domingo, 29 de março de 2015


(Esta rubrica não respeita as regras do acordo ortográfico.)


MIRADOURO 13 / 2015





ESPARGOS

(Asparagus)

Cheguei cedo ao terreno da Cristina e propus-me ir apanhar alguns espargos antes do almoço. Munido de navalha e saco embrenhei-me pelos pinhais que ali há, acompanhado pelo cão que, ainda que velhote e invadido de reumático, quis ir comigo. 

Fui andando e apanhando, aqui e ali e mais além, outro e outro e mais outro depressa consegui colher um molhinho. Andava nisto, quando me deparei com um homem já idoso dedicado à mesma ocupação. Aproximei-me e perguntei-lhe se gostava de espargos. Disse que gostava muito e que a sua mulher logo decidiria como os cozinhar. Gostei do homem, era simpático e já um pouco trôpego. Espreitei para o balde que trazia e concluí que dificilmente conseguiria colheita que permitisse a confecção de qualquer refeição. Ofereci-lhe os que tinha apanhado dizendo-lhe que juntos talvez já dessem para fazer umas migas, passando a explicar-lhe como se faziam as migas lá minha terra. Agradeceu, ouviu interessado, fez algumas perguntas e concluiu-se com um «deve ser bom ». 
Continuando a conversa fiquei a saber que se chamava Manuel, que nascera perto de Loulé há já 85 anos, que havia sido carpinteiro e que agora vivia com a filha porque as finanças lhe tinham ficado com uma pequena vivenda de que era proprietário e onde morava, devido a algumas dívidas que não conseguira pagar. Tinha sido proprietário de uma pequena carpintaria mas com a crise …, a filha era divorciada e viviam com algumas dificuldades, já que as reformas eram pequenas. Soube ainda que tinha umas vértebras de metal, que já fora operado à próstata e a uns pólipos - «cortaram-me vinte centímetros de intestino» - e que na próxima 2ª fª ia ser internado para nova operação aos intestinos.
Disse-lhe algumas palavras de ânimo relativizando a operação próxima e fui à cata de mais espargos para ver se se conseguiriam as tais migas. O homem por ali ficou deambulando lentamente.  

Simpatizei com o velhote e, mais do que a delicada operação, seguia incomodado com o facto de lhe terem tirado a casa. Mesmo sem saber os pormenores nem a dimensão das culpas que eventualmente lhe caberiam, incomodava-me o facto de cada vez ser mais frequente no nosso país este tipo de ocorrência. Tirar o lar a uma família em dificuldades????! só em situações muito extremas, quando estivessem esgotados todos os procedimentos possíveis para resolver o problema e, mesmo assim…

Nos tempos presentes o mundo pensante que nos des-manda propõe-se tirar-nos cada vez mais direitos, regalias, até mesmo o sustento se o conseguirem. Empobrecer-nos, em suma.
Em contraponto, o mundo não pensante, a Natureza sempre generosa, oferta-nos e permite-nos sempre alguma colheita.
Precisamos ultrapassar rapidamente esta fase, esta ordem e este sistema, encontrar outros e novos intérpretes, nós, todos nós, e aprender mais com a Natureza e as lições que  nos deixa

Procurei o Ti Manel (tenho a certeza que ele não se ofenderá com este tratamento familiar) e ofereci-lhe o novo molhinho que tinha colhido. Ficou todo contente e eu também. Apertámos as mãos e seguimos cada um para as nossas casas.

Quando cheguei a minha mulher perguntou «então os espargos, não havia?», «havia mas dei-os a um amigo» e fomos almoçar.

Manuel João Croca

(fotos retiradas da internet)


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