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quarta-feira, 16 de março de 2016

Antero de Quental. Hino à Razão. Soneto.


Pedro Teixeira da Mota

Os Sonetos completos de Antero de Quental, prefaciados por Oliveira Martins, sairam em terceira edição no ano de 1918, no Porto, na Companhia Portuguesa Editora, e tendo há poucas horas adquirido um exemplar na livraria alfarrabista do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim, partilho o exemplar pois não é vulgar nesta edição encadernada em "pano de chita", que não  vem dos místicos e corajosos Shias ou Shitas da Pérsia e do Iraque (sobretudo) mas do sânscrito chitra, tecido de algodão, e que em Portugal foi bastante estampado na zona de Alcobaça, não por acaso a terra natal do pai Trindade, Tarcísio, poeta e sábio bibliófilo, para além de municipe ilustre e filantropo de Alcobaça que, embora já nos mundo subtis, tem no seu filho Bernardo um digno continuador e com os irmãos e primos todos dedicados às artes, antiguidades e livros.
Este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar várias assinaturas, carimbos e ex-libris de posse de antigos usufrutuários que se abeiraram do Logos servido por Antero neste belo cálice, que ostenta agora também, embora a lápis, a pertença desta Hora: "Antero de Quental, escritor." 
Ora o ex-libris,  criado para o último dono Carlos J. Vieira, é bastante simbólico, e nele mencionarei apenas o oceano, a montanha que se ergue para o Sol e, no mais alto, a vieira ou concha das bênçãos divinas para os peregrinos da Verdade, certamente bem apropriado também para um livro de Antero.
Aníbal Antunes Graça terá sido o seu 2º possuidor, o que fez a encadernação que ostenta ainda o seu carimbo, tendo o senão de ter riscado no frontispício o nome do anterior possuidor, que fica assim privado da imortalização internética...
Apresentamos, depois destes pormenores bibliófilos, um soneto, dos mais belos e luminosos, um daqueles em que Antero aspira mais ao alto, à luz da Razão e confia nela, o Hino à Razão.
Posto como sendo o último da série de 1864 a 1874 deveremos destacar e invocar em nós o que Antero conjura ou apura em si: alma livre e a nada submissa senão à Razão, certamente um ideal pelo qual devemos lutar, pois ora pelos instintos, emoções ou pensamentos incorrectos afastamo-nos do que seria o Verdadeiro, o Logos, e utilizamos estas palavras para não usarmos Racional ou Lógico, hoje no séc. XXI bastante mais contextualizadas e diminuídas das suas posições de dominação na psique humana, que é bem mais vista como unificadora dos contrários ou supra racional e supramental. Aliás com isto está intimamente ligado o que entendeu por Razão Antero,  e o que nós hoje poderemos compreender melhor, nomeadamente as formas de sinonimizar e analogizar.
Para tal tarefa de construção já Antero carreou duas  colunas suas irmãs, o Amor e a Justiça.
Esta Razão é então uma com o Amor e a Justiça, é Divina, e é para ela que Antero ergue a voz do coração, ou seja a sua prece, mostrando-nos assim que a oração deve brotar do íntimo do peito, do coração, da nossa essência amorosa, consciencial, espiritual...
O que faz o coração e que o tinge e caracteriza? Deseja, apetece, aspira, ama, sonha, quer?
Antero fez a sua escolha, por rima ou por opção consciente não sabemos.
Intui ou acredita sim que a Razão Universal tudo penetra, qual Logos Divino omnipresente e é mãe dos que robustamente lutam por ela...
Oiçamos então Antero, fortificando-nos na nossa consagração ao Logos, à Verdade, isto é, à palavra, pensamento, sentimento e acto justo, harmonioso e que segundo Antero originam ou fazem que a virtude prevaleça e o heroísmo floresça...

Pano ou chitra que também podia ser do Japão, Sakura, Sakuraicho go ichi e.... e onde cabe ou palpita nossa comunhão com Antero e a  Divindade tanto em nosso coração e prece quão mnipresente e nos robustecendo no florescer em Amor, Justiça e Verdade...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Filosofia e Saudade

7. Antero de Quental (1842-1890)

7.1. A Ideia de Deus em Antero

Há um Deus misterioso que só parcelarmente se revela a quem o quer estudar:
Sócrates - Dentro do homem está um Deus desconhecido
Cristo - Dentro do homem está o Reino dos Céus
Lutero - Dentro do homem está Deus. O Homem é um Deus que se ignora.
Robespierre - Revelação de Deus através de valores humanistas.
Hegel - Revelação de Deus através da ideia.
Moisés, Maomé, Cristo - Profetas que revelam Deus, mas todos revelam apenas um aspecto parcelar do Absoluto

O homem, ele próprio, está mais perto do divino do que as formas através das quais O representa. Em vez de procurar Deus nos céus, o homem deve procurá-lo no seu interior.

A Existência humana é privilegiada porque é nela que mais se manifesta a essência divina. A Saudade é uma aspiração a uma relação mais plena com o deus desconhecido que cada um trás em si.

No fundo da consciência está aquilo que procuramos fora. Dormitando, em movimento mudo, mas murmurando sempre. Jeová, Brama, Sabaoth, Alá, Cristo. O homem não deseja mais do que aquilo que já há em si.

A santificação é a plena realização do indivíduo. É um Deus que se revela permanentemente, como se fosse um progresso constante, sem que nunca mais esse progresso acabe. O homem como o descobridor dos mundos encobertos do espírito.

As revoluções, os cultos, os mitos, tudo são apenas manifestações do princípio interior essencial. Civilizações e Impérios se fazem para sermos Homem um pouco mais.

in, Antero de Quental, Filosofia, Univ. dos Açores: Editorial Comunicação.


7.2. O materialismo idealista de Antero de Quental

A Filosofia é eterna, tal como o pensamento humano. Uma potência infinita e um acto limitado.

Divino e real ao mesmo tempo, o Universo manifesta a si próprio a sua essência prodigiosa, desde as forças elementares e puramente mecânicas, ao instinto que sonha, à inteligência que observa e compara, à razão que ordena, ao sentimento que fecunda, até à contemplação e virtude dos sábios e santos.

O acesso à libertação é atingido por um esforço de santificação. Do investimento que cada homem individual fizer depende a sua evolução. O animal evolui necessariamente, mas o homem pode regredir.

A união da alma com Deus é, simplesmente, a chegada do eu à sua plena realização.

in, Antero de Quental, As Tendências Gerais da Filosofia na 2ª metade do século XIX.

Luis Santos

(Referência Bibliográfica: Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009)