"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (361)


Le Pont de l´Europe, Gustave Caillebotte, 1876
Óleo sobre Lona, 125 x 1,81 cm

Gustave Caillebotte (Paris, 19 de agosto de 1848 - Gennevilliers, 21 de fevereiro de 1894) foi um pintor francês, membro e patrono de um grupo de artistas que levou o impressionismo aos museus fraceses e ao resto do mundo. Ao contrário da maioria dos seus colegas, era rico o que lhe permitiu ajudar à fundação duma sociedade para organizar exposições independentes.
A sua pintura foi, durante algum tempo, considerada inferior à dos seus colegas mas a sua fortuna permitiu-lhe comprar obras dos seus amigos para que todos pudessem pintar sem constrangimentos, apesar das críticas desfavoráveis.
As suas obras mestras são as vistas de Paris que constituem impressivos documentos sobre a sociedade francesa do século XIX.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 17 de agosto de 2019

Uma Biblioteca em Construção (1)


10 sugestões de Paulo Borges:












terça-feira, 13 de agosto de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O SOTÃO DOS BRINQUEDOS

Começaram a chegar novos dados sobre os anéis de Saturno. 
Em breve saberemos mais sobre este gigante do sistema solar. 



A Margarida e a Matilde e a amiga Beatriz é que estão nas sete quintas, sem outra preocupação que não a brincadeira. 

No entanto dão excelentes provas de uma boa aprendizagem escolar, uma vez que no seu mundo de fantasia se revelam capazes de planear e pôr em prática actividades que implicam desenvoltura criativa e conhecimentos que, tendo sido obtidos através das aquisições da escolaridade, têm fontes exteriores a esse universo. 
É o caso da peça de teatro que esta noite representaram para nós e a Amélia e a avó Rosa, no sótão bazar da Beatriz. Devo dizer que a Lara, companheira de classe da anfitriã e também habitual na paródia das tardes, completou o elenco. 

Imaginada e totalmente realizada pela Beatriz e a Margarida que explicaram às amigas o que deveriam fazer e dizer nos papéis respectivos, incorporou cenários movíveis e mudanças cenográficas durante os actos e que as intérpretes operaram com toda a rapidez e eficiência. 
“À Descoberta do Sótão dos Brinquedos”, de seu título, consistiu numa aventura imaginária de três irmãs que tendo ouvido falar num sítio cheio de brinquedos, inventaram uma história em que elas, com outros nomes, está claro, partiam à procura do sótão dos brinquedos e assim, do quarto das meninas se passou à floresta e à montanha onde pensavam estar o tesouro e por fim ao local almejado de onde regressaram ao ponto de partida em que terminou a peça com a hora de ir para a caminha. 
Mas a Margarida e a Beatriz foram ao pormenor de fazerem árvores e nuvens em cartolina, com as gotas de chuva e flores no chão. Escusado será dizer que choveu no decurso da busca. Inclusivamente, com adesivo dos materiais da obra em curso, colaram aquele cenário à parede, tirando-o quando as irmãs finalmente chegaram ao sótão dos brinquedos. 


E é claro que o sentido comercial das duas amiguinhas não poderia faltar. 

Pagámos um euro por cada bilhete que elas fizeram, sem esquecerem o toque profissional do “compre nas bilheteiras” ao lado do preço. 
No fim, tivemos direito a bebidas que podíamos escolher entre a água, um refrigerante de maçã e sumo de laranja que elas fizeram sob o olhar da Dona Rosário. 

As palmas foram genuínas e o orgulho mais que justificado. 


Fiquei encantado ao ver a concentração e a seriedade com que a Lara, a Beatriz e a Matilde representaram e a clareza e a entoação e ritmo com que a Margarida fez a narrativa que estruturou e conduziu a encenação do enredo. 


Foi um serão em cheio e todos ficámos radiantes. 


Agora que a pardalada dorme, o pai dá largas à leveza da alma. 


 Alhos Vedros 
  08/07/2004

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (360)


APPLE TREE IN BLOOM, Alexander M. Gerasimov, 1953
Óleo sobre Tela, 162 X 212 cm

Alexander Mikhailovich Gerasimov nasceu a 12 de Agosto de 1881 e morreu a  23 de Julho de 1963, em Moscovo. 
Foi um pintor russo que se tornou membro da Associação de Artistas da Rússia Revolucionária, a partir de 1925
Suas pinturas a partir deste período são os principais episódios da Revolução de Outubro, sendo os mais conhecidos: Lenin na tribuna (de 1930) e Depois da chuva (1935).
Entre 1947 e 1957, Gerasimov é o chefe da União dos Artistas da URSS e da Academia de Belas Artes da União Soviética.
Tornou-se um dos principais defensores do realismo socialista na arte e será especialmente conhecido por seus retratos de Josef Stalin (de quem ele foi o pintor favorito) e outros líderes soviéticos.
Ganhou quatro Prêmio Stalin, entre eles o Prêmio Stalin de primeiro grau em 1941 por Stalin e Voroshilov no Kremlin (1938), em 1943 por o Hino de Outubro (1942) e, em 1946, por Retrato de um grupo de artistas dos mais velhos (1944).

in Wikipedia
Selecção de António Tapadinhas

sábado, 10 de agosto de 2019

Muito Além...


Muito além do céu
Lá...
Onde a não forma
É pura Luz
Onde a boca que traz palavra
Fica vazia de essência
Onde só o presente vive
Encontrei você

Kity Amaral





sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Aldina Duarte, Romance(s)

por Luís Souta




Aldina Duarte, Romances(s)
Um amor à portuguesa, com certeza


A propósito da peça Malfadadas – esteve no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, entre 20 e 28 de Julho, uma encenação de Miguel Loureiro, música de Filipe Raposo e representação de «figuras da literatura e da arte» 1 a cargo de Isabel Abreu e Aldina Duarte – decidi revisitar o duplo CD desta última, Romance(s), editado em 2015.
Formato original
Neste trabalho discográfico Aldina Duarte canta 14 fados/canções com poemas da escritora Maria Rosário Pedreira (1959-) 2letrista também popularizada por Ana Moura, António Zambujo, Ricardo Ribeiro, Salvador Sobral.
Trata-se de um curioso CD, construído de modo muito original: marcas, sem dúvida, de uma artista com um percurso pessoal (desde o tempo em que foi monitora do Centro de Paralisia Infantil) e artístico relevantes. O trabalho consistente de Aldina Duarte (1967-), pautado pelo rigor, solidez e criatividade, tem-se ancorado em nomes de referência da literatura e, por isso, de qualidade garantida.
Nos dois CD são interpretados os mesmos poemas, seguindo o mesmo alinhamento, só a roupagem musical mudou: no primeiro, o fado tradicional (acompanhamento à guitarra e à viola), no segundo, Pedro Gonçalves (dos Dead Combo), produtor musical do disco, baniu a guitarra e a viola, e criou uma ‘banda sonora’ «cenário pop de largo espectro» onde introduziu percussão e contrabaixo, e desacelerou o ritmo das canções; aí, Aldina reinterpreta os temas originais, afasta-se do registo de fado, e canta num quase sussurro; nesse CD2 conta com a participação de Ana Moura, Filipa Cardoso e Camané.
Música conceptual
Enquadro o presente CD na linha da chamada ‘música conceptual’: não é um conjunto de fados independentes uns dos outros mas antes uma narrativa, com princípio, meio e fim, em que se conta a história «de um amor que não vingou» ao longo dos diversos temas musicais que, assim, se interligam num todo com sentido. Recordo-me de trabalhos anteriores – Filarmónica Fraude (1969) Epopeia, Fausto Bordalo Dias Por este rio acima (1982), Em Busca das Montanhas Azuis (2011), ou, em língua inglesa, The Who (1969) Tommy, Jethro Tull (1973) Passion Play, Rick Wakeman (1974) Journey to the centre of the earth. E a lista podia continuar. Este tipo de música é o contraponto das canções Pop ou dos videoclips da MTV, da VH1 ou similares, que se esgotam nos ‘recomendáveis’ três minutos. Parece que os jovens, os grandes consumidores deste género de música, não têm paciência (ou será incapacidade de atenção ?) para se focarem em algo que vá além dessa curta duração. A música conceptual estaria, pois, ao nível do livro: exige tempo e concentração. Talvez por isso, esses sejam artefactos pouco consumidos por uma juventude formatada pelo modelo conciso e fatiado da publicidade e do videoclip.
Amor à portuguesa
Neste ‘romance escrito em verso’, de Maria Rosário Pedreira, tudo anda à volta de um triângulo amoroso: duas amigas «graças», «Loira uma, outra morena, /Uma acendia desejos, /Na outra havia mistério», e um homem que «não presta» pois «Quem tudo quer, nada tem». De entre as duas, a história de «um amor tão grande» é narrada por aquela que se sentiu «escolhida» pois subiu «ao altar», afinal, para se tornar uma «fada do lar»; e, pouco depois, experimentou como «a traição é fogo posto /A arder no meu coração.»

Romance(s) é, na minha perspectiva, um verdadeiro amor à portuguesa: para além dos ingredientes que Alberoni (1979) enunciou em Enamoramento e Amor 3, tem outras dimensões de género que evidenciam o padrão comportamental luso: (i) a sistemática infidelidade masculina: «Ele anda todo embeiçado /E eu sei que há loura na costa»; (ii) a auto-anulação feminina: para preservar o que «Tomara que não se acabe», porque acredita que «Os grandes amores não morrem», tudo faz para manter o casamento e a felicidade do marido (a qualquer preço); tal é bem ilustrado nestes versos:
«A mim não me pesa a culpa,
Mas, se culpada me crês,
Eu confesso o que não fiz.
E até te peço desculpa
Mesmo não tendo de quê,
Só p'ra te ver mais feliz.»
Só após muitos ciúmes, invejas, brigas, intrigas, suspeitas e traições, conclui «Que vivo ao lado de um estranho» que «Já não presta para mim.» Resta-lhe então «Chorar e lamber a ferida», mas nada será como dantes: «Meu coração ficou cego /Aos encantos de quem vem».

Uma das questões que emerge desta história é saber se os maridos se perdem pela ‘amante’ que tem engenho e «arte /De manter acesa a chama /Até vir a madrugada» ou se, afinal, como diz Inês Pedrosa (2005: 213) 4:
«Os maridos não se roubam, perdem-se».

Notas
1. ‘Lirismo e tragédia, no teatro como no fado’, Público Ípsilon, 19/07/19, pp. 18-9.
2. ‘O filme de Aldina Duarte’ entrevista realizada por Nuno Pacheco; ‘Oficina poética do desgosto e do ciúme’ de Gonçalo Frota, Público Ípsilon, 24/04/2015, pp. 24-7.
3. Francesco Alberoni (1979) Enamoramento e Amor. Venda Nova: Bertrand.
4. Inês Pedrosa (2005) Crónica Feminina. Lisboa: Dom Quixote.

Discografia de Aldina Duarte
Apenas o Amor (2004) EMI - Valentim de Carvalho
Crua (2006) EMI Music Portugal2
Mulheres ao Espelho (2008) Roda-Lá Music
Contos de Fados (2011) Roda-Lá Music
Romance(s) (2015) Sony
Quando Se Ama Loucamente (2017) Sony
Luís Souta

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Os Novos Heróis

por Risoleta C. Pinto Pedro



Os novos heróis

(A propósito de um livro intitulado Conversas com a Alma,

de Marta Guerreiro dos Santos)

Pode ser confundido com um livro de auto-ajuda e pode ser lido dessa forma, mas não foi
assim que o li. Li-o como a autobiografia de uma heroína. Por vezes, os heróis podem ser
confundidos com loucos, porque desafiam as convenções, as verdades confortáveis e o senso
comum. Inicio este texto com a visão real de um arco-íris à minha esquerda. O arco-íris não
existe, contudo eu vejo-o. Sei que estou a escrever um texto difícil para uma escritora com um
pé no cânone e outro nem sei bem onde. Ao escrever este texto, retiro o pé que se apoia no
cânone e fico totalmente em desequilíbrio. Mas o arco-íris tranquiliza-me. Já houve de tudo,
neste dia: sol, chuva, sol e chuva, granizo, e agora o arco-íris. Numa posição estática não há
equilíbrio, há rigidez. Com um arco-íris como apoio podemos experimentar levantar um
bocadinho os pés do chão.

Suponho que no momento de viragem (talvez tenham sido vários os momentos, mas um terá
sido determinante), Marta Guerreiro dos Santos tenha tido um arco-íris à sua esquerda na
forma de qualquer outro sinal que para si fosse eloquente. Aliás, ela refere-o no final do livro:
o sinal.

Imagine agora o leitor, a leitora, que tem pela sua frente uma carreira brilhante. É jovem, formou-se em veterinária, dá consultas e faz cirurgias, tudo corre tranquila e promissoriamente. Aparentemente, pois há uma inquietação muda que vem tentando silenciar. Algo muito embaraçoso que, se vier à luz, poderá atrair o opróbrio dos seus pares. Afinal, move-se num meio científico. A mente diz-lhe que deve esconder o seu segredo como uma vergonha. Mas a alma não concorda, não pode concordar com a mentira, ainda que sob forma de omissão. E quando oprimida, a alma, cansada de, inutilmente, gritar, recorre ao corpo. Este grita de uma forma muito mais convincente, porque dói, porque ameaça com a ruína, a destruição. Foi o que aconteceu. Aquela que na altura era veterinária e cirurgiã, Marta Guerreiro não podia, não sabia, não queria, temia revelar que conversava com os animais, que sabia com muita exactidão o que eles sentiam, pensavam e até julgavam. Era algo de incompreensível no mundo dos sãos. Tanto mais que vinha de uma família de médicos. Mas tal como o canavial de O Princípe com Orelhas de Burro, que não se conteve e teve de gritar a verdade, também o seu corpo começou a revelar aquela que é a linguagem mais eloquente quando todas as tentativas da alma falharam: a doença. Étienne Guillé, químico francês, investigador e grande figura da radiestesia contemporânea, chama a estas doenças, as doenças cósmicas. Perante elas, ou o ser compreende e coopera, ou resiste e sucumbe. Marta Sofia Guerreiro dos Santos compreendeu, cooperou, revelou. O corpo curou-se, a alma também, mas o processo não foi automático. Demorou alguns anos, como veremos. Numa primeira fase, o que aconteceu foi que tomou a corajosa decisão de deixar de exercer quer atendimentos, quer cirurgias, e passou a transmitir as suas conversas com os animais. Isto teve como consequência um muito mais profundo conhecimento daqueles, o desvelar da missão destes silenciosos e humildes amigos tão antigos junto dos humanos, e curas surpreendentes de uns e de outros. Instalou o seu extraordinário consultório sobre um finíssimo fio no meio do ar. Espantosamente, apesar da presença do medo e da ausência de rede, foi conseguindo equilibrar-se. Mas ainda não estavam as provas todas passadas. Apesar do entusiasmo de todos os que iam sendo tocados por esta experiência, havia o julgamento dos pares, a incompreensão das pessoas em geral, as suas próprias (ainda) resistências. De que os obstáculos exteriores eram apenas espelho. Um dia, como conta neste livro, alguém a desafiou a entrar em contacto com um familiar morto. Marta, apesar de ser obrigada a aceitar as evidências validadas pelas pessoas que a procuravam para as comunicações com os animais, continuava céptica acerca da continuação da vida para além do mistério chamado morte. A verdade é que o contacto aconteceu e toda a informação recebida era estranhamente verdadeira. Isto continuou a suceder, com pessoas do outro lado, com animais do outro lado. Um dia, durante uma conversa, sem me conhecer de lado nenhum, sem saber nada da minha história pessoal, comunicou-me que uma criança, meu filho, estava ali. Nunca contei isto publicamente, como se tivesse o mesmo receio que ela já tivera: o ultraje, a afronta, a injúria. Imaginem a minha surpresa, a minha comoção, o meu choque: por não fazer parte do meu sistema de crenças uma situação deste tipo, por não crer ser possível voltar a contactar com um filho morto, por ser a última coisa que alguma vez pensei possível acontecer. Isto teria ficado no esquecimento, se o que ela me disse que ele lhe estava a transmitir não tivesse sido da ordem do mais absoluto segredo. Não que fosse algo secreto, poderia ter sido partilhado, mas nunca o fora. Algo que apenas eu e ele tínhamos vivido de modo muito expressivo, que mais ninguém soubera. Num contexto de jogo, com os seus amigos, no terraço da nossa casa, que apenas entre nós, com uma troca de olhares, “comentáramos”. Foi esse episódio absolutamente inquestionável, que ele escolheu para sinalizar o momento, conhecendo o cepticismo da mãe que tinha. Foi a coragem de Marta Sofia que me proporcionou um dos encontros mais marcantes e desconcertantes da minha vida. E de muitas outras pessoas.

O primeiro livro que li dela chama-se Conversas com Animais, e este, mais recente, tem como título Conversas com a Alma. O que encontro de mais importante, o que marca a diferença e faz a distinção em relação a tantos outros livros em que o tema é a espiritualidade, são as descrições dos extraordinários encontros que continuou a ter com seres privados de expressão humana visível ou compreensível. O seu trabalho, que me parece sobretudo uma missão, foi evoluindo da expressão dos animais vivos para a expressão dos que viajaram para outros lados, animais ou pessoas, e neste momento resgata a palavra de todos os que não podem comunicar com a linguagem verbal humana: bebés, pessoas com deficiências que as privam da linguagem, ou deficiências mentais como autismo, em relação às quais é muito difícil a comunicação, pessoas com Alzheimer e outro tipo de doenças incapacitantes. Verdadeiro serviço público, com possibilidades inúmeras ainda por explorar, mas que já iniciou. Um aspecto em comum, talvez para alguns surpreendente: todos estes seres, ao nível do espírito, têm um domínio da compreensão e da expressão das coisas da vida e da morte que ultrapassa as suas limitações visíveis. Não sei muito bem como se apresenta o panorama em Portugal da comunicação interespécies, mas sei de alguns veterinários que já começam a encarar o seu trabalho com os animais com uma consciência nova. Tive também conhecimento, a outro nível, do trabalho seriíssimo e notável de Sónia Rinaldi, que no Brasil regista, há pelo menos trinta anos, imagens e comunicações áudio de pessoas e animais deste e do outro lado do véu, com espírito minucioso e científico que pode ser acompanhado na sua página.

Sinto que há um mundo até agora oculto que alguns cientistas mais corajosos começam a certificar, por não terem como não. Num tempo onde, apesar de inúmeras evidências científicas, um positivismo irracional ainda impera (quase a cair do pedestal, mas agarrando-se desesperadamente), seguir uma via ainda não certificada pelos poderes (político, científico, económico, intelectual, cultural…) equivale a um provisório suicídio. Felizmente, sempre seguido de um glorioso renascimento, que, contudo, pode demorar. É uma vereda escura e não garante luz ao fundo do túnel, mas quem sente a imperiosa determinação de nela entrar não deixa de o fazer, mesmo com todos os medos que a cada curva o assaltam.

Quanto a nós, cada um vai fazendo o seu caminho, sendo que o mais importante é que o faça na sua verdade e autenticidade e nas suas incertezas, com total reverência para com o percurso do outro, que é sempre diferente, mas nunca inferior ao seu. Chama-se a isto respeito e liberdade.

Risoleta C. Pinto Pedro,
25 de Abril de 2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Bem, parece que a Margarida pode abandonar as muletas e só terá que voltar ao tratamento amanhã para uma última avaliação. 



Já passa da meia-noite e só agora me foi possível chegar a casa. 

Véspera de férias, importa não deixar pendentes e tudo arrumado. 



E o piolhito está matriculado no segundo ciclo. 


Alhos Vedros 
  07/07/2004

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (359)


The Jack Pine, Autor Tom Thomson, 1917
Dimensões: 127,9 x 139,8 cm

Thomas John Thomson, nasceu em Oakville, Ontário, Canadá, a 5 de Agosto de 1877 e faleceu a 8 de Julho de 1917, em Lago Canoe.

Thomas John "Tom" Thomson, como ficou conhecido, foi filho de John e Margaret Thomson e cresceu em Leith, Ontário, perto de Owen Sound, no município de Meaford.

Foi um influente artista que fez parte dum grupo de pintores canadenses que viria a ser conhecido como o Grupo dos Sete.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Ana Pereira - Homem Novo



Estudo sobre  os elos de TUDO com TUDO.

Fazendo ponte entre os eclipses do passado Julho e das influências de mercúrio retrógado , com a lua nova em leão,  agora em Agosto, e mercúrio directo  a gosto,  esta tela representa  um desenrolar do Ser, onde o Homem Novo qual caracol se vai destacando subtilmente iluminado e desprendendo de uma curvatura fetal que acompanha  a curva craneana do homem que lhe antecede  em tempestade metamorfoseando -se em  pássaro pronto a  nova amplitude  no  olhar, novos horizontes a voar.

Titulo: Homem Novo 
Técnica Mista  sobre tela 
imagem  pormenor close up 
para  ver  na íntegra faculto  minha página  aqui  https://www.facebook.com/Ana-Pereira-Artes-Pl%C3%A1sticas-1234204616639689/

Ana Pereira

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

EG#114


ESTUDO GERAL
jul/ag         2019           Nº114

"Obstáculo foi coisa que jamais me importou; procurei sempre seguir nisto a lição dos rios: tiram a extensão e variedade de seu curso daquilo que se lhes opõe; ou das pedras: depende do que somos esbarrarmos nelas e nos queixarmos ou subir-lhes em cima e ver mais longe." (Agostinho da Silva)

Sumário
bossa nova

2.                 Etografar a Arte de Rua (XVII) – Luís Souta
graffitar a literatura

3.                 Carta ao Velho que Serei – Rafael Nascimento
laugoddog

4.                 As Últimas Cartas... e Um poema – Luís Santos
Agostinho da Silva

5.                 O Diário da Matilde – Luís F. de A. Gomes
diarística

real...irreal...surreal...


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"As Últimas Cartas… e Um poema"



Agostinho da Silva, parlamento... 1989
Fotografia de Eduardo Martins


Colóquio "Agostinho da Silva: Filosofia e Poesia"
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2 de julho de 2019

Parte do título desta comunicação, refere-se a um livrinho intitulado "As Últimas Cartas do Agostinho...", por mim organizado e editado no Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em outubro de 1995, do qual foram feitos 50 exemplares, e que se constitui por um conjunto de 12 cartas enviadas por mão do Professor Agostinho da Silva a um grupo de amigos com quem estava em contacto mais próximo, ou que se candidataram a destinatários de tão digníssima epístola.

O repto é endereçado pelo Professor em Carta subscrita na Lua Cheia de janeiro, 8/1/1993, onde diz: “Queridos Amigos, O imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores me encarrega de vos comunicar que acaba de tomar posse de tudo quanto há  e me designa como seu agente junto de vós para tudo que se refira a estas folhinhas dactilografadas, que serão sempre mensagem do Convento, assinadas ou não (…) São enviadas a tôdas as pessoas que já declararam por palavras ou feitos que desejam recebê-las ou o declarem daqui por diante.”

A primeira carta do conjunto que constitui a brochura, foi enviada no mês de dezembro de 1992, e a última em setembro de 1993, o que significa dizer que este conjunto de cartas foi expedido, praticamente, ao longo do último ano de vida da sua vida, pois que em meados de outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, a súbita degradação física que o acometeu haveria de o guindar ao seu falecimento que, como sabemos, ocorreu no dia 3 de Abril de 1994, um triste mas revelador Domingo de Páscoa, dia de ressurreição.  

Fulcral é a primeira destas 12 cartas e, logo aí, se diz claramente ao que se vem. Fixemo-nos nas palavras de Agostinho:

“Resumo da ideologia do Povo Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre.
Missão de Portugal: Sacralizar o Universo, tornando Divina a Vida e Deus real.
Meios: Desenvolvimento dos Povos pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da pessoa à adoração da Vida.
Características do que houver no Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser.”

Eis uma síntese perfeita do período da história portuguesa que Agostinha da Silva mais admira, e a que no dizer das suas ideias sempre regressa, resumo da ideologia que, então, orientava o país, com epicentro no reinado de D. Dinis (“o plantador das naus a haver”, no dizer de Fernando Pessoa). Agostinho complementaria assim: “Acho a época de D. Dinis perfeita (…) A Rainha Santa e o rei-poeta. Calcule, o casamento de um poeta e de uma santa, que coisa extraordinária! D. Dinis com os Estudos Gerais. Depois é que transformaram aquilo em universidade, que veio a dar no que deu. Estudos Gerais, estudo geral para toda a gente e geral para todos os estudos, que outra coisa quereríamos para Portugal senão isso? Toda a educação portuguesa devia ser essa. Voltar aos Estudos Gerais e ao D. Dinis.” 

Então, seguindo o nosso autor, haverá que disciplinar o processo de produção e de distribuição dos bens, de forma a chegar-se a uma economia comunitária que se inspire naquela que existiu, para construir uma economia mais humana, pois é esse o exemplo que nos dá a organização económica medieval em Portugal. O que a Europa trouxe para Portugal foi uma economia capitalista, uma economia de luta. Ora, muito melhor é uma economia de convivência e de cooperação comunitária, de autonomia municipalista, com uma distribuição mais equilibrada das riquezas, como era a que caracterizava a economia portuguesa da Idade Média, antes desta importação europeia. Tipo de economia que foi liquidada por essa outra importada.

Discorrendo sobre a organização política que se deveria seguir, em carta de Lua Nova de 22 de Janeiro, 1993, sustenta-se que deve esse tal “imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores”, deveria assumir dois compromissos: primeiro, o de que Portugal, inspirando-se nesses princípios da ideologia medieval portuguesa, se deveria comprometer na educação da Europa Transpirenaica; segundo, de que viesse  a constituir-se uma Confederação, ou coisa parecida, de todas as Nações de Língua Portuguesa, sendo um dia Portugal seu representante na Europa Comunitária e, citando,  “…que fique nítido que o ideal de futuro é o da cultura do Povo Português nos séculos XIII e XIV.”

Neste sentido, relembre-se, a importância que tem, para si, o culto popular do Espírito Santo que ganha uma dimensão fundamental em Portugal neste período, com o ativismo espiritual da Rainha Isabel de Aragão. Culto Popular do Espírito Santo, ou Culto do Divino, que chega a Agostinho da Silva pela influência direta de Jaime Cortesão, e também de António Quadros, embora na forma de um reencontro, pois que, como nos diz, não exclui a hipótese de que ele próprio tenha “andado no tal século XIII envolto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo português sentir-se já num Paraíso a vir…”.

Eis os três pontos essenciais da festa do Espírito Santo:
1. A coroação de um menino como imperador do mundo. A representação na Terra do Espírito Santo é a imaginação da criança. Ou, como diz Agostinho, também pode ser, inspirando-nos no presépio de Francisco de Assis, o menino representando o renascimento de Cristo: “é como se fosse Cristo renascendo.”
2. Através da imaginação da criança se chegará à libertação dos presos e ao fim de todas as prisões, internas e externas. Ou seja, à consagração do grande ideal de liberdade e de libertação espiritual que Agostinho sempre releva.
3. O banquete gratuito, como representação simbólica de uma livre repartição de recursos alimentares entre todos, de modo a que ninguém falte que comer.

No dizer do Professor, “É como se os portugueses tivessem dentro deles sem se expressar, inconscientemente, já essa ideia fundamental de ter que se caminhar para o futuro, mas para um futuro que era ao mesmo tempo do passado, porque, se o espírito santo que viria a reinar numa terceira Idade era coetânea do Pai e do Filho, logo pertencia a um passado de toda a Eternidade. (…) ou seja, uma festa em que os portugueses declaram como vai ser o tal mundo do Espírito Santo.”

E seguindo a carta de Lua Cheia de 8 de Março de 1993, “Pôsto isto assim, e acreditando num universo sacralizável ou de que se descobriria o Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejável inteira liberdade de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática.”

Continuando, em carta no Crescente de Abril, “como os da Festa foram todos expulsos, para a Guiné ou para o Brasil, aí pelos séculos XV e XVI, pensámos que já era tempo de regresso (…) Nada será de uma dia para o outro, mas iremos à nossa tarefa com toda a calma, experimentando, poucos como somos, tornarmo-nos um tanto contagiosos e reaver o tesouro que se perdeu, mas de que ainda há lembrança nos Açores e muita prática no Brasil (…) Porque afinal tudo isto é só uma tentativa de alicerce de império: Império de Servir.”

E por se falar em “Império de Servir”, sobre as ideias quinto-imperiais, relembremos que Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de continuidade entre a cultura medieval portuguesa, e Camões, Vieira e Pessoa, seja no “culto do espírito santo”, na “ilha dos amores” ou “5º império”, embora pesem os diferentes tempos em que existiram e a inevitabilidade de se relacionarem com as ideias do seu respetivo tempo. Afinal, em suma, dizer que Camões, Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem.

Assim, o Império enaltecido na “Ilha dos Amores” dos Lusíadas, preconizado por Vieira e por Pessoa, será um império verdadeiramente “católico”, quer dizer, de acordo com a etimologia da palavra, universal, e caracteriza-se pelo advento da Idade do Espírito Santo, o consolador da esperança humana, tal como profetizara o evangelista S. João e idealizou o abade italiano Joaquim di Fiore.

Este Deus consolador que se refere é aquele que Cristo revela, a quem Agostinho reza na igreja, mas que não é o Deus das igrejas, antes o Deus que as une a todas e paira acima de todas. É um Deus que podemos chegar se atingida a verdade. Um Deus íntegro, total, paradoxal, tudo e nada, imanência e transcendência, que junta tempo e eternidade, sem separação de bem e de mal, de homens e animais, de tudo o que existe. Um Deus que é, antes de mais, inefável, e é silêncio, onde ciência e filosofia, “saudades disfarçadas em raciocínio”, devem ajudar a atingir, mas não podem definir.

Às influências de Jaime Cortesão e de António Quadros, sobretudo do primeiro, seu sogro, com quem conviveu e trabalhou no Brasil, deve juntar-se a ideia de “luso-tropicalismo” do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que nesse país fez escola, base da ideia que expressa na carta de Lua Nova (face virada ao sol), Abril de 93, sobre “o empreendimento em que pensa o Brasil duma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e seus crioulos, filhos, por seu turno, do crioulo que o Português foi do latim, tudo afinal neto do mais vasto Indo-Europeu.” O Brasil torna-se em Agostinho, o contemporâneo parceiro ecuménico por excelência daquele Portugal medieval que proclamava o reino do Paráclito, pois que à comunidade luso-brasileira deverá caber a missão de condução desse projeto ecuménico ao mundo. Como sabemos, Agostinho da Silva é um dos percursores da conceção de um Projeto Lusófono que junte países e comunidades, ideia que acabou por se materializar em 1996, com a criação da “CPLP” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

E continuando ainda com o que nesta carta se diz: “O que vai haver, sem velas, excepto as desportivas, mas por aeroportos e por Faxes, é a integração dum pensamento como o de Lao-tsu, se dele é, (…) que os há em todas as religiões e filosofias (…) reinado da criança e sacralização dos animais e de tudo o resto. O que temos de ter connosco é um sentido de ordem não opressiva que impeça o caos e ondas de imaginação a saudar o que ainda não veio, com uma China cada vez mais para o concreto, um Brasil todo virado ao sonho, e, no meio, uma África que nos ensine a todos, já que índio enfraqueceu por tanto século de luta.” E aqui, como se refere Lao-tsu também se poderiam referir ideais budistas, particularmente, do budismo zen, espiritualidade que Agostinho também enalteceu. Como sabemos o próprio Agostinho visitou o Japão em 1963 e aí conviveu entre faculdades, templos e monges budistas, e disso nos deixou testemunho.

E para terminar, na última carta “de Setembro de Lua Cheia, de 93”, e sendo que o forte “avc” de 17 de outubro já se avizinhava, Agostinho deixa-nos três princípios pessoais orientadores de vida: “o de se ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar (…) Para tudo o que fordes e fizeres rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar.”

 ...e como prometido no título da comunicação cá fica Um poema

Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte.

Agostinho da Silva, Uns poemas de Agostinho, 1989

Luís Santos
2 de julho/2019


 Referências Bibliográficas:

SANTOS, Luís Carlos dos (org.) (1995) As Últimas Cartas do Agostinho… Edição do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros.

Idem (2016) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia (td). Vila Nova de Gaia: Euedito.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Para que o racismo fosse algo mais que uma teoria teríamos que encontra-lo na natureza, o que não acontece.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (358)


Battle of Chesma, Autor Ivan Konstantinovich Aivazovskii
Tinta de Óleo sobre lona

Ivan Konstantinovich Aivazovskii nasceu a 29 de Julho de 1817 e morreu em Teodósia, a 5 de Maio de 1900. Foi um pintor russo de ascendência arménia, do movimento do romantismo, conhecido por suas paisagens marítimas. Morreu deixando um repertório de mais de seis mil obras, entre elas, a mais famosa, Nona Onda. Sua família era de origem arménia, residente do porto de Teodósia, na Crimeia, na margem do Mar Negro.
Um dos mais proeminentes artistas russos de sua época, Ivan era também extremamente popular fora do Império Russo. Expôs em diversas galerias pela Europa e Estados Unidos em seus mais de 60 anos de carreira. Foi um dos mais prolíficos pintores e apesar de grande parte de seus quadros serem de paisagens marítimas, ele também pintou cenas de batalhas, retratos de personalidades e paisagens da Arménia. Seus trabalhos hoje estão espalhados pela Europa, em museus na Rússia, Arménia, Ucrânia e em colecções particulares.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

terça-feira, 23 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E não é que Santana Lopes foi eleito presidente do partido pelo conselho nacional? 


Temo que nas últimas vinte e quatro horas seja o segundo desaire para os portugueses, uma vez que ontem foram os jogadores gregos que fizeram a festa. 

Será que o Presidente está de mãos atadas? 



A ingenuidade e a ignorância de certas pessoas é confrangedora. 


Presente perante o Juiz, para ouvir as acusações pelas quais será julgado em Tribunal, Saddam Hussein assumiu-se como o Presidente do Iraque, não reconheceu a autoridade de quem o prendeu e pretende julgar e, numa manobra que faz parte da vulgata dos revolucionários desde ainda antes de Lenine, tentou inverter os papéis no processo e, com base no não reconhecimento do mesmo, fazer ele de acusador sobre aqueles que definiu como invasores e usurpadores e respectivos apoiantes. Mas foi o suficiente para alguns jornalistas virem logo falar na grande forma do homem e nos media passarem as parangonas da sua vitória neste primeiro round. 

Será que estas pessoas não entendem que aquela gente é inimiga de morte do nosso modo de vida e não têm o mínimo interesse e respeito pela paz mundial ou o bem estar das populações? 



Ai este anti-americanismo primário é factor de tanta cegueira. 



Hoje, devido à sessão de fisioterapia da Margarida vimo-nos na contingência de, a pedido delas, encomendarmos pizzas para o jantar, cujas caixas de cartão em que nos são entregues, a bem do marketing, têm qualquer coisa escrita como, para partilhar com a família e os amigos. 
No meio da conversa e já depois de a mais velha ter insistido com a irmã para que esta lhe oferecesse um pedaço do seu menu infantil, o pardalito saiu sorrateiramente da mesa para voltar em acto contínuo com uma esferográfica. 
“-Não vês o que diz aqui?” –Perguntou depois de concluída uma palavra que intercalara naquela frase publicitária. 
Tendo intercalado a partícula no sítio certo, leu de imediato: 
“-Para não partilhar com a família e amigos” 
A isto se chama a aplicação dos conhecimentos escolares. 

Claro que falámos de imediato na partilha. 



E damos graças a Deus pela nossa felicidade. 


 Alhos Vedros 
  05/07/2004

segunda-feira, 22 de julho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (357)


Nighthawks, Hopper, 1942
Óleo sobre Tela, 76,2 x 144 cm

Edward Hopper nasceu em Nova Iorque, a  22 de Julho de 1882 e faleceu em Nova Iorque, a 15 de Maio de 1967.
Hopper estudou design gráfico, ilustração e pintura na cidade de Nova Iorque. Um dos seus professores, o artista Robert Henri, encorajava os seus estudantes a usar as suas artes para “fazer um movimento no mundo”.
Ao completar a sua educação formal, Hopper fez três viagens pela Europa para estudar a cena emergente de arte europeia, mas diferente de muitos dos seus contemporâneos que imitavam as experiências abstratas do cubismo, o idealismo dos pintores realistas foram os que mais Hopper identificou-se, logo projetou os reflexos dessa influência nas suas obras.
Enquanto trabalhava, por vários anos, como artista comercial, Hopper continuou pintando.
Em 1925 produziu ‘Casa ao lado da Ferrovia”, um trabalho clássico que marcou sua maturidade artística.
A obra é a primeira de uma série da cena totalmente urbana e rural de linhas finas e formas largas, feita com uma iluminação incomum para capturar a solidão que marca sua obra.
Ele trouxe o seu tema das características comuns da vida norte americana – estações de gasolina, hotéis, ferrovia, ou uma rua vazia.
Realista imaginativo, esse artista retratou com subjetividade a solidão urbana e a estagnação do homem causando ao observador um impacto psicológico.
A obra de Hopper sofreu forte influência dos estudos psicológicos de Freud e da teoria intuicionista de Bergson, que buscavam uma compreensão subjetiva do homem e de seus problemas.
O tema das pinturas de Hopper são as paisagens urbanas, porém, desertas, melancólicas e iluminadas por uma luz estranha.
“Os edifícios, geralmente enormes e vazios, assumem um aspecto inquietante e a cena parece ser dominada por um silêncio perturbador”.

in História das Artes

Selecção de António Tapadinhas

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Etnografar a Arte de Rua (XVII)


GRAFFITAR A LITERATURA

Graffiti na Avenida do Ultramar, velho Hospital de Cascais

                                                                                                                                              
Escombros do Hospital

Fotos de Luís Souta

«Nada que possa ser feito devagar deve ser feito à pressa.»
(Robert Louis Stevenson)

Este soberbo graffiti, o segundo de maiores dimensões do Muraliza 2015, decora uma das fachadas laterais do antigo Hospital (um espaço público ainda desactivado). O seu autor, o argentino Bosoletti, ofertou-nos a figura de uma mulher serena, a extravasar saúde e beleza; as plantas de cores quentes dissimulam a sua tentadora nudez. E, de imediato, veio-me à memória uma passagem do livro Stevenson sob as Palmeiras do também argentino (hoje cidadão canadiano) Alberto Manguel:
«Em Samoa a nudez das mulheres, que tanto incomodava os missionários, nunca era feia. À noite, quando a gente da aldeia descia à praia para se banhar e ficava a chapinhar nas ondas com as crianças, os cabelos negros, fartos e emaranhados das mulheres abriam-se como anémonas na água, e os hibiscos que elas usavam atrás das orelhas flutuavam em torno dos seus corpos, como ilhas ígneas. Stevenson adorava ficar a vê-las do molhe, contemplando-lhes a pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica.» (2003:14)

Nesta curta obra (71 p., Edições ASA), Manguel ficciona a estadia do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) em Samoa (onde viria a falecer). Apesar de saúde frágil desde a infância e que a tuberculose veio acentuar, Stevenson gostava «de ir» pelo mundo (França, EUA, Pacífico Sul). E foi entre os samoanos, tendo por companhia a mãe, a sua mulher americana e os seus enteados, que viveu um tempo calmo, aprazível, pleno de histórias. 
«– Os nativos gostam de histórias. Eles são a sua própria história, entende? Eles escutam as minhas às vezes. Chamam-me ‘Tusitala’, o contador de histórias. (…) Nesta parte do mundo, as histórias que se contam incorporam-se na realidade.» (p. 28)

O ensaísta e escritor Alberto Manguel (1948), leitor compulsivo (quando adolescente, leu em voz alta para Jorge Luís Borges, e, em 1999, publicou Uma História da Leitura, Editorial Presença), viajante incansável (residiu em Israel, Toronto, França, Taiti), esteve em Portugal por diversas vezes. Dessas ocasiões, ficaram duas interessantíssimas entrevistas ao jornal Público-Ípsilon (02/07/10 e 20/12/13). Aí, responde à questão de ainda fazer sentido ler os clássicos na escola:
«Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores.» 

Por isso, o célebre livro de aventuras Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, tem sido uma das obras recomendadas, e bem, para «leitura autónoma» no 7º ano. Mas será que a leram?

Luís Souta
Post Scriptum: Entre estas duas fotos medeiam três anos e meio e elas ilustram bem o sentido transitório da Street Art enquanto «arte do efémero». O velho Hospital de Cascais está totalmente demolido (ainda chegou a ser anunciado que uma universidade privada iria reconfigurá-lo para o ensino, num curso de medicina). E neste desenfreado deita abaixo, nem o mural do argentino Bosoletti foi poupado!

Este é um espaço apetecível pela especulação imobiliária devido à sua centralidade e enorme área (ocupa quase uma quarteirão).

A insensibilidade dos ‘empreendedores’ da construção e a apatia da sociedade civil explicam esta incapacidade em consolidar este graffiti (do Muraliza 2015) como ‘património’ local. Ficámos todos a perder!

terça-feira, 16 de julho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Como é que é possível alguém pensar em Santana Lopes para primeiro-ministro? 


O homem não tem rabos-de-palha, ele é um rabo-de-palha em pessoa. 
Como é que um indivíduo que depende dos lugares que lhe arranjaram para ganhar a vida pode falar de frente para os rostos que dão voz aos grupos de interesses e de pressão, para não chamar aqui à conversa outros poderes bem mais sinistros? 
Um país organizado – o que infelizmente não é o nosso caso – e que preze os valores do trabalho e da responsabilidade não se pode dar ao luxo de ter em tão importante e influente cargo uma pessoa em tal condição. 

Bem, sinceramente espero que haja ainda uma pinga de bom senso em quem de direito e a solução para o problema criado pela demissão de Durão Barroso seja encontrada por via de eleições antecipadas, embora tenha por certa a possibilidade de o líder que caiu do céu poder vir a ganhá-las, quiçá, com a maioria absoluta. 

É que em boa verdade este triste espectáculo só é possível num país de opereta ou, em alternativa, numa qualquer república das bananas do terceiro mundo e, por isso mesmo, ele é um exemplo eloquente de como a partidocracia está dominada por esconsos tentáculos que disso se servem para tirarem vantagens e imporem os seus ditames aos que ocupam os lugares de decisão. 


Só uma revolução nos poderá salvar das garras das tiranias mafiosas. 

Faço votos para que não traga o sangue pela força do movimento. 


E o meu dilema reside apenas em decidir em quem votar. 
Em branco? 
É uma possibilidade. 



Tarde de praia; leituras e descanso entre brincadeiras e um passeio de gaivota com a Matilde. 


A Beatriz acompanhou a família. 


Ainda que a água estivesse gelada, aquelas alminhas só foram a terra para abastecerem as barriguinhas e quando soou a hora do regresso. 



Foi a enterrar o corpo de Sophia de Melo Breyner que faleceu aos setenta e três anos de idade. 


Devo confessar que pouco ou nada conheço da sua obra. 
É tida como um dos vultos da literatura portuguesa, nomeadamente da poesia, do último século. 


E já que estamos no obituário, com a mesmíssima idade, também Marlon Brando se despediu do filme que interpretava na vida real. 


O século vinte lá vai deixando cair os seus mitos segundo a cadência das estações. 



E a sonda Cassiny Huygens prepara-se para cumprir os principais objectivos da sua missão, enviar para a Terra dados sobre os anéis de Saturno e alguns dos seus satélites naturais, com particular atenção para Titã, onde os cientistas esperam estudar uma atmosfera que consideram similar à que terá existido nos primórdios do nosso planeta. 


Estamos tão próximo da extinção quanto de encontrarmos o caminho para a eternidade. 



A Margarida deixou as muletas este fim-de-semana, mas ainda coxeia. 



E agora vou ver a final do Europeu. 

Palpita-me que os portugueses vão repetir a postura e os erros do primeiro jogo. 

Há euforia a mais; até parece que só falta saber por quantos vamos ganhar. Não gosto disso. Os gregos têm boa equipa, já mostraram que sabem jogar à bola, isto apesar do que todos dizem sobre a espectacularidade do futebol que praticam e certamente que não irão estar ali para servirem de bombos da festa. 

Seja como for, espero que seja um bom jogo e que a taça fique em Lisboa. 

Depois de chegarem onde nunca antes uma selecção nacional tinha chegado, seria bonito de ver. 


Alhos Vedros 
  04/07/2004