Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Rodrigues. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os caminhos do espírito


Bhagavad-Gita, ou “A Canção de Deus”

Capítulo do Mahabharata, o grande épico indiano, e um dos textos sagrados do hinduísmo.

O grande protagonista do livro que fala na primeira pessoa, Krishna, o avatar de Vishnu, ou seja a própria divindade, dialoga com Arjuna, seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre o seu dever e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna que o instrói na arte da auto-realização.

 Há quem o considere o maior das “Uppanishades”. É o texto inspirador de Ghandi.

Influenciou muitos escritores ocidentais como Aldous Huxley. “Irmânia”, livro de Ângelo Ribeiro, autor português do século passado, também revela a sua influência. Einstein dizia que “quando lia o Bhagavad-Gita e pensava nas leis do universo, tudo o resto se tornava vulgar”.

Esta obra releva, sobretudo, o amor devocional, o amor divino, acima de conhecimento e ação, dos que agem com os sentidos equilibrados, ou dos que agem não agindo, à boa maneira do Tao.

A essência de Krishna é o universo inteiro. Tudo é sagrado. Tudo é uno. O uno e o múltiplo são inseparáveis. Deus é a totalidade, transcende o bem e o mal, ou seja, pode ser bom, mas também pode ser mau!

Krishna diz a Arjuna: “Tu e eu existimos desde sempre”; “os corpos perecem, mas a alma não”; “o Uno não tem início, nem fim – não nasceu, nem morrerá”; “o apego ao prazer, a aversão à dor, a valorização da dualidade são limitações humanas”; “Deus é tudo em todas as coisas”, de resto como diz São Paulo nos “Coríntios”.


E continuando: “Só aquele a quem conceder uma particular graça é que me pode ver, mais ninguém”… Mas enquanto homem, Arjuna, não aguenta muito tempo a perceção e a visão de Deus, e só quer que a experiência acabe… 


Carlos Rodrigues


P.S.: Provavelmente o último, dedicado ao Croca.

sábado, 25 de maio de 2013

Os caminhos do espírito



A Mística Selvagem

A mística pode ser anti-espiritualista.
Uma mística dos sentidos valorizará mais as realidades mundanas do que a procura de uma experiência religiosa. Neste sentido, a experiência puramente estética (beleza, música, pintura…) será preferível ao sentimento religioso.
Uma mística profana, uma santidade sem Deus.
Pode-se procurar exclusivamente a própria vida, sem imanência nem transcendência.
Tudo se pode reduzir a uma gargalhada cósmica. Na experiência mística o essencial é indizível, inefável. Não é possível lá chegar por palavras. “A rosa é sem porquê…”
A habitual escala crescente da consciência humana – sentir, emoção, desejo, memória, razão, intuição, espírito – carece de sentido.
O Amor Místico precisa doutro tipo de expressão que exceda a linguagem – a embriaguez dos sentidos, a poesia… o vinho invisível, a embriaguez mística como um estado diferenciado de consciência. Um descentramento do indivíduo que, todavia, se faz em direção ao centro de si mesmo.
Na experiência do Amor há uma suspensão do juízo, não há separação, não há dualidade. Raciocinar, pensar, implica sempre estabelecer um limite.
"Cala-te!" Pode-se compreender, mas não se pode expressar.
Ou, como diria Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres.”

Carlos Rodrigues

FIM

sábado, 27 de abril de 2013

Os caminhos do espírito



A Tradição Islâmica

Tradição fundada por Maomé (570-632). Maomé nasceu em Meca, o centro espiritual do islamismo.
Durante um dos retiros espirituais que Maomé costumava fazer nas cavernas dos Montes Hira para orar e meditar, foi visitado pelo Anjo Gabriel que lhe anunciou ter sido escolhido por Deus como o último dos profetas da Humanidade.
Gabriel aparece suspenso na posição de lótus, estende-lhe o Corão, o livro sagrado do islão, e pede-lhe que ele o recite. Na tradição oral diz-se que Maomé foi levado pelos anjos numa viagem ao Paraíso, onde viu os diferentes níveis de existência (planos infernais, intermédios (purgatório) e divinos).
Allah (Deus), já é referenciado pela cultura árabe politeística, anterior a Maomé, sendo considerado como o Deus supremo. Maomé, como diz Mircea Eliade, em “História das Crenças e Tradições Religiosas”, (…) vem dizer que não há Deus senão Deus, e que só Ele é digno de ser cultuado, tirando realidade ao homem e ao mundo. A criação é uma teofania e toda a criatura é uma manifestação de Deus.
Maomé funda, então, uma nova tradição religiosa assente em cinco regras fundamentais:
1)    Shalat – oração quotidiana cinco vezes por dia, virados para Meca.
2)    Zakât – esmolas legais para benefício de todos.
3)    Sawn – período de jejum durante o Ramadão
4)    Hajj  - peregrinação a Meca, pelo menos, uma vez na vida, com exceção para os que não têm recursos.
5)    Shahâdat – Só há um Deus e Maomé é o seu profeta.
Existe um islamismo esotérico (interior) que passa só pela oralidade, reclamado pelos Sufis como vindo diretamente do Profeta. Sustentam que as revelações visionárias de Deus não são credíveis, mas sim as auditivas. Este princípio que, de alguma forma, desacredita a experiência de Moisés sempre lhes trouxe alguns problemas...
Os Sufis (os sábios) usavam roupas muito pobres que consistiam nuns bocados de tecidos cozidos uns aos outros. O Sufismo é a entrada no comportamento exemplar que consiste em morrer para si e viver em Deus (ver Sufismo, de Carl W. Ernst, Edições Chambala).
Já os dançarinos Dervishes rodopiam (numa oração integral com o corpo, a alma e o espírito) até entrarem em transe, de forma a chegarem a Deus. Segundo eles, a dança constitui a forma mais rápida para aceder ao divino. Esta importância que se dá à dança acontece igualmente noutras culturas.
Uma última nota: O conceito de Jihad (esforço que se deve fazer para chegar a Deus – “guerra santa”), não tem uma interpretação exclusivamente violenta. Para os Sufis a Jihad é para ser feita contra si próprio, contra a não submissão a Deus que existe em cada um.

Carlos Rodrigues

sábado, 30 de março de 2013

Os caminhos do espírito


A Mística Espanhola:
São João da Cruz (1542-1591)


Constitui uma das grandes referências da espiritualidade cristã. "A Subida do Monte Carmelo", obra fundamental de São João da Cruz, é um comentário do autor aos seus próprios poemas.

Só por graça de Deus a vida humana pode chegar a uma vida divinizada. Só isso é a salvação.
A condição essencial para a união com Deus é o "desapego" e a liberdade de espírito. Deus é o centro da alma que está no íntimo de cada homem. O problema é que o homem dá mais atenção às coisas exteriores do que à fonte de si mesmo.

São João da Cruz dirige-se particularmente aos que estão dispostos a abdicar dos seus desejos e vontades. Para ele, o caminho constitui-se por três níveis diferentes:
1- Os principiantes (a via purgativa, os primeiros sinais de Deus);
2- Os aproveitados/contemplativos (a via iluminativa, começam a haver "notícias" de Deus;
3- Os perfeitos (a via unitiva, atingem um grau avançado na união com a divindade).

Neste caminho o homem tem de passar por duas "noites escuras": uma dos sentidos e uma do espírito, ambas compreendendo uma fase ativa (conduzida pelo próprio) e uma fase passiva (conduzida por Deus). Para passar pelas "noites escuras" é necessário um sentimento de fé, de confiança no caminho, pois que as vantagens não se vislumbram imediatamente.

Na fase dos sentidos tem de haver um "desapego" das coisas, se bem que isso não implique necessariamente duma abdicação dos objetos (bens). A satisfação dada por esses bens substitui um sentimento de algo mais profundo. Quanto menos coisas houver na alma (aqui equivalente a mente, consciência), mais a luz divina nela brilha.

A proposta é, portanto, em vez de acumular bens ou conhecimentos, há que se esvaziar, ficar sem nada. A santidade não tem a ver com intelectualidade, antes, é um estado de realização do ser.

Face a estas ideias, um reconhecido problema do ensino atual, é a aposta numa extrema intelectualização, no quase exclusivo desenvolvimento mental, em vez de um desenvolvimento integral. Hoje fomenta-se demasiadamente a tecnicidade e o especialismo - homens muito inteligentes, mas pouco humanos.

Deus tanto está no prazer como no sofrimento. Independentemente de se estar alegre ou triste, bem ou mal, a alma deve estar em paz para que esse sentimento de Unidade seja possível.

Carlos Rodrigues

Referência Bibliográfica:
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Faculdade de Letras da universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º semestre.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os caminhos do espírito


Mestre Eckhart – A Mística da Essência

Mestre Eckhart, tal como São Tomás de Aquino, foi discípulo de São Alberto Magno.
Foi acusado de heresia e proibido de pregar.

Para Echart a essência primordial, que tanto pode ser comum aos homens como aos deuses, não é passível de conceptualização. Toda a tentativa de conceptualização da realidade é sempre uma limitação. Os “bem aventurados” são os pobres em espírito: a “mística da essência” faz a apologia do nada querer, nada saber, nada ter.

Nada querer saber, nem de si, nem do mundo, nem de Deus. Tudo isso são entraves aquilo que já realmente se É. O mais importante é estar livre, desocupado. Ser livre de tudo, inclusivé de deus.

A partir do momento em que o homem quis alguma coisa, saiu de Si e cindiu-se. E aí, passou a haver deus, homem e mundo. Antes dessa rutura, o que verdadeiramente existe, é uma realidade primordial não diferenciada, integral.

Se nos Dominicanos, o homem chega a Deus através do intelecto, e se nos Franciscanos, o homem chega a Deus através da vontade e do amor; Mestre Eckhart afasta-se de uns e de outros e sustenta que há algo no homem que não é intelecto, nem amor. Para ele, a fonte da “grande felicidade” é a beatitude: «não há nada a vir, não há nada a esperar, não há nada a temer». O único caminho para a liberdade é a própria liberdade. Deus, estando livre de tudo, não sendo uma coisa, engloba todas as coisas. E o que se aplica a Deus, aplica-se ao homem. A alma abarca todas as coisas, pré-existe, é anterior e responsável pela criação do mundo. Ela transcende-O, está para além.

A perceção da alma é possível pela não conceptualização, pelo evitar de toda a tentativa de imaginação.

Em Eckhart, a “bem aventurança” chega com o desapego de todas as coisas materiais ou espirituais, mas igualmente de si próprio. Mas, a sua proposta não é de uma anulação do ser, pelo contrário, em vez de alguma coisa o importante é ser tudo.

“Eu já sou. Eu autocriei-me desde a eternidade. Eu sou incriado, imortal.” A existência, o ser, é o cair para fora da eternidade. É preciso voltarmos ao antes de “sermos”.

Carlos Rodrigues

Referências Bibliográficas:
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Fac. De Letras da Universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º sem.
Eckhart, Mestre, Tratados e Sermões, Edições Paulinas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os caminhos do espírito


Pseudo-Dionísio (O Aeropagita)

Nome porque é designado o autor de "Teologia Mística" (Medievalia, 10, 1996, Edição Fundação Eugénio de Almeida), texto que se calcula tenha sido escrito entre os séculos V-VI. É um discurso sobre a causa inicial de tudo, mas que desde logo nos diz que não há forma de a conhecer, dadas as limitações humanas para uma compreensão absoluta do que nos rodeia, muito embora o nosso desejo de tudo saber. Assim, como as palavras perdem o rigor Pseudo-Dionísio passa a utilizar uma linguagem metafórica e refere-se à divindade mais como treva, do que como luminosidade.

Pseudo-Dionísio é influenciado por Plotino: a experiência mística está para além do sensível e do inteligível (para lá do ver, do sentir, do falar...). Tem de se abandonar o conhecimento que é dado pelos sentidos. Ter a experiência da treva, do silêncio. No fundo, abandonar todas as formulações mentais - toda a Teologia, toda a Filosofia.

Embora situando-se na tradição cristã, em Pseudo-Dionísio chegamos a um conhecimento "não-dual" que tem paralelo nalgumas tradições orientais como, por exemplo, o Taoísmo ou o Budismo.

Com ele o que se busca é a união com a fonte primordial através de um transcender, um abandono de todas as operações sensíveis e inteligíveis, que possibilite uma relação direta com a "Fonte", onde não há espaço para que se represente seja o que for.

Na Teologia Mística para se ser assumido por "Deus" tem de se ficar "vazio", num estado de disponibilidade total. Só é possível conhecer se se suspender a busca do conhecimento. Trata-se de uma forma de conhecimento por assimilação e não através da teologia.

O místico tenta libertar-se de todas as construções do mundo para poder aceder à realidade tal como ela é. Para Pseudo-Dionísio há qualquer coisa que está antes do homem, que está para além dele... A "Causa" é totalmente transcendente, é qualquer coisa a que se pode aceder, mas que não se pode explicar. É uma experiência radicalmente individual e que, simultaneamente, transcende o próprio individual, pois que há uma anulação do próprio indivíduo... A "Causa" está livre de toda a construção humana.

Carlos Rodrigues

Referência Bibliográfica: 
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Fac. de Letras da Universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º sem.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre o fim do mundo



Deus.
Uma possibilidade como outra qualquer – parte das partes: o bem e o mal.


Ao alcance de ninguém
inefável o sentido da vida
inegável o seu valor.


Deus tem a capacidade de colocar fora de si qualquer coisa que lhe impeça a harmonia integral, a vibração precisa. Tudo o que, deste modo, fica fora de Si, que é expulso de Si, chamamos de universo. Mas, sendo que o universo é uma criação de Deus, logo é também, de certa forma, uma parte de Si; simultaneamente, intrínseca e extrínseca, imanente e transcendente.

O universo é, pois, a parte “imperfeita” de Deus. Ele que é perfeito e imperfeito. Bem e mal. Tudo e nada. Desta forma, tudo o que no universo restabeleça a vibração energética, a sua perfeita luz irradiante, volta à harmonia integral, ou seja, “ao centro” do corpo de Deus; quanto mais afastado desse Centro menor a luz que se produz, imperfeita vibração.

Dado que tempo e eternidade são coetâneos, mais cedo ou mais tarde, havemos de voltar. E será bom que voltemos depressa, tanto quanto possível. Paraíso ou Nirvana. Involuir evoluindo. Estado primordial. Também por isso estamos sempre a voltar ao que já somos, anunciado Futuro do eterno momento.


Carlos Rodrigues


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Os Caminhos do Espírito


A Tradição Cristã


Notas evangélicas, João e apócrifos

Messias (Massiah) = Christos = Ungido – Aquele que tem a consciência impregnada pelo Espírito. Cristo é o filho unigénito de Deus. Cristo, o Verbo feito carne.

A primeira mensagem de Cristo: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (de poder, riqueza, fama… de uma busca egocêntrica).
"O Reino dos Céus”, segundo Tomé, “está no interior e no exterior de vós.” Não é um reino que tenha um lugar físico, é invisível e espiritual. A definição do que é o Reino é o Aqui e Agora, aquilo que está sempre presente, reconhece-o e o que está oculto te será revelado. Designa uma realidade não dual. Tudo é sempre Um!

(Há uma dimensão intemporal de criação a que todos os místicos querem regressar. Todas as vidas são uma só.)

Se alguém se reconhecer a si mesmo, há-de reconhecer-se em Deus, de que se é parte, portanto, do Qual não se é independente. O cristão será outro Cristo. Não é alguém exterior que deve ser adorado, mas homem e Cristo devem ser Um.
A luz está em todo o homem e é simultaneamente transcendente e imanente.(Tomé, versículo 108)

(Se um homem não reconhece a fonte espiritual que há em si, o Pai, facilmente se deixará subjugar por uma série de poderes menores, políticos, sociais, etc..)

No Evangelho de Maria, apócrifo, diz-se que o discípulo preferido de Cristo era Maria Madalena. No Evangelho de Filipe, igualmente apócrifo, diz-se que Cristo e Maria Madalena se beijavam na boca.
O Cântico dos Cânticos, constituído um dos textos mais importantes da espiritualidade hebraica, celebra o amor entre homem e mulher, e Cristo retoma essa celebração. A passagem bíblica de “As Bodas de Canã”, relembra-o.

Notas Evangélicas, segundo João

Tudo pré existe no Verbo. Tudo que se passa no tempo pré-existe eternamente em Deus. Deus cria num pré-instante. No seio do Verbo tudo é uma coisa só.

O homem tem de passar por um segundo nascimento, tem de nascer do Espírito, para poder apreender o Reino de Deus. Para se viver de uma espontaneidade divinamente inspirada, de forma imprevisível, de acordo com a graça de Deus.

Cristo não vem para julgar, vem para salvar, para retribuir a dimensão integral do ser, da não fragmentação do ser.
(Salvar = íntegro, a mesma raiz etimológica de saúde. Saudade, tem uma raiz equivalente, ou seja, a qualidade daquilo que é são, pleno).

Deus é espírito e verdade, não tem lugar, nem imagem. 

João 6-53 e seguintes
“Come da minha carne e bebe do meu sangue” – assimilar o que Cristo é – “sejam um só comigo”.
A deificação pelo homem depende de Deus – é Ele quem escolhe. “Eu e Deus somos Um”, relembra Cristo aos Judeus.

João 14-2 e seguintes
“Quem crer em mim, fará o que eu faço e coisas maiores que eu”. O homem tem capacidade de se divinizar e fazer coisas grandiosas. Todo o homem é chamado à santidade, à pacificação. Cristo vem convocar o homem à perfeição.
Depois de Cristo, enviado por Deus, virá alguém que ficará connosco para sempre, o Espírito Santo, o Paracleto (Paráclito, Consolador).
(O Mestre espiritual tem de abandonar o discípulo para que este possa fazer o caminho pelos seus próprios pés.)

São Paulo, Filipensis

Valorização do sentimento de unidade total. Ser humilde, não se considerar superior aos outros. Cuidar de si e do bem dos outros.
Antes de vir ao mundo Cristo é igual a Deus, mas ao tornar-se homem não vangloria esta sua dimensão, antes esvazia-se a si mesmo, abdica da sua condição divina e assume a condição de servo. Apresenta-se como servidor dos outros. Não se considerou superior, humilhou-se, foi obediente até à morte física – desconstrução total de viver auto-centrado em si.
Aquele que abdica do poder é o que se torna mais poderoso. Os últimos serão os primeiros.

Carlos Rodrigues


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PROJETO ARCO-ÍRIS


PROJETO ARCO-ÍRIS - As Empresas do Futuro: Tradição e Inovação

Angariar linha pública de apoio financeiro, pretensamente em condições favoráveis (juro perdido?),  que possa apoiar Projetos naturalmente sustentáveis de desenvolvimento social. Eis alguns deles:

1.       . Rede de lojas/hipermercados/ centros comerciais alternativos

- produtos alimentares
- produtos e terapias naturistas
- restauração
- livraria
- vestuário

2.       . Rede de unidades hoteleiras

-alimentação vegetariana
- retiros terapêuticos
- cursos de meditação
- cursos de cozinha vegetariana

3.       . Rede de restaurantes vegetarianos

4.       . Rede de medicinas naturistas/alternativas em interação com a medicina moderna.

5.       . Rede de Escolas com pedagogias inovadoras

6.       . Centros de Investigação Científica (religião, saúde, alimentação, desporto, ecologia, lazer, política). Cursos Abertos. Formar grupos de pensamento inter-religioso e trans-religioso aberto a ateus e agnósticos.

7.       . Pensar e concretizar Projetos na área do Desporto

8.       . Apoio à edição e distribuição de livros em temas que se relacionem com o Projeto e afins; e igualmente a Projetos de Música.

9.     . Apoiar outros Projetos de Criação Artística

1.     . Comunicação Social

- Jornal Nacional
- Jornais Locais
- Televisão Cabo e Web
- Rádio


Carlos Rodrigues

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Mística Cristã



“Não se vai ao Pai senão através de mim…
...O Reino está dentro de vós."
 (Jesus)

Só se conhece depois de ter recebido o Espírito que é dado… Deus precede-nos… sem ouro não se faz ouro. Reconhecem-se vários caminhos entre os místicos cristãos:
  1. O Caminho Monástico
O Monaquismo, termo que significa viver em solidão, não é uma tradição que se inicia com o cristianismo, antes é uma tradição que se encontra em várias religiões. Os eremitas típicos de tradições orientais são disso um bom exemplo. Na Índia já antecede o Budismo.
Ascese (anacorese), jejum, abstinência sexual, clausura.
O deserto, o combate contra as tentações, as forças invisíveis, as visões, as obsessões… violentas ou aprazíveis… para fixar o Espírito Santo.
  1. O Caminho Devocional
Chegar a Deus através da busca da união amorosa. O exemplo das cantigas de amigo na poesia trovadoresca, medieval.
  1. O Caminho Intelectivo
A procura de inteligência que ultrapasse o entender vulgar… entender o que não se entende. Começa em Pseudo-Dionísio, o Aeropagita.
  1. O Caminho Volitivo
Do puro Amor. Da oração afetiva, mental. Do Espírito Santo que faz tudo em mim, do abandono de mim.

“…a verdadeira razão de ser de uma Escola Iniciática é a de preparar os humanos para a realização do Reino de Deus na terra, quer dizer, para que a fraternidade exista entre os humanos. Para fazer este trabalho não precisais de ser clarividentes nem de possuir poderes excepcionais: apenas tendes de vos tornar cada vez mais sábios, mais puros, mais generosos, mais desinteressados e mais senhores de vós próprios.” (Omraam Mikhaël Aïvanhov)

Carlos Rodrigues


domingo, 27 de maio de 2012

Neoplatonismo

Plotino (205-270) é geralmente considerado o fundador do chamado neoplatonismo, corrente que baseia os seus ensinamentos nas ideias de Platão e dos platónicos. É um dos mais influentes filósofos da Antiguidade, depois de Platão e Aristóteles.


Plotino refere-se a três instâncias constituintes do Universo: o Uno, Deus, como indivisível e, não tendo definição possível, indizível; Nous, a mente, ou a parte racional da alma; e a Alma, o elo entre o Espírito e o corpo do homem.

O Uno, na medida em que produz a vida, cria também a Alma do mundo (psyshé) que contém todas as almas.

 A alma não existe no mundo, é-lhe anterior e responsável pelo mundo em que vive. As almas ocupam-se tanto dos corpos (do mundo sensível) que se esquecem das realidades superiores. Neste sentido, a ligação da alma às realidades inferiores constitui uma perca, em si mesma.

De acordo com Platão, a partir da contemplação das belezas sensíveis e do desejo de contacto com a Unidade, a alma tem reminiscências da sua origem e a união é possível.

Plotino compara, de forma grosseira, a fusão com o Uno com a fusão dos amantes, embora o nível daquela fusão não tenha comparação possível. Para ele, o corpo não é um obstáculo para o reencontro do Uno, mas o intelecto (ciência) pode ser.

O Uno está sempre presente. Quando nos conseguimos afastar das coisas que prendem a nossa atenção, o Uno manifesta-se. É possível uma preparação espiritual para lhe aceder, mas a iniciação do discípulo não é possível através da forma escrita, só podem ser passados por via oral. Plotino, tal como Platão, não confiavam em absoluto na palavra escrita.

No entanto, a palavra e a escrita ainda são consideradas positivas, porque correspondem ao desejo desse reencontro, todavia, é necessária uma transcendência face a essa forma de expressão.

Enquanto não somos contemplados com a experiência do Uno existe uma ânsia constante de desejos.

Carlos Rodrigues


segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Budismo: conceitos importantes


 Siddharta Gautama, “O Buda”, nasceu na Índia há perto de 2600 anos. Um príncipe que estava destinado a suceder a seu pai na regência do reino.

Certo dia, ao sair do Palácio e ao deparar-se com a vida mundana, com a miséria e a pobreza, acaba por ficar muito sensibilizado com o contacto que tem com a doença, o sofrimento, a velhice e a morte. Decide, então, renunciar à vida na corte e tornar-se asceta com a pretensão de vencer esses malefícios. Só depois disso poderia regressar ao convívio dos pais, da mulher, do filho. Foi essa a regra que impôs a si próprio.

Reza a história que haveria de atingir o nirvana (libertação) quando, já depois de ter abandonado a vida de asceta, meditava debaixo de uma figueira. É, então, que são formuladas as 4 nobres verdades do Budismo:
1-     O reconhecimento do sofrimento como inerente à vida humana e como algo que é indesejável. Toda a gente procura ser feliz.
2-     Identificar a causa do sofrimento que se deve à ignorância de não conhecermos a nossa autêntica natureza.  
3-     Promover a eliminação do sofrimento. O desejo e o apego não são qualidades intrínsecas à mente e é possível libertá-la,  promovendo a sua cessação.
4-     Reconhecer a Via, o Caminho, para chegar à eliminação do sofrimento, através da conjugação de uma disciplina ética e mental.

Nem a mente, nem os objetos existem em si ou por si. Tudo o que se manifesta não existe fora das relações com o Todo, inclusive da compreensão que eu faço delas. As coisas não existem separadas umas das outras. A realidade é holística. A mente não se poderá libertar do sofrimento enquanto não perceber a realidade das coisas. Não há separação entre ser e não ser. Há que permanecer na mente, sem cindir a realidade, percecionando as coisas de acordo com essa sua natureza.

Alguns importantes conceitos budistas:
- Kleshas, movimentos mentais que causam sofrimento: ódio, avareza, arrogância, superioridade, inveja e ciúme.
- Nirvana, estado onde se deixa de experimentar o sofrimento, porque se deixou de experienciar as suas causas. O fim da crença ilusória da existência do “eu”. A sensibilidade alarga-se para lá das emoções individuais. A iluminação, sendo pré-existente, é mais o reconhecimento de algo que nos precede.
- Todas as coisas são impermanentes e interdependentes.
-Todas as emoções que resultam da ausência de sabedoria são dolorosas.
-Todas as coisas têm ausência de existência (vacuidade).
- Compaixão e Sabedoria juntas são a verdadeira fonte de libertação no Budismo.
- Meditação, controle do fluxo contínuo de pensamentos e de emoções, de forma a desenvolver uma atenção calma unidirecionada.
- “Buda”, iluminação, estado natural da mente livre de todas as emoções e de todos os conceitos. A natureza de “Buda” é vazia, luminosa e compassiva.

"Abençoada seja toda a pacificação das palavras e das coisas."

Carlos Rodrigues

sexta-feira, 23 de março de 2012

Lao-Tse, Tao Te King, séc. III(a.C.) – o Taoísmo

Contrariamente ao que se pensou durante muito tempo Lao-Tse, ou Lao-Tzu, não foi o fundador do Taoísmo. Hoje considera-se que foi Chuang Tzu (séc. VI a.C.).

Lao-Tse, é um dos grandes filósofos da China Antiga que nos deixou o Tao Te King, um dos livros mais importantes do pensamento tradicional chinês.

Tao Te King, o Livro da Via e da Virtude:
Etimologicamente, Tao – Vida; Te – Energia; King – Virtude.

Tao, o princípio original de todas as coisas, a essência das coisas.

Texto aforístico com grande economia de palavras, onde com pouco diz-se muito; onde se crê que o dito e o não dito são absolutamente inseparáveis. “O silêncio é um amigo que nunca trai.”

Remete-nos para uma busca pessoal que só pode ser feita por cada um de nós.

O Tao exige outro género de coisas que não só a discussão, o intelecto, a discursividade mental. Nomear por palavras introduz barreiras e Ele é inominável. As palavras não podem explicar mais que uma parte do Tao. A consciência dual é muito limitada na explicação do real.

O Tao quando se nomeia é sugerido como a mãe de todas as coisas. Há uma valorização do feminino, uma matricialidade.

O Tao não tem objetivos particulares. Tudo fluí, tudo é governado sem desígnio. Procurar é perder. Tentarmos encontrar sentido é perder. Tudo já é. Sempre sem desejo devemos estar se o seu mistério queremos encontrar. Somos nascidos no tempo certo.

A eficácia da naturalidade. Tudo acontece quando tem de acontecer. A plenitude só se dá a quem se esvazie a si próprio. Quanto mais vazio mais criador. Quanto mais livres e desocupados maiores possibilidades de eficiência.

O estar livre permite encontrar a harmonia do mundo, um estado salutar (o equilíbrio Yin-Yang) – um movimento contínuo de expansão/recolhimento.

É uma arte de viver baseada numa economia de recursos: só age quem não está interessado em agir; só pensa aquele que não está interessado em pensar; só é feliz aquele que não está preocupado com a felicidade. Não acrescentar nada aquilo que já somos.

O sábio não se põe em bicos de pés. Aqueles que se elevam a si próprios acabam sempre por cair. O sábio é como a água, corre sempre a via que tem de correr. Ele não se preocupa consigo e, todavia, é o que ocupa o lugar mais proeminente. O sábio, no Tao, é comparado à criança.

“É a aprendizagem do desaprender…”, tomando uma expressão de Fernando Pessoa.

O céu trata tudo e todos de uma forma indiferente, mas benéfica.

De acordo com o Tao:
Aquele que mais tem é aquele que mais se despoja;
Aquele que mais tem é o que mais dá;
Aquele que mais se despoja não pode ter menos que o infinito.

Carlos Rodrigues

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Alguns conceitos importantes do Hinduísmo


Hinduísmo é o desenvolvimento até aos nossos dias de uma tradição religiosa, sistema magnífico de crenças e tradições, que advém da interpretação de textos sagrados da Índia.

Chama-se de Brahmanismo às práticas rituais religiosas mais antigas feitas na Índia por sacerdotes brahmanes. Há que cumprir os ritos para atingir a dimensãos dos deuses.

Dharma, aquilo de que depende a ordem do mundo. A prática correta dos rituais é fundamental para manter a ordem no mundo, tal como é a sua forma original.

Brahman, a unidade primordial e o fim último. “Tu estás em tudo e em todo o lado”.  As “Upanishads” falam duma realidade primordial que não tem separação. O ser Uno, sem dualidade, o que a tudo integra, onde não há divisão entre os homens e os deuses. A palavra chave das “Upanishads”: “tu és aquilo que para além do qual nada mais há”. O uno primordial é anterior aos deuses.

Não confundir com Trimurti – Brahma, Vishnu, Shiva – tríade em que se expressa a divindade:
- Brahma, o criador, o que está antes de tudo;
- Visnhu, aquele que mantém, conserva;
- Shiva, representa a destruição, o regresso à unidade primordial.

Atman, o respirar que liga qualquer um à unidade primordial.

Entre as 4 grandes idades do mundo, atravessamos o período de maior decadência, o período em que, metaforicamente, a “vaca sagrada” está assente apenas numa pata.

Samsara, roda da vida que gira sem parar. Enquanto a existência estiver condicionada, o ciclo de renascimento/morte perdurará.

Karma, designa a cada momento a ação condicionada pelas ações do passado e com consequências posteriores. É condicionado e condicionante. A sabedoria permite cessar a ignorância, ou seja, a produção kármica. Toda a experiência de dualidade, “eu sou um, tu és outro” produz o ciclo kármico.

Cinco fatores que fazem o ser entrar no ciclo do samsara: ignorância, orgulho do eu, aversão à dor, perturbação/aflição e medo da morte/apego à vida.

Mumuksha, o desejo de libertação. “Tat tvam asi”, a chave da libertação.
O Yoga é o contínuo exercício que permite pôr fim ao karma. À cessação dos movimentos mentais – evitar o pensamento, o deixar sair para fora de nós. A procura de um êxtase, de consciência unificada. O Yoga deve levar-nos ao ponto zero da manifestação, a um processo de involução. Ser senhor dos próprios pensamentos, de pensar só quando é necessário.

Jivanmukta, aquele que se liberta da vida, que transcende os próprios deuses.

Carlos Rodrigues

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A MÍSTICA

O pensamento místico, ou simplesmente, a mística, desenvolve-se no interior da tradição cristã, mas a sua origem remonta à cultura grega e deriva dos Mistérios Gregos. Os mais famosos são os Mistérios de Eleusis e quem lhes acedia passava por uma experiência iniciática (Mystés=Iniciados).

Os que passavam por essas experiências não comentavam posteriormente com os profanos. Até porque as experiências não eram traduzíveis por palavras. A regra de ouro era o Silêncio (a boca, os olhos e os ouvidos fechados). Quando se suspende os sentidos e o intelecto fica-se com uma maior capacidade de presenciar Deus.

Os textos sagrados são passíveis de diferentes interpretações e que vão servindo a cada um conforme o seu estado evolutivo.

Segundo Juan Martin Velasco pode definir-se o fenómeno místico da seguinte maneira:

- Uma experiência totalizadora e integrante, diferente da consciência comum cuja forma de conhecimento fragmenta a realidade.

- Uma experiência recebida, inesperada. O sujeito, de forma passiva, é surpreendido pela experiência.

- Imediatez. Experiência intuitiva, sem mediadores.

- Experiência fruitiva. A grande beatitude, o grande gozo. A linguagem mística é equivalente à linguagem amorosa. Uma consciência de vida eterna, aqui e agora. Não vale a pena esperar nada, tudo é para já.

- Simplicidade. Singeleza. Uma experiência que não exige nada do sujeito senão a sua disponibilidade, simplicidade. Se não estamos a vivenciar sempre a experiência mística é porque estamos a substitui-la pelas nossas.

- É inefável. Após a experiência não se pode verbalizar. É uma luz muito mais intensa do que aquela que pode ser dada pelas palavras. É uma experiência não verbalizável e convida a um discurso mais poético, mais criativo.

- Uma experiência, por um lado, extremamente evidente, por outro, extremamente obscura. Junta os paradoxos lógicos. O inexplicável - “não sei o que é, mas é isso que eu quero”. O egocentrismo desaparece. Tudo está ligado. O serviço faz mais sentido.

Carlos Rodrigues

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os Caminhos do Espírito


“Os óculos são uma prova de que nós não fomos feitos para ler”. (Leonel Limão)

 A manifestação do Espírito em nós é pessoal e interior. Para a sua manifestação é preciso uma libertação de todas as vãs distrações, solicitações, a tudo o que nos prende. É necessária uma disponibilização absoluta.

A experiência com o Espírito é uma experiência de unificação. Deixa de haver separação alguma, por exemplo, entre corpo e alma. A experiência da plenitude é tudo o que o Homem mais deseja.

O Espírito é aquilo que nos abre para o ilimitado, para o absoluto, o infinito, a eternidade.

Sínteses de experiências místicas:
- O real é holístico;
- Tudo é simultâneo, tudo está aí. O espaço e o tempo, medidos, são separações feitas pelo Homem;
- A eternidade, a maravilha é aqui. Tudo está dado. É agora e é sempre agora. A evidência é que estar aqui é estar dentro do coração da totalidade.

As religiões são veículos para que a experiência da plenitude se possa concretizar.
Religião=relicare=religar: Aspiração humana à ligação com o divino.

Os exercícios espirituais têm como objetivo (re)trazer a consciência à não dispersão, ao centro, à perceção dessa realidade Una. A necessidade de recolhimento tende a evitar aquilo que mais nos prende: o prazer (desejo) e o medo. É necessária uma disponibilidade total.

Sentimento de compaixão, o devido sentimento de todos pela felicidade de todos, sem exceção.
Ascese, etimologicamente, exercício contínuo.
Mística, unificação com a divindade (o real absoluto).
O exercício contínuo visa tornar-nos melhores.

Eventualmente, não podemos sempre presenciar a experiência pura, mas temos a ideia de que ela existe.

Religioso ou ateu, em ambos pode haver lugar para a afirmação da alma, ou do espírito. Ambos são caminhos que podem permitir o desenvolvimento espiritual.

Em suma, a beatitude, a salvação, não são só para depois. Podem ser para já. E não é preciso ser religioso, pode ser ateu.

Carlos Rodrigues