O gelo derrete e torna visível a pele porosa, para a respiração e combustão de dentro.
Dentro de cada um e em todos há um fogo perpétuo que ora se alteia em labaredas, ora amansa até ser só um suave calor no peito. Por vezes quase se extingue e a gente encolhe-se, protegendo a ténue chama no recôncavo da alma. A vida consome-se, consome-nos, nessa combustão perene.
Nascem sombras, desafios, desilusões, gargalhadas, dúvidas (e a gente pergunta), desilusões, lágrimas, luz, … sonhos. Sonhos que nascem, crescem e se desmoronam. Alguns concretizam-se e outros surgem, vão e vêm, e continua a procura em redor (o redor alarga-se, vai-se alargando) e sempre, alimento para o fogo que arde.
Nascem rugas no corpo e a alma caleja. E todos, todos, se juntam à volta do fogo.
É da roda do fogo que a todos se convoca.
Tribos de montanha, gente do mar, povos da planície. Solitários, “nómadas distantes”, raianos de fronteiras por descobrir, génios, enfermos. Poetas, músicos, cantores, artistas. Mestiços e todas as raças. Loucos, desiludidos, profetas. Mortos que se carregam, crianças por nascer e… (se faltar alguém, que se acrescente se faz favor.) Gente. Gente que sonha e sofre e ama. Gente que chora e ri e afaga e guerreia e protesta e fica acordada em madrugadas de insónia e dorme o sono dos justos no esgotamento do cansaço. Gente que desespera mas que se reergue procurando outros e novos caminhos. Gente que escala montanhas que se suja na lama mas rebola nas encostas do lado de lá onde se lava e continua. Gente que sente e pensa, não se conforma e acredita. Gente viva, gente de bem.
Convocam-se esperando que venham e cheguem. Sozinhos ou em grupo a qualquer hora e de todas as direcções. Tragam alimento para o fogo mas quem não tiver aqueça-se na mesma. Venham, venham todos compor hinos e cantar. Acabar com a fome cantemos. Acabar com a guerra cantemos. Viver em amor cantemos (se alguém precisar de se descalçar, descalce-se). Cantemos, cantemos todos em volta da enorme fogueira colectiva e plural. Cantemos a madrugada, a madrugada plena como erva molhada de orvalho acabadinha de florir ou como uma árvore que se inclina a sorrir.
O fogo crepita na noite e continua rumo à manhã de todas as noites do mundo.
m j
Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
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