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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

AS MINHAS PRIMEIRAS FÉRIAS


E as férias estão a chegar ao fim, com dias solarengos que mesclam a lezíria de brancos e amarelos de encantar; amanhã começa o segundo período. 

No entanto, estou certo que o trabalho será naturalmente cumprido com o ânimo de quem encheu o espírito com brincadeiras e devaneios de um João Pestana ao outro. 

E o vento, esta tarde, tomou a liberdade de pintar um fundo de azul no céu. 



Tarde que foi de separação da família o que também faz bem. 

A Amélia convidou as miúdas para irem ver o Nemo com a Beatriz e, claro está, mesmo em face do bis, elas aceitaram de imediato. 
A Luísa também se dirigiu para o cinema para ver uma película com a Lúcia Moniz. 
Eu, como tinha de escrever um artigo e passar outro para a disquete, fiquei em casa. 



Desastre aéreo no Egipto sobre as águas do Mar Vermelho. 
A tripulação e os cento e quarenta passageiros encontraram a morte depois de uma queda que ainda não tem explicação certa. 
Como a maioria eram turistas franceses, a França está de luto. 



E agora discute-se a liberalização dos preços dos combustíveis. 
Para já, as preocupações vão no sentido do aumento dos preços que isso acarretará. O Presidente da DECO alertou para a previsível alta no interior onde, naturalmente, a procura é menor. 
Pois quanto a mim não me parece que existam motivos para alarme. Este é um dos níveis em que os mercados costumam funcionar no sentido do equilíbrio e do melhor serviço ao Cliente e depois não nos podemos esquecer que a concorrência acabará por se fazer entre postos de abastecimento e não apenas entre as marcas. A médio prazo, é de esperar que, se as alcavalas dos impostos não influenciarem o processo, as baixas no preço dos combustíveis se venham a traduzir em diminuições de custos para os consumidores. 
Quanto aos prejuízos para o interior, a acontecerem – de todo indesejáveis já que avolumariam os custos da litoralização do país – será da competência dos poderes políticos tomarem as medidas necessárias que permitam dirimir um tal impacto negativo. 

Mas como em Portugal nunca se sabe, o melhor será esperar para ver. 



Pois lá para os lados da Geórgia tudo indica que os reformistas ganharão as eleições, mas o mais provável será continuarmos perante um regime de opereta. É que nas regiões autónomas continuam governos que não reconhecem o novo poder e, ao contrário deste, insistem em permanecer na órbita de Moscovo. Além disso, a corrupção é endémica por aquelas paragens o que corta as pernas à democracia mal esta se levanta. 

Tudo isto é resultado da falta de coragem com que no Ocidente se deixou cair Gorbatchov e toda uma economia em colapso e a saque, sem qualquer plano de ajuda e reconversão, sem que o necessário controlo das garantias de contra-partidas políticas e sociais sequer tivesse merecido um debate, quanto mais definido e posto em prática. 

E enquanto a Rússia não estabilizar uma sociedade democrática, a antiga constelação do Império Soviético permanecerá um buraco negro para tudo o que a nossa civilização tenha de pior. 


Também na Sérvia decorre uma disputa eleitoral e igualmente existe o perigo de uma deriva caótica numa sociedade em que o pensamento e a cultura democrática são incipientes e o discurso nacionalista continua a fazer sentido. 


Salva-se a aproximação inesperada entre a Índia e o Paquistão que decidiram conversar sobre Caxemira. 



E amanhã lá os meus anjinhos retomarão as suas responsabilidades. 

Tranquilidade e empenho são esperados com toda a naturalidade. 

Eu nunca me esqueço de agradecer a Deus as queridas filhas que tenho e de Lhe pedir que as Ilumine.

Louvado seja Ele. 



E com isto, a Matilde cumpre as suas primeiras férias. 


Alhos Vedros 
  04/01/2004

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Uma sonda espacial norte-americana, dentro de algumas horas, cruzar-se-á com a cauda de um cometa, onde recolherá partículas que fará regressar à Terra por volta da Primavera de dois mil e seis.
Segundo os cientistas envolvidos, estes elementos possibilitarão o estabelecimento de novos dados que, eventualmente, trarão novos acréscimos para a compreensão da origem do sistema solar. 

É a Humanidade no seu melhor. 

E se da parte da sonda europeia que na passada semana atingiu a superfície marciana tudo parece ter sido em vão, amanhã será a vez de uma outra, desta vez norte-americana, tentar a sua sorte para dali enviar novas informações sobre aquele nosso vizinho. 

Oxalá tudo corra pelo melhor. 


O espaço é o prolongamento natural da nossa casa comum que é a Terra e, como tal, também ele é lugar de comunhão, sobre o qual os humanos deveriam pactuar em manter livre de armas e apenas sujeito às experiências exploratórias que interessem ao entendimento do Universo e de como a nossa espécie em ele se possa expandir e propagar, em busca da eternidade. 

Paralelamente a fenómenos como o holocausto nuclear ou a tomada de consciência a respeito do funcionamento do sistema atmosférico e da forma como certos problemas transcendem os possíveis impactos locais, o espaço cósmico é outra das realidades que nos leva a pensar no planeta como um todo e, portanto, na Humanidade como um conjunto de seres, até agora, confinados ao mesmo habitat. 
Na verdade, visto do exterior, o nosso planeta apresenta-se como um pequeno corpo envolvido numa bolha gasosa. Não se divisam as barreiras que os homens estabeleceram entre si. Sabe-se, isso sim que ali habitam seres vivos e que em face da imensidão fria e inóspita que nos separa das outras estrelas, é aquele um berlinde lindo e acolhedor que não podemos estragar, sob pena de nos perdermos para todo o sempre. 

A nossa naturalidade é a Terra e a nossa cidadania é planetária. 
A qualquer indivíduo devem ser reconhecidos os mesmos direitos dos nacionais seja qual for o país em que se encontre. 
É com base no desenvolvimento desta ideia que deveremos abordar problemas como, por exemplo, a imigração. 



Ora também a Matilde parece ter tido sorte com a Professora. 
Senhora experiente e sabedora dos segredos profissionais, tem conseguido transmitir os conhecimentos sem que a necessidade de disciplina para que tal aconteça tenha produzido o afastamento dos miúdos quanto à vontade de aprender. Pelo que observo com a minha querida filha e ainda pelo que ela me vai dizendo sobre o que acontece na sala de aula, é suficientemente firme para não permitir abusos mas, simultaneamente, tem a presença de espírito para conseguir cativar as crianças quer pela justeza dos julgamentos, quer ainda pelo carinho do acompanhamento que se revela no modo como os trata, bem como em pequenos gestos do género de os ter acompanhado ao parque infantil no dia do magusto; e a exigência que lhes faz quanto à limpeza do respectivo lugar, para além da sensatez, tem o condão de melhor distinguir o mérito que se tem que ter para ganhar a autorização de saída para o segundo intervalo. 
Não fosse isto importante, tudo indica que explica bem os assuntos e sabe dosear as solicitações de trabalhos caseiros de forma que, sem sobre-esforço algum, os alunos possam completar ou exercitar as matérias dadas. 
Como é efectiva na escola, é de esperar que acompanhe esta turma até à quarta classe o que, avaliando por aquilo que sucedeu com a Margarida, dá aos pais a segurança de poder contar com um trabalho continuado com os bons resultados que, normalmente, isso acarreta. 
Até ao momento, o balanço não poderia ser melhor. 



E o Sol destes dias que aqueceu o ar e o chão que logo fez colorir de alegria. 
Esta manhã, no caminho para a aula de natação, o pai e as filhas foram comentando o quanto os campos estão bonitos. 


E o resto que nos separou do almoço fez-se de Amartya Sen de cujo livro registo agora uma nota que tirei há já alguns dias. 
Tomem a devida atenção. 
“(…) A democracia não funciona como um remédio automático para as maleitas, como o quinino para a malária. As oportunidades que abre têm que ser agarradas a fim de se obter o fim desejado. E isso é, evidentemente, obra das liberdades em geral – muito depende de como as liberdades são efectivamente exercidas.” (1) 



Esta tarde, enquanto a mãe e as filhas foram passear de bicicleta, acabando com um lanche em casa dos avós, eu fiquei em casa a arrumar o escritório que, depois da fadiga consumada, já não parece o mesmo. 

Mas devo reconhecer que gosto mais assim. A verdade é que já estava a ficar atulhado em pilhas de livros e papeis sobre a secretária. 


Seja como for, salvou-se a música e eu dei comigo a manter uma opinião de miúdo. O “Close to the Edge”, dos Yes, é a obra-prima daquilo que ficou conhecido por rock sinfónico. 


Alhos Vedros 
  03/01/2004 


NOTA 

(1) Sen, Amartya, O DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE, p. 168 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Sen, Amartya, O DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE, Prefácio do Autor, Tradução de Joaquim Coelho Rosa, Gradiva (1ª. Edição), Lisboa, 2003

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HÁ GUERRA NAS ESTRADAS

Eu bem que gostaria de ter coisas mais edificantes para escrever mas, infelizmente, para lá do sossego do lar, no seu início, o novo ano parece tão sombrio quanto o anterior o foi a terminar. O mundo não está muito animador. 

No Iraque continuam as emboscadas sobre as tropas aliadas e ao invés de cerrarem fileiras para imporem um convívio pacífico entre as nações, os países ocidentais parecem apostados em permitir que o terror divida e, com isso, os impeça de enfrentar e controlar os lóbis que têm interesse na insegurança e na miséria que tantas vezes são usadas para justificarem tiranias da pior espécie e que, por sua vez e por um efeito de círculo vicioso, acabam por gerar mais injustiça e a pobreza que a ela sempre vem agarrada. 

Não compreendo como é que as vozes dos democratas não exigem a democracia à escala planetária, contudo, tenho a certeza que só pela partilha desse estado de vivência social poderão os humanos almejar a paz que tão imprescindível é à sobrevivência da espécie. 


E até a Terra parece assustada que depois do Irão, foi a vez de Bali, na Indonésia, sentir um sismo de intensidade de seis vírgula três na escala de Richter. 



Mas o dia de hoje esteve tão bonito que, ao mesmo tempo que mais nos faz deplorar esta nossa história trágica, também nos lembra que, apesar de tudo, o paraíso está aqui, bem ao alcance do nosso bom senso e inteligência. 



Aqui por casa o dia foi dedicado a arrumações dos livros e das tralhas do piolhito e do pardalito que ajudaram a mãe a colocar as coisas no devido lugar. 



E Portugal não poderia ter começado o ano da pior maneira. 
Só nas primeiras vinte e quatro horas faleceram cinco pessoas em acidentes de viação, todos fruto da incivilidade de condutores alcoolizados e em excesso de velocidade. 

Pior que isto só a guerra desencadeada sobre a justiça para que o processo casa pia venha a parir o rato de uma pena que deixe de fora tudo quanto é nome com dinheiro suficiente para fazer parar a produção de provas incriminatórias. 
Cheira a fp que tresanda e a ver vamos se aqueles que colaboraram com a acusação não sairão os únicos condenados. 

Entrámos no plano inclinado em direcção ao Brasil. 


 Alhos Vedros 
   02/01/2004

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

FELIZ ANO NOVO!

Neste Portugal a fazer o pino 
tivemos saleiros e murteirada 
agora temos o senhor Isaltino 
com casas de obra aldrabada. 



E assim vai a educação. 
O Director-Geral da Região Centro foi demitido na sequência de colocações indevidas e de favorecimento de alguns professores. 



E não é que na Sérvia os nacionalistas estão em grande força na corrida eleitoral? 
Milosevic é o candidato proposto do seu partido. 



A paternidade é uma função de alegria, por muitos que sejam os cadilhos que atrapalhem o decurso dos dias. 
É tão reconfortante quando a família está junta e nós podemos acompanhar o crescer, partilhar o júbilo de ver o avolumar do conhecimento e da experiência e as capacidades aumentarem na direcção da autonomia pessoal. 
Há o cansaço, naturalmente e tantas vezes a vontade de evasão e muitas são as ocasiões em que o corpo e o espírito reclamam a prioridade do descanso. Mas os momentos de encanto que os laços de amor transportam, se os deixarmos fazer efeito, acabam por se sobrepor a tudo o que de negativo nos possa entristecer. 
Além disso está a consciência que nos faz compreender o quanto é importante para os mais novos que os pais estejam presentes e saibam muito simplesmente ouvir e incentivar. É bom que as crianças sintam que podem responder aos desafios com confiança e aí entra o tal apoio comedido de que falei. São muitas as desgraças que se previnem por este meio. Não estou com isto a sustentar que estes miúdos não venham a perder-se na vida pois, como sabemos, no que se refere à humana personalidade não há combinações mecânicas de causa e efeito. A realidade é muito mais complexa do que isso. No entanto, não tenho dúvidas que o carinho e a atenção que dispensamos aos filhos os ajuda no despontar da auto-estima e auto-confiança que são os melhores preventivos para os maus caminhos que arrepiam os objectivos de uma vida digna e socialmente produtiva. 
Daí que esteja convencido que mesmo quando temos a certeza de estarmos a praticar um sobre-esforço – creio sinceramente que a palavra sacrifício seria aqui abusiva – devemos procurar manter a serenidade que permita às flores suplantarem os tons mais escurecidos do horizonte. 
Por muito que a paternidade nos esgote, temos sempre forma de retemperar as forças e no fim temos a leveza da alma que nos traz sempre prontos a enfrentar os escolhos, por mais espinhosos que sejam.



E a luz, a luz do Inverno que provoca crepúsculos tão coloridos. 

Já se vai notando a diferença na duração dos dias. 



A Margarida é engraçada. Já leu os livros que as irmãs receberam como prendas deste Natal. Mas dá preferência àqueles que tratam assuntos da realidade envolvente. 
E nestes dias tem andado a ler em voz alta para que a Matilde ouça e depois possa resolver as perguntas que, a propósito, a mais velha lhe apresenta. 
Curiosamente, tanto uma como a outra gostam muito dos temas relacionados com o corpo humano. 



E agora termino. Faremos o jantar de fim de ano em casa do João e da Teresa. 



Votos de Ano Novo próspero e em paz para todos. 


 Alhos Vedros 
   31/12/2003

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

“-Matilde, toma atenção.” –Solicitou a mais velha e, professoral, continuou: “-Uma alergia muito frequente é a alergia ao pólen. O pólen é: um legume? Um fruto? Uma parte de uma flor?” (1) 
“-Uma parte de uma flor.” –Respondeu a outra de imediato. 
A mãe reagiu em velocidade proporcional: 
“-Tu sabes isso, Matilde?” 
“-Então, se não é nenhuma das outras duas só pode ser esta.” –Não se fez esperar o pardalito. 



King Crimson 
e o pai flutuando 

em torno das estrelas e da felicidade. 



E aqui nos curvamos, em sinal de respeito, perante um acto tão digno. 
Há voluntários a trabalhar gratuitamente entre os elementos da equipa portuguesa que presta auxílio às vítimas e na busca de sobreviventes do terramoto que assolou o Irão. 
Assim os homens se aproximam. 



Nos antípodas está o caso do abuso e exploração sexual das crianças da Casa Pia. 
É sórdido o que se ouve. A ser verdade, esta canalha destruiu a democracia em Portugal. 
Todos os receios que fui revelando nos dois diários anteriores se materializam pela pior maneira. 
Só as máfias se aproveitaram desta embrulhada. 



E no penúltimo dia do pior ano de que tenho memória, inauguraram-se os últimos dois estádios dos dez que pusemos de pé para o euro dois mil e quatro. 
Tomo este simbolismo para ilustrar o próximo como o ano da palhaçada. 

Somos sempre capazes do pior. 


 Alhos Vedros 
   30/12/2003 


NOTA 

(1) Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES?, p. 17 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Rastoin, Françoise, AS DOENÇAS – PARA QUE SERVEM AS INJECÇÕES, Não refere a tradução, Porto Editora, Porto, 2003

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ESTA CASA ESTÁ UM GELO

E pronto, mais um Natal passou e com ele estes meus dias de folga que a família passou no Porto. 


Por lá, todo o ramo materno vai bem, não tanto o meu cunhado Carlos que, pelo fecho da empresa em que laborava se viu remetido para o desemprego o que, aos quarenta e oito anos de idade, é motivo para alarme justificado dada a situação um tanto embaraçosa que provocou, logo em alguém como ele que reagiu com pouca energia na busca das necessárias alternativas. De resto há notas de alegria, a começar pela Patrícia, a filha dele, com bons resultados no curso de medicina que vai entrar nos exames do terceiro ano e sem cadeiras em atraso e como parece desenhar-se uma perspectiva de trabalho a curto prazo, se bem que o comércio da mulher enfrente as consequências da descida do poder de compra na freguesia, é de esperar que tudo se componha e também eles se igualem na tranquilidade que caracteriza o dia a dia dos outros membros do clã que muitos são. 


A Margarida e a Matilde estiveram no sétimo céu. 
Passeios e jantares na casa da tia Fátima quanto baste, foi um ror de brincadeira com o primo Daniel, o mesmo sucedendo em casa dos avós a quem, certamente, terão perturbado o silêncio. 

Lá nos acompanharam nas visitas sociais e na noite de ontem, em que tomámos café com a Tuxinha e o Carlos a quem não víamos desde há três anos, quando jantámos em casa deles precisamente por esta quadra. Dom Leonardo, sempre alegre e sorridente, também veio e, naturalmente, enquanto os pais meteram a conversa em dia, a ganilha lá esteve nos seus joguinhos. Pena que a Paula e o Zé Carlos se tenham divorciado, mas nada temos a ver com isso. Assim, só a ela vimos bem como ao André e à Catarina. 

O Carlos já concluiu o Mestrado em cuja tese defendeu o uso da Astronomia no ensino da Matemática. 

Parece que o serão terá continuidade no Carnaval, em Bragança. 


E a Fátima e o Quim convidaram-nos para uma viagem ao Rio de Janeiro, no próximo Verão. Querem passar uns dias em Ouro Preto e contam alugar um apartamento na Barra, no mesmo condomínio em que vive o Luís, o irmão estrangeiro a quem dediquei os contos brasileiros do “Faces”. 


Na tarde de sexta-feira fomos todos ao cinema para vermos “À Procura do Nemo” com a pequenada.

“-Então piolhinho, qual foi a moral da história?” 
“-Que um pai faz tudo para ajudar um filho.” –Respondeu-me uma carinha sorridente que me abraçou cheia de ternura. 
E a Matilde também entendeu a história e gostou. 


“-Ó pai, põe o Rui Veloso.” 
“-Sim! O Chico Fininho.” –Acrescentou a mais velha. 

“-Chico fininho! Úu. Chico Fininho! Úu” 
Lá foi a família em coro, acompanhando a versão ao vivo do último álbum do cantor. 


Ai que bem sabe a despreocupação dos dias de férias. 


Triste o Porto cidade que vive a vergonha de se ver urbe, a segunda do país, manietada pelos homens da bola e dos interesses que por ali se acoitam. 
O centro daquela que já se auto-denominou a capital do trabalho está em buracos há uma boa mão cheia de anos, o dois mil e um cultural foi a palhaçada que se viu de que a casa da música, ainda em construção, é um exemplo hilariante e o metro que tão necessário é à qualidade de vida das populações da cidade e da área circunvizinha, terá a sua próxima estação a funcionar no estádio do Dragão cujos acessos estão acabados e foram prioritários ao que de resto a cidade precisa. 

É o espelho do país que fez da organização de um torneio internacional de futebol um desígnio nacional. 


E este governo já não faz coisa com coisa, antes deixa que o marfim corra. 
E depois das SA na saúde que sem contarem enquanto rúbrica continuam a depender do orçamento de estado, aí vem mais uma reforma genial; permitir a exploração privada do notariado sem que nada mude nesse domínio e nos privilégios que a legislação lhe confere. 

Depois do precipício há o abismo que se segue à plataforma em que aquele assenta. 
E nós lá vamos, alegremente, caindo naquele. 



Toca a ligar o aquecimento que a casa está gelada. 



A engenharia financeira é muito bonita, sobretudo muito inteligente. O problema surge quando o capital perde a correspondência nas mercadorias produzidas; aí não há passo de mágica que nos valha e se na base das operações está aquela velha sabedoria do onde se tira e não se põe… 
Pois foi isso que sucedeu com o grande grupo italiano da “Parmalat” e o resultado, como seria de esperar, foi a falência. 
Até aqui, nada de que alguém esteja a salvo. Acontece é que nos escombros lá estava a caixa negra e vai daí, o diabo tirou a capa. O principal acionista e líder da multinacional meteu ao bolso quinhentos milhões de euros. 

Bem, pelo menos aqui, temos uma mancha negra em que há alguém que nos bate a perna. 



E este ano de má memória teria que se despedir da pior maneira. 
A terra tremeu no Irão e ainda que a ira tectónica não tenha chegado aos sete graus na escala de Richter, a histórica cidade de Bam, Património da Humanidade, viu as suas velhas casas de barro ruírem e soterrarem à volta de quarenta mil pessoas. 

Deus seja misericordioso com aquelas almas. 

E o mundo mobilizou-se para prestar auxílio e na busca de sobreviventes. 
Infelizmente, as esperanças de grandes resgates é diminuta e agora impõe-se que as feridas sarem o mais rapidamente possível e se investigue e invista numa reconstrução em que tais desastres percam o condão da fatalidade. 



O natal solarengo é sempre bonito. 
Os campos salpicam-se de amarelo e branco. 
E o pequeno jardim dos meus sogros fica cheio da graça dos brincos-de-princesa que a brisa faz campainhar. 



Lamento é a minha falta de tempo para a leitura que muito perde pelos meus afazeres profissionais e no tempo que lhes sobra, por este diário também. 
Ainda assim vou fazendo o que posso e nestes dias voltei a perder-me no pensamento de Amartya Sen que nos apresenta uma perspectiva da Economia tão humanista quanto é documentada em termos do suporte teórico das suas leituras. 

É um logro, pensarmos que se consegue melhorar a vida das populações ao arrepio das liberdades. São estas, precisamente, as responsáveis para que o desenvolvimento se distribua pela maior malha possível dos seus indivíduos. 

Não é uma lição fantástica? 


Mas já que estamos a falar de leituras que dizer de um artigo em que, depois do pedantismo do Autor em querer arvorar uma sabedoria que não tem, contando-nos história já contada e fazendo uso de um empirismo de caso único, se faz uma subtil associação entre a vontade de muitas mulheres muçulmanas usarem o véu e “(…) o poder económico da comunidade judaica.” ? (1) 
Só não dá vontade de rir por sabermos que não estamos perante palavras inocentes. 



Bom, mas nem tudo são tristezas. 

Hoje visitámos a família da serra. 
No regresso ao lar, fizemos um desvio e fomos almoçar a casa da minha tia Benita. 
O convívio entre nós é sempre uma ternura que a alegria e a boa disposição tempera. 

Só não vimos o Quim e o Tiago porque o trabalho os impediu. 
O meu priminho preferiu interromper os estudos e agora trabalha na empresa de materiais de construção do pai. E enquanto este teve um almoço de negócios, aquele teve um camião de materiais para descarregar. 

De resto estão todos bem e o Sérgio parece estar recuperado da cirurgia que fez ao joelho. Está optimista para o quarto ano de engenharia que frequenta na Universidade de Leiria. 

E a nova casa do Beto está uma delícia, cheia de varandas sobre um vale a cair de verde, onde as brumas pairam nas mesclas de serpentinas onduladas. 
A concepção e o desenho dos interiores estão excelentes; com as divisões do primeiro piso unidas por uma espécie de ponte, em madeira a que se acede por uma ampla escadaria no mesmo material, dificilmente conseguiriam um enquadramento mais harmonioso e cheio de luz. 
Ficamos felizes por eles que bem merecem esta obra da autoria deste meu primo. 
Deus lhes dê muita saúde para se gozarem de um lar tão bonito e acolhedor. 



E esta tarde saiu a acusação para dez dos arguidos do caso da exploração e abuso sexual de crianças da Casa Pia. 
Aí vem mais uma batalha de intoxicação informativa. 
As bombas rebentarão quando e se assistirmos ao julgamento. 

Esta gente já destruiu este país. 


Alhos Vedros 
  29/12/2003 


NOTA 

(1) Portas, Miguel, O VÉU, p. 11 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Gomes, Luís F. de A., FACES, Dactilografado, Alhos Vedros, 1999 
Portas, Miguel, O VÉU, In “Diário de Notícias”, nº. 49217, de 26/12/2003

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

É tão bom almoçar na companhia das conversas dos pardalitos cheios de fantasias e brincadeiras. 

“-Ó pai, vamos jogar às palavras?” 
“-Aladino.” 

E eu, quando me sento no café para beber a bica e passar os olhos pelo jornal, levo o coração cheio, tão transbordante que nem dou conta das horas que passam até ao regresso a casa. 



E o Sol do princípio da tarde que faz o verde dos campos sorrir de amarelos.



Agora a Líbia mostra-se colaborante na luta contra o terrorismo. 
Kadhafi sabe que o seu regime também sucumbiria perante uma avalanche fundamentalista e, vai daí, os serviços secretos líbios trataram de prestar informações sobre a Al-Qaeda aos americanos. 
Para mostrar boa vontade, o país renunciou a programas de armas de destruição maciça e prepara-se para abrir portas a inspecções internacionais. 

Pessoalmente, desconfio destes ataques repentinos de sensatez. 
São tácticas que os ditadores usam para se manterem no poder. 



Malas e bagagens aviadas. 
A família vai passar o Natal em casa dos avós maternos. 



A produtividade da economia espanhola é setenta por cento superior à portuguesa. 


Portugal sofre de depressão ao nível da escola. 


 Alhos Vedros 
   23/12/2003

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

OLÁ INVERNO!

Peguemos então em duas das perguntas que fizemos num artigo anterior. Comecemos pelas seguintes:
As associações de pais têm algum papel a desempenhar na vida escolar? Tais organismos podem produzir contributos benéficos para a vida escolar? 
As respostas são positivas e não é muito difícil encontrarmos argumentos que o sustentem. 
Desde logo pelo facto de os pais serem os primeiros responsáveis pela educação dos filhos, não é? 
Por muito que se objecte que as famílias já não são as únicas responsáveis pela socialização e enculturação dos seus filhos, ainda que se diga que repartem esses papéis com outros elementos das sociedades de que a escola, os grupos de amigos ou a televisão são elementos corriqueiros, como também, em tal co-responsabilidade, acabam por ter o prato mais leve da balança, sem embargo de tudo isso, a verdade é que os pais têm o dever de zelar pela educação dos filhos e isso significa que devem estar conscientes de que a transmissão de certos valores e regras de conduta parte, em primeiríssimo lugar, deles e só deles, o que traz implícito a permanência de uma atitude de acompanhamento para que haja sempre uma porta aberta ao aconselhamento ou à crítica e repreensão, se for esse o caso. 
Em conformidade, só pelo facto de eventualmente propiciar uma maior aproximação entre os progenitores e a realidade escolar, as associações de pais desempenham uma função positiva. Conhecer o meio onde alguém se move é um modo de se lhe estar próximo e há dados empíricos que provam que tais alunos, de maneira geral, têm comportamentos mais adequados para com a escola e o acto de aprender. 
Daqui resulta que a participação das associações de pais na gestão das escolas pode ter proveitos no que diz respeito à disciplina e à implementação de regras de boa conduta nos estabelecimentos de ensino. 
Não sendo tudo, não é, de modo algum, um contributo despiciendo. 
Fora disso e focando a lente na experiência da Associação de Pais da Escola Básica nº. 1 de Alhos Vedros, verificamos que um tal corpo jurídico tanto pode colaborar na identificação das lacunas nas condições de trabalho e vivência da população escolar, como funcionar como mais um parceiro de diálogo e de pressão para que surjam as respostas por quem de direito. 
Pois foi isso que sucedeu no contexto daquela cooperação de que saíram vários melhorismos como, por exemplo, obras que vinham sendo adiadas e se revelavam necessárias, tais como a reparação dos telhados e das janelas, ou os arranjos do recreio e dos canteiros em que se eliminaram falhas de segurança, mas também poderíamos acrescentar a troca do mobiliário ou as lombas e a sinalização que vieram abrandar certas velocidades incivilizadas que punham em risco físico as crianças que saíam pelo portão. 
Bem, estes motivos, digamos assim, egoístas, são suficientes para defendermos a existência das associações de pais. Contudo, existem outros de ordem colectiva, de que vamos apenas citar um. 
As escolas públicas são pagas com os dinheiros dos impostos pelo que nos diz respeito as aplicações que daqueles se façam. 
Ora com tudo isto está resolvida a primeira pergunta: vale a pena que os pais se envolvam no associativismo escolar? 
Claro que sim. 
Depois não poderemos olvidar que se pretendemos criar uma civilização de cidadania, então não nos devemos furtar às oportunidades para a intervenção cívica. 

Será este o segundo de uma série de artigos que conto publicar no jornal “O Rio” a propósito da associação de pais para o agrupamento vertical. 
Há que lançar a discussão em torno do objectivo de sabermos como é que aquela se comporá e de propostas a respeito do modo de funcionamento. 



Mal vai o mundo nesta quadra de natal. 

Os europeus continuam anestesiados pela crise económica que teima em fazer finca pé na economia alemã que parece não ter ainda recuperado do choque de integração da ex-RDA e mais recentemente do que resultou da adopção da moeda única europeia o que, pelo efeito de arrastamento, afecta os parceiros da União e gera um clima psicológico de pouca confiança e incerteza perante a crescente globalização dos mercados. 
Como praticamente não contam em poderio geo-estratégico pois, para tanto, não dispõem das necessárias forças militares, deixam que os discursos mais radicais proliferem e que os integrismos não só se mantenham de pedra e cal em algumas partes do mundo, como ainda se instalem no interior das demografias que habitam este espaço. Em França, por exemplo, está convocada uma manifestação de mulheres muçulmanas a favor do uso do véu nas escolas públicas. Alguém acredita que os mullahs não estão por detrás disto? 
Ora acontece que o futuro reclama que os ocidentais falem a uma só voz. 
Do ponto de vista do perigo que representa para a paz mundial e a própria Humanidade, o terrorismo da Al-Q aeda é uma ameaça semelhante ao nazismo e já declarou a guerra mundial que hoje em dia presenciamos. 

Será que assistiremos ao grito de vitória de fanáticos sobre um monte de cinzas? 
Enfim… 

E só assim se compreende que o Iraque continue a ser palco de um esforço dos aliados sem o empenho das Nações Unidas e da larga maioria das nações amigas. 



Ena, ontem, na festa da catequese, a Margarida participou num coro da sua classe que interpretou canções de natal. 
A restante família aplaudiu com um sorriso na boca. 

Agora que as amigas brincam na sala, o pai põe as letras em dia. 

Ainda há pouco, na Matriz da Vila, eu e a mãe escutámos um recital do coro da “Vélhinha”. 



O Inverno começa nevoento. 


 Alhos Vedros 
   21/12/2003

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A AVALIAÇÃO

É tão bom chegar a casa para almoçar e ver os meus amorzinhos brincando, serenamente, no aproveitamento de umas férias que tanto têm de bem-vindas como de merecidas. 
E o beijinho que se segue ao “-Olá, pai!” é tão doce, tão cheio de encantamento que eu, comparado com o tamanho da alegria que sobre mim cai, fico tão pequenino. 

Olho à minha volta e estou no Paraíso. 



Paraíso que infelizmente os homens teimam em não reconhecer neste rochedo cósmico que deveriam, permanente e humildemente, Agradecer. 


Pena que o país não partilhe o meu estado de alma, mas a verdade é que Portugal atravessa aquela que é a maior crise dos últimos vinte e cinco anos. 
Hoje ficámos a saber que o estado já não consegue cobrar os impostos dos contribuintes em falta pelo que entregou a colecta a uma seguradora, a “Sagres” que, garantindo uma cobrança mínima, procurará, a partir daí, executar o máximo de dívidas que totalizam milhares de milhões de euros. 
Isto é, a máquina fiscal revela-se impotente para cumprir as suas obrigações. Deste modo, a injustiça que a este nível se verifica permanecerá; pagam os que não têm qualquer forma de se furtar ao fisco e, com isso, são os trabalhadores por conta de outrem quem suporta as despesas correntes do estado. 

É pois natural que a justiça seja o que é. Um sistema em que as habilidades legais permitem que os poderosos se subtraiam às consequências de violarem a lei. Entre nós, o estado de direito é uma figura retórica. 

E o desemprego crescendo ao mesmo tempo que a economia não cresce e o investimento decresce. 


Está na hora dos cidadãos comuns começarem a expressar as suas preocupações e avançarem as suas sugestões e depois pressionarem quem decide a implementar as soluções para os problemas que nos inquietam. 
Basta que se constituam movimentos de contribuintes dispostos a encontrarem-se para discutir a sociedade portuguesa actual e proporem políticas e medidas que tenham em vista o propósito do necessário desenvolvimento entre os portugueses. Agrupando-se, os cidadãos poderão constituir o seu próprio lóbi. A imaginação tratará de identificar as expressões que a actuação do mesmo pode ter. 

Uma coisa é certa. A democracia em Portugal está bloqueada. 
Todo o bloco central está subjugado a poderes fáticos mais ou menos esconsos que impõem as suas conveniências e por isso condicionam a capacidade do poder de estado prosseguir políticas que tenham em vista o interesse público e o bem comum. 



Os europeus preparam-se para fazer descer uma sonda em Marte. Chama-se Beagle 2, em homenagem ao navio em que Charles Darwin fez a sua grande viagem durante a qual recolheu os elementos que mais tarde lhe permitiram sustentar as ideias que deram corpo à sua teoria da evolução das espécies. 
Se tudo correr bem, brevemente teremos mais dados sobre a superfície rochosa marciana e as possibilidades de algum dia ter existido água no estado líquido ou os vestígios de alguma vez ter aí acontecido o fenómeno Vida. 

Estranha espécie a nossa, capaz de sonhar o Infinito e tão perto da morte. 



A leitura de Amartya Sen é bastante instrutiva. Chama-nos a atenção para uma perspectiva de desenvolvimento que não cabe nas teorias econométricas que se baseiam no aumento dos rendimentos. 

E ao destacar vectores como a educação e a saúde, lança luz sobre as razões das incapacidades estruturais que na sociedade portuguesa impedem a nossa aproximação ao lado certo do mundo. 

Para continuar a ler com toda a atenção. 



Mas eu devo confessar a dupla emoção que tive, neste fim de tarde, com as novidades das avaliações das minhas filhas. 

Tanto uma como outra com todos os exercícios certos e sem correcções. No caso da Margarida, apenas com um número trocado numa das provas de Matemática e um tempo verbal alterado numa composição. De resto, às letrinhas e aos números tão bem grafados pelos meus amores e, no caso da Matilde, também aos desenhos e às ilustrações, nada mais se via que o vermelho da esferográfica com que as Mestras assinalaram o acerto das respostas. 

É indescritível a alegria que senti. 

Em conformidade, os registos de avaliação não poderiam ser melhores. 

A Matilde teve bom nos parâmetros de Língua Portuguesa e Estudo do Meio em que foi avaliada e suficiente nas expressões artística e motora. Quanto à componente da formação cívica, revela uma participação positiva na aula, com sentido de responsabilidade e sentido crítico e de respeito pelas regras de convivência. 
Segundo a Professora, é bem comportada; está atenta e aplica-se nas realizações que lhe são solicitadas. Além disso é prestável e simpática e cordial.
Agora vou transcrever a apreciação global: 
“A aluna conhece as palavras-chave dadas. (menina, menino, sapato, bota) 
Escreve e lê palavras novas formadas com as sílabas dadas. 
Copia de letra de imprensa para letra manuscrita. 
Em Matemática identifica os números até 5. Faz contagens progressivas e regressivas. 
Adquiriu as noções dadas.” 

“-É pardalito, parabéns filha. O pai ficou todo satisfeito e orgulhoso.” –Por entre um amplexo salpicado de beijos. “-Mas ainda fiquei mais contente por a Professora ter dito à mãe que tu te portas bem que estás com atenção e fazes os trabalhos como deve ser. Assim é que é, pardalito. O pai ficou todo satisfeito.” –Num abraço que chega até à alma. 


A Margarida teve muito bom em todos os parâmetros. Quanto ao comportamento nada a dizer. 
Escreveu a Professora: 
“A Margarida é uma criança interessada, atenta, participativa e procura saber sempre mais. A sua evolução, ao longo do período, foi muito positiva, atingindo plenamente os objectivos propostos em todas as áreas.” 

“-Uau, piolhito. O pai até ficou emocionado ao ver as tuas fichas de avaliação. Grande categoria, heim piolhito.” –Com brincadeiras de ternura. “-Mas gostei mais de ouvir que te portas bem e és educada. Assim mesmo, Margarida.” 


Que fiz eu para merecer isto? 



O nevoeiro envolvendo a noite. 
Os candeeiros do parque de estacionamento produzem tímidas manchas de claridade. 
Não se percebem as formas dos vultos que se ouvem a passar no asfalto. 

Ao frio da noite sobrepõe-se o calor deste lar. 


 Alhos Vedros 
   19/12/2003

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

FÉRIAS, DOCES FÉRIAS!


Ontem já havia o sabor do lazer pelo ar; boa parte da manhã, por exemplo, foi preenchida pela visita de palhaços e do pai natal da Junta de Freguesia que ofereceu um estojo de madeira com lápis de cor a cada criança. 

Mas hoje foi a sério e após um convívio em torno das merendas que os alunos levaram e de uma saída antes da hora habitual, finalmente, a palavra mágica ganhou a sua razão de ser. 

VIVAM AS FÉRIAS! 

E pela primeira vez na sua vida, a minha querida filha Matilde vai experimentar o quanto é bom ter o tempo todo para brincar depois de cumprida a obrigação. 

Pois eu tenho a certeza que o pardalito merece. 
Ai e o piolhito também. 

Sexta-feira, pelas dezoito e trinta, serão as reuniões de avaliação. 

Tenho para mim que a Matilde tem atingido os objectivos nas diferentes disciplinas. Sempre resolveu muito bem os trabalhos de casa e, pela observação dos cadernos, não só mostra a regularidade de uma boa prestação em todos os exercícios como, no caso da escrita, o seu progresso entre a garatuja e as letras bem desenhadas foi rápido e notório. Além disso, sabe descrever o que faz nas aulas ou nas outras actividades para-escolares e, posteriormente, tanto se mostra capaz de recapitular a informação aprendida como de a aplicar em situações exteriores aos respectivos contextos de aprendizagem. 
Ora tudo isto deixa antever um comportamento adequado, quer ao nível da atenção com que se entrega ao trabalho, quer no plano da normalidade das atitudes disciplinares. 

E no recreio dá gosto ver a sua alegria em brincar. 

Pois hoje tive uma surpresa suplementar. 
A Margarida esqueceu o chapéu-de-chuva na sala de aula e após o almoço parámos na escola para pedirmos a alguma das empregadas que ainda ali se encontrassem que tivesse a gentileza de permitir a recuperação do objecto. 
E não é que uma Auxiliar, vendo a Margarida ao lado da mais nova, perguntou-lhe: 
“-Tu és a irmã da Matilde?” 

Que terei eu feito para merecer tamanha felicidade? 



Voltou a chuva ao seu papel de música de fundo da noite. 


Alhos Vedros 
  17/12/2003

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Entrevista com o Professor Vitorino Magalhães Godinho, no “Público” de hoje, o investigador que trouxe a História feita por portugueses para o mesmo nível de modernidade do trabalho que se fazia na Europa Ocidental. 
Homem vertical, sofreu a perseguição da ditadura obtusa que subjugou os portugueses. Nem mesmo a sua reconhecida competência científica o livrou de ser expulso da Universidade de Lisboa onde leccionava. Mas resistiu e nunca se vergou perante a tirania. 
Agora, com oitenta anos, sente-se triste com o mundo que vê à sua volta. 
Diz que a democracia já não existe e que o capitalismo está dominado por grupos poderosos que impõem os seus interesses aos estados. (1) 

Visão sombria? 
A merecer reflexão, no entanto. 



Fala-se em quebra de três mil milhões de euros na cobrança de impostos, em dois mil e três, especialmente ao nível do IVA e do IRC. 
Em Portugal, os mais pobres continuam a suportar as melhorias na vida que a todos beneficiam. 



Hoje os alunos aprenderam uma nova palavra, uva, a respeito da qual fizeram os exercícios do dia. 

Mas amanhã será o último dia útil de escola. 
Na quarta, de acordo com a comunicação que o pardalito me deu para assinar, haverá apenas uma festa durante o turno da manhã. 
Depois… Vivam as férias! 


Sexta-feira, às dezoito e trinta, serão as reuniões de avaliação. 



Saddam Hussein deverá ter a possibilidade de um julgamento justo. 


Deus nos ilumine com a sua infinita sabedoria. 


 Alhos Vedros 
   15/12/2003 


NOTA 

(1) Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, p.38 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 


Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, Entrevista por Carlos Câmara Leme, In “Público”, nº. 5016, de 15/12/2003

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A PRISÃO DO TIRANO

Finalmente, tudo aponta para que seja uma notícia verdadeira, Saddam Hussein foi preso. 
É uma vitória dos aliados que deixa todos os democratas satisfeitos. Ainda que mereça um julgamento justo, um tirano como ele só terá a piedade dos acólitos. 
Mas é sobretudo uma vitória do povo iraquiano. 

Naturalmente, não terminarão aqui os atentados terroristas sobre as forças militares que procuram assegurar a estabilidade naquele território. Será mesmo de esperar que haja um aumento das acções militares nas próximas semanas. Quer aquilo que a partir de agora restar das forças leais ao ogre, quer os voluntários da Al-Qaeda que ali fazem a sua jhiad, ambos esses campos confluirão numa tentativa para aumentarem o flagelo das tropas e forças de segurança aliadas. Com toda a certeza, quererão mostrar que continuam vivos e actuantes. 
Mas esta captura tem um valor colateral da maior importância para os iraquianos. É que do ponto de vista psicológico, a população pode agora perder o medo e isso será fundamental para o seu empenho no processo de reconstrução do país. Agora todos sabem que o antigo regime está morto, será enterrado e não mais voltará. 
Além disto, há um outro efeito mais imediato e directo do ponto de vista militar. Sem o líder supremo e carismático, será mais difícil para os homens do partido baas continuarem a pôr em prática a sua resistência armada e, ao invés, os aliados terão assim mais e melhores oportunidades para desmantelarem esses focos de instabilidade. Com isso, ficarão no terreno apenas os terroristas da Al-Qaeda e o tempo encarregar-se-á de os isolar face aos iraquianos que, habituados como estão a um estado laico, preferirão uma vida normal e não aquela que a sharia lhes impõe. 
Se bem que por agora a guerra continue, tal como a batalha do Iraque ainda não tenha findado, este é, sem dúvida alguma, um passo importante na senda da pacificação daquele território. 



Pela minha parte, enquanto elas brincam com a amiga Beatriz, vou passar o resto da tarde com os olhos nos canais de notícias internacionais. 
O Presidente Bush fará uma comunicação às dezoito horas de Lisboa e Tony Blair já falou mas eu não ouvi. 

Mas isto já é suficiente para que este tenha sido um fim-de-semana emocionante. 



Cá estou eu de volta depois de uma tarde de notícias e leitura de Amartya Sen. 


Pois parece que o homem foi mesmo apanhado. 
“-Ladies and gentlemen. We got him.” –Disse Paul Bremen, logo na abertura da conferência de imprensa em que esta manhã mencionou o feito que terá ocorrido ontem, de madrugada. 
“-United States military forces, captured Saddam Hussein alive.” –Disse mais tarde o Presidente George W. Bush na comunicação que fez ao seu país e ao mundo. 

Por todo o Iraque se registam imagens de regozijo popular. 
Agora sim, o povo sabe que o tirano não mais voltará ao poder. 

“-O Rei Herodes ainda foi pior. Mandou matar os meninos todos.” –Disse a Matilde quando, à mesa do almoço para que fomos convidados, em casa dos meus pais, se comentou a prisão do tirano. 



Para os meus amores, hoje foi um dia de repouso, com brincadeiras e jogos na infância e jornais na idade adulta. 


Esta noite vamos orar pela paz no Iraque. 


 Alhos Vedros 
   14/12/2003

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

LÁ SE FOI A CONSTITUIÇÃO

O regime democrático está bloqueado. As alternativas são muito simplesmente mais do mesmo. Na medida em que o estado de direito está completamente estiolado, a liberdade de informação condicionada que está pelos interesses dos grupos mais poderosos, ouso dizer que a democracia acabou, entre nós. O que se passar daqui para a frente será um embuste, a farsa que visa permitir apenas a continuidade do usufruto dos cabedais e prebendas que o poder oferece. Até que a situação expluda, seguramente na rua, seja sob que forma for e daí se passe a um estado mais ou menos policiado ou a uma nova tentativa de organizar a sociedade democraticamente. 


Foi esta a tragédia que o salazarismo nos legou. 
Uma população mal formada, deficientemente iletrada e sem grandes hábitos de autonomia perante os poderes. 



Apesar das tardes serenas com que o fim de Outono nos presenteia, quando a luz vence o cinzento da névoa deixa que o azul da água do estuário brilhe diante do verde que percorre a outra margem. 



A Matilde está agora a ensaiar uma peça em que vai participar no contexto das suas aulas de catequese. 

A miúda tem hoje uma agenda cheia. 
Depois da natação, ao fim da manhã, logo, após o jantar, ainda irá apresentar um esquema no sarau de ginástica, na “Vélhinha”. 

É engraçado de ver como este meu amorzinho, tão propenso à brincadeira e sempre disposta para uma boa gargalhada, leva a sério as suas obrigações que procura cumprir com zelo, para além de manifestamente sentir-se orgulhosa quando o faz bem. 

Meandros da felicidade. 



E a cimeira de Bruxelas não aprovou a constituição europeia.
Por isso não virá mal ao mundo. 


Quanto a mim, há ainda um longo caminho a percorrer antes que os povos europeus se possam unir através de uma constituição. 
Continuo a achar preferível a via dos pequenos passos que mesmo perante a realidade do euro, está longe de esgotada no plano meramente económico. Pois é por aí que os nossos governantes deveriam prosseguir, aprofundar o mercado único e as relações sociais que a partir daí se estabelecem, bem como deixar que a livre circulação de pessoas e bens se sedimente e produza a mistura entre populações distintas. Quando for normal iniciar a escolaridade em Alhos Vedros, fazer a Universidade em Londres e ir trabalhar para Helsínquia, então estou certo que os europeus estarão prontos para uma constituição. Até lá, não seria mau de todo se se fossem lançando as bases de um estado de direito comum e ainda as de uma política externa igualmente comum e de umas forças armadas da União. 



Bem, por hoje termino. 
No serão da noute, lá irei eu cumprir o papel de repórter fotográfico. 


 Alhos Vedros 
  13/12/2003

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O governo defendeu-se neste caso da Universidade Lusíada. 

Não houve qualquer favorecimento, tudo foi feito às claras e segundo as regras, aliás, por via de um decreto-lei que foi promulgado pelo Presidente da República. Além disso, a legislação que permitiu a transformação das cooperativas de ensino em fundações data do último consulado socialista.
Contudo, continuam sem respostas as perguntas incómodas do deputado comunista Lino de Carvalho. Como é que se justifica o interesse da alteração em causa? Traz isso alguma melhoria ao nível e qualidade do ensino ministrado? 
A verdade é que há manifestos benefícios fiscais e aligeiramento das responsabilidades legais. 
E também é um facto que o primeiro-ministro chefiou um departamento naquele estabelecimento do ensino superior cujo homem forte é o pai do ex-ministro dos estrangeiros. 

Se não estamos a advogar em causa própria, parece. 

Eloquente é o que todo este alarido deixa a descoberto. 
Estas universidades privadas são espécies de coutadas onde se satisfazem clientelas; não é que uma grande parte dos governantes e mais influentes deputados dos grupos parlamentares, na última década, são ali professores? 
Não considerando aqui a Católica que, na sua génese, obedeceu a outros motivos e propósitos, se a primeira Universidade privada, a Livre e as suas sucedâneas, foi uma resposta que alguns Professores encontraram para os saneamentos com que se viram confrontados na sequência da avalanche revolucionária, o boom que se verificou nos fins da década de oitenta e princípios da seguinte, teve mais a ver com as possibilidades de negócio que se abriram pela combinação do números clausulos com a progressiva massificação do ensino e, certamente, com a galopante privatização do sector público herdado das nacionalizações ao tempo de Vasco Gonçalves. O interesse nacional é que nunca foi para aqui chamado. 

O futuro que se desenha no horizonte lusitano é medonho e eu temo que os amores do meu coração venham a ter que estudar longe daqui e que a partir disso se façam diáspora familiar e só posso esperar que os pais, enquanto viverem, possam dispor dos meios que possibilitem as visitas imprescindíveis. 

De tão nauseabunda, a comédia em que este país se transformou nem dá vontade de rir. 

Portugal tende a tornar-se no paraíso do crime organizado; já não temos um estado nem governantes capazes de se oporem a isso. 
Seremos uma espécie de cruzamento entre o Brasil e a Tailândia, isto se permanecermos na União Europeia. Isolados, estaríamos no domínio de uma combinação entre este último caso e o Perú das ditaduras militares. 


Estudem, filhas, estudem que um dia terão que sair daqui para fora. 



Hoje foi o dia da ficha de avaliação da Língua Portuguesa. 



Em contrapartida, há cento e vinte milhões de crianças no mundo que nunca foram à escola. 



E em França está ao rubro a polémica a respeito do uso do véu na escola pública. 
É matéria delicada que põe em relevo o beco sem saída a que a tibieza com que o problema foi tratado de início acabou por remeter todos os implicados. 
Agora, faça-se o que se fizer, será sempre como aquela história do velho, do rapaz e do burro. Se o estado proíbe será acusado de atacar a Fé. Se o permite, abre a porta para que todos os fundamentalismos entrem na sala de aula. 

Atenção que esta é uma daquelas situações em que devemos aprender com a experiência alheia. 

E a verdade é que se ninguém deveria pedir que os imigrantes se assimilassem, também não é menos verdade que, tanto de uma parte como da outra, tudo deveria ser feito no respeito pelos costumes do país de acolhimento. Pode parecer que isto é uma imposição xenófoba mas na realidade visa apenas evitar que se formem guetos de condenados aos trabalhos menos qualificados que o tempo e as degradações dos níveis de vida se encarregam de transformar em viveiros de miséria e integrismos vários. 
Se as meninas quisessem andar de chador ou véu, tudo bem, mas não na escola pública de um estado laico e isto exactamente da mesma forma que não podem recusar-se a prestar provas em dadas matérias como, por exemplo, o papel dos anti-concepcionais na liberdade das mulheres, ou o planeamento familiar, ou ainda a teoria da evolução. 
Além disto, nunca num estado em que há separação entre os poderes temporais e seculares deveria ter sido aceite que os líderes religiosos de uma dada comunidade se apresentassem como seus representantes perante a sociedade envolvente. 

Agora há uma bomba relógio que muito sangue fará escorrer quando rebentar. 


Neste azul planeta 
verdadeiro paraíso, 
será o Homem um cometa 
devido à falta de siso? 


 Alhos Vedros 
   11/12/2003

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E hoje, com a luz da manhã, os campos salpicaram-se com o amarelo das azedas. 
O Sol de sombra larga, quando seco, deixa um azul no céu que faz o horizonte aprofundar-se diante dos nossos olhos. 

Apetece-nos voar directamente ao infinito. 



E nós aqui neste país de pernas para o ar, tão à beira da tragédia. 


Estamos agora em plena guerra civil mediática. 

O escândalo da pedofilia estoirou nos Açores e já provocou a demissão de um secretário do turismo no governo regional. Fala-se de locais e redes de prostituição infantil e de filmes pornográficos. Naturalmente, apontam-se algumas figuras localmente conhecidas e deixa-se no ar a eventualidade de, entre o vulgo, surgirem mais alguns nomes grados. 
Esta tarde, no “Portugal Diário”, escrevia-se finalmente a Madeira. Dizia-se que uma ONG pede a intervenção da ONU – estranho, não lhes parece? – naquele arquipélago. 

Pandora’s box it’s open… 

E esta tarde foi a vez do governo levar dois tiros em cheio. 

O indigitado novo Comandante da Brigada de Trânsito recusou tomar posse depois de vir a público que o general é alvo de uma investigação judiciária em torno de casos de gestão danosa e abuso do poder em anterior exercício de chefia, não posso precisar em que serviço. 
Como é que estas gafes são possíveis é que me deixa curioso. 
Amanhã, segundo o noticiário das vinte e três horas, na TSF, a revista “Visão” trará uma reportagem sobre um decreto que possibilitou a passagem da cooperativa que geria a Universidade Lusíada à figura de fundação. O pai do ex-ministro Martins da Cruz é o homem forte da instituição e o primeiro-ministro chefiou um dos departamentos daquele estabelecimento de ensino. Tudo isto foi objecto de perguntas que o deputado comunista Lino de Carvalho colocou no Parlamento, em Outubro, sem que até ao momento tenham obtido qualquer resposta. 
A coisa promete. 


Vai haver sangue para todos os gostos. 
Excepto daqueles que amam a democracia que aqui vai ver o seu tiro de misericórdia. 



“-Eu hoje fiz uma ficha de avaliação de Estudo do Meio.” –Disse a Matilde mal abriu a porta do carro. 
“-Sim, pardalito? Dá cá um beijinho.” –Ao mesmo tempo que me inclinei para lhe beijar a testa. “-E correu bem, querida?” –Perguntei em acto contínuo. 
“-Sim!” 

E não é que ao jantar, a Matilde foi capaz de repetir perante a mãe os enunciados das perguntas? 


Deus me perdoe se há nisto alguma vaidade, mas tanto eu como a Luísa ficámos tão contentes. 



Livros Escolares da Margarida, III 

“Tabuada Ratinho”, em edição revista e da autoria de Alfredo Cabral. Trata-se da septuagésima sexta edição, da responsabilidade da Papelaria Fernandes. 



Bem, vou ouvir as notícias da meia-noite. 


 Alhos Vedros 
   10/12/2003

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A AVARIA DO ESQUENTADOR

E Putin lá ganhou as parlamentares na Rússia. 
Os resultados são aceites por todos e ninguém fala de falseamento dos mesmos ou de falta de liberdade de acção durante a campanha. 
Mas a prisão de alguns oligarcas terá deixado certa oposição mais desprotegida e, em termos de capacidades de campanha, mais fragilizada ao nível dos possíveis financiamentos. Além disso, o controle da comunicação social por gente da confiança do Presidente e do seu partido terá certamente exercido as suas influências para o desfecho que veio a verificar-se. A democracia é titubeante naquela federação inter-continental e isto não só pela sua juventude; há também a herança soviética que se traduz pelo reduzido número de democratas convictos. 
Não estranha pois que os comunistas tenham sido claramente derrotados e que os tecnocratas ligados à abertura económica e que ali dão pela designação genérica de liberais quase tenham desaparecido do mapa pluri-partidário dos que têm assento parlamentar. Apesar disso, Girinovski, se bem que enfraquecido, manteve-se à tona de água. O seu discurso xenófobo e nacionalista permanece assim latente, muito embora, por enquanto, em certa medida contido pela própria actuação dos vencedores.
Contudo, o estado de direito não é uma realidade naquela constelação de povos e culturas e o poder das máfias é suficientemente grande para se apoderarem ou pelo menos imporem os seus desígnios em importantes centros de decisão. 
Com esta vitória dos seus partidários, Vladimir Putin vê melhorar as perspectivas de ser reeleito nas presidenciais do próximo ano e, pelos vistos, tudo indica que é a principal barreira às pretensões dos interesses mais esconsos. Parece-me ter aspirações de igualizar os velhos czares que trilharam o caminho para a grandeza da Rússia; a ambição que manifesta aponta para a vontade de recolocar o país no estatuto de grande potência mundial. 
Exactamente por isso, o mundo não dormirá descansado enquanto os russos sentirem o frio nas barriguinhas dos seus filhos. 

O Ocidente não teve homens à altura quando o Muro de Berlim caiu. 



E por cá continuamos a assistir ao triste espectáculo de um país sem rumo. 
Os estudantes da Faculdade de Direito fecharam as instalações a cadeado. 
E não é que para além do preço das propinas, protestam contra o facto de a nota de acesso à oral ter descido para sete valores? 



Pois eu espero que a Professora da Matilde não seja tão indulgente. 

E hoje os alunos fizeram exercícios com palavras, ao que se seguiu uma ficha de avaliação de Matemática. 

O meu pardalito já escreve sem recurso a cábula. 



Afinal, o esquentador não tinha qualquer avaria. 
O técnico da assistência veio cá, olhou e… Mudou a pilha. 



Parece que a Matilde ultrapassou a fase em que amuava quando os jogos não lhe corriam de feição. Curiosamente, o mesmo sucedera com a irmã, mais ou menos por volta da idade que a mais novinha tem agora. 
Nestes últimos dias, tenho reparado que as partidas de ludo e outras do género decorrem sem qualquer contestação dos números que os dados apresentam. 
Apesar disso, antes do jantar, preferiu brincar sozinha com os tractores da sua quinta enquanto a Margarida e a Beatriz jogavam monopólio.



“-Ó pai, o que é que quer dizer dengoso?” 



A chuva persiste em remeter-nos para os interiores, mas a Lua, a espaços, faz-nos caretas por detrás de uma cortina que a sua luz arroxeia. 

“Por você vou roubar os anéis de Saturno.” 
E não é que eu concordo com a Rita Lee, meu amor? 


 Alhos Vedros 
   09/12/2003

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
15

Através dos vestígios que esses nossos antepassados nos deixaram. 
Bem, vestígios dos mais variados tipos. Para os mais antigos estamos a falar apenas do que restou dos seus próprios corpos. 
Sim, os ossos, mas também dentes, por exemplo. Em qualquer dos casos quase sempre apenas partes do esqueleto ou especificamente dos maxilares correspondentes. 
Muito mais tarde, à medida que esses seres foram descobrindo formas exteriores aos seus corpos de se auxiliarem para a satisfação das suas necessidades e, especialmente, depois de inventarem ferramentas para procurarem alimentos, a partir de então começaram a deixar também esses indícios da sua presença. 
Em pedra, pois claro. São as mais antigas que se conhecem. 
É possível que tenham usado outros materiais, por exemplo, provenientes do reino vegetal. Mas se o fizeram, ou não chegaram aos nossos dias ou, se por ventura ainda existirem, pelo menos por enquanto, nós não somos capazes de os reconhecer como objectos que, de algum modo, tenham sido manuseados pelos nossos mais remotos ancestrais. 
Boa pergunta e dir-se-á, com alguma segurança que, para um não especialista, nem sempre será fácil proceder a essa distinção entre as pedras que foram e as que não sofreram qualquer alteração intencional provocada pelo homem. Mas a actividade científica habilita-nos a identificar com alguma certeza as pedras que foram objecto de intervenção desses animais. 
Há lascas, só para olharmos um caso, que só poderiam ser obtidas a partir de certas fracturas provocadas por uma acção exterior que, se fosse fruto de causas naturais, certamente não produziria, tal como se verifica em centenas de exemplares, os mesmos efeitos. Daí que seja de presumir que a autoria decorra da mesma espécie e manifestamente com o propósito de criar esses mesmos utensílios. 
Tal como dizes. Com a passagem do tempo, o que neste domínio significa uma escala de dezenas, centenas de milhares de anos, foi com o acumular das experiências de inúmeras gerações que essas criações culturais se multiplicaram e, por isso, os vestígios que hoje podemos encontrar não são só em maior número como mais diversificados e a partir de uma dada altura, não apenas em pedra mas também em outros materiais. 
Osso, por exemplo. 
Sim, para estas épocas, digamos assim, mais recentes, continuam a ser da máxima relevância os restos físicos, propriamente ditos, desses seres. Mas a esses juntam-se esses outros testemunhos fruto da actividade cultural da espécie e que vão desde ferramentas aos restos das mesmas, até aos próprios lixos que esses grupos foram produzindo e abandonando. 
Pois, tudo isso é obtido através das pesquisas e dos estudos científicos, mas isso ficará para a próxima conversa, pode ser?