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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Precisamos de uma reforma dos municípios?


 Manuel Henrique Figueira
Munícipe em Palmela

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados.

Tivemos a «reforma administrativa do poder local… [para] melhorar a gestão do território e a prestação de serviço público aos cidadãos».
Podou o elo mais fraco, 1165 freguesias em 4256. A reforma enunciou belos princípios, fez documentos prévios e leis em catadupa, gastou recursos escassos e energias bastas em discussões estéreis a partir de velhas trincheiras: o essencial ficou, excepto nas pobres freguesias. Não era preciso mudar o mapa anacrónico das freguesias, alheio à realidade do país? Era, mas por vezes o que mudou piorou e o que melhorou é curto para o esforço e recursos gastos: são as reformas (centralizadas) do poder local. Em Palmela há um mau exemplo: a união de Marateca e Poceirão. Nos processos endógenos às pessoas e territórios, sem a «mão invisível» do poder central, pode haver bons exemplos: a racionalização das freguesias em Lisboa (de 53 para 24).

Num país que só fala de reformas, onde se está contra o statu quo, processos burocráticos e centralizados de decisão da vida das pessoas geram anticorpos contra a mudança, vista com indiferença, desdém ou forte oposição.

Precisamos de profunda reforma dos municípios? Os vesgos e os cativos de agendas além lá dos interesses das pessoas dizem que não. A mentalidade conservadora salazarenta da frase «está tudo bem assim e não podia ser de outra forma» resistiu a 40 anos de democracia e empapou muitas mentes, até de quem se diz nos antípodas do político de má memória para tantos de nós.

Olhe-se o anacrónico mapa municipal em tempo de Internet, de informática na administração, de rede viária que cruza concelhos em minutos e o país em horas: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Palmela).

Teve origem nas reformas liberais (Dec. n.º 25, 26/11/1830: juntas de paróquia – em 1916 chamadas freguesias; Dec. n.º 26, 27/11/1830: municípios) mal atribuídas a Mouzinho da Silveira: antecederam-no e continuaram depois dele (1835, 1836, 1878, etc.). Passos Manuel extinguiu 498 concelhos medievais para «criar circunscrições… maiores», evitar a existência de «concelhos pobríssimos», «aumentar os meios financeiros» (Código Administrativo e Dec. de 6/11/1836). Em 1878, na Reforma Rodrigues Sampaio, havia 295 municípios, hoje há 308.

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados. Exemplos do anacronismo: Barreiro tem 36 Km2 e 78 mil hab., Moita 55 km2 e 66 mil hab. quando só a cidade de Setúbal tem 102 mil. Que sentido o Montijo ter dois territórios (56 km2 e 291 km2)? Alcochete e Moita já pertenceram ao Montijo.

Mais exemplos: Marvão tem cerca de 100 habitantes e a freguesia 486, mas há município e freguesia nesse território; o distrito de Santarém tem 21 concelhos (Entroncamento 14 km2, Barquinha 49 km2), 170 freguesias, 6726 km2 e 452 mil hab. (67 hab./km2). No entanto, o de Viana do Castelo tem só 10 concelhos (o menor, Cerveira, 108 km2), 256 freguesias, 2218 km2 e 245 mil hab. (110 hab./km2). A qualidade dos serviços prestados aos munícipes no distrito é pior? Não! Mas a taxa média do IMI (0,328) é das mais baixas do país e Caminha, P. de Coura e P. de Lima devolvem de 2% a 5% de IRS. Acaso?

Ganhando-se escala baixam os custos, sobem os recursos, há melhor serviço às populações. Isso implica limpar a «tralha burocrático-político-administrativa» que atrapalha e sorve recursos… mas alimenta clientelas: freguesias, municípios (sobreposição inútil em tantas vilas), empresas municipais, associações de municípios, comunidades intermunicipais (muitos municípios integram duas), áreas metropolitanas, assembleias distritais, NUTS, etc. Perante a hipótese desta «limpeza», à maioria dos autarcas podemos aplicar a conhecida frase como metáfora: «quando ouço falar de cultura [reforma] puxo logo a pistola».