De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"As Últimas Cartas… e Um poema"



Agostinho da Silva, parlamento... 1989
Fotografia de Eduardo Martins


Colóquio "Agostinho da Silva: Filosofia e Poesia"
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2 de julho de 2019

Parte do título desta comunicação, refere-se a um livrinho intitulado "As Últimas Cartas do Agostinho...", por mim organizado e editado no Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em outubro de 1995, do qual foram feitos 50 exemplares, e que se constitui por um conjunto de 12 cartas enviadas por mão do Professor Agostinho da Silva a um grupo de amigos com quem estava em contacto mais próximo, ou que se candidataram a destinatários de tão digníssima epístola.

O repto é endereçado pelo Professor em Carta subscrita na Lua Cheia de janeiro, 8/1/1993, onde diz: “Queridos Amigos, O imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores me encarrega de vos comunicar que acaba de tomar posse de tudo quanto há  e me designa como seu agente junto de vós para tudo que se refira a estas folhinhas dactilografadas, que serão sempre mensagem do Convento, assinadas ou não (…) São enviadas a tôdas as pessoas que já declararam por palavras ou feitos que desejam recebê-las ou o declarem daqui por diante.”

A primeira carta do conjunto que constitui a brochura, foi enviada no mês de dezembro de 1992, e a última em setembro de 1993, o que significa dizer que este conjunto de cartas foi expedido, praticamente, ao longo do último ano de vida da sua vida, pois que em meados de outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, a súbita degradação física que o acometeu haveria de o guindar ao seu falecimento que, como sabemos, ocorreu no dia 3 de Abril de 1994, um triste mas revelador Domingo de Páscoa, dia de ressurreição.  

Fulcral é a primeira destas 12 cartas e, logo aí, se diz claramente ao que se vem. Fixemo-nos nas palavras de Agostinho:

“Resumo da ideologia do Povo Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre.
Missão de Portugal: Sacralizar o Universo, tornando Divina a Vida e Deus real.
Meios: Desenvolvimento dos Povos pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da pessoa à adoração da Vida.
Características do que houver no Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser.”

Eis uma síntese perfeita do período da história portuguesa que Agostinha da Silva mais admira, e a que no dizer das suas ideias sempre regressa, resumo da ideologia que, então, orientava o país, com epicentro no reinado de D. Dinis (“o plantador das naus a haver”, no dizer de Fernando Pessoa). Agostinho complementaria assim: “Acho a época de D. Dinis perfeita (…) A Rainha Santa e o rei-poeta. Calcule, o casamento de um poeta e de uma santa, que coisa extraordinária! D. Dinis com os Estudos Gerais. Depois é que transformaram aquilo em universidade, que veio a dar no que deu. Estudos Gerais, estudo geral para toda a gente e geral para todos os estudos, que outra coisa quereríamos para Portugal senão isso? Toda a educação portuguesa devia ser essa. Voltar aos Estudos Gerais e ao D. Dinis.” 

Então, seguindo o nosso autor, haverá que disciplinar o processo de produção e de distribuição dos bens, de forma a chegar-se a uma economia comunitária que se inspire naquela que existiu, para construir uma economia mais humana, pois é esse o exemplo que nos dá a organização económica medieval em Portugal. O que a Europa trouxe para Portugal foi uma economia capitalista, uma economia de luta. Ora, muito melhor é uma economia de convivência e de cooperação comunitária, de autonomia municipalista, com uma distribuição mais equilibrada das riquezas, como era a que caracterizava a economia portuguesa da Idade Média, antes desta importação europeia. Tipo de economia que foi liquidada por essa outra importada.

Discorrendo sobre a organização política que se deveria seguir, em carta de Lua Nova de 22 de Janeiro, 1993, sustenta-se que deve esse tal “imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores”, deveria assumir dois compromissos: primeiro, o de que Portugal, inspirando-se nesses princípios da ideologia medieval portuguesa, se deveria comprometer na educação da Europa Transpirenaica; segundo, de que viesse  a constituir-se uma Confederação, ou coisa parecida, de todas as Nações de Língua Portuguesa, sendo um dia Portugal seu representante na Europa Comunitária e, citando,  “…que fique nítido que o ideal de futuro é o da cultura do Povo Português nos séculos XIII e XIV.”

Neste sentido, relembre-se, a importância que tem, para si, o culto popular do Espírito Santo que ganha uma dimensão fundamental em Portugal neste período, com o ativismo espiritual da Rainha Isabel de Aragão. Culto Popular do Espírito Santo, ou Culto do Divino, que chega a Agostinho da Silva pela influência direta de Jaime Cortesão, e também de António Quadros, embora na forma de um reencontro, pois que, como nos diz, não exclui a hipótese de que ele próprio tenha “andado no tal século XIII envolto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo português sentir-se já num Paraíso a vir…”.

Eis os três pontos essenciais da festa do Espírito Santo:
1. A coroação de um menino como imperador do mundo. A representação na Terra do Espírito Santo é a imaginação da criança. Ou, como diz Agostinho, também pode ser, inspirando-nos no presépio de Francisco de Assis, o menino representando o renascimento de Cristo: “é como se fosse Cristo renascendo.”
2. Através da imaginação da criança se chegará à libertação dos presos e ao fim de todas as prisões, internas e externas. Ou seja, à consagração do grande ideal de liberdade e de libertação espiritual que Agostinho sempre releva.
3. O banquete gratuito, como representação simbólica de uma livre repartição de recursos alimentares entre todos, de modo a que ninguém falte que comer.

No dizer do Professor, “É como se os portugueses tivessem dentro deles sem se expressar, inconscientemente, já essa ideia fundamental de ter que se caminhar para o futuro, mas para um futuro que era ao mesmo tempo do passado, porque, se o espírito santo que viria a reinar numa terceira Idade era coetânea do Pai e do Filho, logo pertencia a um passado de toda a Eternidade. (…) ou seja, uma festa em que os portugueses declaram como vai ser o tal mundo do Espírito Santo.”

E seguindo a carta de Lua Cheia de 8 de Março de 1993, “Pôsto isto assim, e acreditando num universo sacralizável ou de que se descobriria o Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejável inteira liberdade de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática.”

Continuando, em carta no Crescente de Abril, “como os da Festa foram todos expulsos, para a Guiné ou para o Brasil, aí pelos séculos XV e XVI, pensámos que já era tempo de regresso (…) Nada será de uma dia para o outro, mas iremos à nossa tarefa com toda a calma, experimentando, poucos como somos, tornarmo-nos um tanto contagiosos e reaver o tesouro que se perdeu, mas de que ainda há lembrança nos Açores e muita prática no Brasil (…) Porque afinal tudo isto é só uma tentativa de alicerce de império: Império de Servir.”

E por se falar em “Império de Servir”, sobre as ideias quinto-imperiais, relembremos que Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de continuidade entre a cultura medieval portuguesa, e Camões, Vieira e Pessoa, seja no “culto do espírito santo”, na “ilha dos amores” ou “5º império”, embora pesem os diferentes tempos em que existiram e a inevitabilidade de se relacionarem com as ideias do seu respetivo tempo. Afinal, em suma, dizer que Camões, Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem.

Assim, o Império enaltecido na “Ilha dos Amores” dos Lusíadas, preconizado por Vieira e por Pessoa, será um império verdadeiramente “católico”, quer dizer, de acordo com a etimologia da palavra, universal, e caracteriza-se pelo advento da Idade do Espírito Santo, o consolador da esperança humana, tal como profetizara o evangelista S. João e idealizou o abade italiano Joaquim di Fiore.

Este Deus consolador que se refere é aquele que Cristo revela, a quem Agostinho reza na igreja, mas que não é o Deus das igrejas, antes o Deus que as une a todas e paira acima de todas. É um Deus que podemos chegar se atingida a verdade. Um Deus íntegro, total, paradoxal, tudo e nada, imanência e transcendência, que junta tempo e eternidade, sem separação de bem e de mal, de homens e animais, de tudo o que existe. Um Deus que é, antes de mais, inefável, e é silêncio, onde ciência e filosofia, “saudades disfarçadas em raciocínio”, devem ajudar a atingir, mas não podem definir.

Às influências de Jaime Cortesão e de António Quadros, sobretudo do primeiro, seu sogro, com quem conviveu e trabalhou no Brasil, deve juntar-se a ideia de “luso-tropicalismo” do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que nesse país fez escola, base da ideia que expressa na carta de Lua Nova (face virada ao sol), Abril de 93, sobre “o empreendimento em que pensa o Brasil duma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e seus crioulos, filhos, por seu turno, do crioulo que o Português foi do latim, tudo afinal neto do mais vasto Indo-Europeu.” O Brasil torna-se em Agostinho, o contemporâneo parceiro ecuménico por excelência daquele Portugal medieval que proclamava o reino do Paráclito, pois que à comunidade luso-brasileira deverá caber a missão de condução desse projeto ecuménico ao mundo. Como sabemos, Agostinho da Silva é um dos percursores da conceção de um Projeto Lusófono que junte países e comunidades, ideia que acabou por se materializar em 1996, com a criação da “CPLP” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

E continuando ainda com o que nesta carta se diz: “O que vai haver, sem velas, excepto as desportivas, mas por aeroportos e por Faxes, é a integração dum pensamento como o de Lao-tsu, se dele é, (…) que os há em todas as religiões e filosofias (…) reinado da criança e sacralização dos animais e de tudo o resto. O que temos de ter connosco é um sentido de ordem não opressiva que impeça o caos e ondas de imaginação a saudar o que ainda não veio, com uma China cada vez mais para o concreto, um Brasil todo virado ao sonho, e, no meio, uma África que nos ensine a todos, já que índio enfraqueceu por tanto século de luta.” E aqui, como se refere Lao-tsu também se poderiam referir ideais budistas, particularmente, do budismo zen, espiritualidade que Agostinho também enalteceu. Como sabemos o próprio Agostinho visitou o Japão em 1963 e aí conviveu entre faculdades, templos e monges budistas, e disso nos deixou testemunho.

E para terminar, na última carta “de Setembro de Lua Cheia, de 93”, e sendo que o forte “avc” de 17 de outubro já se avizinhava, Agostinho deixa-nos três princípios pessoais orientadores de vida: “o de se ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar (…) Para tudo o que fordes e fizeres rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar.”

 ...e como prometido no título da comunicação cá fica Um poema

Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte.

Agostinho da Silva, Uns poemas de Agostinho, 1989

Luís Santos
2 de julho/2019


 Referências Bibliográficas:

SANTOS, Luís Carlos dos (org.) (1995) As Últimas Cartas do Agostinho… Edição do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros.

Idem (2016) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia (td). Vila Nova de Gaia: Euedito.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Para que o racismo fosse algo mais que uma teoria teríamos que encontra-lo na natureza, o que não acontece.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (358)


Battle of Chesma, Autor Ivan Konstantinovich Aivazovskii
Tinta de Óleo sobre lona

Ivan Konstantinovich Aivazovskii nasceu a 29 de Julho de 1817 e morreu em Teodósia, a 5 de Maio de 1900. Foi um pintor russo de ascendência arménia, do movimento do romantismo, conhecido por suas paisagens marítimas. Morreu deixando um repertório de mais de seis mil obras, entre elas, a mais famosa, Nona Onda. Sua família era de origem arménia, residente do porto de Teodósia, na Crimeia, na margem do Mar Negro.
Um dos mais proeminentes artistas russos de sua época, Ivan era também extremamente popular fora do Império Russo. Expôs em diversas galerias pela Europa e Estados Unidos em seus mais de 60 anos de carreira. Foi um dos mais prolíficos pintores e apesar de grande parte de seus quadros serem de paisagens marítimas, ele também pintou cenas de batalhas, retratos de personalidades e paisagens da Arménia. Seus trabalhos hoje estão espalhados pela Europa, em museus na Rússia, Arménia, Ucrânia e em colecções particulares.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

terça-feira, 23 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E não é que Santana Lopes foi eleito presidente do partido pelo conselho nacional? 


Temo que nas últimas vinte e quatro horas seja o segundo desaire para os portugueses, uma vez que ontem foram os jogadores gregos que fizeram a festa. 

Será que o Presidente está de mãos atadas? 



A ingenuidade e a ignorância de certas pessoas é confrangedora. 


Presente perante o Juiz, para ouvir as acusações pelas quais será julgado em Tribunal, Saddam Hussein assumiu-se como o Presidente do Iraque, não reconheceu a autoridade de quem o prendeu e pretende julgar e, numa manobra que faz parte da vulgata dos revolucionários desde ainda antes de Lenine, tentou inverter os papéis no processo e, com base no não reconhecimento do mesmo, fazer ele de acusador sobre aqueles que definiu como invasores e usurpadores e respectivos apoiantes. Mas foi o suficiente para alguns jornalistas virem logo falar na grande forma do homem e nos media passarem as parangonas da sua vitória neste primeiro round. 

Será que estas pessoas não entendem que aquela gente é inimiga de morte do nosso modo de vida e não têm o mínimo interesse e respeito pela paz mundial ou o bem estar das populações? 



Ai este anti-americanismo primário é factor de tanta cegueira. 



Hoje, devido à sessão de fisioterapia da Margarida vimo-nos na contingência de, a pedido delas, encomendarmos pizzas para o jantar, cujas caixas de cartão em que nos são entregues, a bem do marketing, têm qualquer coisa escrita como, para partilhar com a família e os amigos. 
No meio da conversa e já depois de a mais velha ter insistido com a irmã para que esta lhe oferecesse um pedaço do seu menu infantil, o pardalito saiu sorrateiramente da mesa para voltar em acto contínuo com uma esferográfica. 
“-Não vês o que diz aqui?” –Perguntou depois de concluída uma palavra que intercalara naquela frase publicitária. 
Tendo intercalado a partícula no sítio certo, leu de imediato: 
“-Para não partilhar com a família e amigos” 
A isto se chama a aplicação dos conhecimentos escolares. 

Claro que falámos de imediato na partilha. 



E damos graças a Deus pela nossa felicidade. 


 Alhos Vedros 
  05/07/2004

segunda-feira, 22 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (357)


Nighthawks, Hopper, 1942
Óleo sobre Tela, 76,2 x 144 cm

Edward Hopper nasceu em Nova Iorque, a  22 de Julho de 1882 e faleceu em Nova Iorque, a 15 de Maio de 1967.
Hopper estudou design gráfico, ilustração e pintura na cidade de Nova Iorque. Um dos seus professores, o artista Robert Henri, encorajava os seus estudantes a usar as suas artes para “fazer um movimento no mundo”.
Ao completar a sua educação formal, Hopper fez três viagens pela Europa para estudar a cena emergente de arte europeia, mas diferente de muitos dos seus contemporâneos que imitavam as experiências abstratas do cubismo, o idealismo dos pintores realistas foram os que mais Hopper identificou-se, logo projetou os reflexos dessa influência nas suas obras.
Enquanto trabalhava, por vários anos, como artista comercial, Hopper continuou pintando.
Em 1925 produziu ‘Casa ao lado da Ferrovia”, um trabalho clássico que marcou sua maturidade artística.
A obra é a primeira de uma série da cena totalmente urbana e rural de linhas finas e formas largas, feita com uma iluminação incomum para capturar a solidão que marca sua obra.
Ele trouxe o seu tema das características comuns da vida norte americana – estações de gasolina, hotéis, ferrovia, ou uma rua vazia.
Realista imaginativo, esse artista retratou com subjetividade a solidão urbana e a estagnação do homem causando ao observador um impacto psicológico.
A obra de Hopper sofreu forte influência dos estudos psicológicos de Freud e da teoria intuicionista de Bergson, que buscavam uma compreensão subjetiva do homem e de seus problemas.
O tema das pinturas de Hopper são as paisagens urbanas, porém, desertas, melancólicas e iluminadas por uma luz estranha.
“Os edifícios, geralmente enormes e vazios, assumem um aspecto inquietante e a cena parece ser dominada por um silêncio perturbador”.

in História das Artes

Selecção de António Tapadinhas

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Etnografar a Arte de Rua (XVII)


GRAFFITAR A LITERATURA

Graffiti na Avenida do Ultramar, velho Hospital de Cascais

                                                                                                                                              
Escombros do Hospital

Fotos de Luís Souta

«Nada que possa ser feito devagar deve ser feito à pressa.»
(Robert Louis Stevenson)

Este soberbo graffiti, o segundo de maiores dimensões do Muraliza 2015, decora uma das fachadas laterais do antigo Hospital (um espaço público ainda desactivado). O seu autor, o argentino Bosoletti, ofertou-nos a figura de uma mulher serena, a extravasar saúde e beleza; as plantas de cores quentes dissimulam a sua tentadora nudez. E, de imediato, veio-me à memória uma passagem do livro Stevenson sob as Palmeiras do também argentino (hoje cidadão canadiano) Alberto Manguel:
«Em Samoa a nudez das mulheres, que tanto incomodava os missionários, nunca era feia. À noite, quando a gente da aldeia descia à praia para se banhar e ficava a chapinhar nas ondas com as crianças, os cabelos negros, fartos e emaranhados das mulheres abriam-se como anémonas na água, e os hibiscos que elas usavam atrás das orelhas flutuavam em torno dos seus corpos, como ilhas ígneas. Stevenson adorava ficar a vê-las do molhe, contemplando-lhes a pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica.» (2003:14)

Nesta curta obra (71 p., Edições ASA), Manguel ficciona a estadia do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) em Samoa (onde viria a falecer). Apesar de saúde frágil desde a infância e que a tuberculose veio acentuar, Stevenson gostava «de ir» pelo mundo (França, EUA, Pacífico Sul). E foi entre os samoanos, tendo por companhia a mãe, a sua mulher americana e os seus enteados, que viveu um tempo calmo, aprazível, pleno de histórias. 
«– Os nativos gostam de histórias. Eles são a sua própria história, entende? Eles escutam as minhas às vezes. Chamam-me ‘Tusitala’, o contador de histórias. (…) Nesta parte do mundo, as histórias que se contam incorporam-se na realidade.» (p. 28)

O ensaísta e escritor Alberto Manguel (1948), leitor compulsivo (quando adolescente, leu em voz alta para Jorge Luís Borges, e, em 1999, publicou Uma História da Leitura, Editorial Presença), viajante incansável (residiu em Israel, Toronto, França, Taiti), esteve em Portugal por diversas vezes. Dessas ocasiões, ficaram duas interessantíssimas entrevistas ao jornal Público-Ípsilon (02/07/10 e 20/12/13). Aí, responde à questão de ainda fazer sentido ler os clássicos na escola:
«Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores.» 

Por isso, o célebre livro de aventuras Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, tem sido uma das obras recomendadas, e bem, para «leitura autónoma» no 7º ano. Mas será que a leram?

Luís Souta
Post Scriptum: Entre estas duas fotos medeiam três anos e meio e elas ilustram bem o sentido transitório da Street Art enquanto «arte do efémero». O velho Hospital de Cascais está totalmente demolido (ainda chegou a ser anunciado que uma universidade privada iria reconfigurá-lo para o ensino, num curso de medicina). E neste desenfreado deita abaixo, nem o mural do argentino Bosoletti foi poupado!

Este é um espaço apetecível pela especulação imobiliária devido à sua centralidade e enorme área (ocupa quase uma quarteirão).

A insensibilidade dos ‘empreendedores’ da construção e a apatia da sociedade civil explicam esta incapacidade em consolidar este graffiti (do Muraliza 2015) como ‘património’ local. Ficámos todos a perder!

terça-feira, 16 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Como é que é possível alguém pensar em Santana Lopes para primeiro-ministro? 


O homem não tem rabos-de-palha, ele é um rabo-de-palha em pessoa. 
Como é que um indivíduo que depende dos lugares que lhe arranjaram para ganhar a vida pode falar de frente para os rostos que dão voz aos grupos de interesses e de pressão, para não chamar aqui à conversa outros poderes bem mais sinistros? 
Um país organizado – o que infelizmente não é o nosso caso – e que preze os valores do trabalho e da responsabilidade não se pode dar ao luxo de ter em tão importante e influente cargo uma pessoa em tal condição. 

Bem, sinceramente espero que haja ainda uma pinga de bom senso em quem de direito e a solução para o problema criado pela demissão de Durão Barroso seja encontrada por via de eleições antecipadas, embora tenha por certa a possibilidade de o líder que caiu do céu poder vir a ganhá-las, quiçá, com a maioria absoluta. 

É que em boa verdade este triste espectáculo só é possível num país de opereta ou, em alternativa, numa qualquer república das bananas do terceiro mundo e, por isso mesmo, ele é um exemplo eloquente de como a partidocracia está dominada por esconsos tentáculos que disso se servem para tirarem vantagens e imporem os seus ditames aos que ocupam os lugares de decisão. 


Só uma revolução nos poderá salvar das garras das tiranias mafiosas. 

Faço votos para que não traga o sangue pela força do movimento. 


E o meu dilema reside apenas em decidir em quem votar. 
Em branco? 
É uma possibilidade. 



Tarde de praia; leituras e descanso entre brincadeiras e um passeio de gaivota com a Matilde. 


A Beatriz acompanhou a família. 


Ainda que a água estivesse gelada, aquelas alminhas só foram a terra para abastecerem as barriguinhas e quando soou a hora do regresso. 



Foi a enterrar o corpo de Sophia de Melo Breyner que faleceu aos setenta e três anos de idade. 


Devo confessar que pouco ou nada conheço da sua obra. 
É tida como um dos vultos da literatura portuguesa, nomeadamente da poesia, do último século. 


E já que estamos no obituário, com a mesmíssima idade, também Marlon Brando se despediu do filme que interpretava na vida real. 


O século vinte lá vai deixando cair os seus mitos segundo a cadência das estações. 



E a sonda Cassiny Huygens prepara-se para cumprir os principais objectivos da sua missão, enviar para a Terra dados sobre os anéis de Saturno e alguns dos seus satélites naturais, com particular atenção para Titã, onde os cientistas esperam estudar uma atmosfera que consideram similar à que terá existido nos primórdios do nosso planeta. 


Estamos tão próximo da extinção quanto de encontrarmos o caminho para a eternidade. 



A Margarida deixou as muletas este fim-de-semana, mas ainda coxeia. 



E agora vou ver a final do Europeu. 

Palpita-me que os portugueses vão repetir a postura e os erros do primeiro jogo. 

Há euforia a mais; até parece que só falta saber por quantos vamos ganhar. Não gosto disso. Os gregos têm boa equipa, já mostraram que sabem jogar à bola, isto apesar do que todos dizem sobre a espectacularidade do futebol que praticam e certamente que não irão estar ali para servirem de bombos da festa. 

Seja como for, espero que seja um bom jogo e que a taça fique em Lisboa. 

Depois de chegarem onde nunca antes uma selecção nacional tinha chegado, seria bonito de ver. 


Alhos Vedros 
  04/07/2004

segunda-feira, 15 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (356)


Tempestade no Mar da Galileia, 
Rembrandt, 1633, Tinta a óleo

"Tempestade no mar da Galileia" é uma pintura de 1633 executada pelo pintor holandês  Rembrandt van Rijn. Estava exposta no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, mas foi roubada em 1990 e continua desaparecida.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn foi um pintor e gravador holandês, que nasceu em Leida, a 15 de Julho de 1606 e faleceu em Amsterdam, a 4 de Outubro de 1669. É geralmente considerado um dos maiores nomes da história da arte europeia e o mais importante da história holandesa. 
Para alguns historiadores de Arte é o maior pintor de todos os tempos. As suas obras foram criadas num período denominado "Era de Ouro dos Países Baixos", no qual a ciência, o comércio e a cultura holandesa — particularmente a pintura — atingiram seu auge.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 12 de julho de 2019



Carta ao Velho que Serei


Sem que existas ainda, penso demasiadas vezes em ti. Ao contrário de muitos outros animais, o ser humano aponta a objectivos, aponta a um futuro. Mesmo que irreal, mesmo que ilusório, há sempre imagens do inexistente, mistela de vontades e medos. Poder-me-ia focar no facto de ser uma corrida atrás de um ponto a que nunca se chega, mas não é isso que importa agora. O que importa agora é a dificuldade de me manter no presente, no momento; a incapacidade de domar a minha mente, vendo no velho que passa numa cadeira de rodas, demasiado cansado para lutar com o que quer que seja, esperando apenas que se apague a sua consciência para sempre, a criança que foi. Na criança que brinca e chora depois de esfolar o joelho, vejo o velho cansado que será, tendo como única vontade contar a alguém a criança que foi. Mas ninguém o quererá ouvir. Vejo o sentido e a falta de sentido de tudo, e não me posso queixar de imaginação ou raciocínio. Mas, como queremos todos o que não temos, eu queria outra coisa. Ser só, levemente. É claro que consigo sentir, mas muito brevemente. Sorrio e, logo a seguir, conheço o meu sorriso. Choro e, quase de imediato, conheço o meu choro. Sei-os, deturpo-os. A consciência rompe a corrente e afasta-me do momento, tanto mais quanto maior se tornar a vontade de nele voltar a mergulhar.
Pesa-me tanto ser eu. Pesa-me tanto não poder ser outra coisa que não eu, não poder ver, ouvir, tactear, sentir o mundo de alguma forma que esteja fora deste corpo que me faz. Eu sou o meu corpo, nasci com o meu corpo e com o meu corpo morrerei, vontade ida de todas as células que em conjunto formam sistemas que me mantêm. Formam-me os ossos, a pele, o coração e restantes vísceras. Formam-me o cérebro. Formam-me as ideias e o peso da consciência de estar vivo e de ser o que sou. E o que sou eu, parado num tempo que não pára? O que sou eu, que envelheço nos interstícios invisíveis do tempo que dão tamanho às árvores aparentemente paradas, que modificam espécies e planetas, que fazem crescer cancros e flores?
Observador silencioso como o tempo, olho pelos meus olhos, não tendo outros. Se se fecharem, escuridão. Não tenho nada para além do meu corpo, nem nada para além do que sinto do que o mundo é. Pensar é outra forma de sentir. É sentir por degraus lentos dormindo em cada um deles. Quem me dera que percebessem o que quero dizer. Quem me dera que as minhas palavras tivessem um destino imortal que não existe, pois mesmo a Terra acabará, e com ela todos os papéis, computadores e mentes. E todos o sabemos e somos viciados em não o saber, contando as horas que temos para deixar uma marca na areia até à próxima onda.
Eu sei o que é sentar-me na montanha e olhar tudo de cima. Eu sei o que é ver cada homem seguir a sua vontade, qual célula de um corpo maior. Só não sei como sorrir sem o peso de o saber, nem acordar sem vontade de chorar o regresso da consciência.
E, pior do que não suportar a vida de que não se pode fugir, pior do que não suportar a ideia da morte que se aproxima, é não querer nem vida nem morte. Pior é ninguém saber, e ninguém sabe.»

Rafael Nascimento

Excerto escrito em 2015, em Madrid.
Segue @laugoddog nas redes sociais

terça-feira, 9 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Ontem foi a reunião relativa à avaliação final do ano para a Matilde. 


Bem, a avaliação da Professora é francamente positiva. 

Senhora dos seus cinquenta anos de idade e com perto de três dezenas de trabalho, tem o traquejo necessário para saber conquistar e cativar os alunos, o que evita os dissabores que os mais mal comportados poderiam causar à classe, com os correspondentes atrasos na explicação e aprendizagem. 
Não é pois de estranhar que não hajam razões de queixa a esse nível e que a Mestra tenha dito que a turma não teve grandes problemas e trabalhou como deve ser, conseguindo resultados interessantes e mais ou menos equitativos quanto às competências adquiridas. 
É que para além da experiência, a Professora domina a necessária aparelhagem pedagógica para fazer os meninos entenderem o conteúdo das lições e aprenderem o que é devido. 

E a verdade é que naturalmente uns melhor que outros, todos são já capazes de ler e escrever razoavelmente bem e fazer pequenas contas de somar e subtrair. 

Também a minha querida filha mais nova teve assim sorte com aquela que lhe vai ensinar as letras até à quarta classe e tudo indica que, à semelhança do que já aconteceu com a Margarida, uma vez mais poderemos estar tranquilos. 


Escusado será dizer que o pardalito passou, aliás, passaram todos os alunos. 

Mas a informação final deixou os pais cheios de orgulho. 


Com a excepção dos parâmetros relativos ao domínio dos números e das operações com os mesmos, nomeadamente o cálculo mental em que teve muito bom, a Matoldas teve a classificação de bom nos restantes e revela claramente um comportamento e atitudes adequadas perante o trabalho. 

A aluna atingiu os objectivos propostos embora tenha recebido a indicação que deverá treinar durante as férias, para apurar a letra. 


E agora, ainda que tenha trabalhos para fazer, é brincar até Setembro. 

Vivam as Férias! 



Os pais é que tiveram uma folga, esta tarde, pois as irmãs foram para a festa de anos do Rui, um colega de turma da Margarida. 


Aproveitámos para ver um filme lyncheniano, “O Despertar da Mente” que, apesar de estranho, não deixou de ser uma surpresa agradável. 

Depois fizemos o lanche ajantarado na esplanada da Júlia e quando as fui buscar à hora aprazada, fiquei a saber que ainda ficariam para jantar e cantar os parabéns. 



A Feira do Livro tem vindo a empobrecer nestas últimas edições. 
Se no ano passado ainda me aviei, neste que é o da trigésima terceira realização consecutiva – é obra – não fui além da aquisição de dois livros. 


E no entanto este é, pela sua natureza, o mais importante acontecimento cultural de Alhos Vedros e até do concelho. 

Mas há qualquer coisa que falta para que o evento se faça uma grande semana de cultura capaz de atrair público das vilas e freguesias vizinhas, com isso correndo o risco de vir a definhar. 

É pena, pois foi aquela uma verdadeira conquista da sociedade civil, num tempo em que o livro era uma arma subversiva na luta contra a ignorância em que o poder de então gostava de ver o povo. Mas com a experiência de tantos anos, também já aprendemos que podem haver anos menos bons, seguindo-se outros melhores, por vezes períodos muito melhores. Esse é alimento do desejo para que assim volte a ser. 



As noites refrescaram, ainda assim é tão agradável estar de pernas esticadas ao sabor da brisa. 


 Alhos Vedros 
  03/07/2004

segunda-feira, 8 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (355)


The Wallachian Post-Carrier, Autor Christian Adolf Schreyer, 
Antes de 1891, Óleo sobre Tela, 121,92 × 200,66 cm

Christian Adolf Schreyer nasceu a 9 de Julho de 1828, em Frankfurt, Alemanha, e morreu em Kronberg im Taunus, um município do distrito Hochtaunuskreis, Hesse, Alemanha.

Depois de estudar em escolas de arte na Alemanha e em Paris, Christian Adolf Schreyer fez uma carreira ao retratar as terras exóticas que encontrou ao viajar pela Europa Oriental e pelo norte da África.

Wallachia, referido no título, é uma região da Europa ao sul da Transilvânia parte da Romênia, que foi na Idade Média um principado independente. Um de seus governantes, Vlad III Drăculea, emprestou seu sobrenome a Dracula, o vampiro fictício de Bram Stoker.

O verdadeiro assunto desta pintura é o poder dramático dos seis cavalos que puxam a carroça do carteiro. Alguns puxam para frente, outros para trás, criando uma tensão que é enfatizada pela pincelada forte com tinta espessa impasto.

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 7 de julho de 2019

João Gilberto (1931-2019)


por José Batista

Meu "velho amigo" que nunca conheci em direto.
Vou-te dedicar poucas palavras, uma espécie de "samba de uma nota Só".
Dizem que tinhas mau feitio João Gilberto. Não sei, o mau feitio é sempre relativo. Há tempo partiu um amigo, um "Dr. Bean aqui da minha terra", que era gentilissimo comigo e (quase) toda a gente o achava uma "peste"
Fostes pai, além de dos filhos, da Bossa Nova. Uma das revoluções musicais mais recentes.
O que muita gente desconhece é que por via disso tornaste-te pai do principal veículo moderno de divulgação da língua portuguesa no mundo.
Números incontornáveis. 
No princípio era o verbo... 
No princípio da Bossa Nova era o "Chega de Saudade". 
O meu modesto tributo, para memória futura!

https://www.youtube.com/watch?v=H5-1GwBwZ6U&feature=youtu.be&fbclid=IwAR0U-8EQdodwsdFx76bkcJ4Z4z95ph4TVcApXcn5wWRoMO57roklxAaVAB8


Na foto José Batista, Luís Santos e Emídio Caboz

quarta-feira, 3 de julho de 2019

EG 113



ESTUDO GERAL
Jun/jul       2019           Nº113

Sêde homens, sêde santos. Fortes e cândidos. Por uma unidade amorosa que permita o trnscendental salto.

Sumário
hip hop

2.                 Infogravura – Kity Amaral
gravura

3.                 Homem Novo – Ana Pereira
pintura

romance

5.                 Cuidando da nossa história – Luís Santos
património local

6.                 O Diário da Matilde – Luís F. de A. Gomes
Diarística

Real...irreal...surreal...


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

terça-feira, 2 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Enquanto o país ufana com os golos e as tácticas futebolísticas, a vergonha nacional de todos os Verões lá regressou em força. 

Arde a serra algarvia em torno de Tavira. 


Mais uma vez a prevenção continuou nas palavras e, quanto muito, nas reuniões e grupos de trabalho.

No fim, a floresta continua a arder. 



Saddam Hussein foi entregue às autoridades iraquianas para que venha a ser julgado pela justiça do país. 
Dentro de dias será levado a Tribunal, entre outros, por crimes de guerra e contra a Humanidade. 


Duvido que haja a possibilidade de uma justiça cega e capaz da distância que permite a isenção. 
No entanto, seria bom que houvesse um processo justo e não só para o tirano como também para as altas patentes que o coadjuvaram e contribuíram para os desideratos do regime, mormente os mais negros e todos os executantes das políticas e das medidas decididas. Poderia muito bem ser o princípio da institucionalização de um estado de direito no Iraque o que seria o primeiro passo na consolidação de uma sociedade aberta. 

Os detractores da ideia democrática contestam a possibilidade de imposição de um regime democrático a partir do poderio militar das forças de ocupação. 
Nem vale a pena discutir a pertinência da observação quando confrontada com as similitudes de uma Alemanha depois da derrota do nazismo, ou de um Japão após a rendição e a queda dos governos militares que deram corpo à política de expansionismo imperial. Podemos até dar razão àquele ponto de vista que, para o momento que vivemos, não coloca qualquer dificuldade ao que se pretende venha a ser a pacificação e recuperação daquele território. 

A verdade é que não há democracia sem estado de direito e para que este seja organizado não é necessária a existência prévia de uma tal forma de estruturação do poder político. 
O hábito do respeito pela lei é uma atitude consciente das populações e nada há que nos permite concluir que aquele é incompatível com os iraquianos e uma justiça independente e isenta está ao alcance de um projecto nacional minimamente esclarecido. 

Objectivo alcançável? 
Sinceramente não sei, mas é imprescindível para um Iraque pacífico e interessado na paz que é o quanto baste para que a população prospere e a sociedade se desenvolva. 
Com isso será mais fácil encontrar ali um aliado de peso para a causa do entendimento e coexistência pacífica entre israelitas e palestinianos, sem o que será muito difícil, para não dizer impossível, cortar a cabeça da hidra do terrorismo da Al-Qaeda e afins. 

Ora enquanto este último combate não for ganho, permaneceremos no decurso da terceira guerra mundial que até pode vir a revelar-se fatal para a nossa espécie. 

O Ocidente está adormecido perante o perigo do apocalipse. 



Mãe e filhas saíram para irem à feira do livro. 

O pai, depois de saborear a frescura do escurecer do céu, aproveitou para registar estas notas.



Sabe tão bem o descanso. 


 Alhos Vedros 
  01/072004

segunda-feira, 1 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (354)



La Bataille du Pont d'Arcole, Émile Jean-Horace Vernet, 1826
Óleo sobre Tela, 194 x 260 cm

Émile Jean-Horace Vernet nasceu em Paris, a 30 de Junho de 1789 e morreu em Paris, a 17 de Janeiro de 1863.
Foi um pintor que ficou célebre por seus panoramas de batalhas, retratos e assuntos orientalistas. Filho do também pintor Carle Vernet, famoso pelas suas paisagens, Jean-Horace Vernet especializou-se no louvor da era napoleónica e posteriormente também esteve ao serviço de Luís Filipe e de Napoleão III.


Selecção de António Tapadinhas