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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Minas de S. Domingos



TEXTO E FOTOS: Fernanda Gil

MÚSICA: Ricardo Fonseca, "Todo este chão" (viola campaniça)

HISTÓRIA:

 

A Mina de São Domingos (aldeia portuguesa e alentejana, situada no distrito de Beja, concelho de Mértola e freguesia de Corte do Pinto) faz parte da província metalogénica de classe mundial conhecida como Faixa Piritosa Ibérica (FPI), uma região com 30 a 60 km de largura e 240 km de comprimento que se estende desde o rio Sado e Setúbal (Portugal) até ao rio Guadalquivir e Sevilha (Espanha) e se constitui como uma fonte decisiva de metais básicos (Cu, Zn, Pb, Sn, Ag, Au, Fe, Co, Cd, etc.) e de outros elementos como o enxofre (S). O depósito pirítico de São Domingos foi explorado em diversos períodos históricos, nomeadamente: durante vários séculos do primeiro milénio a.C. (período Oriental), durante o período que mediou entre o ano 14 a.C. e o ano de 395 d.C. (período romano), durante o período islâmico e durante o período delimitado pelos anos de 1854 e 1966 (período moderno) (Guita,2011:117).

É o período de exploração moderna que dita a importância e o legado histórico da Mina de S. Domingos. Numa actividade de extracção intensiva que decorreu ao longo de mais de um século (1854-1966), a empresa britânica Mason & Barry extraiu dos jazigos da Mina de S. Domingos mais de 20 milhões de toneladas de minério. Durante o período de exploração, a actividade mineira tornou-se o grande catalisador do desenvolvimento local. A Mina foi mesmo a maior exploração mineira portuguesa até à década de 1930, com uma força laboral continuamente superior a um milhar de trabalhadores até perto do seu encerramento. Na Mina de São Domingos construiu-se, por exemplo, uma das primeiras linhas férreas do país, para fazer a ligação entre a Mina e o antigo porto fluvial no Pomarão, que permitia o escoamento do minério através do rio Guadiana. Recebeu também a primeira central eléctrico do Alentejo. Para além disso, sustentada pela actividade mineira, existia uma sociedade local dinâmica e com acesso a vários serviços, como um teatro ou um hospital (SOCIUS – ISEG,2010).

A história moderna da mina começa na segunda metade do século XIX, em pleno auge da revolução industrial britânica, altura em que a procura de metais estava em crescendo na Europa e na América do Norte. O carácter excepcional de alguns dos jazigos minerais, nomeadamente das minas de S. Domingos, Tharsis e Rio Tinto atraíram o investimento estrangeiro e condicionaram o desenvolvimento subsequente destes locais sob a égide das empresas britânicas que os exploraram, por um período de cerca de um século (Silva,2009: 503-504).

A ‘descoberta’ de três das mais importantes minas da parte portuguesa da Faixa Piritosa Ibérica – nomeadamente S. Domingos, Aljustrel e Caveira – foi reclamada em Junho e Julho de 1854 por Nicolas Biava e Juan (Jean?) Malbouisson, capatazes enviados por Ernest Deligny (empresário de minas francês), na altura já ocupado a preparar os campos de lavra nas minas de Tharsis e La Zarza (Deligny, 1863) (Pinheiro da Silva,2010: 503-504).

Em Março de 1855, Biava e Malbouisson transferiram para Deligny os direitos de propriedade das minas registadas em Portugal, através de escritura realizada em Huelva. Em Novembro do mesmo ano, Deligny, o Duque Decazes e Eugene Duclerc, acionistas da Compagnie des Mines de Cuivre d’ Huelva, detentora de Tharsis, registaram em Sevilha uma empresa, com o nome de La Sabina, com o objectivo de explorar as minas portuguesas e particularmente S. Domingos. Assim que obtém a concessão desta mina por parte do estado português, em Maio de 1858, a La Sabina a exploração da mina a uma empresa inglesa, entretanto constituída, denominada Mason & Barry (Pinheiro da Silva,2010: 504).

A partir do momento em que a mina de S. Domingos foi arrendada à empresa Mason & Barry o empreendimento mineiro moderno começou a tomar forma. Os elementos necessários à mineração em grande escala foram implantados no terreno e, em poucos anos, aquilo que hoje reconhecemos como os vestígios mais antigos do empreendimento moderno foram instalados: quartéis para os mineiros (as habitações, construídas pela empresa e arrendadas aos trabalhadores), oficinas e armazéns, equipamentos de tracção, de esgoto e de extracção, vários equipamentos de carácter social (hospital, igreja católica, cemitério protestante, teatro, clube recreativo, mercado, campo de jogos), o porto fluvial do Pomarão, indispensável ao escoamento do minério, a linha do caminho-de-ferro ligando a mina ao Pomarão, além dos vários polos urbanos criados ao longo da linha férrea e dos pontos-chave do empreendimento: a Moitinha, local da trituração do minério, a Achada do Gamo, sítio privilegiado para as operações metalúrgicas, o Telheiro, estação ferroviária, a estação dos Salgueiros, local de abastecimento e manutenção de equipamento ferroviário circulante e, claro, a estação final do trajecto no Pomarão (Guita,2011:122-123).

O empreendimento mineiro moderno interveio directamente sobre um território com a extensão máxima superior a 20 km lineares de Norte a Sul (Cerro do Ouro ao Pomarão), com uma superfície superior a 6.000 hectares, alterou radicalmente 296 destes hectares, mobilizou mais de 20 milhões de toneladas de materiais, produziu cerca 14,7 milhões de toneladas de resíduos acumulados em escombreiras de até 14 metros de altura com uma dezena de materiais diferentes (pirite, gossan, escórias, cinzas, óxidos de ferro, rocha estéril, lamas, entulhos, etc.), cinco núcleos urbanos (de Sul para Norte, Pomarão, Telheiro, Achada do Gamo, Moitinha e Mina de São Domingos), algumas centenas de hectares ocupados com matas de exóticas (Eucaliptus spp. e Pinus spp.), outras tantas ocupadas com reservatórios de água doce e água ácida, tantas outras esterilizadas pelo processamento metalúrgico (Guita,2011:123).

Indiretamente, a influência do empreendimento mineiro moderno fez-se sentir no Algarve, na margem esquerda do Guadiana e em todo o Baixo Guadiana devido a ser este a via de comunicação privilegiada. 1966 foi o último ano em que foi extraído minério da mina de S. Domingos. Em 1968 a empresa Mason & Barry faliu com dívidas a trabalhadores e segurança social. A empresa La Sabina retomou a concessão mineira e reconheceu como seus os bens imóveis advindos da exploração da mina de S. Domingos, accionando o clausulado do contrato de arrendamento que as duas empresas mantiveram desde o século XIX. Em 1984 a concessão mineira de S. Domingos viu findar a validade (Guita,2011:123).

A ausência de uma reabilitação adequada após o encerramento da exploração, bem como o abandono e vandalização subsequente do património remanescente ditaram a decadência progressiva do território, consumada no êxodo populacional, na ruína e no enorme passivo ambiental de toda a antiga área mineira.
A estratégia de desenvolvimento está, neste momento, orientada para a busca de resoluções para os problemas ambientais e para a salvaguarda e valorização/valoração do património mineiro. Neste sentido, a 3 de junho de 2013 o conjunto mineiro da Mina de S. Domingos foi consagrado pela lei portuguesa “Conjunto de Interesse Público”.

Fontes Bibliográficas

Cronologia Mina de S. Domingos
Base de Bibliografia sobre a Mina de S. Domingos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pescadores de Sonhos, por Fernanda Gil




A xávega é uma arte de pesca que teve origem na costa Norte, no século XV, tendo sido no passado muito importante economicamente para um grande número de comunidades piscatórias ao longo da costa portuguesa. Alguns autores referem o uso de redes deste tipo desde 3000 A.C., em várias regiões do Mediterrâneo, A primeira notícia do seu uso em Portugal data de 1405 e é referida para o Algarve. Esta arte tem sido desde cedo, alvo de inúmeras controvérsias e regulamentações. No século XVI, foi proibida por decreto régio em Setúbal, Sines, Odemira, Lagos e Tavira. No entanto, esta situação foi alterada por D. Sebastião em 1567, limitando-se a sua utilização apenas à costa sul de Portugal, durante vários séculos. A xávega com as características actuais terá ressurgido no Algarve, em meados do século XVIII, introduzida por pescadores andaluzes e catalães, e na costa norte foi divulgada por espanhóis e franceses. Mais tarde, o seu uso estendeu-se a toda a costa portuguesa. Actualmente, é praticada em comunidades piscatórias dispersas ao longo da costa, principalmente na costa nordeste.

Nas décadas de 1960 e 1970, verificou-se uma quebra na actividade. Na década de 1980, deu-se uma recuperação generalizada de toda a pesca artesanal, devido em parte, pelo declínio da pesca longínqua bem como pela motorização das embarcações e a utilização de tractores e guinchos para alagem das redes.

A pesca com arte de xávega é praticada por pequenas comunidades piscatórias distribuídas ao longo da costa continental portuguesa. Caracteriza-se por ser uma arte não selectiva e capturar grandes quantidades de pescas acessórias e rejeições. 

No Concelho de Almada, operam 8 embarcações com arte de xávega: 3 nas praias da Costa de Caparica e 5 nas praias da Fonte da Telha. As embarcações utilizadas são construídas em madeira, sendo as mais recentes de fibra, e apresentam comprimentos da ordem dos 7 m. Cada “xávega” opera com uma embarcação e três tractores de apoio, e emprega cerca de 20 pessoas, das quais 5 operam na embarcação e as restantes em terra. Quanto ao esforço de pesca, o tempo de arrasto é, em geral, de uma hora e o número de lances efectuado por cada embarcação por dia varia entre 3 e 4. A pesca com arte de xávega apresenta uma sazonalidade marcada, ocorrendo nos meses de Primavera, Verão e Outono (Março a Novembro), 5 dias por semana, sempre que as condições meteorológicas o permitam.

(Fonte: Mariana Antunes)

Pescadores de Sonhos conta com o trabalho fotográfico de Armando Romão, que retrata a arte xávega na Costa da Caparica.

sábado, 16 de agosto de 2014

"Sejas Feliz", por Fernanda Gil





Nota: O "Sejas Feliz" é uma embarcação tradicional do Rio Tejo, um bote de fragata, construído no Gaio em 1947, e recuperado agora no Estaleiro de Sarilhos Pequenos, de Mestre Jaime Costa, o último estaleiro de construção e reparação de embarcações típicas do Tejo ainda em actividade. No "bota-a-baixo estiveram presentes, como Mestre Lopes gosta de referir, pessoas que gostam do rio. Apadrinhou a embarcação o Prof. Carvalho Rodrigues. O "Sejas Feliz" voltou assim a navegar em 9-8-2014.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Festa do Espírito Santo na Arrábida, por Fernanda Gil





"Divino Espírito Santo
senhor do imprevisível
me toma pois da verdade
só quero o que for incrível"

(Agostinho da Silva)

No Domingo de Pentecostes, 6 de Junho de 2014, realizou-se a XXIV Festa do Espírito Santo na Capela da Memória de Nossa Senhora da Arrábida.

Às celebrações e coroação das crianças, seguiu-se o Bodo.

Estas celebrações tiveram a participação da Associação Agostinho da Silva e Fundação António Quadros, o apoio do Convento da Arrábida - Fundação do Oriente, contando ainda com a participação de representações de diversos grupos culturais e religiosos, num espírito de compreensão, aproximação e união.

«Nas Festas do Império portuguesas, criadas por Dinis e Isabel, o homem de baixa condição, o pobre ou a criança sobre cuja cabeça era e ainda é colocada a Coroa do Imperador do Espírito Santo, coroa fechada e encimada por uma pomba branca, símbolo tradicional do divino Paráclito, é por assim dizer o profeta do Império do Espírito Santo de amanhã, iniciando o ritual e as festas, tal como se realizavam, a correlação das crenças e das ideias, das classes e das formas (...)» ( António Quadros em Portugal, Razão e Mistério, Vol. 2).


sábado, 15 de março de 2014

A Quinta do Esteiro Furado, por Fernanda Gil



A Quinta do Esteiro Furado terá nascido da união entre a Quinta do Martim Afonso e a Quinta do Brechão. Foi propriedade da coroa e gerida por administradores, até à extinção das ordens religiosas em 1834. Depois disso, passou para a posse de diversos proprietários: Rui de Miranda, cavaleiro da casa real de D. Sebastião; Gerarldo Huguens, Flamengo; Manuel de Oliveira de Abreu e Lima, neto do antecessor proprietário e provedor do tabaco de Alfândega da corte; Luís José Pereira; Paulo Nunes; Domingos Garcia; Tomaz Creswel e sua mulher Marta Creswel; Lord Buknall e Carlos Creswel; João Manuel (Chumbeiro). Em 30 de Dezembro de 1972, a Quinta foi comprada por António João da Silva e mantém-se na posse dos herdeiros.

Possuía um palacete; uma capela ou ermida; campos de lavoura; oficinas de manutenção; garagens para carros de bois e carroças, armazéns para produtos hortícolas; estábulos; alambiques; conjunto de casas (antigas casas dos trabalhadores); lagares; um grande depósito de água, que também abastecia os navios ancorados no Tejo; armazéns para guardar ferramentas; um moinho de maré (desaparecido) chamado "Froje" e cinco salinas na dependência directa da Quinta: "Bombaça", "Sarjeda", "Guisada", "Arvéloa" (alvéloa/pássaro) e "Furadinho"; um cais e um esteiro. Com exepção dos campos de lavoura e do esteiro (agora, mais assoreado), tudo o resto desapareceu ou está em ruinas e vandalizado.


A Capela de S. Gerardo foi fundada em 1600 e construida em 1629. Tem uma torre tipo Senhorial, abastardada, com a insígnia da ordem de Santiago. Na fachada da Capela, junto à entrada, ainda existe uma lápide, que na sua frontaria tem a cruz da ordem de Santiago.


O próprio esteiro continha elementos naturais que propiciava grande actividade laboral às gentes da região: apanha de ostras e casca da mesma; apanha de lameginhas; pesca artesanal; apanha de limos e apanha de morrassas. Pelo seu pequeno cais, mesmo junto ao palacete, passou toda a actividade da Quinta, através do escoamento dos produtos, por via marítima, utilizando os barcos do Tejo: botes, varinos, canoas, batéis e outros.
Durante anos a Quinta dos Ingleses deu trabalho a muitas famílias de Sarilhos Pequenos.


Fonte: Marco Lino Fernandes
Música: Rodrigo Leão, "Carpe Diem"



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Viver em Alhos Vedros, por Fernanda Gil



Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

sábado, 24 de agosto de 2013





Realização de Fernanda Gil