terça-feira, 18 de junho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE GUERRA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
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Foi pois o homem moderno, o homo sapiens sapiens que a partir de um grupo que abandonou África, há mais ou menos oitenta mil anos, acabou por se espalhar e colonizar, com a excepção da Antártida, as restantes superfícies continentais, com o rodar dos tempos e das deambulações, conseguindo adaptar-se a todos os ambientes climáticos terrestres. 
É natural que um tal movimento de dispersão que provocou o embranquecimento da pele em latitude, tenha igualmente produzido diversas expressões no modo de vida, o que é fácil de entender se tivermos em conta a diferencialidades de problemas que os diversos ecossistemas colocavam à subsistência e sobrevivência da Humanidade. Mas não é possível sabermos como é que esses primeiros homens viviam; é um facto arqueologicamente provado que a vida assenta nas actividades de recolecção e caça, na beira-rio e nas orlas costeiras terá, em alguns sítios, incorporado actos de pesca e predação de molúsculos e crustáceos, mas esse é um conhecimento genérico e não nos permite descrever com exactidão como é que isso se passou e muito menos como é que esses grupos se organizavam e os aspectos que tinham os resultados das suas maneiras de viver. Sobre uma instituição como a família, por exemplo, não temos qualquer prova que nos habilite a dizer como e quando surgiu e muito menos os diversos ordenamentos que possa ter experimentado. 
Seja como for, os grupos humanos estavam dependentes da existência de água em torno do que terão itinerado em busca de alimento e matérias-primas para as suas ferramentas que se foram sofisticando e diversificando com o passar das gerações e o acumular de experiências e conhecimentos. 
Não há factos arqueológicos que permitam sustentar como se repartiam as actividades de caça ou da recolecção, ou a quem e em que âmbitos caberia o papel de socialização e enculturação das crianças, muito menos como se estabeleceriam, se é que tal sucedeu, as hierarquias no interior dos bandos, bem como as situações em que aqueles se fariam valer. Estamos aqui no domínio das relações inter-pessoais e da estruturação da cultura e aquilo que temos são ossos, instrumentos nesse material e em pedra e outros materiais de origem vegetal, desenhos e pinturas rupestres, baixos-relevos, para além de toda a informação geo-climática que, paralelamente, os sedimentos contêm; nada que nos permita apoiar esta ou aquela afirmação sobre as formas de expressão do quotidiano. A este nível, tudo o que podemos fazer é observar as populações que ainda vivem dessa maneira e tentar traçar aí paralelismos de possibilidades para esses primeiros ancestrais. É certo que nos estamos a subtrair a um proceder científico mas não temos alternativa e resta-nos a imaginação para compormos, com os dados que possuímos, um quadro de plausibilidades que nos dê a ver o modo como se desenrolava a existência dessas pessoas. 
Bem, não teria havido sucesso demográfico se o princípio da partilha não fosse activamente praticado entre os membros daqueles agrupamentos. Se aqueles que caçavam partilhavam, a carne e as peles e o que mais fosse prestável, o mesmo faziam os que se dedicavam a catar as árvores e os arbustos e ervas e outras plantas que o meio tivesse para oferecer e para elas houvesse uma utilidade. 
É provável que as mulheres tivessem o hábito de, entre si, cuidarem das crianças de mais tenra idade, até que fossem capazes de acompanhar os mais velhos nas tarefas inerentes à aquisição do necessário para a sobrevivência. Tal como não deveria ser secundária a sua sabedoria sobre o meio envolvente e, por isso, a sua participação nas decisões que ao movimento do grupo diziam respeito. Mas terão coexistido matriliniaridades com patriliniaridades, assim como terão vivido bandos em que predominou uma ou outra forma de reconhecer a filiação e a diversidade deve ter sido a regra, o mesmo ocorrendo com a fixação das uniões entre indivíduos de sexos diferentes que podem ter variados entre forma de grupo ou a monogamia. 
Mas assim viveram durante mais de uma centena de milhares de anos os homens modernos, em conjuntos que nunca ultrapassariam em muito a centena de elementos e, por norma, não indo abaixo de um certo número que não desceria de uma mão cheia de figuras. Aqui e ali, um pouco dependendo da geografia, estas comunidades itinerantes terão competido com outras e até é possível que tenham ocorrido práticas de canibalismo baseado na luta violenta extra grupal.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (352)


Ilusão de Óptica

Maurits Cornelis Escher nasceu em Leeuwarden, a 17 de Junho de 1898 e morreu em Hilversum, a 27 de Março de 1972.
Foi um artista gráfico holandês conhecido pelas suas xilogravuras , litografias e meios-tons (mezzotints), que tendem a representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e as metamorfoses - padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Ele também era conhecido pela execução de transformações geométricas (isometrias) nas suas obras.
Escher ficou famoso por criar obras impossíveis de serem reproduzidas no mundo real.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 15 de junho de 2019





Infogravura
2019
Kity Amaral


sexta-feira, 14 de junho de 2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Homem que tinha Medo de que ninguém fosse ao seu Funeral



FINALMENTE CHEGOU O MEU ROMANCE. Sinto me feliz.

E de que trata ? É parte da história de um homem de idade avançada, contada na primeira pessoa, que tem medo do esquecimento a que são votados os mais velhos, os que ficam quando todos os outros já partiram e pergunta a si próprio quem irá ao seu funeral. Mas em resultado de uma experiencia cientifica ou na sua crença acerca dela, a sua vida povoa-se de acontecimentos. Desafio-vos a uma leitura, que acredito, vos vai surpreender.

Maria das Dores Nascimento

terça-feira, 11 de junho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Dois dias antes da data oficialmente prevista, efectuou-se hoje a transição de poderes no Iraque que assim recuperou a sua soberania. 
O governador Paul Bremen regressou a casa, mas as tropas aliadas deverão ainda permanecer ali por um longo tempo mais, pois estamos longe de um território pacificado e os terroristas da Al-Qaeda, tudo continuarão a fazer para que o novo poder seja fraco e incapaz de ali instalar as bases de um estado de direito; estes criminosos sabem muito bem quem são os seus inimigos e não hesitam em dar-lhe um combate mortal. É ver o que se está a passar no Afeganistão, onde os talibãs estão a assassinar aqueles que se predispõem a votar nas legislativas que deverão ser marcadas para daqui a meses. 

Adivinham-se tempos de grandes atentados dentro e fora do Iraque. 

Curiosamente, muitos dos iluminados entre a inteligentzia ocidental continuam a falar da resistência iraquiana como se aquele povo, depois de três décadas de uma ditadura implacável, quisesse ser agrilhoado pela mundivisão de um islamismo que eleva a ortodoxia ao mais alto grau, ou seja, ao plano de um poder totalitário. 



Hoje foi o primeiro dia da Matilde na “Gente Miúda”. 

Veio cansada, mas encantada. 

“-Amanhã vamos à praia.” –Disse-me de imediato, quando cheguei para a trazer de regresso a casa. 

E o primeiro dia teve jogos e piscina de insuflável, com equitação ao fim da tarde. 

“-Um dia em cheio.” –Sintetizou, já o carro rolava em direcção à Moita. 


A “Gente Miúda” é uma quintinha que os proprietários adaptaram e rentabilizaram como centro de eventos infantis e, no Verão, local de férias. 

As crianças são divididas por grupos etários e ali passam o dia com os monitores, aproveitando a jornada com brincadeiras ao ar livre, num excelente relvado refrescado pelas sombras de árvores decorativas. 

Almoçam em conjunto e têm à disposição boas instalações sanitárias e uma sala de jogos suficientemente espaçosa e fresca, o que garante o conforto na hora da canícula. 


Este ano, a Margarida começou por perder esta semana. 
Mas foi ali que no ano passado, pela primeira vez, gozou quinze dos seus dias de férias. 

Lá para Agosto terá oportunidade de se divertir este ano; as irmãs terão mais uma semana na quinta. 
Elas merecem. Trabalharam bem na escola e obtiveram bons resultados. Há que recarregar baterias para o próximo ano lectivo. 


Eu é que tive de andar em bolandas, como é bom de ver e com hora marcada, pois a reunião de avaliação da Margarida teve início às dezoito e trinta. 


Agora estou cansado, é bem verdade, estamos todos cansados, mas felizes. 



“A Margarida atingiu com facilidade todos os objectivos.” 
Este foi o veredicto da avaliação final do primeiro ciclo. 
Teve ainda satisfaz bastante em todos os parâmetros da aprendizagem e revela claramente que compreende todos os requisitos respeitantes ao comportamento enquanto aluna. 

Melhor era impossível. 


E na verdade, o balanço que podemos fazer da sua prestação nesta primeira etapa da escolaridade é francamente positivo. 

O prémio que ela ganhou no concurso de poesia é um testemunho disso. Mas também o são o facto de ser uma boa leitora e especialmente de livros temáticos, ou a facilidade com que inventa e encena peças de teatro e a curiosidade que revela sobre uma multiplicidade de coisas e assuntos que seria fastidioso estar aqui a descrever. 

E quanto à atitude, nada a dizer. 
Empenha-se no trabalho e, ainda que estejamos sempre atentos ao decurso das aulas e dos exercícios solicitados, não é preciso que lhe digamos para fazer os deveres ou para estudar quando tal se impõe.


Assim apanhe bons professores no futuro e estou convencido que a Margarida chegará na escola até onde entender. 


Nós somos pais abençoados. 



Na próxima sexta-feira, será a reunião de avaliação da Matilde. 



A dor, em Darfur, continua escondida das bocas de cena mediáticas, a nível mundial. 



E tudo leva a crer que o nosso primeiro lá vai a caminho de Bruxelas. 


Cá para mim o homem está a fugir, pois para quem ainda há dias se dizia disposto a conduzir os destinos do país, especialmente agora que a economia começa a dar os primeiros pestanejos de uma retoma, é no mínimo muito estranho que aceite agora um lugar que implicará a sua demissão do cargo de primeiro-ministro e de presidente do PSD, com o inerente fim deste executivo e toda a instabilidade que, nos próximos meses, isso acarretará. 
Então pedem-se sacrifícios aos portugueses e na melhor oportunidade viramos-lhes as costas? Será que iremos mandar às malvas os dois anos de governação em que se apertou o cinto para superar o regabofe que foi a governação dos socialistas? 

E não é líquido que Portugal venha a ganhar algo com isto, antes pelo contrário, a ocasião não podia ser pior. 


E não podemos esquecer que o homólogo luxemburguês recusou o lugar. 
Não poderia Durão Barroso ter feito o mesmo em nome do interesse nacional? 


Quanto à hipótese de Santana Lopes para o substituir, nem vale a pena pensar nisso. 



Só a frescura da noite nos consola. 


Sabemos que os tempos que se avizinham serão de chumbo, ainda que muito venha a ser o vinho que escorra pela garganta. 


 Alhos Vedros 
  28/06/2004

segunda-feira, 10 de junho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (351)

Bonjour, Monsieur Courbet, Autor Gustave Courbet, 1854

Óleo sobre Tela,  1,32 x 150,5


Gustave Courbet nasceu em Ornans, França, a 10 de Junho de 1819 e morreu em La Tour-de-Peilz, Suiça, a 31 de Dezembro de 1877.
Foi um pintor francês pioneiro do estilo realista francês. Foi acima de tudo um pintor da vida camponesa de sua região. Ergueu a bandeira do realismo contra a pintura literária ou de imaginação.
Aos doze anos, Gustave Courbet entrou para o seminário de Ornans, onde recebeu pela primeira vez a educação artística com um professor de desenho, seguidor da pintura pré-romântico de Antoine-Jean Gros. Em seguida, ele entrou para o Royal College of Besancon, onde, na classe de artes plásticas, participou de aulas de desenho na classe de Charles-Antoine Flajoulot, um ex-aluno de Jacques-Louis David. Courbet muda-se para Paris no final de 1839, passando a viver com seu primo Jules Oudot. Frequentou a faculdade de direito ao mesmo tempo em que frequentava as aulas do estúdio do pintor Charles Steuben. Courbet visitava o Louvre para estudar os mestres, especialmente os pintores da escola de espanhola do século XVII, Diego Velázquez, Francisco de Zurbarán e José de Ribera. Admirava o claro-escuro holandês.
Em 1848 dez pinturas suas foram escolhidas para participar do Salão de Paris. À partir daí Courbet passa a ser mais notado, inclusive por preferir retratar pessoas anónimas e simples, diferente do padrão da época, em que representavam cenas bíblicas, personagens da história e da mitologia.
Ele chamava a si mesmo de um "republicano por nascimento", mas não pegou em armas durante a Revolução de 1848, aderindo a suas crenças pacifistas. Ele entrou na política às véspera da Comuna de Paris de 1871 e desempenhou um papel ativo na vida política e artística do governo socialista de curta duração. Com o desaparecimento da Comuna, Courbet foi preso e condenado a seis meses de prisão por seu envolvimento na destruição da Coluna Vendôme, um símbolo da autoridade napoleônica. Em 1873, temendo perseguição por parte do governo recém-instalado, Courbet foi voluntariamente para o exílio na Suíça, onde morreu em 1877, de alcoolismo e doença hepática em La Tours-de-Peilz. Seus restos mortais estão atualmente no Cemitério de Ornans. Courbet se auto-proclamava o "homem mais rude e mais arrogante na França".

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

quinta-feira, 6 de junho de 2019

SER




Ricardo Faia

Ser

Eu sou quando me expresso 
Quando domino cada movimento, 
cada vibração sonora efémera 
Mas que ecoa pela eternidade 
Eternidade tenra do Ser humano
Contudo, eu e a terra, somos um.

A cultura do Hip Hop nasceu em Bronx nos anos 70, derivado às guerras entre gangues e quarteirões. Numa simples festa ( literalmente ), tudo mudou. Já não  se competia de “espada na mão” mas sim com as habilidades. O grito desta cultura ecoou mundialmente e agora afeta de forma positiva milhares de vidas, sendo a minha um exemplo. A expressão corporal, para mim, é tudo. Quando me mexo, estou a ser! É, então, uma das raízes sólidas e mais primais do Ser humano. Cada átomo movimentando-se, complementando-se, dando o exemplo ao corpo inteiro e sociedade de que movimento move as pessoas. Expressão espreme emoções. Assim, numa tempestade perfeita, os instintos mais profundos são, novamente e ferozmente, demonstrados. Expressão de movimento. “Nada se perde, tudo se transforma”.


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Curso Livre de Teatro




1º CURSO DE FORMAÇÃO DE ATORES E ATRIZES
Faltam só 17 Dias! Inscreve-te hoje

Os actores Jose Gil e Maria Simas dirigem de 17 de Junho a 17 de Setembro um Curso Livre de Teatro de 100 horas com diversos Modulos Autonomos.

"Prazer e Necessidade do Teatro " é o objetivo fundamental desta nossa formação teatral para todas as pessoas dos 4 aos 100 anos.

Inscreve-te Hoje! Antes que esgote.

CURSO LIVRE DE VERÃO DE TEATRO DO IPS “O CÓMICO E O POPULAR”
Já temos uma dúzia de inscritos entre crianças, jovens e menos jovens, a maioria do nosso Instituto IPS e do nosso Teatro Comunitário Protocolar Artimanha.

Podemos ter mais uma dúzia inscrevam-se rapidamente!

Além das aulas vamos aos dois maiores Festivais Internacionais de Teatro de Verão. Festival de Teatro de Almada e em Agosto Festival Internacional de Setúbal organizado pelo Teatro Estúdio Fontenova e pela Câmara Municipal de Setúbal. Espetáculos de todo o mundo a preço acessível com debates sempre que possível.

Curso Livre de Teatro do Instituto Politécnico de Setúbal entre 17 de Junho e 17 de Setembro 2019. Aulas diversas ao longo do dia e da tardinha. Total de 100 horas Módulos de 20 horas para diversas faixas etárias dos 4 aos 100 anos mediante Casting simples.

Design de Som, PlayList, Musica, Dança, Voz, Corpo, Cenografia, Encenação, Escrita Teatral para o Cómico e o Popular, Circo, Iniciação à Prática Teatral Professores Jose Gil e Maria Simas (direção do Curso) Filipe Fialho,Sónia Lima, entre outros. Inscreva-se já!

Inscrições simplex teatro.politecnico@ips.pt, pessoalmente na Escola Superior de Educação, (ou telm.912796824).

terça-feira, 4 de junho de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Mas o que é isto de o nosso primeiro-ministro se demitir para assumir o cargo de Presidente da Comissão Europeia? 

Não me admiraria muito que isto fosse cacofonia jornalística para desestabilizar a governação. 

Há esconsos poderes e muitos poderosos que estão interessados que as instituições paralisem.
Investigações como as do caso do apito dourado e processos como os da pedofilia põem em causa muita coisa e envolvem muitos nomes grados e, quiçá, capazes de tudo. 
Não admira pois que hajam forças que visem, precisamente, enredar de tal modo esses casos com o propósito de que resultem em nada. 
De maneira que não me espantaria que Durão Barroso estivesse a escorregar numa possibilidade que a imprensa de encomenda que temos logo tratou de ampliar para que depois do assentar da poeira ele acabe por surgir mais fraco e pronto a aceitar certos diktats. 

Mas a ser verdade não sei se seria esta a melhor ocasião para proceder a uma mudança de governo, agora que a economia dá mostras de começar a arrebitar e, provavelmente, viriam a calhar algumas medidas de estímulo para a recuperação de alguns sectores de actividade, para já não falar das tão necessárias apostas no ensino e na educação e na reforma de toda a justiça. 


É verdade que seria interessante para o país ter alguém naquelas funções mas, neste caso, não sei se o preço a pagar por isso não virá a ser maior que os dividendos que eventualmente possam ser obtidos. 

E quando o nome de Santana Lopes vem à ribalta para substituir o primeiro-ministro, então a sensação com que ficamos é a de estarmos a viver na aldeia de Geppeto. 


Esperemos pelo desenrolar dos acontecimentos. 

Portugal está no limiar de uma tragédia. 



O Verão começou com calor. 
Há muitos dias que os termómetros vão acima dos trinta graus. 



Esta tarde comprámos os candeeiros para os novos aposentos do lar e até nem gastámos muito; noventa e nove euros. 



E esta noite em que saí de casa após o jantar por vontade da família, acabei por passar um serão de esplanada com uma conversa muito interessante a respeito da democracia. 

Esteve em confronto a ideia da democracia participativa versus democracia representativa, vista aqui como uma forma a ser aperfeiçoada e aprofundada pela outra. 
Enfim, um ponto de vista que vem na esteira do guru Sousa Santos que nem dá conta que essa foi, por exemplo, a experiência de todo o poder aos sovietes e conhecemos o resultado. 
Nem mesmo é possível imaginar uma sociedade em que o poder residisse nos grupos de representação – do quê? De quem? – em que os diversos componentes do tecido social poderiam ter uma participação activa e directa. 

Mas é pena que as pessoas não compreendam a pertinência e as virtudes da democracia, por si, que ainda não vimos como possa deixar de assentar na lógica da representatividade, mesmo não deixando de admitir que esta possa ser melhorada e em alguns planos aprofundada pela complementaridade, em certos níveis e em diversos âmbitos, com a participação directa dos cidadãos que, seja em que situação for, sempre deverá resultar do activismo cívico que, em qualquer caso, é tanto mais saudável quanto mais robusto e intenso. 


É tão arrepiante quando fazemos o exercício de listarmos os inimigos da democracia. 



No Iraque continuam as bombas da Al-Qaeda para testemunharem como estes criminosos sabem bem que ali se joga o principal campo de batalha da guerra mundial contra o terrorismo. 

Ironicamente, são certos governantes do ocidente que parecem ser os únicos que não o compreendem.  


Alhos Vedros 
  26/06/2004

segunda-feira, 3 de junho de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (350)



Barques à Martigues, Autor Raoul Dufy, 1908
Óleo sobre Tela, 65 x 54 cm



Raoul Dufy nasceu a 3 de Junho de 1877, em Le Havre, na Normandia e morreu a 23 de Março de 1953. Aos 18 anos. Começou a ter aulas de artes na École des Beaux-Arts de Le Havre, uma escola municipal. As aulas eram dadas por Charles Lhuillier, que 40 anos antes tinha sido aluno de Jean-Auguste Dominique Ingres, um famoso pintor retratista francês. Lá, Raoul conheceu Raimond Lecourt e Othon Friesz, com quem mais tarde teria um estúdio em Montmartre e uma longa amizade. Neste período, Raoul pintava principalmente paisagens normandas em aguarelas.
Em 1900, após um ano de serviço militar, Raoul ganhou uma bolsa de estudos na École nationale supérieure des Beaux-Arts, em Paris, onde reencontrou o amigo Othon Friesz. As paisagens impressionistas o cativaram profundamente, em especial as de Claude Monet e Camille Pissarro. Sua primeira exposição ocorreu em 1901. No ano seguinte, expôs seus trabalhos na galeria de Berthe Weill. Expôs novamente em 1903, no Salon des Indépendants. Maurice Denis chegou a comprar um de seus quadros. Os locais que Raoul gostava de pintar eram os arredores de Le Havre e a praia de Sainte-Adresse, famosa nos quadros de Monet e Eugène Boudin.
Dufy foi um grande mestre da primeira metade do século XX.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 2 de junho de 2019

Maria das Dores Nascimento - Novo Livro



Novo livro de Maria das Dores Nascimento, "O Homem que tinha Medo de que ninguém fosse ao seu Funeral". O lançamento será na 48ª Feira do Livro de Alhos Vedros que se realizará entre 27 a 30 de junho, junto ao Coreto.


sábado, 1 de junho de 2019

EG112



ESTUDO GERAL
mai/jun     2019           Nº112


Amor também se faz na cozinha.


Sumário
Suburbanos 1

Real...Surreal...Irreal

3.                 Inéditos – Pedro Du Bois
Poemas

4.                 Deus está solto – Eduardo Aroso  
Agostinho da Silva/Caetano Veloso

5.                 Agostinho da Silva 89... parlamento – Eduardo Martins
Fotografia

6.                 O Diário da Matilde – Luís F. de A. Gomes
Diarística

7.                 Espagíria – Luís Santos
Receitas



---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Colóquio Filosofia e Poesia em Agostinho da Silva


Colóquio Filosofia e Poesia em Agostinho da Silva (nos 25 anos da sua partida)
2 de Julho de 2019 – Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

14:30 – Abertura
14:45 – 16.45
José Eduardo Reis (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) – "O tópico da alimentação humana no projeto enciclopédico-utopista dos Cadernos de Informação Cultural de Agostinho da Silva"
Luis Santos (Escola Superior de Educação de Setúbal) - "As últimas cartas e Um poema".
Bruno Ferro (Membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva) – "Agostinho da Silva e a Inteligente e Amorosa invenção dos caminhos para Deus".
Maurícia Teles (Presidente da Associação Agostinho da Silva) - "Agostinho da Silva, Além de Poeta...Poema"

16.45 – 18:15
António Cândido Franco (Universidade de Évora) - “A biografia de Agostinho da Silva"
Paulo Borges (Universidade de Lisboa / Membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva) – "Agostinho da Silva ou o filósofo crítico da filosofia"
Miguel Real (Escritor, Filósofo) – título a indicar
18:15 – 18:30 – Pausa

18:30 – 19:30
Amon Pinho (Universidade Federal de Uberlândia): "Da Filosofia como modo poiético de vida"
Romana Valente Pinho (Universidade Federal de Uberlândia): "Agostinho da Silva, vida e obra: um exercício de problematização da sua recepção"

19:30 – 20:00 - Apresentação por Amon Pinho do livro de Agostinho da Silva, Filosofia enquanto Poesia - Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Conversação com Diotima, Filosofia Nova e outros textos, organização de Amon Pinho, São Paulo, Editora É-Realizações, 2019.

20:00 Encerramento

Entrada livre
Metro Cidade Universitária
Organização: Núcleo de Pensamento Português e Cultura Lusófona do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Apoio: Círculo do Entre-Ser

terça-feira, 28 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Olá, pais! 

Sou o pai da Margarida. 

Não lhes pareça estranho estar a dirigir-lhes a palavra e muito menos tomem isto por uma ousadia da minha parte, certo que estou que todos nós sabemos o que de melhor queremos para os nossos filhos; espero que não pensem que venho aqui arrogar-me de qualquer autoridade para os aconselhar no que quer que seja, mas há umas quantas preocupações que quero partilhar convosco. 
Vem isto a propósito de facto de pretendermos que esta turma continue a mesma com a sua passagem para a Escola José Afonso. 

Aconteceu que tivemos a felicidade de encontrar uma Professora Primária que, pela continuidade e qualidade do seu trabalho, legou aos alunos as bases necessárias para que eles possam encarar o ciclo seguinte com toda a confiança, uma vez que possuem todos os requisitos para aprenderem as matérias e desempenharem as provas exigidas com sucesso. A rapaziada sabe ler, escrever, contar e fazer contas e explicar-se convenientemente; foi-lhes incutido o interesse por variados assuntos e o gosto por os discutir e estudar, sabendo pois, na generalidade, pôr em prática as suas ideias. Uns mais que outros, como é natural que seja, mas todos estão aptos a assimilarem as matérias e a desempenharem os exercícios que vão ter pela frente. 
Além disso, há nesta classe um número razoável de bons alunos e de crianças interessadas em aprenderem que garantem a possibilidade de um ritmo de trabalho que puxe pelos que, eventualmente, venham a revelar mais uma ou outra dificuldade. 

Assim eles venham a ter Professores que deem continuidade ao esforço desenvolvido no primeiro ciclo. Mas também que continuem com a vontade e o empenhamento que até aqui revelaram. Haja a confluência de forças dessas duas partes e são muitas as probabilidades de que estaremos tranquilos com os resultados finais desta nova etapa que em Setembro começará. 

Ora é aqui que tenho algumas interrogações. 
E se me permitem, na minha modesta opinião, creio que para tal, em primeiro lugar, é bom que tanto uns como os outros sintam a nossa presença o que implica que nos apresentemos nas reuniões com os directores de turma e que sempre que surjam problemas nos disponibilizemos para colaborar na sua resolução. Por um lado, importa que os Professores percebam que têm diante de si um grupo de raparigas e rapazes cujos pais estão interessados que tenham um bom desempenho escolar para que mais tarde venham a poder escolher um caminho e, por outro lado, será essa a forma dos miúdos nunca poderem pensar que na escola, para lá das regras inerentes, estão apenas sujeitos ao sabor dos seus desejos e vontades. 
O resto, todos nós sabemos, contudo, não seria descabido se nos mantivéssemos sempre abertos a comunicarmos uns com os outros o que só pode facilitar-nos no acompanhamento dos nossos filhos. 

Pois bem, eu não queria deixar de manifestar estas minhas preocupações e partilhá-las convosco, antes de os convidar a assinar o pedido para que a turma continue na Escola José Afonso e que um grupo de pais irá apresentar ao Conselho Directivo daquele estabelecimento de ensino. 
Creio que todos temos consciência daquele documento e, por isso, o iremos assinar. 


É este o texto que eu irei apresentar aos encarregados de educação da turma da Margarida, na próxima segunda-feira, na reunião final de um ano e de um ciclo em que todos os alunos foram aprovados. 



E se ontem deixei em branco estas páginas foi pelo simples facto de me ter esticado no sofá para a assistir a um desafio entre as selecções de Portugal e da Inglaterra e acabei por me deparar com um jogo de tal forma emotivo e bem jogado que também eu me deixei emocionar como há muito não acontecia com uma partida de futebol. 

Na verdade, em termos futebolísticos, tratou-se de uma noite épica em que os portugueses depois de a poucos minutos do fim conseguiram empatar um resultado que lhes era desfavorável desde os três minutos do tempo regulamentar e depois de, na segunda parte do prolongamento, terem conseguido dar a volta com um golo espectacular de Rui Costa, um pontapé fulminante e certeiro à parte superior do centro da baliza que deixou o guarda-redes pregado à relva, consentiram a reposição da igualdade que só viria a ser desfeita através dos remates directos da marca de grande penalidade, não sem um falhanço para ambos os lados e, já em fase de erro fatal, o guarda-redes português tenha defendido uma bola sem luvas para, em acto contínuo, ser ele a anichar o esférico entre as redes, explodindo então com a alegria incontível de quem ganhou a eliminatória. 
Acresce que houve um número quanto baste de boas jogadas, com perigo para as balizas de um lado e do outro, embora os das quinas tenham conseguido maior posse de bola e criado mais perigo para a equipa contrária, com os nossos defesas, na maioria das situações, a imporem-se aos avançados britânicos, no que destaco a classe e elegância do central Ricardo Carvalho, para mim, do que tenho visto, o jogador revelação do torneio, capaz de cortar lances com toda a perícia e sem qualquer irregularidade e de ainda controlar a bola para a passar jogável aos companheiros e, com isso, lançar contra-ataques. 

Há muito tempo que não vibrava tanto com um jogo e confesso que também eu levantei o braço quando o Hélder Postiga fez o primeiro golo que repunha a verdade no marcador, uma vez que essa oportunidade há muito que era merecida pelo empenho e a imaginação dos jogadores nacionais. 
Depois foi a explosão provocada pela magia de Rui Costa e a sensação de que seria uma injustiça que, depois disso, isto é, depois de um momento tão espectacular, os portugueses viessem a perder. 

E o final de Ricardo deu o tom épico a uma noite que já tinha engrandecido aquele desporto. 


Ainda mais com as claques misturadas nas bancadas sem que tenha acontecido qualquer problema. 



Hoje foi o último dia de escola. 


A Matilde sabe agora o que significa a palavra férias grandes. 


Houve festa e os alunos trouxeram os materiais que são para ficarem em casa. 
Ontem houve um jogo de futebol entre os alunos do quarto ano a que toda a escola assistiu e a que a Margarida não faltou e a Professora da Matilde aproveitou para recomendar os exercícios que os alunos deverão resolver durante as férias. 


Agora viva o descanso que para os meus amorzinhos bem merecido é. 



O que é isto? 
Durão Barroso para Presidente da Comissão da União Europeia? 

Aqui há gato. 


 Alhos Vedros 
  25/06/2004

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Espagíria


A imagem pode conter: comida

. Alimento dos Deuses

Cacau, significa literalmente alimento dos deuses. Por isso, sendo que o açúcar e o leite de vaca, já não são aquilo que eram, aconselhamos "mais chocolate (negro) e menos açúcar", como muito bem concluiria uma aluna minha.

Na Grécia Antiga, dizia-se que a "ambrosia", também chamada de "manjar dos deuses", era o alimento do Olimpo com grande poder de cura...

Ambrósia é também o nome de um doce originário da Península Ibérica que se chama "doce de ovos".

Numa receita arrojada poderá combinar ovos, cacau, mel, manteiga clarificada, sumo de limão (tudo q.b.), a que se pode adicionar frutos secos e/ou da época, polvilhado, ou não, com uma porção generosa de canela, e bom apetite.


. Alimento dos Santos

Pão ázimo
Ingredientes:
- 1 Kg Farinha integral de trigo (ou outros cereais: aveia, ou cevada, ou centeio)
- 1/2 litro de água
- meio copo de azeite
- sal a gosto
Opcionais: ovos e mel.

Extratos naturais com propriedades químico-preventivas.
Por exemplo, hóstia sagrada (circular, 3cm de diâmetro).
Pão e vinho, transubstânciação.


. Poção Mágica

à moda do druida Panoramix:
- visco (colhido com foice de ouro)
- nabos, cenouras e beterrabas, quanto baste
- morangos para adoçar
- um trevo de quatro folhas
- um pouco de peixe fresco
- uma pitada de sal

(na alternativa vegetariana, prevenindo a falta da vitamina B12, pode substiutir o peixe por manteiga clarificada "ghi" ou "ghee", e bom apetite!).


Luís Santos


quarta-feira, 22 de maio de 2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Darfur continua a ser palavra de sofrimento para uma África esquecida pela comunidade internacional. 

O próprio Kofi Annan está embaraçado por nada conseguir fazer quer para no imediato atender à sorte de milhares de refugiados que fogem à morte pelas armas do exército, quer para encontrar uma solução para um país desmantelado que vive há vinte anos uma guerra civil de que pouco se fala mas que não deixa de ser por isso menos mortífera e perigosa do que as outras que tanto espaço ocupam nos media internacionais. 

E não digo isto pelo facto de estarmos a falar de um conflito que se trava na fronteira entre o mundo muçulmano e o mundo cristão e que opõe esta última comunidade que ali se trata de uma minoria religiosa à maioria islâmica que controla os destinos do governo e as instituições que ainda funcionam. 
Mais alarmante é a realidade de um estado completamente desorganizado e exposto ao poder de controle das máfias ou do terrorismo mundial. O exemplo mais emblemático desse perigo foi, recentemente, o caso do Afeganistão sob o controle dos talibãs. 


Eis um desafio que se coloca às sociedades mais ricas do planeta. 

Como conseguir que não cresçam tais pontos de corrosão a partir dos quais podem vir a organizarem-se forças que, eventualmente, consigam adquirir as capacidades para pôr em causa o nosso mundo de vida livre. 


Está na hora de começarmos a pensar numa civilização de estado de direito a nível mundial. 

Duas coisas são certas e acréscimos dos últimos anos; o planeta é a casa comum de uma espécie única que é a Humanidade a que todos pertencemos. 



E Portugal que lá venceu a Espanha, defrontará amanhã a Inglaterra nos quartos-de-final do campeonato europeu de futebol. 


Se os portugueses aproveitassem toda esta energia para aplicarem ao trabalho produtivo e em certas áreas vitais como por exemplo a educação e a ciência… 


Mas enquanto se embriaga pelo efeito anestésico de um pontapé de mestre de Nuno Gomes, a vergonha da nossa justiça continua, alegremente, a dar mostras do estado de arbitrariedade a que chegou. 
Agora são os condenados do caso moderna que vêm as penas anuladas e transformadas em absolvições, com a redução de dez para sete anos de prisão do que acabou por ser o único dos pronunciados ao cárcere e a alteração em dois anos de pena suspensa para os três que o Tribunal de primeira instância ditara a um dos seus colaboradores. 

Enfim, o Carlos Cruz já tem uma coluna dominical no “Público” a respeito do Euro 2004. 

Afinal, o que há de estranho neste reino do homo maniatábilis? 

Vivemos sob uma ditadura de interesses esconsos. Entre nós, o estado de direito passou a uma figura de estilo. 



Aqui no burgo, fala-se agora em referendar a constituição europeia. 
Parece-me muito bem que se faça. 

E espero que finalmente possamos ter um debate a sério sobre a União Europeia. 

Vale sempre mais tarde que nunca. 



Hoje houve visita ao Oceanário. 

Segundo a Matilde, tanto ela como a Beatriz serviram de cicerones aos colegas e não se esqueceram de lhes falar da noite que ali dormiram, no ano passado. 



Agora há uma missa de Mozart a contemplar as estrelas.
Vou fechar os olhos para ouvir melhor. 


Alhos Vedros 
  23/06/2004

segunda-feira, 20 de maio de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (349)


Auto-retrato, Henri Rousseau, 1890
Óleo sobre Tela, 146 x 113 cm

Henri Rousseau, conhecido como o Alfandegário, nasceu em Laval, França, a 21 de Maio de 1844 e morreu em 2 de Setembro de 1910.
"Rousseau, o legendário, o mestre: se tivesse possuído dotes de pintor, se tivesse sabido desenhar, a sua ingenuidade e o seu ardor te-lo-iam convertido num homem genial. estes torpes que provocam o riso, têm o que falta aos seus admiráveis companheiros: a fé e a ingenuidade".
Alfred Jarry sobre Henri Rousseau.

Selecção de António Tapadinhas

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"




por Eduardo Aroso

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

Maio 2019

(in, António Telmo. Vida e Obra. Ver mais aqui: https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt )

ORGANIZAÇÃO: LIGA DOS AMIGOS DE SESIMBRA


terça-feira, 14 de maio de 2019

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A MARGARIDA TEVE AZAR

Coitada da Margarida a quem o azar bateu à porta. 

Ontem, na aula de ginástica, caiu ao tentar fazer um mortal e em consequência disso torceu o pé esquerdo. 

Perante a possibilidade de haver algum osso partido, conduzimo-la de imediato ao hospital onde, após as radiografias e outros exames, se concluiu que, apesar de grave, a lesão se ficara por uma entorse. 

Dez dias de repouso, o pé ligado na primeira semana e canadianas para que o pé não faça força, são estes os paliativos para o atropelo. 
E para que o remédio surta efeito é necessária a calma e a paciência que levem à aceitação e ao aproveitamento das horas que se perspectivam no sofá, de perna estendida mas, avaliando pelo primeiro dia, tudo indica que o vendaval passageiro será vencido com tranquilidade. 


Claro está, a ginástica e a escola terminaram, no entanto não haveria por isso qualquer problema uma vez em que em ambas as situações tudo estava consumado e nada se alteraria nesta última semana. 

Seja como for, já disse que se sentir melhor, na próxima quinta-feira irá assistir ao jogo de despedida dos seus colegas de turma. 

E não quis que a mãe tentasse adiar a ida para a “gente miúda” pelo que a Matilde irá sozinha para aquelas actividades de tempos livres numa quinta, na Moita. 



Por sua vez, a Matilde ficou comigo e esperou que a mãe e a irmã chegassem, embora soubéssemos o resultado das observações através do telefone. 

É bonito ver como ela se presta a auxiliar a irmã sem que para isso seja necessária a menor solicitação. 



A Céu, do centro de enfermagem, teve a simpatia de emprestar as muletas com o tamanho apropriado para as crianças. 



Ontem os alunos aprenderam a palavra quadro e hoje o número trinta. 

“-Eu já sabia o que é o q, agora é mais fácil.” –Disse o pardalito com o seu ar sorridente enquanto tratávamos do banho. 



Livros escolares da Matilde, IV 

“Palavra a Palavra”, livro de apoio ao método das vinte e oito palavras, de autoria conjunta de Arminda Craveiro, Adriana Figueiredo e Maria Teresa Dias, em exemplar da primeira tiragem da primeira edição, publicado no Porto, em dois mil e três, pela Porto Editora. 



Há duas aves em voo silencioso pela noite. 

Creio que são bufos à procura de refeição em forma de répteis e pequenos roedores que cirandam pelos campos. 

Muitos são os que sob o luar tratam da vida. 


Alhos Vedros 
  22/06/2004

segunda-feira, 13 de maio de 2019

REAL... IRREAL... SURREAL... (348)


Leda e o Cisne, Autor Vieira Portuense, 1798
Pintura a óleo sobre tela, 102 cm × 127 cm 

Francisco Vieira (nome artístico, Vieira Portuense) nasceu a 13 de Maio de 1765, no Porto e morreu a 2 de Maio de 1805, no Funchal.
Foi um dos maiores pintores da sua geração, introdutor do neoclassicismo na pintura portuguesa, ocupando lugar destacado juntamente com Domingos Sequeira. Presume-se ainda que terá frequentado a Aula de Debuxo e Desenho do Porto, antes de rumar a Lisboa, onde frequentou a Casa Pia e a Aula Régia de Desenho. A seguir prosseguiu os estudos em Roma, financiado pela família e pela Feitoria Inglesa ou, muito provavelmente, pela Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro. Viajou por Itália, Alemanha, Áustria e Inglaterra antes de regressar a Portugal em 1800.
Nos anos que passou em Roma foi discípulo de Domenico Corvi (1721-1803) e obteve o 1.º prémio de Desenho no concurso da Academia do Nu do Capitólio (1789). Trocou inúmeras cartas com o seu patrono, D. João de Mello e Castro, embaixador português em Roma, e com o secretário deste, Augusto Molloy. Através desta correspondência ficámos a saber, por exemplo, que auferiu de uma pensão régia de 8 escudos romanos, aumentada em quatro escudos a partir de 1791 e que deu aulas a D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho Monteiro Paim, esposa do embaixador português.
Contraiu tuberculose e mudou-se para a Madeira, em busca de melhoria do seu estado de saúde, mas acabou por falecer, sendo sepultado na Sé do Funchal. Lê-se, no seu assento de óbito, o seguinte: "(...) faleceu, repentinamente, na casa de pasto de Maria Watror, viúva, e Católica Romana (...)".

Está representado no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa e Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto.

in Wikipédia

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 11 de maio de 2019

Inéditos - Pedro Du Bois


CORPOS E MARCAS

O corpo marcado
no que outros corpos
escondem

o segredo da vida
posto
disposto
reposto
em respostas
marcadas

palavras silenciam
o corpo esclarece
e marca

o medo cristaliza
mentiras em verdades
e o corpo
se transubstancia
na maldade
de alguém cujo
corpo marca.



DETALHES

Busca nos detalhes
o ponto de apoio
anelo
anelado dedo com que se defende dos oferecimentos
e se esconde dos tormentos

detalhes o mantém à salvo das estéreis horas
de retornos fossem pedras carregadas nos bolsos
raivas concentradas na incapacidade do espelho

enrola o fio
o anel cintila
no dedo solto
em sobressalto

não há morte nos detalhes secos e ásperos
o tempo ajustado
solta as amarras
retira o anel.



ARABESCO

O arabesco ecoa trombetas
antigas inimigas percorrem 
muros no estado do barulho

o arabesco mudo
em mudanças
na trama não urde
o tecido esgarçado

amigas chegam
no calor da noite
tocam seus dedos
sobre as feridas

o arabesco desnudo
em traços percorridos
no silêncio do dia findo.

(Pedro Du Bois, inéditos)
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outros poemas: