De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Livros d'África



LEONOR CORREIA DE MATOS 

“Sim África”! Soa a uma declaração de amor. Sim África sem condições nem elocubrações filosóficas.” É assim que António Pinto da França, ex-embaixador de Portugal em Angola, define o conteúdo do livro intitulado “SIM ÁFRICA”, publicado em 2006 pela Editora Prefácio.

A autora, nascida em 1925 na histórica Catumbela, licenciada em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, discorre sobre inúmeros assuntos respeitantes ao contacto de quinhentos anos entre os povos angolano e português: as primeiras relações com o reino do Congo; a deslocação para Sul e a fundação de Luanda; a fixação em Benguela e a lenta penetração no Bié; a vida aventurosa do sertanejo Silva Porto; as guerras com a rainha Jinga; as viagens exploratórias de Brito Capelo, Ivens e Serpa Pinto; a passagem por Angola de Stanley e Livingstone; as epopeias de pacificação de Paiva Couceiro e João de Almeida; a influência decisiva dos missionários.

Debruça-se ainda sobre os problemas da escravatura e a sua lenta erradicação. Recorrendo a Cadornega, o incontornável, escreve a autora: “Quanto à exportação global de escravos, então a mais relevante do território, Cadornega fará as suas contas, provavelmente a necessitar de observação cuidada: “Haverá cem anos que começou a conquista destes reinos e têm ido um ano por outro despachados deste porto (Luanda) oito a dez mil cabeças de escravos, que são quase um milhão de almas, salvo melhor aritmética.” (segundo a autora, estes números não estarão totalmente correctos). Reconheça-se, no entanto, que o número de escravos exportados deverá ter sido elevado: porque na sua venda estavam interessados os senhores africanos, grandes e pequenos; porque, para os portugueses, esse se tornara um importante comércio; porque, à espera de mão-de-obra abundante e submissa, aguardava, ávido, um amplo mercado de várias nações com interesses coloniais.”
 
Analisa, também, as particularidades da língua bantu, dos povos, seus usos e costumes. Como curiosidade refira-se que, no início de cada capítulo, é colocado um provérbio ressaltando a pragmática sabedoria usada pelos africanos. Por exemplo, no capítulo dedicado aos bienos e á importância que a si mesmo atribuíam quando acompanhavam os exploradores nas viagens pelo interior, está este provérbio: “Sou pena de avestruz, não desapareço na multidão”.

Tudo isto e mais coisas exemplarmente condensadas em 113 páginas apenas.

A autora é também responsável pela tradução para português do romance “Exodus”, do escritor Leon Uris.


Tomás Lima Coelho

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