Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Eduarda Fagundes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Eduarda Fagundes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de maio de 2017

AÇORIANOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Rugendas, Brasil séc. XIX

Seja por vocação ou necessidade, a emigração sempre foi uma sina na vida dos ilhéus açorianos. Arquipélago oficialmente descoberto pelos portugueses, por volta de 1440, os Açores tiveram suas nove ilhas desabitadas paulatinamente ocupadas por portugueses do continente, madeirenses, flamengos (Brum, Bulcão, Silveiras, Dutra, Terra, Gularte ou Goulart, Rosa, Grotas) espanhóis (Bom-Dias, Arriagas,) alguns franceses (Berquós, Bettencourt, Labat), ingleses (Currys, Streets, Whytons), judeus (Bemsaúde) e africanos (escravos), emigrados de outras partes do antigo Império Português, ou de terras que com Ele tinham relações políticas de comércio, ou parentesco.

O ar salutar, o solo fértil, vulcânico, porém sujeito aos caprichos da natureza, e a paz reinante, longe dos movimentos geopolíticos que abalavam o mundo, proporcionavam ao longo do tempo um crescimento populacional gradativo que em momentos de crise frumentária e sísmica sofria com a falta de alimentos. Essas situações periódicas associadas à má política dos donatários (em geral gente da nobreza portuguesa), onde as melhores parcelas de terra eram doadas aos parentes e amigos, restando aos colonos, que com eles aportavam às ilhas, os piores nacos de terra, levavam a dificuldades de subsistência e a um desequilíbrio social deplorável, principalmente nas ilhas mais populosas. A emigração foi a solução encontrada e adotada todos esses anos de existência ilhoa.

Para os governantes portugueses as ilhas açorianas foram uma fonte de recursos humanos que supriram as necessidades da pátria. Ocuparam espaços, desbravaram e patrulharam caminhos, defenderam fronteiras, fundaram e povoaram vilas, lutaram em frentes de guerra, foram mão-de-obra barata, silo de grãos nas boas épocas de colheita.

Pelas histórias contadas de riqueza e beleza, pela facilidade da língua, pelos amigos e parentes que lhes antecederam, os locais de eleição para imigração foram, nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, as terras brasileiras, embora o Alentejo, em grande escala, e América do Norte, em menor proporção, também tivessem sido a opção de muitos açorianos.

Nos últimos dois séculos os Estados Unidos da América e Canadá tornaram-se, pela prosperidade e oportunidades que ofereciam, os países de primeira escolha para a imigração dos ilhéus. No Havaí e em outros países menos procurados (Venezuela, Uruguai e Argentina) a passagem açoriana ficou marcada nas comunidades que fundou e nos descendentes que guardaram as suas raízes.

No Brasil chegaram com os portugueses do Continente e da Madeira como desbravadores e colonizadores para cultivar a terra, rastrear e explorar riquezas, abrir e patrulhar picadas, resguardar espaços, fundar vilas que se tornariam as futuras cidades brasileiras. Com os índios locais e negros trazidos das possessões africanas, miscigenaram-se. Na insana lida da conquista, os mais simples esqueceram as raízes, porém, perseveraram na fé e nas crenças, mantiveram hábitos e costumes, legaram sua língua e cultura aos seus descendentes, participaram efetivamente na formação do povo brasileiro.

A emigração oficial sempre se dava com o apoio financeiro e material dos governos e contratantes de mão-de-obra que os aguardavam no desembarque. Mas como tudo tem um preço, eles haveriam de trabalhar por muito tempo para pagar o investimento dos patrões, antes de conseguir a independência ou... a morte. Paralelamente à emigração regulamentada, havia também a clandestina, bastante numerosa, facilitada pela dificuldade de controle das autoridades em policiar o entorno marítimo das ilhas, pelo isolamento do arquipélago, pela escuridão oportuna da noite, e pela ajuda de comandantes de navios que faziam vista grossa no intuito de auferir lucros mais adiante. Era a saída mais aventureira, onde à chegada não haveria nenhuma ajuda, só riscos e canseiras.

Nos primeiros tempos vinham poucos, esparsamente. Depois em levas mais ou menos importantes para experimentos colonizadores determinados, como em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Amapá, e finalmente em pequenos grupos familiares ou mesmo isolados para encontrar parentes ou amigos já assentados ou estabelecidos. Saídos das ilhas em barcos contratados, chegavam ao país pelos portos coloniais (Recife, Salvador, Rio de Janeiro). Em terra, migravam em diáspora, pulverizados, para os locais que lhes chamavam ou para onde eram encaminhados pelo governo. Norte (Amapá, Maranhão e Pará), nordeste (Pernambuco e Bahia), Espírito Santo, Rio, Regiões auríferas, interior paulista e mineiro, sul do Goiás, minas de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina,... Iam para onde a sorte lhes acenava.

Esperava-os a aventura da incerteza e aqueles compatriotas que lhes antecederam e que poderiam lhes dar apoio na difícil empresa de sobreviver numa terra estranha.

Oficialmente, a primeira entrada de um grupo de açorianos em solo brasileiro se deu em 1619. Foram 300 casais que vinham para se estabelecer no Maranhão após a expulsão dos franceses. Mais tarde em 1675 saíam 50 casais do Faial, vitimas do vulcão de 1672 (Praia do Norte), e que foram mantidas pela bondade do governador da ilha, Jorge Gularte Pimentel, até 1675, quando partiram para o Brasil. Chegaram ao Grão-Pará em 1676 para servir como colonos e mão de obra nas plantações daquele espaço amazônico.

Em 1679, na Graciosa, e em 1719, no Pico, novas erupções vulcânicas obrigaram os ilhéus sinistrados a emigrar para a América Portuguesa, desta vez para a Colônia de Sacramento. Embora não haja a certeza da chegada desses ilhéus, o certo é que há conhecida descendência açoriana em terras uruguaias. Em 1740, um destacamento militar formado com homens das ilhas açorianas se instalou no Amapá e fundou Macapá, sua capital. Em 1770 a fundação do Município de Mazagão se deu na origem de Mazagão Velho, quando a Coroa portuguesa mandou para lá 163 famílias de colonos portugueses cristãos, oriundos do Castelo de Mazagran, (El Djadidá) Marrocos, que se conflituaram com os mouros islamitas.

  • Em 1723, no sudeste, são conhecidos alguns açorianos que marcaram a região (Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, e interior de Minas), através da sua descendência. Eram ilhéus migrantes de outras partes do território brasileiro que chegavam em busca de terras e riqueza.
  • O enorme afluxo de gente que a descoberta do ouro e as disputas para a exploração do metal (Guerra dos Emboabas- luta entre os paulistas, descobridores das minas, e os portugueses e brasileiros vindos de todos os lados) proporcionou, tornou o comercio de carne e alimentos uma ocupação muito rentável. Mesmo com o declínio da produção aurífera e diamantífera, com a situação mais apaziguada, os migrantes passaram a procurar terras para o cultivo e criação de gado, era uma nova e atrativa possibilidade para conseguir uma vida mais digna e estável. O sertão estava à espera de quem tivesse força e coragem para conquistá-lo. O governo através de seus representantes políticos e militares apoiava-os, montando troços militares pelos caminhos, distribuindo terras (sesmarias) a quem se dispusesse a ocupá-las. Assim é que os migrantes brasileiros e portugueses foram empurrando os negros dos quilombos e os índios cada vez mais para o interior, destruindo-os ou assimilando-os, tomando-lhes o espaço.
  • Segundo o genealogista e historiador, José Guimarães, em São João Del Rei, por volta de 1723, é conhecida a presença das três ilhoas faialenses (Antónia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus) que vinham para se encontrar com Diogo Garcia, seu conterrâneo aparentado e futuro marido de Júlia Maria. Dos casamentos dessas açorianas, com patrícios, se originaram os troncos de várias e importantes famílias mineiras.
  • Fato semelhante ocorreu no século XIX, no atual Espírito Santo, quando entre 1813 e 1814 chegaram quatro levas de açorianos (200 indivíduos) para fundar a colônia de Santo Agostinho (hoje Viana). Conta a história que, quando o governador, Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira (1795-1890) recebia um grupo de ilhéus (da Horta-Faial), viu um dos guardas do palácio do governo, Antonio de Freitas Lira, encantado com a beleza de uma das seis irmãs faialenses (Luiza Aurélia da Conceição), tocar os cabelos da jovem, irritado, como desagravo, declarou no ato o noivado deles. Verdade ou não, o fato é que três meses depois casaram. Em breve, todas elas se transformariam em matriarcas de destacadas famílias capixabas.
  • Entre os primeiros povoadores de arraiais e vilas de Minas, Mato Grosso do Sul e sul goiano, não é difícil encontrar a presença de raízes açorianas. Pamplonas em Formiga, Botelhos em Araxá, Borges, Vilelas, no Prata. Junqueiras, Rodrigues da Cunha, Terras, Goulart, em Uberaba...
  • Mas sem dúvida alguma a maior e mais marcante leva ilhoa ocorreu no sul do país. Pode-se dizer que grande parte dos colonos portugueses que para lá foram são das ilhas, o que se pode verificar nos arquivos legais e histórias familiares dos seus descendentes.
  • Foi um processo estimulado pela Coroa (D. João V) que por razões políticas e estratégicas visava à solução de dois problemas. Aliviar o arquipélago de gente, ocupar e defender o sul brasileiro das investidas estrangeiras. Só para Santa Catarina, entre 1748 a 1752 foram, principalmente, das ilhas centrais do arquipélago dos Açores (Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa) cerca de 6000 pessoas. Para a época, quando o sul era pouco povoado, pode-se dizer que foi quase a translação de uma população de uma terra para outra.
  • Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados brasileiros onde mais se encontram sinais desses emigrantes, seja na genética, na arquitetura, na religiosidade ou na cultura popular. Os manezinhos, descendentes dos antigos povoadores açorianos, ainda conservam alguns dos seus hábitos e costumes. Não é sem motivo que chamam a ilha de Santa Catarina (onde está a Capital Florianópolis) a décima ilha açoriana.
  • A cada situação de fome ou desequilíbrio social, a emigração era a solução. Em 1771 e 1774 saíram da Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Flores e Corvo 301 pessoas. Destino Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco.
  • Em 1779 e 1785 outras levas (900 casais), principalmente de São Miguel, e em menor escala do Faial, dirigiram-se para o Alentejo, desta vez com patrocínio particular (Intendente Pina Manique), porém,  com o assentimento da Coroa. Toda essa evasão de gente, deixou o arquipélago desfalcado de braços para as lavouras. Em 1800, 1807 e 1813 dá-se notícia de mais casais açorianos chegados à Bahia. Facilitava a transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil.
  • Mas foi após a Revolução Liberal Portuguesa, em 1820, que a emigração deixou de ser limitada pelo governo. A crescente procura de gente para a lavoura de café, e de jovens açorianas para serviços domésticos (eram solicitadas com preferências; morenas de olhos negros, claras de olhos azuis,...) pelos fazendeiros, estimulava a levas cada vez maiores de açorianos. Ao chegar, sem condições vantajosas de negociação, muitas dessas pessoas tornaram-se verdadeiras escravas brancas. As jovens rejeitadas, sem ter como se sustentar, terminavam desgraçadamente na prostituição. Inúmeras viviam em prostíbulos, morriam à míngua.

A mobilização militar também trouxe para o Brasil gente açoriana, principalmente a partir do século XVII, quando Portugal ficou sob a dominação filipina. A Holanda que era a maior inimiga da Espanha , na época, tornou-se também nossa inimiga. Em 1766 seguiram de S. Miguel para o Rio de Janeiro 400 recrutas e em 1774 a Coroa requisitava mais 600. Em 1776, foram 890. Esvaziavam as ruas de São Miguel e das outras ilhas de vadios, as cadeias de prisioneiros, de gente à toa. Ao término do tempo de serviço os soldados podiam optar por voltar ou ficar como paisanos no Brasil, com reforma. Os recrutamentos continuaram até que o decréscimo populacional quase paralisou as ilhas, em especial São Miguel, que viu em 20 anos diminuir a população em mais de 10 mil pessoas.

Fugindo do serviço militar, da miséria ou por índole aventureira, a emigração açoriana foi uma epopéia que deixou rastro por onde passou. Mesmo na atualidade, em que a emigração/imigração é um fato corriqueiro num mundo globalizado, como emigrante açoriana que sou, deixo, no país que adotei para viver, geração luso-brasileira que há de continuar no sangue e no viver as marcas que trago do meu povo.

Maria Eduarda Fagundes 
Uberaba, 28/05/12











DADOS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  • Emigração Açoriana (Luís Mendonça e José Ávila)
  • Anais do Município da Horta (Marcelino Lima)
  • Famílias Faialenses (Marcelino Lima)
  • Memória genealógica das famílias faialenses (Francisco Garcia do Rosário)
  • A Oeste das Minas. Escravos, Índios, homens livres numa fronteira oitocentista. Triangulo Mineiro (Luis Augusto Bustamante Lourenço)
  • WWW. Potyguar.com.br/Amapá/primeiros colonos
  • Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (n.º 66. 211).
  • As Famílias Portuguesas Radicadas no Espírito Santo (Artigo de Paulo Struck de Moraes Vice-presidente do IHGES)
  • Povoadores do Sertão do Rio da Prata (Benedito António Miranda Tiradentes Borges)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Herança


Fazenda Invernada de 1822 (em reforma) Morro Agudo-SP
                                                                          Fonte: Informativo (Jornal da Carol) 2005                                                                   
                                                
É triste ver cidades com séculos de existência destruírem o seu patrimônio histórico-arquitetônico em nome do tão sonhado progresso. Derrubada de casarões e de edifícios de época é feita da noite para o dia, sem a menor consciência. Que desenvolvimento é esse que apaga da sua história as marcas e caminhos percorridos por seus antepassados? Como exigir dos cidadãos de agora amor e respeito ao solo que os viu nascer se eles não têm referencias e exemplos a seguir? Como desenvolver sentimentos de identidade, pertença e orgulho, se eles não conhecem suas raízes, passado, lutas e conquistas! Como formar indivíduos briosos e valentes se eles não sabem de quem provêm, de onde vêm e para onde vão! Como poderão avaliar a força do gene que cada um traz em si, e que foi capaz de mobilizar gerações a ir atrás do sonho? 
                
É na sequência de gerações que o caminho se faz e se aprimora.  É nas marcas deixadas por elas que o orgulho de pertença aparece. É na herança que o passado nos deixa que o futuro se assenta e o progresso acontece.

A história interiorana é tão rica quanto seu solo.  Nele  se achou ouro, diamantes, pedras preciosas. Plantou-se e criou-se gado. Gente aventureira, desbravadora e destemida se instalou em seu território, fez coisas boas e más, aos trancos e barrancos, acertando e errando, trouxe progresso.

Longe do Poder Central e da civilização, os portugueses, depois de lutas, mortes e expulsões, conquistaram a região. Abriram com a ajuda dos índios aculturados picadas e caminhos, vararam rios e florestas, fundaram arraias e vilas, destruíram tribos e quilombos.  Ganharam sesmarias, compraram e se apossaram de terras, fizeram grandes fazendas onde desenvolveram latifúndios que, com ajuda do escravo e do caboclo, mais tarde dominaram a política do interior brasileiro.

Há quase duzentos anos, uma das famílias que marcou esse espaço fundou em Morro Agudo, na margem esquerda do Ribeirão do Carmo, a Fazenda Invernada.

                                                  Fazenda Invernada (de 1864) Morro Agudo-PS
 Fonte: Informativo (Jornal da Carol) Maio/2005

A idéia inicial do Tenente Francisco Antonio Junqueira, do seu irmão João Francisco, e do seu cunhado o alferes João José de Carvalho era pousar para invernar, mas gostaram tanto do local que ficaram e construíram uma fazenda que subsiste até os nossos tempos.  Nela Francisco Antonio estabeleceu-se definitivamente, criou seus 21 filhos (dos quais sobreviveram sete), criou gado e produziu queijos para a venda. Um dos seus filhos, Francisco Marcolino Diniz Junqueira, herdeiro que ficou com a Fazenda Invernada, se tornou um grande produtor de bovinos, porcos, muares e cavalos. Foi dessa geração que saíram os protótipos dos Mangalarga, orgulho da raça eqüina do interior. Nestes quase 200 anos de gerações da família o patrimônio cresceu e o conjunto arquitetônico da fazenda (casa grande, senzala, dependências de serviço,...) foi preservado (1822/1864) e reformado para orgulho da Família Junqueira de Morro Agudo SP.

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 28/07/16

Fonte dos dados:
Jornal da Carol (Maio/2005)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Miscigenação no Brasil

         
  
Fonte: Wikipédia livre


A miscigenação foi um processo genético-cultural que deu origem à formação do povo brasileiro. A principio, na época do descobrimento, os grupos étnicos eram o ameríndio e o europeu, marcadamente o português. Com a introdução do cultivo da cana-de-açúcar no meio do século XVI, a necessidade de mão de obra importou africanos (principalmente escravos bantos e sudaneses) que se miscigenaram com o branco e o índio já presentes no território sul americano. Nos séculos XVIII, XIX e XX aportaram no Brasil levas de colonos portugueses (açorianos), italianos, espanhóis, alemães, contratados para substituir com trabalho livre e renumerado o trabalho escravo que,  em 13 de maio de 1888, se extinguiu com a Lei Áurea. Em menor número, o governo brasileiro foi abrindo espaço a grupos de japoneses, chineses, sírio-libaneses, coreanos, franceses, ingleses, norte-americanos e leste-europeus, que aqui também se instalaram buscando  novas oportunidades de trabalho e vida. Estes formaram comunidades que se espalharam, em grupos específicos, pelo campo, comercio e indústria. Embora multicultural e geneticamente mestiça, a sociedade brasileira teve influência preponderante do elemento português pela maior presença numérica e afluência constante ao longo dos séculos, desde o descobrimento, fato que marcou indelevelmente a construção da nação e formação do povo brasileiro.

Para os mestiços que formaram basicamente a sociedade brasileira, há para nomeá-los os termos:
Mameluco, caboclo, caiçara- mestiço de branco com índia (a coloração da pele acobreada lembrava os mamelucos egípcios)
Curiboca- filho de índio com mameluca
Mulato- filho de negra com branco
Pardo- filho de mulata com pai branco
Cafuzo- filho de negro com índia
Cabra- filho de negro com mulata
Crioulo- filho de pais negros, nascidos no Brasil
Mazombos- descendentes de pais brancos europeus.

Os japoneses que emigram são os issei.
Nisseis - são os filhos desses emigrantes
Sanseis-são os netos
Yonseis- são os bisnetos
Gosseis- são os trinetos

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 01/05/2015


Fonte dos dados: A Construção do Brasil ( Jorge Couto), 

sábado, 7 de março de 2015

A escravidão no Brasil


 Escravos numa fazenda, Rugendas, 1830
Fonte: Wikipedia livre


Escravos e seus filhos numa fazenda de café (1885)
Fonte: Wikipédia Livre
Marc Ferez


A escravidão no Brasil foi mais que um marco histórico, foi fator determinante na cultura e genética da sociedade brasileira. Foi o regime produtivo que utilizou a força de trabalho dos escravos, índio e africano, para viabilizar economicamente o país quando colônia e império.  À principio, após o descobrimento, o branco conseguiu com o índio, através de escambo, elementos comerciáveis; ervas, plantas exóticas e animais que levava às Cortes européias com grande alarido. O pau-brasil, árvore tintureira, produzia um produto usado na coloração de peças e tapeçaria que atingia bons preços no Velho Mundo. Era adquirido com o índio que o trocava por quinquilharias, machados e facões com portugueses e estrangeiros, principalmente franceses.  Quando os olhos da coroa portuguesa se voltaram finalmente para a sua colônia americana, no sentido de produção econômica, o plantio de cana-de-açúcar, já experimentado nas ilhas atlânticas (Madeira e Açores) se apresentou como o caminho. Precisou-se, então, de braços para a lavoura. Portugal na ocasião não devia ter mais que dois milhões de habitantes. Já espoliado de gente que trabalhava nas outras colônias periféricas e Oriente, a solução foi procurar na exploração da escravidão americana e africana mão-de-obra para o serviço.  

 Durante três séculos, os índios foram caçados, escravizados e aculturados. Obrigados à lida que feria seus conceitos de trabalho e liberdade, revoltavam-se, fugiam, pereciam rapidamente. Usados como guias nas florestas, matrizes dos primeiros bandeirantes brasileiros, desbravadores intrépidos e alargadores de fronteiras, porém não resistiam aos iniciais contactos com o europeu. A vírus imunologicamente deficientes, contraíam doenças comuns aos brancos que os dizimavam aos “montes”. Só as gerações que se seguiram às primeiras miscigenações, herdaram de seu pai branco a imunidade de que precisavam. Até o século XVII o índio foi o suporte maior da força de trabalho do país.

Nas plantações de cana-de-açúcar e engenhos do nordeste, nos garimpos, nas minas de ouro e pedras preciosas do centro-oeste, na lida do dia-a-dia das fazendas dos barões do café, nas regiões urbanas do sul e sudeste, a mão-de-obra escrava estava sempre presente. Era preciso cada vez mais gente. O escravo africano foi a resposta à demanda brasileira.

 Mais adaptados ao trabalho duro, eram trazidos para o Brasil em condições degradantes e insalubres nos porões dos navios negreiros. Amontoados, muitos morriam na viagem atlântica, que durava perto de dois meses, em percentagens que variavam de 20 a 50% da carga humana. Mesmo assim eram solicitados em quantidades crescentes de Angola, Mina, Moçambique, à medida que as áreas de plantações aumentavam e a riqueza mineira se expandia. Traficado, quando os interesses da Inglaterra proibiam a escravidão no alvor da era industrial, num Brasil reticente ao emprego da mão- de- obra livre e de economia dependente da escravidão, seu preço crescia a cada travessia. Ter escravos era sinal de distinção social, ostentação e abastança.  Ao senhor proprietário conferia-se mais facilmente até sesmarias, pois se subentendia que tinha condições, financeira e humana, de ocupá-las e explorá-las, expandindo o território produtivo e a riqueza nacional.

   Se para o europeu (do norte) o trabalho era fator dignificante e autonômico, para o branco, latino, era indicador de categoria social. Quem estava no topo se obrigava a submeter o dominado através da opressão e do trabalho forçado.  Trabalho manual era para os oprimidos e escravos, era degradação maior na escala social. Para o escravo o trabalho era a evidência dessa situação, da submissão, do sacrifício, da falta de liberdade, da desestruturação familiar, do desrespeito entre os homens e suas vontades. Para o escravo a liberdade era a ausência de obrigações e de servidão. A escravidão subvertia  o sentido do trabalho, degradava-o.

No Brasil escravagista, senhores e escravos conviviam numa associação de produção e afetividade onde os valores morais e a ética entravam em choque com as dificuldades e culturas de cada grupo social. O resultado é que depois de tantos anos de convivência e miscigenação houve um caldeamento genético-cultural, aonde atitudes e pensamentos vão se refletir na formação da sociedade brasileira como um todo na pós- abolição.

A escravidão propiciava à promiscuidade nas senzalas e aos relacionamentos escusos entre o senhor e a escrava. Incitava à poligamia e à fragilidade afetiva, gerando uma família mestiça, ignorada, paralela à oficial, sem laços estreitos ou reconhecidos entre pais e filhos. Separados da família escrava, ao serem vendidos, negros e mulatos, sem direitos, acesso à educação e à paternidade assumida, sofrendo preconceito racial de ambos os lados, ficavam à margem da sociedade ao ganharem a liberdade, na alforria ou na pós-abolição.  Nas periferias, subúrbios e morros das cidades, os pobres, imigrantes miseráveis e ex-escravos, se abrigavam nos “bairros africanos”, embriões das futuras favelas que surgiram e tomaram identidade com a ocupação do Morro da Providencia (RJ) pelos esquecidos e abandonados soldados da nação, que retornaram da guerra dos Canudos em 1897.   

Nas roças do interior mineiro, liberto, o negro africano muitas vezes ficava como agregado.  Não era incomum haver entre o dono da terra e ele laços de amizade. Possuidores de pouca cultura e cabedal, trabalhavam lado a lado na luta pela subsistência, moravam em casas rústicas, nas mesmas áreas. Só os grandes senhores, ricos fazendeiros e latifundiários viviam com conforto, cercados de gente que lhes mantinha a segurança e o poder. Muitos dos seus ex- escravos e ex-escravas, mesmo depois da abolição, continuaram como peões, vaqueiros, cozinheiras, amas-de-leite, arrumadeiras, passadeiras, dos seus antigos senhores, agora como empregados. No interior sertanejo não havia outras opções a fazer; ficar no mesmo lugar, como empregado/ou agregado, se o patrão permitisse, ou cair na estrada sem rumo certo...

No Brasil, a escravidão seguiu a rota da economia. Em 1822, ano da independência brasileira, no país havia um população de 1 347.000 brancos e 3.993000 negros e mestiços. Os cativos eram mais concentrados em Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, e Rio de Janeiro. A lavoura e a mineração pediam muitos braços para a lida.  Até a abolição de escravatura, a força de trabalho no país foi majoritariamente escrava.

A partir de 1850, no auge da produção açucareira, o trafico negreiro foi severamente reprimido por leis internacionais policiadas pela Inglaterra. Os grandes plantadores, dependentes da escravatura, necessitaram de outras forças de trabalho, que surgiram com mobilização dos escravos internos, nascidos ou não no país. Os ladinos conhecedores das manhas e língua portuguesa, os escravos boçais, naturais da África, e os imigrantes europeus, passaram a labutar lado a lado, com discordâncias, com erros e acertos, até que o trabalho assalariado assumisse de vez a sua função.
Com o inicio da era industrial e a forte concorrência brasileira ao açúcar da Guiana Inglesa, a vigilância estrangeira ao tráfico negreiro se fazia cada vez mais intensa, nos mares e nos portos. Interessava gente livre para consumir e menos braços no Brasil para produzir!  Enquanto os ingleses obrigavam e condicionavam o reconhecimento da independência brasileira ao fim do tráfico de escravos (que continuava de forma crescente para responder à demanda mineradora e lavoureira), as companhias inglesas de mineração em Minas Gerais (Congo Seco, Morro velho, Cata Branca, São João Del Rey) mantinham uma vasta população de escravos na extração do ouro... 

 A poderosa economia cafeeira, consumidora voraz de braços negros, mantinha o tráfico negreiro apesar da repressão inglesa e das leis do governo imperial. Buscavam-se escravos no nordeste e aonde houvesse.

Mas com o tempo, a situação pouco a pouco mudava. As constantes fugas de escravos estimuladas pelos abolicionistas, as revoltas com mortes nas fazendas, anteviam a proximidade da abolição. Os baixos salários dos trabalhadores livres, e os altos preços dos escravos, tornaram o investimento no negro africano de pouca valia. Contratos com imigrantes europeus (ilhéus, portugueses, italianos, alemães,...) para trabalhar nas plantações de cana e café, já experimentados, foram incrementados. A mão-de-obra livre nacional, apesar de acessível, não era bem vista, tinha fama de ser preguiçosa e avessa ao trabalho. Era pouco procurada.

No inicio a contratação de imigrantes para substituir a mão de obra escrava teve dificuldades pela má propaganda que os governos europeus (da Suíça, Alemanha, França e Itália) faziam do tratamento que os fazendeiros dispensavam aos seus colonos. Diziam que seus compatriotas eram tratados como escravos. Ao que parece só os ilhéus aceitavam dividir as tarefas com os negros.  Finalmente, com a abolição da escravidão, abertura de estradas, melhoria dos transportes, maquinarias, e adequações do trabalho livre nas áreas rurais e urbanas, o país entrou na era agroindustrial.  

 De 1831 a 1850 perdurou o tráfico negreiro. Apesar das leis imperiais (Ventre livre em 1871 e dos Sexagenários em 1884), que tiveram pouca repercussão na pratica, só a 13 de maio 1888, a princesa Isabel, assinou a Lei Áurea, com a abolição definitiva da escravidão no Brasil. Porém, o ex-escravo sem apoio legal e projetos de inserção social, sem estar preparado para concorrer a vagas de trabalho assalariado, no inicio da industrialização e da urbanização do país, viu-se marginalizado pela sociedade, executando serviços sem qualificação profissional, de baixa renumeração e projeção social. Até hoje os herdeiros dos quilombos e descendentes dos escravos, que são a maioria da população brasileira, lutam para combater as desigualdades sociais que só desaparecerão quando os governos da república derem educação pública de qualidade para todas as suas crianças. 

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 26/02/15

Fonte dos dados:
Wikipédia
Da Senzala À Colônia (Viotti da Costa)


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Os manezinhos da ilha


Foto: Santo Antonio de Lisboa ( Florianópolis). Arquivo pessoal da autora.*

Uns dos primeiros colonos europeus a deitar raízes e marcar terreno no solo deste imenso país foram os açorianos. A principio individual e esparsamente, e mais tarde em levas migratórias colonizadoras, planeadas pelo reino, que se espalharam desde o norte (Maranhão, Amazonas) ao sul do país, mais notadamente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a presença açoriana foi mais numerosa e evidente.

 O colonos começaram a chegar a Santa Catarina a partir do ano de 1748. Eram grupos de casais e aparentados fugidos de desastres naturais ( em geral erupções vulcânicas) e da superpopulação que lhes traziam nas ilhas dos Açores crises de subsistência. As viagens e primeiras acomodações eram patrocinadas pelo Estado Português que precisava, por sua vez, ocupar o território e defender suas fronteiras americanas dos espanhóis. As promessas governamentais (D. João V) de lhes dar apoio financeiro, parcelas de terra, apetrechos agrícolas, umas poucas vacas e um asno, choupanas para abrigo e assistência no primeiro ano de Brasil, nem sempre foram cumpridas. Ao chegarem numa terra estranha, idealizada pelas quiméricas histórias de fartura e riqueza, de luxuriante beleza, mas ocupada por florestas cerradas e índios hostis, sem condições de habitação decente, seus ânimos, já abatidos pela crueza e insalubridade da viagem, arrefeciam. Ingênuos, rudes, crédulos, no entanto pressentiam que era uma viagem sem volta. Teriam pela frente uma nova epopéia, a da sobrevivência.

 Saíram dos Açores para Santa Catarina de 1748 a 1752 cerca de 6000 pessoas. Entre as viagens e as iniciais dificuldades na Terra, supõem-se que perto da metade tenha perecido. Esses primeiros colonos sobreviventes foram distribuídos no Desterro (antiga capital de Santa Catarina), Lagoa da Conceição, na enseada do Brito, São José e Laguna. Em Porto Alegre ( Porto de Dornelas) até 1752 estabeleceram-se 60 casais . Aí a terra foi favorável ao cultivo do trigo,feijão, milho, cevada, vinha, cânhamo,etc. Construíram moinhos e azenhas.  Criaram gado, miscigenaram-se, formaram estâncias, fizeram-se tropeiros, abriram caminhos para  outros lugares.

 Em Santa Catarina, a terra arenosa não favoreceu ao cultivo do trigo, aprenderam então com o índio a consumir a mandioca (mansa) no lugar desse cereal. Novas técnicas de artesanato, pesca e cultivo adquiriram. A vinha, o algodão, o linho tiveram algum sucesso apesar dos recrutamentos militares periódicos que desviavam os homens das atividades agrícolas. As lutas pela sobrevivência foram longas e intensas. Tiveram que se adaptar, superar dificuldades e deficiências, distâncias, faltas e doenças. Mesmo assim, quase esquecidos, colocaram em ação a tecnologia que trouxeram consigo. Construíram embarcações, engenhos e teares, abriram clareiras na mata, plantaram a vinha e os alimentos para subsistência. Levantaram casas, fabricaram louça, cestos e panos. Introduziram a renda de bilro, caçaram a onça que comia seu rebanho, tendo seus cães como fiéis companheiros ( daí a grande quantidade de cães que ainda vagueia pela ilha de Santa Catarina), e a baleia para produzir óleo usado nas construções e como combustível. Enfim, fundaram vilas, projetaram fronteiras, fizeram revoluções, quiseram até ser um outro país!

 Apesar do analfabetismo que nos primórdios medrava entre eles, passaram sua cultura, costumes e crenças , religiosidade, gastronomia e identidade para seus filhos. Apegados à família, ciumentos de suas mulheres, mesmo na pobreza e com as limitações que a terra e a política lhes impuseram, fizeram-se felizes e hospitaleiros.

 Os mais aventureiros partiram para o sudeste e centro-oeste onde o ouro e as pedras preciosas, atrativas,  reluziam. Muitos sucumbiram nas picadas e nas contendas, pela vida e pela fortuna, em busca do El-dourado. Os bem sucedidos enriqueceram, transformaram-se em grandes fazendeiros, latifundiários, chamaram amigos e parentes, daqui e /ou de além-mar, e com  aventureiros de outras plagas, fizeram no interior brasileiro uma nova casta de gente que por largo tempo dominou a política das terras sertanejas.

 Os que ficaram no Desterro agruparam-se, formaram famílias que se dispersaram em pequenos sítios e áreas. Isolados, agregados por natureza, as uniões entre essas famílias cada vez mais aparentadas deixavam a cada geração mais seqüelas. A consangüinidade determinava nascimentos de crianças com maior número de deficiências físicas e mentais.
Mas os tempos rolaram, os séculos se sucederam, as contendas apaziguaram. Os caminhos melhoraram, por terra e por mar o espaço foi cada vez mais conhecido e pelo estrangeiro nacional (paulista, rio-grandense do sul e mineiro,...) e internacional visitado, (inglês, uruguaio, argentino,...). Santa Catarina viu os colonos imigrantes italianos, alemães, polacos, russos, chegarem e fazerem das suas terras focos de beleza e prosperidade.

Hoje, os descendentes dos primeiros colonizadores açorianos, os manezinhos da ilha, podem ainda ser encontrados nas pequenas comunidades de Florianópolis e algumas regiões costeiras de Santa Catarina. Porém, essa pequena população de “nativos” já se encontra em vias de extinção pelas miscigenações genéticas e culturais atuais, e pela voraz expansão imobiliária que, apesar das leis ambientais, nem sempre respeitadas, vem desde 1960 assolando a capital do estado, expulsando o nativo de seu resguardado habitat, degradando impunemente a natureza e ocupando áreas que deveriam ser de preservação ambiental.  Resultado da conhecida má política que só vê os ganhos pecuniários imediatos para um pequeno grupo de fortes proprietários, e que despreza o futuro de qualidade para o restante da comunidade ilhoa.
Morros desbastados da sua natural cobertura verde, ocupados perigosamente por construções levantadas em áreas de risco, com a complacência irresponsável da autoridade pública, vias congestionadas por gente deseducada que joga lixo nas praias e estradas, poluindo o visual e o meio ambiente, violência urbana crescente, cada vez mais incontrolável, é o panorama que se vislumbra em Florianópolis atualmente. Urge que haja políticas inteligentes e políticos eficientes que promovam o desenvolvimento seguro e sustentável desse rico patrimônio da natureza. “Enquanto houver algum recanto paradisíaco guardado por um “manezinho” risonho e pescador, enquanto ainda sobrarem locais intocados pelo homem “civilizado” e” empreendedor” a Ilha de Santa Catarina merece ser apreciada.

Maria Eduarda Fagundes

Tupaciguara, 14/02/2015

Tirei essa foto numa das minhas freqüentes viagens a Florianópolis. Santo Antonio de Lisboa é um sítio (beira-mar) da Ilha de Santa Catarina (Norte da ilha), fica bem perto de Sambaqui. Foi um dos lugares escolhidos pelos primeiros açorianos quando lá chegaram.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

As vinhas do Pico



Criação Velha (Fonte: Wikipédia)

As terras da Ilha do Pico, nos Açores, são escassas e pedregosas. Ilha em forma de montanha ou vulcão, que o é, tem seu solo coberto quase que inteiramente por uma manta de lava negra e petrificada. Quando os primeiros povoadores lá chegaram abriram a braço e picão, com muito esforço, aquele chão. As pedras negras foram empilhadas formando verdadeiras mastabas para dar espaço para o cultivo. Currais de pedras de lava foram levantados para proteger e apoiar a vinha que desde cedo foi plantada e aí bem adaptada. O calor do sol, na laje negra guardado, a uva adocicava. Entre os donos e colonos a terra foi organizada e repartida.  Canadas foram abertas; das cantarias denegridas e rociadas foram construídas vivendas, balcões, muros, igrejas. Varadouros na rocha viva foram talhados. A vinha fermentava em lagares de  lajes inteiriças formados; da terra esfarelada, regada com muito suor,  tiravam o pão.

Nos currais de lava plantou-se a Vidonia (ou a Verdelho).  Vindas da Grécia, via Madeira,  as cepas passaram aos Açores no século XV, provavelmente trazidas pelos frades franciscanos, carmelitas, jesuítas e capuchinhos que , nas ilhas Terceira, Graciosa, São Jorge  e Pico,  tinham muitíssimas áreas de viticultura. Dominando eles as formulas das dosagens das castas, fizeram do Verdelho, no Pico, um vinho de excelência, generoso, suave, da cor de âmbar, apreciado pelos czares russos, cantado pelos historiadores insulares e muito apreciado pelos povos da América, no Novo Mundo. Riqueza que propiciou por muito tempo a construção de ermidas, morgadios, e tantas outras obras, não só no Pico, mas também no Faial, a ilha irmã, onde residia a maior parte dos senhores viticultores do Pico. No Concelho da Madalena, o ciclo do vinho se estendeu até os primórdios de 1852 quando a filoxera e o oidium destruíram os vinhedos e grande parte da economia da ilha.

Em 1880, pela iniciativa e perseverança de vários viticultores, com destaque para Manuel Maria Terra (Barão da Alagoa), do Faial, os vinhedos foram refeitos, desta vez com a introdução da uva Isabel (americana) mais resistente a pragas, mas que resultou num vinho comum, chamado pelos açorianos de “vinho de cheiro”, com menor valor comercial, porém que trouxe algum alento aos cultivadores da vinha.

 Hoje, com tecnologia moderna, novas culturas e vinhos estão surgindo para resgatar um passado e patrimônio ilhéu, tombado pela UNESCO em 2004 (com destaque para os Lajeados da Criação Velha e Santa Luzia). Para nós açorianos, a saga picoense será sempre lembrada, através das marcas deixadas naquela terra vulcânica pela tenacidade de um povo que a duras penas tirou da pedra vulcânica a sua sobrevivência.

Curiosidades históricas:
Conta-se que William Neyle Habersham, rico comerciante de vinhos da Geórgia (USA), fazia o disputado “RAINWATER” da combinação de vinhos claros com o Verdelho. Envelhecia-a e depois a vendia a preços exorbitantes na América.
Há na Austrália uma casta da uva Verdelho da Ilha da Madeira donde provém o Verdelho Australiano.

Maria Eduarda Fagundes

Fonte dos dados:
-O Faial e a Periferia Açoriana nos séculos XV a XIX (Núcleo Cultural da Horta)
-A História do Vinho (Hugh Johnson)
-A Descoberta de Portugal (Seleções do Reader’s Digest)

sábado, 15 de novembro de 2014

Ponto de Vista


A reforma política (bandeira dos todos os candidatos à atual presidência) é uma ação necessária e de consenso geral (povo, PT, PSDB, PSD...). É mais que acabar ou não com a reeleição e com o voto proporcional. É conhecer a força popular no que é voto distrital, é saber como funciona o Sistema majoritário, é mexer numa estrutura política complexa, eleitoreira, viciada e acomodada. Reformá-la é uma questão que exige seriedade, conhecimento profundo das leis políticas do país, o que são e fazem, as composições e coligações partidárias, quais são suas prerrogativas e delegações políticas. A imensa maioria do país vota sem saber nada disso, “emprenha” pelo ouvido aquilo que diz, o que mais alto grita!
O país precisa de leis feitas às claras, por quem tem conhecimento e competência para isso, e depois de elaboradas, apresentadas e aprovadas (ou não) pela população, para então serem promulgadas. Tudo feito de acordo com a nossa Constituição.
No Brasil, o Congresso Nacional (órgão de âmbito federal eleito pelo povo para legislar, fiscalizar e controlar o governo), é que tem essa atribuição. O que se deve fazer é cobrar do Congresso uma decisão.
Com a desculpa de consultar as ruas, a presidente quer passar como um trator por cima de tudo isso, tirando do Congresso Nacional a sua função e representação legítimas! Então para que servem as nossas Instituições se não são respeitadas pela cúpula política da nação?... E onde ficam as regras da nossa democracia? Isso não é constitucional e nem desejável.... O povo que elegeu Dilma também elegeu os Senadores, deputados,...nossos representantes legítimos, no Congresso Nacional.

Uberaba, 31/10/14
Maria Eduarda Fagundes

sábado, 11 de maio de 2013

A Disputa



uma história antiga da região onde vivo...  O Triangulo Mineiro 

Foto: arquivo particular  

Devido à dificuldade em se manter a lei, na época do Brasil Império, o interior foi entregue à Guarda Nacional, entidade formada pelos chefes políticos locais, em geral fazendeiros de grandes latifúndios, que recebiam uma carta patente assinada pelos próprios funcionários do Império, e mais tarde pelos funcionários da República, até 1930 quando foi extinta.
Amparados pelos poderes político e policial, esses Coronéis eleitos pelo governo, nomeavam para cargos políticos locais, a seu bel-prazer, amigos, correligionários, parentes, em geral gente de destaque social, que em rede de amizade e fidelidade lhes garantia o prestígio. A soldadesca era escolhida pelos seus feitos, em lutas e brigas onde demonstravam valentia.
Cercado por capangas e jagunços que lhes davam a “respeitabilidade” os  Coronéis eram como se fossem reis no Sertão Brasileiro. Disputas, querelas, desentendimentos, eram frequentemente resolvidos à bala, às claras ou em emboscadas, em caminhos ou lugares estrategicamente escolhidos. Em geral conhecia-se ou desconfiava-se quem eram os executores, gente contratada para trabalhos dessa índole, que depois do “serviço” desapareciam nos matos, fazendas, ou  em sítios longínquos.  Os contratantes nunca eram descobertos ou denunciados, principalmente se fossem poderosos, pois nada acontecia a eles.
 Naquele final de tarde, na birosca da estrada que levava às fazendas da Descarga, a raia miúda, após a lida, contava os “causos” embalados por doses de uma envelhecida” branquinha”. Foi quando, por ironia do destino,  Zacarias e Tomé, dois importantes fazendeiros, antigos amigos de infância, ali se encontraram. Desde que um curso de água de uma copiosa mina que nascia nas terras de um deles foi desviado para  irrigar uma plantação, tirando a água que abastecia um pequeno córrego que atravessava os campos do outro, que a amizade entre eles azedou. Entre um copo e outro de pinga o assunto da água veio à baila. Em instantes a discussão surgiu e se acalorou. Pressentindo um desfecho violento entre os dois homens,  os "catireiros" suspenderam as negociatas, os peões deixaram nos pratos os “engasga-gatos” (bolinhos de carne bastante apimentados, fritos na hora, em gordura de porco) e  se afastaram devagar, enquanto  o dono da venda, preocupado,  procurava com olhar a lazarina que  pendurada na parede aguardava ser solicitada...
Anoitecia. Atrás das colinas, no céu uma luminosa faixa vermelha, rastro de um sol que aos poucos se escondia, e o canto estridente das cigarras previam um dia seguinte calorento. A Vésper,  já se mostrava, límpida,clara como um grande diamante. Era a hora em que nas fazendas todos param para rezar a ave-maria, quando um tirou ecoou no ar espantando as aves que em brusca revoada  se alçaram das árvores,  onde se aninhavam. Dentro da bodega, a cena trágica.  Zacarias caído de bruços sobre balcão, varado por uma bala certeira no peito. Tomé, exangue, ainda com a arma na mão,  olhou ameaçador para o quitandeiro e  assistentes e, incisivo,  deixou um recado: 
- Avisem aos filhos deste traste e  a quem quiser contestar o direito que tenho sobre a mina e o trajeto do córrego que quem não aceitar a minha decisão, vai acabar como ele.   E se saiu esporando o cavalo baio rumo à cidade.
O  tempo passou. O incidente parecia estar enterrado junto com o morto da Descarga
Na pequena cidade novas eleições se avizinhavam. No mistifório político,  na alternância do “ sai tu que agora estou eu”, quem sempre ficava no poder era o Coronel ou seus subalternos.   Na Câmara, Conservadores e Progressistas  expunham seus planos e projetos.  O Coronel Tomé, Conservador, no meio da sala, sentado à mesa, comandava os trabalhos .  Acompanhando os  Progressistas os filhos e herdeiros do falecido Coronel Zacarias militavam as sutis diferenças, em aparente cortesia.
Do  lado de fora da janela aberta, por onde entrava uma pequena aragem, um homem de chapéu de abas largas inclinado sobre a testa,  se misturava, despercebido,  a outros elementos que, curiosos,  se postavam para ver as discussões que agitavam o ambiente.  Debaixo de paletó trazia um 38,  municiado e niquelado como exigia  a profissional eficiência. Na cintura a inseparável peixeira,  para a remota eventualidade do revólver falhar. Dali,  daquele ângulo,  seria quase impossível para um atirador com fama de Tonicão errar. Como um felino, calmo e frio, seguia os mínimos movimentos da sua presa, esperava apenas o momento certo da ação.  Foi rápido e preciso. Quando Tomé se levantou e pediu a palavra, não teve tempo de começar o discurso. Para o pasmo da plateia, quase que imediatamente recebeu um tiro que lhe vazou o olho direito e tirou a vida. O matador não teve tempo de verificar o resultado do seu "trabalho", aproveitando o tumulto e o corre-corre  da turba, desapareceu  na estrada, se acoitou para os lados de Goiás.
Por alguns anos a fama de Tonicão correu por aquelas bandas. Praticava o tiro ao alvo periodicamente em garrafas dispostas lado a lado, mirando a boca do gargalo. Perito no que fazia, resolveu definitivamente brigas e disputas de muita gente, de quem lhe pagava mais. Mas  como todo o matador profissional, não viveu muito tempo. Acabou assassinado, com um tiro,  quando entrava num bar, de ré,  para não ser surpreendido pelas costas. Outro, como ele, esperava-o lá dentro, atrás do balcão...
Maria Eduarda   Fagundes
Uberaba, 21/04/13

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Hipnos



Hipnos e Tânatos (Fonte: Wikipédia Livre)
                                   

Na concepção da sociedade atual, com tantas motivações para se ficar alerta, o dormir é, para muitos o mesmo que perder tempo, um roubo de horas vividas, um exercício para a morte. Desde a antiguidade a mitologia dava ao sono, processo biofisiológico rítmico, cíclico, subordinado a estímulos elétricos e neuropsíquicos, a importância para manter o homem em estado hígido.  Os grandes estudiosos do assunto, psicólogos e pesquisadores da mente, são unanimes: há no domínio de Hipnos, deus do sono, filho da noite (Nyx) e de Érebo (a treva primordial), irmão de Tânatos, deus da morte, outro mundo ainda não totalmente desvendado, que comanda o subconsciente e  favorece a criatividade.  Quando esse processo neuropsíquico é afetado por doenças (físicas ou psíquicas) ou por comportamentos que prejudiquem a rotina, aparece a insônia que, frequente, mina a qualidade de vida.  Dormir o que se precisa ajuda a manter-nos física e psicologicamente saudáveis, mantém-nos vivos.
Aqueles que, por necessidade ou tipo de trabalho, são obrigados a trocar o dia pela noite, necessitam de mais tempo para descanso e de algumas compensações financeiras e sociais,  como aposentadoria mais precoce.  Mas nem sempre o preço pela falta de sono é só esse. Os pesquisadores são enfáticos;  a falta de um sono reparador leva a um déficit cognitivo e motor, a alterações de humor, a fadiga crônica, a maiores riscos de acidentes e erros que prejudicam os relacionamentos sociais e familiares. A história mostra essa tendência. Relatos de tragédias como a do Titanic(1912),  a do petroleiro da EXXON Valdez (1989), a da usina nuclear de Chernobyl (1986), foram acidentes que ocorreram à noite, quando equipes submetidas a longas jornadas de trabalho sem o descanso necessário, com privação de sono, tiveram falhas ou cometeram mais enganos que o normal.   Embora não divulgado à priori, soube-se posteriormente que a equipe de manutenção do ônibus espacial Challenger havia trabalhado exaustivamente na noite anterior, para reparar o defeito numa peça do tanque de combustível. Problema que ficou aparentemente resolvido... até à explosão do ônibus.
Mas como tudo tem exceções, há também aqueles que julgam a noite a parte do dia mais produtiva, pela quietude e sossego de que se dispõe. Poetas, escritores, artistas, cientistas, cérebros diferenciados há que encontram nessa ocasião o seu melhor tempo. O Nobel de Química de 2003, R. MacKinnon disse: “Meus momentos mais produtivos são aqueles em que não consigo dormir”. Em geral são mentes privilegiadas que conseguem funcionar tanto pela atividade cerebral racional, como pela intuição, quando esta está liberada, sem o controle e censura da racionalidade, como um caleidoscópio que pelo movimento ao acaso mostra novas e inesperadas formas de visão.  Para os filósofos a intuição é uma modalidade rápida, fugaz, privilegiada de conhecimento, que tem papel decisivo na criatividade, seja artística ou cientifica. Mesmo nestes casos, as pesquisas comprovaram que o repouso noturno aguça duas vezes mais o sentido intuitivo dos que repousam, do que os que não repousam adequadamente. Logo Hipnos tinha razão em se deitar numa cama de penas macias, numa caverna escura junto a uma das margens do Lethe, o rio do esquecimento. Dormir não é perda de tempo, dormir faz bem à vida.  
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 30/03/13

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sambaqui


Foto: ( arquivo particular da autora)  


A imagem é de calma e beleza . Virada para a baía norte da ilha de Santa Catarina, olhando para o continente, a Praia do Sambaqui tem águas tranquilas que, em ondas pequenas,  se espraiam preguiçosas sobre a grossa areia de conchas milenares. No mar, sob o sol reluzente, pequenos barcos amarrados por fortes correntes balançam, dolentes, à espera que alguém os tire daquele marasmo e os faça de novo cortar as águas e o vento, à busca do peixe, sagrado alimento. No horizonte, ao longe,  montanhas azuis enfeitadas com um longo colar branco, como  pérolas,  dizem que para lá há cidade, mais gente...
Na estreita faixa de terra beira-mar , casas pequenas, antigas,  caiadas, de característica ilhoa, bordam o caminho, olham o mar. Quem sabe não esperam  o pescador , dono da casa,  chegar.... Colinas milenares, de conchas e esqueletos marinhos construídas, cemitérios magníficos de ancestrais indígenas, hoje cobertas por uma vegetação sempre verde e exuberante, aconchegam o local, servem de barreira às águas da baía, protegem os quintais. 
 Foi também no Sambaqui, lugar de nostalgia e  sossego, onde os espíritos dos povos semi-nômades que ali viveram desfrutam a paz e a beleza paradisíaca do lugar,   que açorianos chegados nas primeiras levas de imigração do século XVIII escolheram para morar.  Passeando por lá, me veio à ideia; quem sabe naquele tempo, sentado na praia, ao pôr do sol, algum faialense, como eu, ao ver a montanha -continente, em frente, deva ter fechado os olhos e, com saudades,  imaginado o Pico olhar!
Maria Eduarda Fagundes
Floripa, fevereiro/ 2013