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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Livros d'África



JOAQUIM JOSÉ DURO

Quem, um dia, tenha pisado terra angolana fica preso. Não se sabe bem se por feitiço ou se por beber água do Bengo…
Foi o que aconteceu ao autor de “ANGOLA NO CORAÇÃO DE UM MINHOTO”, livro de memórias patrocinado e editado pela Câmara Municipal de Cerveira em 2004.
Joaquim José Duro nasceu em Vila Nova de Cerveira, Minho, em 1919 e, por dificuldades causadas pela morte do pai, partiu para Angola em 1937. À chegada a Luanda tinha um primo a recebe-lo: J. M. Cerqueira de Azevedo (autor do romance histórico “Jinga – Rainha de Matamba”).
Iniciou a vida profissional como aspirante do Governo Civil do Seles, foi depois funcionário do Banco de Angola em Silva Porto (Kuito, Bié) onde viria a casar e, mais tarde, foi Chefe de Posto em várias localidades: Ambuíva, Andulo, Cameia, Dala Cachibo, Calulo, Camabatela, Balombo, Benguela, Ambrizete (onde acompanhou os acontecimentos trágicos de 1961) e Baía Farta, para além de Luanda, onde exerceu diversos cargos, intermitentemente. Trabalhou também na Algodoeira Agrícola de Angola.

Com todo este corrupio, sempre “de casa às costas”, foi aprendendo a conhecer Angola, que amou (e ama) como uma segunda Pátria, espantando-se com as singularidades do povo e apercebendo-se aos poucos do enorme espaço e dos largos horizontes: “Curiosamente, o Carlos Mendes Martins foi colocado no Posto do Quissongo, também do meu Concelho; ficámos separados pela pequena distância de 120 Km, o que permitiu que nos visitássemos com frequência.”

A pequena distância de 120 Km!… 
Privou de perto com as mais variadas personagens, algumas das quais, anos mais tarde, se viriam a tornar sobejamente conhecidas.
Por exemplo, um poeta em Vila Nova de Seles: “Havia duas pessoas da cidade de Novo Redondo que nunca faltavam aos bailes de Vila Nova de Seles: o gerente do Banco de Angola, Edmundo Marques e o ajudante da farmácia dos serviços de saúde, Tomás Vieira da Cruz. (…) por brincadeira fazíamos poemas ao desafio. Mas, Vieira da Cruz, sempre nos surpreendia com a sua veia poética. (…) Num desses serões escreveu o belo soneto, que mais tarde em concurso realizado em Lisboa, o consagrou Príncipe dos poetas portugueses. Começava assim esse lindo soneto:
Batem palmas, as palmas das palmeiras…

Ou, noutra ocasião, um pintor na Quibala: “(…) Seguimos depois para o posto administrativo da Sanga, onde o Aníbal desejava ver umas lavras de algodão e acabámos por dormir na casa do Chefe do Posto, Neves e Sousa. (…) como não tinha visto ainda o filho do casal, perguntou por ele, e a mãe informou que devia estar a acabar o seu último desenho. Era um rapaz, talvez de uns oito anos. (…) sem dúvida um artista e de tal maneira que, passados alguns anos, deu lugar ao grande pintor angolano Neves e Sousa.”

Regressou a Portugal em 1974. Os filhos ficaram em Angola, por considerar como sua aquela terra, visto lá terem nascido. Mas, com o agravamento da situação, um a um, vieram juntar-se aos pais. O último, vítima de um tiro na barriga alegadamente acidental, desembarcou em Portugal com apenas 30 quilos de peso…
Fica aqui por descrever a imensa saudade do autor pelas gentes e terras angolanas, um sentimento comum a todos os que de lá partiram, daquela África “de onde nunca se regressa”...


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Livros d'África




JOÃO TEIXEIRA DE VASCONCELOS (1882 – 1964, Amarante)

“O Dr. Jaime de Morais, empenhado na ocupação do distrito do Congo, encarregou-me, no ano de 1914, pouco depois de rebentar a guerra, de montar o pôsto de Sacandica, sob o paralelo vinte e dois, junto à fronteira belga.”

Este é o primeiro parágrafo de um extraordinário livro (que já justificava uma reedição) sobre as memórias angolanas de um dos cinco irmãos nascidos na Quinta de Pascoaes em Amarante (casa cujo nome foi adoptado para pseudónimo literário do irmão mais velho, o poeta Teixeira de Pascoaes), intitulado “MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR DE ELEFANTES”, publicado em 1924 pelas Edições Maranus.

A sua ida para Angola deve-se ao espírito irrequieto e brigão que o caracterizava. Por não concordar com as praxes estudantis, quando entrou para a Faculdade de Direito em Coimbra, agarrou num pau e abriu a cabeça a onze estudantes. Como resultado foi parar à cadeia. O seu avô, governador da cidade, castigou-o enviando-o para África, para uma plantação de borracha de uma companhia inglesa em Angola, para que “refrescasse as ideias”. Tinha 19 anos de idade.

Foi quando se instalou em Sacandica “junto ao rio Cuilo, uma região de morros, (…) húmida e fértil, onde predominam as grandes florestas” que se tornou caçador de elefantes. “Seduziu-me sempre a vida aventureira, as longas divagações através da selva africana, onde o perigo e o imprevisto exercem sobre nós uma força de atracção à qual se não resiste. Não há como a caça para se poder viver em África uma vida de grandes sensações.”

Regressou a Portugal oito anos depois por causa da morte do pai. Casou-se nessa altura deixando a esposa grávida para regressar a África, para reencontrar aqueles “silêncios lisos como uma planície”.

A sedução por África, “local de onde nunca se regressa” como um dia alguém tão bem escreveu, reflecte-se empolgadamente em todo o livro:
“Depois de marchas demoradas na floresta, a impressão que sentimos, ao entrar nas planícies, é de alívio, luz e liberdade. A floresta, húmida, morna, escura e asfixiante, enerva e deprime; a planície, descoberta e luminosa, alegra e tonifica. Na planície, respiramos livremente e o sol tem uma claridade deslumbradora. Mas o agradável da vida na planície é efémero, como todas as coisas boas. O sol já nos queima com uma insistência dolorosa. Começamos a ter sede e começa a faltar-nos a água. Correm-se léguas e léguas até se encontrar um rio, sempre através de carreirinhos fechados dum lado e do outro, onde o ar é parado e quente. Voltamos a sentir saudades da floresta. Em parte nenhuma como em África, só estamos bem onde não estamos, o que tanto facilita a vida errante e aventureira. É um bom remédio contra a inércia provocada pelo calor húmido que nos deprime.
(…) Como são agradáveis os primeiros minutos da manhã, nas planícies africanas! O ar é leve, respira-se bem e acaricia-nos uma impressão deliciosa de frescura. Mas tudo isto é um momento, porque o sol não se faz esperar; já expele os seus raios ardentes por toda a extensão indefinida: - capim e sempre capim, formando um tapete imenso até aos recortes verde negros das montanhas do Congo belga.”

De regresso a Portugal, aqui se deixou morrer embalado pela saudade de África. Não é fácil descrever o amor que se sente por uma terra, por um local, mas este Autor consegue-o muito bem!


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Livros d'África




WANDA RAMOS (1948 – 1998)



Esta escritora já não está fisicamente entre nós: deixou-nos em 1998. Nasceu no Dundo, província da Lunda Sul, em 1948. Filha de um funcionário da Diamang, por lá passou a infância. Depois de fazer o exame de admissão, em Malanje, viajou para Portugal onde frequentou os estudos secundários e universitários. Licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1982 e 1984 pertenceu aos corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.

No início da década de 70 voltou a Angola acompanhando o marido, destacado em comissão militar. Foi então que aproveitou a experiência para recuperar as memórias da sua infância angolana. O resultado foi a publicação de um belíssimo livro a que chamou “PERCURSOS – DO LUACHIMO AO LUENA” publicado pela Editorial Presença. Com este trabalho ganhou o Prémio de Ficção da APE, em 1980. Em 1995 foi-lhe atribuído o Prémio Literário Cidade de Almada pela obra “Litoral (Ara Solis)”, publicado em 1991.

Em “Percursos – do Luachimo ao Luena”, uma obra a todos os títulos notável, ficam dorida e claramente expressas as relações humanas orientadas por um regime opressor e discriminatório. Porém, este livro, dada a sua grande riqueza e complexidade, não se consegue resumir: tem que ser avaliado no todo. DEVE ser lido e não apenas comentado. Para o comprovar extraí o que segue, onde, em tão poucas linhas, é dito tanto…

“(…) Primeira reminiscência
Vai ‘gora no mato, sinhora. Seu matumbo, vai no mato fazer o quê? Vai ver família, mulher lá, no mussôco. Tem ainda os minino, tirar saudade dele. Vai mas vem logo, tem serviço pra fazer, tem hoje visita.

Enchia-se amiúde o quintal de mulheres, traziam com elas os monas, panos garridos enrolados no corpo, carapinha basta, entrançada, ou tão-só sulcada a deixar ver o couro cabeludo esbranquiçado por entre os tufos densos e escuros, traziam também galinhas ou os ovos das galinhas delas para vender, vinham ver os homens delas: acocoradas no quintal, perto de alguma papaeira bem alta. Ladrava-lhes o cão-Ling, corria-lhes atrás, trepavam então de medo árvore acima. De chão de cimento encarnado, era grande a casa, varanda corrida a toda a frente, alpendre atrás. Havia o jardim, canas floríferas da altura de homem, floxes, petúnias, bocas-de-lobo, sécias. As que mais gostava. Regado tudo à tardinha, descido o sol de mil ardências sobre o sossego à hora crescendo, já quase noite, gostava então de ver o jardineiro ensopar a terra de água – sendo à vezes a mãe que o fazia. Ousou algumas vezes ainda pedir a mangueira, sempre lha recusaram, pequena que és, sabes lá tu como se rega um jardim, melhor era se fosses fazer os deveres e, além disso, dar confiança ao preto, pôr-se ele para aí a mangonhar.

Os deveres da escola: tabuada muito de cor, a geografia desse continente longínquo onde como podia lembrar-se de ter estado? – fora no puto não tinha ainda um ano, voltou tão-logo que não deu para conhecer. Só sabia dali, chuvadas torrenciais e a terra muito cheirosa depois delas, assustadoras trovoadas com os musseques a arder, as queimadas acarretando farripas de cinza e emporcalhando as cortinas, preciso era fechar as janelas todas; ou então, as imaginadas serpentes no cocuruto das mangueiras, soltavam-se sobre as pessoas para as matar, dizia-se. Geografia de um continente longínquo de cor, as serras todas, os rios de seguida, os caminhos-de-ferro sem hesitações, as províncias uma a uma. E os inúteis brinquedos que de lá vinham, mandados pela tia beata e solteirona, os avós, portadores de mundo desfasado, necessariamente mitificado nos servicinhos de plástico às florinhas, nas panelinhas de alumínio, nalgum tecido de mais rica textura ou estampado. Supostamente mais à moda, vestir a menina de folhos, organzas e cambraias por entre os calores e poeiradas africanas, laçarotes no cabelo, fitinhas de cetim – pois não era frustrante vesti-la somente com os tecidos de lá, tobralco, róbia, algum escasso pano importado das américas, que o outro mais ordinário empilhado nas prateleiras do único armazém era coisa para pretas porem à roda do corpo, e não havia ali diversidades nem concorrência? (…)”

Alguns de nós se recordarão destas infâncias…


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Livros d'África




PEDRO FÉLIX MACHADO (1860, Luanda – 1907, Lisboa)


Com a obra “SCENAS D’ÁFRICA. ?  ROMANCE ÍNTIMO” este autor, advogado, nascido em Luanda, filho de pai açoriano e de mãe angolana, foi um dos precursores da Literatura Angolana, seguindo os passos dos seus antecessores Maia Ferreira e Cordeiro da Matta. Foi contemporâneo de Alfredo Troni, advogado português radicado em Angola, que escreveu uma das mais importantes obras da Literatura Angolana, o livro “Nga Muturi”.

Pedro Machado colaborou desde sempre nas revistas e nos jornais portugueses e angolanos com diversos artigos de opinião e também com muitos poemas. A obra que hoje trago foi publicada pela primeira vez em livro em 1892, e depois em folhetins, primeiro em Portugal na revista “Gazeta de Portugal” e mais tarde em Angola através do jornal “O Angolense” (1907-1911).

Em 2004 a Imprensa Nacional/ Casa da Moeda resolveu voltar a editar este romance. Nesta edição vem inscrito um completíssimo Prefácio do escritor angolano E. Bonavena (Nelson Pestana), sobre a bio-bibliografia de Pedro Félix Machado.

Profundo admirador de Eça de Queiroz, no excerto que aqui deixo deste autor se pode avaliar o seu estilo e a inclinação queirosiana, bem patente na minuciosa descrição dos cenários:
“(…) A habitação de Ernesto compunha-se da sala em que ele agora passeava, espaçosa, de paredes estucadas, um quarto de cama acanhado e sem janela para a rua, e uma casa interior ou varanda, comunicando por um corredor com a sala, aberta em arcarias largas, que davam para um pátio, a que se descia por uma escada de alvenaria, praticada no extremo esquerdo.

A mobília não primava pelo luxo, mas era notável pela variedade. Havia ali o sofá de assento de palhinha antigo, com passarinhos em relevo na madeira polida das costas, rigorosamente divididas em três, confraternizando com cadeiras de vime da ilha da Madeira, deselegantes e ruidosas representando o honroso papel de fauteuils, mesas de pé-de-galo, étagères modernas, estantes de tacula, manufactura indígena, contendo larga cópia de romances, alguns tratados elementares de ciências naturais, em escandalosa promiscuidade com livros muito modernos em encadernações de luxo.

Pelas paredes, algumas oleografias tentando representar mulheres bonitas de cabelos azuis e faces cor de laranja, no centro um candeeiro de petróleo, de suspensão, com pretensões a lustre, e um largo espelho sobre o sofá.

No quarto, um largo leito à francesa, de madeira polida, duas ou três cadeiras austríacas, mesa-de-cabeceira com pedra, e um toucador-cómoda muito vulgar em cuja pedra se ostentavam alguns vidros de essências e um velador de abat-jour verde.

Na varanda uma grande mesa de pinho, cadeiras austríacas, cantoneiras e um candeeiro de suspensão para petróleo.

As paredes tinham – como em todas as casas de África – um aspecto herpético, devido ao salitre que nelas produz a humidade e a impureza da cal de conchas de marisco, de que exclusivamente lá se faz uso; nos tectos o vigamento ostenta-se caiado, sem revestimento algum – o que dá ao interior das casas uma aparência triste e desabrida.

Tal era a residência de Ernesto.”



Tomás Lima Coelho


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Livros d'África




MOISÉS KAMABAYA 

Nasceu em Malanje, no bairro do Ritondo, em 1937. Aí iniciou os estudos, primeiro na Missão Católica e depois no Seminário. Mas naquele tempo, para as classes não privilegiadas, terminada a 4ª classe era preciso pensar no futuro: “Meu pai foi levar-me a um colono, amigo seu, dono de uma oficina de mecânica, o Sr. Adriano, que tinha a sua oficina no Ritondo.” Ali ficou algum tempo, até se mudar para Luanda onde estudou Economia no Liceu Salvador Correia até ao 4º ano em 1971, altura em que foi preso pela PIDE e condenado a treze anos de cadeia pela sua participação na luta anticolonial. Foi um alto quadro da FNLA antes de ingressar no MPLA de que foi deputado.

Em finais de 1960 foi testemunha da revolta dos camponeses da Baixa de Kasanje contra as arbitrariedades da Cotonang, a poderosa detentora do monopólio do comércio de algodão naquela região. Ele próprio e alguns dos seus familiares foram participantes activos do movimento, estabelecendo as bases do que viria a ser a FNLA. Baseado nessa experiência escreveu “OS HERÓIS DA BAIXA DE KASANJI”, uma publicação de 2007 da Editorial Nzila, obra que dá a conhecer uma versão mais próxima dos revoltosos. Essa revolta viria a ter o seu clímax durante os bombardeamentos executados pela Força Aérea Portuguesa em Janeiro e Fevereiro de 1961 dos quais, até hoje, se desconhece o número exacto de vítimas.
“Enquanto se davam os acontecimentos trágicos na Baixa de Kasanji, na cidade de Malanje também a PIDE prendia em massa. (…) Foi nessas circunstâncias, que a 30 de Abril de 1961 fui preso, eu, meu pai, João Gaspar Kamabaya e os meus irmãos, Francisco João e Félix, levados à noite, no decorrer de uma grande rusga geral que teve lugar no Bairro da Sé, não para sermos julgados, mas sim para pura e simplesmente sermos abatidos pelo capitão Teles Grilo.
Eu, meu pai e meus irmãos fomos os únicos que escapámos nessa noite, graças à intervenção “in extremis” do Bispo D. Manuel Nunes Gabriel e do notário português Dr. José da Silva Marreiros. Este último estava perto da cadeia com os outros brancos a assistirem à matança dos ditos “terroristas” que queriam a independência.
Os restantes companheiros que nesse dia foram connosco pereceram todos. Depois seguiram-se as prisões do pai do Rosário Neto, o Sr. João Rosário, o Prof. Manuel da Cruz, o Dr. Luís João Sebastião Micolo, o Dr. João Felizardo Muvimba, os Reverendos Metodistas Job Baltazar Diogo, Major Manuel Neto, Filipe de Freitas, Geraldo Manuel Xavier, e expulsos muitos padres e missionários estrangeiros, sobretudo os americanos. Entretanto, é nessa altura que aparece um documento produzido e espalhado em Malanje, pelo Movimento de Libertação Nacional (MLN), do Dr. Micolo, que convulsionou ainda mais toda a sociedade malanjina – o célebre Manifesto de Kasanji.”

Em 1991, Moisés Kamabaya fundou a Associação Cívica Para o Desenvolvimento Económico e Socio-Cultural do Kwanza-Norte, Malanje e Kasanji (AKWAMAKA) de que é presidente.


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Livros d'África





JOÃO COUTINHO


Nasceu em 1944 no antigo Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, onde o acaso fez com que os seus pais se conhecessem depois de terem abalado de Portugal em busca de um futuro melhor. Dali partiriam para Angola onde se fixaram no Chissingui, entre o Kuito e Kamakupa, na província do Bié. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, foi professor, faz traduções e colabora na área do desporto com a RTP-Madeira.

Como todos os jovens da sua geração foi obrigado a participar na guerra colonial onde foi tomando contacto com novas gentes e novas realidades, constatando haver muitas coisas que desconhecia e que não vinham nos compêndios escolares. Foi o pretexto para que, tendo como pano de fundo a História de Angola, se decidisse a escrever um livro onde se cruzam histórias de luta e sacrifício daqueles heróis, anónimos alguns, que foram construindo a Angola que hoje conhecemos: desde Bernardino Freire de Abreu e Castro que, partindo do Brasil em 1849 com cerca de cento e sessenta pessoas, chegou a Moçâmedes para fundar uma colónia, até acompanhar o sertanejo Silva Porto (que também não tivera sorte no Brasil) nas suas viagens pelo interior de África. Depois vivemos a história de Mariana, a degredada, que se cafrealizou totalmente para conseguir sobreviver; seguimos a saga de Lazló Magyar, um húngaro quase ignorado que abriu sertões desconhecidos; relembramos o médico canadiano Walter Strangway que, na Missão da Chissamba, tanto bem fez a quem precisava sem olhar à cor da pele, ou seja, o autor desvenda-nos um grande número de episódios que fizeram parte da atribulada epopeia luso-angolana ao longo de quinhentos anos, alguns desconhecidos da grande maioria.

 São muitos os episódios que, como os que atrás referi, vêm descritos neste livro, publicado em 2005 pela Editora Ausência, intitulado “OS VERDES DO MATO NÃO ACABAM”, belíssimo título que reflecte a imagem telúrica da força regenerativa das terras africanas. Mas, sobre ele, escutemos o Autor:
“Este livro conta histórias verdadeiras e outras só imaginadas. A fronteira entre umas e outras só o leitor a poderá estabelecer. Porque são histórias de pessoas e de sofrimento, são verdadeiras. Porque são histórias de utopia, são falsas.
Mas só o currículo oculto do leitor será capaz de ver para além do que está escrito. Como sempre. Só que este pretende ser um testemunho de gerações, que vai tentar ajudar a compreender como foi possível ter acontecido a grandeza e a tragédia humana que aqui se narra. As personagens são a amálgama de muitos milhares que viveram e povoaram a geografia sacrificada de Angola. A certa altura, algumas desaparecem do livro. Não se lhes conhece o destino. Mas foi o que se passou na realidade.
A última geração teve de passar pela chamada guerra colonial ou de libertação. Nestas histórias poderão compreender um pouco mais a experiência vivida. Será também o regresso a uma realidade que alguns fizeram por esquecer. Mas não puderam. Em contrapartida os seus filhos de quase nada souberam ou sabem.
Cada um terá uma explicação para o facto.”


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Livros d'África




           JOÃO DE MELO


Professor, crítico literário e escritor, nasceu na ilha de S. Miguel, Açores, em 1949. Em 1971, mobilizado como furriel enfermeiro, embarcou para Angola de onde regressou em 1974.
Dessa experiência escreveu vários livros sendo um deles, na minha modesta opinião, talvez a melhor obra escrita por um ex-combatente das guerras de África: intitula-se “AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS” e foi publicado pelo Círculo de Leitores em 1987. 

Porque esse “pesadelo de vinte e três anos nos salpicou a todos de dor, e sangue, e vergonha”, e porque em Portugal tudo se passava lá longe e se tornava difuso, “anos mais tarde, tendo escrito sobre a guerra de um milhão e quinhentos mil homens, o furriel enfermeiro veria a multidão passar assim, deitado também nos passeios, ouvindo dizer que era mentira, aquele país jamais estivera em guerra, era tudo uma ficção de crise e os escritores eram uma espécie extinta e também sem oportunidades.”

Acontecia o 25 de Abril.
O Autor conduz a história pela voz de dois narradores: a do agressor e a do agredido, o europeu e o africano, umas vezes assim, outras vezes por ordem inversa, numa análise equidistante dos contendores. Por exemplo, o agredido:
“Todas estas miúdas coisas aconteciam era na guerra, na paz podre dos dias e do tempo que não ia mudar ainda na nossa vida tão cheia de desgraça. Preso nas tripas, no estômago, e na voz de sua revolta sempre tão calada em seus mistérios, o velho Loneque pensava o valor das horas não existia já. Tinha a sua perna inchada, onde que a pele começara estalar um pouco em toda a parte; tinha uma comichão danada, e apetecia só rasgar com as unhas, ferir até ao fundo do sangue, mesmo sem importar para nada o sofrimento que podia atrapalhar depois as noites e destruir para sempre o sono; tinha sua voz fatigada da vida, desde o princípio da alma até ao osso da escuridão, e não lembrava sequer o próprio deus esquecido na sua velhice sem família neste mundo. Falava apenas:
- Aiuê! Chatice desta guerra, num vai ter fim nunca mais.”

O livro tem dedicatória: “À memória dos que morreram em Calambata, por terrível que tenha sido vê-los matar e morrer em Angola.”
É uma obra dura, sofrida, mas essencial.

Tomás Lima Coelho



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Livros d'África



LEONOR CORREIA DE MATOS 

“Sim África”! Soa a uma declaração de amor. Sim África sem condições nem elocubrações filosóficas.” É assim que António Pinto da França, ex-embaixador de Portugal em Angola, define o conteúdo do livro intitulado “SIM ÁFRICA”, publicado em 2006 pela Editora Prefácio.

A autora, nascida em 1925 na histórica Catumbela, licenciada em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, discorre sobre inúmeros assuntos respeitantes ao contacto de quinhentos anos entre os povos angolano e português: as primeiras relações com o reino do Congo; a deslocação para Sul e a fundação de Luanda; a fixação em Benguela e a lenta penetração no Bié; a vida aventurosa do sertanejo Silva Porto; as guerras com a rainha Jinga; as viagens exploratórias de Brito Capelo, Ivens e Serpa Pinto; a passagem por Angola de Stanley e Livingstone; as epopeias de pacificação de Paiva Couceiro e João de Almeida; a influência decisiva dos missionários.

Debruça-se ainda sobre os problemas da escravatura e a sua lenta erradicação. Recorrendo a Cadornega, o incontornável, escreve a autora: “Quanto à exportação global de escravos, então a mais relevante do território, Cadornega fará as suas contas, provavelmente a necessitar de observação cuidada: “Haverá cem anos que começou a conquista destes reinos e têm ido um ano por outro despachados deste porto (Luanda) oito a dez mil cabeças de escravos, que são quase um milhão de almas, salvo melhor aritmética.” (segundo a autora, estes números não estarão totalmente correctos). Reconheça-se, no entanto, que o número de escravos exportados deverá ter sido elevado: porque na sua venda estavam interessados os senhores africanos, grandes e pequenos; porque, para os portugueses, esse se tornara um importante comércio; porque, à espera de mão-de-obra abundante e submissa, aguardava, ávido, um amplo mercado de várias nações com interesses coloniais.”
 
Analisa, também, as particularidades da língua bantu, dos povos, seus usos e costumes. Como curiosidade refira-se que, no início de cada capítulo, é colocado um provérbio ressaltando a pragmática sabedoria usada pelos africanos. Por exemplo, no capítulo dedicado aos bienos e á importância que a si mesmo atribuíam quando acompanhavam os exploradores nas viagens pelo interior, está este provérbio: “Sou pena de avestruz, não desapareço na multidão”.

Tudo isto e mais coisas exemplarmente condensadas em 113 páginas apenas.

A autora é também responsável pela tradução para português do romance “Exodus”, do escritor Leon Uris.


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Livros d'África




FRANCISCO NÓBREGA

Nasceu em Moçâmedes (Namibe), em 1935, fruto de terceira geração de naturais de Angola dos colonos madeirenses que povoaram as terras da Huíla desde finais do século XIX. Muito cedo perdeu o pai e por esse motivo viveu a infância e parte da adolescência na Humpata, nas férteis terras altas da Huíla, sob os cuidados dos avós paternos que ali geriam uma fazenda agrícola e onde também criavam gado.

Ali aprendeu a respeitar os homens, os bichos e a natureza, sob a orientação sábia do avô, “figura inesquecível. De estatura física invulgar, adaptado à vida ao ar livre, com os seus 120 quilos, de aspecto maciço, sem ser muito alto, inspirava respeito pela simples presença”, e da avó “que nasceu para ser mãe, iluminada pelas supremas qualidades de quem existe para transmitir amor e compreensão a quem a rodeia”. E com uma liberdade sadia e solta ali também aprendeu a amar os infinitos horizontes e os grandes espaços da terra angolana.

Muito jovem (14 anos) iniciou a vida profissional, e nada melhor lhe conviria para manter esse espírito de aventura e sede de descoberta do que a profissão que escolheu e que lhe assenta como uma luva: a topografia.

Da sua vasta experiência e vivência, familiar e profissional, nasceu um livro em 2001: “A NOSSA ÁFRICA – MANTA DE RETALHOS”, numa Edição de Autor.

Nele são descritos os valores da amizade e do companheirismo, tão necessários no meio dos sertões inóspitos, os episódios de caça, uma necessidade crucial para quem passa longas temporadas no mato, as dificuldades de cruzar desertos e de atravessar rios com os meios de que dispunha e dependendo apenas de si. Também se aborda a História e os caminhos que daí surgiriam para o futuro de Angola. E sempre, recorrente e presente em todo o livro, o elogio e o agradecimento à mulher, companheira e mãe dos seus filhos, que sempre o acompanhou para todo o lado.

Mas não ficou reconhecido o seu trabalho apenas em Angola, que foi forçado a abandonar em 1975, mais um entre os milhares que o foram: percorreu a Namíbia, trabalhou na Venezuela e na Arábia Saudita (sempre os infinitos horizontes) terminando a sua labuta profissional em Portugal, onde vive.

Mas, indelével no seu pensamento, ficarão para sempre os valores aprendidos nos vastos horizontes angolanos, tão bem transmitidos nesta obra e que descreve assim: “A nobreza da humildade, a beleza da modéstia e o profundo reconhecimento da nossa pequenez, essa Felicidade que alguns homens conhecem, toca-nos o mais profundo da alma quando defrontados com a Grandeza dos verdadeiros ambientes naturais… e nunca mais de nós se apaga!


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Livros d'África



José Eduardo Agualusa

Não me é fácil escolher um livro na já vasta obra deste angolano nascido no Huambo em 1960, membro da UEA – União de Escritores Angolanos, por ser um dos meus escritores angolanos preferidos. Por isso pego na sua segunda obra que, tal como a primeira, “A Conjura”, concentra a história no século dezanove, um período que me apaixona. Intitula-se “A FEIRA DOS ASSOMBRADOS” e relata o espanto e medo supersticioso dos habitantes do Dondo quando vários corpos quase decompostos ali chegaram trazidos pelas águas do rio Kwanza, talvez resultado de alguma cheia inesperada e repentina, no dia 31 de Janeiro de 1899.

Naquele tempo o Dondo já não era a terra onde se viam chegarcaravanas, quibucas que vinham de todos os sertões, carregadas de assombros e poeiras.” O Dondo era agora “apenas um sufocante morredouro de velhos, um lugar sem paradeiro no mundo, onde apenas arribam multívagos, quifumbes, homens sem nome, sem rosto e sem destino.”

Mas, com a chegada daqueles infelizes mortos trazidos pela corrente do rio, a pasmaceira da vila agitou-se e, durante algum tempo, houve assunto que se discutisse. Foi precisamente no meio daquele desastre que arribou ao Dondo o sapateiro José Maria Vieira de Carvalho, “mulato quase branco, talvez filho de Luanda ou de Benguela, mas isso nunca se chegou de saber.” O certo é que tinha uma capacidade que logo se tornou notada e requisitada: era vedor. Como disse então o Major Albérico Santoni, boticário da vila, “ele é capaz de ver com o corpo todo”. Também não tardou que o apelidassem de feiticeiro, dado o seu ar “caladiço, murmuribundo, aonde quer que chegasse parecia que a noite chegava também e por isso lhe deram o nome de Cacoco, o mocho, ave de sombras e agouros. Bêbado, transbebido, crescia-lhe a voz em abruptas revelações: dizia que as almas do purgatório estão aprisionadas dentro de esferas de vidro; falava, com fervor, na transmutação dos metais. Vaticinava desgraças e prodígios.”

É um livro soberbo, com uma escrita belíssima e cativante, apesar de pequeno (pouco menos de 80 páginas), mas que aconselho vivamente.

Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 7 de março de 2014

Livros d'África




PEPETELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) 


Este sociólogo angolano, nascido em Benguela em 1941, é um dos nomes mais destacados das letras angolanas. Em 1997 foi-lhe atribuído o Prémio Camões e em 2002, no Brasil, foi condecorado com a Ordem do Rio Branco. Recentemente foi distinguido com o Prémio Rosalía de Castro, organizado pelo Pen Clube da Galiza.

Militante activo do MPLA desde 1963, combateu na guerrilha nas matas de Cabinda cuja experiência vem relatada naquele que é o seu livro mais traduzido: “Mayombe”. Foi vice-ministro da Educação de Angola durante o governo de Agostinho Neto. Actualmente é docente de Sociologia na Faculdade de Arquitectura de Luanda.

Uma das suas obras mais interessantes, na minha opinião, intitula-se “A GLORIOSA FAMÍLIA” publicada pelo Círculo de Leitores em 1999. É uma história passada em Luanda no tempo em que esta estava ocupada pelos holandeses e os portugueses viviam refugiados em Massangano. Ali, segundo Cadornega, “assistia hum homem por nome Baltazar van Dum, Flamengo de Nação, mas de animo Portuguez que havia ido nos primeiros Arrayaes”, oportunista mercador de tudo um pouco e também de escravos. É através do olhar, pragmático e com sentido de humor, de um dos seus escravos, mudo, que acompanhamos as vicissitudes do tal Van Dum que, querendo agradar a holandeses e a portugueses, via perigar frequentemente os seus negócios e a sua vida.

“(Fevereiro de 1642) – O meu dono, Baltazar Van Dum, só sentiu os calções mijados cá fora, depois de ter sido despedido pelo director Nieulant. Mijado mas aliviado, com a cabeça de raros cabelos brancos ainda em cima dos ombros. O meu dono saiu do gabinete do director tão pálido como entrou, mas com o risinho de lado que lhe fazia tremer o bigode. Por vezes o risinho era de nervosismo, hoje era de euforia. Os dois escravos que com ele entraram no antigo Colégio dos Jesuítas já não saíram. Quem perdia era o proprietário deles, português de Massangano, que os tinha enviado com a célebre carta. O meu dono não teve tempo de ler a carta, como terá defendido junto do director. Mas ele e eu e toda a gente sabíamos o conteúdo, um pedido para indicar todas as posições defensivas dos inimigos holandeses e os efectivos de cada ponto.”

Este é o primeiro parágrafo do livro. A partir daqui a sua leitura torna-se irresistível.


Nota: os descendentes deste Baltazar Van Dum são hoje uma das famílias mais conhecidas em Angola: os Van Dúnem.


Tomás Lima Coelho


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Livros d'África



ORLANDO DE ALBUQUERQUE  (1925, Maputo – 1997, Braga) 

A melhor maneira de falar deste escritor, médico de profissão, nascido em Moçambique mas vivendo grande parte da sua vida em Angola, depois de se ter casado em Portugal com a poetisa angolana Alda Lara, é deixar-vos uma pequena crónica de sua autoria, incluída em jeito de Prefácio no livro “A CASA DO TEMPO”, um escrito de 1964 e republicado em 1995 pela APPACDM de Braga para quem revertem todos os direitos e receitas das suas obras, o que ilustra bem sobre o seu espírito solidário e defensor de causas. Cá vai ela:


A CASA DO TEMPO

Perguntaram-me porque intitulei, genericamente, estas minhas crónicas “A Casa do Tempo”, sendo elas tão pouco temporais. Parecerá estranho, mas a razão é bem simples e não tem metafísica alguma.

Quando aqui cheguei (*), passei por um edifício de construção diferente, destoando de todos os prédios em redor. Interroguei o motorista que me conduzia e ele, pura e poeticamente, respondeu-me na sua simplicidade:
- É a Casa do Tempo!...

Vim depois a saber que se tratava de um observatório metereológico. Achei bela esta designação, duma beleza que os homens de gabinete não são capazes de descobrir e que só os poetas vêm nos olhos das crianças e na boca dos motoristas de camião. Que mundo de poesia e de simbolismo encerra esta designação!... Nem toda uma descrição minuciosa, com alfas e ómegas, seria capaz de nos dar o mistério imaterial da realidade desses objectos frios e mecânicos.

Os poetas modernos descobriram poesia na frieza das máquinas. Mas a sua poesia é uma poesia geométrica, na rigidez sincronizada do aço. Brilhante e fria.

O motorista mestiço, que de máquinas mal conhece o seu camião e de letras pouco vai além do mastigar do jornal, foi mais poeta do que todos os poetas… Há mais poesia na sua designação, que em todo um livro de poemas. Há poesia e há sonho. Há simbolismo e há realidade. Uma realidade que transcende a própria realidade do palpável, para se evolar no sonho da própria poesia, que é a vida.

Foi por isto que eu escolhi esta designação para as minhas despretensiosas crónicas. Não que pretenda para elas tudo aquilo que o sonho encerra, mas apenas uma homenagem à POESIA da VIDA.


(*) O autor refere-se ao Dundo, povoação capital da Diamang na Lunda Norte.


Tomás Lima Coelho


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Livros d'África
















Ilídio do Amaral


Este autor, uma das figuras angolanas mais brilhantes no domínio da pesquisa e da história, nasceu em Luanda, em 1926. É Geógrafo, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, da qual foi Reitor, Director do Centro de Geografia do Instituto de Investigação Científica Tropical, membro da Academia de Ciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia e da Academia Portuguesa de História. Do seu vasto e rico currículo constam mais de trezentos títulos, quase todos de temática africana.
Na obra “O RIO CUANZA, DA BARRA A CAMBAMBE”, publicada em 2000 pelo I.I.C.T. – Instituto de Investigação Científica Tropical, desenvolve, para além da fauna, flora e geologia, a importância decisiva do rio Cuanza enquanto meio para a ocupação e fixação portuguesa no interior angolano, baseado nas notas de quatro cronistas seiscentistas: o ouvidor André Velho da Costa, o capitão-mor Garcia Mendes Castel-Branco, o provedor Baltasar Rebelo de Aragão e o incontornável António de Oliveira de Cadornega, que é por muitos considerado o percursor da literatura angolana.

Em relatório de 1612, André Velho da Costa relatava a existência de três importantes presídios nas margens do Cuanza: Muxima, Massangano e Cambambe. Se eles não existissemnão ousariam os mercadores negros, que vinham da Matamba, Tunda e Are e outras partes mui remotas, a resgatar ao porto de Luanda.”

Baltasar Rebelo de Aragão, chegado a Angola em 1592 e aí falecido em 1624, descreve o Cuanza como um “rio mui caudaloso e que todo o ano se navegava até à fortaleza de Cambambe.” Daí para cima não se podia passar “por respeito de grande caída de água, a qual era tão grande que do fumo e vapor que lançava para o ar se formava uma espessa neblina que se convertia em fino salitre depositado sobre os penhascos do rio.”

Garcia Mendes Castel-Branco, “um dos primeiros conquistadores de Angola”, onde viveu durante quarenta e seis anos, advogava que todos os tribunais enviassem os degredados “homens, como mulheres para Angola e não para outra parte, e que da cidade de São Paulo (Luanda) os mandassem logo para as fortalezas de Cambambe, Massangano e Muxima.”

De Cadornega ficam os relatos coloridos sobre os usos e costumes dos povos que viviam ao longo das margens do Cuanza, portugueses e filhos da terra, cultivando os seus arimos (plantações), enfrentando hipopótamos e crocodilos, e as descrições das guerras da conquista levadas a cabo pelos portugueses contra os naturais da terra e contra os holandeses, narrativas que, de tão ricas e pormenorizadas, não cabem aqui.



Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Livros d'África

Pedro Rosa Mendes 







“Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. Em Junho de 1997 aterrei em Luanda com a intenção de atingir Quelimane por terra. A razão para tal projecto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. Estas páginas são o atlas para ler essa travessia: a cartografia afectiva de uma rota cujos locais têm rosto de gente e onde espaço e tempo são as coordenadas que mais mentem.
Avisaram-me todos: a guerra permanecia nessa latitude. Houve baixas entre os companheiros de estrada.
O meu regresso também não estava prometido.”

Depois de ler esta nota introdutória quem pode ficar indiferente? O livro intitula-se “BAÍA DOS TIGRES”, foi publicado pela Editora Dom Quixote em 1999 e é um dos meus livros de cabeceira. O autor, um jornalista português nascido em 1968 em Cernache do Bonjardim, propôs-se imitar os passos dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, voltando a percorrer os caminhos por eles traçados no século XIX, que os levaram de Angola à Contracosta.
O resultado é a descrição de uma viagem preenchida com sensações fortes, onde percorremos paisagens naturais e humanas de uma intensidade cativante. Vamos assistindo horrorizados aos monstros e monstruosidades que a(s) guerra(s) gera(m). Mas vemos também as singularidades do continente africano, coisas pequenas, onde residirá aquele feitiço que agarra e prende a quem o visita:

“O comboio parou num apeadeiro, em pleno deserto, e do nada surgiram vendedores de comida. Uma rapariga anunciou, a toda a carruagem, que queria aliviar, e ajudaram-na a chegar das escadas ao chão, onde se agachou dentro duma capulana colorida. Vista de cima parecia uma ave a proteger-se do vento. Ao descer quase caiu em cima do revisor, que estava bêbedo desde manhã.
- Pode urinar aí. Mas não cai em cima de mim!
O revisor, cambaleando do lado de fora da carruagem agarrado a uma bandeirinha vermelha rota e imunda, escapou por pouco a ser regado por um rapaz que não se deu ao trabalho de sair da composição.
- E você, não urina em cima de mim! Eu lhe proíbo!”

África.

“Lembro-me de chegar à cidade e de o autocarro parar no fim dessa avenida, numa praceta quadrada de casas térreas. O autocarro cheirou a tangerina depois da Humpata. O Namibe cheirava a bolos. Havia uma padaria ao canto da praça.
- Bom dia! São vocês que estão a fazer bolos?
- Somos. Mas hoje não estamos a fazer.”

África.


É uma obra belíssima, simultaneamente dura e leve, pura literatura de viagens, que é pecado não ler.


Tomás Lima Coelho

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Livros d'África



 HERMENEGILDO CAPELO    
(1841, Palmela – 1917, Lisboa)

ROBERTO IVENS 
(1850, São Pedro – 1898, Dafundo)












“A expedição terá por principal objectivo o estudo do rio Cuango nas suas relações com o Zaire e com os territórios portugueses da costa ocidental, assim como toda a região que compreende ao Sul e a sueste as origens dos rios Zambeze e Cunene, e se prolonga ao Norte, até entrar pelas bacias hidrográficas do Cuanza e Cuango.”

Estas foram as instruções recebidas com entusiasmo por estes dois oficiais da Marinha, aos quais se juntou o major Serpa Pinto, todos com bastante experiência africana, para cumprir aquela que foi a primeira grande jornada de exploração científica em território africano cujas fronteiras estavam ainda por definir.

O orgulho patriótico que na altura rodeava este género de missões está bem patente num pequeno episódio: foi-lhes oferecida uma bandeira nacional, finamente bordada e que vinha adjectivada, numa carta endereçada por uma senhora que nunca se quis identificar (supõe-se que tenha sido a própria rainha D. Amélia), como sendo um “formoso símbolo feito das cores do céu e da memória de Jesus”, a quem foi dirigida a primeira dedicatória expressa na narrativa da viagem que publicaram em 1881, reunindo dois volumes, com o título “DE BENGUELA ÀS TERRAS DE IACA”, obra reeditada em boa hora com a chancela da Europa-América.

Depois de divergências entre Capelo e Serpa Pinto, a expedição dividiu-se, rumando este para Sul com o intuito de estudar os rios Cunene e Zambeze, continuando os outros focados no objectivo inicial: o rio Cuango. A viagem teve início em Benguela em Novembro de 1877, passando primeiro por Caconda, onde encontraram o naturalista José de Anchieta, e depois pelo Bié, onde foram recebidos por Silva Porto que lhes prestou valiosas informações; prosseguiram para Duque de Bragança, Malanje e, finalmente, Cassanje, onde obtiveram a preciosa ajuda do ambaquista (*) comerciante Narciso Paschoal. A partir daí concentraram finalmente a sua atenção na exploração dos territórios entre o Cuango e o Zaire onde “dificilmente se concebe uma disposição de terreno em que dois cursos de água, do valor do Cuango e do Congo-Zaire, correm quase paralelos e em sentidos opostos”, dos seus afluentes e dos povos que viviam nas suas margens: bangalas, holos, songos, jingas e iacas (seriam estes os descendentes directos dos jagas?).

A viagem viria a terminar em Outubro de 1879, ao fim de cerca de 5.500 quilómetros percorridos a pé (!), inevitavelmente polvilhados com inúmeros incidentes, narrados de uma forma brilhante e que podem ler-se como se de um livro de aventuras se tratasse: assistimos aos encontros com os nativos de diferentes etnias e culturas, vivemos os episódios de caça, sofremos com a fome e a sede, registamos descobertas na fauna e na flora e deslumbramo-nos com as descrições das paisagens africanas.

Anos mais tarde, entre 1884 e 1885, estes dois exploradores viriam a completar uma viagem entre as costas de Angola e Moçambique, iniciando a jornada em Moçâmedes, actual Namibe, e terminando em Quelimane. Dessa iniciativa publicaram em 1886, também em dois volumes, uma obra com o título “DE ANGOLA À CONTRACOSTA”, igualmente reeditada pela Europa-América.

Os nomes destes portugueses, entre alguns outros, quase anónimos, que os precederam, figurarão para sempre ao lado de ilustres sertanejos como Silva Porto, Livingstone, Furtado, Stanley, Lacerda, Brazza, Speke, Burton, Serpa Pinto, Baker, Cameron, Schütt, von Mechow, uma plêiade de homens de coragem que ajudaram a desbravar o portentoso continente africano.


Tomás Lima Coelho

(*) ambaquista – natural de Ambaca. Nativos que, pelos seus conhecimentos da língua portuguesa e pela adopção de vestuário, usos e costumes lusos, eram chamados de “brancos” ou “pretos calçados”.