quarta-feira, 30 de agosto de 2017

SolangeDasCerejas, 53 Poemas de Amor


de José Gil

"SolangeDasCerejas, o mundo é redondo como o teu ventre fértil

Vou voar em sonho de madrugada de Lisboa para Belo Horizonte
És de Minas, serei de Minas sangue de aço do poeta Drummond

Serei mineiro no teu corpo no dia em que nos faltam as forças
Em que mudam os anos de vigor do minério e da sua poeira seca
Eu sonho em castelo, bela princesa do memorial divino, vou
Tocar todo o teu peito com pedrinhas doces e sensíveis"

(poema da contracapa do livro SolangeDasCerejas, de José Gil)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Chegou a hora dos simples cidadãos falarem entre si. 

O país bateu no fundo e no aspecto político restam muito poucas reservas que possam interpretar a inversão deste quadro de estado comatoso em que se encontra a sociedade portuguesa. O próprio Presidente da República que se esperaria fosse um poder de influência fundamentado na força moral e ética, cujas palavras sempre se constituíssem como indicadores de pertinências, desencadeou uma série de intervenções que o colocaram ao nível da mexeriquice. 
Enquanto isto, o estado revela-se incapaz de cobrar impostos, há denúncias de casos e casos de homicídios por resolver em sede de investigação, a lei tem buracos que, em nome de garantias e direitos dos arguidos, permitem protelamentos que possibilitam que os mais poderosos se coloquem a salvo da sua alçada. 
Há a sorte de uma boa parte da economia continuar laborando e pagando impostos ainda que o colapso não seja uma hipótese a excluir. 
Mas os governantes não dão mostras de saber o que fazer. Não definem prioridades nem estratégias para que o país se afirme no contexto das nações e recupere na distância que o separa dos mais desenvolvidos da União. No parlamento andamos pela lana caprina e as grandes questões passam ao lado. 
E em vez de investirmos na educação construímos estádios de futebol. Em vez de organizarmos um bom sistema de saúde criamos hospitais SA e organizamos torneios de bola. 

Chegou pois a hora dos cidadãos erguerem a voz e dizerem basta. 

O que é que nós queremos? 
Muito simplesmente queremos viver num país normal em que as pessoas encontrem trabalho e possam fazer planos de vida em conformidade. 
Queremos viver num país normal em que aos mais pobres e aos mais fracos assista a possibilidade de terem escolas para os seus filhos que não se limitem a albergá-los, arrecada-los até à hora em que saem para o ganha-pão, mas que os eduquem e os formem para poderem escolher uma profissão que lhes permita uma vida digna. 
Queremos viver num país em que aos mais pobres e aos mais fracos assista a possibilidade de tratarem de manter os seus corpos saudáveis e de os tratarem em caso de doença. 
Um país onde as empresas e os empresários tenham confiança em investir. 
Um país em que as leis tenham eficácia e a justiça funcione com rapidez e imparcialidade, de modo que aos mais fortes sejam cortadas todas as possibilidades de cilindrarem os mais fracos. 
Queremos um estado com força para proteger os seus territórios e os seus cidadãos e com isso contribuir para a paz e a segurança regional e mundial. 
Queremos viver num país que no contexto das nações seja respeitado pela vitalidade das suas trocas económicas e que seja conhecido pelos seus cientistas e homens de cultura. 
Queremos um país bonito com uma população bem distribuída e com a geografia natural bem aproveitada e alindada. 

Se chamamos idealismo a isto, então estamos apenas admitindo que não somos capazes de o fazer e se isso nada prova quanto às nossas capacidades em termos de facto, deixa bem clara a demissão de quem o afirma, da sua incapacidade para o fazer. 



Hoje os alunos preencheram a aula com exercícios e fichas com números e contas. 



O “Abecedário dos Desertos” é o melhor caderno da colecção que o “Público” vendeu há uns meses atrás. 
É incrível a variedade das paisagens naturais que os desertos terrestres nos proporcionam e a das expressões que as humanizações aí adquirem também. 



Afinal, parece que os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra nunca tiveram informações seguras sobre a existência das armas de destruição maciça no Iraque. 
Eis um facto que prejudica os aliados e a causa da paz e embaraça todos os democratas que, pelo menos, não se mostraram opositores das operações militares que levaram ao derrube do regime de Saddam Hussein. 
Temos que reflectir profundamente sobre o assunto que é muito sério. 

E não podemos esquecer que todos os inimigos da liberdade estão de olhos postos nas oportunidades que uma quebra de flanco como esta lhes pode proporcionar. 

Podem não parecer, mas estes são anos de chumbo. 


 Alhos Vedros 
  05/02/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Le Quellec, Jean-Loie e Barthèlemy, Guy, ABECEDÁRIO DOS DESERTOS, Tradução de Ana Gerschenfeld, In, “Público”, Lisboa, 2003

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (269)

The Blue Fairy Whispers to Pinocchio
Paula Rego, 1995


No Centro Comercial Colombo foi inaugurada a exposição de obras daquela que é uma das principais figuras da arte contemporânea 

"O Mundo Fantástico de Paula Rego".

Esta exposição vai estar patente ao público até 27 de Setembro. A não perder.
E é de borla...

Selecção de António Tapadinhas


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

'Reflexões - Encontros com o Eu'


Foto de Lucas Rosa

Por vezes é preciso um tempo e um espaço para nos recolhermos dentro de nós mesmos, em algum momento que nos possamos permitir a tal introspecção. 
Precisamos de nos libertar das vestes em que nos tornámos viciados, limpar a casa, a nossa casa interior, o nosso templo, varrer o velho, e deixar aquele vazio chegar... Não um vazio mau, mas aquele que abre um espaço e pode acolher o novo e a esperança em algo melhor.
A vida por vezes, apanha - nos na correria, nos afazeres, ou então, na apatia, no descanso, momentos vários, que, de uma forma, ou de outra, não permitem o diálogo entre os nossos vários 'eus', de nós connosco mesmos.
Esse diálogo é no entanto urgente e necessário.
E tal ocorre em várias fases da vida, esta necessidade.
Reciclagens que devemos ir fazendo...
Sentir, pensar, expressar afetos sem medo, de cada um para consigo próprio, os muitos 'eus' que temos, num ameno diálogo em que passado, presente e futuro se confrontam e cruzam, diálogos vários, pensamentos soltos em forte catarse...
É aqui também que tomamos contacto com o nosso inconsciente, exposto sem reservas, confrontado em si mesmo, pelo consciente que o desafia.
Nesta altura, por vezes, se o encontro é pleno, também se chora em silêncio ... Por vezes dá - se conta da responsabilidade imensa das nossas escolhas, da culpabilidade a ser gerida e compreendida por decisões de vida que arrastam outras vidas com elas, sem misericórdia...
Inevitáveis decisões, porém.
Inevitável escolher e decidir sair tantas vezes do convencional, do requerido, do esperado, e dar um salto no mundo desconhecido do vazio que nos aguarda, vazio que se ri do medo de quem o ousa confrontar...
Mas é todavia inevitável escolher.
Se muitos vivem na ilusória aparência do que reluz, outros ambicionam o verdadeiro encontro com eles mesmos, a autenticidade, a verdade.
Estes, os que não se iludem no quotidiano que cuida do seu narcisismo, impedindo-o de chegar ao eu e deitá - lo por terra nas suas insuficiências, estes, dizia, terão que romper com o confortável conhecido, onde nada cresce, nada evolui, apenas vive na ilusão de que o faz.
Muitíssimo mais arriscado esse confronto, esse salto no vazio, que desanima, se oco e pleno de nada, e se anima da mais harmoniosa esperança se abre espaço à nossa entrega total ao que virá.
Alguns de nós simplesmente não querem ser felizes, nem deixar de o ser... Entendem pois que o caminho faz - se do bom e do menos bom, não buscam um paraíso perdido, mas tão só pensar e caminhar, sentindo a cada momento único de felicidade aquilo que traz consigo, e concedendo o saudável espaço de encontro com o seu lado sombra, integrando - o finalmente, indo ao encontro do Self.
Não devemos pois temer nada.
Nem a nossa personalidade, nem a nossa sombra... Não devemos sobretudo viver na ilusão.
A ilusão do espelho, e a ilusão do mundo que olhamos.
Devemos nada temer.
Não temer também as escolhas que fazemos ao longo desta caminhada, que mais não é que uma breve passagem, onde bem e mal caminham lado a lado, inevitavelmente. É que um não existe sem o outro.
Toda a escolha, cada uma das nossas escolhas, pode trazer dor e incerteza.
A verdadeira escolha traz dúvidas, questões, inseguranças várias, finalmente assumidas quando decidimos escolher.
Há quem lhe tenha correctamente chamado angústia existencial.
E de facto, em cada passo, o simples e fugaz optar por atravessar ou não uma estrada num dado momento, e repare - se que aqui falo de uma hipotética passagem pelo quotidiano, em que escolhemos atravessar, de facto, uma estrada para chegar ao outro lado do passeio, e esta escolha não muito pensada pode de facto traduzir - se na vida ou na morte... Nunca sabemos se somos atropelados nesta travessia... E no entanto, mesmo prudentemente, ou não, teremos de escolher quando e onde atravessar.
Escolhas. Angústias. Vida. Morte.
Nunca sabemos.
Temos que viver com o facto de termos que fazer inevitavelmente escolhas, sem sabermos na verdade as consequências das mesmas... Sabendo apenas que mesmo o não escolher se traduz em si mesmo, numa escolha...
A vida é por isso cheia de caminhos, escolhas, trilhos e encruzilhadas, várias...
Algumas significam momentos de dor e pesar, outras momentos mágicos, outros pura alegria...
Umas são quase uma eternidade, vivenciada com a Alma, num momento único atemporal ...
Outras são apenas isso mesmo, momentos...
Momentos que, ainda assim, devem ser antecedidos por maior ou menor reflexão, e que têm que acontecer para evoluirmos no caminho que vamos traçando.. Alguns evitam caminhar... Outros caminham como que sem olhar a nada que os possa levar para um lugar que desconhecem...
Preferem as rotinas, o quotidiano, as horas programadas...
Outros preferem arriscar e caiem...
Outros, porém, fazem do seu caminho uma verdadeira caminhada. Uma caminhada rumo ao Sol que desponta e que os ilumina não porque sejam selecionados, pois os Raios de Sol não selecionam apenas iluminam, mas porque se expõem a esta dádiva de Luz...
Precisam no entanto de fazer esta escolha. E esta escolha não é compatível com o senso comum.
Iludem - se sim, muitos, tentando até ser vulgares, com a sensação de que assim encaixam no esquema da sociedade alienada, têm a estranha e agradável sensação de serem normais...
Mas a vida e mesmo a resposta à nossa volta dos que a olham com o senso comum, vai fazer rapidamente com que os que não o são se apercebam de que não o podem ser.
Vão sentir por vezes até a discriminação, o preconceito, o dogma social do padrão onde esses outros encaixam, e entender de uma vez, que não pertencem a esse lugar. Viajam nele. Mas não lhe pertencem.
Nem todos ousam fazer algumas escolhas...
Deitar fora o certo pelo incerto...
Tantas vezes o passo fundamental para quem ousa ser livre no pensar, no agir, e na vida...
Livre não por um qualquer ato de egoísmo, mas antes por um ato de lucidez plena do quão pequena se torna uma vida pregada ao materialismo e ao comum, se reduzida a isso mesmo.
Pensar, ser simplesmente pensante, é na nossa sociedade um ato puro de rebelião.
Ato permitido apenas aos que ousam sair do sistema, este desenhado cuidadosamente para nos manter alienados por entre o entretenimento e as horas de trabalho, ou a falta dele e a falta de recursos básicos... Alienação total, formatação de cada indivíduo, para que encaixe no molde, no convencional, sendo mais uma peça do sistema.
Por isso não tenhamos medo do confronto connosco e com o Ser no Mundo...
De ser pensantes, ainda que reduzidos ao Nada.
De ousar finalmente deixar de querer encaixar e sermos autênticos na nossa originalidade, humanos com o mundo, críticos e pensantes, interventivos se necessário for.
Inevitável escolher a verdade, o encontro com o Eu e com o Outro, inexorável afirmar a nossa diferença perante um sistema que nos quer alienados e não pensantes. Questionamos. Escolhemos. Ousamos. Pensamos.
Enfim, caminhamos.
Mas nunca esquecemos, e citando Goethe: 'Nem todos os caminhos são para todos os Caminhantes'.
Assim é. 

Por Lúcia Reixa Silva, 24/8/2017


terça-feira, 22 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A MATILDE JÁ LÊ SOZINHA

Palmas para a Matilde! 
Ao jantar, a pardaloca querida conseguiu ler a palavra suave. 
Primeiro identificou cada uma das letras e depois leu cada uma das sílabas, acentuando o a e a letra e para de imediato ler apropriadamente aquele adjectivo. 

Não sei se o que mais me encantou foi a proeza em si ou se foram os olhinhos brilhantes com que o seu rostinho mostrava a satisfação pessoal. 
Ora toda a família aplaudiu e os pais, cheios de orgulho, beijaram os cabelinhos curtos que ela tanto gosta de usar. 



E os robots geólogos continuam trabalhando em Marte. 
Como é fantástico que os humanos consigam comandar operações que decorrem em outro planeta. 



Hoje os alunos fizeram exercícios de leitura e escrita com as palavras dadas e suas derivadas. 
Treinaram as vogais com o la, le, li, lo, lu. 



A Margarida que ontem à tarde foi ao médico a propósito de uma dor nos ouvidos, dado o diagnóstico de uma pequena infecção devidamente medicamentada e por estar com um ligeiro estado febril, por prevenção, ficou em casa. 

E hoje, ao fim da tarde, só a Matilde foi à aula de ginástica. 



Nestes dois dias, o Sol fez com que os campos dessem um ar de Primavera de tanto sorrirem de amarelo. 
Num dos valados que rodeiam a via dupla que agora liga Alhos Vedros à Moita vi a primeira papoila do ano. 

Não ligámos o aquecimento. 

 Alhos Vedros 
  04/02/2004

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (268)

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, Ode Triunfal
Desenho de Pedro Sousa Pereira

Selecção de António Tapadinhas


sábado, 19 de agosto de 2017

Inula Marítima



Revestiu-se de grande sucesso o 1º Festisal, certame organizado pela Fundação das Salinas do Samouco no passado mês de julho. Participaram entusiasticamente cerca de seis centenas de pessoas de todas as idades. A iniciativa, plenamente integrada na filosofia eco ambiental, visou, entre outros objetivos, sensibilizar a população para o potencial educativo, científico e lúdico contido num espaço de quase 400 hectares que ficou denominado Salinas do Samouco, embora mais de 80% do território se situe na freguesia de Alcochete. A Festisal englobou um leque diversificado de atividades: rapação de sal, recriações históricas, artesanato, venda de produtos regionais, observação de aves, gastronomia, fornos solares, projeção de filmes, exposições, palestras temáticas, etc.
Neste âmbito, despertou enorme interesse o “showcooking” dirigido pelo “Chef” António Sequeira com demonstrações culinárias e respetivas degustações (talvez o mais cativante para quem busca experiências de novos sabores) efetuadas com plantas halófitas das salinas. A este escriba foi solicitado que, na véspera, colhesse folhas de salgadeiras, salicórnias, sarcocórnias, gramatas e inulas, o que foi efetuado com prazer para que tudo corresse a contento. Refira-se que as citadas plantas são todas elas edíveis, embora ainda não estejam integradas na gastronomia portuguesa tradicional. Apenas a salicórnia começa agora a ser popularizada como produto “gourmet” (Ver alusão no meu livro “Plantas para Curar e para Comer”).
Aproveitamos a ocasião para investigar sobre as propriedades gustativas da inula com que o “Chef” preparou um acepipe de camarinhas (pequenos camarões). A inula marítima, para além de ser uma planta salgada, tem sabor forte e característico o que confere identidade própria a qualquer prato.
Há várias plantas designadas por inula, mas falo-vos da Inula crithmoides, de seu nome científico, espécie da aristocrática família das compostas ou Asteraceae. Trata-se de uma planta perene, simples, glabra, ramosa e ascendente que pode atingir 8 dm de altura. As suas folhas são carnudas, estreitas, quase lineares, sésseis e alternas. Os caules são lenhosos e um pouco torcidos na base. As flores, agrupadas em capítulos, apresentam-se de amarelo dourado com pétalas estreitas e brácteas imbricadas em várias filas. São hermafroditas e surgem de maio a setembro. As sementes, de 2 a 3 mm, formam aquénios angulosos hirsutos e pubescentes.
A inula não suporta a sombra, adorando o calor. Prefere solos ligeiramente ácidos, formando tufos e pode ser encontrada em orlas de sapais, muros de salinas, esteiros e mesmo em esporões rochosos e arribas litorais, como recentemente vimos em Peniche, a caminho do Cabo Carvoeiro. 
Dos compêndios consultados apenas encontrámos menção da Inula crithmoides em “Elementos da Flora Aromática” de Aloísio Fernandes Costa, edição de 1975 da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, referindo que “por destilação das folhas se separa uma essência da qual predominam, particularmente, hidrocarbonetos”. A mesma obra regista ainda outras duas inulas com essências, nomeadamente a viscosa e a graveolens.
No entanto, a inula mais consagrada como planta medicinal, descrita em variados livros de fitoterapia, é a Inula helenium de que se aproveita a raiz. Trata-se de uma erva de folha larga, bem mais alta do que a crithmoides e tem aplicações no tratamento de bronquites, tosses e problemas estomacais.
Quanto à nossa inula marítima há a destacar, para além das suas essências ainda não devidamente estudadas, o teor em cloreto de sódio e quiçá em cloreto de potássio, sendo portanto ideal para temperos em substituição do sal-das-cozinhas e, desta forma, aconselhada para quem sofre de hipertensão. As folhas jovens podem ser consumidas cruas, cozidas, em picles e como condimento.
Avançando nas minhas experimentações, procedi à secagem da planta em forno solar e pulverizei as respetivas folhas que casam bem com saladas e cozinhados. E eis assim como se pode aproveitar mais um recurso disponível e gratuito (por enquanto) no nosso País, cuja utilização enriquece os preparados culinários e beneficia a nossa saúde.

Miguel Boieiro

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crónicas de Viagem


Luís Santos

UNS DIAS DE FÉRIAS EM LEIRIA

Leiria, Batalha e Fátima, ou uma breve alusão aos reinos de Dinis, Mestre de Avis e Cristo.

CASTELO DE LEIRIA 
De grande valor simbólico para Portugal. As memórias perdem-se na ocupação romana do território, mas destaca-se uma forte ligação ao Rei Dom Dinis. Foi ele que mandou construir a sua torre de menagem, tal como mandou plantar o pinhal de Leira, cujas madeiras foram utilizadas na construção das caravelas que mais tarde foram às descobertas. Por isso, Fernando Pessoa lhe chamou "o plantador das naus a haver". Mas muito mais se deve ao famoso monarca, foi ele que iniciou os "Estudos Gerais", instituiu no país a Língua Portuguesa, fundou a marinha, protegeu os templários (que passaram a designar-se por "ordem de cristo" e cuja cruz foi ao mundo inscrita nas velas das naus), tal como remonta ao seu tempo o incremento do culto popular do espírito santo, embora este tenha sido acarinhado, sobretudo, pela Rainha Isabel de Aragão que ganharia fama de Santa...

MOSTEIRO DA BATALHA
D. João I e Filipa Lencastre, mais Ínclita Geração, permanecem na ala museu do Mosteiro da Batalha (uma das sete maravilhas de Portugal, classificado pela "unesco" como património mundial), que começou a ser construído em 1386! (...) Nesta parte do museu só os portugueses podem entrar sem pagar. Desculpem. Mais uma foto da Igreja do Mosteiro, como testemunho da extrema beleza arquitetónica de todo o edifício (se clicarem nas fotos poderão ver mais ao pormenor).

SANTUÁRIO DE FÁTIMA
- Eis o nosso anfitrião na chegada ao santuário, a omnipresente torre da igreja, a capelinha das aparições. Pomba Branca.
- Eis um padre e as doze badaladas. Um jovem padre, muito ausente de si, magro e teso, plena espiritualidade. Maria, Ascenção e Tomé.
- Eis a primeira missa inteira: cinco mistérios e o terço. Jesus.
- Eis o silêncio das gentes peregrinas na luta fraterna dos céus. Amor.
- Eis o vislumbre da ressurreição. Luz.



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ao sabor do vento...



Na Holanda,a NS (rede de comboios holandesa) opera cerca de 5.500 viagens de comboio por dia. Desde janeiro que os comboios elétricos desta rede funcionam 100% a energia eólica.

O que sabemos sobre os números do consumo das energias renováveis e não renováveis? Importa reverter a tendência do consumo das energias não renováveis: Energia do Carvão; Energia do Petróleo; Energia do Gás Natural; Energia do Urânio.

Exemplos de Fontes de Energias Renováveis: Enregia Hídrica; Energia Eólica; Energia Solar; Energia Geotérmica; Energia das Ondas e Marés; Energia da Biomassa.
O que sabemos sobre os números, nos países da lusofonia, tornando o seu consumo mais eficiente e substituindo-o gradualmente por energias renováveis limpas?
Inúmeras são as fontes de energia disponíveis no nosso planeta, sendo que essas fontes se dividem em dois tipos, as fontes de energia renováveis e as não renováveis.
As fontes de energia renováveis, são aquelas em que a sua utilização e uso é renovável e pode-se manter e ser aproveitado ao longo do tempo sem possibilidade de esgotamento dessa mesma fonte, exemplos deste tipo de fonte são a energia eólica e solar.
As fontes de energias não renováveis têm recursos teoricamente limitados, sendo que esse limite depende dos recursos existentes no nosso planeta, como é o exemplo dos combustíveis fósseis.
Margarida Castro ( diálogos_lusófonos@yhaoo.grupos.com )
(notícia completa AQUI)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Foi pois espontânea e inesperadamente que eu iniciei o primeiro diário da Margarida.  
Quando por volta dos seis meses de vida da minha querida filha dei conta do trabalho realizado, de imediato compreendi o interesse do mesmo e decidi que se prolongaria até ao dia do seu primeiro aniversário. 

Em Janeiro desse mesmo ano escrevera um artigo (1) em que registava a minha primeira abordagem ao racismo e, para além da continuação dessa pesquisa, tinha planos para escrever um romance que contava iniciar quando a Primavera estivesse no zénite. 
Entretanto habituei-me à conversa a propósito do piolhinho e senti que não poderia desperdiçar essa oportunidade. 
Era a primeira vez que eu experimentava a pena naquele género e a verdade é que o estava a fazer de forma inédita; tanto quanto sabia e ainda hoje assim permanece, nunca antes fora escrito um diário que tomasse para mote o primeiro ano de vida de uma filha. 
Com isso ganhava aquele volume o estatuto de peça do conjunto da minha obra literária, ainda para mais contendo uma outra deambulação em águas estranhas, especificamente no domínio do conto infantil. Tinha assim motivos mais que suficientes para tentar levar aquele trabalho até ao fim, logicamente, com o melhor e máximo zelo que me fosse possível. 

É claro que depois disso eu continuei a produzir tanto ficção quanto análise antropológica, assim como acabei por cumprir os planos do romance (2) planeado enquanto fui dando cor às páginas daquele primeiro diário. 
Mas quando a Matilde estava para nascer, a Luísa recordou-me o dever de repetir para ela aquilo que fizera para a irmã. 
Ora no balanço desse livro deixei em aberto a hipótese de aplicar a operação aos primeiros anos de escolaridade das minhas filhas (3) e como materializei a intenção com a mais velha, tornou-se evidente que a minha experiência no plano da diarística ficaria completa com este quarto trabalho de uma série que, pelo que têm em comum, forma assim um conjunto que poderia designar como os diários das minhas filhas. 
Justifica-se pois toda esta produção pelo seu ineditismo quer quanto ao objecto central do discurso, quer pela forma em que a mesma foi executada e apresentada. 


E já que estou em maré de recapitulações, devo reparar uma falta que sempre ficou no primeiro destes volumes. 
Na convalescença de uma forte gripe que apanhei logo nos primeiros dias do piolhinho, li uma compilação de cartas trocadas entre Salazar e Marcelo Caetano e que certamente por esquecimento não referi ao falar da enfermidade por que passara. (4) 
E recordo como naquelas epístolas (5) se pode compreender melhor a personalidade do delfim do que na maior parte da ensaística que por aí anda a respeito do homem de que um recente estudo de Vasco Pulido Valente é um bom exemplo. (6) 
Dez anos depois, lavro aqui a reparação deste lapso. 



Hoje os alunos trabalharam com os números para o que realizaram vários e diferenciados exercícios e fichas do livro de Matemática. 



Ah! E outra coisa a respeito dos diários. 

Fora do domínio dos textos de carácter antropológico, foi com eles que comecei a assinar com o meu próprio nome, com isso transcendendo o âmbito que delineara para o projecto Sebastião Sorumenho. 

Quando findar estas páginas, terminarei igualmente esta parcela da minha literatura. 


Deus me ilumine até lá. 


 Alhos Vedros 
  03/02/2004 


NOTAS 


(1) Gomes, Luís F. de A., AND US AND THEM (BREVES PALAVRAS SOBRE O RACISMO) 
(2) Sorumenho, Sebastião, OS QUANTA E EU 
(3) Gomes, Luís F. de A., O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA 
(4) idem, O DIÁRIO DA MARGARIDA – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, pp. 17 e ss 
(5) Freire Antunes, José, SALAZAR CAETANO CARTAS SECRETAS 1932-1968 
(6) Pulido Valente, Vasco, MARCELLO CAETANO AS DESVENTURAS DA RAZÃO 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Freire Antunes, José, SALAZAR CAETANO CARTAS SECRETAS 1932-1968, Preâmbulo do Coordenador, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993 
Gomes, Luís F. de A., AND US AND THEM (BREVES PALAVRAS SOBRE O RACISMO), CACAV, Alhos Vedros, 1995; O DIÁRIO DA MARGARIDA – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, Dactilografado, Alhos Vedros, 1995; O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, Dactilografado, Alhos Vedros, 1997 
Pulido Valente, Vasco, MARCELLO CAETANO AS DESVENTURAS DA RAZÃO, Gótica (3ª. Edição), Lisboa, 2003

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (267)

Ode Triunfal, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Desenho de Pedro Sousa Pereira (pormenor)


Selecção de António Tapadinhas


sábado, 12 de agosto de 2017

"Casa 8"


Partilho um pequeno contributo de meu trabalho que anexo, uma referência à astrologia, à casa 8, ás transmutações e acepções de transfiguração e ascenção do ser, ás permeabilidades de toda a dinâmica de intimidade, sociedade e partilha que implica transformação, em fusão, regeneração, processo alquímico, nos veículos da afectividade nos laços do coração, esse canal tão permeável de manifestação da alma. 

Ana Pereira


CASA 8
 Mixed media on canvas  
 60x50 

Ana Pereira

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Crise do Porco


Risoleta Pinto Pedro

O porco faz parte do meu imaginário, como o de toda a gente.
Nos livros de histórias da minha infância eram muito redondinhos e apetecia pegar-lhes ao colo, um pouco como aquele porquinho da Tânia (se nos esquecermos da lâmina que lhe pôs na cabeça,  quando começou a ficar cor de rosinha, antes de ela o perverter na cor), minha amiga artista que criou a escultura de um porco com arame e papel, a propósito de um livro muito interessante sobre o mesmo, com texto e pintura, que saiu na &etc.  
Suponho que até cheiravam bem esses porquinhos das histórias de menina, qualquer perfume com uma imaginária marca Walt Disney. O porco da minha infância estava sustentado por uma estética aristotélica, muito diferente da desses porcos do livro da &etc, tão escandalosamente parecidos connosco, tão cheios de celulites e adiposidades fora do sítio e com um ar tão cheio e tão alienado de si que os torna escandalosos.
São tantas as máscaras do porco: o porco da matança, o porco dos vermes, o porco dos três porquinhos, o corpo do porco que, aberto, é um mapa, quase à escala do nosso interior. Porco meu, espelho meu, quem é mais bela do que eu? O espelho devolve-me uma imagem que me faz lembrar vagamente alguém... serei eu? Mas o que é aquela coisa espiralada ali atrás? A espiral está por trás do porco, o porco é rematado em espiral. Há esperança.
Atenção ao porco dentro de nós, ele espreita e ameaça tomar conta da situação a qualquer momento. Ninguém está livre do porco.
É imoral porque tem estrias na alma. O único porco digno é aquele verdadeiro, o da pocilga, honesto e igual a si mesmo. Viva o porco, abaixo o porco.
…………………………………..

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TRISTE VIDA DE UMA VACA LEITEIRA


Consumo de Leite e de Carne por Pessoa

António Justo
Uma vaca leiteira produz 7.740 quilos de leite por ano (cerca de 20 litros por dia em média). A Alemanha tem, atualmente, 4,21 milhões de vacas leiteiras em 67.319 explorações agrícolas.
Na Alemanha consomem-se, por pessoa, 52 litros de leite bebidos, 17 Kg de iogurte e 25 Kg de queijo, por ano.
Os lavradores recebem atualmente entre 33 e 35 Cêntimos por cada litro de leite. Lavradores alemães queixam-se que um preço de compra ao lavrador justo, para cobrir os custos, deveria andar pelos 40 cêntimos por litro.
Geralmente, depois de três anos de produção de leite, a vaca leiteira aos cinco anos é levada para o matadouro. Uma vaca podia alcançar uma idade de 25 anos. Uma pecuária apropriada à espécie exigiria uma alimentação doméstica em vez de uma alimentação em grandes vacarias com o pasto gene-Soja importado.

Consumo de Carne
A vida de animais em campos de concentração só poderá ser melhorada se o consumo de carne e leite for mais moderado e direcionado no consumo de mais vegetais.
Em 2014 a Alemanha consumia 53 Kg por pessoa, por ano, Portugal 40 Kg, o Brasil 42 Kg, a Espanha 57Kg, a Índia consome 5Kg por pessoa.  Em Portugal o consumo real é certamente maior do que o registado nas estatísticas atendendo ao facto de muitas famílias, no interior, terem galinhas para consumo. Estas são geralmente galinhas felizes porque criadas à solta e com alimentação natural!

Em 2015  o consumo de carne por habitante na Alemanha era de 88,3 Kg por pessoa, o que, tirando os ossos, corresponde a um consumo de 60,3Kg por pessoa.

Quem compara diferentes estatísticas chega à conclusão que os dados estatísticos oscilam bastante.

António da Cunha Duarte Justo

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um Poema de Pedro Du Bois


DIZER
(inédito)

O homem diz: não deveria estar aqui
       meu caminho indica o outro lado
para onde irei
e onde me estabelecerei e acreditarei
chegar ao meu destino: o caminho
se fará completo nas músicas
que tocarei no final dos dias

nada acontece por acaso e músicas
são sons não estabelecidos na pauta
que o improviso sobrepuja a razão
no desconhecimento dos sonhos

o homem diz: por pior que seja
estou disponível e minhas leituras
completam o que me foi ensinado
quase nada
         muito pouco dessa ciência louca
que muda conceitos do que se sabe
hoje e se sabia ontem que amanhã
serão novos instrumentos e minha voz
calada no final do dia não dirá nada.

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TO SAY
(Marina Du Bois, English version)

The man says: should not be here
        my way shows the other side
to where I will go
and where I will settle down and believe
I have reached my destination: the path
will be completed by the songs
I will play at the end of days

nothing happens by chance and songs are
sounds unestablished in the musical sheet
which improvisation surpasses reason
in the ignorance of dreams

the man says: no matter how bad
I am available and my readings
complete what I was thaught
almost nothing
            very little of this crazy science
that changes concepts of what is known
today and was known yesterday that tomorrow
will be new instruments and my silent voice 
will say nothing at the end of the day.

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outros poemas:
https://plus.google.com/u/0/108438516741639533660
http://pedrodubois.blogspot.com.br/

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

PARABÉNS, MARGARIDA!

Há dez anos atrás, a esta mesma hora, muito provavelmente estaria a esta mesma secretária a escrever um outro diário, o primeiro de todos, pois tinha acabado de chegar a casa depois da visita do fim da tarde às minhas duas paixões. 

Não mais esquecerei o ar fresco da madrugada desse dia, por entre o qual eu tive a sensação de planar quando descia a calçada que rodeia o edifício do Hotel Sheraton em busca de um táxi. 
Passava das seis quando cheguei a casa e por via de um impulso irresistível me sentei para descrever esses momentos extraordinários que acabara de viver. 
Sem o saber, iniciei aí o primeiro diário da Margarida. 

Pois foi assim hoje um dia festivo, o décimo aniversário do piolhinho adorado que teve festa na sala de aula para a qual convidou a Beatriz e a Matilde que lhe ofereceu uma moldura de cartão feita por ela, onde colocou uma fotografia de cada uma delas. 


“-Ó pai, dás-me uma sugestão para eu fazer uma prenda para a Margarida?” –Perguntou-me a Matilde na noite de sexta. 
Mas foi ela quem acabou por imaginar e realizar a oferenda. 
E eu embevecido, ao vê-la toda concentrada na execução do seu plano. 


“-Parabéns, piolhinho!” 

E depois do jantar cantámos o feliz aniversário em torno de um bolo que a Dona Rosário decidiu oferecer. 



Hoje foi um dia completo com fichas e jogos com palavras e as respectivas sílabas componentes. 



E no que resta da noite, vou perder-me em delícias que não desvendo. 


 Alhos Vedros 
  02/02/2004

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (266)



Êxodo, Marc Chagall, 1952
Óleo sobre Tela, 130x162 cm

Marc Chagall foi pintor, gravador e vitralista. Nasceu numa família judaica humilde de dez filhos na cidade de Vitebsk na Rússia no dia 07 de Julho de 1887. Descobriu sua inclinação para a pintura ainda jovem no estúdio de um famoso retratista em sua cidade natal, dando continuidade em São Petersburgo. Viveu em Paris de 1910 a 1914. Marc Chagall foi um dos maiores pintores do século XX  e faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no Sul de França, em 1985.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O sol brota infatigavelmente


O sol brota infatigavelmente
Fazendo-se cumprir as vontades 
Estabelecidas pela soberana Tropical.

Uma plácida resplandecência 
Desperta a triste feliz alvorada;
Ao ritmo de cantoria dos tafuis[i]
É embelezado o constante prelúdio
Do divino quotidiano.

Lá no cume, Terra Mãe
Guardião-Mor [ii]respira...
Sob a valentia do Além[iii], dos Presentes.

O vento suspira exaustivamente
Ou,
Conjuga-se pelo bel-prazer do caminhar dos avós[iv];
Um clássico assobiar inquieto!
Cumprimentando, suavemente,
As colinas, as florestas
As montanhas e as donzelas bocas do mar[v],
Ao repousar,
Culmina-se sobre acidentados escamas do Avô[vi].
Entre os escamosos, 
Fluem as senhoras ribanceiras
Imperando ao timbre de babadok[vii].

Uma correria ao rubro!

Vibrando invictamente
Com destino a braços dos majestosos 
Tasi-Feto e Tasi-Mane[viii];

Lá vem o novembro...
Pelas ordens dos beialas[ix] 
Levanta-se atrevidamente o cheiro à terra
Em sintonia com o bailar dos pingos torrenciais.
Com ai-suak[x], 
O velho maubere
Apunhala o rosto do chão
Desencadeando, assim,
A primordial cerimónia do cultivar de esperança.

O março se avizinha...
A temporada do sequencial 
Meticuloso ritual de obrigadu wa´in[xi]
- Ao Além, aos Sagrados, ao Céu, à Terra!

Dito e feito,
Governa-se
O desenfeitiçar do sagrado impiedoso[xii]!

Ao inteirar o ciclo
Invoca-se a presença agressiva de agosto
Onde a brisa quente despe o verde chão
As poeiras se erguem vertiginosamente
Clamando na atmosfera mauberense[xiii],
O existir do meu Timor-Lorosa´e.

Fertinal Alves


[i] Tafuis: Galos selvagens, muito comun no sul da ásia (nome cientifico: Gallus lafayettii)
[ii] Guardiâo Mor: Ramelau (relevo mais alto de Timor), a crença nativa atribui ao monte de ramelau como o guardião da ilha, o elo da ligação entre os vivos e os mortos.
[iii] Alem: Antepassados, a crença nativa timorense assume culto aos antepassados
[iv] Caminhar dos avos: A cultura timorense considera o vento como uma entidade, o sopro do vento representa a presença dos antepassados
[v] Bocas do mar: Traduçao literal de Taci-ibun, praia, em português.
[vi] Acidentados escamas do avô: De acordo com a lenda tradicional, a ilha tem origem de um crocodilo, sendo então, acidentados escamas expressam as montanhas
[vii] Babadok: instrumento musical de Timor
[viii] Tasi-Feto e Tasi-Mane: Mar-Mulher e Mar-Homem, respetivamente. Em timor, o mar que banha o norte da ilha é chamado de Tasi-Feto, sul, Tasi-Mane.
[ix] Beialas: Antepassados, segundo à tradição nativa, no período que corresponde à transição da estação de seca para a de chuva, faz-se rituais que invocam à natureza e aos antepassados, com o obejetivo de os puderem liberar a chuva
[x] Ai-suak: um utensilio tradicional feito de ferro que permite cavar ligeiros buracos para cultivar o milho
[xi] Obrigadu Wa´in: Muito obrigado (tradução literal), no poema, tal representa o ritual de ação de graça
[xii] O desenfeitiçar do sagrado impiedoso: Na época de chuva, é proibido qualquer colheita antes do ritual de ação de graça, qualquer infração sujeita-se ao castigo divino, como por exemplo, ser atigido por um raio, devorado por um crocodilo, entre oitros.
[xiii] Mauberense: deriva de maubere, o termo que designa o povo timorense

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Emparedado





«a casa abriga e obriga»
(Irene ou o Contrato Social, Maria Velho da Costa, 2000: 148)

A irracionalidade humana tem manifestações múltiplas. O ‘homem não aprendente’ repete os mesmos erros ad nauseam. Não aprende nem com a sua experiência nem com a História. Na paisagem urbana, em Portugal, proliferam exemplos como este que as duas fotos nos dão testemunho. Um prédio de seis pisos, quase pronto, ostenta a sua infuncionalidade por motivos que só o proprietário, o credor e o autarca saberão (e cada um argumentando com a sua ‘racionalidade’ – económica, financeira, jurídica ou outra).

Os tijolos fecham o que devia ficar aberto (portas, janelas, varandas). «Ah, pois, mas se não fosse assim… os toxicodependentes, os sem-abrigo, os marginais davam cabo de tudo.» Sem razões morais, éticas, humanas. Nem utilidade social mínima! Ali fica mais um mamarracho arquitectónico, inacabado, sem préstimo algum, uma mancha a conspurcar as já de si inestéticas urbanizações ‘modernas’ que cresceram na «fúria desenvolvimentalista» (expressão contundente do antropólogo Ruy Duarte de Carvalho). Um país que continua a dar-se ao luxo de emparedar edifícios quando há jovens a precisar de habitação, idosos a viver ao relento, gente a residir em barracas (sim, ainda não foi nomeada a comissão liquidatária do PER - Programa Especial de Realojamento, criado pelo Decreto-Lei nº 163/93 de 7 de Maio). Em suma, é O Sistema Irracional que Paul Baran & Paul Sweezy (Porto: Textos Marginais, nº 1, 1972) desmontaram.

Da recém-criada Secretaria de Estado da Habitação (desde 2005 que tal não existia na orgânica governamental) espera-se acção, impedindo os construtores civis de deixarem obra por acabar. Quem inicia um projecto tem que dar garantias financeiras para o levar a bom porto. Essa deve ser uma das condições obrigatórias para aprovação e licenciamento pela autarquia. Como se lê na epígrafe deste texto «a casa [também] obriga», em primeiro lugar, a quem a constrói. O governo deveria também elaborar um cadastro nacional dos prédios inacabados, que se encontrem em situação semelhante ao que aqui damos nota. No concelho de Cascais são às dezenas. Aterrador, o número, a nível nacional!

E a propósito deste tema, vem-me à memória um dos poucos livros que, ainda no decorrer do ‘bacharelato’, li e sublinhei de fio a pavio, por ocasião do meu primeiro trabalho de campo, no bairro clandestino das Bragadas, na Póvoa de Stª Iria – A Questão do Alojamento de Friedrich Engels; publicado em 1872, no formato de 3 artigos (polémica com os defensores do pensamento de Proudhon) e mais tarde reunidos em brochura. A edição portuguesa (Porto: Cadernos para o Diálogo, nº 3, 1971) incluía também um longo prefácio do autor, datado de 1887, para uma nova edição pois o «Governo Alemão, que proibindo-a, como sempre favoreceu grandemente a venda». Aí explica a sua intervenção nesta questão:
«Em consequência da divisão do trabalho entre Marx e mim, tomou-me defender os nossos pontos de vista na imprensa periódica, particularmente lutando contra as opiniões adversas, a fim de que Marx guardasse tempo para a elaboração da sua grande obra.» (p. 13)

Engels é, por esta altura, um escritor maduro, já não aquele companheiro d’ O jovem Karl Marx, filme de Raoul Peck (2016), que vimos aquando da abertura da 5ª edição da Judaica – mostra de cinema e cultura, a 6 de Abril, n’ o cinema da villa, em Cascais.
«Como resolver então a questão do alojamento?
(…) estabelecendo gradualmente um equilíbrio económico entre a oferta e a procura; esta solução não resolve definitivamente o problema (…) Quanto à maneira como uma revolução social resolveria a questão isso depende não somente das circunstâncias nas quais ela se produziria, mas também de problemas muito mais extensos, em que um dos mais essenciais é a supressão da oposição entre a cidade e o campo.» (pp. 59-60)

Para F. Engels «seria mais do que ocioso deter[-se] nesse ponto» [a supressão da oposição cidade-campo] por a considerar uma ‘utopia’. Decorridos todos estes anos, ela parece afinal bem mais próxima de todos nós: a urbanização imparável que a todos atrai, em especial os do mundo rural que, entretanto, se vai estiolando.
«a verdadeira 'crise do alojamento' (…) não pode fazer-se naturalmente senão pela expropriação dos proprietários actuais, pela ocupação dos seus imóveis por trabalhadores sem abrigo ou incomodamente amontoados nos seus alojamentos» (p. 60)

Por cá, em pleno PREC, houve uns arremedos do género, coisa soft e pontual… A «revolução social», de 1974-75, «lembra-me um sonho lindo, quase acabado / lembra-me um céu aberto, outro fechado» (Fausto, 1982). 

Luís Souta