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terça-feira, 8 de setembro de 2020

A Religião na Grécia Antiga

Com a chegada ao fim do doutoramento, a especialização obtida nos estudos sobre as civilizações clássicas contribuiu para que Agostinho da Silva publicasse vários textos, entre eles, “Um Breve Ensaio sobre Pérsio”, em 1929, e “A Religião Grega”, em 1930, onde reflete sobre o pensamento religioso grego e latino.

Neste estudo sobre “Pérsio”, o que se releva é como o choque entre diferentes culturas e religiões como a romana e a grega, ambas aglutinadas pelo vasto Império, põem na sua pena uma valorização da cultura grega face à cultura romana. Se militarmente os gregos foram assimilados pelos romanos, de certa forma, os romanos foram conquistados pelas ideias gregas, sobretudo por particularidades ligadas ao seu pensamento religioso, mas também como consequência do avanço que a filosofia e a ciência tiveram na cultura helénica.

O antropomorfismo divino ligado a uma existência em que deuses e homens se misturam, e onde se exaltam as paixões humanas, é uma das características da religião grega. Ao poder do amor entre Zeus e Afrodite, o deus supremo que é a terra e o céu, e todas as coisas, e o que há acima de todas as coisas, e a deusa suprema que é o expoente máximo da beleza, da graça, da elegância feminina e promove a incessante renovação do mundo, vêm juntar-se uma infinidade de deuses e deusas que constituem o panteão grego.

O que Platão buscava no Mundo das Ideias, o ideal de Beleza e de Bem, a defesa da imortalidade da alma, a perfeição do funcionamento da Cidade são conceitos que bem retratam o apogeu da civilização grega por volta do séc. V a.C.

Cumprindo as linhas da arte grega, cada templo é ao mesmo tempo um lugar de Amor e de Beleza. Arte e teologia de mãos dadas.

Na Grécia Antiga, o culto das divindades era igualmente feito pela coletividade inteira por meio das grandes festas e jogos, onde artes e competições desportivas serviam para um aperfeiçoamento de técnicas do corpo e da alma que propiciavam uma aproximação à glória divina. Os jogos na cidade de Olímpia (o início dos Jogos Olímpicos da nossa era) que reuniam todos os gregos, ou as tragédias Dionisíacas, festividades de âmbito mais local, são disso bons exemplos.

É fundamental que se estabeleça contacto com os deuses. Só através deles, com a sua capacidade de determinar o futuro, é possível ter uma vida clarividente que seja capaz de contornar a dor e trazer alegria à vida.

O contacto com os deuses é possível fazer através da adivinhação ou da profecia. É através destes processos que os deuses podem comunicar aos homens a sua vontade, ou determinarem as ações que devem ser feitas. Conforme a capacidade de respeito da vontade dos deuses, assim a vida será mais ou menos feliz.

Por isso, a consulta dos oráculos tem uma importância fundamental na vida dos gregos. A determinação do oráculo é auscultada sobre os mais variados motivos, desde problemas mais pessoais às grandes causas de Estado, desde um problema de saúde até à declaração de guerra a outra cidade, a outro povo.

Para que os homens pelo ritual pudessem contactar com as divindades haviam de ter a sua alma pura, isenta de errados comportamentos. Só através da purificação da alma, ou seja, de uma alma que irradia pura beleza é que os homens podem contactar e aceder aos favores dos deuses. E, no fundo, em que consistia esse ritual de purificação transmitido pelos próprios deuses: amor de deuses e amor aos homens. Seria respeitando simultaneamente a vida sagrada e a vida da Cidade que uma vida plena se cumpriria.

Os grandes mistérios de Elêusis, o mais elevado ato espiritual que se realizava na Grécia Antiga, um culto de iniciação às deusas ctonianas Deméter ou Perséfone, ou a Dioniso, para iniciação aos mistérios de Orfeu, possibilitavam o conhecimento da Vida para além da vida.

(Cf., SANTOS, Luís Carlos dos, Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Euedito, pp.23-30)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Budismo: conceitos importantes


 Siddharta Gautama, “O Buda”, nasceu na Índia há perto de 2600 anos. Um príncipe que estava destinado a suceder a seu pai na regência do reino.

Certo dia, ao sair do Palácio e ao deparar-se com a vida mundana, com a miséria e a pobreza, acaba por ficar muito sensibilizado com o contacto que tem com a doença, o sofrimento, a velhice e a morte. Decide, então, renunciar à vida na corte e tornar-se asceta com a pretensão de vencer esses malefícios. Só depois disso poderia regressar ao convívio dos pais, da mulher, do filho. Foi essa a regra que impôs a si próprio.

Reza a história que haveria de atingir o nirvana (libertação) quando, já depois de ter abandonado a vida de asceta, meditava debaixo de uma figueira. É, então, que são formuladas as 4 nobres verdades do Budismo:
1-     O reconhecimento do sofrimento como inerente à vida humana e como algo que é indesejável. Toda a gente procura ser feliz.
2-     Identificar a causa do sofrimento que se deve à ignorância de não conhecermos a nossa autêntica natureza.  
3-     Promover a eliminação do sofrimento. O desejo e o apego não são qualidades intrínsecas à mente e é possível libertá-la,  promovendo a sua cessação.
4-     Reconhecer a Via, o Caminho, para chegar à eliminação do sofrimento, através da conjugação de uma disciplina ética e mental.

Nem a mente, nem os objetos existem em si ou por si. Tudo o que se manifesta não existe fora das relações com o Todo, inclusive da compreensão que eu faço delas. As coisas não existem separadas umas das outras. A realidade é holística. A mente não se poderá libertar do sofrimento enquanto não perceber a realidade das coisas. Não há separação entre ser e não ser. Há que permanecer na mente, sem cindir a realidade, percecionando as coisas de acordo com essa sua natureza.

Alguns importantes conceitos budistas:
- Kleshas, movimentos mentais que causam sofrimento: ódio, avareza, arrogância, superioridade, inveja e ciúme.
- Nirvana, estado onde se deixa de experimentar o sofrimento, porque se deixou de experienciar as suas causas. O fim da crença ilusória da existência do “eu”. A sensibilidade alarga-se para lá das emoções individuais. A iluminação, sendo pré-existente, é mais o reconhecimento de algo que nos precede.
- Todas as coisas são impermanentes e interdependentes.
-Todas as emoções que resultam da ausência de sabedoria são dolorosas.
-Todas as coisas têm ausência de existência (vacuidade).
- Compaixão e Sabedoria juntas são a verdadeira fonte de libertação no Budismo.
- Meditação, controle do fluxo contínuo de pensamentos e de emoções, de forma a desenvolver uma atenção calma unidirecionada.
- “Buda”, iluminação, estado natural da mente livre de todas as emoções e de todos os conceitos. A natureza de “Buda” é vazia, luminosa e compassiva.

"Abençoada seja toda a pacificação das palavras e das coisas."

Carlos Rodrigues

sexta-feira, 23 de março de 2012

Lao-Tse, Tao Te King, séc. III(a.C.) – o Taoísmo

Contrariamente ao que se pensou durante muito tempo Lao-Tse, ou Lao-Tzu, não foi o fundador do Taoísmo. Hoje considera-se que foi Chuang Tzu (séc. VI a.C.).

Lao-Tse, é um dos grandes filósofos da China Antiga que nos deixou o Tao Te King, um dos livros mais importantes do pensamento tradicional chinês.

Tao Te King, o Livro da Via e da Virtude:
Etimologicamente, Tao – Vida; Te – Energia; King – Virtude.

Tao, o princípio original de todas as coisas, a essência das coisas.

Texto aforístico com grande economia de palavras, onde com pouco diz-se muito; onde se crê que o dito e o não dito são absolutamente inseparáveis. “O silêncio é um amigo que nunca trai.”

Remete-nos para uma busca pessoal que só pode ser feita por cada um de nós.

O Tao exige outro género de coisas que não só a discussão, o intelecto, a discursividade mental. Nomear por palavras introduz barreiras e Ele é inominável. As palavras não podem explicar mais que uma parte do Tao. A consciência dual é muito limitada na explicação do real.

O Tao quando se nomeia é sugerido como a mãe de todas as coisas. Há uma valorização do feminino, uma matricialidade.

O Tao não tem objetivos particulares. Tudo fluí, tudo é governado sem desígnio. Procurar é perder. Tentarmos encontrar sentido é perder. Tudo já é. Sempre sem desejo devemos estar se o seu mistério queremos encontrar. Somos nascidos no tempo certo.

A eficácia da naturalidade. Tudo acontece quando tem de acontecer. A plenitude só se dá a quem se esvazie a si próprio. Quanto mais vazio mais criador. Quanto mais livres e desocupados maiores possibilidades de eficiência.

O estar livre permite encontrar a harmonia do mundo, um estado salutar (o equilíbrio Yin-Yang) – um movimento contínuo de expansão/recolhimento.

É uma arte de viver baseada numa economia de recursos: só age quem não está interessado em agir; só pensa aquele que não está interessado em pensar; só é feliz aquele que não está preocupado com a felicidade. Não acrescentar nada aquilo que já somos.

O sábio não se põe em bicos de pés. Aqueles que se elevam a si próprios acabam sempre por cair. O sábio é como a água, corre sempre a via que tem de correr. Ele não se preocupa consigo e, todavia, é o que ocupa o lugar mais proeminente. O sábio, no Tao, é comparado à criança.

“É a aprendizagem do desaprender…”, tomando uma expressão de Fernando Pessoa.

O céu trata tudo e todos de uma forma indiferente, mas benéfica.

De acordo com o Tao:
Aquele que mais tem é aquele que mais se despoja;
Aquele que mais tem é o que mais dá;
Aquele que mais se despoja não pode ter menos que o infinito.

Carlos Rodrigues

sábado, 17 de março de 2012

O Largo da Graça


Religião

Deixo aqui alguns tópicos que poderão ser úteis para uma reflexão sobre o conceito:

- Quando pensamos etimologicamente em religião como re-ligação, entre o baixo e o alto, entre os homens e Deus, tudo se indicia como se tivesse existido um tempo de separação, ficando como legado a saudade (do reencontro).

-Não se deve confundir Igreja com Religião. Igrejas há muitas e Religiões também.

-Não se deve confundir Catolicismo com Cristianismo. Cristianismos há muitos - católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos…

-Não se devem, portanto, confundir algumas incongruências católicas ao longo dos tempos (inquisição, venda de indulgências, intolerância religiosa, alianças conservadoras... ), com os ensinamentos primordiais de Cristo.

-Falar de Cristianismo é uma coisa diferente de falar de outros sistemas religiosos, como o Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Taoísmo, Animismo, Budismo. (Será que se pode dizer que o Budismo é uma religião?)

-Todas as religiões são concordantes num ponto, embora se lhe refiram de maneira diferenciada: através do cumprimento de determinados princípios e de determinadas práticas é possível, digamos assim, a conquista de níveis de existência mais evoluídos, ou como se costuma dizer entre os cristãos, a salvação da alma.

Para terminar o textinho deixo umas palavras Evangelho de João que me entraram casa dentro, enquanto ia rascunhando estas palavras:

”Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»

Evangelho segundo S. João 6,44-51.



Luís Santos

quarta-feira, 3 de março de 2010

Reflectindo sobre Política, Ciência, Religião.

Abdul Cadre

O Caos informe das opiniões e fantasias individuais que condiciona e conforma todo o pensamento moderno, a que não escapam as escolas esotéricas nem o grosso dos seus seguidores, tem dois significados: anuncia que há um tempo que se está a esgotar, o que quer dizer que, simultaneamente, um outro se organiza. Como nem eu nem ninguém está separado neste tempo e neste lugar por muros intransponíveis da cidade e do mundo, também em nós habita o caos, por mais que desejemos que dele surja uma estrela dançante.
Neste momento, embaraçamo-nos com o nosso caos particular — e Caos significa desordem — e esta minha tentativa de Cosmos (que quer dizer Ordem) deve entender-se apenas como intróito ao que devia ter sido e ainda não é. Pode até chamar-se-lhe cosmética.
Considerem-se aqui vertidos os princípios e ideais humanistas dos martinistas do século passado, em especial na feliz trilogia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade e tome-se por legenda que só há uma religião: a Verdade. Assim sendo, baseemos este estudo introdutório à Teocracia e à Sinarquia, no critério da Verdade, sob três aspectos:
- Na Acção
- Na Reflexão e
- No Sentir.
Entendamos também, seguindo os ensinamentos dos filósofos humanistas por nós mais acarinhados que toda a nossa vivência neste planeta depende de três ordens sagradas do conhecimento:
- A Política
- A Ciência
- A Religião
Pensemos também que o Homem vive do que não sabe, mas tem o desejo profundo de saber por que vive, confrontando-se neste tempo e neste lugar com três estímulos de ascensão e descoberta:
- O Enigma
- O Segredo e
- O Mistério
Entenda-se o Enigma como o corolário de todos os problemas que a vivência em sociedade coloca, cuja acção se centra no governo da Polis, isto é, na POLÍTICA; entenda-se o Segredo como o conjunto de desafios que a Natureza coloca a cada um de nós e à humanidade no seu conjunto e que são reflectidos na CIÊNCIA e entenda-se o Mistério como o desafio de Deus, induzido nos sentidos que estão para além da carne, que produzem perguntas geradas na espiritualidade e respostas através da RELIGIÃO.
O ENIGMA pede o critério da Verdade na Acção, o SEGREDO pede o critério da Verdade na Reflexão e o MISTÉRIO pede o critério da Verdade no Sentir, entendido este como uma forma superior de pensar (Vide F. Pessoa), aquela que nos abre o Portal de Acesso aos três Planos da Auto-realização, que serão:
- Da Acção Mágica
- Da Intuição Poética/Profética
- Da Inteligência Pura
A Acção Mágica conduz-nos à Ciência, a Intuição Poética à Política e a Inteligência Pura à Religião. Eis que as grandes divisões do Conhecimento Humano se podem estabelecer como POLÍTICA, CIÊNCIA e RELIGIÃO.
Com todo este triangular, não se perca de vista que tudo está em tudo, nem se tomem as divisões propostas como saberes definitivos, mas apenas como codificações para simplificar algumas ideias de base. Sobretudo, não se limite o conceito POLÍTICA à profissão dos políticos no mundo moderno, nem se ergam aqui os preconceitos do falar comum, que assentam no pensamento irreflectido, quando o que pretendemos é apelar às formas reflectidas e meditadas da coluna da direita. (Ver gráfico)
Convém que se diga que o homem comum julga que age, só porque se movimenta, quando mais não faz do que reagir, sendo que a reacção embota a reflexão e acrescente-se que, ao dizermos atrás que o homem usa três estímulos de ascensão, implica que haverá também de estagnação, ou mesmo de retrocesso. Assim é, mas entenda-se que o critério do Bem prevalece, ou dito de outra forma, o mal é uma luz menor, pelo que os princípios involutivos podem ser usados, por sublimação, no sentido ascensional. Ver, por exemplo, em Fernando Pessoa a questão de vencer a carne, o mundo e o diabo, e prossigamos por onde íamos.
Sendo então que a Política é tudo o que respeita à solução do Enigma de «sermos um com todos» e que ela visa o governo da Polis, então se poderá dizer com Agostinho da Silva que tem de responder a três «esses»:
1º «esse» - o anseio do SUSTENTO
2º «esse» - o anseio de SABER
3º «esse» - o anseio de SAÚDE.