«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

AMAZÓNIA
 
 
 
 
 
 
CELESTE BEIRÃO
 
 
AMAZÓNIA, património perdido. A destruição das florestas tropicais é responsável por aproximadamente um quinto das emissões globais de gases do efeito estufa. A Amazónia a maior floresta tropical do planeta perdeu, só no Brasil, mais de 700.000 m2 nos últimos 40 anos. Sendo a EU importadora de quase metade da madeira amazónica. ..A peça apresentada é constituída por dois universos que representam uma dialéctica entre globalização e ambiente. Os conceitos explorados fundem-se em dois planos que formam o cenário onde decorre a acção. No primeiro apresento, através da utilização de uma mala de porão, a mobilidade, transportando-nos para o passado, mala essa que aprisiona memórias, folhas caídas prisioneiras de sonhos, árvores que brotam do seu interior como gritos. Numa outra leitura poderá significar o sacrifício do meio ambiente em prol de interesses económicos e da crescente necessidade de mobilidade das populações em busca da sobrevivência. Num segundo plano, como que constituindo o pano de fundo surge um conjunto de fragmentos que representam as vivências inerentes ao primeiro processo, um conjunto de 418 elementos onde a mancha assume o papel principal. O trabalho é composto por 418 quadrados de 10cmx10cm, em acrílico sobre papel, pintados separadamente e posteriormente agrupados resultando num painel, uma mala de porão, ramos de árvores e folhas. A sua dimensão poderá ser variável, adaptando-se ao espaço onde possa vir a ser exposto, sendo no entanto preferencialmente apresentado como nas fotos fornecidas 197 x 225 x 66 cm.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os caminhos do espírito


Mestre Eckhart – A Mística da Essência

Mestre Eckhart, tal como São Tomás de Aquino, foi discípulo de São Alberto Magno.
Foi acusado de heresia e proibido de pregar.

Para Echart a essência primordial, que tanto pode ser comum aos homens como aos deuses, não é passível de conceptualização. Toda a tentativa de conceptualização da realidade é sempre uma limitação. Os “bem aventurados” são os pobres em espírito: a “mística da essência” faz a apologia do nada querer, nada saber, nada ter.

Nada querer saber, nem de si, nem do mundo, nem de Deus. Tudo isso são entraves aquilo que já realmente se É. O mais importante é estar livre, desocupado. Ser livre de tudo, inclusivé de deus.

A partir do momento em que o homem quis alguma coisa, saiu de Si e cindiu-se. E aí, passou a haver deus, homem e mundo. Antes dessa rutura, o que verdadeiramente existe, é uma realidade primordial não diferenciada, integral.

Se nos Dominicanos, o homem chega a Deus através do intelecto, e se nos Franciscanos, o homem chega a Deus através da vontade e do amor; Mestre Eckhart afasta-se de uns e de outros e sustenta que há algo no homem que não é intelecto, nem amor. Para ele, a fonte da “grande felicidade” é a beatitude: «não há nada a vir, não há nada a esperar, não há nada a temer». O único caminho para a liberdade é a própria liberdade. Deus, estando livre de tudo, não sendo uma coisa, engloba todas as coisas. E o que se aplica a Deus, aplica-se ao homem. A alma abarca todas as coisas, pré-existe, é anterior e responsável pela criação do mundo. Ela transcende-O, está para além.

A perceção da alma é possível pela não conceptualização, pelo evitar de toda a tentativa de imaginação.

Em Eckhart, a “bem aventurança” chega com o desapego de todas as coisas materiais ou espirituais, mas igualmente de si próprio. Mas, a sua proposta não é de uma anulação do ser, pelo contrário, em vez de alguma coisa o importante é ser tudo.

“Eu já sou. Eu autocriei-me desde a eternidade. Eu sou incriado, imortal.” A existência, o ser, é o cair para fora da eternidade. É preciso voltarmos ao antes de “sermos”.

Carlos Rodrigues

Referências Bibliográficas:
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Fac. De Letras da Universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º sem.
Eckhart, Mestre, Tratados e Sermões, Edições Paulinas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Tenho uma pena imensa pelo pouco tempo que disponho para me dedicar a estes cadernos e já nem penso naquilo que poderia ser a disponibilidade para lhes conseguir dar um tratamento mais apurado e muito menos aprofundado, limitando-me ao lamento por sequer ser capaz de para eles dispor de oportunidades suficientes para lhes oferecer um acompanhamento regular. Mas é o que resulta de termos uma cultura do trabalho que sempre me incutiram em casa, segundo a qual jamais esperaria viver de outro modo que não fosse o de obter por essa via o sustento e o suporte de tudo o mais que eu e os que estão ao meu encargo necessitamos. Era a Éster que, amiúde, quando escutava certos desabafos rezingões de algumas de nós perante as múltiplas e esforçadas tarefas do árduo labor dos primeiros anos, por entre um sorriso jocoso e que ao mesmo tempo era a maneira mais delicada de reprovar a atitude e incentivar ao seu contrário, dizia, sobrolho franzido e o indicador direito esticado para a interlocutora, “-Ganharás o pão com o suor do teu rosto.” Não por isso, pois a minha educação e formação religiosa ficou-se pelos meses estivais da infância que passava em casa dos meus avós paternos e de não mais ter tido alimento, antes pelo contrário, ter sido afinal contrariada pelas referências que entre os meus queridos pais ia obtendo, acabou por secar, ao invés disso, por me terem ensinado que o trabalho é a fonte da dignidade por ser através dele, a partir dele que todos os bens são criados e toda a riqueza é produzida, também eu sempre concordei com aqueles que, tal como ela, pensam que todas as profissões são merecedoras de respeito e, consequentemente, por mais básico que seja um determinado desempenho, a começar pelo acto banal de varrer, ao mesmo tempo que cumpre um certo papel que contribui para o bem estar comum, deve ser visto pelos outros como prestigiante para quem o leve a efeito com a determinação de procurar com ele o melhor resultado possível e isto é válido para qualquer acção humana a este nível e não será o médico ou o advogado relaxados e negligentes naquilo que fazem que serão menos censuráveis que um varredor bêbado e displicente. A verdade é que em tal situação todos eles precisam dessa forma de dignificação que o exercício do trabalho e não o de uma profissão específica confere. É aquele e não qualquer destas que nos facultam o acesso ao estatuto de cidadão pleno e, por isso, seja engenheiro ou carpinteiro, professor ou cavador, todos aqueles que dessa maneira se esforçam para dar conta do seu dia a dia e dos seus, merecem igual respeito e consideração. Assim aprendi com os meus adorados e saudosos pais e assim, por mútuo reconhecimento, tanto eu como o Manuel ensinamos aos nossos filhos. E é por isso que em primeiro lugar surge o dever e, por muito que até desejássemos dar provimento à satisfação do mais insignificante dos prazeres, é àquele que temos de dar cumprimento e só depois nos poderemos lembrar de nós e daquilo que apenas a cada um é relativo e que nada mais tem que ter para lá de nenhuma explicação para a mais inerte das barriguinhas olhando o céu. Pois é daí que deriva esta minha impossibilidade de prestar maior atenção a estas páginas que, apesar de tudo, posso dizer que me têm acompanhado desde que aqui cheguei. Bem, afinal nem mesmo tive aquele espaço de reflexão necessário a procurar-lhes um plano ou qualquer enquadramento. Com certeza, não me recordo de alguma vez ter tido uma ideia do que poderia pretender escrever. Tantos anos passados, sou agora incapaz de repor com precisão o que me possa ter levado a escrever numa daquelas noites em que vivíamos mais ou menos a monte no casarão, isso lembro-me bem, à luz de um candeeiro a petróleo, à mesa do salão onde tomávamos as refeições. Provavelmente terá sido a vontade de ordenar as minhas próprias ideias a respeito de uma decisão que inquietava o paizinho e a mãezinha e de por essa forma ter como sossegá-los. Sei que acabei por me habituar a tomar estas notas e, desde então, não mais deixei de o fazer, aliás, os momentos em que aqui me sento a escrever transformaram-se na minha renda preferida de serão e disso não tenho a mais leve dúvida. Se me perguntassem sobre o que tenho escrito, não saberia encontrar uma resposta. Honestamente, nunca tive um objectivo específico de elaborar uma narrativa desta nossa aventura colectiva e comunitária, ainda que não exagerasse se pretendesse que a mesma, de facto, o requereria. Pode parecer curioso mas nunca li nenhuma das linhas que deixei para trás, contudo tenho para mim que mais do que uma qualquer forma de história deste povoado, aquilo que tenho registado e, bem vistas as coisas, aquilo que pretendia registar, são nada mais que as minhas impressões pessoais a respeito do modo como tenho apreendido toda esta experiência e as vivências em que se tem traduzido e aqui devo acrescentar que nem tenho qualquer preocupação de objectividade, mais do que isso, é essa minha subjectividade que me interessa e, seguramente, será ela que eu procurarei entender quando um dia, na velhice a que espero chegar, me sentar a ler estes cadernos e os a haver, naturalmente se alguma vez vier a fazê-lo. Seja como for, não deixo de me lamentar que não lamuriar pelo pouco tempo que tenho para me dedicar a este, digamos, passatempo e, mais não fosse pelo muito que certamente vou deixando por dizer. Tenho pena, muita pena, mas não tenho alternativa e a propósito não me quero esquecer hoje de anotar o prémio que a Viviana acabou por receber pelo louvável trabalho que ao longo de todos estes anos desenvolveu no âmbito da saúde pública da comunidade, quer pelas consultas médicas propriamente ditas que tem prestado e à maioria do povo sem olhar a pagamentos, quer pelo seu plano de medicina preventiva pelo qual todo e qualquer trabalhador e respectivas famílias têm acesso a uma avaliação regular do seu estado de saúde. Falam por ela os resultados da nula mortalidade infantil no povoado e, por exemplo, as insignificantes baixas laborais por motivos de doença. É como a electricidade de que daríamos imediatamente conta se faltasse, no entanto, tão relevante para o nosso bem estar como o mais produtivo dos braços. Ora com a conclusão do novo bairro, justamente atrás desse aglomerado de casario, numa ampla praça a que se acede por rua própria paralela ao limite de todo o irregular quarteirão e que passa ao lado da moradia e estabelecimento de café do genro do senhor Abel, lá está o edifício onde montámos o novo posto médico que, mais do que isso, está ao nível de uma pequena clínica onde não só poderemos ter consultas, receber primeiros socorros e até pequenas intervenções cirúrgicas ou ficarmos internados se tal for preciso, ainda temos uma pequena farmácia que aí se estabeleceu por acordo com um farmacêutico da Vila, um jovem licenciado que herdou a botica do avô e agora quer modernizar e, se possível, fazer expandir. Não é por estar envolvida, ser parte interessada, mas esta nossa epopeia merecia a pena de um olhar mais profundo e bem mais capaz que o meu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (17)






A ÁRVORE


Era um grupo e de homens. Homens do campo, habituados a lidar com a terra, com os caprichos das estações do ano que, de vez em quando, pregam as suas partidas e ora alagam os campos ora os secam até que tudo pareça morto, para renascer na época seguinte.

Viajou junto, este grupo de homens fortes, másculos, orgulhosos, um pouco homofóbicos, porque não dizê-lo? Foram a trabalho, eram uns onze ou doze. Os dias eram passados em reuniões, conferências, visitas a stands de novos equipamentos onde se trocavam impressões e cartões de visita e as noites eram passadas em jantares e bebidas fortes, como convém a homens com agá grande, como gostam de se intitular!

Num dos últimos dias pediram UMA guia para os levar a conhecer a zona. É claro que seria muito mais interessante conhecer os recantos da cidade mostrados pelos olhos de uma mulher… e quando a guia surgiu no átrio do hotel, ouviu-se algum burburinho: Miss Dot, assim se apresentou, devia ter cerca de 70 anos e deslocava-se numa potente Harley Davidson. E era mandona, ah se era! Começou por lhes distribuír mapas e o itinerário para o dia, sem dar àqueles homens fortes e másculos qualquer hipótese de a contrariar: já estava tudo planeado e era assim que seria!

Tudo correu mais ou menos bem até ao encontro com o Velho Carvalho… aqui é que a coisa se complicou… tratava-se de uma velha árvore com mais de três séculos de existência (um carvalho pode atingir a bonita idade de mil anos!) e Miss Dot MANDOU que os homens dessem as mãos formando uma roda em redor do enorme tronco da Velha Árvore e que dançassem em celebração da Vida! Fez-se silêncio, enquanto os homens olhavam uns para os outros, sem saberem bem o que fazer… e, a pouco e pouco, foram estendendo as mãos a quem estava ao lado, formando uma roda e dançando e libertando energias contidas!

Ainda hoje não falam do assunto uns com os outros mas quem os conhece íntimamente sabe do ‘Milagre do Velho Carvalho’ que fez um grupo de homens da terra, másculos, machos, dar as mãos e dançar em redor de uma árvore, na mais pura celebração da Vida! Um Verdadeiro Milagre, sem dúvida…


Amélia  Oliveira

Ps. de António Tapadinhas - Juro que não sabia que Jack Nicholson ia apresentar o Melhor Filme nesta noite de Óscares.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

 




          DO VIVER NESTE PAPEL ESCRITO



Não é agora a hora para falar de tristezas.

Bastam ser conhecidas, bastam ser assumidas e ainda assim decidir não parar.

Caminhar ainda e sempre, pois quem caminha sempre procura.

Uma saída ou um encontro, a revelação de novos e imprevistos horizontes, a eclosão de novos projectos onde menos se espera?

Sim, por exemplo.

E depois, há o que se percebe e o que se devia ter percebido, há o que se dá e se gostaria ter oferecido, o que se recebe e se podia ter recebido.

Enfim, um desassossego…

Toca a banda, siga a vida.



Texto: Manuel João Croca; Foto Edgar Cantante.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A educação das nossas crianças...


As nossas crianças aprendem na escola a ler, escrever, matemática, ciência e outras matérias que as podem ajudar a ganhar a vida. Mas muito poucos programas escolares ensinam os jovens como viver – como lidar com a cólera, como reconciliar conflitos, como respirar, sorrir e transformar as formações internas [pensamentos e emoções]. Devemos encorajar as escolas a exercitar os nossos alunos na arte de viver em paz e harmonia.
- Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddhas’s Teaching, Londres, Ryder, 1999, p.150.

Uma das bases mais evidentes da falência do actual sistema é a educação. As famílias, ou seja, nós todos, pouco mais fazemos em geral do que orientar as crianças e jovens para se tornarem iguais aos adultos que somos, supostamente mais experientes e conhecedores, mas que na verdade quase só sabemos como competir e trabalhar para sobreviver e consumir, distrairmo-nos de vez em quando para voltar à rotina de sempre e ser infelizes a vida toda. E depois esperamos que a escola continue o mesmo processo. O resultado é, mais do que o insucesso escolar, o insucesso da escola para cumprir uma verdadeira função educativa e o crescente mal-estar nesta civilização, onde as potencialidades mais profundas do ser humano, como a expansão da consciência, a criatividade, a amizade e o amor desinteressados, a generosidade e a partilha, a empatia com a natureza e todas as formas de vida, são recalcados pela pressão familiar, escolar, social e profissional, dando lugar a seres divididos, em luta contra o melhor de si mesmos e por isso em constante conflito com os outros, que morrem com remorsos de não haver vivido plenamente. Necessitamos urgentemente de outras escolas e de outra escola, mas isso não vai acontecer, globalmente, enquanto a sociedade estiver dominada pela economia de mercado e pela ganância capitalista, da qual somos todos cúmplices e responsáveis. Não basta lutar por mudanças sectoriais sem pôr em causa a estrutura fundamental do sistema.

Paulo Borges

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

UANHENGA XITU (Agostinho André Mendes de Carvalho)



Nasceu em 1924 na aldeia de Kalomboloka, município do Ikolo e Bengo, província de Luanda. Enfermeiro de profissão, desde cedo integrou a luta de libertação. Preso pela PIDE, foi co-réu no famoso “Processo dos 50”, sendo enviado para o Tarrafal em 1962 onde permaneceu até 1970. Ali escreveu a maior parte das suas obras. Pertence ao grupo fundador da UEA/União de Escritores Angolanos e é deputado e membro do Comité Central do MPLA. Antes foi Comissário Provincial de Luanda, Ministro da Saúde e Embaixador na ex-República Democrática Alemã. Feroz defensor das tradições do seu povo, pela maneira como sempre as defendeu, opondo-se com desassombro e frontalidade aos detentores dos novos poderes, esteve para ser tragado na voragem daquele que foi o período mais negro da história de Angola no pós-independência: o 27 de Maio de 1977. Em 2006 recebeu o Prémio Cultura e Artes na categoria de literatura pelo conjunto da sua obra.

Uma das suas obras mais interessantes intitula-se “O MINISTRO”, escrito em 1989 e tendo a sua primeira edição em 1990 através da UEA. É uma espécie de autobiografia política narrada com muita sátira, muito humor e com um forte apelo aos valores tradicionais tais como o respeito pela sabedoria dos mais velhos ou a identidade própria de cada aldeia, de cada sanzala, de cada povo das diferentes regiões de Angola. Também fala no desencanto das populações com as mil promessas não cumpridas depois da independência. É um livro incómodo para alguns e dele extraio o parágrafo inicial:

“(…) Esta obra dedica-se a um “ministro”, entre aspas, que posso ser eu ou outro qualquer. Há ministros de nome, ministros de cargo e ainda ministros entre aspas. Há um povo que desconhece a nomenclatura e não distingue cargos; para ele um ministro também é o director, o secretário, o chefe de departamento ou do sector e todos os que trabalham com o ministro, inclusive, o contínuo, o trabalhador de limpeza, o servente, a lavadeira, a criada; porque alguns desses, e aqueloutros, nos seus bairros e vilas, fazem-se ou cognominam-se ministros; e constroem e constituem os seus ministérios como órgãos, organismos, e até presidências, nos musseques, falando em nome de superiores, invocando nomes de destaque no Governo para atingir os seus fins, extorquindo, aprisionando, roubando, vigarizando, subornando, assassinando, gerundindo daí para fora com todos os gerúndios negativos. Ora, um povo habituado dessa maneira, crê e acredita serem todos ministros, até o cão do ministro ladra diferentemente do cachorrito do bairro de lata e de caniço sem asfalto, sem luz e sem água.”

Para atestar sobre a frontalidade e desassombro de Uanhenga Xitu aqui deixo também a parte inicial do seu poema “PUEMA”, escrito em 1976 e que lhe valeu muitos amargos de boca:

“Eu sou o pUeta de Kimbundu*
sem calças nem cuecas e nem sapatos
ando de mulala*, passeando na sanzala, cidade, nas matas, nas serras, montanhas,
no makelu*
onde há homens que falam e não dizem nada
há homens que falam nas pessoas de pé durante horas-horas-horas
e os ouvintes não ouvem, suam, desmaiam, fogem, têm fome
onde há homens já sem carne no cu
toda fugida na barriga de cuca e nocal*
e andam nos mercedes gritando: sou do MPLA
onde há pessoas que fazem camanga* selectamente
e não querem ser cangados*…”

*
Camanga – tráfico ilegal de diamantes
Cangado – preso, apanhado
Cuca e Nocal – marcas de cerveja fabricadas em Angola
Kimbundu – uma das principais línguas de Angola
Makelu – contentamento, felicidade
Mulala – pequeno pedaço de pano usado para tapar o sexo


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

PAISAGEM COM SETE ÁRVORES
 
(SÉRIE - HUMANAS GEOMETRIAS)
 
 


LUÍS DELGADO

Óleo s/ MDF 61 x 80

 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Versículos



Paradoxo

Sentir vem de dentro
compreender vem de fora,
num aparente mundo de dualidades;
pensámos depois que
não havia dentro
nem fora,
só Uma mesma coisa.


Luís Santos


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Eu gosto muito da Primavera. No fundo todas as estações do ano têm as suas particularidades e cada uma delas apresenta coisas de que gosto, como é o caso do Inverno em que a chuva bategando nas vidraças tanto me encanta, ou o frio do lado de lá das paredes me faz sentir o aconchego do calor de uma casa cheia de confortos, sem esquecer os mantos de verdes que se estatelam nas planícies que algumas cores decoram para prazer do olhar. Mas a Primavera tem aquela explosão das flores que tanta alegria transmitem aos campos e, ao final da tarde, numa amálgama tantas vezes indefinida nos perfumam a percepção do olfacto como se de um tónico para a alma se tratasse. A Natureza é algo prodigioso e mágico nos seus equilíbrios que ao leigo se assimilam como verdadeiros mistérios. Não estranha por isso que tantos povos tenham divinizado as suas diversas e diferentes manifestações ou o panteão grego tenha encontrado para as mesmas o respectivo deus responsável. O próprio Spinoza que lançou as bases da moderna filosofia política que vê no Estado o garante das liberdades e da protecção dos mais fracos e que, educado no judaísmo, certamente aprendeu uma leitura de Deus etéreo e, digamos assim, metafísico, acabou por deixar um ponto de vista que, partindo do deslumbramento perante tamanha harmonia, O assimilou justamente a ela. Pessoalmente não vou por aí, até por nem me ter formado com ou a partir de uma visão religiosa do mundo, mas não me deixo de maravilhar com as manifestações que, no contexto do todo, parecem ter sido planeadas como engrenagens de um mecanismo maior para que confluem no sentido do seu funcionamento eficaz. E de todas as efervescências que o aumento das temperaturas atmosféricas faz nestes climas temperados, o florir dos terrenos é talvez aquela que maior encanto me transmite, ainda mais quando uma invernia farta de água vem a desaguar, tal como sucede este ano, na exuberância das pinturas que o Sol, aquecendo um pouco mais, provoca na casca de terra do planeta. Caminhar entre veredas e valados mesclados de verdadeiras sinfonias pictóricas é desfrutar um espectáculo em que o espírito repousa e o ânimo se revigora e ultimamente, em que me vejo confrontada com a necessidade de ponderar e assentar determinadas ideias para que possa ordenar a preceito as matérias que terei que leccionar na disciplina de Filosofia, tenho gozado a surpresa suplementar do quanto me agrada entregar-me às cogitações que me preocupam, ao mesmo tempo que me vou deixando perder no andar, repousando aqui e ali a vista enquanto o cérebro se evade pelos emaranhados teóricos que me ocupam. Não sei porquê, mas já reparei que dessa maneira consigo um nível de concentração que não sou capaz de alcançar quando aqui estou sentada com o intuito de trabalhar esses mesmos assuntos e a verdade é que tenho a sensação que as melhores ideias me afloram justamente no decurso dessas passeatas solitárias. E foi o que ontem aconteceu com uma ideia que, para ser honesta, ainda não sei tratar muito bem, nem mesmo saberei dizer se a estarei a tratar convenientemente mas que, depois de a ter, logo a achei perturbante e que, de facto, me deixou um tanto ou quanto inquieta. Se bem que não seja por onde terei que iniciar o programa, certo é que terei que ministrar lições sobre moral e ética e estava precisamente a reflectir a respeito de como Kant considera a racionalidade como o processo pelo qual poderemos fazer derivar valores universais, quando dei comigo a perguntar-me se a dignidade humana não poderá ser considerada o primeiro de todos. Será a dignidade uma propriedade, salvo seja a expressão, inerente aos seres humanos ou um valor? A resposta no primeiro daqueles sentidos pareceu-me desde logo evidente se admitir que a dignidade, o mesmo será dizer o respeito que, em abstracto, toda e qualquer pessoa merece à partida é algo que, independentemente das culturas em apreço, é possível reconhecer para todo e qualquer indivíduo vivo ou que alguma vez tenha vivido. Nesta dimensão ela será assim um atributo que trazemos connosco. Contudo, não deixa de ser simultaneamente um valor, na medida em que podemos tomar um tal conceito como um guia de comportamento, quer em relação às nossas próprias pessoas, quer em relação ao nosso semelhante. E o que será então viver com dignidade? Tão simples como tratar de si sem ser um fardo para quem quer que seja, quer dizer, ser capaz de viver na assunção das suas responsabilidades para com o próprio e os outros. Ora é justamente por isso que é possível dizer que a exploração, ao furtar tanta gente à possibilidade de tratar de si por, pelo fruto do seu trabalho, as deixar em limiares de miséria, é uma imoralidade por impedir que dessa forma a pessoa não viva no completo da sua dignidade. Escusado seria sustentar que o respeito pela dignidade alheia é outra das condições para que possamos dizer que alguém leva uma vida digna. Até aqui tudo bem, mas a perturbação estava no virar da esquina. É que me perguntei de onde ou do quê poderemos nós fazer derivar essa ideia de dignidade? Com tanta maldade que a história humana tem revelado, como poderemos defender que os homens nascem dignos? Mesmo tendo em conta que os princípios morais não derivam da realidade dos factos mas antes do uso da razão, não seria isso uma negação desse princípio que pretendemos aplicar a todos os homens? De onde nos vem a dignidade? É uma pergunta simples que um qualquer aluno desde que atento, pode muito bem colocar-me. Pois foi aqui que teve início a perplexidade e de que decorreu a perturbação provocada por conclusões que, repito-o, pelo menos por enquanto, ainda não sei como lidar com elas. Bem, se eu fosse religiosa e aqui vem-me à lembrança uma conversa que tive há muitos anos com o Félix e a Éster –que será feito deles de quem não mais tive notícias? Será que estão bem? Faço votos para que assim seja- eu encontraria a forma mais simples para resolver o problema dizendo que ela nos é conferida por Deus. Ainda hoje tenho na memória as palavras daquele companheiro, para quem todos, por serem Seus filhos, nascem dignos. Acontece que eu não sou e há muito que deixei de ter práticas ou hábitos de pensamento religiosos, há tanto que, em termos de idade jovem e adulta, não errarei se escrever que nunca fui religiosa pelo que terei que me reduzir ao uso da razão para encontrar uma tal resposta e, em conformidade, procurar articular ideias em outras áreas, mormente na Filosofia e na Ciência e foi aí que tudo começou. Ora não podemos dizer que o Homem é digno em si pela singularidade e a irrepetibilidade da vida de cada um, coisa que é empiricamente verdadeira? Se nós considerarmos todos os acasos que são necessários para que nasça um determinado sujeito, desde logo o de os pais respectivos se terem encontrado mais tarde ou mais cedo ou sequer terem chegado a conhecer-se, fácil nos é compreender que resultamos de um momento único e irrepetível que é o da fecundação de um dado óvulo por um determinado espermatozóide; noutro momento, necessariamente com outro óvulo e outro espermatozóide, não nasceria uma certa pessoa mas outra diferente ou, caso contrário, todos os irmãos teriam que ser iguais entre si, coisa que na realidade não acontece, quando até sabemos que nos milhões e milhões de seres humanos que existem e já existiram na Terra, não há nem alguma vez houve dois iguais e nem isso se passa com os gémeos por mais semelhantes que sejam ao nível fisiológico. É pois essa singularidade irremediável que confere a cada indivíduo esse estatuto de dignidade. Pois aqui ocorreu-me a tal dúvida, se assim posso falar, que não só me intrigou como, tenho que o admitir, me perturbou. O problema é que se retirarmos a dignidade em função de sabermos que a vida é irrepetível, então teremos que estender essa conclusão aos restantes animais, em especial os mamíferos, também eles abrangidos por essa lei da Natureza. Sendo assim, os macacos, os leões e até as vacas e os bois cuja carne comemos, no prato, também serão dignos. É aqui que reside a perturbação que senti nas conclusões a que cheguei e sinceramente não sei como lidar com elas.

FRESCOS



A literatura é avessa às generalizações, na medida em que, sendo o fruto criativo daqueles que a cultivam, sempre acaba por se atomizar naquilo a que aqueles a consigam elevar e, por isso, aquilo que possamos querer pensar como universal esbarra, muitas vezes, nos estreitos limites com que cada um aí se revela e, com a obra respectiva, lhe estabelece.
Não tenho portanto qualquer pretensão de considerar os meus próprios pontos de vista como mais relevantes que quaisquer outros nesta matéria e, por isso, as afirmações que sustentar, fora daquilo que a tradição e a reflexão crítica e académica convencionaram e é generalizadamente aceite, como é o caso das definições dos diversos géneros, ou os contornos dos múltiplos movimentos que lhe têm feito a História, fora desses patamares em que é possível encontrar ideias, conceitos e definições – salvo seja a expressão – comuns, as opiniões, as preferências, os gostos que cada Autor possa ter por mais importantes, apenas a ele dizem respeito e de modo algum podem ser entendidas como algo mais que isso mesmo, simples declarações opinativas de gosto e muito menos como teoria a ter em conta. Com isto não estou a defender que não possamos identificar contributos mais ou menos interessantes para as teorias que se vão desenvolvendo em torno da literatura, mas apenas a confinar o que são as opiniões dos escritores aos seus limites particulares.
É, pois, meramente pessoal, o testemunho que apresentarei de seguida.

Toda a literatura sempre assentou – e assim continuará a ser – num binómio mínimo, justamente aquele que se materializa entre a obra feita e aquele que a lê. Poderia ter algum sentido, uma obra que tivesse o propósito de jamais vir a ser lida por quem quer que fosse?
Contudo, mais importante que esta pergunta será, para meu gosto pessoal, questionar se poderia o Autor escrever sem ter em consideração a existência de um Leitor, ou seja, visto de outro modo, se faria sentido que aquele escrevesse sem a mínima preocupação de ser lido e, sobretudo entendido. Para quem escrevemos, apenas para nós próprios?
É claro que para mim, o Leitor é o destinatário daquilo que escrevo e se o ser lido será o preâmbulo desse propósito, ser entendido confere o prémio máximo a que aquele que escreve poderá almejar. Sem quaisquer concessões aos seus gostos e desejos, ainda menos com algum retraimento perante os seus níveis de conhecimento e sabedoria, é esse o respeito que ao escritor ele deve merecer e é nessa dimensão que costumo dizer que nada seria sem ele.
Mas por vezes somos surpreendidos pelo que o Leitor consegue fazer crescer uma obra por aquilo que em ela encontra e que, em alguns casos, nem ao próprio Autor antes ocorrera. Sempre que assim é, impõe a delicadeza que perante ele se curve o escritor, tanto pelo agradecimento que lhe deve, como pela estima que a partir daí aquele passa a merecer. Ora foi esse o meu caso, com a apresentação deste livrinho de alguns dos poemas que escrevi nos primeiros anos da minha juventude. Daí estas palavras, para que o querido Leitor, antes de mais, fique inteirado do quanto lhe estou grato pelo simples facto de o ser mas, acima disso, como fico profundamente tocado por não só ter entendido estes meus trabalhinhos, como ainda mais por, através do(s) retorno(s) que me foi dando pelos comentários que fez, ter elevado este livrinho a um nível que nunca antes eu lhe tinha reconhecido.
Foi um Ilustre Anónimo que escreveu as palavras seguintes: “(…)diria que os teus Frescos me deram outros mundos a conhecer e fizeram-me começar a observar o meu mundo com mais atenção (…)”. E mais à frente agradeceu. “Obrigada pelos bons momentos de leitura e reflexão!” (1) Seria uma grande hipocrisia se pretendesse esconder o quanto me alegrou um tal comentário, mas isso seria passageiro e muito provavelmente estaria agora esquecido se não se tivesse dado o facto de me ter levado a olhar o “Frescos” com uma nova atenção e, com ele, todo o projecto que assinei como Luciano França de que aquele faz parte. Com efeito, desde então tenho reflectido amiúde a este respeito e mais do que a área de experimentação que, no texto em que apresentei esta publicação, já lhe havia reconhecido, vejo agora que este livrinho revela não só uma maneira de ver o mundo – a minha, naquela idade – como esse mesmo olhar, afinal, não só permaneceu como se robusteceu ao longo da minha vida, como, bem vistas as coisas, é substrato importante da minha própria maneira de ser e, consequentemente, da própria base mental em que tenho vindo a alicerçar a minha obra que, no seu conjunto, no que escava ou permite e convida o querido Leitor a escavar a respeito da humanidade, acima de tudo toma como vértice fundamental a dignidade da pessoa humana e toda implicação de justiça que daí decorre e que se pode muito bem sintetizar na comunhão da alegria de receber a Vida como uma Dádiva que, no carinho que estes frescos transmitem pelas pequenas coisas, os pequenos nadas do quotidiano, é precisamente aquilo que neste livrinho acaba por se cantar.

Termino, desta maneira, a publicação desta pequena compilação de poemas, para a qual, ao contrário das anteriores, pelo que escrevi, não me poderia limitar a uma despedida formal. Com ela materializo aquilo que considerarei a sua primeira edição, contando, em futuro breve, levá-la ao prelo para a dignidade de uma segunda, na forma de livro, propriamente dito. Depois da boa recepção que teve neste simpático espaço de ideias e liberdade, tenho para mim que o merece, tal como o mesmo sucede com o querido Leitor que tão bem o distinguiu.

Resta-me dizer que, apesar deste adeus, permanecerei entre vós às terças-feiras, como tem sido habitual, com “A Comunidade do Vale da Esperança – Uma Crónica”, cuja saga, longe que ficou o cenário de uma amálgama de sonhos de juventude, nos vai revelando como tem vindo a evoluir aquilo que a narradora considera um pequeno pedacinho de céu. Vamos ver o que nos reserva o futuro.
Curvo-me perante a gentileza da companhia que me vão concedendo.

Luís F. de A. Gomes
Alhos Vedros, 10 de Fevereiro de 2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (16)



Em Italiano, Jean-Michel Basquiat, de 1983, Díptico,Acrílico, lápis óleo, tinta e marcador sobre tela montada em suportes de madeira.

O MEU BAIRRO

Espreitei.
A parede branca do Mercado Municipal está especialmente bonita.
A noite pinta de cinzento o branco e os meus olhos sorriem.
As letras escritas na parede branca parecem desenhos.
São tão bonitas àquela hora…
De dia, a parede é só uma parede com letras escritas a estragar uma coisa que já foi muito branca. Passa a ser apenas o mercado onde uns miúdos estragam tudo com umas latas de spray.
Procuro captar o momento enquanto o luar ainda encanta a noite. Mais um pouco e essa penumbra esconde-se para morrer…
Pego na máquina, procuro a melhor posição e fotografo o momento.
O brilho do flash chega ao bar da frente onde cinco rapazes estão vestidos de não se ver. Roupas enormes, escuras, de tapar tudo. Gorros e carapuços. Todos iguais.
Um deles dirige-se à minha varanda.
Eu olho…
Ele segura uma arma…
Aponta-a…
Grita…

Um disparo finda-me.
Morri assassinada por um miúdo vestido de não se ver.
Roupa enorme, escura, de tapar tudo.

A verdade é que o meu bairro está cada vez mais violento.
Qualquer dia não consigo cá viver.

Teresa Bondoso

domingo, 17 de fevereiro de 2013





 


 
 
 
MANEIRAS DE ESTAR, DE SER. (IV)
 
A felicidade era geral e quase palpável.
Quico começou de novo a procurar na guitarra.
Após algumas tentativas, lá encontrou um trilho e foi por ele afora.
Os outros ouviam, atentos.
O trilho, neste caso, conduzia-nos ao universo musical de Rodrigo Leão. Algo delicado e profundo, penetrando numa atmosfera com algo de místico e, no entanto, leve. Luz coada, levitação interior, deslumbramento numa quietude fortemente impressiva.
Passaram largos momentos que não saberei precisar pois, como dizia, sabia adulterada a corriqueira noção de tempo.
Começaram a tentar encontrar-se no trilho sem se empurrarem.
Foram conseguindo e, quando já todos juntos seguiam, ouviu-se uma voz límpida, cristalina, bem timbrada.
Uma voz de anjo que se elevava como numa prece ou lamento.
 
Das palmeiras do jardim
Só imagens.
Memórias…
E o olhar
Aqui,
Tão perto.
 
Boa, ouviu-se em coro.
 
Os anéis ao longo do tronco
Feito dedo,
Assinalavam a passagem
Do tempo.
 
Aqui a voz calou-se.
A música continuou.
Continuou e, por fim, chegou de novo a voz,
 
As folhas no topo,
Cabeleira verdejando
O castanho
Ilusão de oásis.
Olhos que vêem,
Pensamento que voa,
Paisagens longínquas
De epopeia antiga.
 
Aqui a voz continuou soletrando algo mas as palavras eram incompreensíveis,
“Continua, continua, não pares”, bradava o Quico empolgado.
“Continua, continua” bradavam todos.
E a voz voltou a definir-se,
 
Chegou o mal
Em forma de praga
Adoeceram e
Morreram,
Por fim.
Morreram de pé
Como morrem
As árvores.
Cortaram-nas.
Em seu lugar
Ficou um vazio.
E agora?
 
- “Pessoal, vamos ao refrão” desafiou a Marta e todos corresponderam,
 
 
 
Das palmeiras do jardim
Só imagens.
Memórias…
E o olhar
Aqui,
Tão perto.
 
- “Mais uma vez para acabar.”
 
Das palmeiras do jardim
Só imagens.
Memórias…
E o olhar
Aqui,
Tão perto.
 
- “Pessoal vamos apontar.”
 
Levantei-me e paguei a minha despesa no Bar.
Dei uns passos na direcção do grupo e disse
“Fantástico, vocês são fantásticos e o concerto foi magnífico, quanto é que eu devo?”, brinquei.
“Nada, respondeu o Quico, você também participou. Com a sua presença. E o seu silêncio. Amanhã à mesma hora?!”
“Até amanhã então”, disse.
E sorri, sorria.
Estava feliz quando regressei a casa.
Enquanto ia andando, reflectia no que acabara de presenciar e, de certa forma, participar.
E foi reflectindo que percebi o facto de que, às vezes, a melhor forma de participarmos é, ainda que presentes, guardarmos silêncio para que os outros possam ser o que são e como são e, assim, poderem fazer o “trabalho” que têm para fazer sem ninguém a empatar.
 
 
Foto: Carlos Baptista; Texto: Manuel João Croca
 
Nota: A intervençao deste grupo de jovens tem antecedentes e terá continuídade mas, no que respeita ao Estudo Geral e de momento, fica-se por aqui. Mais tarde, provavelmente, a eles voltaremos.
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

António Nunes Ribeiro Sanches (1699- 1783): Mais um português esquecido por seus compatriotas




António Nunes Ribeiro Sanches, nasceu em 7 de Março de 1699 , na pequena vila de Penamacor, na região da Beira Baixa. Seus pais, Simão Nunes e Ana Ribeiro, são uma família de cristãos-novos. 
A 17 de Março, Ribeiro Sanches é baptizado pelo padre Domingos Mendes, cura da freguesia. Seus padrinhos foram António Henriques e Maria Nunes, esta última possivelmente a avó materna.

Em 1726, seu primo Manuel Nunes Sanches, denuncia-o à Inquisição. Alegava tê-lo encontrado na Guarda em 1722, em casa de uma tia paterna, de nome Leonor Mendes. O delator afirmava que todos eles, incluindo Sanches, se entregavam às práticas judaicas. 
A curiosidade científica e o receio de ser alvejado pelas perseguições religiosas, de que a sua família tinha sido vítima quase ininterruptamente durante vinte anos, leva-o a abandonar Portugal.
Antes, porém, de partir, o ilustre médico escreve a sua primeira obra intitulada Discurso sobre as Águas de Penha Garcia, hoje conhecidas por Termas de Monfortinho. Nesta obra Ribeiro Sanches ressalta o poder terapêutico da milagrosa água, ao mesmo tempo que contribui para que mais gente se desloque a esta zona do interior centro do país.
Mas sai ,definitivamente,de Portugal com rumo à capital da Inglaterra.

António Ribeiro Sanches,considerado o maior médico português do século XVIII, morreu em 14 de outubro de 1783 e foi enterrado numa cova particular no cemitério da Igreja de S. João em Grève. Devido à extinção do cemitério o seus restos mortais foram trasladados para as catacumbas de Paris. 
Ignorado pelos seus próprios compatriotas, ainda assim, Ribeiro Sanches nunca esqueceu a pátria que o subestimara. O seu autêntico amor português traduziu-se nos inúmeros manuscritos e obras que escreveu, na tentativa de contribuir para uma mudança das mentalidades no Portugal arcaico e debilitado que chegou a chamar de Reino Cadaveroso por estar embrenhado num profundo marasmo científico e cultural.
Em Dezembro daquele ano, a sua biblioteca foi vendida em leilão. Rica em obras de carácter médico e de uma variedade apreciável de livros de outros ramos do saber esta extensa biblioteca contava ao todo 1113 títulos que versavam sobre Teologia, Jurisprudência, Ciência e Artes, Medicina, Cirurgia, Anatomia, Farmácia Química, Matemáticas, Artes, Belas Artes, Retórica, Poética, Crítica, Polígrafos, História, História Literária, Bibliografia e Extractos Históricos.

Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br 


Fonte: Biografia de António Nunes Ribeiro Sanches
http://www.estudosjudaicos.ubi.pt/rs_biografia.html