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sábado, 28 de março de 2020

A Matriz Cultural de Portugal


Luís Santos

#9 O RENASCIMENTO #9

Curiosamente um dos autores que primeiro abriu as portas ao Renascimento foi São Tomás de Aquino, um frade católico, mais tarde beatificado pela Igreja, que viveu no século XIII e fundiu o espírito da filosofia aristotélica com o cristianismo, dando particular ênfase às ideias de Santo Agostinho, fazendo renascer, simultaneamente, todo um conjunto de princípios que fizeram escola no berço do pensamento científico, a Grécia Antiga. O salto de São Tomás de Aquino na “Suma Teológica”, a sua obra de referência, é a legitimação da separação entre o poder espiritual e o poder dos príncipes que acabaria, com o tempo, para remeter as influências da igreja na vida pública mais para a esfera do privado, deixando o exercício da política nas mãos dos monarcas e da nobreza.

Mas, um par de séculos desenrolados, a emergência de uma burguesia mercantil em franco crescimento, ligada ao surto de expansão ultramarina europeia e às riquezas ligadas ao comércio que daí advieram, muito ligada a uma ética protestante saída da Reforma da igreja católica, por mãos de Martinho Lutero, que absolutamente legitimava o lucro e a usura financeira, vai desencadear o florescimento de uma nova organização económica assente na acumulação de capital.

Entretanto, Luís de Camões glorificando o espírito luso, lia os Lusíadas a Dom Sebastião, e falava da chegada dos nautas que vinham com o Gama à Ilha dos Amores, canto IX, numa síntese de tudo o que os portugueses mais tinham sonhado, e desejado, até então. Todo esse reino paradisíaco de múltiplas cores e flores, e nascentes de água límpida, onde se banhavam as mais belas ninfas haveria de se Encobrir em Alcácer Quibir. Fechava-se o sonho de Afonso Henriques, perdia-se o culto do rei poeta e da rainha santa, quedava-se o impulso do Navegador, interrompia-se o país. E volvidos sessenta anos, quando em 1640 se voltou, a história já era outra.

A Ilha dos Amores no meio do nevoeiro, Rio Minho

quarta-feira, 7 de junho de 2017

PORTUGAL EM 3° LUGAR NO ÍNDICE GLOBAL DA PAZ

Países Lusófonos a Caminho.
Europa: a Região mais pacífica do Globo.

António Justo

O Instituto para Economia e Paz (IEP) apresentou o Índice Global de Paz (IGP 2017), baseado na análise de 163 países e coloca Portugal em terceiro lugar no Ranking das nações mais tranquilas. 

Países Lusófonos 

A classificação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é encabeçada com o 3°. lugar para Portugal, seguida do 53°. para Timor Leste; 61°. para Guiné Equatorial; 78°. para Moçambique; 100°. para Angola; 108°. para o Brasil; 122°. para Guiné Bissau.
Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe não entraram na análise.
Segundo IEP Portugal passou do quinto para o terceiro lugar, ultrapassando a Áustria na classificação da posição mundial, devido, sobretudo, a uma recuperação constante na sua crise financeira, o que levou a uma maior estabilidade interna para o país.  

Critérios para a classificação dos países

Como factores para a classificação dos países, os cientistas servem-se dos seguintes grupos de indicadores: 1. Os conflitos no país e no exterior: número e duração de conflitos com outros países, e o número de mortes por violência organizada; 2. Segurança Social: instabilidade política e probabilidade de manifestações violentas e do número de detidos nas prisões; 3. Militarização: quanto dinheiro disponibiliza o país para as suas forças armadas, número de soldados disponíveis e se tem armas nucleares.  

Os 10 países com mais paz e menos violência

1.Islândia, 2. Nova Zelândia, 3. Portugal, 4. Áustria, 5. Dinamarca, 6. República Checa, 7. Suíça, 8. Canadá, 9. Japão, 10. Irlanda. 
Entre outros: 16. Alemanha, 23. Espanha, 38. Itália, 41. Reino Unido (ainda sem o recente ataque terrorista), 51. França, 137. Índia, 151. Rússia, 161. Iraque, 162. Afeganistão,163. Síria.
Na carta apresentada pelo IEP a Rússia encontra-se com a cor vermelha tal como a Síria; até o Egipto tem um melhor índice de paz que a Rússia, o que parece questionável.  
O relatório coloca a Europa como a região mais pacífica do mundo. O projecto União Europeia tem sido, certamente, um factor de garantia de paz. Apesar da guerra na Jugoslávia e do bombardeamento da Sérvia, nos anos 1990, a paz tem-se estabilizado, apesar de certos indícios de insegurança e medos a aumentar. 
Apesar do cancro da guerra em muitos países e do terrorismo islamista a esperança é maior que o medo!
O facto de alguns se afogarem na praia não justifica que se traga colete salva-vidas na banheira.
O importante é assegurar a paz sem que isso aconteça à custa da exploração de outros. O Estado, as instituições e os indivíduos terão de se empenhar no grande projeto de criar uma cultura de afirmação pela paz.

António da Cunha Duarte Justo

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

                                  
                                  Agostinho da Silva e a "Ilha dos Amores"

                pintura de Hieronymous Bosch


Agostinho da Silva encontra grandes semelhanças entre as ideias de Quinto Império tal como foram definidas pelo Padre António Vieira e por Fernando Pessoa, tal como vê semelhanças entre essas ideias e as de Luís de Camões nos Lusíadas, muito particularmente quando se refere à Ilha dos Amores (Canto IX).
Na viagem capitaneada por Vasco da Gama, quando os portugueses deixam a Índia e empreendem o caminho de regresso, Camões vai assinalar um encontro inesperado que aguardava pelos nautas. Em pleno Índico, por obra divina “aqueles marinheiros portugueses, aquela esquadra de Gama que volta, não trazia nenhuma carta geográfica, nenhum dos pilotos tinha pensado naquela possibilidade e é uma Deusa de fora, é a força interna do mundo, é a máquina interna da História que leva a Ilha dos Amores para diante dos navios portugueses.” (Conversas com Agostinho da Silva, entrevista de Vítor Mendanha, Lisboa, Pergaminho, p.74)
Não foi preciso que os marinheiros fizessem nada. Foi, por assim dizer, o destino, os deuses nas palavras de Camões, que acabaram por fazer esses marinheiros, por serviços prestados, serem premiados com uma realidade transcendental caracterizada pelo Amor que mais do que grandes feitos na Terra acabam por conjugá-la com a perfeição de um mundo divino. “ É um comportamento que se caracteriza por estarem apaixonados por toda a espécie de fenómeno que lhes aparece nessa ilha, sem que possamos ali entrar com os preceitos morais do bem e do mal, do lícito e do ilícito que nós, continuamente, usamos na vida. É como se eles tivessem entrado em alguma coisa na qual tivessem plena licença de serem homens inteiramente livres. São as ninfas, é a comida, é a paisagem, são os passeios, o encanto das conversas, tudo isso há. Portanto, para Camões, um projecto de futuro inclui uma inteira liberdade do homem e um inteiro gosto do homem pela apreciação dos fenómenos.” (idem, 76)
Por consequência da empresa portuguesa que tornou una a terra que o mar separava, acontece no poema de Camões esse fenómeno surpreendente aos nautas lusos, “a Deusa leva os marinheiros portugueses a um monte, para verem, ao longe, a Máquina do Mundo” e “ouvem da Deusa aquilo que será o futuro da História de Portugal.” (idem, 78 e 79) Quer dizer, os marinheiros portugueses são libertos naquela Ilha, da prisão do tempo mas, também dos limites do espaço.
Então, a pergunta inevitável em Agostinho, como podemos nós aceder a essa experiência vivida pelos nossos antepassados marinheiros, entrar nesse “céu aberto na terra” que nos liberte do tempo e do espaço? E a resposta é automática: teremos de suplantar esta organização económica capitalista que se vem desenvolvendo no ocidente desde o renascimento, a que nos conduziu a filosofia, a ciência e a técnica, tal como a organização da escola que lhe é subjacente, e que tão amarrada trás o homem a um mundo de condições insuficientes que lhe permitam caminhar rumo a uma Ilha plena de Amor. É certo que foram, a Filosofia e a Ciência, “bons instrumentos para subirmos, como são os degraus da escada e o corrimão, mas talvez não um patamar em que fiquemos, nem um terraço para contemplarmos o verdadeiro Céu.” (idem, 84)
            Então, é também esta a ideia da “Ilha dos Amores”. Com ela Camões incita-nos a realizar esse Céu na Terra.

Luís Santos

domingo, 3 de julho de 2011

Country 2011

Dia de lúcido momento,
Época desta cegueira
Da mais branca neblina.

Todos os poetas se transcendem de humanismo,
Todos os audazes se concebem decadentes,
A vitória abstracta mundialmente falando,
E a derrota constante é um lugar abençoado.

Peso português na roda universal,
Carregando a vida pelas chagas de Cristo,
Arrasta em segredo o engenho capital,
Detective dos mares, reformado imprevisto.

De outrora esqueceu-se actual,
Povo de virtudes abismais,
Se de momento é hipnótico banal,
Verdade vindoura esquecerá Portugal.

Ilustre reacção imprescindível,
O rei morreu e África engrandeceu,
Se o conjunto suor tropeça e o rei não vem,
Aii de nós nostalgia, rainha o império é teu.

Diogo Correia
10/06/2011
Dia de Portugal