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domingo, 16 de novembro de 2025

O Encantador de Patos

raul angel iturra


Mi amigo Pancho Vio cuando fue Rector de la universidad Bolivariana, Santiago, Chile, con mi madre de 82 años Florentina Maria Redondo Carreteras y yo, Agosto/1993, mi primera visita a Chile despues del exílio


Mi amigo Pancho o Francisco Vio Grossi

 'Oye Raul, tu que sabes mas que yo en asuntos de amor, conoci una niña bien bonita y muy divertida y me enamore me parece ' me decia mi gordo amigo Pancho en mi pieza de la casa de mi família en Laguna Verde. Nos hablamos juntado para estudiar  para preparar una prueba de Derecho Civil en nuestro curso de Derecho en la Universidad Católica de Valparaiso.  Siempre nos juntavamos para pruebas o examenes a lo largo de muchos años felizes. 'Ella es muy joven,ni 20 años tiene...' me decia el 'y me tinca que me gusta y que la quiero ...', 'pero eso Pancho amigo no es de tincar,o se quiere o no se quiere...' 'no se,nunca me habia enamorado antes y como tu eres muy pololo,queria que me ayudaras con tu experiência...' Nuestra conversacion era muy invulgar, siempre hablamos de Derecho y casos que ya defendiamos para praticar nuestro saber jurídico. El era mas sábio que yo en matérias de litigios,su padre y vários de sus tios paternos eran ya leguleyos como se decia de la profesion en lengua popular. En su casa se hablaba de casos,de defensas,de contratos, de colegas en tribunal,era normal oir parrafadas de códigos,de juezes a o b,sus temperamentos y sus saberes en litígios, gente simpática y abierta que derramaba saber en sus comentários. 'El papá de ella es médico bien preparado, ginecologo bien famoso, es una família bien encopetada, es médio árabe pero no me importa...' agregaba. El papá de mi amigo era mi professor de Derecho Romano que enseñaba entre las 8.30 y 10 de las mañanas de lunes y jueves, era Don Pancho, docente entretenido y fumador, hablaba de sus hijos y comportamiento en casa, en ese tiempo Don Pancho y .Olga Grossi habian procreado ya 11 hijos, mi amigo era casi el quinto hijo mayor de la família. Su padre era de una fratia de 12 hermanos varones con solo una mujer entre todos, lo que divertia mucho a mi amigo que tenia mucho orgullo de sus Vio Valdivieso, tan catolicos,que tenian todos los hijos que su Dios les enviara. Mi amigo protestava contra esa iniquidad y me decia que el no iba a cometer el error de tanta progenie que hacia ver a su mamá siempre de barriga llena,era una felicidade verla sin bebé en su cuerpo, que la Iglesia Católica, a la que el habia sido introduzido sin su consentimento, no podia exigir tamaño comportamiento. Pancho ya era un rebelde en matérias religiosad y legales. Nunca hablo de su pensamiento alternativo en casa,no queria castigar a los suyos,me comentava cuando debatiamos usos y costumbres. Era yo su alter ego para confidencias,con orgullo lo digo sobre este mi hermano social. 'Ella gusta de bailar en las fiestas,se viste  muy bien, es elegante y,danzando los dos...me gustó...'...Era muy preocupado de sus sentimoentos ese mi querido compadre, queria estar cierto de como se iba comprometer con la vida social, como iba distribuir su amor a tan grande tribu de parientes. Era  solemne tambien, como observe ese dia en que preparamos una prueba de Derecho Internacional paseando en un coche cabriole de caballo que una amiga me habia prestado, y Pancho leia encuanto yo guiaba el caballo, decia ' Su excelência debe saber que nuestros países son amigos como dice el tratado...' sin saber que un dia iba usar ese código como Embajador de Chile en otro país, fue muy divertido ver que adorava usar su uniforme de embalador, era como un niño con un juguete,le quedava muy bien,hasta se veia mas bonito que lo habitual, era muy italiano en su postura, elegante en su vision. Muy político, juntos desarrollamos las ideas de solidariedad y actividades populares en el ministério de la llamada Promocion Popular para desarrollar el saber y la revolucion de nuestro pueblo chileno que no queria mas pobreza y promesas nunca cumplidas,el pueblo queria participar en la construccion de su destino. Sabiamos que para eso el pueblo debia instruirse y asi fundamos la Universidad campesina en la Universidad Católica de Talca, centro sur de nuestro país, usamos el método de nuestro querido amigo Paulo Freire. Fue en esa region llamada dele Maule que Pancho realizo la Reforma Agrária  dio tierras a los campesinos,y,confiando en eso, se presento como candidato a diputado por nuestro partido Mapu,su lema fue "Pancho Vio es un campion...', no gano. U era un campion para muchos y un grande campion para mi. Tenia estofo emotivo 'a vezes, Raul,voy al baño para la sanita,lo que es poco simpático y pienso en ella para sentir si aun asi la quiero.. y siento que si...estoy bien enamorado de ella...!! ' me dijo y se declaro a su Mariana GiacamanValle... su mujer y tuvieron dos maravillosos hijos, el, Panchito, mi hijo social, ella,Daniela, nuestra ahijada con mi ex esposa Gloria González Castillo.

              Pancho y yo compartimos estúdios, amistad, prision,exílio. Compartimos confidencias,familia,penas y apoio, especialmente apoio. Volvio a enamorse de otra mujer bonita 'mi Cecília Bernal..' me decia, una mujer tierna como la primera, amores hechos a la medida de su excelente mama Olga Grossi Aninat...
              Mi amigo era más joven que yo,pero se me murio antes...claro que lo lloro, era mi hermano social...compadre,nos encontrar juntos en la história… Besos y abrazos 


domingo, 28 de setembro de 2025

O Encantador de Patos

Raul Iturra

SER VELHO ATÉ PODE SER MUITO DIVERTIDO

Há muita mitologia em torno dos velhos. Para começar não se sabe como se lhes fazer referência; dizer velho parece descomedido, como se fosse um mau tratamento a uma pessoa, dizer velho a alguém é esbofetear, uma ofensa, tão mal e pouco o que se pensa deles. Criaram-se os conceitos de adulto maior e o de idoso para ser amável e não ofender... ofender,..? dizer velho é uma ofensa... daí também se dizer avô a um velho, avozinho, querido... e outras formas doces. Eu próprio nem sei como referir este tropeço da humanidade que tem tanto ser com muita idade. 

Os técnicos médicos do hospital das Caldas da Rainha, especialmente o técnico médico da secção de Oftalmologia, nem curto nem preguiçoso, disse-me 'olhe para esta lente raul...', perguntei 'qual é o seu nome?...' disse-me Tiago, pelo que respondi 'claro Tiago...', olhou para mim surpreendido, eu não era suposto falar-lhe assim, ele podia, era técnico médico, eu um velho doido pela idade, suposto ser difícil de tratar, de dialogar, de entender... 

É por isso também que as pessoas ocultam a sua idade, pintam o cabelo, falam de doenças sem dizer qual é a sua. Como meus leitores o sabem, eu aumento a minha, digo “caminho aos 90”, como referi no meu texto anterìor. Ser velho é uma vergonha social, daí também que se usem roupas juvenis para vestir, nunca mais o preto, exceto entre os jovens, como meus filhos biológicos e enteados e netos... é elegante... vê-se bem, veste bem. 

O pior na interação social é que ninguém sabe como e o que falar connosco. A minha mulher e eu fomos aos anos duma querida amiga, a Bibi Perestrelo, da família em que uma menina nos anos 30 do século passado rejeitou os amores do Salazar quando ainda não era ditador de Portugal, uma amiga linda e encantadora a Bibi, tal como a família de pessoas lindas elas e eles. No dito almoço ninguém, mesmo ninguém, falava comigo, nem a minha mulher! Embaraçoso para quem percebe o que acontece, essa linda festejada Bibi arranjou um irmão, o Pedro Macedo advogado, como eu fui, que tinha um amigo famoso que era antropólogo, como eu agora, e inventamos uma conversa sobre esses temas, uma lata para ele numa festa, para mim também... não sou pessoa, sou antropólogo... Agradeço a esses amigos o esforço, claro. 

Há muitos símbolos que estigmatizam o velho, como esse meu grande amigo e antigo estudante de doutoramento excelente comentador da minha obra que, por causa duma opinião minha sobre textos, disse que eu devia ser vigiado nas minhas ideias, porque havia limites para dizer que os velhos têm uma lógica e eu teria atingido esse limite... tive que esquecer o assunto. Como tenho tido muito estudante, vou calar seu nome, quero-o muito para o perder... a sua mulher é uma dádiva do céu, devem ficar ao pé de mim, estou enamorado por eles. 

Nem todos os velhos pensam assim, no lar em que fui compulsivamente encerrado durante 9 anos, até eu reclamar por justiça ao tribunal e ganhar, havia um tal Luís Caracol, um amor se pessoa, quase 90, sempre a disputar com o meu grande amigo desse lar Carlos Roque, um sofá em frente do aparelho da tv, este também com quase 90, o muito articulado Carlos foi tentar tirar o Luís do sofá e os dois quase nonagésimos foram-se bater aos socos com as suas fracas forças e, claro, foram os dois ao chão... enrolados braços e pernas numa bateria de batidas, e lá fui eu separá-los e caí nesse amontoado pacote de velhos em disputa muito lógica para as suas pretensões.... cheio de dores pela queda fui buscar um funcionário que também caiu enredado nas pernas velhas no chão.... como último recurso corri tão rápido como meus quase 90 mo permitiam e fechei a luz... como nos filmes de Chaplin... e milagre, assustados, parou a luta… a grande batida de socos... 

A minha mulher e eu, essa rapariga velha que faz 33 anos adoro, e ela a mim espero, vamo-nos divertindo para amenizar o dia sempre muito cumprido na quinta com 70 aves que criamos. Quando saímos digo-lhe 'motorista do uber, leve-me à vila de Sintra agarrada a essa nuvem… rápido”, e ela imita uma mulher asiática e partimos. Ou, no fim do dia comungamos um chocolate de leite, ela Sôr Brígida, eu o Senhor Padre, e pecamos com licença do Papa. Inventamos, rimos, como rimos no ioga da excelente Elsa Ferreira, no Mucifal, Universidade Sénior, com os meus velhos que me amparam… sou o mais antigo… e as suas conversas sobre netos e antigos amores que tanto lembramos. É a única forma de não acabarmos aos socos…

Os velhos temos de rir muito duante o nosso fim de vida para que qualquer senilidade que possa aparecer seja divertida e alegre. 

besos y abrazos

Raul Iturra 
O Encantador de Patos 
Barra Mansa 
23 de setembro de 2025

segunda-feira, 21 de julho de 2025

O Encantador de Patos

À minha esposa 
Claire Summers Smith




VOU ANDANDO AOS MEUS NOVENTA ANOS

A minha mulher e eu estávamos na fila para pagar as sandálias que tínhamos comprado para mim na loja, haviam duas senhoras também para pagar, tirei meu chapéu e disse 'depois das senhoras por favor, elas disseram de imediato 'não por favor, o senhor primeiro, insistimos', sorri e acrescentei com um sorriso, apoiado na minha bengala, 'quando chegarem à minha idade vão agradecer uma cortesia assim...!'. A mais velha, de certeza a mãe da outra, perguntou 'qual a sua idade se não é indiscrição? ' vou andando aos 90, como todos nós...' A minha mulher sorriu discretamente, as duas senhoras que me deram a vez disseram 'mas que bem está, fala de forma lógica, caminha, sabe agradecer, oxalá nós a sua idade sejamos assim também...!' O caixeiro apressou para fechar o negócio e acrescentou os seus parabéns e deu-me a mão quando acabou. Minha mulher disse-me ao sair  'mas de onde inventaste essa história se acabas de cumprir 84...?' ' 84 para 90 é apenas uma questão de tempo e de números, minha menina...não reparaste na alegria dessas pessoas por ver um velho frágil e magro como eu a estar tão bem nessa idade que dá prazer no futuro delas? E os piropos para mim em vez de dizer "coitadito, isso já vai passar? Eu sinto-me animado com essa alegria, é um apoio para esta porcaria de idade, sinto mais ânimo...!! '                                             

Os velhos somos um problema...para os outros, por isso que normalmente se oculta a idade e se retiram anos, há medo de dizer tenho 90,porque pensa-se que esquecemos, que não ouvimos, que inventamos à vida, que outra vez somos crianças e como tal nos tratam, há sorrisos cúmplices entre os mais novos falam entre eles a causa de nós, pensa-se que não entendemos a conversa, se digo 'quanto é ' para pagar, há um olhar de pergunta para minha mulher, mais nova que eu que assente com a cabeça como quando compro bilhetes para o cinema ou roupa ou livros. Pensa-se que não temos lógica, não entendemos a realidade do momento. É verdade que somos lentos e, como todo ser humano de qualquer idade, nos enganamos, mas um engano à minha idade soa de imediato como alarme de demência senil, um horror, somos corrigidos de imediato, após uma observação dura de 'não é assim... enganaste-te....' . Nasce o temor do medo ao ridículo, um medo constante a sermos corrigidos, uma atenção permanente para não errar....um trabalhão que cansa imenso, não é apenas esse afazer, é esse temor de fazer mal e enganado, a paciência dos outros acaba nos velhos, somos lentos, porém, tontos...outra vez crianças. É o medo da idade. Por isso gosto de ouvir esse '90? Mas que bem que está...!' Claro que estou a ser avaliado contra um modelo padrão que existe na sociedade e que meus colegas cientistas não querem estudar...o medo ao ridículo em mim dinamiza a minha atividade, não paro de mexer, ser socialmente útil e um desafio para não sofrer empurrões de interação. O mais duro é reparar essa opinião sobre nós, é difícil aceitar a menos valia entre esses outros para nós idosos. Ou uma simpatia exacerbada, como esse cuidar do velho quando se fala com um deles ou delas.                 

Claro que há motivos para esse modelo padrão, não é inventado, há factos que levam a esse padrão. Por exemplo, tenho praticamente perdida a visão do meu olho esquerdo por glaucoma, donde também a terceira dimensão, o sentido de profundidade quase o não tenho e sempre o tive, agora, tarde na vida, devo me reinventar para ver e não cair com um chão disparejo. Ou o frio, os velhos perdemos a adiposidade da pele e sentimos frio o que dá azo a comentários familiares com amigos como 'morria de calor só que este tremia de frio...' risada entre os que falavam de mim na minha presença, a pensarem que eu não entendia ou não ia entender ou não me ia defender. Normalmente não me defendo, era batalhar contra um credo social. Um impossível. Partimos pratos cai tudo das mãos às vezes sobre a nossa roupa, uso um avental para cozinhar e lavar loiça e não o tiro para comer, o que leva ao comentário das amigas da casa a dizer  'assim é que é, vás ficar limpo...'dito com a ironia e a arrogância de quem estima que nunca se suja.                                                                                          

Os velhos gostamos do silêncio, a calma, a falta de debate, não gostamos dos desencontros ou do ' muito bem...lembrou-se...!', porque esse vou andando para os 90... é uma corrida de obstáculos cheia de impedimentos e obstáculos que consigo perceber, mas que a maior parte dos adultos maiores resolvem com um imaginário fértil de invenções que os médicos chamam demência senil, alzheimer e não apenas 'à corrida aos 90..."..como observei em 9 anos de convívio com essas idades. Um poema que me acompanha a vida toda com esse imenso carinho que desenvolvi por eles, era amar-me a mim próprio, um sentido de família como quase nunca tinha tido. Era acompanhar a solidão, os velhos somos pessoas solitárias, o nosso mundial ativo desapareceu e, no nosso presente, as pessoas que conviviam connosco têm outras atividades, outros interesses, outros amores são poucos os que permanecem ao pé de nós, todos morrem antecipadamente, socialmente falando, já não temos utilidade e o carinho não é suficiente, o amor não é pedra social.                                                  

Um querido amigo visitou-me uma vez, apenas uma vez - pelo menos uma vez, normalmente ninguém me visita ou a mim ou a outros velhos - e queria saber se nós, anciãos tínhamos desejo sexual e orgasmo e ao saber que sim, não acreditava. O Muro de Berlim construído historicamente entre sexo e idade era mais forte que a reação por mim apresentada, nem entendeu que havia, a minha idade, uma grande relação entre amar e desejar, porque na minha idade desejamos só a quem amamos. Gosto de ver gente bonita e ativa, fêmea ou macho, mas desejo só a quem amo.                  

Isto, e mais, é para mim ir andando aos 90... só que quem me ouviu reduziu tudo ao socialmente conveniente e não ao prazer que um velhinho tem de amar e ser amado... vou andar tanto como eu amar e eu ser amado.... Vivam meus inventados 90 anos...! Besos y abrazos ...e, se nada do que digo é verdade... bom é porque já tenho os 90 anos do modelo social dum velho...

Raul Iturra
O Encantador de Patos
Barra Mansa, 14 de julho de 2025

sexta-feira, 25 de abril de 2025

O Encantador de Patos

Raul Angel Iturra


Francisco

               Hoje foi verdade, hoje aconteceu, depois de uma prolongada doença e de outras doenças prévias, Jorge Mario Bergoglio faleceu como todos sabemos; todos esperavam este desfecho, milhares oravam para ele melhorar, ninguém dizia “coitado do homem, a agonizar e a ser arrebitado, não o deixam descansar”. Era o nosso comentário com a minha mulher durante esse mês de fevereiro quando ele estava doente. Acordávamos de manhã para ouvir a notícia da sua morte e nunca mais acontecia. Tínhamos pena desse acontecimento. Finalmente hoje,  21 de Abril de 2025 descansou do seu mundo paradoxal, esse que diz que ao morrer um fiel vai ter com a sua divindade, vai à glória eterna, ao prémio se foi bom, ao tormento se não respeitou a doutrina cristã como dogma de fé para  os católicos, dogma que foi usado hoje para anunciar a sua morte “Hoje a sua santidade o Papa Francisco voltou à casa do Pai”, esse dogma que do Pai saímos e que junto dele voltamos, esse consolo cristão para suportar o nosso desaparecer da história material.

               Foi eleito como Papa pelo colégio cardinalício em março de 2013. Ninguém o conhecia, seu nome era apenas conhecido pelo seus concidadãos argentinos e pela Cúria Romana. Curioso, investiguei e soube que vinha da Argentina, país vizinho de onde eu nasci, Chile e de que fui forçado a abandonar faz já 52 anos pela ditadura que matou o meu presidente Allende e milhares dos meus compatriotas, como todos sabem. A minha pesquisa sobre Bergoglio revelou-me que ele não teria protegido seus fiéis do governo também assassino, da Argentina. Nessa altura escrevi um ensaio para o blog Banda Larga da Worldpress que intitulei “Jorge Mário Bergoglio um Papa com um passado traidor e fascista”. Os documentos que usei assim acusavam. No entanto, a minha editora disse-me que era cedo demais para esse título, que era melhor esperar e ver. Não esperei, publiquei. Anos volvidos reparei que tinha sido um grande erro, a minha amiga editora tinha razão. Resolvi  escrever um texto de desagravo, Jorge Maria Bergoglio merece, não pelos dogmas de fé, bem ao contrário, mas pela sua dinâmica acção dentro da sua igreja para restaurá-la e sobre a sua actividade no mundo da interacção social entre pessoas e países, tinha sido o Papa do desagravo.

               Quando a guerra da Rússia - Ucrânia começou, ofereceu-se como mediador e ainda, como refém se fosse preciso para acabar com essas mortes de civis inocentes e esse êxodo impossível. Não vingou. Mais tarde Israel ataca os Palestinianos e provoca mortes inocentes, esse genocídio que todos denunciam como o mais horrendo desde o genocídio nazi dos Judeu nos anos quarenta do seculo passado; ele fala da “guerra dramática e ignóbil” “massacre incrível de seres humanos”, falou disso no dia em que o mundo cristão comemora uma ressurreição, fala de paz para Gaza ainda horas antes de tornar ao Pai, como se diz na sua doutrina.

               É chamado o Papa da simplicidade por retirar ritual supérfluo na liturgia da sua religião chamada universal, daí católica, por definir que na sua igreja “todos tem cabimento na instituição e na fé”, por acolher o terceiro sexo como não pecadores, embora não aceite o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo por ser contra a doutrina genética tradicional - o casamento é para dar continuidade aos seguidores de Deus, não para amar. Retira sumptuosidade e parafernália aos rituais da liturgia, reformula o ritual do papado, a eleição de um Papa e o enterro do mesmo é agora mais simples, cria cardeais africanos, asiáticos como parte de uma reformulação do poder legislativo dentro da hierarquia católica. Cria outro equilíbrio do poder retirando-o da Europa, admite mulheres em rituais religiosos, esse género descurado pelos crentes através do tempo e da história e tenta fazer justiça à homosexualidade e pedofília dos religiosos da sua instituição. Esperávamos que definisse o matrimónio sacerdotal e a inclusão de freiras nas celebrações litúrgicas. Não conseguiu, retornou ao Pai antes. Reitero, porém, que foi o Papa da simplicidade dentro de uma doutrina recheada de liturgia milagreira de obscuridade e penitência que pune o corpo. Ouvia, definia, não punia. Redefiniu a economia vaticana e católica universal, retirou bispos e cardeais da gestão do Banco Ambrosiano e o cunhar da moeda de um estado minúsculo de poucos metros quadrados. Era humilde e muito divertido, ria e fazia rir até nas audiências papais. Era latino.

               Escrever um ensaio para me desculpar do anterior não foi atempado. Morreu quase poucas horas a seguir ao dia do dogma da ressurreição que foi comemorado ontem no mundo cristão… dizem que no fim dos tempos, ele como todos também, vai ressuscitar.

Não era, contrariamente ao que escrevi antigamente, em base documental, um Papa que tinha sido traidor e fascista. Foi um Papa que será canonizado como santo pela Igreja Católica.


Raul Iturra
O encantador de patos
Barra Mansa 21 de Abril 2025
Editado por Claire Smith