfico. O Brasil já independente teimava em traficar e, como sempre, os contrabandistas e desonestos, conseguem durante muito tempo ainda negociar, vergonhosamente, gente.

No século XIX e Portugal, sempre pobrezinho e mal governado, decide defender as colónias, sobretudo das forças de países europeus, e luta sobretudo contra os alemães.

As poucas e mal pagas e mal treinadas tropas da metrópole, auxiliadas por soldados africanos lutaram valentemente. Foi a época dos heróis, brancos e negros, que procuravam pacificar os territórios que lhe foram “oferecidos”!

O século XX abre os olhos da metrópole e começa a desenvolver-se Angola e Moçambique, já sem recursos a escravaria, marfim, ouro ou a imaginada prata, sempre por iniciativa privada, e não por ação e planificação do “reino”, que nem no pequenino espaço europeu se entendia.

Este surto de desenvolvimento, que cresce de forma importante sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial, marca profundamente a economia dos dois países que, logo a seguir ascendiam à sua independência.

O que é inimaginável para qualquer outro povo é que o grande surto de desenvolvimento se dá com o começo da guerra colonial, a partir de 1961.

Em 1974 acabam as colónias.
Os 500 anos tão badalados sumiram na bruma do tempo.
Em todo o lado por onde andou Portugal deixou a sua marca própria de convivência, desde Cabo Verde a Timor, Malásia, Indonésia e Índia, e sobretudo em Angola e Moçambique.

Não foram 500 anos de ocupação ou colonização. É um sofisma chorarem os portugueses pelos cinco séculos que “perderam, assim como o é também dos africanos dizerem que sofreram cinco séculos de dominação.

Ainda hoje, em Angola o nome mais respeitado de governante daquela terra, incluindo todos os que vieram depois da independência, é o de Dom Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho.

Por Moçambique também passaram grandes homens: Mouzinho, Freire de Andrade, João de Azevedo Coutinho, e outros.

Os sofismados “500 anos” foram, isso sim, cinco séculos de muita vivência, convivência, apesar de haver páginas tristes, como sempre houve em todo o lado e, infelizmente, continuará a haver.
Cada vez que se falar em “500 anos
em África” devemos celebrá-los como sendo “500 anos a conviver” com irmãos mesmo que por vezes desavindos.

Eu estive por lá pouco mais de vinte.
E como guardo toda aquela África no coração.

12/07/2017