"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Colóquio Filosofia e Poesia em Agostinho da Silva


Colóquio Filosofia e Poesia em Agostinho da Silva (nos 25 anos da sua partida)
2 de Julho de 2019 – Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

14:30 – Abertura
14:45 – 16.45
José Eduardo Reis (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) – "O tópico da alimentação humana no projeto enciclopédico-utopista dos Cadernos de Informação Cultural de Agostinho da Silva"
Luis Santos (Escola Superior de Educação de Setúbal) - "As últimas cartas e Um poema".
Bruno Ferro (Membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva) – "Agostinho da Silva e a Inteligente e Amorosa invenção dos caminhos para Deus".
Maurícia Teles (Presidente da Associação Agostinho da Silva) - "Agostinho da Silva, Além de Poeta...Poema"

16.45 – 18:15
António Cândido Franco (Universidade de Évora) - “A biografia de Agostinho da Silva"
Paulo Borges (Universidade de Lisboa / Membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva) – "Agostinho da Silva ou o filósofo crítico da filosofia"
Miguel Real (Escritor, Filósofo) – título a indicar
18:15 – 18:30 – Pausa

18:30 – 19:30
Amon Pinho (Universidade Federal de Uberlândia): "Da Filosofia como modo poiético de vida"
Romana Valente Pinho (Universidade Federal de Uberlândia): "Agostinho da Silva, vida e obra: um exercício de problematização da sua recepção"

19:30 – 20:00 - Apresentação por Amon Pinho do livro de Agostinho da Silva, Filosofia enquanto Poesia - Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Conversação com Diotima, Filosofia Nova e outros textos, organização de Amon Pinho, São Paulo, Editora É-Realizações, 2019.

20:00 Encerramento

Entrada livre
Metro Cidade Universitária
Organização: Núcleo de Pensamento Português e Cultura Lusófona do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Apoio: Círculo do Entre-Ser

terça-feira, 28 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Olá, pais! 

Sou o pai da Margarida. 

Não lhes pareça estranho estar a dirigir-lhes a palavra e muito menos tomem isto por uma ousadia da minha parte, certo que estou que todos nós sabemos o que de melhor queremos para os nossos filhos; espero que não pensem que venho aqui arrogar-me de qualquer autoridade para os aconselhar no que quer que seja, mas há umas quantas preocupações que quero partilhar convosco. 
Vem isto a propósito de facto de pretendermos que esta turma continue a mesma com a sua passagem para a Escola José Afonso. 

Aconteceu que tivemos a felicidade de encontrar uma Professora Primária que, pela continuidade e qualidade do seu trabalho, legou aos alunos as bases necessárias para que eles possam encarar o ciclo seguinte com toda a confiança, uma vez que possuem todos os requisitos para aprenderem as matérias e desempenharem as provas exigidas com sucesso. A rapaziada sabe ler, escrever, contar e fazer contas e explicar-se convenientemente; foi-lhes incutido o interesse por variados assuntos e o gosto por os discutir e estudar, sabendo pois, na generalidade, pôr em prática as suas ideias. Uns mais que outros, como é natural que seja, mas todos estão aptos a assimilarem as matérias e a desempenharem os exercícios que vão ter pela frente. 
Além disso, há nesta classe um número razoável de bons alunos e de crianças interessadas em aprenderem que garantem a possibilidade de um ritmo de trabalho que puxe pelos que, eventualmente, venham a revelar mais uma ou outra dificuldade. 

Assim eles venham a ter Professores que deem continuidade ao esforço desenvolvido no primeiro ciclo. Mas também que continuem com a vontade e o empenhamento que até aqui revelaram. Haja a confluência de forças dessas duas partes e são muitas as probabilidades de que estaremos tranquilos com os resultados finais desta nova etapa que em Setembro começará. 

Ora é aqui que tenho algumas interrogações. 
E se me permitem, na minha modesta opinião, creio que para tal, em primeiro lugar, é bom que tanto uns como os outros sintam a nossa presença o que implica que nos apresentemos nas reuniões com os directores de turma e que sempre que surjam problemas nos disponibilizemos para colaborar na sua resolução. Por um lado, importa que os Professores percebam que têm diante de si um grupo de raparigas e rapazes cujos pais estão interessados que tenham um bom desempenho escolar para que mais tarde venham a poder escolher um caminho e, por outro lado, será essa a forma dos miúdos nunca poderem pensar que na escola, para lá das regras inerentes, estão apenas sujeitos ao sabor dos seus desejos e vontades. 
O resto, todos nós sabemos, contudo, não seria descabido se nos mantivéssemos sempre abertos a comunicarmos uns com os outros o que só pode facilitar-nos no acompanhamento dos nossos filhos. 

Pois bem, eu não queria deixar de manifestar estas minhas preocupações e partilhá-las convosco, antes de os convidar a assinar o pedido para que a turma continue na Escola José Afonso e que um grupo de pais irá apresentar ao Conselho Directivo daquele estabelecimento de ensino. 
Creio que todos temos consciência daquele documento e, por isso, o iremos assinar. 


É este o texto que eu irei apresentar aos encarregados de educação da turma da Margarida, na próxima segunda-feira, na reunião final de um ano e de um ciclo em que todos os alunos foram aprovados. 



E se ontem deixei em branco estas páginas foi pelo simples facto de me ter esticado no sofá para a assistir a um desafio entre as selecções de Portugal e da Inglaterra e acabei por me deparar com um jogo de tal forma emotivo e bem jogado que também eu me deixei emocionar como há muito não acontecia com uma partida de futebol. 

Na verdade, em termos futebolísticos, tratou-se de uma noite épica em que os portugueses depois de a poucos minutos do fim conseguiram empatar um resultado que lhes era desfavorável desde os três minutos do tempo regulamentar e depois de, na segunda parte do prolongamento, terem conseguido dar a volta com um golo espectacular de Rui Costa, um pontapé fulminante e certeiro à parte superior do centro da baliza que deixou o guarda-redes pregado à relva, consentiram a reposição da igualdade que só viria a ser desfeita através dos remates directos da marca de grande penalidade, não sem um falhanço para ambos os lados e, já em fase de erro fatal, o guarda-redes português tenha defendido uma bola sem luvas para, em acto contínuo, ser ele a anichar o esférico entre as redes, explodindo então com a alegria incontível de quem ganhou a eliminatória. 
Acresce que houve um número quanto baste de boas jogadas, com perigo para as balizas de um lado e do outro, embora os das quinas tenham conseguido maior posse de bola e criado mais perigo para a equipa contrária, com os nossos defesas, na maioria das situações, a imporem-se aos avançados britânicos, no que destaco a classe e elegância do central Ricardo Carvalho, para mim, do que tenho visto, o jogador revelação do torneio, capaz de cortar lances com toda a perícia e sem qualquer irregularidade e de ainda controlar a bola para a passar jogável aos companheiros e, com isso, lançar contra-ataques. 

Há muito tempo que não vibrava tanto com um jogo e confesso que também eu levantei o braço quando o Hélder Postiga fez o primeiro golo que repunha a verdade no marcador, uma vez que essa oportunidade há muito que era merecida pelo empenho e a imaginação dos jogadores nacionais. 
Depois foi a explosão provocada pela magia de Rui Costa e a sensação de que seria uma injustiça que, depois disso, isto é, depois de um momento tão espectacular, os portugueses viessem a perder. 

E o final de Ricardo deu o tom épico a uma noite que já tinha engrandecido aquele desporto. 


Ainda mais com as claques misturadas nas bancadas sem que tenha acontecido qualquer problema. 



Hoje foi o último dia de escola. 


A Matilde sabe agora o que significa a palavra férias grandes. 


Houve festa e os alunos trouxeram os materiais que são para ficarem em casa. 
Ontem houve um jogo de futebol entre os alunos do quarto ano a que toda a escola assistiu e a que a Margarida não faltou e a Professora da Matilde aproveitou para recomendar os exercícios que os alunos deverão resolver durante as férias. 


Agora viva o descanso que para os meus amorzinhos bem merecido é. 



O que é isto? 
Durão Barroso para Presidente da Comissão da União Europeia? 

Aqui há gato. 


 Alhos Vedros 
  25/06/2004

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Espagíria


A imagem pode conter: comida

. Alimento dos Deuses

Cacau, significa literalmente alimento dos deuses. Por isso, sendo que o açúcar e o leite de vaca, já não são aquilo que eram, aconselhamos "mais chocolate (negro) e menos açúcar", como muito bem concluiria uma aluna minha.

Na Grécia Antiga, dizia-se que a "ambrosia", também chamada de "manjar dos deuses", era o alimento do Olimpo com grande poder de cura...

Ambrósia é também o nome de um doce originário da Península Ibérica que se chama "doce de ovos".

Numa receita arrojada poderá combinar ovos, cacau, mel, manteiga clarificada, sumo de limão (tudo q.b.), a que se pode adicionar frutos secos e/ou da época, polvilhado, ou não, com uma porção generosa de canela, e bom apetite.


. Alimento dos Santos

Pão ázimo
Ingredientes:
- 1 Kg Farinha integral de trigo (ou outros cereais: aveia, ou cevada, ou centeio)
- 1/2 litro de água
- meio copo de azeite
- sal a gosto
Opcionais: ovos e mel.

Extratos naturais com propriedades químico-preventivas.
Por exemplo, hóstia sagrada (circular, 3cm de diâmetro).
Pão e vinho, transubstânciação.


. Poção Mágica

à moda do druida Panoramix:
- visco (colhido com foice de ouro)
- nabos, cenouras e beterrabas, quanto baste
- morangos para adoçar
- um trevo de quatro folhas
- um pouco de peixe fresco
- uma pitada de sal

(na alternativa vegetariana, prevenindo a falta da vitamina B12, pode substiutir o peixe por manteiga clarificada "ghi" ou "ghee", e bom apetite!).


Luís Santos


quarta-feira, 22 de maio de 2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Darfur continua a ser palavra de sofrimento para uma África esquecida pela comunidade internacional. 

O próprio Kofi Annan está embaraçado por nada conseguir fazer quer para no imediato atender à sorte de milhares de refugiados que fogem à morte pelas armas do exército, quer para encontrar uma solução para um país desmantelado que vive há vinte anos uma guerra civil de que pouco se fala mas que não deixa de ser por isso menos mortífera e perigosa do que as outras que tanto espaço ocupam nos media internacionais. 

E não digo isto pelo facto de estarmos a falar de um conflito que se trava na fronteira entre o mundo muçulmano e o mundo cristão e que opõe esta última comunidade que ali se trata de uma minoria religiosa à maioria islâmica que controla os destinos do governo e as instituições que ainda funcionam. 
Mais alarmante é a realidade de um estado completamente desorganizado e exposto ao poder de controle das máfias ou do terrorismo mundial. O exemplo mais emblemático desse perigo foi, recentemente, o caso do Afeganistão sob o controle dos talibãs. 


Eis um desafio que se coloca às sociedades mais ricas do planeta. 

Como conseguir que não cresçam tais pontos de corrosão a partir dos quais podem vir a organizarem-se forças que, eventualmente, consigam adquirir as capacidades para pôr em causa o nosso mundo de vida livre. 


Está na hora de começarmos a pensar numa civilização de estado de direito a nível mundial. 

Duas coisas são certas e acréscimos dos últimos anos; o planeta é a casa comum de uma espécie única que é a Humanidade a que todos pertencemos. 



E Portugal que lá venceu a Espanha, defrontará amanhã a Inglaterra nos quartos-de-final do campeonato europeu de futebol. 


Se os portugueses aproveitassem toda esta energia para aplicarem ao trabalho produtivo e em certas áreas vitais como por exemplo a educação e a ciência… 


Mas enquanto se embriaga pelo efeito anestésico de um pontapé de mestre de Nuno Gomes, a vergonha da nossa justiça continua, alegremente, a dar mostras do estado de arbitrariedade a que chegou. 
Agora são os condenados do caso moderna que vêm as penas anuladas e transformadas em absolvições, com a redução de dez para sete anos de prisão do que acabou por ser o único dos pronunciados ao cárcere e a alteração em dois anos de pena suspensa para os três que o Tribunal de primeira instância ditara a um dos seus colaboradores. 

Enfim, o Carlos Cruz já tem uma coluna dominical no “Público” a respeito do Euro 2004. 

Afinal, o que há de estranho neste reino do homo maniatábilis? 

Vivemos sob uma ditadura de interesses esconsos. Entre nós, o estado de direito passou a uma figura de estilo. 



Aqui no burgo, fala-se agora em referendar a constituição europeia. 
Parece-me muito bem que se faça. 

E espero que finalmente possamos ter um debate a sério sobre a União Europeia. 

Vale sempre mais tarde que nunca. 



Hoje houve visita ao Oceanário. 

Segundo a Matilde, tanto ela como a Beatriz serviram de cicerones aos colegas e não se esqueceram de lhes falar da noite que ali dormiram, no ano passado. 



Agora há uma missa de Mozart a contemplar as estrelas.
Vou fechar os olhos para ouvir melhor. 


Alhos Vedros 
  23/06/2004

segunda-feira, 20 de maio de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (349)


Auto-retrato, Henri Rousseau, 1890
Óleo sobre Tela, 146 x 113 cm

Henri Rousseau, conhecido como o Alfandegário, nasceu em Laval, França, a 21 de Maio de 1844 e morreu em 2 de Setembro de 1910.
"Rousseau, o legendário, o mestre: se tivesse possuído dotes de pintor, se tivesse sabido desenhar, a sua ingenuidade e o seu ardor te-lo-iam convertido num homem genial. estes torpes que provocam o riso, têm o que falta aos seus admiráveis companheiros: a fé e a ingenuidade".
Alfred Jarry sobre Henri Rousseau.

Selecção de António Tapadinhas

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"




por Eduardo Aroso

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

Maio 2019

(in, António Telmo. Vida e Obra. Ver mais aqui: https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt )

ORGANIZAÇÃO: LIGA DOS AMIGOS DE SESIMBRA


terça-feira, 14 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A MARGARIDA TEVE AZAR

Coitada da Margarida a quem o azar bateu à porta. 

Ontem, na aula de ginástica, caiu ao tentar fazer um mortal e em consequência disso torceu o pé esquerdo. 

Perante a possibilidade de haver algum osso partido, conduzimo-la de imediato ao hospital onde, após as radiografias e outros exames, se concluiu que, apesar de grave, a lesão se ficara por uma entorse. 

Dez dias de repouso, o pé ligado na primeira semana e canadianas para que o pé não faça força, são estes os paliativos para o atropelo. 
E para que o remédio surta efeito é necessária a calma e a paciência que levem à aceitação e ao aproveitamento das horas que se perspectivam no sofá, de perna estendida mas, avaliando pelo primeiro dia, tudo indica que o vendaval passageiro será vencido com tranquilidade. 


Claro está, a ginástica e a escola terminaram, no entanto não haveria por isso qualquer problema uma vez em que em ambas as situações tudo estava consumado e nada se alteraria nesta última semana. 

Seja como for, já disse que se sentir melhor, na próxima quinta-feira irá assistir ao jogo de despedida dos seus colegas de turma. 

E não quis que a mãe tentasse adiar a ida para a “gente miúda” pelo que a Matilde irá sozinha para aquelas actividades de tempos livres numa quinta, na Moita. 



Por sua vez, a Matilde ficou comigo e esperou que a mãe e a irmã chegassem, embora soubéssemos o resultado das observações através do telefone. 

É bonito ver como ela se presta a auxiliar a irmã sem que para isso seja necessária a menor solicitação. 



A Céu, do centro de enfermagem, teve a simpatia de emprestar as muletas com o tamanho apropriado para as crianças. 



Ontem os alunos aprenderam a palavra quadro e hoje o número trinta. 

“-Eu já sabia o que é o q, agora é mais fácil.” –Disse o pardalito com o seu ar sorridente enquanto tratávamos do banho. 



Livros escolares da Matilde, IV 

“Palavra a Palavra”, livro de apoio ao método das vinte e oito palavras, de autoria conjunta de Arminda Craveiro, Adriana Figueiredo e Maria Teresa Dias, em exemplar da primeira tiragem da primeira edição, publicado no Porto, em dois mil e três, pela Porto Editora. 



Há duas aves em voo silencioso pela noite. 

Creio que são bufos à procura de refeição em forma de répteis e pequenos roedores que cirandam pelos campos. 

Muitos são os que sob o luar tratam da vida. 


Alhos Vedros 
  22/06/2004

segunda-feira, 13 de maio de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (348)


Leda e o Cisne, Autor Vieira Portuense, 1798
Pintura a óleo sobre tela, 102 cm × 127 cm 

Francisco Vieira (nome artístico, Vieira Portuense) nasceu a 13 de Maio de 1765, no Porto e morreu a 2 de Maio de 1805, no Funchal.
Foi um dos maiores pintores da sua geração, introdutor do neoclassicismo na pintura portuguesa, ocupando lugar destacado juntamente com Domingos Sequeira. Presume-se ainda que terá frequentado a Aula de Debuxo e Desenho do Porto, antes de rumar a Lisboa, onde frequentou a Casa Pia e a Aula Régia de Desenho. A seguir prosseguiu os estudos em Roma, financiado pela família e pela Feitoria Inglesa ou, muito provavelmente, pela Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro. Viajou por Itália, Alemanha, Áustria e Inglaterra antes de regressar a Portugal em 1800.
Nos anos que passou em Roma foi discípulo de Domenico Corvi (1721-1803) e obteve o 1.º prémio de Desenho no concurso da Academia do Nu do Capitólio (1789). Trocou inúmeras cartas com o seu patrono, D. João de Mello e Castro, embaixador português em Roma, e com o secretário deste, Augusto Molloy. Através desta correspondência ficámos a saber, por exemplo, que auferiu de uma pensão régia de 8 escudos romanos, aumentada em quatro escudos a partir de 1791 e que deu aulas a D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho Monteiro Paim, esposa do embaixador português.
Contraiu tuberculose e mudou-se para a Madeira, em busca de melhoria do seu estado de saúde, mas acabou por falecer, sendo sepultado na Sé do Funchal. Lê-se, no seu assento de óbito, o seguinte: "(...) faleceu, repentinamente, na casa de pasto de Maria Watror, viúva, e Católica Romana (...)".

Está representado no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa e Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto.

in Wikipédia

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 11 de maio de 2019

Inéditos - Pedro Du Bois


CORPOS E MARCAS

O corpo marcado
no que outros corpos
escondem

o segredo da vida
posto
disposto
reposto
em respostas
marcadas

palavras silenciam
o corpo esclarece
e marca

o medo cristaliza
mentiras em verdades
e o corpo
se transubstancia
na maldade
de alguém cujo
corpo marca.



DETALHES

Busca nos detalhes
o ponto de apoio
anelo
anelado dedo com que se defende dos oferecimentos
e se esconde dos tormentos

detalhes o mantém à salvo das estéreis horas
de retornos fossem pedras carregadas nos bolsos
raivas concentradas na incapacidade do espelho

enrola o fio
o anel cintila
no dedo solto
em sobressalto

não há morte nos detalhes secos e ásperos
o tempo ajustado
solta as amarras
retira o anel.



ARABESCO

O arabesco ecoa trombetas
antigas inimigas percorrem 
muros no estado do barulho

o arabesco mudo
em mudanças
na trama não urde
o tecido esgarçado

amigas chegam
no calor da noite
tocam seus dedos
sobre as feridas

o arabesco desnudo
em traços percorridos
no silêncio do dia findo.

(Pedro Du Bois, inéditos)
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outros poemas: 

terça-feira, 7 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

FORÇA PORTUGAL!

Não sei o que dizer da constituição europeia que ontem foi aprovada numa cimeira dos governos da União, em Bruxelas. 


Caricato é o facto de, entre nós, este ter sido um assunto tão pouco abordado na recente campanha para o parlamento europeu. 

Mas é o país que temos com os políticos que tão bem o caracterizam. 


Cá para mim não vejo que fosse necessário um tal documento com o compromisso que implica e as influências que terá no relacionamento e enquadramento dos diversos países membros. 

Não conheço o texto para que aqui o possa comentar, mas preferia que se desse tempo ao tempo, isto é, se deixasse sedimentar a moeda única e todo o entrosamento que a mesma provocará quer no plano macro-económico quer, a partir daí, nos contextos da micro-economia e da generalidade das relações sociais entre aqueles membros que a partilhem. 


Mais que a Europa dos estados, importa compreender que a União só será possível se se fizer a contento dos seus cidadãos, caso contrário, correremos sempre o risco de construirmos edifícios que podem vir a colidir com as espectativas e os desejos das populações. 

E depois não sei se o federalismo será um modo conveniente para unir um grupo de países com tradições de independência mais ou menos longa e níveis de desenvolvimento muito diferenciados como os que ainda hoje se verificam, por exemplo, entre nós e os dinamarqueses. 
Pois avaliando pelo que dizem os líderes e os burocratas, estamos na fase histórica da Europa dos Vitorinos, temo assim que seja aquela ideia que os constituintes, muito lá no fundo, têm em mente. 



Por cá vivemos sob o manto da ditadura do futebol. 

Aos microfones da TSF, Jorge Perestrelo ofendeu Prado Coelho que aqui há dias se terá manifestado contra o clima de nacionalismo que se tem vindo a manifestar sob a forma das bandeiras nas janelas e varandas. 


Os cacetes estão nas bainhas, mas estão lá. 
Até quando? 



As férias estão a chegar. 
Hoje foi a última aula de catequese deste ano. 


As manhãs e os fins-de-semana serão mais tranquilos nos próximos três meses. 


Tenho para mim que a este nível a Matilde está melhor preparada que a irmã. Enquanto esta só este ano, com a mudança de turma, aprendeu certos episódios da vida de Jesus, o pardalito já ouviu muita informação a esse respeito e, não poucas vezes, no decurso das conversas familiares, tem dado mostras de ter estado atenta e ter dominado os dados a que teve acesso. 

Seja como for, chega, por agora. 
Em Outubro haverá mais. 

Este diário é que já não estará cá para o registar. 



Ena pá, a Margarida já nada crawl com toda a facilidade e até com alguma elegância. 



E se não podes vencê-los, junta-te a eles, lá diz o ditado que serve para ironizar as teimosias mais inconvenientes. 

Pois bem, agora fico por aqui. 
Nas próximas duas horas, Portugal estará suspenso do televisor. 

Está o apuramento para os quartos-de-final em jogo no desafio com a selecção espanhola. 


Avaliando pelo dramatismo com que a comunicação social trata o evento, dir-se-ia que é o destino da pátria que está pendente desse resultado. 


Alhos Vedros 
  20/06/2004

segunda-feira, 6 de maio de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (347)


Arpad Szenes, Conversation Hongroise, 1948-50
Óleo Sobre Tela, 89x130cm

Arpad Szenes nasceu em Budapeste a 6 de Maio de 1897 e morreu em Paris a 16 de Janeiro de 1985. Foi um pintor, gravurista, ilustrador, desenhista e professor húngaro, naturalizado francês em 1956.
Sua trajetória artística ficou profundamente ligada ao mundo latino, devido — em grande parte — ao seu casamento em 1930 com a portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, com quem realizou inúmeras viagens à América Latina para participar de exposições, como em 1946 no Instituto de Arquitetos do Brasil.
Devido ao facto de ser judeu e de sua esposa ter perdido a nacionalidade portuguesa, eram oficialmente apátridas. O casal decidiu então residir por um longo tempo no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e no período pós-guerra. No Brasil, entram em contato com importantes artistas locais, como Carlos Scliar e Djanira.
A ligação com Portugal reflete-se na existência da Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, sediada em Lisboa.
A 7 de Setembro de 1978 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a 16 de Julho de 1988 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[1]

in Wikipédia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Os Suburbanos (1)




Fotografia de Carlos Matos


A MESA VAZIA

Ana Porfírio

Levanta-se ás seis e picos, acorda com a ereção matinal, vai meio adormecido até à casa de banho, escuta o som do jato cantante, o cheiro, ainda de olhos meio fechados, lava os dentes por vezes já debaixo do duche, o corpo, a cabeça, tenta não pegar distraído no shampoo ou amaciador dos miúdos que chegam a cada quinze dias, cada vez mais distantes, uma adolescente com uma cara parecida à sua filha que o olhava encantando e um franganote que mistura traços do seu pai e da ex-mulher com uma pele a ficar cada vez mais oleosa e uma voz que balança entre o esganiçado e o másculo.

Parece que empurram o corpo, refilam pelo quarto partilhado a cada quinzena, já não ficam felizes com uma ida ao Cinema, ao Jardim Zoológico, á praia, invariavelmente querem boleia para casa de amigos ou Centros Comerciais.

Limpa-se á toalha, faz a barba, desodorizante, veste-se, come o mesmo de todos os dias, um iogurte com fruta ou cereais, um café longo, dois comprimidos, um branco e um rosado, tensão arterial e outra porcaria qualquer.

Coloca a gravata, veste o casaco, fuma um cigarro na varanda, sai, tranca a porta, carrega no botão do elevador, por vezes vem já com outras pessoas, é melhor quando não, ter de começar cedo a ver a felicidade doméstica do casal recém casado do quarto andar ou a vizinha do quinto frente que lhe faz perguntas indiscretas e ajeita o decote ou mesmo os miúdos a fazer birra, cheios de sono do andar do lado com a mãe a dizer para se portarem bem enquanto eles se atacam em beliscões é um despertar que não lhe apetece.

Sai na garagem liga o carro, carrega no comando a porta abre, sai, carrega no comando a porta fecha, escuta a mesma estação de rádio, espera que não haja fila na ponte, engarrafamento, congestionamento, fuma um ou dois cigarros, suspira a cada paragem, até chegar.

Chega ao edifício, imponentemente feio, monumentalmente impessoal, cumprimenta o segurança, os colegas, escuta as conversas replicadas à exaustão, liga o computador começa a abrir mensagens, toda a gente carrega no botão de “prioritário”, vê números, confere, arruma, para um café, dois dedos de conversa desinteressante, um cigarro, continua, para o almoço, regra geral no local de sempre, cumprimenta, come, paga, cumprimenta, fuma um cigarro, volta aos números, sente o telemóvel vibrar, é a filha que pede mais dinheiro no cartão das suas despesas, numa linguagem quase fonética com palavras abreviadas, outra vibração é a mulher com quem teve um breve encontro que terminou num sexo satisfatório mas não empolgante e que o persegue com rompantes de novela, termina o dia, volta ao engarrafamento, á fila, ao congestionamento, estaciona, tira a gravata, sobe, os miúdos tem a mesma birra da manhã mas com o sono da noite, a mascara de maquilhagem da vizinha do quinte frente debotou e mostra a pele baça, o casalinho vem amuado ele sussurra ternuras, ela faz um beicinho.

Tira o fato, vê que a casa está limpa, há um recado com letra infantil a pedir que compre lixivia e limpa vidros, a roupa está passada a ferro, veste um blusão, sai para jantar, um jantar solitário, dá uma volta a pé com o cheiro do rio, encontra umas caras conhecidas.

De repente vê, “ela” está ali, com aquele ar distraído de sempre, quando o vê sorri, abraça-o como se fosse ontem que tivessem dado o ultimo abraço, continua a cheirar a coisas frescas, apesar de usar outro perfume, o cheiro só dela sobrepõe-se, continua a ter aquele ar de animal furtivo e menina perdida, a ter a pele macia, a voz que o fazia sentir tudo de outra forma, há uma mesa vazia na esplanada e ela pergunta, se quer sentar-se, tomar algo, conversar um pouco ele escuta-se incrédulo:

“Amanhã é dia de trabalho às seis e picos tenho de estar a pé!”

Ela faz um sorriso trocista e diz “Está bem, gostei de te ver”

Afasta-se e ele fica parado a olhar para a mesa vazia onde podiam ter partilhado uma conversa, tocar-lhe nas mãos, quem sabe pegar no ponto dos abraços, a garganta doí-lhe por não lhe ter dito que o cheiro dela continua a ser de coisas frescas, a pele dela continua macia, a voz ainda o faz sentir de outra forma, que sim, que se quer sentar e deixar a mesa ocupada, com a conversa que entre eles sempre foi fácil, ser embalado naqueles sorrisos, nos gestos de mão, no andar de animal furtivo e o ar de menina perdida.

Olha para a mesa vazia, suspira e acende um cigarro, amanhã pelas seis e picos…


quarta-feira, 1 de maio de 2019

EG 111


ESTUDO GERAL
abr/mai     2019           111

Sumário
A Linguagem do Coração

Apresentação de Livro

Por um Desenvolvimento Sustentável

Poesia Colorida

Semana da Paixão

Diarística





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