«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

terça-feira, 31 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


A CAROCHA VAIDOSA

Carocha vaidosa
Pulando airosa
Aí vai ela
De lenço às bolinhas
Salto alto,
Pensa que é atriz!
Cuidado carocha vaidosa
Olha que cais e partes o nariz!

segunda-feira, 30 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (125)

Os Grandes Amigos, Georg Baselitz, 1965
Óleo sobre Tela 250x300cm

Amo devagar os amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder

domingo, 29 de março de 2015


(Esta rubrica não respeita as regras do acordo ortográfico.)


MIRADOURO 13 / 2015





ESPARGOS

(Asparagus)

Cheguei cedo ao terreno da Cristina e propus-me ir apanhar alguns espargos antes do almoço. Munido de navalha e saco embrenhei-me pelos pinhais que ali há, acompanhado pelo cão que, ainda que velhote e invadido de reumático, quis ir comigo. 

Fui andando e apanhando, aqui e ali e mais além, outro e outro e mais outro depressa consegui colher um molhinho. Andava nisto, quando me deparei com um homem já idoso dedicado à mesma ocupação. Aproximei-me e perguntei-lhe se gostava de espargos. Disse que gostava muito e que a sua mulher logo decidiria como os cozinhar. Gostei do homem, era simpático e já um pouco trôpego. Espreitei para o balde que trazia e concluí que dificilmente conseguiria colheita que permitisse a confecção de qualquer refeição. Ofereci-lhe os que tinha apanhado dizendo-lhe que juntos talvez já dessem para fazer umas migas, passando a explicar-lhe como se faziam as migas lá minha terra. Agradeceu, ouviu interessado, fez algumas perguntas e concluiu-se com um «deve ser bom ». 
Continuando a conversa fiquei a saber que se chamava Manuel, que nascera perto de Loulé há já 85 anos, que havia sido carpinteiro e que agora vivia com a filha porque as finanças lhe tinham ficado com uma pequena vivenda de que era proprietário e onde morava, devido a algumas dívidas que não conseguira pagar. Tinha sido proprietário de uma pequena carpintaria mas com a crise …, a filha era divorciada e viviam com algumas dificuldades, já que as reformas eram pequenas. Soube ainda que tinha umas vértebras de metal, que já fora operado à próstata e a uns pólipos - «cortaram-me vinte centímetros de intestino» - e que na próxima 2ª fª ia ser internado para nova operação aos intestinos.
Disse-lhe algumas palavras de ânimo relativizando a operação próxima e fui à cata de mais espargos para ver se se conseguiriam as tais migas. O homem por ali ficou deambulando lentamente.  

Simpatizei com o velhote e, mais do que a delicada operação, seguia incomodado com o facto de lhe terem tirado a casa. Mesmo sem saber os pormenores nem a dimensão das culpas que eventualmente lhe caberiam, incomodava-me o facto de cada vez ser mais frequente no nosso país este tipo de ocorrência. Tirar o lar a uma família em dificuldades????! só em situações muito extremas, quando estivessem esgotados todos os procedimentos possíveis para resolver o problema e, mesmo assim…

Nos tempos presentes o mundo pensante que nos des-manda propõe-se tirar-nos cada vez mais direitos, regalias, até mesmo o sustento se o conseguirem. Empobrecer-nos, em suma.
Em contraponto, o mundo não pensante, a Natureza sempre generosa, oferta-nos e permite-nos sempre alguma colheita.
Precisamos ultrapassar rapidamente esta fase, esta ordem e este sistema, encontrar outros e novos intérpretes, nós, todos nós, e aprender mais com a Natureza e as lições que  nos deixa

Procurei o Ti Manel (tenho a certeza que ele não se ofenderá com este tratamento familiar) e ofereci-lhe o novo molhinho que tinha colhido. Ficou todo contente e eu também. Apertámos as mãos e seguimos cada um para as nossas casas.

Quando cheguei a minha mulher perguntou «então os espargos, não havia?», «havia mas dei-os a um amigo» e fomos almoçar.

Manuel João Croca

(fotos retiradas da internet)


sábado, 28 de março de 2015

A vida tem-me oferecido a felicidade de conhecer pessoas excepcionais, do Dalai Lama a Agostinho da Silva. E ainda estou sob o impacto da última: o Professor José Pacheco, o grande pedagogo da Escola da Ponte, o homem que se define como "um louco com noções de prática" e que declarou em 2008 que "A medida de política educativa de maior impacto seria a extinção do Ministério da Educação". Com ele aprendi "que na aula não se aprende nada" e a necessidade de passar da trans-disciplinaridade para a indisciplinaridade (porque a realidade é integral e alheia às divisões das disciplinas ditas científicas) e tive o privilégio de o ouvir acentuar que uma vaga educativa virá em breve do Sul que vai varrer os métodos anglo-saxónicos e norte-americanos com dois nomes de educadores apenas: o brasileiro Lauro de Oliveira Lima e o português Agostinho da Silva. Estou nessa.






Paulo Borges


quinta-feira, 26 de março de 2015

Cerrados (5)






Kity Amaral

Título: Cerrado azul e bizarro
Técnica: acrílica sobre tela
Dimensões: 80x120 cm
Data: 2005


quarta-feira, 25 de março de 2015

Apontamentos Políticos


São Tomás de Aquino


 O Céu e as Gentes
Foto de Lucas Rosa

Com a queda definitiva do Império Romano no ano 476, no meio do caos que se instala, já então transformada numa poderosa organização política, social e religiosa, o poder da Igreja permanece intacto.

Deste período até ao reinado de Carlos Magno, num período aproximado de 3 séculos, assiste-se a intensas relações entre a Igreja e os nobres, até que se chegue a uma clara divisão do poder: os príncipes cristãos devem servir-se do sacerdócio nas coisas que se referem à salvação e os padres devem respeitar o que for estabelecido pelos príncipes no que respeita aos acontecimentos temporais.

As ideias de Santo Agostinho acabam definitivamente por ser postas em prática no reinado de Carlos Magno. Este foi proclamado Imperador pelo Papa tornando-se no chefe temporal de toda a comunidade cristã que tinha no Papa o chefe espiritual. É esta divisão entre o poder espiritual e o poder temporal que, do ponto de vista político, caracteriza toda a Idade Média

Já no século XIII surge São Tomás de Aquino outro dos grandes pensadores políticos da Igreja que acaba por ter uma ação determinante no desenvolvimento das ideias políticas no continente europeu.

São Tomás de Aquino nasceu em Itália, em 1225. As suas obras foram numerosas e a mais importante é a “Summa Theologica”.
Como pensador político, recebe sobretudo a influência de Santo Agostinho e de Aristóteles, o que se vai traduzir na junção entre o pensamento cristão e a filosofia grega, ou seja, a um pensamento de hegemonia católica que havia perdurado durante todo o período medieval, São Tomás de Aquino vai abrir as portas a uma lógica de cariz mais científico que terá como consequência novos desenvolvimentos políticos.

Apoiando-se em Aristóteles, por um lado, vem sustentar que o Estado tem por natureza dar aos homens as condições para uma vida mais digna: “O fim do Estado é o Bem Comum”. Mas, por outro, de acordo com Santo Agostinho, as ações dos homens não se esgotam nas suas relações com o Estado, já que em todos sobreleva um fim natural que é a sua união com Deus.

Aliada à ideia de “bem comum”, também a ideia de Justiça à semelhança do que acontecia com Aristóteles, aparece como o conceito supremo que deve orientar as ações do Estado.

S. Tomás de Aquino considera que a monarquia constitui a melhor forma de governo para se atingir a unidade social. Como ele sustenta, se “no corpo só há um coração, nas sociedades mundanas só deve haver um governante”.

Embora este nosso pensador não conceba uma conceção laica do Estado, também não defende a subordinação do poder temporal ao poder espiritual. Segundo ele, ao lado do poder temporal dos príncipes, deve existir o poder espiritual do pontífice. Ambos têm origem em Deus, mas ambos são reciprocamente independentes e cada um tem o seu fim próprio – em assuntos espirituais deve obedecer-se ao poder espiritual, em assuntos políticos deve-se maior obediência ao poder secular.

Só em virtude da superioridade do fim sobrenatural da Igreja relativamente aos fins terrenos que pertencem ao Estado, se poderia falar em subordinação deste ao primeiro. Tal subordinação, porém, é tida como limitada enquanto importante para que a alma humana possa chegar à salvação.


Luís Santos


terça-feira, 24 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


25 DE ABRIL DE 1999

25 passados 
5 000 esperanças sentidas. 
Abertos os 
Braços 
Risos 
Iluminaram a 
Liberdade que 
1 vez sentida 
9 vozes se juntaram, 
9 punhos se ergueram 
9 (e novos) sonhos continuaram!

segunda-feira, 23 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (124)

Homenagem a Picasso, Fernando de Azevedo, 1981
Colagem sobre Coolagem

EU

Não tenho que

Porque o ter que já é não ser
Por vir de alguém e não de mim
E o nós também 
Não é daqui
Pois cada um é só por si
O que já for sem ter que ser 
Serei ou não o que souber
Do que puder
Seja o que for
Mas só serei o que quiser
Sem ter que ser
Como quem quer nunca morrer
Serei assim
Dentro de mim o que já for
E o que ao ser em mim servir

Serei ou não 
O que quiser 
Ou não quiser
Viver de mim

Maria Teresa Bondoso

domingo, 22 de março de 2015




MIRADOURO 12 / 2015

NO FÓRUM


O avô explicava e o neto ouvia (de vez em quando perguntava).
Falavam de qualquer coisa.
Da loja que fechara e da outra que ao lado abria, do tempo quente do verão e do outro em que chovia.
Falavam de coisas simples, triviais, do que na vida acontecia e eu, ao assistir aquilo, sem saber bem porquê sorria.
Observava e sorria perguntando-me sobre o porquê da vida assim, tão simples, poder ter tanta magia.
Sem muito pensar compreendi.
Pois claro, lá está.

Manuel João Croca

sexta-feira, 20 de março de 2015

21 de Março, Dia Mundial da Poesia, da Árvore, da Floresta, da Discriminação Racial, um dia depois do início da Primavera na zona temperada do hemisfério norte.



LIVRO DE POESIA DE ABDUL CADRE 


Eis a nossa lembrança:
Um livro de poemas que o autor partilha através da eBooksBrasil, sem custos.
Para aceder ao livro, CLIQUE NA CAPA e boa leitura.





quinta-feira, 19 de março de 2015

"Flores Voando"





Carola Justo

"Flores Voando"

Acrílico

60x50cm


quarta-feira, 18 de março de 2015

Apontamentos Políticos


O Cristianismo e Santo Agostinho


CLICAR NA FOTO
Fotografias com Música 
Lucas Rosa


A Grécia Antiga, com os seus brilhantes filósofos, produziu um pensamento político de valor muito considerável. A organização das “cidades-estado” na Grécia Antiga, e a autonomia política que as caracterizava, acabou por revelar um conjunto de diferentes regimes políticos que foi oscilando entre sistemas mais oligárquicos ou mais democráticos. Por isso, pelo avanço das ideias políticas, da ciência, costuma considerar-se a civilização grega como o berço da civilização ocidental.

A Grécia acabaria por ser conquistada militarmente pelo Império Romano no século II a.C., mas dada a fortaleza das suas ideias, embora perdesse a soberania territorial, os romanos haveriam de sucumbir à força dos seus filósofos que acabariam por colonizar grande parte do pensamento dominante.

No interior do Império Romano, equivalente à dimensão da filosofia grega, só a revolução cristã haveria de ter um efeito semelhante. As ideias de paz, tolerância, caridade, fraternidade e igualdade, entre as possibilidades da salvação da alma e do Amor, tal como propostas por Cristo, acabaram por revolucionar todo o Império e, a seu tempo, o mundo inteiro. Sobretudo, a ideia de igualdade, pois que todos os homens são ditos como irmãos, onde cada um deve respeitar todo o próximo como se de si próprio se tratasse, num tempo em que uma mentalidade esclavagista era absolutamente dominante, acaba por constituir um princípio de libertação que a plebe vai segurar de mãos juntas.

As ideias cristãs haveriam de se estender a todo o Império Romano. De um pequeno conjunto de dogmas, de um povo, inicialmente perseguido e aprisionado, o cristianismo acabaria por se expandir e ganhar título de religião oficial de todo o Império, em meados do século IV. E se a parte ocidental do Império estaria para ruir em breve, o que aconteceu no ano de 410 às mãos das invasões bárbaras, o cristianismo solidificou-se de tal forma que o Império caiu, mas Ele não.

Um dos primeiros grandes pensadores políticos da Igreja é Santo Agostinho. Na sua obra mais referenciada, A Cidade de Deus, Santo Agostinho vai adequar a filosofia cristã ao pensamento político. Embora as ideias de Cristo anunciem um novo paradigma político que vai abrir as portas de um novo período da História da Humanidade, a Idade Média, as novas teorias políticas fazem ainda ressoar algumas das ideias dos filósofos gregos, sobretudo Platão e Aristóteles, agora já marcados por essas novas ideias de igualdade e de Amor que entre eles tinham diferentes contornos.

A Cidade de Deus faz uma dissociação entre duas pretensas “cidades” que coexistem entre os homens, uma pertença de Deus, outra pertença do Mundo. Grosso modo, a primeira, caracterizada por uma comunidade de todos os que vivem no mundo segundo o espírito cristão e buscam a justiça divina, a Igreja; a segunda, pelo grupo dos que vivem segundo a carne e apenas para satisfação dos seus desejos de concupiscência e domínio, o Estado fora da Igreja.

Ora, sendo o Estado para Santo Agostinho, mais inclinado para o reino do demónio, em consequência da natureza corrompida do homem, ele propunha transformá-lo numa comunidade de paz e de justiça, realizando neste mundo a Cidade de Deus. A transformação dos Estados em comunidades onde reinassem a paz e a justiça só se conseguiria, portanto, pela conversão ao cristianismo e pela subordinação à Igreja.

As ideias de Santo Agostinho acabariam por ser levadas à prática a partir do século IX, no reinado de Carlos Magno, precisamente nas cerimónias de Natal do ano 800, perante o qual o Papa haveria de se ajoelhar e considerá-lo como Imperador de toda a cristandade, reservando para si o título máximo da espiritualidade, acentuando assim uma bipartição do poder político, um temporal outro espiritual.

Entre outros factos importantes, Carlos Magno tinha-se oposto e derrotado os árabes na batalha de Poitiers, em França, impedindo que a expansão árabe se alargasse mais ainda pelo território europeu, o que na altura constituía um perigo eminente para todo o mundo cristão. Esse crónico conflito entre cristãos e árabes que, quase incompreensivelmente, ainda hoje continua a fazer história.


Luís Santos

terça-feira, 17 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL 

O PARDAL ZÉZITO


O Sr, Pardalito
Resolveu afiar,
Num raminho de alecrim,
O seu bico para papar.
Tão afiado ficou que mais parecia um palito!
- Um palito?
Perguntou o Zézito?
Para palitar o quê?
Não tem dentes!
- Ora, para palitar a voz!
Pardal que se preze
Por cada pulito que dá.
Um sonzinho sairá!

segunda-feira, 16 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (123)

Cinema em Nova Iorque, Hopper, 1939
Óleo sobre Tela, 81,9x101,9 cm
Sinto o teu respirar
Mesmo quando não estás
Saberás sempre que te amo
Numa asa, num sopro de vento
Detenho os meus olhos no infinito
Na beleza das cores que me ensinaste
Mesmo nesta lonjura de sermos
E nos dias sem te ter
Não estás distante de mim, um só momento
Estarei à tua espera nas estações do tempo
No sitio onde o coração adormece
E a tua imagem me invade os sonhos
Só para não me deixar morrer.

Cecília Vilas Boas

domingo, 15 de março de 2015




MIRADOURO 11 /2015


SIM, É DE AMOR QUE FALO, 

ou uma antecipada comemoração do Dia Mundial da Árvore e da Floresta


(Foto de Joaquim Raminhos)


Sempre jovem e rainha
índia-mulher de cabelos ao vento,
animal que se agita
no ritmo dos dias e das marés.
Maquilhada pelos desvelos das estações
que te moldam forma e ser
ensinas-nos sem verbalizar,
a ética de quem germina
sem intenções de colher.
Dizes-nos
- na tua fala diferente -
na fala animada das folhas
tamborilando nos ramos,
artérias do tronco-raiz
que em terra se afunda e funda
em missão de servir.
Arquitectura viva em transformação,
beleza, seiva, flor e fruto,
sombra, lenha, madeira, pão.
Pousada de quem se abriga
poema em construção
que uns soletram e outros não.
Companheira de mil sóis, luas,
brisas paridas da folhagem,
frios que temperam,  calores de rachar,
anéis que marcam o tempo
em memórias de ti e de nós
que não precisas contar.


Manuel João Croca

sexta-feira, 13 de março de 2015

A EUTANÁSIA E A MORTE ORGANIZADA


Ponderações sobre o Suicídio assistido


António Justo

Fala-se da "eutanásia ativa" e da "eutanásia passiva". A "eutanásia ativa" implica a opção pela morte individualmente deliberada por um enfermo incurável e assistida pelo médico que, a pedido do paciente, lhe prepara um cocktail mortal ("suicídio assistido").
Na "eutanásia passiva" são interrompidas as acções que tenham por fim prolongar a vida. O paciente pode determinar não querer a utilização de instrumentos nem medidas de prolongação da vida. Esta prática já é muito comum em pacientes de estado terminal. O alívio do sofrimento torna-se prevenção contra suicídio e ajuda a evitar o desespero da vida e possibilita a assistência espiritual. No processo da morte, moribundos chegam a ter momentos de alegria e felicidade e momentos de desespero.
Os defensores do "suicídio assistido" costumam argumentar com o direito do indivíduo à autodeterminação e alegam querer evitar situações “sem qualidade de vida”.
Na Alemanha é proibido o suicídio assistido. A maioria dos filiados nos partidos da União CDU/CSU é contra o suicídio assistido; defende a medicina paliativa em que se receitem analgésicos (contra a dor) mesmo que indirectamente encurtem a vida. O SPD, partido da coligação, expressou a opinião de deixar espaço livre aos médicos em questões terminais (situações limite). O partido os Verdes protagoniza a liberdade de decisão e em casos especiais estende-a também a familiares e pessoas mais próximas. Muitos parlamentares dos vários partidos são de opinião que é suficiente a melhoria dos cuidados paliativos no hospício.

O Porquê do não à Eutanásia
A liberdade de autodeterminação no suicídio (porque só no fim da vida) não parece ter lógica. A razão não pode justificar o direito de matar ou de morrer. Além disso, o ser humano é ele e as suas circunstâncias e estas podem conduzi-lo ao medo de ficar só, de se tornar num fardo para outros, de se encontrar num momento depressivo e deste modo ser motivado a desejar a morte, num determinado momento. É problemático argumentar, em nome da autodeterminação, porque esta tem sempre a ver com as circunstâncias... Os momentos de dificuldades não são os melhores conselheiros para se tomarem decisões irrevogáveis.
A ajuda ao suicídio não pode ser uma missão do médico nem é uma questão a ser organizada a nível de negócio. A ética médica tem em conta o juramento de Hipócrates, que se compromete a defender e preservar a vida; eutanásia é homicídio e como tal fora do âmbito da ordem dos médicos. A Ordem dos Médicos alemã, numa tomada de posição a 12.12.2104 declarou repudiar veementemente o suicídio assistido por médicos. A sua conduta é a orientação pela “ regulamentação profissional dos médicos que diz que é dever dos médicos preservar a vida”. Só a vida, a saúde tem de ser protegida e restaurada, o sofrimento deve ser aliviado e praticada a assistência aos moribundos.
Há casos de consciência em que o médico se pode encontrar num dilema mas que não pode ser solucionado com uma lei porque uma “excepção normalizada” poderia tornar-se regra, como advoga o actual ministro da saúde na Alemanha.
A religião é contra o suicídio assistido porque considera a vida como um dom sagrado. Para o cristianismo o ser humano não se deixa reduzir à biologia nem a sua vida pode ser deliberada pelo Estado nem por qualquer instituição. De facto a eutanásia é um acto contra a natureza e inclui também o perigo da industrialização da morte e do distanciamento familiar. A mentalidade economicista em via e a maneira como já se tratam os reformados não deixa pressupor o melhor desenvolvimento no sentido humano.
Nenhuma diagnose é segura, há sempre pessoas que apesar de diagnosticadas de doença mortal se restabeleceram. A eutanásia é decisiva e não deixa lugar para rever a decisão tomada no caso de condições mudarem.
As pessoas são manipuláveis pelo ambiente e pelo espírito do tempo. Vivemos numa sociedade utilitária que cada vez mais avalia tudo em relação aos custos. No nacional-socialismo tornou-se comum a destruição de “vida inútil”. Pessoas deficientes, operações a partir dos 70 passam a ser encaradas sob a perspectiva utilitária. O nacional-socialismo de Hitler determinava o que era digno de vida e o que não.
Morrer é um processo natural. Morrer dignamente não precisa de suicídio assistido.
Já o Antigo Testamento considerava a vida como oferta de Deus (Gen 2,7) e recomenda: “não deves matar (Ex 20,13). A maneira como se tratam doentes e moribundos é um indicador do grau da civilização de um povo. "Nunca é lícito matar o outro: ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse (…) nem é lícito sequer quando o doente já não estivesse em condições de sobreviver" (Santo Agostinho in Epístola).
Não se tem o direito de decidir sobre vida ou morte. O tabu da morte serve o respeito e a protecção da vida como um direito fundamental das pessoas. A licença para matar viria da barbaridade que veria a morte como último remédio.
Há pessoas habituadas a mestrear toda a sua vida e querem determinar também o seu momento de morrer. Muitos defendem que uma motivação religiosa não dever ser alargada a toda a população. A decisão sobre a vida não é da competência de nenhuma instância humana, pelo que não deveria ser legalmente privatizada nem deixada a nenhuma instituição.
Quem assiste pacientes terminais de casos muito difíceis, sente-se, muitas vezes, desafiado e indefinido. Por trás de cada posição encontra-se um juízo de valor. Não há soluções definitivas, há que viver com a morte...

Um Testemunho pessoal
O teólogo Hans Küng, que sofre de Parkinson, defende o direito à eutanásia no fim da sua vida. "Eu assumo a minha responsabilidade para o meu morrer na devida altura, uma responsabilidade que ninguém me pode tirar... Deus oferece-me a graça, assim espero eu, de reconhecer o verdadeiro momento; o mais tardar seria para mim, certamente o início duma demência”. Küng considera a vida como um dom de Deus mas ao mesmo tempo, segundo a vontade de Deus, a vida é uma missão do Homem e, como tal, também na sua última etapa. “Ninguém deve ser incitado a morrer mas também não deve ser obrigado a viver” ( Hanns küng em “Menschenwürdig sterben von 2009”). É uma questão reservada á consciência da pessoa. A crença na vida eterna para lá do espaço e do tempo não precisa de se preocupar com o prolongamento da vida temporal.
O médico e o padre podem acompanhar o desejo de morrer. Não é sua missão julgar nem condenar mas assistir. Temos que viver com a incerteza. Informação venha ela de onde vier é também manipulação.

O Negócio com a Morte
Países baixos, Bélgica, Suíça tornaram-se em países do turismo da morte. Forças económicas dos países vizinhos olham com inveja para estes países.
Há grupos que fazem negócio com a vida prolongando-a e outros encurtando-a.
É perverso, querer fazer-se um negócio sob o desígnio da humanidade e de defender a dignidade humana. A propaganda vem mais de organizadores da eutanásia que ganham dinheiro com ela. Se o seu motivo não é económico mas humanista então porque o não fazem gratuitamente.
A meta não deveria ser uma morte humana mas uma vida humana. Numa época em que a eutanásia é idealizada, a organização do suicídio assistido torna-se trágico.

Conclusão
O teólogo Küng não defende o suicídio assistido mas reserva-se para si o direito de assumir a responsabilidade da sua morte no momento oportuno. É contra a recusa absoluta de toda a eutanásia e contra a arbitrariedade do morrer; opta por um meio termo que segundo ele se funda na fé pessoal. Küng, como cristão responsável, fala por si e não em nome da instituição.
A Igreja petrina, pelo seu caracter constitucional, não pode ser pela eutanásia. A nível pastoral, sabe que a vida é oferta, uma dádiva a ser cuidada e desenvolvida e não encurtada nem reduzida a uma simples ideia sobre ela, mas conhece também o princípio da ética cristã: o último juiz em questões de decisão na terra é a consciência individual da pessoa.
Os textos sagrados não se perdem na lógica; permitem a contradição. Se fossem lógicos limitar-se-iam ao caminho da ciência. Assim podem-se dedicar às verdades eternas através da fé. Esta é dom que permite navegar noutras esferas que não as do dia-a-dia demasiadamente determinadas pelo utilitário.
Não é fácil nascer nem é fácil morrer; nos segredos da existência só Deus e a própria consciência!

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo



quinta-feira, 12 de março de 2015

A Arruda






por Miguel Boieiro

No livro “Les Plantes Magiques” de Sédir pode ler-se: “um rebento de arruda atado à asa de uma galinha protege-a do gato e da raposa” e ainda, “se aspergirmos a cama com a água da cozedura de arruda, misturada com urina de mula, as pulgas imediatamente desaparecem”. Estas são apenas duas curiosidades do imenso rol de qualidades atribuídas, desde tempos imemoriais, à arruda, como planta protetora e inclusive, ativadora contra as más vibrações, os sortilégios, o mau-olhado e as feitiçarias. É impressionante a quantidade de referências que existem, nas obras clássicas da antiguidade, sobre esta planta “com poderes”.
No meu quintal mantenho-a nas cabeceiras das semeaduras para que ela proteja as hortaliças, repelindo os insetos predadores. O seu aroma, inconfundivelmente fedorento, é uma característica que facilita o reconhecimento, mesmo pelos mais inexperientes.

Existem duas classificações científicas que dão pelo nome de Ruta graveolens e Ruta chalepensis, esta mais notoriamente espontânea na Arrábida. Contudo, ambas as Rutáceas são praticamente iguais no tocante aos seus atributos físicos e químicos.
Podemos considerar a arruda como um arbusto, já que o seu caule é lenhoso e ramificado, chegando a ter mais de um metro de altura. Desenvolve-se com facilidade e resiste bem em climas temperados, secos e pedregosos de todo o mundo, mas julga-se que é nativa da Europa meridional.
A planta é persistente, renovando-se em cada primavera. As folhas são pequenas, verde-acinzentadas, pecioladas e alternadas. As flores são igualmente pequenas, em ramalhete, dotadas de quatro pétalas amarelas, com exceção da flor central que costuma ter cinco. Os frutos formam cápsulas arredondadas de quatro ou cinco lobos rugosos.

A arruda é uma droga forte, quer seja utilizada em verde, quer em seca. Nela foram já identificados 110 constituintes químicos, alguns tóxicos, como certos alcalóides. Por isso, o seu uso interno deve obedecer a doses muito fracas e ser acompanhado. Basicamente contém ácido salicílico, álcoois, ésteres, matérias resinosas e pépticas, flavonóides (especialmente rutina), óleos essenciais e alcalóides.

As indicações terapêuticas da “erva das bruxas”, nome popular por que também é conhecida, quase enchem uma página A4. Eis algumas: afeções dos rins e da bexiga, distúrbios menstruais, asma brônquica, ansiedade, gota, conjuntivite, hemorroidal, ciática, otite, nevralgias, incontinência urinária, insónia, prisão do ventre, lombrigas, sarna, aerofagia, etc., etc.
No “Herbal Food and Medicines in Sri Lanka” do Dr. Seela Fernando (provavelmente um descendente dos Portugueses, os quais permaneceram durante um século no Ceilão), que tive a oportunidade de adquirir em Colombo, põe a Ruta graveolens nos píncaros da tradicional medicina ayurvédica. Ela é indicada para a prevenção contra a epilepsia, a hipertensão, o catarro infantil e como anti-veneno. Curiosamente, diz-se que é afrodisíaca para as mulheres, mas que, para os homens, produz o efeito inverso (que chatice…!).

Entre as muitas mezinhas que aparecem mencionadas na literatura fitoterápica, escolho a do remédio para o “stress”, distúrbio que é hoje muito comum, devido à vida agitada que levamos:

Infusão de 5 gramas de folhas num litro de água. Tomar duas chávenas por dia.

Mas, redobro a advertência: a arruda é tóxica e contra-indicada para gestantes, lactantes, situações hemorrágicas, distúrbios menstruais e hipersensibilidade dérmica.
Doses elevadas do “chá” podem causar gastroenterites, convulsões, hemorragias, abortos, vómitos, tremores e vertigens.

A utilização direta da arruda, apesar do seu comprovado poder fitoterápico, tem muito a ver com as características de cada um e, por isso, todo o cuidado é pouco.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Femininus





Título: Femininus
Técnica: Nanquim sobre papel
Data: "Artista Adolescente"
Música: Just like a Woman do Bob Dylan

Kity Amaral

Nota: Clique na imagem para ouvir a música e melhor receber a pintura.


terça-feira, 10 de março de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


NO ESCURO DA EXISTÊNCIA


De olhos abertos,
No escuro,
Vivemos;
De braços fechados,
No escuro
Ficamos;
No escuro dos sons
Que nos rodeiam
Ficamos surdos,
Insensíveis…
Na escura solidão
Da multidão
Nos cansamos
De esperar
Por uma mão amigo
Por um som, uma voz
Transmissora de melodia.
De olhos fechados
Acertemos em cheio
Nesse escuro;
De olhos fechados
Rompamos caminhos,
Da luz
Da amizade
Da solidariedade.
Ó céus mais escuros, meus parentes!

segunda-feira, 9 de março de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (122)

Sonho de Avião, Helmut Middendorf, 1982
Resina sobre Tela, 400x300 cm

O QUE INQUIETA
o que me inquieta não são os mares desconhecidos
ou as montanhas de pó de um ar tão poluído
o que me inquieta não são as nações desavindas
ou as fronteiras proibidas
o que me inquieta não são os aviões carregados de bombas
que as vão descarregar sobre a cabeça dos homens
o que me inquieta não é a fúria desmedida do lucro fácil
esmagando o próximo
o que me inquieta não é a prisão dos inocentes
o que me inquieta não é o silêncio das palavras
o que me inquieta não é olhar apavorado de quem tem fome
o que me inquieta não é o relento onde o homem dorme
o que me inquieta mesmo é o reflexo do olhar cruel e sereno dos homens!

Carlos Fernando Bondoso

domingo, 8 de março de 2015



MIRADOURO 10 / 2015

Creio que foi ontem ou anteontem que entidades oficiais divulgaram que a disparidade de salários entre homens e mulheres com idênticas funções profissionais se acentuou. Quer dizer as mulheres ganham menos.
Justificação para isso? Não há, talvez porque não possa haver.
E assim continuamos a retroceder.
É o BES e o GES, a PT e a Segurança Social e as Contribuições Fiscais de paladinos do rigor implacável no cumprimento das obrigações ao Estado, … em tudo o que se mexe exala um insuportável odor a merda. Fica a sensação, que se sabe certeza, de que por cada novo escândalo que se revela muitos outros se mantêm na sombra.
Perante a revolta impotente da população os mandantes do País, seja no plano político seja no económico, continuam a chafurdar no pântano e na promiscuidade. Figuras proeminentes do regime e do sistema até ontem apresentados como referências de capacidade, excelência e sucesso, afinal … fica o sentimento de impunidade para os “poderosos”.
Recentemente foi divulgada mais uma sondagem de intenções de voto.
Mais do mesmo:
Empate técnico entre o PSD/CDS e o PS, os partidos mais votados a larga distância dos restantes;
O PCP mantem o seu eleitorado talvez com ligeira subida;
O BLOCO talvez mantenha os seus deputados;
O LIVRE pode eleger um ou dois deputados;
O PAN também poderia eleger deputados mas, entretanto, partiu-se;
O MRPP apesar de ter vindo a subir talvez ainda não seja desta que consegue representação parlamentar;
E o partido do Marinho Pinto é uma incógnita que talvez venha a surpreender.
O exercício do “poder” mantém-se.


Foto: Edgar Cantante

Juntar forças e esforços na construção de um programa político para um possível governo de esquerda susceptível de se afirmar como alternativa?
Pelos vistos não se acha necessidade ou que existam condições para isso.
Antes pelo contrário, a Joana Amaral Dias anunciou recentemente a sua saída do “Juntos Podemos” (será assim que se chama?) para formar o “Agir Agora”. Provavelmente com o propósito de também ela “unir as esquerdas” e conseguir ser eleita deputada.
Também na chamada “sociedade civil” se detecta uma grande dificuldade de convergência e criação de cinergias. Tenho pensado muito nisto e nas causas que lhe dão origem. Será só um problema de egos e protagonismos ? uma ressaca prolongada à tentativa de domesticação do livre pensamento sintetizada na máxima “o colectivo é tudo, o individual não é nada”?
Não sendo especialista em analisar esses assuntos, não consigo chegar a uma resposta que me satisfaça mas, pelo que consigo perceber, estamos cada vez mais pobres e dependentes, menos livres, mais desesperançados e tardam vontades para tentar construir uma alternativa que possa substituir-se à alternância.
Mas, porque há efemérides que vale a pena comemorar também eu brindo ao Dia Internacional da Mulher.
Com os votos de que possamos olhar e caminhar noutras direcções com Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Manuel João Croca


Foto: Manuel João Croca